Latest / Surra de Lúpulo / Antropologia da Cerveja. Papo com Paula Pinto e Silva | Surra #208
Transcript
- 0:08Epa Condriaca apresenta Surra de Lúpolo Oi pessoal,
- 0:16bom dia, boa tarde, boa noite! Eu
- 0:19sou o Ludmilla, mais conhecida no Instagram,
- 0:21comem pra Condriaca! E no programa de hoje, meus
- 0:25amores, nós vamos falar sobre antropologia e
- 0:28cerveja. E vocês não imaginam como
- 0:31esses assuntos andam de mãos dadas. Nesse
- 0:34programa, estamos com Paula Pinto e Silva, que é
- 0:37cientista social, mestre, doutor e antropologia social
- 0:40pela USP e professora de antropologia e consumo na
- 0:44pós -gradação da SPM em São Paulo. A
- 0:46gente aqui, a gente aqui nos chama convidada
- 0:48Marromeno, não, cara. Aqui o negócio é pá! Porra,
- 0:52topo, topo! Antes de pedir que a nossa
- 0:56convidada dê um alô, a gente tem o prazer de
- 0:59informar que esse programa é oferecido pelos nossos
- 1:01mesenas empresariais. Cervejaria
- 1:04o Sá, Procebia e Viveiro Vando Em Berga. Agora
- 1:10sim, Paula, por favor, dá um alô pra galera conhecer
- 1:13a sua voz. Boa noite, eu adoro conversar
- 1:15com você, que você é uma carioca super entusiasmada,
- 1:19né? É ótimo! Vem
- 1:22consultar e vem com tudo. Embocionar!
- 1:24É super emocionada! Bem -vindo à Paula, muito bom
- 1:28ter ela aqui. Eu sou Leandro, mas hoje vocês
- 1:31podem me chamar do admirador da antropologia,
- 1:34aquele cara que olha com os olhinhos brilhando por
- 1:37esse tema. E, Paula, nós costumamos bater
- 1:40esse papo aqui bebéricando alguma coisa e eu queria
- 1:44saber o que você está bebendo por aí. Olha,
- 1:47Leandro, eu estou bebendo um chá de bisco geladíssimo
- 1:50que eu mesmo fiz. Num copinho de alumínio que ele
- 1:54é maravilhoso, especial pra cerveja. Muito
- 1:57bom! Mas eu bebo aqui chá gelado
- 2:00que eu acho que super combina, fica ótimo. Muito
- 2:04bom, lude, você! Então, eu vou abrir agora, eu vou
- 2:07abrir agora porque como eu gravo meu som,
- 2:10independentemente agora quem sabe sai o som, agora eu
- 2:13estou assim. Pode não aparecer pra vocês, mas
- 2:17pode aparecer pro convidado, pro ouvinte. Apareceu,
- 2:21apareceu sempre. Eu estou aqui com a minha
- 2:23queridinha, a Lago Inuitas, no copinho do Surra de
- 2:26Lúplos. Se você quiser um copo do
- 2:27Surra de Lúplos também, manda uma mensagem pra
- 2:29gente, que a gente faz o precinho pra você. E
- 2:32a Paula está bebendo um copo Stanley? Ah
- 2:35não, não! É chá no copo Stanley, meus
- 2:37amigos. Isso é que é do interior de
- 2:42Pena Búcoa, isso é aquele ditimamente brasileiro. É
- 2:45aquele copinho que toda casa tem, copinho de
- 2:48alumínio fino, sabe? Copinho de alumínio fino, que fica
- 2:50gelado. Sim, sim! Era
- 2:52isso que eu ia falar, cara, isso é muito da
- 2:54minha infância. É! Meu pai andava com copinho
- 2:56que parecia um chocalho, que além de ser de
- 2:58alumínio, ele tinha uma outra marinha dentro, assim,
- 3:01que mantinha cerveja gelada. É
- 3:03o copo Stanley da década de 80, meus amigos, década
- 3:06de 80. É o pré Stanley. É
- 3:08o pré Stanley. Meu pai bebia cerveja numa
- 3:10caneca robusta, gordinha, que com certeza eram duas
- 3:14camadas de alumínio ali. Não
- 3:16tinha tecnologia Stanley, mas tinha já duas camadas
- 3:19de alumínio. É isso. Mas
- 3:21o que a gente fala pra Stanley, Leandro? Paga
- 3:23nóis. Paga nóis, exatamente. Copos
- 3:25térmicos. É, eu acho que já devia tá,
- 3:27né? Porque a gente falou 10 vezes a
- 3:29palavra e não lá. Já falamos 10 vezes, já porra,
- 3:324 de patrocínio já estourou. E
- 3:35você, admirador da antropologia, mas que também
- 3:39de vez em quando flerta com a arqueologia e... Tem
- 3:42ciauzinhos pra descobrir caberinhas. O
- 3:45que que tá bebendo aí? Eu vou beber, que eu tava
- 3:47ansioso pra beber. Eu tinha falado, né? E
- 3:50uma das gravações que a gente fez, que eu tava
- 3:52louco pra beber a best bitter da Prússia. Ih,
- 3:55ih! E aí, vou tentar abrir aqui
- 3:58pra fazer o somzinho. Cês tão bem, hein? Ah,
- 4:03ah, ah! Eu vou bebê -la. Porque
- 4:06eu já bebi, não é a primeira vez. Eu
- 4:09tô arrependido de ter comprado pouca. Eu
- 4:11deveria ter comprado mais. E
- 4:14eu vou te falar, que esse lance da Prússia fazer
- 4:16mensalmente lançamentos mexe com o meu coração. Eu
- 4:21compro sempre umas duas de cada lançamento, mas dessa
- 4:24aqui eu devia ter comprado oito. Vão
- 4:26que vão! Bora sim, bora. Se
- 4:37você gosta do nosso conteúdo e ainda se
- 4:40identifica com a gente, apoia o surra de Luplo por
- 4:43meio do site apoia .se -surra -duplu ou comprando
- 4:48uma camiseta na nossa loja pontusurradilúpulo .com .br.
- 4:53Mecenas ganha conteúdo exclusivo
- 4:55toda semana, participa do nosso grupo de WhatsApp e
- 4:58sorteios de brindes insanos. Ah,
- 5:03mas a grana tá curta ou você ainda não ama tanto a
- 5:06gente assim. O outro jeito de ajudar é
- 5:08seguindo a gente na sua plataforma de streaming
- 5:10preferida e dando cinco estrelinhas no Spotify e no
- 5:13Apple Podcast. Lembre -se de compartilhar esse
- 5:16programa com seus amigos. Isso
- 5:17ajuda muito na distribuição dos episódios.
- 5:36Pital Paula, pra gente começar,
- 5:39eu acho que era importante como a antropologia entende
- 5:43a alimentação, pra gente dar uma base pra esse
- 5:46nosso papo. Boa. Na verdade eu acho que eu
- 5:49prefiro até começar dizendo o que é a antropologia. Eu
- 5:53acho que como você trouxe aqui, tem muita gente que
- 5:55não sabe, né? Eu brinco que quando minhas
- 5:57filhas eram pequenas eu jogava na porta da escola
- 5:59e aí as mães me perguntavam o que eu fazia,
- 6:03eu falava que era antropóloga, a mulher dava
- 6:05um passo pra trás e aí ela não sabia, se me
- 6:08cumprimentava, se dizia, teve uma que uma vez
- 6:11falou, nossa, você é a primeira antropóloga que eu
- 6:14conheço na vida e eu me senti um astronauta, me
- 6:16sentia assim a perfeita astronauta, eu falei, você
- 6:19não sabe que eu era astronauta, andava no mesmo,
- 6:21né? Eu acho que um grau de
- 6:22desconhecimento é muito grande. Então
- 6:25eu começo a falar um pouco assim, que eu acho que é
- 6:27legal também, que as pessoas entendam que
- 6:29antropologia, antropologia é uma ciência, estuda seres
- 6:31humanos e a característica da antropologia diferente da
- 6:35psicologia, por exemplo, é que ela estuda seres
- 6:37humanos em grupo, tudo que as pessoas fazem em grupo
- 6:40interessa dos antropólogos. O
- 6:42que as pessoas fazem sozinhas? Eu
- 6:43falo, o problema é seu, o problema é seu da sua
- 6:47confiança, do seu espelho, antropologia ela está
- 6:51interessada nessa repartição de valores entre pessoas.
- 6:56Então é isso que os antropólogos
- 6:57vão estudar. E o que a gente faz em
- 6:58grupo? Tudo. A vida humana é feita em
- 7:01grupo. Seres humanos existem em grupo,
- 7:04eles nascem em grupo, morrem em grupo. Significa
- 7:07falar que a gente nasce em grupo ou morre em grupo.
- 7:10Quando uma mulher fica grávida,
- 7:12embora ela está qual, ela vai conduzir a sua
- 7:15gestação, é a sua cultura particular que vai
- 7:18determinar se ela vai ter que tomar ácido fólico, ou
- 7:21se ela vai fazer jejum, ou se ela vai, sei lá, fazer
- 7:25resguardo, a cultura que vai determinar. Então
- 7:27o que a gente vai dizer é, aquele bebê já está
- 7:29sendo gestado, gerado dentro de uma cultura, já está
- 7:33sendo os valores sobre o que der um bebê, o que
- 7:36quer uma grandeza, já estão sendo partilhados. A
- 7:38mesma coisa quando a gente morre. Cada
- 7:40cultura vai dizer de que maneira você vai ter que
- 7:41ser enterrado, se você vai ter missa de sétimo dia,
- 7:44se você pode ou não ser cremado ou não, se você
- 7:47vai ser enterrado sete palmos abaixo da terra ou
- 7:50não. Então ponto um, seres humanos
- 7:51vivem em grupo, significa que a gente partilha com
- 7:55alguém, valores, esses valores a gente chama de
- 7:58cultura. E por que que eu começo
- 8:00falando isso aqui no lugar que a gente vai discutir
- 8:02cerveja? Porque do ponto de vista
- 8:04antropológico, tudo que a gente faz na vida é
- 8:08mediado por um valor de cultura. O
- 8:11ato da gente bebê cerveja ou não bebê, ou bebê no
- 8:15copinho, ou bebê de outro jeito, isso tudo é cultura.
- 8:19Então não tem como a gente
- 8:20querer, a gente não podia começar já falando de
- 8:24cerveja, sem pensar que a antropologia ela vai estudar
- 8:29porque as pessoas fazem o que elas fazem. Então
- 8:33não me interessa saber qual é a cerveja que elas
- 8:35bebem, me interessa saber por que elas bebem. E
- 8:38num determinado momento é por que bebem determinado a
- 8:42cerveja? Por que elas migram de uma
- 8:44coisa para outra? Aí vai claro, a gente não
- 8:46pode discutir a partir de um ponto de vista de
- 8:48sabor, podemos discutir a partir de um ponto de
- 8:51vista de saudabilidade, mas o antropólogo não está
- 8:55interessado nisso. O antropólogo está interessado
- 8:58em o que a gente chama de razões inconscientes pelos
- 9:02quais as pessoas fazem as suas escolhas. E
- 9:04no caso da cerveja não vai ser diferente. A
- 9:07gente vai buscar essas razões inconscientes que de
- 9:11alguma maneira vocês até vão ter que estar definindo
- 9:14conscientemente as razões pelas quais a gente deve
- 9:17buscar uma ou outra cerveja. Essa
- 9:20é a função do som L .E., essa é a função dos
- 9:23orientadores do produto. A função do antropólogo é
- 9:27dizer assim, beleza, mas eu que não consigo distinguir
- 9:30essas notas que você coloca aí, digamos, na maneira
- 9:34pela qual eu tenho que beber, eu não consigo
- 9:36distinguir se isso é de barril, se isso é de
- 9:38malte, eu não consigo. Então,
- 9:41por que eu bebo? Por que eu escolho determinados
- 9:45rótulos? Se eu não, necessariamente, eu
- 9:47não sei distinguir isso que você está dizendo. E
- 9:50aí, é que entra o antropólogo para mostrar que
- 9:53as pessoas fazem essas escolhas também buscando o
- 9:56que a gente chama de símbolos. Então,
- 9:59as pessoas vão beber, vão comer, ou vão se vestir,
- 10:04ou vão escolher o seu carro, não só pelos motivos
- 10:08pragmáticos. Eu escolhi esse carro porque
- 10:11ele tem tantas cilindradas e faz tantos quilômetros
- 10:14por cento de litros e não, na verdade, você pode ter
- 10:19razões que a gente vai chamar de caragimáticos, que
- 10:21são essas mais concretas, mas no fundo tem alguma
- 10:25coisa que a gente chama de razão simbólica. E
- 10:27essa é a função do antropologia é estudar a
- 10:31nossa razão simbólica. Ou seja, quais são os símbolos
- 10:35que estão por trás e o que é que esses símbolos
- 10:37querem dizer para as pessoas. Eu
- 10:39acho que a gente depois conversa mais
- 10:41específicamente, mas quando vocês falam, vocês criaram
- 10:45uma nomenclatura para cerveja. Essa
- 10:48nomenclatura também é simbólica, ou seja, ela
- 10:52quer diferenciar, ela quer diferenciar a cerveja do
- 10:57resto. Então, isso não está errado, tá?
- 11:00Tô só dizendo como é, como é
- 11:01que a gente interpreta essa nomenclatura, ou como é que
- 11:04a gente interpreta os rótulos, né? Ou
- 11:08como que a gente interpreta o desejo das pessoas. Tá,
- 11:11e é só pra gente conectar que você começou explicando
- 11:14o que é antropologia. Volta que eu vou, hein? Você
- 11:17sabe que eu vou. É, então, vamos pegar aqui.
- 11:20Volta. Aqui é tipo, sou o
- 11:21desistião onde o rei é pião, a gente vai ler lá
- 11:24o convidado de volta. Aí você começou explicando
- 11:27tipo, o que é antropologia? Porque,
- 11:28na verdade, que foi um pré -papo rápido do que a gente
- 11:31teve e que a gente conversou, eu e você
- 11:33sozinhas e depois um pré -papo agora juntos aqui com
- 11:35Leandro, é que as pessoas não fazem a mais vague
- 11:38ideia do que antropologia e aí ficou achando que você
- 11:40é um elefante branco no meio de uma loja de
- 11:42cristal. Quando, na verdade, é algo muito
- 11:45interessante que deveria ter sido compartilhado muito
- 11:47mais cedo para que a gente entendesse alguns dramas ou
- 11:50algumas questões que são cruciais. E
- 11:54aí eu acho que era legal você mais ainda
- 11:57didaticamente falar dessa correlação entre antropologia
- 12:00e alimentação do A Manera Geral, né? Do
- 12:02tipo, juntar essa coisa que você começou a falar da
- 12:04bebida, mas eu acho que você como especialista em
- 12:07comida, né? Que cerveja é gastronomia,
- 12:10cerveja é alimento. Mas enfim, eu acho que trazer
- 12:13esse highlight pra gente fazer conexões com a bebida
- 12:15também. Então, vamos lá. Antropologia
- 12:17é essa ciência que estuda os grupos, os seres humanos
- 12:20em grupo quando eles estão em grupo. E
- 12:22a antropologia, ela vai estudar as pessoas por
- 12:25aquilo que a gente vai chamar de concreto, né? As
- 12:29coisas concretas da vida das pessoas. Antropologia
- 12:31vai te dar comida, antropologia vai estudar
- 12:33moda, antropologia vai estudar as festas, os
- 12:37criatuais. Essa é o material da
- 12:39antropologia. É por meio disso que a gente
- 12:42vai chegar no que a gente chama do pensamento
- 12:44inconsciente. Então, eu preciso pegar coisas
- 12:47concretas, né? Eu vou lá estudar alimentação
- 12:50brasileira pra dar aí entender porque as pessoas
- 12:53comem aquilo que elas comem. Se
- 12:55eu chegar pra você perguntar, o que você come,
- 12:57o que você come, você vai falar, sei lá, eu tô com
- 12:59fome, eu aprendi, eu como desde que eu nasci, não
- 13:03captei sobre isso. É justamente isso que
- 13:05interessa para o antropólogo. Aquilo
- 13:07que a gente faz, tem que saber por quê. Aquilo
- 13:10que a gente faz desde o tempo, desde o que eu
- 13:15nasci, desde que sei lá, o tempo é tempo. Ninguém
- 13:18disse por que que você come lá, que no Rio de
- 13:21Janeiro, o que que vocês comem é feijão preto, vocês
- 13:24sabem? Não faça mais vague ideia. É
- 13:26um código, né? Faz parte dessas razões
- 13:28inconscientes que é natural de falar que feijão preto
- 13:32é o preferido do carioca. Embora,
- 13:34em Minas, o feijão carioca seja o marrom, não é
- 13:38feijão preto. E aqui em São Paulo também,
- 13:40a gente chama de carioquinha, o nosso feijão
- 13:43cotidiano, que também é chamado de mulato e também
- 13:46é o feijão marrom. Então, olha só, essa não é uma
- 13:49escolha da natureza, é porque no Rio de Janeiro
- 13:52tinha só espécie preta e aqui tinha só espécie
- 13:55marrom. Não, essa é uma escolha da que
- 13:57a gente vai dizer, cultura. Em
- 13:58algum determinado momento que a gente já perdeu do
- 14:01tempo, escolheu -se no Rio de Janeiro comer
- 14:04cotidianamente o feijão preto. Aqui
- 14:07pra nós, em São Paulo, em Minas Gerais, em grande
- 14:09parte do país, feijão preto é feijão de feijoado. E
- 14:13se você perguntar pra alguém aqui em São Paulo,
- 14:16ele vai dizer que feijão preto é muito mais pesado.
- 14:19Ou seja, exatamente. Então,
- 14:21assim, isso que eu acho que é o interessante de
- 14:23antropologia, porque a gente não vai ficar disputando
- 14:25quem é que tá certo, que feijão é pesado. A
- 14:28gente quer entender qual é a percepção das pessoas. Se
- 14:31a gente chama o feijão marrom de carioca,
- 14:34carioquinha e mulato, significa que nós estamos
- 14:37fazendo com relação aqui. Nós
- 14:39estamos definindo, inclusive, que os carioca são mulatos.
- 14:43E é isso, gente. Quando
- 14:44o antropólogo olha, ele não tá interessado no feijão em
- 14:47si, ele tá interessado nos símbolos que o feijão
- 14:50carrega. Ele tá interessado em por que
- 14:53a gente usa essas palavras que a gente vai dizer. Mas
- 14:56eu aprendi essas palavras aqui, em vida inteira. Eu
- 14:59sempre usei, nunca achei que eu tava trazendo alguma
- 15:02outra coisa. Mas tá, estamos. Então,
- 15:05quando a antropologia escolhe, né, estudar
- 15:07alimentação, a gente tá buscando esses porquês das
- 15:10nossas escolhas que não são acidentais, não são
- 15:14individuais. A gente vai dizer, ah, eu
- 15:16como porque eu prefiro. Ótimo.
- 15:18Você prefere dentro daquilo que sua cultura te permitiu
- 15:22fazer. Porque se você desfece, você vai
- 15:24misturar feijão com, sei lá, estrogonófio. É,
- 15:29estrogonófio, já vai ser horrível. Olha
- 15:33o símbolo aí. Olha aí, né. Não,
- 15:35mas uma coisa que os cariocazão vão fazer, que
- 15:37aqui em São Paulo, a gente morre de desespero. Vai
- 15:39colocar chup na pizza. Você é maior lenda, velho. Não,
- 15:43é lenda não. Essa é maior lenda não. Eu
- 15:44já vi acontecendo, eu já vi. Não
- 15:47é lenda não. O carioca tá com chup na
- 15:49pizza e acha que tá certinho. Eu
- 15:51já vi. Será, gente? Tá,
- 15:54vai, tá bom, eu sou minoria. Tudo
- 15:55bem. Tá bom, tá bom. Mas
- 15:57não tem problema nenhum. A questão é, quando você faz
- 16:00essas escolhas, imediatamente isso se torna algo que a
- 16:04gente chama de constituinte da sua identidade. Ou
- 16:07seja, quando você vê um cara com chup na pizza,
- 16:11você olha e fala, você é do Rio de Janeiro. São
- 16:13Paulo, isso não é, né? E pode parecer uma piada, mas
- 16:17isso não é uma piada. Essa é a maneira pela qual
- 16:20seres humanos constroem sua identidade, ou seja, na
- 16:23hora que eu defino fronteiras de diferença para
- 16:27o outro, para outra pessoa. Então,
- 16:29se a gente chegar às duas no restaurante, eu e ela
- 16:31de milha, a gente olhar lá os dois feijões, não é
- 16:34quarta -feira, eu vou pegar feijão marrom. Ela
- 16:37vai direto no feijão preto e na hora a gente já vai
- 16:39estar mostrando que somos diferentes. A
- 16:41comida também é um veículo de construção de identidade.
- 16:45É isso que a antropologia
- 16:46entende, né? Que a alimentação, ela constró
- 16:50identidade, ela contorna identidade e ela projeta
- 16:53identidade. Quando eu, por exemplo, entro em
- 16:56um restaurante que eu não conheço, quando eu quero
- 17:00experimentar comidas que não fazem parte do meu
- 17:03cotidiano, eu estou projetando para o mundo
- 17:07algo que eu quero ser. Eu quero ser aberta, eu quero
- 17:09ser moderna, eu quero ser vanguarda, eu quero ser uma
- 17:14experimentadora, né? É isso que eu falo quando eu
- 17:17digo que eu vou descobrir o restaurante de Vietnamita,
- 17:21isso é verdade, né? Descobrir
- 17:22aqui outro dia um coreano que eu entrei e tudo
- 17:25escrito em coreano, cardápio em coreano, ele só falava
- 17:27em e aí eu e meu marido a gente olhou e falou tem
- 17:31alguma coisa que a gente possa em outra língua? Não,
- 17:33a gente falou, vocês preferem que a gente vá
- 17:35embora? Sim, a gente foi embora. What?
- 17:39Era um restaurante basicamente secreto, sei lá,
- 17:42mas assim, tudo bem, entendeu? A
- 17:44gente entendeu que tava no lugar errado. Tudo
- 17:47bem, a gente entendeu que a gente tava no lugar
- 17:49errado, porque a gente tava no outro hipólogo, né?
- 17:53Exatamente. Se não é puta que pariu
- 17:55que serve isso merda. Não é? A
- 17:58gente já entendeu que assim, ali era um lugar
- 18:01super fechado para a comunidade, a gente entrou
- 18:03provavelmente num dia que tava errado, talvez se a
- 18:06gente tivesse insistido a gente poderia até ter
- 18:09ficado como um tropólogo, né? Então
- 18:11a gente vai observar e tal. Mas
- 18:13enfim, acho que é isso, né? A
- 18:14tropologia, ela olha para alimentação buscando,
- 18:17primeiro porque as pessoas fazem essas escolhas, a
- 18:19gente olha no tempo, ou seja, quando é que essas
- 18:22escolhas foram feitas a despeito do que a gente
- 18:24quer? Tá. Então no caso brasileiro,
- 18:27no caso da alimentação brasileira, a gente tem as
- 18:29primeiras escolhas alimentares, né, que vão
- 18:32definir ali um sistema que a gente vai chamar um
- 18:34sistema alimentar brasileiro, em 1530, gente. Em
- 18:371530 a gente já tinha, comia aquilo que comemos
- 18:42hoje. Aí tem gente que fala para
- 18:44mim, ah não, não, não, não é possível. A
- 18:47gente é muito inovadora, a gente mudou muito, não
- 18:50mudou não. A gente mudou quando a gente
- 18:52tá na capital, quando a gente tem dinheiro e aí a
- 18:55gente tem introduções, novas, etc. Sim.
- 18:58Mas se você sair aí pelo Brasil, eu ia trazer uma
- 19:01coisa que você falou de vários signos e de várias
- 19:04verdades, signos presumindo como verdade, eu posso
- 19:07estar elejando a palavra errada nesse momento, tá?
- 19:10Mas verdades para aquele grupo,
- 19:12ou verdade para aquela região. A
- 19:13gente na cerveja tem vários que a gente chama de mitos
- 19:16e que não necessariamente são mitos que podem ser
- 19:19verdades para aquelas pessoas. Então
- 19:21vou te dar alguns exemplos aqui, por exemplo. A
- 19:24água de agudos produz melhores cervejas. As
- 19:28pessoas que moram perto da fábrica da Andeve que
- 19:31produz cervejas com essa água, nem sei se ainda
- 19:34produz, tá? Mas em algum momento isso foi
- 19:36propagandizado e isso introjetou na cabeça das
- 19:39pessoas até hoje, de pessoas mais velhas até
- 19:42pessoas mais novas. Então a água de agudos, o feijão
- 19:44preto ou feijão mulato ou feijão carioquinha é melhor.
- 19:48Aí mais recentemente tem o
- 19:50purumauti, sinal de qualidade, cerveja que tem
- 19:53a adição de milho, é suco de milho, é ruim. Dá
- 19:56dor de cabeça. Dá dor de cabeça. Existem
- 19:59esses símbolos aí, ó. Papi, pocando na cerveja o tempo
- 20:02inteiro e a gente fica tentando aqui, a gente
- 20:05enquanto podcast, eu encontro a produtora de
- 20:07conteúdo sobre cerveja, a gente fica falando de gente
- 20:09pelo amor de Deus, só beba sua cerveja, não passe por
- 20:12isso. Teoricamente estou dando murro em ponta
- 20:15de faca, né? Porque eu tô me atravessando na
- 20:18realidade dessas pessoas. Essa
- 20:20é a primeira pergunta, assim ou não, né? Sim,
- 20:22eu acho que você trouxe uma coisa muito legal que
- 20:24você chamou de mito. Qual é do meu ponto de vista o
- 20:28equivo, ou sei lá, o problema da gente chamar de
- 20:30mito? Que mito em princípio ele tende
- 20:32a ser mentiroso, ou não é verdade, não é verdadeiro.
- 20:36Tá. E a visão da antropologia
- 20:38é justamente que se é verdade para aquelas
- 20:40pessoas, a gente deveria entender por quê. E
- 20:43não tentar derrubar. Não sei se você esteja falando
- 20:46de uma verdade científicamente comprovada,
- 20:50né? Que aí e de novo, até essa
- 20:53comprovação científica, vai ter limitações. Porque
- 20:56a gente pode pegar, por exemplo, a nutrição, que é
- 20:59uma ciência, e que tem comprovações científicas sob
- 21:02diversas coisas. E aí, de tempos em tempos,
- 21:06ela rever a sua comprovação científica. Ovo
- 21:09pode, ovo não pode. Uma clara, menos uma, agora
- 21:12cinco, agora dez. Come cinquenta quilos de ovo, tá
- 21:14tudo certo com você. Isso é uma comprovação
- 21:17científica, só que ela é modificada a cada novo
- 21:20paradigma, porque assim, você encontra. Quando
- 21:23eu não tenho isso, quando eu tenho exatamente o que
- 21:25você falou, Lud, que é a crença das pessoas. A
- 21:28crença das pessoas para um antropólogo é verdade. E
- 21:32não porque ela é ciência, mas porque é naquilo que
- 21:34eles acreditam. Então, tem, é muro, ponta de
- 21:36faca? Claro que sim, porque o que que
- 21:38eu ganho mostrando para ele que a minha verdade é
- 21:42certa, né? A gente tem uma palavra na
- 21:45antropologia, que é uma palavra comprida e feia,
- 21:48mas que eu adoro, que é o etnocentrismo, que é quando
- 21:51você coloca a sua etnia, os seus costumes, acima do
- 21:56costume do outro. A gente tende a fazer isso
- 21:58direto, com tudo aquilo que a gente não gosta, achando
- 22:01urgente, ai, esse país aí é fedido, essas pessoas não
- 22:05tomam banho, a gente faz isso o tempo inteiro. A
- 22:07gente também vai fazer isso quando a gente tem
- 22:11determinados gostos e a gente vai tentar, né, dizer
- 22:16que você come, sei lá, você come cabra, ah, nossa,
- 22:21aqui não deve ser bom. Então,
- 22:23significa que você está no atraso. Como
- 22:25assim, você está no atraso? Essa
- 22:26é a região do cabra, eu como cabra desde que eu
- 22:29nasci. Por que que a carne de vaca é
- 22:31melhor do que a carne de cabra? E
- 22:33aqui não estamos discutindo calorias e não é isso que
- 22:38a gente está falando. Então,
- 22:39acho que é isso que você trouxe, eu acho muito
- 22:41importante, porque quando a gente fala de comida e
- 22:44bebida, nós não estamos falando de produtos, nós
- 22:47estamos falando de formas das pessoas entenderem no
- 22:51mundo. A comida e a bebida expressam
- 22:54maneiras das pessoas estarem no mundo. Perfeito.
- 22:58A comida bebida expressa identidade, então se ela
- 23:02está falando que aquela água daquele lugar, ela
- 23:05está falando sobre si, menos do que sobre a
- 23:07cerveja. Então, Paulo, o que você está
- 23:09trazendo pra gente é que a cultura não é racional, ela
- 23:14é uma expressão, mas ela não é racional, ela é
- 23:16construída, né, dentro do dia a dia, dentro dos
- 23:20acordos sociais, como as coisas vão funcionando, a
- 23:23gente tem disso e a cultura vai se chegando lá,
- 23:25a ponto do carioca comer feijão preto e ter um
- 23:28feijão mulato, moreno, que é chamado de carioca em
- 23:31outros estados do país. Isso
- 23:33é construído, mas a publicidade, ela vira uma
- 23:37disparadora de cultura, ela vira um ator determinante
- 23:43dessa formação de signos, né, e aí falando de
- 23:46signos, símbolos, significado, né, então a
- 23:49partir do momento que a publicidade repete 10 mil
- 23:52vezes que a água de canudos, agudos, que a água
- 23:58de agudos faz a cerveja antártica que é a melhor
- 24:02cerveja do Brasil e depois fala que essa cerveja é
- 24:06por um malte, ela não tem milho tal, depois de
- 24:08repetir tantas vezes, isso vira essa verdade, mas a
- 24:12gente tem noção que foi um disparador racional, foi um
- 24:16disparador intencional, né, falando que eu quero que
- 24:18essa que vire verdade e aí isso molda a cultura. Sim,
- 24:23na verdade assim, a cultura está sempre sendo mudada,
- 24:26sempre, mesmo que a gente ache que, como você falar,
- 24:30carioca, vamos pegar a coisa do feijão, em
- 24:33determinado momento ficou assim, não era sempre
- 24:35assim, não foi sempre assim, a gente começa a
- 24:38comer arroz, feijão, por exemplo, sempre a partir do
- 24:41final de Saco 19, antes existia feijão, farinha
- 24:44camiscerca, que aliás é o nome do meu livro, mas o
- 24:46arroz ele é tardio e essa divisão do feijão preto,
- 24:50feijão marrom, etc, ele vai ficar no século 20, vai
- 24:53virar essa defesa de identidade, o que significa
- 24:55que, primeira lição do dia, tudo pode mudar, a cultura
- 24:59muda, o tempo inteiro, ela é dinâmica, ela é modelada,
- 25:04ela modela os homens, ela molda os seres humanos
- 25:07porque ela nos dá esses contornos, mas ela também é
- 25:10moldada pelos seres humanos a partir do momento em
- 25:12que, por exemplo, a gente resolve ir contra a
- 25:15cultura, cortar a nossa relação com determinados
- 25:18padrões culturais, então a gente também age na
- 25:21cultura, não é que a cultura só age sobre nós,
- 25:23o ovo é galhinho, o tempo inteiro, a publicidade é
- 25:28parte da cultura e quando ela veicula algo que cola,
- 25:33que faz sentido para a cultura, aquilo vai colar
- 25:36mais ainda, quando ela veicula coisas que não
- 25:39fazem o menor sentido para aquela cultura, meu, pode
- 25:41bombardear, eu sempre falo isso para os meus alunos,
- 25:44bombardei e vai perder dinheiro, ou você encontra,
- 25:48né, e aí as boas, as boas campanhas, as boas ideias,
- 25:53em geral elas estão muito pautadas em crenças
- 25:57culturais, então aí a da água a gente teria que ver
- 26:00qual é, mas a pureza da água é absolutamente
- 26:03importante para o brasileiro, para pensar a
- 26:07sua relação com a água, com aquele bebê, etc. Então
- 26:10você falar disso e colocar isso aliado a cerveja, quer
- 26:14algo que ele já toma, quer algo que já conhece, etc.,
- 26:17você tá trazendo, é quase como uma verdade de fora,
- 26:22uma verdade como você chamou consciente,
- 26:24intencional, mas que vai grudar porque a gente já
- 26:27tá preparado para aquilo, tem outras que você pode
- 26:30ficar tentando e não vai rolar, quer ver uma que eu
- 26:33gosto, só para te dar um exemplo, protetor solar, o
- 26:36mundo inteiro sabe que protetor solar é importante,
- 26:40porque protege com essa, bla bla bla bla bla,
- 26:43índices brasileiros de uso de protetor solar, um dos
- 26:46menores no mundo, índices de câncer, altíssima, as
- 26:49pessoas não fazem a relação, porque as pessoas
- 26:51estão burras, não, porque as pessoas gostam,
- 26:54brasileiros gostam do sol, então nós temos um
- 26:58problema, é como se você dissesse assim, porra, a
- 27:01gente gosta do sol, como é que o sol vai fazer mal,
- 27:03deixa a gente pegar uma corzinha, depois eu passo
- 27:05protetor solar, a gente e pode, oh, investe quando
- 27:09você quiser em campanha, não cola, é, e aí enfim,
- 27:12tem outros exemplos que depois pode dar, mas eu
- 27:13esqueço que vocês falaram, é muito legal, porque não
- 27:16é tudo que cola. Tá, então vamos fazer assim,
- 27:18gente, vamos respirar fundo, essa foi só a primeira
- 27:22pergunta, só para todo mundo assentar, e a gente
- 27:25não chegou numa conclusão, porque aparentemente a
- 27:28antropologia não é para vizinhão, isso é por isso
- 27:30que eu não fiz, antropologia para pessoas
- 27:32que não precisam de conclusões, não precisam de
- 27:35encerramentos, elas precisam de três pontinhos,
- 27:38redescéns, redescéns. Bom, então vamos partir para a
- 27:48próxima, para a gente ver se a gente anda, né, nesse
- 27:51mundo, fudeu, é a filosofia antropologia, isso cara, tô
- 27:55confusa, tô confusa, comida e bebida, como elas andam
- 28:00juntas, porque a cerveja artesanal, especial,
- 28:04independente, qualquer adjetivo que a gente quer
- 28:06usar, ela tentou fisgar as pessoas também pela
- 28:09harmonização, porque era um jeito de falar assim, ah
- 28:11cara, esse é muito melhor comer e beber com cerveja
- 28:15do que com vinho, então o que que você fala para a
- 28:18gente sobre isso? Bom, a antropologia é a óleo
- 28:20para comida, na verdade a gente olha para alimentação,
- 28:23alimentação é um sistema, um sistema que mistura
- 28:26comida, bebida, jeito de cozinhar, jeito de comer,
- 28:31jeito de produzir, é um sistema ao mesmo, a gente
- 28:33olha tudo junto, não tem como a gente pensar em
- 28:36comida, a comida não tá solta gente, as pessoas não
- 28:39comem, primeiro não comem aleatoriamente, elas comem
- 28:44com alguém ou não, determinadas circunstâncias
- 28:47comem uma coisa ou outra e obviamente combinam, ou
- 28:51descombinam, dependendo do ponto de vista, bebidas
- 28:54juntos, então para nós a bebida é parte do que a
- 28:57gente chama de sistema alimentar, não existe um
- 28:58sistema bebimentar, é um sistema alimentar e junta
- 29:02comida e bebida, como se tivesse uma linha de comida
- 29:05e uma linha de bebida, por que que é importante a
- 29:08gente pensar isso? A gente vai falar sobre, né,
- 29:10que a gente vai olhar para as pessoas, por que elas
- 29:13fazem, por que elas fazem? Do
- 29:14mesmo jeito que a gente escolhe comidas, tem comidas
- 29:17que a gente não come sozinho, certo? Acho
- 29:20que você, né, tudo bem, você pode sair para comer
- 29:22um feijoado sozinho, dia de semana e tal, mas se você
- 29:26for comer um feijoado no sábado sozinho, vão achar
- 29:28que você tá um pouco deprimido ou tá sem amigo,
- 29:30e afinal de contas, é sábado, vai comer um
- 29:32feijoado, é bom que você tenha companhia, a mesma
- 29:35coisa de bebida, então tem bebidas que é quase
- 29:38proibido, vai, digamos, socialmente beber sozinho, e
- 29:42a gente vai ter que entender inclusive por que
- 29:45que aqui no Brasil a gente tem essas características em
- 29:49outros contextos e isso vai fazer um menor sentido,
- 29:52dificilmente a gente vai abrir uma garrafa de vinho
- 29:54para beber sozinho, onde vai abrir uma garrafa de
- 29:56vinho você tem companhia, você pode abrir uma garrafa
- 29:59de cerveja para beber sozinho, mas aí depende, se
- 30:02for uma garrafa grande você não vai beber sozinho, você
- 30:05vai ter mais gente, então você vai ter uma garrafa
- 30:08pequena, você vai ter uma láfaga, no fundo quando
- 30:11você fala, né, da comida, bebida ela sempre tem um
- 30:13casamento, eu acho que o interessante de pensar essas
- 30:16cervejas independentes quando você fala da harmonização,
- 30:20para mim o interessante é pensar, digamos, a origem
- 30:22da cerveja no Brasil, que não é a cerveja
- 30:25independente, e qual era o casamento que nos foi
- 30:28ensinado, ou Leandro, vai, o casamento de comidas, né,
- 30:33o sistema que estava ali dentro dos limites da
- 30:36cultura? Cerveja, eu estou falando do
- 30:39passado, não das independentes, a cerveja ela
- 30:41ia até um ponto, chegava num determinado momento, num
- 30:45determinado é classe social, num determinado tipo de
- 30:48comemoração, num determinado tipo de comida, não
- 30:51entrava, não entrava, então tem uma transposição para
- 30:55ser feita, tem um processo diferente, né, não é que a
- 30:59gente sempre achou que a cerveja combinava com tudo,
- 31:03a gente permitia que a cerveja entrasse em
- 31:06determinados contênteses, mas quando era uma comemoração
- 31:09muito especial, vamos então abrir um vinho, vamos
- 31:12então, uma champagne, até hoje, né gente? Não,
- 31:16então, mas aí que tá, Paula, é que a gente está
- 31:17pensando, é porque olha só, como a gente tem pesquisado
- 31:21umas coisas sobre cerveja e arqueologia, a gente é
- 31:25chato pra caceta, cerveja e história, América Latina e
- 31:29etc, a gente vai entender que a cerveja está aí tão
- 31:33antes ou junto com o vinho, fazendo parte das
- 31:36defeições aí, não sei como, né, porque aí a gente
- 31:38descobre que a cerveja era feita lá no barril por
- 31:41conta de testes científicos, mas não sabia o que se
- 31:43combinava naquela época, com aquela bebida e tal, aí
- 31:46teve o lobby do vinho e blah, blah, blah, blah, tem
- 31:48mil coisas que se conectam, mas por exemplo, aqui no
- 31:50Brasil, até 1940, existiam o que a gente chama
- 31:54atualmente hoje de brew pubs, que são pequenas
- 31:57fábricas que produzem atrás e vendem na frente, né, eu
- 32:00produzo na fábriceta atrás e vendo na frente, existiam
- 32:03muitos que foram esmagados pelos conglomerados que
- 32:06vieram na sequência, entendeu? Então
- 32:08sim, as cervejas eram consumidas nesses lugares
- 32:11que possivelmente eram de imigrantes ou na maioria
- 32:14deles de imigrantes, alemães, italianos e de
- 32:17outros lugares, e que produziam as suas cervejas
- 32:19e que certamente dividiam as suas comidas daqueles
- 32:21lugares. Mas isso tá, e aí é minha
- 32:24provocação aí, e eu acho super perfeito isso que
- 32:27você falou da arqueologia, a gente tem no Brasil, se
- 32:29a gente quiser ir mais longe, a primeira cerveja
- 32:33ela não é, ela é indígena, é o kawin, sim, é, na
- 32:37verdade que a gente chama de uma cerveja. Aí
- 32:40a minha pergunta é, alguém brasileiro conhece kawin, já
- 32:44tomou kawin? Aliás, pra ser pior ainda, pra
- 32:47minha provocação ficar um pouco mais forte, como o
- 32:50brasileiro gosta de índio? Então
- 32:51assim, a gente, o fato, pera aí, eu tô falando
- 32:54porque é importante isso, gente. Não,
- 32:56total, total, total, total. Aí
- 32:58vem uma negação da cultura original, né? Exato,
- 33:01o que que a gente fez com os nossos povos indígenas?
- 33:04Matou, exterminou, deixou eles
- 33:05dentro de um parque fechado, bem longe da
- 33:08gente, aí a gente fala, ah, mas os povos indígenas
- 33:11tomavam kawin, você nunca lhe sob disso, você nem
- 33:13sabe como é o cheiro do kawin, na verdade você nem
- 33:16gostaria que o kawin existisse, porque você não
- 33:17quer que esses povos indígenas existam. Então,
- 33:20eu acho que a gente tem uma falsa desculpa, porque
- 33:23eu acho que assim, é legal saber que existe, não
- 33:25significa que nós tomamos por isso. Eu
- 33:28diria que a gente tem um corte bem radical,
- 33:30civilizatório, que a gente faz uma coisa assim de
- 33:33dizer, isso aqui eu não quero nem saber essas
- 33:36práticas indígenas, que aí é nojento de que eles
- 33:38bebem, não quero saber, se a gente disse que a
- 33:41cerveja que a gente toma tem um gostinho de kawin,
- 33:44porque tem as cervejas independentes, quanto mais
- 33:47elas têm o cheirinho, quem já tomou kawin sabe, mas
- 33:50eu tenho um cheirinho leve de kawin, que é um
- 33:52cheirinho às vezes que não é super agradável, mas é o
- 33:55cheiro, né, da fermentação etc. Mas
- 33:58enfim, eu acho que pra mim tem uma disruptura, tem uma
- 34:01ruptura entre existir no passado e práticas que são
- 34:06contemporâneas. Então, essa é uma coisa que
- 34:09existe desde que o mundo é mundo existe, que ela tem
- 34:11o status de uma bebida entre muitas aspas para
- 34:16toda ocasião, eu duvido. Eu acho que inclusive quando
- 34:19você fala dessa cervejarias, ou vou chamar aqui
- 34:23cervejarias dos imigrantes, assim como toda a comida
- 34:26dos imigrantes, tem coisas que entrarem, digamos, pro
- 34:30universo brasileiro e tem coisas que ficaram super
- 34:33restricas, que de jeito nenhum isso aqui não passa,
- 34:36né, então eu não vejo que aqui no Brasil a gente
- 34:39aprendeu a tomar cerveja com os imigrantes nas
- 34:43pequenas cervejarias das casas tatatá. Sim,
- 34:47não. Eu vejo que a gente aprendeu
- 34:49a tomar cerveja a partir de uma outra perspectiva,
- 34:51que foi uma perspectiva de cultura de massa que chega
- 34:55assim com, que essa, essa aqui com as grandes
- 34:58cervejarias que de alguma forma, eu vou dizer,
- 35:01destroying, de alguma forma englobam todo o resto e
- 35:05nos dão cervejas, que são cervejas, né, até onde o
- 35:10meu conhecimento chega, que a gente sempre achou que
- 35:13era uma cerveja tipicamente brasileira, que ela é
- 35:16diferente das outras. Aí a gente vai ter, já ouvir
- 35:19pessoas dizendo, ah, no Brasil você só uma cerveja
- 35:21muito gelada, as cervejas comuns, né? Sim.
- 35:25Muitas geladas, porque a cerveja é ruim, porque a
- 35:27cerveja é ruim. Hoje eu vi brasileiros que vão
- 35:29tomar as cervejas fora do Brasil e não conseguem se
- 35:33adaptar, porque de fato, né, as pessoas acho que
- 35:36têm essa sensação de uma cerveja diferente. Sim.
- 35:39E eu queria pegar esses parentes que você trouxe,
- 35:41parentes não, né? Eu vou fazer uma aspas aqui
- 35:44do que você falou. A cerveja é uma bebida para
- 35:46todos os momentos que você diz que não, não é para
- 35:50todos os momentos, fecha aspas, né? E
- 35:52aí, então vamos entender que toda bebida então tem
- 35:55o seu ritual, que rituais são esses e aonde se
- 35:59encaixa a cerveja nesses rituais, né? E
- 36:02eu acho que tem uma outra pergunta aqui, talvez dentro
- 36:04dessa, que eu não sei se eu estou atropelando, talvez
- 36:06sim, que é a importância do ritual para gente, para
- 36:10uma cultura, né? Para a gente pegar e amarrar
- 36:12isso. Sim. Só vou voltar aqui nas
- 36:14aspas. A cerveja pode ser para toda,
- 36:17é, a cerveja é para toda, eu diria, culturalmente a
- 36:19gente não aprendeu isso, mas ela pode ser? Pode,
- 36:22você faz parte do grupo dos bebedores de cerveja?
- 36:25Cerveja pode. E
- 36:27aí vocês vão fazer todas essas combinações possíveis.
- 36:30Diferência só que eu queria ir no
- 36:31ponto A aqui é que essa não é o ensinamento da
- 36:34cultura e ali até voltando àquela tua pergunta da
- 36:37publicidade poderá ser o ensinamento da publicidade
- 36:40ou poderá ser o ensinamento de gramos das cervejarias
- 36:43independentes. Olha, a gente vai querer mostrar
- 36:45aqui cerveja combina com pão, com manteiga, cerveja
- 36:48combina com misto quente, cerveja combina com pipoca,
- 36:51cerveja combina com massa, cerveja combina com sushi.
- 36:54A gente quer mostrar aqui,
- 36:55cerveja pode ser e está tudo certo, né? Tá
- 36:58tudo certo. No entanto, culturalmente
- 37:01falando, a gente vai ter até hoje, a gente vai ter
- 37:04algumas divisões. A gente pode brindar o ano
- 37:07novo com cerveja, né? Vamos abrir uma cerveja, viva,
- 37:10viva, podemos super claro. Mas
- 37:13por que as pessoas compram cidra? Por
- 37:14que as pessoas compram cida para levar na praia, compra
- 37:17champanhe, quem pode, compra espumante, de novo? Isso
- 37:21é parte do fito também, como você falou, né? Cada
- 37:24bebida, cada comida exige um tipo de ritual. Ritual
- 37:30pode ser desde talheres apropriados e copos
- 37:33apropriados até ritual mesmo. Vocês
- 37:37dois têm um ritual maravilhoso, vou abrir. Tem
- 37:39um barulhinho, é importante, isso é um ritual. Para
- 37:42que serve um ritual? Virar um antropólogo. Para
- 37:45repor os valores do grupo. Para
- 37:47todo mundo que está no grupo dizer legal, é por
- 37:50isso que eu estou aqui. Então
- 37:51quando você abre, vocês dois abriram a cerveja aqui
- 37:55antes de a gente começar. Fizeram
- 37:56um barulhinho, todos os pessoas que vão ouvir esse
- 38:00programa, que são vendedores de cerveja, provavelmente,
- 38:03ou deste universo, compartilham com vocês que
- 38:07esse é um barulhinho bom, esse é um barulhinho bom.
- 38:09Então o ritual, ele serve para
- 38:11isso, é para isso que a gente canta parabéns quando
- 38:13a gente vai em uma festa de aniversário, estamos
- 38:16todos aqui presenciando o envelhecimento dessa pessoa.
- 38:21Mas em vez de a gente falar
- 38:22isso, a gente vai cantar parabéns a você. E
- 38:24é isso, a gente vai dizer que a vida está passando,
- 38:27de forma inconsciente, nós estamos dizendo a vida está
- 38:29passando e nós continuamos no seu lado. A
- 38:31vida está passando e mais um ano estamos aqui. Então
- 38:34o ritual serve para isso. Tanto
- 38:36faz, qual seja ele, pode ser ritual de nascimento,
- 38:39ritual de morte, ritual de passagem de ano, o ritual
- 38:42que a gente quiser. Agora, em geral, cada ritual exige
- 38:46não só comida e bebida, mas algumas coisas que
- 38:50também giram ali em torno da mesma coisa. Então,
- 38:53vamos abrir uma cerveja? Eu posso, de novo, que eu
- 38:55falei, minha avó tinha um ritual, ela abriu uma
- 38:58cerveja sozinha todos os dias, era dela. Maravilhosa!
- 39:02Maravilhosa, maravilhosa, onde quer que ela esteja,
- 39:06ela me ensinou muito sobre a vida. E
- 39:07o ritual consistia no seguinte, ao meio dia ela
- 39:10sentava para ver o jornal SPTV, com uma dose de
- 39:16uísque cowboy no copinho pequeno sem gelo, tomava
- 39:20aquele uísque enquanto o jornal acontecia, sentava
- 39:24para almoçar e aí ela abria uma garrafa de
- 39:27cerveja antártica, tomava durante o almoço e depois
- 39:31fazia a cesta. Durante a semana, não era que ela
- 39:34fazia isso excepcionalmente aos finais de semana, todos
- 39:38os dias. Uma mulher sábia e à noite só
- 39:42reproduzia o uísque cowboy, não tinha cerveja. Esse
- 39:46era o ritual dela e esse era muito interessante
- 39:49porque isso organizava o dia, isso mostrava para ela
- 39:52que aquilo era hora de parar, de sentar, de olhar
- 39:55as notícias, depois de almoçar e ela partilhava o
- 39:59almoço, o meu avô, a cerveja era só dela, mas o
- 40:02almoço era eles compartilhavam. Estou
- 40:05dorendo essa avó. Mas é isso, se isso marca, o
- 40:09ritual serve para isso, para marcar o valor, para
- 40:12reafirmar o valor e para marcar o tempo, para marcar
- 40:14coisas, para marcar as coisas. A
- 40:16gente fala que o ritual são sistemas de marcação, a
- 40:19gente precisa dos rituais para entender como é que a
- 40:22gente vai viver. Então quando vocês abrem aqui o
- 40:25tuc, que é um ritual, vocês estão marcando o
- 40:28tempo, vocês estão marcando o começo, vocês estão
- 40:31marcando que o programa começou. Vão
- 40:33ver como é que vocês vão terminar. A
- 40:36gente tem também o ritualzinho. Você
- 40:40falou de ritual e aí falou de marcação, falou da sua
- 40:43avó maravilhosa. Duas coisas me vêm à cabeça,
- 40:46que eu não sei se a gente precisa comentar aqui
- 40:47imediatamente, mas eu acho que são importantes, que
- 40:49são temas que a gente traz muito aqui. Primeiro,
- 40:52o álcool é uma bebida, é uma droga lista, porém,
- 40:56intoxicante. Né? Então você bebe e você
- 41:00está buscando se intoxicar. Aí,
- 41:02os antigos, os povos originários, os celtas, os
- 41:06maias e todo mundo que talvez tenha mais juízo do
- 41:09que eu usavam isso para se conectar com seus deuses.
- 41:12Talvez eu esteja procurando o meu.
- 41:14Cadê você, Brasil? Vamos
- 41:16lá. Isso é uma coisa. A
- 41:18outra é você enxergar isso num Daily Base do tipo,
- 41:23não existe dose. Ah, a Organização Mundial da
- 41:26Saúde, ah, o M .S. fala que a dose segura de
- 41:30bebida alcoólica para homens são duas doses de cerveja,
- 41:34que seriam duas latas de 350 ml e para mulher, uma.
- 41:38Por semana? Por
- 41:40dia. Mas ao mesmo tempo, não é
- 41:42acumulativa. Você não pode, tipo, não vou
- 41:45beber nada e vou beber tudo no sábado, entendeu?
- 41:49Você tem que beber, tipo, uma
- 41:50de cada vez. Então, a sua avó era o padrão
- 41:52perfeito de banderação e ao mesmo tempo que sabia
- 41:59parar. Pelo menos até onde você contou,
- 42:01né? Se ela tomava dose de whisky,
- 42:03tomava a garrava de cerveja, fazia siesta e
- 42:05depois acordava e ia viver a vida. E
- 42:06ia, sei lá, enfim, viver a vida dela. Sim,
- 42:09é isso. Já tinha trabalhado na vida
- 42:12toda, estava naquele período, né? Tinha
- 42:14acosentado, enfim, eu acho que tinha nenhum prazer.
- 42:17Total. Um prazer muito legal,
- 42:19assim, ela, né? É por isso que eu digo que,
- 42:20assim, isso nunca foi visto como uma coisa ruim, porque
- 42:23aquilo era o prazer dela, ela tinha prazer em fazer
- 42:27isso. Perfeito. E para ela não existia
- 42:29avó, mas quer tomar um vinho, não? Cerveja
- 42:32e whisky. E ritual é prazer, então,
- 42:35Paula, assim, jump. Ritual também é prazer. Também
- 42:38é prazer. Também é prazer. A
- 42:41gente vai ter rituales que são rituales de dor e tal,
- 42:43mas ritual também é prazer. Eu
- 42:45acho muito legal esse clímer que você trouxe da
- 42:48Organização Mundial de Saúde, porque eu brinquei,
- 42:50né? Por semana, e assim, esse é o
- 42:53patrão que eles vão fazer, a partir de um monte de
- 42:56estudos, etc. Mas tem gente que não pode
- 42:58tomar uma lata, porque não pode, sim, porque é uma
- 43:02pessoa, sim. Exatamente. Então, eu acho que é isso.
- 43:06Rituais servem pra gente recolocar,
- 43:09como se a gente fazendo ritual, a gente repatua com
- 43:14o nosso grupo e com a gente mesmo os valores que
- 43:17são importantes pra nós. Por
- 43:18isso que eu gosto muito de pensar que comida e bebida
- 43:22sempre têm ritual envolvido. Quando
- 43:24não têm ritual envolvido, temos um problema. E
- 43:26o ritual não é porque, digamos, há de ser de
- 43:29gente pra beber, mas é isso, eu sinto pra beber,
- 43:32eu pego o copo, eu olho, a garrafa, isso é ritual.
- 43:36Quando você não tem ritual, você
- 43:37tira totalmente o significado da coisa. E
- 43:40aí, pra mim, tanto com a comida quanto com a bebida,
- 43:42começa a ficar complicado. Ou
- 43:44seja, eu não percebo o que estou bebendo, eu não
- 43:48percebo o que estou comendo, e nem por que
- 43:50faço isso. Diferente de quando você senta ali e
- 43:53fala, vou abrir essa garrafa, porque hoje nós
- 43:56temos um programa, vamos gravar e vamos começar essa
- 43:59conversa. Você tá marcando, ele serve pra
- 44:02isso. Quando a gente não tem e quando
- 44:04a gente não ritualiza, as coisas pedem um sentido,
- 44:07né? Elas pedem um significado. Então,
- 44:09no fundo, seres humanos vão viver o tempo todo buscando
- 44:12ritual. Não tem muito como a gente não
- 44:15fazer isso. Nossa, vou te falar, eu faço
- 44:17ritual patus na minha vida, desculpa, Eliana, pernão.
- 44:20Não, pode falar, pode falar,
- 44:22Lúdia, por favor, se entregue. Eu
- 44:23tenho 299 rituales no café da manhã. Eu
- 44:26sento pra comer, minha mulher já acabou, porque eu
- 44:29estou passando o café. Tem ritual pra ir no banheiro,
- 44:34gente, tem ritual pra tomar banho. Você
- 44:36não tem ritual, não, Leandro? Eu
- 44:37tenho, mas eu acho que a diferença das pessoas é
- 44:41assim, eu não levo muitos odia com a série, mas não
- 44:43dá pra não levar tão a sério, não dá pra não
- 44:45ignorar completamente. A diferença dos virgineanos
- 44:48pros outros é que o virgineano pensa sobre o
- 44:50assunto. E aí, assim, o sábio italiano
- 44:52aqui faz, toma o banho sempre do mesmo jeito, mas
- 44:55eu nunca parei pra pensar sobre isso. Se
- 44:56você me perguntar, eu falo, pera aí, eu começo aqui,
- 44:59termino ali, faço isso no meio, é isso aqui. Pa,
- 45:01pa, pa, pi, pi, pi. Beleza.
- 45:03Eu acho que todo mundo tem, e às vezes muito
- 45:05inconsciente. Essa é a minha... Quando
- 45:08a gente fala do tema banho, essa é a minha
- 45:11questão. Eu acho que pra tudo, por
- 45:13exemplo, uma questão que eu tive, eu sou casado há 24
- 45:16anos, né? No início do casamento, eu
- 45:18discutia com a minha esposa, por bobagens,
- 45:20pequenos rituais, pequenas manias, bobagens. Se
- 45:24você lava os talheres, aquele escorredor de
- 45:27talheres tem divisão de quatro partes. Sou
- 45:30designer. É pra você botar facas um
- 45:32lado, colheres no outro, garfos no outro, e outros
- 45:36talheres maiores no quarto e separado, no último e
- 45:39separado ali. Esse é o meu ritual. A
- 45:41Letícia, ela lavava, jogava lá na ordem que fosse na
- 45:45cabeça dela, misturando tudo. Eu
- 45:46falava, não, amor, isso aqui é criado pra você
- 45:48facilitar na hora de guardar, já tá tudo junto.
- 45:52Eu ia pra ergonomia, mas no
- 45:53final é mania. É mania ritual. Quando
- 45:57você tem que explicar o design, significa que ele
- 45:59não tá bom, né? Que ele não funcionou,
- 46:01exatamente. Você deveria ser intuitivo, né?
- 46:05Exatamente. Completamente. Pra
- 46:07mim, ritual é um negócio que me acalma, sabia? Sim.
- 46:09Imagino. Gente, um dia desse eu me parei
- 46:12me acalmando, organizando uma gaveta de um saco de
- 46:15botão. Sim. Foi bom. Foi
- 46:17bem bom. Mas é isso, ritual, ele põe a
- 46:20gente no lugar. Põe a gente no lugar. É,
- 46:23o ritual põe a gente no lugar, ele dá pra gente
- 46:25essa tranquilidade de que eu sei o que vai
- 46:28acontecer, de que eu sei o que eu tô aqui, né? De
- 46:31que eu, em geral, quando a gente vai tá muito confuso,
- 46:36ou quando a gente tá no lugar, a gente não conhece,
- 46:38a gente vai buscar pequenas rituales, vai tentar fazer
- 46:40pequenas rituales pra voltar a sua, digamos, normalidade,
- 46:45né? A sua coisa. Então,
- 46:47o ritual é sempre positivo. É
- 46:49claro que também, se você for pra coisas muito
- 46:52extremas, né, a gente que precisa ritualizar o tempo
- 46:56inteiro também é chato, mas, né, porque daí a vida
- 46:59fica um pouco menos espontânea. Mas
- 47:02é isso, ritual, ele serve pra isso. E
- 47:04quando, eu acho que assim, não existe... Se
- 47:06a gente pensar pra um lado dos grandes rituales,
- 47:09grandes comemorações, fetas, etc., não existe isso sem
- 47:12comida e bebê. Não existe. Religioso,
- 47:15seja religioso, seja cultural, não existe. Não
- 47:19dá pra você pensar, pense qualquer natal, batizado,
- 47:24páscoa que vão ter agora, carnaval, tanto faz. Comida
- 47:29e bebida são parte do ritual, em qualquer lugar
- 47:32do mundo. Perfeito. A nossa pergunta, a gay
- 47:35deveria ser, né, quem sabe um dia a gente faça esse
- 47:37projeto juntos, que é, aonde tá a cerveja nesse
- 47:40lugar? Ah, e por que que você falou
- 47:41isso agora? O que era o que eu quero
- 47:42fazer? É, culturalmente falando, né, e
- 47:46assim, onde ela poderia tá? Porque
- 47:48tem lugares que a gente ainda não sabe que ela
- 47:50poderia tá. Como você trouxe a coisa da
- 47:52publicidade, né, a gente, bom, a gente aprendeu que
- 47:54ela tá no lugar. Mas e por que que ela não tá
- 47:57em outros? Mas pra mim é que tem um
- 47:59processo, o primeiro de entendimento da cultura, é
- 48:01como é que a cultura entende esse negócio que a
- 48:04gente tá chamando de cerveja ou cerveja
- 48:05independente. E depois disso é que aí a
- 48:07gente vai poder dizer, ah, então tá, então tem brecha.
- 48:10Porque o negócio, né, de uma
- 48:12mensagem acertada quando ela vende da publicidade, é
- 48:16porque eles encontraram uma brecha, uma brecha da
- 48:18cultura, se não não gruda. Perfeito,
- 48:21perfeito, adorem. Mas
- 48:33eu queria trazer um gancho aqui que é o seguinte,
- 48:35Paula, eu não consigo falar de ritual sem pensar em
- 48:38templo. Templo, local, um ponto a onde a
- 48:42gente cumpre esse ritual. Pra
- 48:43mim tem sempre um, assim, ou um ambiente, ou uma
- 48:47disponibilidade sobre o corpo, né. Então
- 48:52se eu tenho um ritual de toda manhã praticar yoga,
- 48:55antes de começar o dia, vamos me supor, eu tenho
- 48:58que ter ali meu tapetinho estendido no chão, no seu
- 49:01Ketal para lá. Então você cria esse ambiente
- 49:03ali. Onde está o bar e qual é o
- 49:07papel do bar nessa nossa cultura? Onde
- 49:10a gente fala? E aí podemos trazer não só a
- 49:12cerveja, mas o papel do bar na nossa cultura. Ele
- 49:15é um templo. É, eu diria que pode ser um
- 49:20templo, pode ser, o templo é muito sagrado, né. Pra
- 49:25mim tem sempre uma coisa de sagrado, um lugar, eu
- 49:28diria que pode ser um templo e pode ser um
- 49:30puteiro, também no sentido de... Entendeu?
- 49:33Menos sagrado, né. É uma coisa mais mundana
- 49:37mesmo. Então eu acho que o bar, ele é
- 49:39um lugar, falou perfeitamente, ele é um
- 49:41super lugar, um lugar por excelência da bebida. Mas
- 49:45ele não é só da bebida, né. O
- 49:47bar, assim, a definição de bar, o bar é o
- 49:51estabelecimento público onde você serve bebida e
- 49:55refeição rápida. Essa definição mais sintética de
- 50:00um bar. Eu sei que acabei de fazer um
- 50:02trabalho para um bar que vai nascer. Oh,
- 50:05que legal. Oh, que legal. Super
- 50:06legal. E a gente estava discutindo a
- 50:08diferença entre a categoria de bar e de buté. Então
- 50:12como é que o bar, ele tem uma estrutura, ele tem uma
- 50:14cara, ele tem uma função. Ele
- 50:17é entendido, né, do mínimo popular no Brasil, como às
- 50:21vezes, o bar é um restaurante, digamos, menos
- 50:26importante, né, de baixa categoria. O
- 50:29que não é sempre a verdade, tá? Isso
- 50:31é a maneira pela qual as pessoas, às vezes, entendem.
- 50:34Mas bar também, por exemplo, é
- 50:35um móvel que está em casa e que ele também poderia
- 50:38ser parte deste ritual. Aham.
- 50:41É, então, você tem um bar em casa? Pô,
- 50:43você tem um bar em casa. O
- 50:44que é o bar em casa? Sei lá, minha avó, voltando à
- 50:46minha avó. O bar dela era uma portinha
- 50:49que abria de uma cristaleira. A
- 50:51portinha abria e ela tinha lá um monte de whiskeys,
- 50:54uns copinhos bonitinhos e tal. Era
- 50:56um bar. A avó não ia ao bar, ela
- 50:58tinha o bar. Como, aliás, muitas casas
- 51:01brasileiras, desde 1950, têm um bar dentro de casa. Mas
- 51:06o bar de instituição, que eu acho que você está
- 51:08falando, eu acho que tem uma característica
- 51:10interessante, que é a rua, o que é permitido fazer na
- 51:14rua. Quando a gente olha a comida
- 51:16brasileira, a gente tem uma super separação entre comida
- 51:20de rua e comida de casa. Então.
- 51:22O Brasil é um dos poucos lugares onde a comida de
- 51:26rua ela é boa se ela está no bar, no boteco, e, em
- 51:31geral, ela reproduza comida de casa nos PFs, o
- 51:34prafeito, a recentejão, os pratos do dia. Essa
- 51:38é a possibilidade. O resto, o cachorro -quates,
- 51:41pipoca, churro, sei lá o que vai ter pela rua, a
- 51:45gente vai dizer que não é comida, a gente vai dizer
- 51:47que é bobagem, a gente vai dizer que é besteira, a
- 51:49gente vai fazer essa classificação. Nos
- 51:52outros lugares do mundo, não vai existir essa
- 51:53classificação. Você perguntar para um norte
- 51:55-americano, se você almoçou, ele vai dizer assim, o que
- 51:58você comeu? Come pizza. Você
- 52:00vai perguntar aqui para uma pessoa no Brasil, se
- 52:02almoçou, ele vai falar, hoje não deu tempo, como
- 52:04só uma pizza. Ou seja, eu estabeleço a
- 52:06diferença entre o que a gente chama de comida, o
- 52:09que se come de verdade, e aquilo que, a princípio,
- 52:12você come na rua, mas que não deve ser sem. Então,
- 52:16o bar para mim, ele tem essa característica da rua,
- 52:18desse lugar onde acontecem coisas que não acontecem em
- 52:21casa. Por isso que eu brinco que
- 52:23para mim, ele é menos templo, no sentido do
- 52:25santuário, e mais o lugar de outras identidades, onde
- 52:31eu consigo exercitar outras identidades. Porque
- 52:34no bar, eu posso falar alto, ou falo palavrão, ou
- 52:37no bar, eu me comporto de determinadas maneiras, que
- 52:41em casa não. Aqui no Brasil, a gente tem,
- 52:43né, os bares, tem os bares que a gente vai chamar, os
- 52:46bares, sei lá, mais estruturados, e tem os
- 52:49botecos ou botequins, ou biroca, e boca, buraco,
- 52:54meu, a quantidade de nome, e assim, onde as pessoas
- 52:58vão, não tem mulher. Se tiver mulher, é mulher que
- 53:03está lá, e com uma certa, eles estão com uma certa
- 53:06perspectiva, tem lugares, né, chamados de escatata,
- 53:10onde você também vai estabelecer um corte. Então,
- 53:12Leandro, só pra te dizer que pra mim, bar, no caso
- 53:15brasileiro, é uma coisa gigantesca, que a gente
- 53:19deveria, quando a gente fala do bar, que você
- 53:21frequenta, que você toma a sua cerveja, talvez a gente
- 53:24deveria se qualificar melhor, sabe, trazer alguma,
- 53:28até pra separar esse tipo de ritual. Quase
- 53:31compartmentalizar. Existe aqui a instituição bar, ou
- 53:35beber fora de casa, pagando pela conta. E
- 53:39aí, debaixo desse guarda -chuva, você tem esses
- 53:41compartimentos que você citou, e que vão ter
- 53:43signos e rituais distintos e etc. Total.
- 53:47Mas eu também tenho os meus signos e meus
- 53:49símbolos, meus rituais, nos meus bares preferidos. E
- 53:52isso é papo pro... Pra um segundo programa sobre
- 53:55antropologia. Se não, a gente nunca mais
- 53:58sai daqui. Eu já ia querer saber qual
- 54:00era. Se não você não volta, se não
- 54:03você não volta, tem que deixar o teaser. Vamos
- 54:08lá, gente. Vamos aqui, a gente vai liberar
- 54:11aqui agora a pergunta Bônus, que vai só para os
- 54:14nossos apoiadores, que é pra vocês saberem quem não
- 54:16é meceno e o que que tá perdendo nessa brincadeira
- 54:19depois desse papão já com a Paula até aqui. Então,
- 54:22a pergunta que os mecenas ouvirão a resposta, eles e
- 54:26apenas eles, é uma coisa de percepção de qualidade a
- 54:29partir das palavras, né, e como elas impactam nas
- 54:32pessoas. Então, especial, gourmet, plus,
- 54:35extra, top. E no meio cervejeiro, por
- 54:38exemplo, ou por malte e outras coisas, citas mais,
- 54:43né. E o que a gente tá falando
- 54:44com isso? O que a gente quer agregar,
- 54:46ou não, nessa história toda. Então,
- 54:49isso aqui, os mecenas vão receber lá, só quem é
- 54:51meceno, então apoia, aponta a sr, a barra surra de
- 54:53Lúplu, faça o apoio, participe desse grupo
- 54:55maravilhoso. E, Paula, eu queria agradecer
- 54:58demais a sua presença com a gente até aqui. Foi
- 55:01sensacional. A gente prende mais um
- 55:03pouquinho pra você responder mais essa, mas eu já
- 55:07queria, diante mão, agradecer a sua presença.
- 55:09Imagina, eu vou agradecer vocês,
- 55:11pelo que eu não respondi nenhuma pergunta direita. Eu
- 55:13fui indo pra todos os lados. Olha,
- 55:17muito obrigada, foi um prazer. Super
- 55:19divertido essa conversa. Paula,
- 55:22eu quero muito te agradecer, muito obrigada.
- 55:24Adorei pra mim esse papo aqui,
- 55:25podia continuar mais umas quatro horas, fácil, fácil,
- 55:27fácil, mas vamos transformar em mais quatro programas.
- 55:30Fica aqui a dica. Tá,
- 55:31muito obrigado. E vamos encerrar o programa,
- 55:34agradecendo aos nossos mecenas, que nos ajudam a
- 55:36manter a casa arrumada e muito conteúdo incrível toda
- 55:40semana. Hoje eu quero agradecer
- 55:42especificamente ao Matheus Faca, ao Maurício Grilha,
- 55:46ao Rodrigo Morais, ao Samuel Souza, ao Taixer
- 55:50John, Câmara Santiago, que nome, Taix. E
- 55:54a Erika Taís. Muito obrigado, pessoal. Agora
- 55:57sim, Leandro, o que a gente fala no final? Até
- 55:59o bar que vem. Não, até semana que vem. É.
- 56:02Então tá, até semana que vem. Beba
- 56:11menos, beba melhor, beba comoderação. Esse
- 56:22podcast foi editado por PlayAudios.