Latest / Surra de Lúpulo / Cervejas Selvagens procurando um lugar à mesa – Os desafios para brilhar nas adegas de restaurantes. Com Patrícia Brentzel e Bruno Bertoli. Mediação de Carolina Chieranda | Encontro Selvagem T2 Ep.013
Transcript
- 0:07Encontro o selvagem, fermentando a brasilidade
- 0:11através dos líquidos. Vamos falar de vinho natural,
- 0:26como isso se mistura na semeleria, no serviço, com
- 0:30essa selvageria que estamos presenciando por aqui?
- 0:33Fiquei à vontade. Bora.
- 0:35Bom gente, boa tarde pra todo mundo. Eu
- 0:37sou a Carol Queranda, sou melhair de cervejas. Eu
- 0:41trabalho nesse mercado de cervejas selvagens também,
- 0:43mas do lado das lambiques, junto com a Décio, na
- 0:46Lambique Brasil. Vou fazer a mediação desse papo
- 0:49com a Pátria e com o Bruno. Quero
- 0:51agradecer e abraçar pelo convite. Achei
- 0:53chique, estou muito honrada. Eu
- 0:56tochando chique. A gente infiltrado aqui na
- 0:59cerveja. É tudo que eu queria. Bom,
- 1:03vamos lá. Eu vou pedir pra vocês se
- 1:05apresentarem, por favor, que o Bruno e a Patrícia têm
- 1:08como atividade principal os vinhos naturais e
- 1:11biodinâmicos. Então, o que vocês contassem um
- 1:14pouco da trajetória pessoal de vocês? E
- 1:16já começando na primeira pergunta, vocês que são no
- 1:18mundo dos vinhos, o que vocês viram na cerveja
- 1:21selvagens que fizeram com que vocês acreditassem nesse
- 1:24mercado e quisessem trabalhar com esse tipo de
- 1:26produto? Bom, tem tempo pra contar a
- 1:29história? Tem tempo. Eu
- 1:31sou da época que era tudo mato. É,
- 1:34exatamente. Acho que o mais legal que eu
- 1:37consigo enxergar na minha trajetória é que eu comecei
- 1:40pela escola convencional. Então
- 1:41eu estudei na BES, enfim, nas escolas convencionais,
- 1:45aprendendo sobre vinho convencional. E
- 1:48aí, depois de dez anos, eu tenho vinte no vinho. Todo
- 1:52mundo já vai perceber. Mas a Melanina ajuda. Aí
- 1:57eu comecei a me desconectar, porque pra mim
- 1:59não fazia muito mais sentido, não só os vinhos,
- 2:02mas também todo o rolê do... Eu
- 2:05acho que quando a gente tá falando de vinho natural, a
- 2:07gente tá falando muito mais do que vinho. A
- 2:09gente tá falando sobre pessoas, sobre
- 2:11ancestralidade. Então eu realmente comecei a
- 2:14fazer a transição da minha carreira. E
- 2:16aí, hoje em dia, eu posso me dar o luxo de trabalhar
- 2:20só com isso. Foi muito duro eu conseguir
- 2:22fazer essa transição, que a gente brinca, né? Mas
- 2:24a gente fala assim, a indústria que paga o
- 2:26boleto, né? Porque a gente tá num país que
- 2:29não bebe vinho, isso é fato. Todo
- 2:31mundo ficou meio achando ali na pandemia que não,
- 2:34agora vai, né? Eu principalmente tava em casa
- 2:37vendendo vinho natural e a galera querendo conhecer. E
- 2:41eu vendendo pra caramba e eu falei, nossa, agora
- 2:43mudou tudo, não mudou, né? Foi
- 2:45só um sustinho que aconteceu ali, a galera já
- 2:48retrocedeu. Mas sim, teve um avanço. E
- 2:51aí, quando a gente fala desse mundo das cervejas,
- 2:55né? Principalmente das cervejas assas, de
- 2:57fermentação espontânea. É o que ele falou agora
- 3:00nesse papo que a gente teve. Tem
- 3:02muito match, né? Tem match sensorial e a gente
- 3:05tem que trazer essa galera porque é uma reeducação na
- 3:09minha visão. Então, quando eu falo com os
- 3:12clientes, eu percebo que eles têm medo. Então
- 3:15eu pego na mão de cada um deles e vou conduzindo pra
- 3:19esse caminho pra que ele não tenha de princípio uma
- 3:21má experiência, uma experiência que seja já
- 3:24muito radical, mas que ele consiga, justamente, se ele
- 3:28gosta de beber, se ele gosta de comer, começar a
- 3:31entrar nesse universo de uma forma mais fácil. E
- 3:33aí, Bruno, não, e você? Bom,
- 3:36eu sou também como a Patrícia Somelier, também
- 3:40como ela, dedico exclusivamente aos índios
- 3:42naturais, já é um caminho esse de 15 anos. Eu
- 3:45defendei a Patrícia com 19, foi a primeira taça quando
- 3:49eu tava fazendo universidade ainda na Itália e foi pra
- 3:51mim uma epifania da qual talvez eu nunca me
- 3:54recuperei. E até poética, né? Nunca
- 3:58me recuperei, eu não quero me recuperar, por favor. Tá
- 4:01dando um constante, né, de catáceo desde então. Lembra
- 4:04até hoje como foi a taça, era um grilo do Nino
- 4:06Baraco, um produtor de Marshal, né? Na
- 4:08época eu tava custando sensação política, porém,
- 4:10uma parte da minha vida adulta na Europa, entre
- 4:12França e Itália. E, enfim, eu morei lá total
- 4:1510 anos, mas durante 8 anos, depois da minha
- 4:17formação, pedia, era sensação político, e de
- 4:20noite, Somelier. Sempre fui achando algum trabalho
- 4:23ligado aí, acompanhando Vinji, mas acompanhando
- 4:25produtores, visitando, construindo repertório. Eu
- 4:27voltei pro Brasil pra uma outra razão, mais ligada a
- 4:29meu trabalho como cientista político, mas acabei não
- 4:31conseguindo escapar e me enveredê de novo pelo Vinho
- 4:34aqui. Foi um percurso que começou num
- 4:37restaurante saudoso já afinado, que é o Capitbara,
- 4:40depois que consolidou com o Beverino, que hoje é o meu
- 4:44espaço, então é um híbrido entre barra e restaurante,
- 4:47também loja dedicado só a vinhos naturais, e, às
- 4:49vezes, nossa comida também espelha esse princípio,
- 4:52então a gente trabalha só com ingredientes pequenos
- 4:53produtores, é quase totalidade orgânica. No
- 4:56campo de como que, enfim, ao longo desses anos aqui,
- 4:59e é uma coisa que também veio emergindo, eu acho que
- 5:02foram paralelas, talvez um pouco mais incipientes
- 5:04relativamente ao vinho natural, não sei se a
- 5:05Patrícia concorda comigo, foi algo que foi
- 5:07consolidando aos poucos, foram aparecendo. Eu
- 5:09ainda acho que comparativamente com a
- 5:10variedade de vinho natural que a gente tem ainda é
- 5:12muito mais reduzida a variedade de cerveja de
- 5:13fermentação espontânea, mas é uma coisa que está
- 5:16ganhando tração. No Beverino eu busco muito
- 5:18trabalhar elas primeiro, porque é uma coisa que me
- 5:20estiga muito para um divista agustativo,
- 5:22relativamente as cervejas de fermentação espontânea, para
- 5:25mim é uma coisa que se abre, perfil de assidês, a
- 5:28versatilidade para a gente traçar a harmonização, então
- 5:31eu busco muito ter uma variedade disso na carta,
- 5:34trabalhar e apresentar para as pessoas. Eu
- 5:37acabo pensando talvez que tem que sempre fazer um
- 5:40certo esforço de fazer com que isso se dê no cliente
- 5:42de forma contextual, mas é um trabalho no qual eu
- 5:45vejo muito potencial. É, e o que eu percebo muito
- 5:48é que muita gente ficou traumatizado, eu acho muito
- 5:52triste, porque essa coisa do vinho natural é uma
- 5:54coisa que assim como na cerveja, muita gente está
- 5:58aprendendo, quem vem de uma indústria que tem muita
- 6:02gente, que vem da indústria e vai para um pequeno
- 6:04projeto e fala assim, não quero mais, só sei aquilo
- 6:07que eu aprendi, tudo que não era para fazer, é
- 6:09real. Então assim, eu vejo que esse
- 6:11tipo de profissional ele tem um pouco mais de
- 6:13controle quando ele vai fazer um vinho natural, ele
- 6:15não precisa intervir, mas ele tem controle do que
- 6:18ele está fazendo. E aí quem só decidiu fazer e
- 6:22ficou trocando ideia, tem super o seu valor, mas aí
- 6:26assim, óbvio que várias coisas não saíram tão bem,
- 6:28a gente sabe. E é isso meio que traumatizou
- 6:32um pouco, então é muito, eu acho que quando a gente
- 6:34está falando de cerveja ácida, eu fiquei muito
- 6:35feliz de estar aqui, que todo mundo abraceva, todo
- 6:39mundo me convidou, é porque eu acho que tem que ter
- 6:40esse cuidado nesse momento da introdução desse tipo de
- 6:44cerveja nos bares e restaurantes. Então
- 6:46assim, a gente está falando de uma série de coisas,
- 6:49né, primeiro a educação de quem está trabalhando com
- 6:51isso, então a gente tem que formar essas pessoas,
- 6:53porque senão é isso, né, no natural está todo mundo
- 6:56já falando um monte de groselha. E
- 7:00tudo é natural, e aí você fala assim, não, mas pera
- 7:02aí, não é tudo, é, então assim. E
- 7:04tudo bem, tudo não ser natural também. E
- 7:06tudo bem, tudo bem, daí daqui a pouco o sufito
- 7:09virou o grande vilão e aí você fala assim, tá, e eu
- 7:14trabalho muito com o consumidor, eu trabalho com
- 7:16o restante, eu tenho várias prentes de trabalho, né, e
- 7:18aí de repente eu estou com o consumidor final, o
- 7:20consumidor está assim, tem sufito? A
- 7:21primeira coisa que a pessoa pergunta é ela nem sabe,
- 7:23né, o que que é, então assim, tem várias coisas
- 7:26que se tornaram, sabe, uma coisa negativa com relação
- 7:30a as vinhos naturais, que a gente agora precisa
- 7:33consertar, porque isso afasta as pessoas, né,
- 7:36então se a gente já não está num país, consumidor
- 7:38divinho, e se a gente quer ainda propagar essa
- 7:40história, a gente vai ter que fazer alguma coisa, e
- 7:43é o trabalho que a gente faz, que eu faço, Bruno
- 7:45faz, que a naturebas faz, né, que o movimento, né,
- 7:49que a gente está desde o início participando, enfim,
- 7:52eu acho que é esse cuidado que quando a gente está
- 7:55falando das cervejas, a gente, que vocês, né, e eu
- 7:57já estou me incluindo, que eu já estou infiltrada, é,
- 8:00acho que é importante ter, né, da gente formar,
- 8:02principalmente pessoas, possam proporcionar para o
- 8:05consumidor a experiência e instigar essa experiência,
- 8:09né, porque eu, por exemplo, e acredito que o Bruno
- 8:11também no espaço dele, a gente vende um encantamento,
- 8:14então quando eu dou treinamento para uma
- 8:15brigada, eu falo assim, gente, eu quero vocês, ó,
- 8:18rindo, felizes, entendeu, não precisa ser um
- 8:21somelher, que sabe tudo, tudo, tudo, tudo, tudo,
- 8:25tudo, você precisa saber, você precisa estudar, é
- 8:27óbvio, não estou tirando esse, né, mas a gente
- 8:30precisa ter essa alegria quando a gente vai falar
- 8:33disso, encantar a pessoa, e aí você já anda mil passos
- 8:38com ela, porque a pessoa já vai falar, pô, a parte
- 8:41que está aqui com essa alegria toda, já pegou na
- 8:42minha mão, então eu vou, sabe, eu vou, porque se eu
- 8:46estou lá despreparado, sozinho, eu vou tomar a
- 8:49alamos malbec, e não podia falar marcas, só que ela
- 8:52não fala assim, eu sempre falo. É,
- 8:56mas eu acho que esse fator do entusiasmo ele é
- 8:58fundamental, né, para a gente imprimir para o
- 9:00cliente e facilitar, porque eu acho que está
- 9:03trabalhando com produtos caros, então tem que
- 9:05transmitir uma segurança, eu acho que a gente estava
- 9:08falando aqui, traçar esses dois pontos que eu acho
- 9:10que são interessantes, tem uma ter posição entre o
- 9:11entusiasmo e o conhecimento, né, tem que ter uma
- 9:13solidez, um certo domínio sobre o material, acho que
- 9:15é fundamental, e quando a gente está falando da
- 9:17cerveja também é fundamental, e esse aspecto
- 9:19entusiasmo, no campo do serviço eu acho que
- 9:22transmitir as duas coisas de alguma forma, e daí
- 9:24cada se somelhar, cada profissional de sala vai
- 9:27ter o seu estilo, mais ou menos formal, enfim, mas
- 9:30isso é fundamental, e pensando no campo do que a
- 9:33gente estava falando antes, no consenso do coletivo, de
- 9:35um movimento, né, o que aconteceu com o entusiasmo,
- 9:37eu acho que é, acaba muitas vezes deixando com
- 9:40que o entusiasmo ofusque a parte que é importante
- 9:43também, que é divulgação, conhecimento, consolidar as
- 9:46noções nas pessoas do que as coisas são as coisas,
- 9:47né, porque com o entusiasmo natural acaba, a parte que
- 9:49estava falando, a gente sofre um pouco desse
- 9:50problema, primeiro que é um mercado que no Brasil acho
- 9:53que explodiu um pouco do nada, então muitas coisas
- 9:56apareceram, e as pessoas não tinham ainda critério
- 9:59para entender, né, então muitas pessoas foram
- 10:01introduzidas, levadas por entusiasmo para se aproximar
- 10:04a isso, mas acabaram tendo uma má experiência porque
- 10:06não tinham alguém para mediar esse contato, e
- 10:08talvez levar elas para coisas que fossem
- 10:10introduções, não sei, é, introduções, experimentos,
- 10:14mas introduções que fossem graduais, que respeitassem o
- 10:17padar da pessoa, porque a gente está sempre falando,
- 10:19não sei, quando chega um cliente novo no beterino,
- 10:21que nunca tomam um vinho natural, nunca tomam uma
- 10:23cerveja para uma interação espontânea, tem que ter um
- 10:25certo cuidado da gente primeiro fazer uma leitura,
- 10:27eu acho, de qualquer disposição ao
- 10:29experimentalismo daquela pessoa, né, como que se
- 10:31articulou para lá dela, porque pode ser uma pessoa
- 10:33que tem um repertório muito ligado a coisas clássicas,
- 10:36mas tem vontade de experimentar algo novo e
- 10:38até bem diferente, tem pessoas que não, então essa
- 10:40leitura é sempre fundamental e daí a partir disso a
- 10:43gente vai lá e vê, poxa, vou traduzir algo mais
- 10:45clássico para essa pessoa, algo que não foge tanto
- 10:47daquela paisagem aeromática que ela está acostumada, ou
- 10:50vou talvez apresentar algo mais de vanguarda, algo
- 10:52mais diferente, algo mais nos estados, tem sempre
- 10:55esse cuidado, porque senão a gente acaba perdendo,
- 10:57não, uma pessoa que potencialmente podia ser um
- 10:59cliente que ia voltar e que ia frequentar outros
- 11:01lugares e comprar de outros parceiros também, né, essa
- 11:03introdução inicial, ele tem um tato receio, né, que é
- 11:06um preconceito. Eu vou aproveitar esse gancho,
- 11:09já que a gente está falando de consumidor final,
- 11:11né, restaurante, enfim, ontem eu estava acompanhando
- 11:14a cobertura da PRI e ela estava fazendo uma pergunta
- 11:16para as pessoas que eram como elas definiam o
- 11:18serveja selvagem e a maioria dos entrevistados
- 11:21falaram que era uma das perguntas mais difíceis, né,
- 11:24então realmente é um produto difícil de se
- 11:26definir, sendo difícil de se definir. E
- 11:28aí você vai perguntar isso para a gente, é isso? Ah,
- 11:31bom, só para saber. Eu quero saber de vocês, o
- 11:34que vocês acham que o consumidor espera quando
- 11:36você oferece esse tipo de produto, por exemplo, o
- 11:38cara está sentado numa mesa num restaurante e você
- 11:41resolve oferecer uma serveja selvagem, o que você acha
- 11:44que expectativa que ele cria sobre o produto? A
- 11:47gente... Cri, cri, cri. É,
- 11:51acho que já, assim, a gente foi passar só do
- 11:53plano terminológico, né, já... Um
- 11:55pouco como o Vinho Natural também, é um nome que
- 11:57pegou, mas é um nome que muitas pessoas achavam que
- 12:00às vezes suscitava debates as vezes necessários, né,
- 12:04sempre vai ter chuzão que vai chegar e dizer, ah,
- 12:06mas tudo é natural, tudo é Vinho Natural, né, tudo é
- 12:08Vinho. É, tudo é natural. Então
- 12:10a gente sempre tem que pensar, né, por exemplo, se
- 12:12eu for vender uma serveja de fermentação espontânea,
- 12:13um termo talvez não ser vendendo mais serveja
- 12:15selvagem, eu já vou criar uma predisposição de uma
- 12:17pessoa por uma coisa mais constrada, mais diferente,
- 12:19né, já essa questão de explorar a terminologia, eu
- 12:21não acho que precisa esgotar, não precisa
- 12:23consolidar um termo em relação ao outro, acho que
- 12:24existirem mais termos que estão existindo e
- 12:26cohabitando e possam permitir o uso deles em
- 12:29diferentes contextos é algo melhor, mas eu acho que
- 12:32pensando talvez que a gente está num contexto de Vinho
- 12:33Natural, a pessoa vai esperar algo diferente, se
- 12:35ela for um pouquinho mais informada ela vai estar
- 12:38buscando a certeza, eu acho que é fundamental, porque a
- 12:40coisa que pra mim é o grande diferencial, né, e o
- 12:43que faz pra mim, não sei, um potencial pra
- 12:46harmonização, uma versatilidade, né, pra
- 12:47harmonização maior, então é isso, eu acho que depende
- 12:51disso, né, se a gente for falar selvagem, eu acho que
- 12:52a gente tem que falar pra aquele cliente lá, mas
- 12:54disposto pra experimentar isso. É
- 12:57esse termo, né, é, tipo, a pessoa já vai falar, meu
- 12:59Deus, então é isso, a pessoa precisa tá aberta,
- 13:04eu acho assim, é óbvio, se a pessoa te vai aberta, é
- 13:06melhor ainda, mas eu gosto de instigar essa coisa da
- 13:08pessoa, tipo, não, você tem que provar, então você não
- 13:11pode, tipo, não provar uma coisa dessa, sabe, eu acho
- 13:15que sim, a pessoa vai ter essa expectativa de uma
- 13:17coisa muito diferente, sim, mas a condução pra mim é
- 13:20a grande questão, a condução desse caminho de
- 13:23você trilhar a pessoa e assim, eu acho que, por
- 13:26exemplo, eu gosto muito de fazer evento em restaurante,
- 13:28porque eu atendo os restaurantes, mas eu atrelo
- 13:31o meu serviço, né, treinamento pra brigada, mas
- 13:33também pra fazer um selal, o que é, eu faço a venda,
- 13:36mas eu quero que a pessoa venda, eu não quero, tipo,
- 13:39fazer a venda e largar lá, então eu percebo que muitos
- 13:41restaurantes, às vezes eles não têm muito essa coisa
- 13:43do evento bem amarrado na cabeça, né, tipo, quanto eu
- 13:47cobro, quantos rótulos eu sirvo, que prato, e eu amo
- 13:52fazer isso, meu primeiro evento eu fiz na
- 13:53maternidade, é fato, eu tava lá na maternidade, eu
- 13:56vou fazer um evento, então pra mim isso é muito
- 13:59fácil, eu faço com o pé nas costas, eu falo, cara,
- 14:01vamos fazer assim, vamos escolher três rótulos,
- 14:03quatro rótulos, colocar esse prato, vamos fazer um
- 14:06teste, vamos nomear de tal jeito, então assim, isso
- 14:09também faz com que seja um caminho pra pessoa já
- 14:13entrar num outro lugar, né, que aí você não vai beber
- 14:16a cerveja solo, nem o vinho natural, mas você vai
- 14:21ter aquilo harmonizado, e a harmonização pra mim é um
- 14:24grande lugar, assim, que a pessoa, eu que essa gente
- 14:28tava falando, tipo, a pessoa que gosta de comer
- 14:30e gosta de beber, ela vai ter um deleite ali, sabe,
- 14:34então isso já é também uma forma de você pegar pra
- 14:36pessoa e falar, não, vem aqui que você vai ter uma
- 14:38experiência, é vender experiência, né. É
- 14:41porque tem isso, né, talvez esse também eu acho que é
- 14:43um desafio, a gente tá falando de um desafio
- 14:45semântico, a questão quase do alternologia a adotar,
- 14:48eu acho que é de lidar com o contexto no qual as
- 14:50pessoas costumeramente associam o consumo de
- 14:52cerveja ainda num senso comum, né, mesmo daí no
- 14:55restaurante, né, então a gente tá falando de um
- 14:58produto que vai ser mais caro, e vai tá num
- 14:59contexto no qual ela, poxa, mas eu tô aqui no
- 15:01restaurante com uma experiência mais formal,
- 15:03talvez, né, buscando sofisticação e daí a pessoa
- 15:06tá me proponando uma cerveja, né, então tem que
- 15:08ter essa comunicação dizer, ó, mas essa cerveja vai
- 15:10ter potencial, vai ter uma paisagem aromática, um
- 15:13sentimento complexo à prática, pra utilizar uma
- 15:14experiência tão plena, né, ou profunda quando seria
- 15:18aquela de um vinho, é um trabalho, eu acho que ainda
- 15:20insipiente, no geral, assim, acaba no beberino muitas
- 15:23vezes eu fazendo pessoas que, como a gente trabalha
- 15:25quase exclusivamente com vinhos, a outra, tem uns
- 15:28estilados, algumas coisas, mas enfim, a outra precisa
- 15:29ser uma cerveja, no geral, quem prova isso é uma
- 15:31pessoa que, ah, quero beber uma Baxa, quero beber uma
- 15:34Hine, não sei se podia falar coisa, mas quero uma
- 15:37cerveja. Já falamos, já me perou geral,
- 15:39já falamos marcas, já é. E eu não tenho isso lá no
- 15:42beberino, né, eu trabalho em um... É
- 15:45igual Coca -Cola, né, você quer Coca -Cola, você fala,
- 15:47oi, não trabalhamos. Sim, já era muita revolta, você.
- 15:54Muita revolta, você pensa como
- 15:55assim, não tem um voceis. Não
- 15:57tem Coca -Cola, como assim. Aqui
- 16:00é muito natural, não quero. Mas
- 16:02é interessante que, às vezes, por meio dessa
- 16:04deixa, a pessoa da mesa de um grupo, que era o cara
- 16:06que não queria beber vinho, que não bebe vinho, e de
- 16:08quando ela tem essa cerveja aqui que a provida, e ele,
- 16:10sim, no geral, acaba funcionando, talvez, por ter
- 16:13um amparo também das comidas, dos pratos, né,
- 16:15ele vê que vai ter um outro potencial, assim, que
- 16:17a cerveja não vai ser só um quadrujuvante para
- 16:19permitir ele beber alguma coisa, mas ela vai ser um
- 16:21protagonista junto com a comida, como, no geral, a
- 16:23gente faz os vinhos sejam para uma harmonização. Então
- 16:26isso é bem interessante. Vou
- 16:32aproveitar, então, esse gancho. A
- 16:34impressão que eu tenho é que as cervejas selvagens,
- 16:36elas enfrentam o mesmo caminho, as usas
- 16:39dificuldades, né, que os vinhos naturais enfrentaram
- 16:42lá atrás quando eles começaram. É
- 16:44difícil, né, só se entender um... Ainda
- 16:46enfrento? Sim, mas é um mercado que
- 16:48caminha um pouco mais de tempo, né, que no Brasil,
- 16:51pelo menos, que a cerveja selvagem. E
- 16:53quando a gente começa a estudar uma bebida, a gente
- 16:56acaba, assim, fiando numa bolha e acaba consumindo a
- 16:59maior parte daquele produto, fazendo amizades que
- 17:02consumam o mesmo produto, e a gente esquece que, num
- 17:06contexto geral, aquela imagem cultural que a
- 17:10cerveja sempre carregou de que é uma bebida que você
- 17:13paga muito barato e você bebe sempre está a atenção
- 17:15com seus amigos estupidamente gelada, não é
- 17:19uma bebida gastronômica, enquanto o vinho é
- 17:21aceitável que você pague mais caro sem conhecer o
- 17:24que é, porque ele é refinado, ele é chique,
- 17:27etc., né. Então, assim, no vinho natural e
- 17:30na cerveja selvagens, como um todo, parece que a
- 17:32gente encontrou um dialeto comum, mas ainda tem muitas
- 17:36dificuldades, a gente tem um caminho muito longo para
- 17:39percorrer. O que vocês acham que são os
- 17:41maiores empecilhos para ver ainda esse tipo de produto
- 17:45hoje, a restaurante, enfim, é a imagem cultural que o
- 17:48produto carrega, que a cerveja carrega, é o preço,
- 17:52o que vocês acham? É, eu acho que cultura é uma
- 17:56coisa que o vinho reflete muito, né, a gente vive
- 18:00numa bolha, então eu que trabalhei em várias
- 18:03importadoras, eu viajo aí o Brasil inteiro muitas vezes
- 18:05e aí eu entendi que, desse tipo, a gente acha que
- 18:09todo mundo é no Brasil toma vinho, mas não, então,
- 18:11quem toma vinho é São Paulo, Rio e Sul, do Rio
- 18:14Grande do Sul. Então, acho que culturalmente a
- 18:17gente já tem isso. Eu acho que tem uma questão
- 18:19problemática de impostos que torna tudo muito mais caro,
- 18:25né, a forma como os vinhos são tachados e mesmo os
- 18:28brasileiros, assim, a gente tem um produto... Claro,
- 18:32a gente não pode se distanciar da ideia de que
- 18:34a gente está falando de um produto que é feito em
- 18:37pequenos lotes, que não são grandes produtores, não é
- 18:39uma indústria, a gente não tem escala quando a gente
- 18:43está falando desse tipo de vinho, mas a gente sabe
- 18:45que não é a realidade do Brasil, né, a gente paga
- 18:48um vinho, sei lá, R $150 ,00, então o que eu, nesse
- 18:52sentido, pelo menos, com relação a preço, que eu
- 18:54falo, os meninos do Juan Caloto, eles estavam me
- 18:57zoando, que eles estão falando, que eu ficou
- 18:58falando, você tem um minuto para ouvir minha palavra?
- 19:01Que onde eu para? Aí
- 19:02eu vou angelizando todo mundo. Tem
- 19:03uma rodinha com mais de duas pessoas, eu estou lá
- 19:05pregando, falando do Rio Rádio. Então
- 19:10eu falo assim, né, eu recebo muito cliente que
- 19:13está muito preocupado também com saúde. Muita
- 19:15gente que sabe que é comer melhor, consumir melhor, não
- 19:19tem mais essa relação com industrializado, então eu
- 19:21falo assim, olha, talvez uma ideia, uma saída, eu
- 19:24sei que é chato, mas de repente, se você bebe menos
- 19:27e bebe melhor. Eu falo muito isso para os
- 19:30meus clientes, porque muitos deles estão naquela coisa,
- 19:33tipo, tem gente que quer ir no mercado comprar um
- 19:35vinho de R $50 ,00, e aí ficou assim, meu, esconde,
- 19:38a parte está chegando, pelo amor de Deus, ela não pode
- 19:40me ver tomando cívilo. Quando
- 19:41na real eu quero que o Brasil beba vinho, mas eu
- 19:45acho que quando a gente está falando também da
- 19:46cerveja, a gente também está falando de uma cerveja
- 19:48de um valor agregado diferente, então a gente
- 19:50tem um monte de caminhos aí que a gente tem que,
- 19:54ah, tenho um pestilho aqui, como é que eu vou
- 19:55contornar isso? Então é isso? A
- 19:58parte cultural, a parte de preço, a parte, enfim,
- 20:01gastronômica, a gente tem que ir, é uma luta diária.
- 20:05É, porque acho que todos esses
- 20:06elementos que você está a se, são às vezes em
- 20:08pestilhos com quais você tem que trabalhar. Tem
- 20:10um aspecto, a semântica, como que a cerveja é
- 20:13percebida na cultura gastronômica, tipo, os
- 20:15contextos no quais ela é percebida, que ela pode ser
- 20:17bebida, então isso tem que ser trabalhado. A
- 20:19questão do valor também é consumidor, o comensal, o
- 20:22cliente, entender por que aquilo vai custar mais
- 20:25caro. As questões que você está
- 20:27falando são questões estruturais, então escala
- 20:28menor, então a produção artesanal. E
- 20:32depois, por que isso vale a pena, né, esse produto
- 20:35que ele é mais caro? O que é que, para ter tido
- 20:37feito dessa forma que é mais onerosa, justifica, tem
- 20:40uma razão? Por que as pessoas estão
- 20:41fazendo isso? Aí daí isso, isso que daí é
- 20:43o nosso papel como mediador nisso, né? Tipo,
- 20:46tem duas nossas costas, quem faz essa cerveja e a
- 20:48nossa frente cliente num restaurante, é meio de
- 20:52dizer, olha, essa cerveja é mais cara, mas ela vai te
- 20:55entregar uma experiência custativa, tética, que
- 20:58corresponde a isso, né? E daí, essa talvez é essa
- 21:01chave que tem que ser feita ainda, né? Essa
- 21:02ponte, assim, porque a pessoa, ah, mas é só uma
- 21:05cerveja, né? Porque é tão caro, tá aí, eu
- 21:07mostrar, não, mas não é só uma cerveja. Eu
- 21:09acho que uma coisa que eu também trabalho muito é a
- 21:11procedência. A gente faz um trabalho de
- 21:13curadoria, então a gente conhece esses produtores, eu
- 21:16todo ano tô lá no sul, tô na Argentina, tô, todos os
- 21:20caras que eu represento, ou o que eu quero representar,
- 21:23o que eu quero conhecer o trabalho, eu tô sempre com
- 21:24eles. E isso é uma coisa que
- 21:26agrega valor no discurso, porque você vai falar com
- 21:29o teu consumidor, e você vai falar assim, cara, você
- 21:31precisa conhecer a história desse produtor, que não é
- 21:33aquela historinha que a gente conhece da indústria,
- 21:36que é um marketing bom, eu sou formada em marketing,
- 21:39então assim, eu tô ligada aqui das coisas que eu
- 21:42trabalhei na indústria, que eu tinha que falar, que eu
- 21:44tinha que replicar, e que eu falava assim, caraca,
- 21:46meu, tô me sentindo muito mal, não quero falar essa
- 21:48história, porque eu sei que não é, sabe? Eu
- 21:51sei que não é, do tipo, umas histórias assim, do
- 21:53tipo, ah, porque o gato pulou na barrica, e aí o
- 21:56nome, aí você fala assim, aham, tá, e aí você vende
- 21:58isso pra uma massa de pessoas, né? Pra
- 22:01mim, o mais legal do meu rolê no Vim é que eu
- 22:03trabalhei muito tempo com isso. Então
- 22:06eu entendi todos os códigos, eu entendi muito
- 22:08do mercado, pra quando eu me desconectasse, eu falasse
- 22:11assim, meu, é isso mesmo que eu não quero, e é
- 22:14isso, e não é a verdade pra mim, tá exatamente nas
- 22:17pessoas, né? Então acho que agregar o valor
- 22:20falando da história do produtor é você vender
- 22:22nessa curadoria a procedência, e isso tu
- 22:25ajuda. Tem um valor em dúvida, mano.
- 22:26Isso ajuda, é um valor agregado
- 22:28que não tem, né, eu encontrei com vocês lá no
- 22:31Caio, no Caroni, do tipo, você vai trabalhar os
- 22:34vinhos do Caio, você tem, você fala assim, porra,
- 22:37eles, ah, tem muito tempo fazendo vinho, não, não
- 22:39tem, mas eles estão tentando, estão muito bem,
- 22:42estão cada vez melhores nos vinhos, ele faz isso, a
- 22:45mãe dele faz aquilo, e, tipo, cada produtor tem uma
- 22:48história, e depois quando você começa a ficar muito
- 22:50bem de tasting, você também começa a identificar, e eu
- 22:54acho que é isso que eu gosto de ver quando o
- 22:56consumidor entende, né? Ah, eu gosto do estilo de
- 22:59fulano. É, de fato, entendi. É
- 23:01o CZ, você fala assim, rasta, ele, ah, não quero
- 23:04Caio, eu quero Zenker, aí você fala assim, tá bom,
- 23:07porque, né, a pessoa, tipo, entendeu, é muito legal. É,
- 23:11que é uma coisa que talvez também vai se transportar
- 23:14para a cerveja, me dizer que quando é para, se tem
- 23:15mais produtores, as pessoas poderiam entender. Eu
- 23:17só vou devinhar, né, mas vou falar da cerveja, tá?
- 23:20Mas serve para a cerveja, é
- 23:22algo, eu já vendi muita cerveja na minha vida, de
- 23:25tudo quanto é tipo, e agora eu trabalho com o
- 23:27Lambic, que é um produto muito específico. E,
- 23:30assim, para mim, eu nunca enfrentei tanto dificuldade
- 23:33de vender esse tipo de produto quanto enfrentei lá
- 23:35atrás. E já atendi tudo quanto é
- 23:37tipo de consumidor, assim, gente que entrava e caia
- 23:40na loja, meu Deus, se eu que a cerveja, até pessoas
- 23:43que já entendiam, já chegavam, já procuravam
- 23:45alguma coisa específica, enfim. Então,
- 23:48com o Lambic, a gente enfrenta, além do problema,
- 23:51né, de preço e de impostos e etc., a dificuldade das
- 23:55pessoas entenderem o produto e de darem valor àquilo,
- 23:59sabe? Então, eu acho que pegando esse
- 24:01gante do produtor e aproximar o consumidor do
- 24:04produtor, é algo muito valioso, né, para o que a
- 24:07gente faz. Então, a gente trouxe, por
- 24:08exemplo, Gertz, que veio agora, ontem a gente fez
- 24:10uma legustação, então, as pessoas ouviram ele falar,
- 24:13ele contar toda a história. Não,
- 24:15e a naturalidade dele, é isso. É,
- 24:17de quando eu não sou geek. Aí
- 24:19você fala assim. E ele falando assim, tá, você
- 24:22fica tipo incrível. Porque eu acho que é isso, né,
- 24:26quando a gente tá falando de coisas ancestrais, a
- 24:27gente tá chegando muito mais perto da essência e
- 24:30também da naturalidade, da simplicidade, que a coisa
- 24:33é, né. Aí, pra mim, é aí que tá a
- 24:35magia do negócio, sabe? É o cara falar, beleza, o
- 24:38que você gosta de harmonizar? Ele
- 24:40fala uma harmonização, tá, mas às vezes o que ele
- 24:42gosta de comer nem harmoniza, mas pra ele é.
- 24:45Tá ótimo, é isso, gente. Tem
- 24:47gente querendo, tipo, pedir uma porção de ostras e
- 24:49dizer, ah, mas eu quero um tinto encorpado. Ai,
- 24:51meu Deus, dá umas coisas assim, uma vez eu lembro
- 24:56que eu tava no restaurante, eu passei, eu tive uma
- 24:58passagem muito pequena pro restaurante e restaurantes
- 25:01bem informais, assim. E aí tinha um grupo de
- 25:03chineses e aí, na época, era vinho conversa oral e
- 25:06aí eles colocaram soda e gelo no vinho. E
- 25:09na hora que eu tava servindo, assim, eu tava
- 25:11quase desmaiando, meu chave passou assim por trás, eu
- 25:13falei assim, fica calma, não desmai agora. Gente,
- 25:17é, também tem isso, né, a pessoa quer, quer. É,
- 25:20você não vai ficar, né. Mas
- 25:23é isso, acho que a simplicidade e a coisa do
- 25:26ancestral, da gente chegar perto da essência, sabe. Eu
- 25:29me transportei muito pra isso, me fez, acho que
- 25:32pessoalmente falando, me levou pra um outro lugar,
- 25:35assim. Porque de fato, eu comecei a
- 25:37ficar, quando eu falo da desconexão, eu falo assim,
- 25:39gente, eu não tô mais tão ligada, né, nesse trembo
- 25:43que eu tô fazendo, só que eu gosto de vinho. E
- 25:45ela, na época que eu conhecia a Liz em 2008, e
- 25:49ela, na época, ela me fornecia vinho brasileiro,
- 25:53só que a gente já era do contra, né, do conta não,
- 25:56da favor, óbvio. Porque a gente trabalhava com
- 25:58vinho de pequeno produtor brasileiro. Então
- 26:00já não era um rolê, assim, né, não era grande
- 26:04indústria. E aí, eu falava pros
- 26:06clientes, eu falava assim, olha, vou começar a fazer
- 26:08as legustações aqui no restaurante de vinhos
- 26:10brasileiros. E aí as pessoas davam risada
- 26:13na minha cara, tipo, falava, você acha que eu
- 26:14vou vir aqui pra tomar vinho brasileiro, não vou.
- 26:17E eu falo, tá, vem, se você
- 26:19não curtiu, pago. E eu nunca tive que pagar. E
- 26:22aí, quando a Liz começa a entender que tem essa
- 26:24história, né, muito desenvolvida em outros
- 26:26países, né, França, enfim, Georgia, muitos países da
- 26:30Europa, você morou na Itália também. Foi
- 26:33um resgate, assim, sabe, me tiraram, vou assim, calma,
- 26:36para de sofrer, vem cá, que a gente vai te
- 26:37transportar pra um outro lugar. Porque
- 26:39aí, de fato, a gente começou, eu, né, que não
- 26:41tinha tido grandes experiências fora do Brasil
- 26:44nesse sentido, comecei a ver que tinha uma
- 26:47esperança, eu falei assim, ah, então realmente tem
- 26:49gente ainda a fazer no vinho, da forma como era
- 26:52antigamente que máximo, né. Então,
- 26:54quando a gente tá falando da cervejas, eu acho que
- 26:57além de todos esses matches, a gente também tá
- 26:59falando dessa coisa da ancestralidade, em qualquer
- 27:02bebida, né, isso me deixa presa, assim, nesse lugar
- 27:05muito. É pra gente que o fato de
- 27:07ter algo por de trás do produto nos permite uma
- 27:10série de ancoramento, tá, é possível. Tem
- 27:12que explicar por que que determinado perfil gostativo
- 27:15aparece, porque que ele decorre de uma abordagem
- 27:17que o produtor adotou no momento de beneficar, ou no
- 27:20caso das cervejas de fazer fermentação acontecer. Essa
- 27:22história, ela pode ser útil pra ancorar e transmitir o
- 27:25entusiasmo, né, então, se a gente com a história bem
- 27:26contada, vai fazer com que a pessoa esteja mais
- 27:28predisposta pra beber aquilo, entendeu, poxa.
- 27:30Então, aquilo tá acontecendo por
- 27:31causa daquilo, ela contextualiza, e mesmo daí,
- 27:33aquele aspecto que a gente tá falando no começo, esse
- 27:35choque potencial pode acontecer num primeiro
- 27:37contato, ele é atenuado. A pessoa tá um pouco... ela
- 27:40contextualizou aquela experiência, sabe? Ah,
- 27:42não, mas isso é um cultura, assim, então ela
- 27:43vai estar mais aberta pra aceitar algo novo, né? Isso
- 27:46eu acho que é fundamental. Além
- 27:47dos aspectos, talvez, né, se a gente fala de vinho
- 27:49natural, dos aspectos éticos, fazem com que seja
- 27:52muito mais confortável trabalhar com vinho natural,
- 27:54eu sou, pode ser chamado de fundamentalista, trabalhei
- 27:57com isso no primeiro dia que eu vendi um... que
- 28:00eu servi uma taça, foi sem vinho natural. Então,
- 28:03esse aspecto humano que a parte ressaltou, ele é
- 28:06fundamental. As duas coisas, acho que de
- 28:07resto, também, estão muito interligadas, né? O
- 28:09fato da coisa essa ética e ser feita por pessoas que
- 28:12a gente reconhece, numa escala menor, são
- 28:14interligadas. É, isso corregou e a gente
- 28:16fala também, né? Tipo, não é essa bagunça, não.
- 28:20Tipo, ah, vamos ver o que você
- 28:21tá fazendo agora, né? Tá fazendo dezeitinho ainda, a
- 28:24gente tá lá. É isso. Faz
- 28:25parte de uma só de ser fiscal? Sim,
- 28:28sim. A gente tira um ganho a ser
- 28:29fiscal, mas se a gente é, né? Então
- 28:31é, até porque a gente... muitas
- 28:33vezes o consumidor não vai fazer isso, então... Não,
- 28:35o consumidor não vai. Exatamente,
- 28:36não tem mais o contato. E o consumidor também... Bom,
- 28:39eu como consumidor, eu quero tipo que chegue pra
- 28:41um tio, assim, sabe? Eu quero ser fiscal. Eu
- 28:43quero, tipo, assim, vou lá na beberina, o Bruno não
- 28:47tá lá de fiscal, ele que vai me servir, vai me
- 28:49contar tudo, e eu só vou beber e ser feliz, né? É,
- 28:52mas o fato é isso. É, esse é um problema que...
- 28:54Sim, eu acho que até hoje ainda
- 28:56se abate sobre o inflado de vinho natural, e dá pra
- 28:58pensar em fazer a ponte de beijo, o termo ele é
- 29:01entregado de uma forma muito liberal, ao meu ver,
- 29:03assim, de pensar. Mesmo assim, de pensar com quem
- 29:05que frequenta o naturebas, né? Tipo,
- 29:07quantos usam o ovo orgânico ali? É
- 29:08um palimbrito base lá, tá? A
- 29:10gente chama uma coisa de vinho natural. Não
- 29:12são, vou dizer, tipo, 15 % não, não sei se... Tá,
- 29:16tá, exato. Então é, essa questão, às vezes,
- 29:18o outro problema, uma vez que o termo ganhou, se
- 29:21tornou difundido, as pessoas consolidaram aquele
- 29:24entusiasmo, é, ele servia de patina pra encobrir
- 29:28coisas que não são aquilo que estão sendo vendidas,
- 29:30como que se chama de termo? É,
- 29:33e eu acho que assim, a Prima perguntou, naqueles
- 29:36vídeos maravilhosos que ela fez, né? Desse
- 29:38tipo, ah, se a gente chamava vinho de selvagem,
- 29:40né? E eu falei, adoraria, acho
- 29:42bem sexy, inclusive, mas a gente não tem esse costume,
- 29:46quando a gente fala, normalmente, de levadura, só
- 29:48da levadura, a gente fala vinho selvagem. A
- 29:51gente, eu falei assim, não, a gente usa um termo
- 29:52chamado Natureba, que muita gente acha que o Natureba,
- 29:56muita gente não curte isso. Você,
- 29:59particularmente, não. Eu falo bastante, inclusive.
- 30:03Ótimo. Viva a democracia. Mas
- 30:05assim, o termo Natureba, ele tem para algumas
- 30:09pessoas uma cara meio, né, pejorativa, assim, do
- 30:12espanhol, nossa, é qualquer vinho. É
- 30:14tipo, o vinho que a galera vai lá, colhe a uva, joga
- 30:18lá, deixa fermentar, engarrafa, e tá tudo bem,
- 30:22e tá tudo pronto, como se não tivesse nenhum tipo de
- 30:24preocupação, né? E não é assim. Mas
- 30:26ao mesmo tempo, é uma palavra, um termo que
- 30:28surgiu, justamente, que eles criaram para colocar,
- 30:31debaixo desse guarda -chuva, vinhos orgânicos,
- 30:34biodinâmicos naturais sustentáveis. Então,
- 30:36para não ficar uma coisa que se não virou tudo
- 30:38muito, mínima intervenção. Tudo
- 30:40mínima intervenção. E aí, é muito difícil esse
- 30:43lugar também, porque eu vou fazer meus postos, às
- 30:45vezes, eu falo assim, cara, o que eu falo, né? Aí
- 30:48eu fico assim, que eu também não quero fazer
- 30:50grandes textos, porque às vezes não é uma coisa que
- 30:52não cabe, mas aí eu falo, são vinhos, não são
- 30:56naturais, mas são vinhos com uvas de um vinhedo que
- 31:01é limpo, uma agricultura agroecológica, sustentável,
- 31:05enfim, o produtor intervenha o mínimo possível. Então,
- 31:08assim, aí é nesse ponto que a gente começa, porque
- 31:11quando a gente tá falando, né, eu tô fazendo o curso
- 31:14das cervejas ácidas, então a gente falou muito sobre
- 31:16culto ao defeito, isso é uma coisa que eu achei
- 31:19muito interessante dele, da questão da categorização,
- 31:23né? Onde que cabe isso, onde que
- 31:24cabe aquilo, então, onde cabe o orgânico, onde cabe
- 31:27o biodinâmico, como que a gente enxerga cada lugar
- 31:30desse. Então, eu acho que exatamente
- 31:33nesse ponto, a gente tem que vocês, principalmente,
- 31:36que estão realmente ligados a isso, ter muito cuidado,
- 31:39porque agora é hora de fazer a coisa certa, assim.
- 31:42Tudo bem, todo mundo erra, mas
- 31:44a gente não pode perder esse caminho, porque senão
- 31:46já é muito trabalhoso. E se a gente começa errado,
- 31:52aí você tem... Eu passo dia lutando, assim,
- 31:55muito mais do que um vendedor de vinho
- 31:56convencional, sabe? Tipo, pra eles, assim, é tipo,
- 32:00tá vendido, você só vai tirar o pedido, sabe? Eu
- 32:04não, tenho que falar a palavra mesmo, sabe? Eu
- 32:06tenho que é com o dono do restaurante, é com o
- 32:09sommelier, é no evento com o consumidor, né? Essa
- 32:12é a coisa que é difícil, né? Tem
- 32:13que fazer sempre diante de mão esclarecimento
- 32:15terminológico. Exato. Claro, um cliente que já é
- 32:18habitual, já é habituado, a gente não precisa nisso, um
- 32:20pessoal aqui está lá, coisa que eu mais explico semana,
- 32:23e eu estou falando, isso é vinho laranja, né? É,
- 32:25vinho laranja. Nossa, gente, eu preciso de uns
- 32:28memes de vinho laranja. Maravilhoso.
- 32:30Tem uma coisa pra pessoa chegar, porque que é
- 32:31laranja, enfim, é o esclarecimento conceitual,
- 32:34que a gente já... É um handicap de certa forma,
- 32:35né? Pra trabalhar com esse tipo de
- 32:37produto. Por um lado, é interessante,
- 32:38porque tem uma narrativa que é veículo, né? De
- 32:41entusiasmo. Mas por outro, eu meio, poxa,
- 32:44tipo, tem cinco minutos a mais de conversa que é
- 32:49necessária pra mediar esse ato de consumo. E
- 32:51se você estiver nadando no salão, aí não tá, né? Não,
- 32:54não, não, não. Eu fiz quase 15 anos que eu
- 32:56explico isso, né? Eu ligo assim, eu tenho tipo,
- 33:00três, assim, gravações, eu tenho uma de um minuto,
- 33:03uma de... Perfeito! De cinco, uma de dez, eu
- 33:05rolo assim, e elas já vão sair de assalto automático,
- 33:07assim, pra medir a taquera. Perfeito,
- 33:09perfeito, perfeito. Mas
- 33:25é interessante isso, né? No salão, eu não sou mais do
- 33:29salão, mas eventualmente eu sempre estou nos clientes,
- 33:31então eu sempre estou ali ontem mesmo. Eu
- 33:33saí daqui, eu fui trabalhar num lugar que é um cliente
- 33:36meio que vende... Choripã. E aí eu fiz a minha
- 33:39mesinha da palavra lá. Meu balcãozinho da palavra, e
- 33:43aí assim, galera chegava pra comprar, né? Choripã,
- 33:46empanada, tal, etc. E eu lá, dei, oh, a gente
- 33:49tá fazendo, eu tô fazendo uma degustação aqui, né?
- 33:51Imagina, eu depois tenho ficado o
- 33:53dia inteiro aqui, saindo lá bem à noite, e eu com
- 33:55sorriso no rosto. Enthusiasmo,
- 33:58tá, viu? Enthusiasmo total. E
- 33:59aí eu assim, olha, esses vinhos, aí eu falo com
- 34:02toda paciência, sabe? Gente, todos os clientes que eu
- 34:06atendi ontem, que eu tive a oportunidade de explicar
- 34:08que foram os salários 15, todos eles ficaram assim,
- 34:11wow, sabe? Que legal, adoraram os vinhos,
- 34:15porque obviamente, numa experiência dessa, eu vou
- 34:17levar um vinho fácil, né? Eu
- 34:19vou levar um super radical, assim, pra pessoa também
- 34:22ter alguma familiaridade, e eu acho que esse é um
- 34:25degrau, é um caminho, né? Mas
- 34:27assim, as pessoas saíram muito felizes, e muito
- 34:30satisfeitas, e eu mais ainda, porque embora eu
- 34:32estivesse cansada, é isso, né? A
- 34:35gente chega na hora de falar, a gente fala, a
- 34:36gente pode estar cansada, mas se trabalhamos com
- 34:39isso. Mas enfim, voltando pra
- 34:41pergunta, eu acho que, e pensando, né, não é razão
- 34:45por a qual está aqui falando, então essas pontes,
- 34:47eu acho que é muito importante, vou usar o
- 34:50termo indústria pra qualificar o coletivo de
- 34:52produtores, né? Então, indústria no sentido
- 34:53indústria, maquinar a indústria em fases. Fazer
- 34:56esses exercícios de esclarecimento termológico,
- 34:58porque isso facilita muito as coisas pra tentar na
- 35:00outra ponta que somos nós, os profissionais de sala e
- 35:03de venda. Porque senão é isso, já tem algo
- 35:05pra ser explicado. Se esse algo que cabe
- 35:07explicar, ele ainda não é consensual entre todo mundo
- 35:10que faz, fica muito mais difícil ainda, porque, tipo,
- 35:13vai ter pessoas que vão chegar, ah, mas eu ouvi
- 35:15que na verdade era isso, eu ouvi que era aquilo lá,
- 35:17e daí dá margem pra uma série, tipo, de debates que
- 35:20às vezes no geral estão flancos pra detratores
- 35:22também, pra gente ter, ah, por exemplo, no caso, vim
- 35:24natural, vim natural tudo com defeito, vim natural
- 35:26tudo com o feito, tá, o melhor é fazer vim
- 35:28industrial, porque o vim o sai mais correto. Se
- 35:30a termologia não tá clara, né, então não tiver uma
- 35:33definição, que era aquela tua pergunta, o que é que
- 35:35é uma cerveja de fermento, essa é o vagem? Isso
- 35:37tem que ser claro, tem que ser claro pra quem vende,
- 35:39mas também pra quem faz. E daí uma vez que isso é
- 35:42claro, tudo fica mais fácil, fica mais fácil de
- 35:44consolidar o conceito, né? Tipo,
- 35:45a narrativa já tá mais bem costurada, então, é mais
- 35:48fácil de divulgar, é mais fácil de vender. Eu
- 35:50sempre me enfio em umas coisas bem difíceis, assim,
- 35:52tipo, eu já tive o meu rolê da sidra, sabe? Gente,
- 35:56é difícil. Eu me imagino, me imagino.
- 35:58Assim, o IAP com um monte de
- 36:00sidra, e assim, eu, super empolgada, porque eu falei,
- 36:04nossa, seu IAP tá com um monte de sidra, mas isso é
- 36:05fácil, né? Tipo, é, caramba, tipo, essa é
- 36:08ótima. Cara, eu trabalhei com hidromel,
- 36:11com sidra, e assim, é a criação de, não deixa de
- 36:14ser uma criação de um conceito, né, no mercado,
- 36:16porque, aproximadamente, o produto existe, mas não é
- 36:19familiar, né? É quem que toma hidromel? A
- 36:22gente tá numa bolha, cerveja ele toma hidromel,
- 36:25a pessoal do vinho toma um pouco, mas, assim, gente,
- 36:28não é um produto comum. As pessoas nem sabem o que é,
- 36:33né? Não sabem. Tem
- 36:34sempre essa sombra, daí, tem esse aspecto de ser
- 36:36difícil, e daí, tem a sombra da subalternidade em
- 36:38relação ao vinho, né? Porque
- 36:39dá pra se sumprensipar. Tá, tudo bem, até quero provar
- 36:41esse negócio, mas por que que tá o mesmo preço de
- 36:43um vinho? Acho que vai pegar um vinho, o
- 36:44vinho tá numa escala superior, apesar, né? Que
- 36:45vinha vinho, né? Quem era? Vinho
- 36:47tem também o estátara. É uma falsa equivalência, né?
- 36:50Entre coisas que podem ser
- 36:51fermentadas, dizer que uva necessariamente algo mais
- 36:53nobre. Exato. Então eu já entrei isso
- 36:56com o hidromel, entrei isso com o cidra, e assim, eu
- 36:59gosto, na verdade, desse desafio de, tipo, me enfiar
- 37:02nessas coisas que ninguém conhece, experiência pós
- 37:06-graduada, mas é muito... Se não existe isso que o
- 37:09Bruno tá falando, tem que tá claro o que é aquele
- 37:12produto. Aí você demora anos -luz.
- 37:15Muito, muito, muito, muito mais.
- 37:17Então o Paulo pode ser um
- 37:19entusiasta de ter a cidra lá, mas não tem um mercado
- 37:22que tá falando com ele, né? Ele
- 37:25tá sozinho, então tem ele, eu, com o Bruno, e a
- 37:28gente tá lá, tipo, oh, eu preciso conhecer o que é
- 37:31que é ir, mas não adianta, né? A
- 37:33gente tem que ter uma uniformidade nessa linguagem
- 37:37do que é aquele produto. Eu
- 37:39fiquei também refletindo uma outra coisa aqui. Às
- 37:41vezes, por essa clareza, eu não tá consolidada, acaba
- 37:43se repercutindo na mídia de um jeito ou menos. Porque,
- 37:44tipo, o que cansa de ver de matéria, assim, aquelas
- 37:47abundam, sempre, mas são sempre, infelizmente, as
- 37:49mesmas, e sempre pouco criativas. E
- 37:50aí, ah, perêncio trivinho orgânico, biodinâmico e
- 37:52natural. E daí, só lá, na L, não.
- 37:55Fala, foi de São Paulo, tô a
- 37:56fazer o veículo de mídia, e sempre, ou muito raso,
- 37:58às vezes é errado, às vezes as nuances não são
- 38:01bem traçadas, as diferenças, assim, então é porque eu
- 38:04acho que é um termo que chegou aqui um pouco
- 38:05diluído e tal, hoje é consolidado, mas ainda
- 38:08assim, ele é amplo e nunca teve um consenso construído,
- 38:11né? Esse é um flanco aberto, na
- 38:12verdade, na opinião do Vinho Natural, porque da
- 38:14origem, essa origem política do movimento, enquanto, ah,
- 38:18uma ação coletiva, uma comunidade estética, ela já
- 38:22foi um pouco amaldiçoada pelo fato dos próprios
- 38:25produtores não concordarem entre si como chamar aquilo
- 38:28que eles estavam fazendo e o que eles estavam fazendo.
- 38:30Então, só, o movimento do Vinho
- 38:31Natural, na Europa, teve uma série de decisões,
- 38:33pessoas que achavam que tinha que ser suficito,
- 38:35pessoas achavam que podia botar um pouquinho de
- 38:36suficito, pessoas achavam que podia manipular aquela
- 38:38coisa, aquela coisa, mas aquela outra não. Então,
- 38:40só lá, as associações consolidadas hoje devem ter,
- 38:43sei lá, umas 15 grandes na Europa, né? São
- 38:45talvez três ou quatro mais influentes maiores. Não
- 38:48sei, a coisa tá desde os anos 80, do século passado,
- 38:50nunca teve nenhuma determinação, seja por
- 38:53legislação, seja por... Não se consolidou ainda, então,
- 38:56pensando em um negócio, desde os anos 80, do
- 38:58século passado, tem quase 50 anos, pessoas entram
- 39:00debatendo o que que é. Então,
- 39:02pensando, estou falando por esse outro paralelo, assim,
- 39:04com a história do movimento do Vinho Natural, pra dizer
- 39:07também porque que é importante esse esforço de
- 39:08esclarecimento, né? É, de construir um consenso
- 39:11terminológico. Não tem meio... Não
- 39:13tem uma mãe, né? Esse filho, assim, do tipo, pra
- 39:16legislar, né? Então, isso é isso, isso é
- 39:19aquilo. Então, fica todo mundo lá,
- 39:20surfando em muitas coisas. É,
- 39:22tá o próprio desejo que fosse legislado, é... Tem
- 39:24gente que quer e tem gente que não. Tem
- 39:26gente que não quer e deixa de ser livre também, tem
- 39:27isso, né? Aí você entra em umas amarras,
- 39:30assim, de... Que normalmente se entra quando
- 39:33quer as amarras, de repente, que a indústria
- 39:35tem com os guias, com as premiações, um monte de
- 39:38coisa que a galera do Vinho mais livre não quer,
- 39:40também. De fato, né? Tem
- 39:42isso. Eu fiquei muito produtora, aqui
- 39:44menos porque ninguém nem se preocupa com isso ainda,
- 39:46infelizmente, mas na Europa muitos produtores, às vezes,
- 39:48eles trabalham de forma orgânica, por exemplo, em
- 39:50termos de agricultura, mas preferem não ter o selo,
- 39:52às vezes, até, eles até pagam a certificação pra
- 39:54demonstrar a idoneidade deles, então, eles preferem
- 39:57não ter o selo, porque eles não querem se associar
- 39:59ao laxismo, talvez, da maneira como a aglomantação
- 40:01foi construída, né? Então, é... Porque
- 40:03eles acham que, sei lá, o selo de orgânico na Europa
- 40:06permite muita coisa com a coisa, eles acham que a
- 40:08agricultura é limpa, então, eles dizem, não vou me
- 40:09associar a isso. É tipo, não quero mesmo, né?
- 40:12Sim, não, eles falam. Tem
- 40:13muito produtor que até é curioso, assim, ele paga
- 40:16pra essa certificação, ele paga pra ser auditado, mas
- 40:18ele não divulga isso, né? Não
- 40:20considera esse é um ativo, que não considera um valor
- 40:22agregado no rótulo dele, uma questão de convicção
- 40:25política. Acho que a gente pode falar um
- 40:28pouquinho agora de futuro, quais são os caminhos na
- 40:31visão de vocês pra disseminar esse tipo de
- 40:35produto e, pra consequentemente, a gente
- 40:37tem um mercado mais consolidado, um aumento de
- 40:41vendas, porque querendo não, né? Isso
- 40:42que as cervejarias buscam também. Acho
- 40:44que todo mundo que trabalha com bebida é um pouco
- 40:46sonhador e, principalmente, dentro de bebidas que
- 40:50dependem de um movimento cultural. Então,
- 40:53é isso, você abdica de ganhar mais dinheiro e ter
- 40:55um pouco mais de conforto. Poderia
- 40:57estar rica. É, pra viver um sonho, pra
- 41:00fazer parte dele e, pra que esse sonho vire
- 41:02realidade lá na frente. Então,
- 41:04acho que a gente tem um pouco disso. Quando
- 41:05a gente vende entusiasmo, é porque a gente acreditou
- 41:08num projeto, a gente estudou e, enfim, pra
- 41:11vocês, então, é isso. Cose os caminhos que vocês acham
- 41:15que a gente ainda tem que percorrer pra lá na frente,
- 41:18a gente tem um mercado mais consolidado, um
- 41:21movimento mais forte, contando também essa
- 41:24experiência de vocês com os venhos naturais, né? Que
- 41:26chegaram quando tudo era mato. Ah,
- 41:29bom, a gente falou já de coisas, a gente tava
- 41:32falando de algumas coisas que acho que são, né?
- 41:33Então a gente falou de
- 41:34clarecimento conceitual, acho que é importante. As
- 41:36pessoas, é importante ter clareza pra quem vende,
- 41:39clareza pra quem ler sobre, isso é um papel. Eu
- 41:43acho que tem uma, também, uma ideia de entender que
- 41:46dimensão se quer dar pra esse mercado, né? Quantas
- 41:49pessoas se quer atingir? A gente fala do vinho
- 41:50natural, eu acho que tem uma correspondência muito
- 41:53grande, e aqui eu tô falando com uma série de
- 41:55coisas que as pessoas buscam, padrões consumidores.
- 41:58Pessoas que estão buscando algo que
- 42:00é mais saudável, pensam na saúde, partem nesse ponto
- 42:02de vista, pessoas estão buscando algo cuja origem
- 42:04elas querem conhecer melhor, elas se interessam por
- 42:06isso, querem saber a procedência de tudo aquilo
- 42:08que elas estão consumindo. Já
- 42:09nesses dois grandes segmentos de interesse
- 42:12possível de um consumidor, a gente vê uma
- 42:14correspondência muito grande com o cerveja de fermento
- 42:15espontâneo, né? Com o cerveja selvagem. Então
- 42:17explorar esses espaços que já estão trabalhando com
- 42:20alguns desses conceitos, né? De
- 42:21uma forma, por exemplo, quem trabalha com vinho
- 42:22natural é muito contigo, assim, eu tenho uma
- 42:25afinidade já pré -estabelecida, né? Tanto
- 42:28que é, hoje os espaços acho que estão na vanguarda
- 42:29de vender esse tipo de cerveja aqui em São Paulo,
- 42:32a gente vai considerar. Exato.
- 42:33Acho que explorar esses é isso, assim, esses campos
- 42:36de interesse afim ou comum. Isso
- 42:38é um caminho importante para crescer, né? Para
- 42:40fazer com que mais pessoas conheçam, se interessem e
- 42:43querem consumir. É, eu vejo as novas gerações,
- 42:46eu vejo porque eu não tenho filhos mais dos
- 42:48filhos dos meus amigos, estão todos muito ligados e
- 42:52percebi uma tendência para se beber menos álcool, para
- 42:56se beber menos e para se beber melhor. Então,
- 42:59eu felizona com isso porque a gente já vê que as
- 43:01próximas gerações vão estar muito mais conscientes pela
- 43:05ação a isso. E é isso, eu acho que os
- 43:08produtores têm que se falar porque eles não se falam.
- 43:11Contei, aí agora vocês de todos os
- 43:14grupos. Gente, tem que ter troca, né? Pô,
- 43:17não é que só concorrença, né? Tem
- 43:19que falar, o que você está testando? Eu
- 43:21estou testando a gente ser recipiente. Eu
- 43:23estou testando, né, isso. Colher
- 43:26a uva antes, porque está muito calor. Ah,
- 43:30sabe, troca. Isso é uma coisa que também tem
- 43:32que estar atralada a esse futuro. Não
- 43:34tem uma consolidação clara assim, as pessoas não falam
- 43:37com uma única voz. É, até eu vou contraditório,
- 43:39né? Porque a gente quer ser amigo e
- 43:41fazer o movimento, mas tem que se falar. Sim.
- 43:45Então, isso é uma coisa, formação, né? Então,
- 43:48acho que a gente tem que estar com essas
- 43:49terminologias muito claras e formando pessoas, né? Tento
- 43:53na cerveja quanto no vinho natural que realmente esteja
- 43:56claro. Eu tenho a Raquel que trabalha
- 43:59comigo, ela não tem vistos da indústria, né? Então,
- 44:02eu já estou super feliz, que eu já estou já
- 44:04conduzindo do jeito que eu quero, mas eu falo, ó, tem
- 44:06esse lado e tem esse. Mas, explicando as terminologias,
- 44:10para que tudo fique claro, para que quando ela falar
- 44:12com as pessoas, ela possa reproduzir e multiplicar. E
- 44:14é isso. E eu acho que para o
- 44:16consumidor, principalmente, eu oferecer experiência,
- 44:19sabe? Isso na cerveja, imagina. Hoje
- 44:21eu provei as cervejas com o Ostra, aí treinava a
- 44:25fila para a Bílostra para comer de novo, porque...
- 44:28Tipo, simplesmente é incrível. Só
- 44:30que se você falar, se eu falar isso para qualquer um
- 44:32dos meus amigos e eu preservo muitos meus amigos
- 44:34fora da bebida, isso é importante para quem
- 44:37trabalha com isso. E quando você vê, só anda
- 44:39com a galera do meio. Super!
- 44:41E eu preservo muitos dos meus amigos, embora eles
- 44:44reclamem para caramba, que eu nunca tenho tempo, mas
- 44:46eles não sabem que mais eu preservo muito. E
- 44:48aí, se eu falar para eles uma harmonização de Ostra
- 44:50com a cerveja Ostra, eles vão sair correndo. Então,
- 44:54eles são o meu laboratório. Eu
- 44:56já falo assim, olha, eu tive uma experiência, e eu
- 44:59já falo com a boca, salivando, assim. E
- 45:01aí, a pessoa já começa, é sério? Nossa,
- 45:04a cerveja Ostra? O Ostra? Sim,
- 45:07porque a Ostra é isso, porque a cerveja é aquilo.
- 45:09Então, eu acho que é isso. A
- 45:10gente tem que proporcionar esse tipo de experiência
- 45:12para o consumidor. Essa boca cheia de saliva,
- 45:15assim, sabe? De falar assim... Eu
- 45:18uso a minha família como cobaia. Ah,
- 45:20é? Cobaia é melhor não há, né?
- 45:23Porque não estão no meio. A
- 45:24gente está muito certo, mas a gente está muito errado.
- 45:26Mas tudo bem. É,
- 45:27eu levei uma cerveja para os amigos meus, eles
- 45:30ficaram assim, né? E aí, gostaram deles? A
- 45:33gente não sabe, na verdade. Vamos
- 45:40ver se a galera daqui tem alguma pergunta? Olá,
- 45:44boa tarde. Meu quer dizer que compartilho
- 45:47da sua dor, porque a gente vem de cerveja artesanal,
- 45:49né? Então, não é tão fácil assim.
- 45:50Obrigada. Indo para a parte
- 45:53comercial, qual que você acha que é o grande
- 45:55diferencial ou o ponto de decisão do seu cliente
- 45:59quando ele prefere o vinho natural? Seria
- 46:01o status, ingredientes, processos, origem, o
- 46:05sensorial é o mais importante no final? Qual
- 46:07seria realmente a primeira coisa que a gente tem que
- 46:10focar para conseguir trazer esse cliente para o nosso
- 46:13lado? Primeiro, Brunão, que ele tem um
- 46:15espaço onde ele trabalha diretamente com essas
- 46:17pessoas. É, eu não sei se eu conseguia
- 46:19circunscrever um desses fatores como o principal,
- 46:23assim, porque eu acho que cada um desses elementos de
- 46:25sessas, às vezes, é uma parte de entrada possível.
- 46:27Tem pessoas que vão porque
- 46:28querem conhecer o que tem origem, as pessoas que vão
- 46:30atraídas pelo sabor, mas acho que é importante,
- 46:33talvez, a coerência entre todos esses elementos, né?
- 46:35A pessoa que está buscando um
- 46:37deles, chegar e ver correspondentes dos demais
- 46:40dentro daquele produto. Aquilo
- 46:42está conhecido de certa forma, acho que esse é o
- 46:43elemento principal. Eu vejo muito uma questão
- 46:46ligada mesmo a você querer consumir do pequeno.
- 46:50Concordo 100 % com o Bruno, tem que
- 46:51ser um conjunto, não é só falar sobre uma coisa ou
- 46:54outra, mas quando eu avali o alguém que está tomando
- 46:57essa decisão, a maior parte das experiências que eu
- 47:01vivenciam estão ligadas a essa coisa, ah, eu, por
- 47:04exemplo, no final de semana eu estava numa feira que
- 47:06não era uma feira de vinho, que eu adoro fazer
- 47:08essas feirinhas, de qualquer outra coisa, mas eu estou
- 47:11lá com a minha banquinha. E
- 47:12aí, uma senhora se aproximou e falou assim,
- 47:14olha, meu marido, a gente está com uma questão muito
- 47:17complicada com relação ao sul, por conta do que
- 47:20aconteceu, dos escândalos, e a gente não quer mais, a
- 47:23gente não quer mais ir lá e a gente não quer mais
- 47:25consumir vins dos grandes. E
- 47:27aí ela falou assim, você só trabalha com o pequeno?
- 47:30Então ela falou isso, o olho
- 47:31dela fez dois corações, assim, quando eu falei sim,
- 47:34então eu acho que essa coisa do humanizar é uma
- 47:38coisa que pega mesmo, a pessoa realmente gosta da
- 47:42ideia de ela poder comprar de um cara pequeno, que
- 47:45quando você liga na vinícola ninguém atende,
- 47:48porque ele está colhendo a uva junto com a esposa e
- 47:50o cachorro, e não tem ninguém para atender o
- 47:52telefone, sabe? Estou falando de uma forma
- 47:55genuína mesmo, não é só, né, para preencher espaços,
- 47:59você precisa comprar do pequeno produtor porque está
- 48:01na moda, mas eu vejo que isso humaniza, as pessoas
- 48:03têm uma coisa bem forte com relação a isso. Vamos
- 48:07passar para um breve comentário de Cilene, e aí
- 48:09depois eu peço que vocês voltem Não tem, tem outro,
- 48:12já, depois. A cada vez tem, temos a
- 48:15finalização. Ah, verdade, então eu vou
- 48:17embora. A gente vai, eu vou lhe
- 48:19pegar a foto. Façam as considerações finais, que
- 48:21dêem as redes de vocês, se quiserem, os contatos. Bom,
- 48:25primeiro, agradecer. Agradecer
- 48:27especialmente a disponibilidade de vocês, da
- 48:30comunidade dos vinhos, a emprestar um pouco dos
- 48:33vossos tempos aqui e nos ensinar algumas boas
- 48:37práticas de comunicação, sobretudo, é muito valioso
- 48:40e não sei se muita gente enxerga dessa maneira, mas
- 48:44é especialmente para mim muito valioso, podem ter
- 48:46certeza, eu tenho certeza que os que estão aqui
- 48:49também é. Eu me lembro que a Cheranda,
- 48:51ela perguntou a segunda pergunta, se não me engano,
- 48:53que foi a pergunta anterior a essa última, acho que
- 48:56foi a penúltima, em que você, qualquer coisa assim,
- 49:00você comenta sobre o que falta, para a gente
- 49:04conseguir fazer com que as cervejas tenham a mesma
- 49:06percepção de valor em relação aos vinhos. É
- 49:09mais ou menos essa pergunta, não é? E
- 49:11vocês foram muito bem por alguns aspectos técnicos da
- 49:15produção até o ponto saudável dos controles na
- 49:20produção e especialmente nas capacidades, nas competências
- 49:25de comunicação. Vocês se comunicam muito bem e
- 49:28temos muitos profissionais da área de cervejas que se
- 49:31comunicam bem também, mas eu uso dizer que faltou um
- 49:36tema, que é na minha percepção o cerne da
- 49:41questão, e aqui me desculpem, mas é uma pura
- 49:44provocação a comunidade das cervejas. Gostamos.
- 49:48A imagem que nós temos da cerveja, ou a imagem que
- 49:52nós temos dos vinhos das cervejas, dos vinhos, ou de
- 49:55qualquer outro elemento da gastronomia que a gente
- 49:58queira colocar aqui em pauta e de qualquer outra
- 50:01coisa, coisa mesmo, que a gente queira colocar em
- 50:04pauta, é a imagem das pessoas por trás dessa
- 50:07coisa. Então se a gente quer aumentar a
- 50:09percepção de valor das cervejas, a gente precisa
- 50:11mudar a atitude, a gente precisa mudar o
- 50:14comportamento, a gente precisa sair dessa bolha 80
- 50:17-20, se não 90 -10, sob todos, quase todos os
- 50:21aspectos que nos colocam com a diversidade humana, a
- 50:25se faltar humanizar na humanidade. Dato.
- 50:28É isso turma. Muito obrigada. É
- 50:33uma referência que te acompanha e com muito
- 50:37honrada ter o comentário. Obrigada.
- 50:40Bom gente, primeiro eu queria agradecer a abraçada
- 50:42pelo convite, esse movimento todo que vocês estão
- 50:45fazendo é muito importante para o nosso mercado e
- 50:48poder sentar aqui conversar com vocês. A
- 50:51Pati acompanhou mais um tempo, o Bruno eu conheci
- 50:54recentemente, mas vocês são profissionais incríveis,
- 50:56então parabéns pelo trabalho. Eu
- 50:58achei muito chique a minha participação com vocês e
- 51:02fiquei muito honrada. A gente que tá achando
- 51:04chique, gente. Vocês são incríveis. Obrigada,
- 51:09de verdade, abraçava a todo mundo. Enfim,
- 51:11agora com você. Muito obrigado. Obrigada,
- 51:13gente. Bebam rio natural, bebam cervejas
- 51:16ácidas. Muito obrigada, pessoal. Acho
- 51:19que essa conversa não termina aqui, obviamente.
- 51:22Essa conversa entre os mundos
- 51:24não só os selvagens quanto os convencionais, mas que
- 51:27bom que vieram importante para estarem aqui. Obrigado,
- 51:31tu como. Obrigada. Obrigada, gente.
- 51:46Encontro Selvagem é um programa
- 51:48realizado pelo canal Surra de Lúpulo. Abra
- 51:51a serva e com o apoio nesta temporada do Conselho
- 51:54Federal de Química, se é FQ. Sigam,
- 51:57arroba Encontro Selvagem no Instagram e não percam
- 52:01nenhum conteúdo.