Latest / O Aviário Podcast · by PPGVET / Dr. Jansen Araújo: Estratégias para Controlar a Influenza Aviária | Ep. 108
Transcript
- 0:00Então, ele acometeu mamíferos como nunca se visto antes.
- 0:04E aí, entra uma segunda preocupação, que é a parte de
- 0:07saúde pública, que é uma preocupação que, para mim, é uma
- 0:12coisa que a gente estuda muito aqui, que é as nossas células
- 0:15estão muito mais próximas de um elefante marinho, de um lobo
- 0:18marinho, ou de um golfinho, do que de uma galinha.
- 0:23Bem-vindos ao podcast O Aviário, as mentes mais brilhantes da
- 0:27avicultura no seu bolso. O podcast O Aviário só é
- 0:32possível através do apoio de empresas inovadoras e que apoiam
- 0:36a educação continuada na avicultura brasileira.
- 0:38Enriquecer ovos com ômega-tres sustentável.
- 0:58Easy Institute, transformação digital e inteligência
- 1:01artificial na produção avícola. Olá pessoal, sejam todos muito
- 1:07bem-vindos de volta a mais um episódio do nosso podcast Boa
- 1:10Viário. Hoje a gente tem o prazer de
- 1:12receber aqui o Dr. Jansen Araújo, que é professor na USP,
- 1:16no departamento de microbiologia.
- 1:18E a gente vai bater um papo aqui sobre virologia, sobre um pouco
- 1:23das características ecológicas dos vírus, como que eles se
- 1:27movimentam na natureza. Doutor, essa área básica que é
- 1:31tão legal a gente conhecer alguns detalhes que muitas vezes
- 1:34são super aplicados ao dia a dia das empresas.
- 1:38Então, doutor Jensen, muito obrigado por ter aceito o nosso
- 1:41convite. É um prazer enorme estar
- 1:42recebendo o senhor aqui com a gente. e vamos explorar aqui o
- 1:45seu conhecimento, levando aí para as pessoas que nos
- 1:48acompanham, um pouquinho desse assunto que é tão palpitante,
- 1:51que está tão em voga em relação às doenças virais,
- 1:56principalmente essas questões ecológicas que envolvem a
- 2:00transmissão da doença, e vamos explorar bem a influência
- 2:02aviária. Novamente, obrigado pelo seu
- 2:04convite, eu deixo você fazer aqui as suas considerações
- 2:07iniciais. Bom, primeiramente, professor
- 2:11Marcos, muito obrigado pelo convite.
- 2:14Eu me sinto honrado, na verdade, de poder participar.
- 2:20É um prazer a gente poder falar um pouquinho do nosso trabalho.
- 2:23A gente às vezes está na universidade, a gente conversa
- 2:25com os nossos alunos, mas é um assunto de interesse de grande
- 2:31parte da população. Então, para a gente é sempre um
- 2:34prazer poder participar desse tipo de divulgação.
- 2:39Legal. Jensen, conta pra nós aqui, né,
- 2:42eu não vou ler seu currículo aqui não, vou preferir que você
- 2:45faça um currículo comentário, né.
- 2:48Conta um pouquinho da sua trajetória, aí você vai
- 2:50misturando, certo, o seu currículo, como que você veio
- 2:53parar, né, na bancada aí, né, da USP aí, trabalhando com o vírus.
- 2:57Como é que foi essa trajetória até chegar no que você faz hoje
- 3:02aí? E de cara, né, a gente conversou
- 3:03rapidamente antes de começar a gravação aqui, a gente percebe
- 3:06que você é uma pessoa que gosta muito do que faz, essa parte de
- 3:09biologia. Como é que você chegou nisso?
- 3:12Tá certo. Então, vamos lá.
- 3:14Eu sempre fui apaixonado pela área de biologia, pela área de
- 3:18DNA. Eu queria...
- 3:20Desde muito jovem, eu estava pensando em trabalhar com
- 3:25sequenciamento de DNA. Na minha época que eu estava no
- 3:27colégio, isso aí era a ideia da moda, né?
- 3:31Tinha tido clonagem de uma ovelha, na época, de uma ovelha
- 3:36Dolly, que foi uma coisa que chamou muita atenção no mundo.
- 3:39Então eu falava, eu quero trabalhar com DNA, e coisa que
- 3:41tem sequenciamento de DNA, era isso, minha paixão.
- 3:45Aí eu comecei a trabalhar com vírus em planta no Instituto
- 3:50Biológico de São Paulo. Comecei como estagiário, depois
- 3:53fui fazendo uma parte de iniciação científica e descobri
- 3:55que vírus em planta tinha um grande apelo na área de
- 3:58agronomia, causando grandes prejuízos.
- 4:00Então eu me apaixonei bastante pela área da virologia ali no
- 4:03começo. Passando algum tempo, Eu já, na
- 4:07faculdade, eu vi que tinha vírus humano que me atraía bastante,
- 4:11só que todas as técnicas que eu tinha aprendido pra detecção e
- 4:14estudos de vírus em plantas, vírus em vegetais, elas eram
- 4:18aplicadas em vírus humano. Então nessa época eu fui
- 4:23trabalhar no laboratório de terapia gênica, que era na
- 4:25Unifesp, aqui em São Paulo, com sequenciamento e na área de
- 4:30virologia humana. E ali eu já comecei a ficar mais
- 4:35ainda envolvido com uma coisa que eu almejava bastante.
- 4:39E nesse andar da carruagem, nessa época havia acontecido
- 4:43algumas epidemias aqui no Brasil, e no mundo já estava
- 4:48acontecendo, que a gente escutava de longe, mas era
- 4:52relacionado a alguma coisa com o vírus da gripe, da gripe
- 4:56aviária, dos frangos, gripe do frango, gripe da galinha e tal,
- 5:01mas era uma coisa muito disseminada na área do
- 5:04continente asiático, então a gente não escutava muito falar
- 5:08disso aqui no Brasil. Enfim, eu vim trabalhar na USP
- 5:12nessa parte, fazendo meu pós-doutorado, na área mesmo,
- 5:15com esse vírus que me interessou.
- 5:18Nessa época, a gente queria trabalhar com reservatórios
- 5:22naturais que pudessem carrear vírus para um lado e para o
- 5:25outro. E antigamente, na época que eu
- 5:29comecei, a gente ficava muito distante, mas entender hoje como
- 5:35que os animais silvestres podem carregar vírus para lá e para
- 5:38cá, ou pode ser grandes reservatórios, ficou cada vez
- 5:41mais claro depois da nossa pandemia da Covid-dezenove.
- 5:45Então isso, as pessoas conseguiram, qualquer pessoa
- 5:48hoje que você conversar, em qualquer lugar, no supermercado,
- 5:51na padaria, na portaria do seu prédio, você vai ver que alguém
- 5:54já ouviu falar ou de um vírus chamado coronavírus ou da grande
- 5:58pandemia que a gente passou. E muitos entenderam que os
- 6:02animais podem ser os grandes reservatórios. desses vírus na
- 6:08natureza. E, dentre esse meio, eu fui me
- 6:12aprofundando mais na área do vírus da gripe aviária, da
- 6:16influenza aviária, no começo de monitoramento desses animais que
- 6:20pudessem carregar esse vírus para lá e para cá.
- 6:23Na natureza, a gente estudando outros vírus, eu trabalho hoje
- 6:26num laboratório aqui, o meu laboratório é o laboratório de
- 6:29pesquisa de vírus emergentes, que tem potencial zoonótico, que
- 6:33possa ser um problema de saúde pública também.
- 6:36Então a gente monitora vários animais tentando entender como
- 6:40esse vírus está na natureza e como isso pode chegar. tanto na
- 6:43parte das granjas economicamente, trazer algum
- 6:47prejuízo, como uma adaptação desse vírus através das mutações
- 6:53aos seres humanos, causando aí uma possível epidemia, uma nova
- 6:57pandemia. Que legal, muito legal mesmo.
- 7:00Quer dizer, você está lá no laboratório fazendo exatamente
- 7:04esse trabalho de vigilância, entendendo como funciona
- 7:07exatamente esses mecanismos de transmissão, esse potencial de
- 7:10algum vírus desse causar uma nova pandemia, que todo mundo
- 7:14sabe que Todo mundo morre de medo disso.
- 7:17Mas vamos focar aqui um pouquinho, né?
- 7:19Vamos trazer para a nossa praia mesmo a questão da influenza,
- 7:23né? A gente sabe que você tem tido
- 7:25esse trabalho, você tem feito trabalho de monitoria.
- 7:27Esse vírus, a gente comemora muito e tem que continuar a
- 7:33manter as nossas vigilâncias dele não ter entrado na
- 7:35agricultura industrial, porque ele entrou no Brasil. da nossa
- 7:43fauna, ligados às rotas migratórias, e entrou numa única
- 7:48propriedade de galinhas caipiras que não eram comerciais.
- 7:52Como é que você entende essa epidemiologia?
- 7:56Como é que você entende essa questão das aulas migratórias?
- 8:02Qual é a preocupação que a gente tem que ter de fato desse vírus
- 8:06chegar a uma grande operação de agroindústria?
- 8:11Talvez um prejuízo mais significativo.
- 8:14Como é que você enxerga essa movimentação especificamente do
- 8:18vírus da influência? Vamos lá.
- 8:22Eu acho que a gente precisa estar sempre alerta.
- 8:26Esse é o primeiro passo. A gente não pode, de forma
- 8:29alguma, baixar nossa guarda achando que as coisas estão
- 8:33resolvidas aqui no país. Ainda mais que o Brasil é um dos
- 8:36poucos e únicos ainda livre para exercer seu livre comércio de
- 8:42exportação de carne de frango e de outras proteínas.
- 8:45A gente tem uma agricultura muito forte, muito importante
- 8:50para o nosso país, e a nossa preocupação aqui do outro lado,
- 8:53com a parte silvestre, é que há mais ou menos aí...
- 8:58Quase vinte anos a gente está acompanhando esse vírus
- 9:02movimentar no planeta. Então quando eu falei para você
- 9:05que eu estava prestando atenção nos casos, nas epidemias que
- 9:08surgiram na Ásia, nos surtos que houveram em regiões de mercado,
- 9:13em regiões que houve um espalhamento grande em aves de
- 9:17granja, infecção de pessoas que estavam trabalhando com as aves
- 9:24nessas regiões, a gente começou a ficar muito atento a essa
- 9:27possível adaptação ao humano, e a esse espalhamento rápido com
- 9:31alta letalidade. Então a gente começou, isso aí
- 9:34foi em torno, o primeiro surto do H-V grave foi em noventa e
- 9:38sete, mais ou menos. Então ali era onde eu estava
- 9:40escutando aquelas mensagens que eu comentei.
- 9:45Ele ressurge novamente em dois mil e quatro, dois mil e cinco,
- 9:49causando um grande estrago na região asiática, onde a Ásia era
- 9:53um grande exportador também nesse período aí no mundo.
- 9:58E eles perderam uma importância comercial grande.
- 10:01A gente continuou, Estados Unidos, América do Norte,
- 10:04América do Sul aqui, com a sua economia firme.
- 10:07E aí, olha que engraçado, tinha várias questões que as pessoas
- 10:13perguntavam, nos rondavam, que era o seguinte.
- 10:15Perguntava para os ornitólogos, os especialistas em aves.
- 10:18Falava assim, olha, tem ave que consegue sair lá da China e vir
- 10:22voando aqui e chegar até o Brasil trazendo vírus H.C. e
- 10:27eles não sabiam responder isso. Aí perguntavam para os
- 10:30virologistas. Falavam, escuta, será que ela
- 10:33sai voando e aí o vírus é tão patogênico que a ave cai no meio
- 10:37do oceano, estribuchando lá e morre e o vírus não consegue
- 10:40transpor essas barreiras? A gente também não tinha essa
- 10:43resposta nesse período. Então foi aí que a gente iniciou
- 10:47um programa de monitorar mesmo aves silvestres consistentemente
- 10:52em alguns pontos aqui no Brasil. E aí começa a entrar um pouco da
- 10:56nossa história do trabalho. Aí, primeira coisa, a gente
- 11:00tinha que saber que aves são essas que poderiam ser esses
- 11:02reservatórios naturais. O que a gente sabia, o que já
- 11:05era sabido lá na região de Laos, do Vietnã, é que as aves
- 11:10reservatórias que carregam esse vírus e muitas vezes não ficam
- 11:14doentes são aves aquáticas. principalmente o grupo dos
- 11:17anatídeos, marreco, os grupos são aves maiores.
- 11:23Então essas aves eram consideradas reservatórios
- 11:26naturais, que poderiam espalhar o vírus no ambiente e muitas
- 11:31vezes nem ficavam doentes. Mas assim que chegava numa
- 11:36galinha, ela sim se infectava e acabava morrendo.
- 11:39Então a gente tinha esse... Essa preocupação.
- 11:43Enfim, pensando em descobrir ou desvendar esses mistérios de
- 11:47será que esse vírus vem voando pra cá através das rotas
- 11:50migratórias, a gente começou a entender que não existia nenhuma
- 11:54rota migratória da Ásia direto pra América do Sul.
- 11:57Então isso já foi um grande passo.
- 11:59Falando, olha, essa ideia de vir direto para cá, não tem nenhuma
- 12:04rota que acontece diretamente. E deixa eu até fazer um adendo
- 12:09aqui. O que é essa migração, esse
- 12:12fenômeno migratório? É um fenômeno que acontece pelo
- 12:16menos duas vezes por ano aqui na nossa região, na mesma época.
- 12:21Então isso tem a ver com o clima, com... inverno e verão.
- 12:27Então, todo ano, tem um grupo de aves, um grupo se forma na
- 12:32América do Norte, na região norte.
- 12:34Isso acontece em América do Norte, América do Sul, isso
- 12:37acontece em Europa, África, isso acontece em Ásia e Oceania.
- 12:41Então, acontece essa movimentação dos animais saindo
- 12:45da região mais fria e vindo para os trópicos, uma região mais
- 12:48quente. Para quê?
- 12:49Então, segundo os especialistas, que não é a minha praia, Mas é
- 12:54para se alimentar, procura de busca de alimento, trocar sua
- 12:57plumagem, ficar mais forte, fazer corte, às vezes namorar e
- 13:02tal, e voltar para a área de reprodução num outro período.
- 13:06Então, por exemplo, aqui no nosso país acontece duas vezes
- 13:09por ano, esse momento agora, que nós estamos em novembro, as aves
- 13:14estão chegando aqui. Elas estão nesse momento
- 13:17chegando em vários pontos do nosso país.
- 13:19Daqui da América do Sul, vindo lá desde o Alasca, da região do
- 13:23Círculo Polar Ártico, vindo pra cá.
- 13:25E quando chega por volta de abril e maio, elas já estão
- 13:30trocando as plumas, se preparando, já estão mais
- 13:33fortes, elas se preparam para retornar para a América do
- 13:36Norte. E é nesse momento, nessas
- 13:39grandes concentrações, é que a gente dá chance dos vírus
- 13:43poderem se encontrar e se rearranjar em alguns pontos
- 13:46específicos. Então a gente tinha a ideia, não
- 13:49tem rota direta, mas existia uma rota vertical aqui que a gente
- 13:53consegue todo ano ter ave vindo de lá para cá.
- 13:56Bom, mas na América do Norte não tinha nada.
- 13:58Então a gente estava mais ou menos tranquilo com relação a
- 14:01isso. Então conforme foi passando os
- 14:03anos, a gente procurou, fizemos várias expedições, a gente teve
- 14:06um projeto de pesquisa em alguns pontos do Brasil para captura de
- 14:11animais e aves silvestres, coleta de material biológico,
- 14:15envio para o laboratório e para a identificação.
- 14:18Nesse período, a gente não encontrou nenhum vírus de alta
- 14:22patogenicidade. E não tinha nenhum dado de alta
- 14:25patogenicidade. Quando eu falo alta
- 14:28patogenicidade, são aqueles que realmente causam grande
- 14:30mortalidade nas aves. No caso aí, o vírus H.C.N.U.
- 14:34Esse é o mais famoso, vamos dizer.
- 14:38Nessa época, tanto na América do Norte quanto na América do Sul,
- 14:41nós não tínhamos casos detectados de H.C.N.U.
- 14:45Bom... Mas a gente encontrou durante
- 14:47esse período, em dois mil e nove, dois mil e dez, dois mil e
- 14:50onze, dois mil e doze, todos esses anos, a gente tem
- 14:53monitoramento na região norte do país, região nordeste, região
- 14:56litorânea, região sul, lá no biquinho, lá quase no Chuí, que
- 15:00é onde a gente tem a grande concentração de aves migratórias
- 15:04aqui no nosso país. A gente, mais ou menos, chega
- 15:07entre dois a cinco bilhões de aves migrando nesse período
- 15:12todos os anos. Então essa movimentação existe e
- 15:17Na Europa, quanto na África, locais onde foram identificados
- 15:21H-V, eles conseguiram identificar nessas rotas
- 15:24migratórias em aves aquáticas. Então a nossa preocupação era,
- 15:28vamos detectar vírus vindo, subindo e descendo nessas
- 15:31regiões. Aí andando um pouquinho mais pra
- 15:35frente, quando chega mais ou menos em dois mil e quinze, a
- 15:40gente está falando de dez anos, desde quando teve o segundo
- 15:42surto de H-V na Ásia até mais ou menos em dois mil e quinze,
- 15:46chega o primeiro caso do vírus H-V na América do Norte.
- 15:51E eu, por acaso, eu estava fazendo uma parte do meu
- 15:53pós-doutorado lá no laboratório de especializado em influenza
- 15:56viária. E esse vírus chegou na divisa
- 15:59com o Canadá. E os Estados Unidos também tinha
- 16:02livre comércio de exportação, proteção das suas aves
- 16:06selvagens, monitoramento consistente.
- 16:08E esse grupo fazia monitoramento de vírus de baixa patogenicidade
- 16:12há muitos anos também. Inclusive a gente colabora e
- 16:16aprendeu muito com esse grupo. Só que quando esse H-V chega nos
- 16:20Estados Unidos em dois mil e quinze, eles têm um problema
- 16:23comercial muito grave. E aí começa a nossa contagem
- 16:28regressiva, monitorando esse vírus, porque ele conseguiu
- 16:33chegar onde tinha a rota migratória que chega aqui no
- 16:35nosso país. Então, de dois mil e cinco a
- 16:38dois mil e quinze, a gente procurou tudo que você imagina e
- 16:41não encontramos nenhum vírus, vários vírus de baixa
- 16:43patogenicidade de influenza. Aquela ideia se o passarinho, se
- 16:47a ave vinha voando e podia cair no meio do oceano, a gente
- 16:51percebeu que não acontece, ela realmente conseguia transpor os
- 16:54continentes, carreando o vírus, e agora ele estava mais próximo
- 16:59da rota migratória. Então de dois mil e quinze para
- 17:02cá a gente começou a monitorar isso, principalmente quando teve
- 17:05o grande problema, o embargo lá nos Estados Unidos.
- 17:08E desde então, a gente não via a disseminação desse subtipo de
- 17:13H-V espalhando, a não ser no continente, não, em todo o
- 17:19estado americano. Só que no finalzinho ali de dois
- 17:24mil e vinte e dois, mais ou menos, acho que novembro, aí
- 17:28surge uma novidade lá, um H-V, que na nossa cabeça, no começo,
- 17:34parecia com aquele de dois mil e quinze.
- 17:38Só que a gente percebeu que esse vírus tinha modificações,
- 17:41mutações diferentes, e o espalhamento dele causando uma
- 17:46perda, uma gravidade de infecção muito diferente do que a gente
- 17:51tinha visto antes. Então o Brasil passou a ser,
- 17:55quando os Estados Unidos perdeu essa posição de livre de
- 17:58influência aviária, o Brasil passou a ser o maior destaque de
- 18:02produtor e comércio de carne de proteína de ave.
- 18:09E aí desde então a gente começou a monitorar.
- 18:11E no ano de dois mil e vinte e dois inteiro, até vinte e três,
- 18:15a gente conseguiu visualizar praticamente o vírus andando,
- 18:19caminhando através de animais e rotas migratórias descendo para
- 18:25a América do Sul. Então isso dava até para
- 18:27observar em tempo real, porque o pessoal do Ministério da
- 18:31Agricultura, do Ministério da Saúde, o pessoal do FDA dos
- 18:34Estados Unidos, todo mundo estava visualizando quanto que
- 18:37esse vírus deslocava e qual era o caminho que ele estava
- 18:40fazendo. Então a gente conseguiu
- 18:42visualizar o vírus mais ou menos em tempo real chegando aqui no
- 18:46nosso país dessa vez. Então, se você pensar no H-V
- 18:50aqui pra gente, qual é o período mais crítico que a gente
- 18:53percebeu que ele realmente estava chegando, é aí do final
- 18:56de dois mil e vinte e um, vinte e dois, até a primeira detecção
- 19:00do H-V, que foi em maio de dois mil e vinte e três.
- 19:05Deixa eu te fazer uma pergunta assim, veja bem, a partir do
- 19:09momento que entrou nas nossas áreas migratórias, Essas
- 19:12monitorias, assim, teve alguma, vamos dizer, alguma infecção das
- 19:18migratórias para as nossas faunas nativas, a ponto de a
- 19:23gente se preocupar do vírus já não precisar de vir anualmente
- 19:27pelas aves migratórias e ele já está, de alguma forma, albergado
- 19:32aqui nas nossas aves, nas nossas nativas silvestres?
- 19:38Olha, essa é uma excelente pergunta e é uma das grandes
- 19:41preocupações que nós temos. Porque como ele foi detectado em
- 19:47ave migratória, numa ave que é um trinta réis, uma externa, na
- 19:51costa, ou seja, são aves oceânicas ali que ficam na
- 19:54beiradinha do nosso país, elas não têm esse costume de vir para
- 19:58dentro do continente. Então, nós consideramos que
- 20:04ainda está nessa área silvestre e só foi detectada nessas áreas.
- 20:08O que acontece é que nós temos o contato, nesses locais onde eu
- 20:12falei, tanto na região amazônica, região pantaneira,
- 20:15onde tem alagados, quanto no sul do país, onde tem áreas
- 20:18litorâneas com grandes concentrações, a gente tem de
- 20:22todas as espécies. Nós temos os maçaricos, que tem
- 20:25essa... essa movimentação desde o Alasca até quase chegar na
- 20:33Patagônia. Nós temos aves da Antártica, que
- 20:35chega também aqui na região sul. Mas o que acontece é que a gente
- 20:38viu dessa vez, que aí é a parte mais interessante desse subtipo,
- 20:44e ele foi classificado num subgrupo genômico diferente, na
- 20:49qual ele teve infecção de outros animais, não só de aves.
- 20:54Então ele acometeu mamíferos como nunca se visto antes.
- 20:58E aí entra uma segunda preocupação, que é a parte de
- 21:01saúde pública, que é uma preocupação que, para mim, é uma
- 21:06coisa que a gente estuda muito aqui.
- 21:08As nossas células estão muito mais próximas de um elefante
- 21:11marinho, de um lobo marinho, ou de um golfinho, do que de uma
- 21:14galinha. Diretamente, sendo bem simples.
- 21:20E a gente teve uma mortalidade de mamíferos, mamíferos grandes
- 21:23nos Estados Unidos, na costa do Peru.
- 21:26Nós tivemos recentemente a confirmação de mais de seis mil
- 21:29animais que foram infectados por esse subtipo de H.C.
- 21:34E que não era comum você visualizar isso nem lá na região
- 21:37asiática. Então é um vírus diferente.
- 21:40E aí esse vírus, quando chega aqui no Espírito Santo, ele está
- 21:43nessas aves. Ele acometeu uma parte da ilha
- 21:46no Espírito Santo, onde muitas aves foram infectadas. acabaram
- 21:51morrendo com sinais, com sintomas, e nós tivemos casos em
- 21:57mamíferos marinhos confirmados aqui também pelo Ministério da
- 22:00Agricultura. Então assim, a gente tem uma
- 22:04impressão de um silêncio aqui após agosto, setembro, porque as
- 22:09aves não estavam mais aqui, as migrações elas... ocorreram
- 22:13nesse período antes do meio do ano, mas a gente está recebendo
- 22:17aves novamente de volta. Esse vírus não deve ter saído
- 22:20daqui, desaparecido. Ele pode ter ficado em algum
- 22:26grupo de aves que a gente não está vendo.
- 22:28A gente monitora aves, isso é uma coisa importante para eu
- 22:32dizer, nós monitoramos aves saudáveis.
- 22:36Nós fazemos uma busca ativa em animais que estão saudáveis na
- 22:40natureza. Então você coleta material e
- 22:42solta o animal sem nenhum dano, tem todo um processo para evitar
- 22:46estresse e tudo mais, para analisar se ele está carregando
- 22:49o vírus enquanto ele está saudável, se ele tem esse poder
- 22:52de espalhamento. Agora, esses casos que foram
- 22:56identificados e mapeados são aves que tiveram sintomatologia
- 23:00e morreram com o vírus. Doutor Dias, antes da gente
- 23:03entrar nesse potencial zoonótico, que eu acho bem
- 23:06interessante, eles conseguiram, quando você disse que em dois
- 23:10mil e quinze, né, que eles conseguiram, entrou no Canadá,
- 23:14nos Estados Unidos, quer dizer, que normalmente a rota é sempre,
- 23:18como você explicou, norte, sul, sul, norte, né?
- 23:20Não tinha lateralidade aí, né? Mas quando entrou...
- 23:24No norte, esqueci de falar uma coisa, não tem lateralidade
- 23:27assim, mas nas regiões polares tem.
- 23:30Então lá na região do Ártico, em volta do Canadá, você tem rotas
- 23:34migratórias que cruzam nessa lateral e no sul, na região
- 23:39subantártica, você tem regiões migratórias que vão até a
- 23:43Oceania, África do Sul e voltam para cá.
- 23:46É isso que eu vim perguntar, eles conseguiram determinar como
- 23:50que entrou nos Estados Unidos? Mas foi essa lateralidade então
- 23:53ou não? Então, provavelmente, existem
- 23:56alguns trabalhos na época que foram feitos, que esse vírus
- 23:59tinha sido detectado em algumas aves na região da Coreia e na
- 24:03região asiática, um vírus muito similar.
- 24:06E depois detectado na Europa, e você tem migração de ave,
- 24:12movimentação nessa parte alta. e como ocorre também nessa parte
- 24:17sul. Em um determinado período,
- 24:20quando acontece o verão aqui, começa a esfriar lá nos polos,
- 24:25elas migram pra essa região. Então tem um período onde esse
- 24:29vírus chegou lá. E sim, chegou numa ave
- 24:32migratória, chegou provavelmente numa dessas rotas, na época foi
- 24:38um falcão e alguns marrequinhos, tem a espécie lá, um anatídeo.
- 24:43E aí, esses bichos morreram, identificaram nesses bichos.
- 24:47Em poucas semanas, pouquíssimas semanas, Ele foi identificado no
- 24:52comecinho, no final de dezembro. Em fevereiro, ele já estava
- 24:55espalhando no meio do Arkansas, ali nos Estados Unidos.
- 25:01Isso é realmente impressionante. Depois que entrou nos Estados
- 25:04Unidos, ele ganhou, vamos dizer, ele ganhou muito rapidamente.
- 25:09Uma velocidade... Olha, o prejuízo foi gigantesco
- 25:12e espalhou muito rápido. Vamos aprender com esses erros
- 25:16para isso não acontecer aqui com a gente.
- 25:18Agora, eu queria explorar essa questão aí que eu acho que deve
- 25:21até à questão humana, à questão de saúde pública, à questão do
- 25:24potencial zoonótico desse vírus. A gente, esse ano, viu vários
- 25:32relatos de várias, inclusive, vacas leiteiras sendo, sei lá,
- 25:40isoladas de vacas. Algumas pessoas que trabalham
- 25:44nessas, aí estou falando de gente mesmo, de humanos, que
- 25:47trabalham nessas vacas também, se acometeram, claro que não
- 25:49morreu ninguém, mas foram também isolados de humanos.
- 25:52Qual é que o mundo tem visto essa preocupação, de fato, desse
- 25:57vírus se adaptar e virar, vamos dizer, um vírus com potencial de
- 26:03acometer o humano? Olha, eu vou te dizer o que a
- 26:08gente imagina, mas são especulações que a gente...
- 26:12Isso pode acontecer como o vírus pode enfraquecer e não acontecer
- 26:16absolutamente nada. A nossa preocupação é você ter
- 26:20uma adaptação de um vírus que seja altamente patogênico.
- 26:24Então a gente percebeu que esse vírus é altamente patogênico
- 26:27para as aves, para algumas espécies de mamíferos, que a
- 26:31gente observou, mortalidade altíssima, E nós tivemos casos
- 26:36humanos, teve uma menina que faleceu, se eu não me engano, do
- 26:41Camboja, mas isso foi logo no comecinho da detecção desse novo
- 26:44vírus. E teve outros casos humanos, mas
- 26:48que não apresentou uma alta agressividade para essas
- 26:51pessoas. Então o que a gente percebe?
- 26:53Todos os casos que ocorreram de H.C.N.I. desse novo subtipo
- 26:58foram pessoas que tiveram contato direto com as aves.
- 27:01Então aí já é um ponto. O vírus até o momento não está
- 27:06adaptado às nossas células, ao nosso sistema humano, como
- 27:10aconteceu com o coronavírus, para que ele seja disseminado
- 27:13rapidamente. Então ainda assim nós estamos em
- 27:15um cenário bem bom. mas a gente está deixando com que isso possa
- 27:21vir a acontecer. Então, no caso das vacas, de
- 27:27novo, na América do Norte, quando se percebeu, já está
- 27:31disseminado em grande parte do rebanho.
- 27:34E eles já detectaram, inclusive, no leite.
- 27:37Sabe que passa no leite? Obviamente, o leite é
- 27:41pasteurizado, ele passa por um processo e o vírus é destruído.
- 27:46Mas ele ainda tem os resquícios do material genético ali que é
- 27:49possível detectar por biologia molecular.
- 27:51Então, você sabe que o vírus está circulando e está
- 27:54espalhando dessa forma, mas ele não está causando doença.
- 27:57Então, você tem vários outros modelos.
- 28:00Recentemente, teve um caso de um suíno que eles pegaram que
- 28:06também com o vírus H-V. E a gente, na nossa memória
- 28:09recente, nós tivemos a pandemia, que no começo foi chamada de
- 28:13gripe suína, e depois recebeu o nome de H-O-N, um pandêmico, que
- 28:18foi justamente a mistura desse vírus em suínos, um vírus
- 28:23aviário com um vírus suíno, que se adaptou muito bem às células
- 28:26humanas. Então, por enquanto, nós não
- 28:29temos essa adaptação aos receptores das nossas células
- 28:33para disseminar de pessoa para pessoa.
- 28:36Isso já é um ganho enorme. Então, pode ser que aconteça
- 28:40essa mistura se a gente continuar tendo infecções em
- 28:43outras espécies de animais, dando chance dessas misturas
- 28:46acontecerem. Porque o vírus da influenza,
- 28:49esqueci também de falar um detalhezinho, que é o seguinte,
- 28:52ele é muito diferente dos outros vírus que a gente conhece.
- 28:55Dentro dele, é um vírus arredondadinho, dentro dele você
- 29:00tem oito pedacinhos de RNA. E cada vez que esse vírus
- 29:03desmonta dentro de uma célula, de uma ave ou de um humano ou de
- 29:07um suíno, por exemplo, quando ele vai ser remontado, ele pode
- 29:11sofrer mutações. E se eu tiver, por exemplo, num
- 29:14suíno, dois vírus circulando ao mesmo tempo, eu posso pegar uns
- 29:19pedacinhos de um material genético de um, uns pedacinhos
- 29:23de outro, e quando eu tiver uma partícula nova, eu posso ter uma
- 29:26cepa epidêmica, uma cepa até pandêmica.
- 29:29Que foi exatamente isso que aconteceu com a gripe pandêmica
- 29:33de dois mil e nove, que é a pandemia do HONU.
- 29:38Então assim, a gente precisa bloquear esse processo de
- 29:42adaptação. Então temos que, as granjas
- 29:46hoje, o que eu vejo que era antigamente, quando a gente
- 29:49pensou nisso lá em dois mil e cinco, mais ou menos, que tinha
- 29:53um programa nacional de plano de contingência da gripe aviária.
- 29:57Eu até achei um livretinho aqui que eu ia mostrar para vocês.
- 30:02Isso aqui foi feito lá em dois mil e cinco pelo mapa do
- 30:07ministério. Um livretinho, eu nem sei se usa
- 30:09mais isso, hoje é tudo online PDF, mas é um manual de
- 30:14contenção da gripe numa época que a gente nem tinha o vírus
- 30:17aqui. Mas a gente estava preocupado
- 30:19que se chegasse, quais seriam as medidas que deveriam ser
- 30:22tomadas. Nós fizemos treinamento com
- 30:24vários grupos de veterinários, biólogos, agrônomos, pessoal que
- 30:28ficava no campo. Você sabe o que acontecia quando
- 30:31a gente ouvia falar de gripe aviária?
- 30:34alguma ave caia dura aqui no quintal de alguém, o pessoal
- 30:37ligava desesperado, olha, morreu de gripe aviária.
- 30:40Aí a pessoa não sabia o que fazer, pegava um saco, colocava
- 30:43o bicho dentro do saco, mandava pelo correio de qualquer jeito,
- 30:47chegava para o laboratório, ou para o lanago, ministério, ou às
- 30:50vezes até aqui, para a gente analisar, o bicho às vezes
- 30:53chegava até putrefado, não dava para fazer análise nenhuma.
- 30:56Então foi feito um plano de treinamento de como fazer uma
- 31:01colheita adequada desse material, quais são os
- 31:03equipamentos de biossegurança que você deve usar, já que é um
- 31:06vírus que pode ser transmitido por fezes ou por partículas no
- 31:11ambiente, se você entrar num aviário, um monte de ave morta,
- 31:15como é que você entra lá para fazer uma coleta ou uma
- 31:17compensação? Você tem que ter o EPI, você tem
- 31:19que ter proteção respiratória. E qual que é a parte que você
- 31:22vai usar para analisar ali? Você precisa de um suave, muito
- 31:26parecido com o que a gente fez na COVID, que era um suave nasal
- 31:29para saber a presença do vírus. Ou um pedaço de um tecido,
- 31:34normalmente da traqueia, normalmente do intestino do
- 31:36bicho, que é onde o vírus se replica melhor.
- 31:39Então esse cenário, ele já havia preocupação no Brasil mesmo
- 31:45antes dele estar aqui. E o que eu queria dizer era o
- 31:48seguinte, hoje eu vejo que a gente melhorou muito, tanto no
- 31:53planejamento, quanto nas atualizações, quanto na
- 31:56biosseguridade de alguns aviários, por conta do medo
- 32:00desse vírus chegar aqui no Brasil.
- 32:02E eu acho que se não tivemos casos ainda nas grandes
- 32:06aviários, é porque o nosso plano de cuidado e contenção está
- 32:14muito bem estabelecido. Eu não sei se isso é uma
- 32:21valorização, mas acho até melhor do que dos norte-americanos na
- 32:24época que chegou o vírus lá. Com certeza.
- 32:28Doutor Dens, já finalizando aqui, antes de a gente
- 32:32finalizar, eu queria assim, você alertou, estamos no início do
- 32:37período onde as aves migratórias começam a chegar, cada ano vai
- 32:43ser uma surpresa, como você falou muito bem, todos os
- 32:45alertas estão ligados, Mas eu gostaria que você reforçasse
- 32:49algumas medidas que você acha que as empresas têm que tomar,
- 32:53já para, é claro que não pode baixar a guarda em nenhum época
- 32:57do ano, mas como agora nós estamos no início desse período
- 33:02de receber essas aves migratórias e a gente não sabe o
- 33:05que vem por aí, talvez alguns cuidados que você pudesse
- 33:08recomendar para os sanitaristas, para os veterinários, pessoal de
- 33:13granja, reforçar os cuidados, você falou muito bem, o nosso
- 33:18sistema de bioseguridade, protocolos, não devem a nenhum
- 33:22outro país, a gente fez, está no nosso dever de casa, muito bem
- 33:25feito por sinal, mas que dica você poderia dar de reforçar
- 33:29essa bioseguridade, exatamente pensando nessa época do ano?
- 33:34Veja, eu vejo muito essa biosseguridade que os aviários
- 33:38têm, a gente tenta manter isso, a mesma ideia de biossegurança
- 33:42para dentro do laboratório. Então aqui eu tenho um
- 33:46laboratório de biossegurança nível três, eu tenho
- 33:48equipamentos com capacetes, expiradores, proteção, máscara
- 33:52para trabalhar dentro desses laboratórios, mas se eu não
- 33:56tiver um procedimento adequado, esses equipamentos não servem
- 33:59para absolutamente nada. Então, uma das coisas que a
- 34:02gente sabe é que você pode ter toda a sua granja, sua
- 34:06biosseguridade cercada com todos os equipamentos, ventilação,
- 34:10desinfetante, tudo. Se você não tiver uma equipe
- 34:12treinada com procedimento adequado, essa pessoa pode
- 34:17acabar carreando o vírus lá pra dentro.
- 34:19Então, a nossa preocupação anteriormente era se as aves
- 34:23migratórias conseguiam chegar nos aviários.
- 34:26Na época, eu visitei diversos aviários no Brasil e eu vi que
- 34:29conseguia chegar. As aves conseguiam atravessar
- 34:32porque as telas eram muito grandes na época, você não tinha
- 34:36um padrão. Hoje, com base nesses anos,
- 34:43aumentou-se a preocupação de não deixar mesmo.
- 34:46Tivemos um caso de doença de Newcastle agora no meio do ano,
- 34:50que a origem é de pigeon, é pombos.
- 34:54E se você tiver pombo perto do seu aviário, você tem que ter
- 34:58uma grande preocupação com uma doença que ela nem vem por rota
- 35:01migratória, ela já foi identificada, por exemplo, aqui
- 35:04no Brasil. Então é uma doença de alerta que
- 35:07as mesmas medidas podem ser utilizadas para proteger sobre a
- 35:12gripe aviária, que o embargo econômico talvez seja muito
- 35:17maior, mas nós já mostramos que temos condições de alertar,
- 35:21identificar, controlar, fazer todo o processo de isolamento e
- 35:28recuperar, proteger regionalmente.
- 35:30Então, isso são medidas importantes.
- 35:34Outra medida importante é a gente pensar que...
- 35:39conscientizar a população mesmo. A gente viu que, por exemplo, no
- 35:42Peru, onde teve os casos em pelicanos, que é uma ave
- 35:45gigante, grande, saudável, nunca teve tanta mortalidade de uma
- 35:50ave desse tamanho, desse porte, junto com os leões marinhos na
- 35:53praia, um monte de bicho morto na praia e a população, os
- 35:58banhistas, circulando tranquilamente.
- 36:01Então, se não tiver uma orientação, uma informação de
- 36:05qualidade para a própria população que pode chegar
- 36:08próximo desses animais, que porventura venha a morrer com o
- 36:12vírus, a gente abre portas para que essa mistura chegue, não
- 36:16pelo aviário, mas vai chegar em uma pessoa, pode se disseminar
- 36:20posteriormente. A porta de entrada pode ser por
- 36:24outros caminhos. Então, essa conscientização,
- 36:27quando chegou aqui em... em maio, eu lembro que tinha muitas
- 36:30propagandas, se achar ave morta, por favor, não toque no bicho,
- 36:36chame a defesa, avise o órgão responsável do seu município.
- 36:41Esse tipo de informação é muito importante, sabe, para as
- 36:45agências estarem à frente disso daí, para que a gente não tenha
- 36:49nada bem perto do que foi a Covid-dezenove ou a gripe do
- 36:53H.U.N.U. em dois mil e nove. É, gente, eu acho que, vou
- 36:56reforçar o alerta que o Dr. Jensen está nos fazendo aí, eu
- 36:59concordo claramente com você, a conscientização é super
- 37:02importante, as pessoas, né, nós que estamos envolvidos na
- 37:05agricultura temos que ter essa consciência, não adianta, como
- 37:07você fala, dar todos os protocolos todos feitos e a
- 37:10gente vazar isso numa situação por falta de conhecimento ou por
- 37:14falta de cuidado. Então, esses dois recados que
- 37:17você traz são muito importantes e está na hora, né, de a gente
- 37:21aumentar o nível, já que nós estamos aí nesse início das
- 37:23rotas liberatórias, né. Bom, Dr. James Araújo, aqui da
- 37:28USP, muitíssimo obrigado aqui pela sua entrevista, muitíssimo
- 37:31obrigado pelas informações. Mas antes de terminar, eu
- 37:34queria, assim, a gente gosta aqui nos nossos episódios, a
- 37:39gente gosta de sair um pouco dessa área técnica e tal, de
- 37:43falar de doença, para conversar um pouquinho mesmo.
- 37:47E a gente gosta de falar aqui, eu tenho uma pergunta que é
- 37:50clássica nossa aqui, é como que você, e aí já dando recados para
- 37:54a moçada que nos acompanha, a gente tem um público jovem que
- 37:57está nos acompanhando, bem importante, Como você enxerga um
- 38:01profissional de sucesso? Você que já relatou a sua
- 38:04trajetória, que lá na infância você já tinha esse dispersar
- 38:07para essa questão aí do DNA e fez a sua carreira e hoje é
- 38:11professor na Rússia, né? focou, brigou, suou a camisa e
- 38:19faz hoje o que gosta. Como é que você enxerga?
- 38:22Que recado a gente pode dar para as pessoas que estão se
- 38:24reposicionando também no mercado?
- 38:26Como é que você enxerga essa questão do profissional de
- 38:29sucesso? Tá, isso eu acho que eu ainda
- 38:34estou, eu até agradeço, se eu considerar que eu ainda estou no
- 38:39sucesso, eu acho que eu ainda estou caminhando para melhorar,
- 38:42mas eu sempre almejei muito ser um cientista, eu sempre gostei
- 38:46muito da área de ciência, desses estudos, então uma das dicas que
- 38:51eu acho é você realmente ter perseverança para você não
- 38:54desistir das coisas que você acredita.
- 38:57Você colocar um objetivo, eu queria estudar vírus a qualquer
- 39:02custo, fazendo uma área técnica ou não, porque isso me
- 39:06interessava, eu tentava ler alguma coisa relacionada e
- 39:10buscando pessoas que pudessem me dar conhecimento.
- 39:13Então na época a gente não tinha internet como a gente tem hoje
- 39:16com Google e chat de EPT que você coloca, tudo aparece ali e
- 39:21você tem que filtrar. Eu tinha que buscar informações
- 39:24com pessoas que eu me identificava.
- 39:28Então eu tive muita sorte, obviamente, de ter grandes
- 39:32professores que me ajudaram a trilhar o caminho do que eu
- 39:36estava querendo. Então eu pensava, eu quero
- 39:39trabalhar com animais silvestres, porque eu tenho uma
- 39:42habilidade com isso, eu tenho disposição para ir a campo,
- 39:45porque trabalho de campo... Eu falei de capturar ave
- 39:49migratória, parece tudo muito bonito, as aves são muito
- 39:52lindas, mas é um trabalho muito difícil de fazer, é um trabalho
- 39:55muito árduo. Você tem que ficar longe da
- 39:57família, você tem que, às vezes, ficar acampado no lugar.
- 40:01Tem outras coisas que a gente não conta.
- 40:04A gente só conta a parte boa, que achou o vírus e tudo mais.
- 40:08Então, isso é uma coisa que eu digo que é perseverança mesmo,
- 40:10você acreditar naquilo que você quer fazer e procurar as pessoas
- 40:15que você... acha que posso te ajudar com sabedoria e poder pôr
- 40:21você isso para frente. Eu acho que a juventude hoje tem
- 40:24muito mais acesso à informação do que a gente tinha na época.
- 40:28Então eles têm uma vantagem aí, o que precisa é às vezes filtrar
- 40:31e procurar e não desistir desse caminho que eu acho que dá para
- 40:35chegar. Mas eu ainda estou trilhando
- 40:39esse caminho, viu, Marcos? Eu estou buscando ainda muitas
- 40:43coisas. A gente está sempre aprendendo,
- 40:46né? Hoje aqui mesmo eu tive uma aula
- 40:48enorme aqui sobre os filhos. Muito bem, senhor Araújo.
- 40:52Novamente, muito obrigado, certo?
- 40:55Pela esse papo gostoso aqui, da gente trazendo informações sobre
- 40:59essa ação que está tão em voga aqui na agricultura, essa
- 41:03preocupação. Não tem hoje nenhum empresário,
- 41:05não tem nenhuma empresa hoje que não perca algumas noites de sono
- 41:09pensando na influenza viária. Então, quanto mais informação a
- 41:12gente tem, quanto mais a gente conversa sobre essas ações, E aí
- 41:20executar e colocar em ação as medidas preventivas para a gente
- 41:24continuar livre dessa doença que realmente tem um potencial de
- 41:27causar um prejuízo enorme. Então, realmente, muitíssimo
- 41:30obrigado. Eu deixo você fazer as suas
- 41:33considerações finais. De novo, te agradecendo e
- 41:35parabenizando pelo seu trabalho no teu laboratório, ajudando o
- 41:40Brasil a mapear esses pontos de encontro desse vírus.
- 41:44É todo esse cabedal de conhecimento que a gente vai nos
- 41:47possibilitar fazer os nossos planos de prevenção mais
- 41:51efetivos e mais eficazes. Então, muitíssimo obrigado, eu
- 41:55deixo você fazer as suas considerações.
- 41:57Professor, é um prazer, muito obrigado, eu agradeço, eu acho
- 42:01que é uma retribuição aqui da gente da universidade, poder
- 42:06estudar um pouquinho mais a fundo sobre a história desses
- 42:09vírus, de como eles se comportam, como eles modificam,
- 42:13como eles mutam, o que eles podem trazer de prejuízo, ou o
- 42:16que a gente pode fazer, a gente estudando, a gente pode fomentar
- 42:20depois produção de vacina, medicamentos, tem outros estudos
- 42:24que a gente faz aqui no Paralelo.
- 42:27A gente trabalha em parceria junto, tudo isso que eu contei
- 42:30para você, a gente não fez sozinho, obviamente.
- 42:33A gente tem parceria com grupos do pessoal do Ministério da
- 42:36Agricultura, as confirmações dos resultados.
- 42:39Nós temos trabalho com o pessoal do IBAMA, na maioria das vezes
- 42:42eles vão a campo junto com a gente para poder auxiliar nesse
- 42:46processo todo. Então, é um trabalho longo,
- 42:51árduo, mas é apaixonante a gente poder trabalhar e contribuir de
- 42:55alguma forma para a sociedade. Há bastante tempo eu dizia em
- 43:00várias palestras que se o vírus da influência aviária chegasse
- 43:04no Brasil, seria por rotas migratórias em aves silvestres.
- 43:09E na época poucas pessoas davam bola pra isso que eu dizia.
- 43:13E aí quando a gente vê o vírus vindo nesse sentido é porque tem
- 43:18um estudo, tem ciência, tem trabalho de anos, anos, anos
- 43:23monitorando isso acontecer. Pessoal, estamos finalizando
- 43:27mais um episódio do nosso podcast O Aviário e a gente
- 43:30gostaria de fazer um convite a todos vocês que têm nos
- 43:32acompanhado para que mandem sugestões para o nosso canal de
- 43:36novos entrevistados. A gente quer aumentar aí a nossa
- 43:40rede de contato e todas aquelas pessoas que vocês conhecem, que
- 43:43têm vínculo com a avicultura, serão muito bem-vindos como
- 43:46indicação para os nossos próximos episódios.
- 43:48Eu vou deixar com vocês aqui o nosso e-mail de contato para que
- 43:52vocês possam fazer as indicações.
- 43:55O nosso e-mail vai aparecer aqui na tela escrito, chama
- 43:58hello.wisenetic.com.br. A gente aguarda a indicação de
- 44:05novos nomes de vocês. Muito obrigado e até o nosso
- 44:07próximo episódio. Tchau, tchau.