Latest / Surra de Lúpulo / Cada cerveja uma história – Cervejaria Guinness | Surra #238
Transcript
- 0:08Hipacondriaca apresenta... Oi pessoal, bom dia, boa tarde,
- 0:17boa noite! Eu sou Ludmilla, mais conhecida
- 0:20no Instagram como Ivacondrica, e hoje é o primeiro programa
- 0:24depois da saída do Leandro da nossa bancada.
- 0:27Hoje, nessa bancada, comigo está Henrique Boaventura, que muitos
- 0:31de vocês já conhecem pelo Braçagem Forte, mas também pelas
- 0:34inúmeras participações aqui conosco.
- 0:37Alô, Loide, Henrique, boa aventura.
- 0:39E cá estou, noutra praça, no mesmo banco, porque a cadeira é
- 0:43a mesma. E a gente está aqui, vamos
- 0:44experimentar muitas mudanças nesse cenário, mas sem perder
- 0:48essa essência curiosa do Surra de Lupo.
- 0:50Além dele, o reforço de uma coisa deleitosa, o amigo que o
- 0:55podcast me deu, Gabriel Guriã, do Comer História e também do
- 0:59podcast especial Beber História, que está disponível em todas as
- 1:02plataformas de streaming. Ouçam e aprendam muito mais
- 1:06sobre o nosso líquido querido e sagrado.
- 1:08Bom dia, boa tarde, boa noite a todos os ouvintes.
- 1:11É uma honra estar aqui mais uma vez, a minha segunda
- 1:14participação no Surra, um podcast do qual eu sou fã.
- 1:17O Surra com essa fusão com o Brassagem, que também é um
- 1:21podcast super, super crucial para o ecossistema cervejeiro do
- 1:25país. E eu não tenho nem roupa para
- 1:27estar aqui, por isso que eu estou usando uma camiseta do
- 1:29próprio Surra, entendeu? Acertou no outfit.
- 1:35Você quer entregar o seu currículo maravilhoso pra
- 1:37explicar por que você tá aqui, meu amigo?
- 1:40Precisa não, precisa não. Cara crachá.
- 1:43Todo mundo já sabe que você é historiador, mestre, doutor,
- 1:46essa coisa toda, né? Soltando o salzinho, assim, em
- 1:50cima da comida. Como eu criei esse peso de
- 1:54currículo? Eu só consigo enganar bem.
- 1:58Ai, gente, eu não tenho esse peso de currículo, eu não engano
- 2:00ninguém. E a gente tá aqui porque o Surra
- 2:04de Lúpulo precisa de você pra seguir produzindo conteúdo, isso
- 2:07mesmo. Vem ser mecenas e participe do
- 2:09nosso grupo de WhatsApp, tem acesso ao nosso clube de
- 2:11vantagens e descontos. Esses descontos e vantagens
- 2:15estão em cursos, cervejas, eventos e muito mais, além de
- 2:19sorteio de brindes e outras tantas regalias.
- 2:23Apoie o Surra de Lúpulo através do site apoia.se barra
- 2:26surradilúpulo. Ah, mas a grana tá curta agora,
- 2:29não rola ajudar. Então vamos fazer que a gente
- 2:31chegue mais longe. Mande o link desse episódio pra
- 2:34um amigo ou amiga que adora cerveja e uma boa história.
- 2:37Ou seja, tudo a ver com o Butiquim.
- 2:39Ah, mas não esqueça de nos avaliar na sua plataforma de
- 2:43áudio favorita. Cinco estrelinhas no Spotify,
- 2:46Apple Podcast, Deezer e outras que os levam mais longe e pra
- 2:50você custa um total de zero reais.
- 2:52Gentileza, né gente? Gentileza gera gentileza.
- 2:55Música E você que chegou aqui nesse programa novo, esse
- 3:03formato novo, deve estar se perguntando o que está
- 3:04acontecendo. Nessa nova fase, com novas
- 3:06pessoas, mas ainda assim com os mesmos propósitos, a gente vai
- 3:09ter formatos diferentes que vão gerar programas diferentes.
- 3:13Essa é a grande verdade. E esse programa de hoje é um
- 3:15desses formatos. O nome dessa série é Cada
- 3:18Cerveja Uma História e a história de hoje é sobre a
- 3:20Guinness. A ideia aqui é falar sobre
- 3:23cervejas e cervejarias que andam lado a lado com histórias de
- 3:26países de origem. Vamos lá.
- 3:28Temos milhares de cervejarias surgindo todos os dias e
- 3:31morrendo todos os dias. E a verdade é que algumas se
- 3:34sobressaem. E a ideia aqui é falar sobre
- 3:36essas cervejarias, principalmente cervejas
- 3:38históricas. E não somente sobre a história
- 3:41da cervejaria, mas também sobre técnicas e ingredientes que
- 3:43fizeram ela se diferenciar de outras cervejarias da sua mesma
- 3:47região, da sua mesma época. Então a ideia é essa do
- 3:50programa. Arrasou!
- 4:06A gente aqui como adora um pleonarmo vicioso, vamos começar
- 4:10do começo e aí a gente vai tentar entender desde a fundação
- 4:16da Guinness. Então, cronologicamente, como
- 4:18essa cervejaria ícone nasceu? Gabriel, esmiúça isso pra gente.
- 4:23Bom, como muitas histórias institucionais e empresariais
- 4:28que elegem os seus ídolos, os seus nomes de destaque, com a
- 4:31Guinness não é diferente. Mas aqui dá para dar um crédito
- 4:34para esses personagens porque, de fato, você teve gente de
- 4:37bastante visão ao longo de várias gerações da mesma
- 4:39família. A Guinness é uma cerveja
- 4:41irlandesa. Ela foi fundada em Dublin, a
- 4:43capital da Irlanda, em mil setecentos e cinquenta e nove,
- 4:46pelo Arthur Guinness. E o Arthur, ele tem uma história
- 4:49interessante um pouco antes disso, porque ele nasceu no
- 4:54condado de Kildare, Dublin é uma cidade marítima, uma cidade no
- 4:59litoral leste da Irlanda, e esse condado de Kildare é logo pra
- 5:04dentro do continente, então na região ali, na zona rural de
- 5:08Dublin, digamos assim. E ele vivia com o pai dele na
- 5:12propriedade de um arcebispo chamado Arthur Price.
- 5:15Esse arcebispo, que inclusive foi a pessoa que foi homenageada
- 5:19com Arthur Guinness, sendo nomeado Arthur.
- 5:22E esse cara era o padrinho dele, empregava o pai dele como um
- 5:25castelão, alguém que cuidava das paradas todas na casa desse
- 5:27cara. E entre as obrigações
- 5:29domésticas, o pai dele também era responsável pela fabricação
- 5:32doméstica de cerveja, né? Estamos aqui falando da metade
- 5:34do século XVIII. Você tem, sim, cervejarias
- 5:38comerciais, mas você ainda tem a prática da cervejaria doméstica,
- 5:41da cervejaria caseira, muito forte, na Irlanda, no Reino
- 5:44Unido. Enfim, o Arthur teve contato com
- 5:47esse tipo de ofício muito cedo. Aí o Arthur Price, o padrinho,
- 5:50bateu as botas, mas como ele gostava muito da família dele,
- 5:53ele deixou uma quantia generosa para essa galera.
- 5:57No caso, eram cem libras esterlinas naquela época.
- 6:00E aí o Arthur Guinness foi lá e montou uma cervejariazinha numa
- 6:04outra cidadezinha do condado chamado Lyslip.
- 6:07Foi lá, ficou uns quatro anos fazendo sua coisa, ele e o irmão
- 6:09dele e tal. Na época ele ainda fazia ales,
- 6:12aquele grande guarda-chuva de estilos de cerveja de alta
- 6:16fermentação. que ainda tinha um pezinho numa tradição britânica
- 6:19pré-lúpulo, mas enfim, não era bem aquela Guinness que a gente
- 6:22conhece hoje. E aí, quatro anos depois, nesse
- 6:25mil setecentos e cinquenta e nove, ele decidiu expandir esse
- 6:27negócio. Expandir justamente pra capital,
- 6:29que era Dublin. E era uma época que pra ele foi
- 6:32favorável, mas pra muita gente não, porque você teve uma crise
- 6:35econômica que abalou... certos grupos metropolitanos, e essa
- 6:39crise fez com que vários imóveis fossem oferecidos no mercado a
- 6:42preços muito baixos. E esse foi o caso do St.
- 6:45James's Gate, que é até hoje a sede da Guinness lá em Dublin, e
- 6:51por muito tempo sediou várias cervejarias diferentes.
- 6:53Mas em mil setecentos e cinquenta e nove já era um
- 6:55imóvel que estava ocioso fazia nove anos.
- 6:57E era um imóvel de uma família tradicional de Dublin chamada
- 7:01Rainsford. Dos barões, dos earls lá e o
- 7:03escambau. Então o Arthur chegou em Dublin,
- 7:07viu essa oportunidade, uma infraestrutura excelente, um
- 7:10local que já tinha prédios, já tinha servido para aquela
- 7:13finalidade de produzir cerveja, a um preço baratíssimo.
- 7:17E o melhor, o mais curioso, foi o negócio que ele fez com os
- 7:20Rainsford. Ele assinou um contrato de
- 7:23locação, uma licença de locação, por só nove mil anos.
- 7:28Só. Nove mil anos.
- 7:30Imagina a tristeza desse povo que assinou o contrato sabendo
- 7:33que agora é a Guinness. A Guinness que tá lá, tipo
- 7:36assim, eu poderia estar lucrando muito mais com isso aqui.
- 7:39Isso custando quarenta e cinco libras anuais.
- 7:42Era na beira do rio, então você tinha ali um acesso à captação
- 7:44de água pra fazer essa cerveja. Já tinha essa infraestrutura
- 7:47prévia, ainda que o prédio tivesse aí as moscas há bastante
- 7:50tempo. E isso foi assinado em trinta e
- 7:52um de dezembro de mil setecentos e cinquenta e nove.
- 7:54A partir daí, a Guinness surgiu e deu início à sua trajetória,
- 7:59produzindo, ainda não as porters e as stouts, mas ales e table
- 8:04beers, cervejas de menor teor alcoólico, sempre ali pensando
- 8:08numa demanda tipicamente dublinense.
- 8:10Matemática tipicamente dublinense.
- 8:15Vai ter situação que eu não sei falar qual.
- 8:19Eu só sei que é dublinense por causa das traduções dos
- 8:23Dubliners do James Joyce. Eu nunca sabia que essa
- 8:25naturalidade foi traduzida para o português.
- 8:27Eu estou com o Ulisses me olhando aqui para ler, mas ele
- 8:31me deixa meio... Intimidador, né?
- 8:33Ele é opressor. Aquele tamanho é opressor de
- 8:36livro. Tá certo.
- 8:39Vamos fazer só um pequeno adendo a toda essa informação que o
- 8:42Gabriel trouxe. O que é um homem com visão de
- 8:45negócio, né? Eu trabalho com imóvel.
- 8:48Se eu tivesse essa visão de fazer um arrendamento vitalício,
- 8:51nove mil anos, gente... Estava aqui eu gravando podcast
- 8:54agora? Não estava.
- 8:56Não estava. Não, Brasil.
- 8:58Não, não. Muito interessante nesse ponto
- 9:00também, né? Que é o momento, né?
- 9:02A Inglaterra, o Reino Unido, na verdade, ele é uma sucessão de
- 9:05crises, né? Sucessão de problemas
- 9:07financeiros. E a fabricação de cervejas aqui,
- 9:11muitas vezes ela era parte da casa, muito por questão
- 9:15econômica. Não somente por uma questão
- 9:18de... Ah, quero ter cerveja em casa.
- 9:20Não é o home brewer hoje em dia fazendo cerveja na sua casa pra
- 9:23se divertir. Às vezes era a subsistência
- 9:25mesmo, né? Pra venda local, pra venda...
- 9:27E o consumo também, realmente, porque comprar não
- 9:30necessariamente era possível. E você tem uma questão na
- 9:33Irlanda também, que era a predileção pelo whisky e pelo
- 9:37poutine, que é como se fosse um moonshine deles, assim.
- 9:40Então você vai ter uma divisão entre estratos sociais de quem
- 9:43prefere o quê, uma certa elite que vai ter, por exemplo, no
- 9:46caso do Arthur Price e o Reverendo, que vai ter esse
- 9:48serviço de produção caseira de cerveja, dialogando um pouco com
- 9:51esse hábito mais inglês de tomar cerveja, ainda que muitos
- 9:54operários, né, muitos... Muita gente de ambientes mais
- 9:58rurais da Inglaterra também tomassem bastante cerveja.
- 10:00Mas a Irlanda ainda não é tão cervejeira assim nesse momento,
- 10:03nessa segunda metade do século XVIII.
- 10:05E não somente isso, né, Gabriel? Também a gente tem um hábito de
- 10:07consumo, também, muito focado em hábitos escandinavos, né?
- 10:11Por causa das invasões nórdicas, também, que é o hábito de
- 10:14consumo para se embebedar, né? O consumo...
- 10:18Eu preciso beber para me embebedar.
- 10:19Não é o consumo, bem entre aspas aqui, comedido dos latinos, né?
- 10:23Que eram, aí, olhando para povos latinos da Europa, ou até mesmo
- 10:27povos, sei lá, latinos. Mas o fato é que eram mais
- 10:30comedidos no consumo, enquanto que, quando a gente fala de
- 10:34povos... que estão ali na região hoje do Reino Unido, eles tinham
- 10:38muito essa influência da beberragem.
- 10:40Um abraço para o jovem que escreveu o livro Selvagens
- 10:43Bebedeiras, que eu tirei essa informação de lá.
- 10:45O João Azevedo Fernandes. Olha aí, estou na página cento e
- 10:49cinquenta. Eu quero o autógrafo dele.
- 10:51Esse é um livro excelente. Mas são prismas de costume e de
- 10:54moral também distintos. Ainda que a Irlanda fosse
- 10:57católica, mais ironicamente, o Arthur Guinness era protestante.
- 11:02E aí a gente pode partir para um outro caminho, que essas grandes
- 11:06companhias possuem muitos pilares de sustentação.
- 11:10As marcas e os seus signos são muito importantes, não apenas
- 11:14para a construção dessas empresas, mas também para a
- 11:17manutenção e fixação delas no imaginário dos consumidores.
- 11:21E aí, assim, não tem como um apreciador da Guinness falar que
- 11:24não faz mais vaga ideia do que a harpa da Guinness, que é um
- 11:29desses símbolos. Eu acho que era importante a
- 11:31gente esmiuçar esse símbolo tão delicado e, ao mesmo tempo, tão
- 11:36marcante dessa cervejaria. É icônico, né?
- 11:39Mas que quase foi destronado por um outro ícone da Guinness mais
- 11:42recente, que é o Tucano, né? Muita gente acha que a marca da
- 11:45Guinness é o Tucano. Verdade.
- 11:47Não é o caso. Mas o lance da ARPA é muito
- 11:49legal, porque, sendo um pouco anacrônico, a ideia de branding
- 11:52é uma coisa a mais do nosso tempo, mas foi, de fato, uma
- 11:54tentativa de envelopar aquela empresa com a sua identidade e
- 11:59uma identidade que dissesse bastante sobre aquela empresa.
- 12:02Isso já aconteceu lá no século seguinte, né?
- 12:04A gente falou da fundação do comecinho, lá na metade do
- 12:07XVIII, isso já é na metade do XIX, que o neto do Arthur
- 12:11Guinness, o Benjamin Lee, vendo que a empresa estava cada vez
- 12:15mais com o escopo de atuação ampliado, né?
- 12:17Já tinha franquia na própria Inglaterra, já tinha franquia
- 12:20nos Estados Unidos, já tinha franquia na Austrália, estava
- 12:23com essa dispersão pelo mundo, estava quase chegando aqui no
- 12:25Brasil. Então você também precisava se
- 12:29distinguir além do seu produto, né?
- 12:31E nessa segunda metade do século XIX, e a Irlanda sempre teve
- 12:36seus conflitos com a Inglaterra em si, tanto que hoje a Irlanda
- 12:39é um país independente, você teve um interesse muito grande
- 12:42por uma herança cultural gaélica, céltica, desse passado
- 12:47irlandês, e entre esses símbolos você tem a... a harpa do Brian
- 12:51Boru, ou a harpa do Trinity College, que é um dos três
- 12:55artefatos do século XIV e XV, são harpas, são instrumentos
- 12:58feitos em estilo gaélico da ilha Esmeralda, como eles chamam a
- 13:02Irlanda e tal, que ainda estão preservados no Trinity College
- 13:05em Dublin, e que é chamada do objeto inanimado mais
- 13:08reverenciado da Irlanda. Então já havia um apreço por
- 13:13essa herança que o instrumento representava.
- 13:16E o tino do cara foi, pô, é isso aí, isso vai ser a nossa marca.
- 13:20Até que ela começou a estampar junto com a assinatura do Arthur
- 13:24Guinness e com a Extra Stout, o estilo mais tradicional da
- 13:28Guinness. Em mil oitocentos e sessenta e
- 13:29dois ela começou a estampar os rótulos de garrafa.
- 13:32E uma questão interessante é que o parlamento inglês passou uma
- 13:35legislação em mil oitocentos e setenta e cinco que permitia a
- 13:39patente de marcas. tal qual o INPI, a gente faz isso hoje,
- 13:42você pode fazer isso no Reino Unido, a partir de mil
- 13:44oitocentos e setenta e cinco. A primeira cervejaria que fez
- 13:47algo do tipo foi a Bass, que patenteou o seu Delta Vermelhão,
- 13:50e a segunda que fez isso foi a Guinness.
- 13:52E eles patentearam a Arpa com a orientação virada para o lado
- 13:56direito, dentro daquele contexto do rótulo.
- 13:59E pelo fato de ser um objeto tão importante para o imaginário
- 14:02irlandês, ele também foi adotado quando a Irlanda se separou da
- 14:06Inglaterra em mil novecentos e vinte e dois.
- 14:08Mas por conta desse copyright, pra bandeira, pros símbolos, pra
- 14:12moeda, os caras tiveram que usar a harpa invertida.
- 14:14Pra não ter um infringimento de direitos da Guinness, assim.
- 14:18A Guinness manda mais. Manda mais.
- 14:21Chegou primeiro aqui. Mas enfim, essa sagacidade nesse
- 14:24momento foi pra destacar uma irlandesidade da marca, né?
- 14:30uma marca que tem raízes profundas no país, e também um
- 14:34símbolo de unidade, liberdade e coragem, que é típico do povo
- 14:37como ele se entende, relacionando também ao Brian
- 14:40Boru, que no caso foi o chamado rei unificador do século X, do
- 14:44século XI, que foi um monarca responsável pela expulsão dos
- 14:49Danes, dos nórdicos, originários de onde hoje seria Dinamarca.
- 14:54É bem interessante. É um branding sagaz, eu acho.
- 14:58E é bem interessante isso, porque os irlandeses, eles são
- 15:01vistos dentro do Reino Unido como o povo de fora, né?
- 15:03Eles são, tanto como os escoceses, os irlandeses, mais
- 15:07ainda do que os escoceses, eu diria, são vistos como os povos
- 15:10de fora. E eu tenho uma dúvida que eu não
- 15:12sei se tu tem a resposta, Gabriel, que é o Tucano, eu
- 15:14acabei, eu nem me lembrava do Tucano como marca da Guinness e
- 15:18eu fiquei me perguntando se o Tucano tá um pouco relacionado
- 15:21com a Commonwealth por causa da expansão, né?
- 15:24Tipo, a Guinness, ela tinha uma vantagem Para Guinness, não para
- 15:29os países que tinham sido colonizados pela Inglaterra, mas
- 15:33que é a Commonwealth, os países reunidos, os territórios
- 15:37expandidos do Reino Unido. E eu fiquei me perguntando se o
- 15:40Tucano não tem relação com isso, com esses países tropicais,
- 15:43talvez. Pior que não.
- 15:45O Tucano surgiu de uma encomenda de copy de um texto publicitário
- 15:50na década de trinta. Tem um designer responsável por
- 15:53aquelas campanhas. Os animais foram uma marca
- 15:56dessas campanhas publicitárias da Guinness a partir dos anos
- 15:58trinta. Eu esqueci o nome dele.
- 16:00Mas ele está morto, ele não vai ficar triste de eu não lembrar
- 16:02os devidos créditos. Ele também encomendou um copy
- 16:06pra uma escritora que fez um poema que tinha a ver com My
- 16:09Goodness, My Guinness, alguma coisa assim, mas ela falava do
- 16:12Tucano, e aí era um Tucano com duas pints.
- 16:15E dava a entender que o Tucano tem um bico longo,
- 16:19consequentemente ele consegue beber mais.
- 16:21Só que ficou de uma forma tão icônica que aquilo passou a ser
- 16:24veiculado, passou a ser o principal animal das
- 16:27propagandas. Você tem aquele pôster clássico
- 16:29dele em cima de uma rosa dos ventos, aquele bando de tucanos
- 16:34voando com pines de Guinness em cima do bico e tal.
- 16:37Foi uma coisa que pegou, mas foi muito...
- 16:39É uma jogada circunstancial numa piada e que acabou ficando
- 16:44icônica também. Jogou um verde e acertou, né?
- 16:47Acertou. Mas isso parece que é uma raiz
- 16:50da marca, sabe? A gente fica falando assim, ah,
- 16:52jogou um verde, acertou. Jogou um verde, fechou um
- 16:54contrato de nove mil anos. Jogou um verde, de repente,
- 16:57patenteou a marca e aí a bandeira fica com a marca do
- 17:00outro. Exato.
- 17:01É gente com muita visão na família desde sempre.
- 17:04Nasceu um bobinho nessa família, gente.
- 17:07Mas uma coisa irônica também, por conta da influência da
- 17:10cervejaria, muitos descendentes do Arthur Guinness, o Benjamin
- 17:13Lee, ele tem dois filhos, depois eles começam a vida herdada,
- 17:17assim, administrando a cervejaria em dupla, depois um
- 17:19deles sai, mas eles têm uma carreira política também,
- 17:22inclusive vão ser eleitos para o parlamento, um deles entra na
- 17:25peerage, eles viram pares, porque eles vão para a Câmara
- 17:27dos Lords e tal, ganham títulos de nobreza, enfim, mas muitos
- 17:31deles eram unionistas. Eles eram defensores de um reino
- 17:34unido, a Irlanda permanecer sob a égide de reino unido por
- 17:38bastante tempo. Ironicamente, é uma marca que
- 17:41preza muito sua raiz irlandesa, que depois vai virar símbolo do
- 17:44ser irlandês pós-independência, St.
- 17:46Patrick's Day e tudo mais. Preza muito por isso, desde que
- 17:50a Inglaterra continue comprando business.
- 17:52Porque, afinal de contas, business.
- 17:54Exato. Exato.
- 17:57Tem uma coisa também que a gente olhou pra história, né?
- 18:00A gente olhou bastante pra história, mas a cerveja, per se,
- 18:04ela nem sempre foi do jeito que a gente conhece hoje, né?
- 18:07Hoje a gente tem aquela imagem da lata ou do serviço que é
- 18:10feito na torneira, né? Mas ela nem sempre foi desse
- 18:12jeito. Todas as cervejas centenárias,
- 18:15elas, de alguma forma, elas passam por algum processo de
- 18:17adaptação. É inevitável.
- 18:19Seja processo de adaptação de ingredientes, melhores técnicas,
- 18:23melhores insumos. Mas isso acontece.
- 18:25E não é diferente quando a gente encara a Guinness, né?
- 18:28E lembrando que a Guinness, quando a gente fala Guinness,
- 18:30ela tem toda uma miríade de cervejas.
- 18:34Ela não é somente uma cerveja, apesar de que ela tem um foco
- 18:37principal na cerveja, aquela escura, aquela dry stout, que é
- 18:41a mais clássica, né? De pubs, enfim.
- 18:44Mas ela tem uma miríade que depois a gente vai falar mais.
- 18:46sobre os estilos. Mas, por exemplo, a densidade da
- 18:50cerveja é uma coisa que variou ao longo dos anos.
- 18:53Quando a gente fala de densidade, a gente está falando
- 18:55de quantidade de açúcar que a cerveja tem para as levedurinhas
- 18:58ir lá consumirem e gerarem álcool.
- 19:00Isso variou por vários contextos.
- 19:02Alguns deles, inclusive a gente já falou um pouco, taxações,
- 19:05limitações decorrentes de períodos entre guerras, que
- 19:09frequentemente impactavam no resultado final de produtos.
- 19:12Isso era muito comum na Inglaterra e na Irlanda também.
- 19:15As cervejas sofrerem, baixarem suas densidades, baixarem a
- 19:18quantidade de açúcar disponível nas cervejas, justamente para se
- 19:21adequar a períodos de guerra que tinham menos disponibilidade de
- 19:24insumos, né? E também, principalmente aqui, a
- 19:27gente fala do malte de cevada, né?
- 19:28A cevada era usada pra fazer pão, logo no período de guerra a
- 19:32gente precisa comer pão, cerveja se torna menos importante, menos
- 19:35cevada pra cerveja ou cevada mais cara pra cerveja.
- 19:37E o ponto principal aqui é referente também à atenuação.
- 19:42Conforme os tempos foram passando, tipo, se a gente olhar
- 19:44pra cervejas mais antigas, a gente pode ter cervejas com uma
- 19:47quantidade de açúcar muito grande, né, no processo de
- 19:49fabricação delas. Entretanto, as leveduras não
- 19:52tinham tanta fome, por assim dizer.
- 19:54Elas não eram capazes de consumir tanto açúcar e gerar
- 19:58álcool. Por isso as cervejas tinham uma
- 20:00densidade mais alta, mas não necessariamente elas eram mais
- 20:02alcoólicas. Com ingredientes e processos
- 20:05mais modernos, as cervejarias, principalmente a Guinness,
- 20:08conseguiam aumentar em até dez por cento essa eficiência de
- 20:11fermentação. Isso resulta diretamente no que,
- 20:14Lud? Business.
- 20:15Dinheiro. O bobo não é bobo.
- 20:17Mane, mane, mane, mane! Mane, mane, mane, mane!
- 20:23Exatamente, o povo não é bobo aqui.
- 20:25Outra coisa interessante é que a gente pode encarar uma mudança
- 20:29na cerveja, que é histórica, era a prática que era muito comum,
- 20:33muito comum mesmo, de misturar cervejas mais velhas, cervejas
- 20:36já sofridas, com cervejas mais jovens.
- 20:39Eles faziam essa mistura para não perder aquele lote antigo,
- 20:43para fazer esse reaproveitamento, vamos chamar
- 20:45dessa forma. Isso se tornou, inclusive, uma
- 20:47característica de algumas cervejas, inclusive da Guinness.
- 20:50Tem uma característica, uma acidez não muito pungente, uma
- 20:54acidez da cerveja, era muito característica e atribuía-se a
- 20:58essa mistura de cervejas mais velhas com cervejas mais jovens.
- 21:02Então tinha isso, essa parada, antigamente.
- 21:05Passou-se os anos, novamente, provavelmente a gente está
- 21:08falando aqui também de melhoria de processos, não mais
- 21:12necessidade de fazer esses blends, isso parou de ser feito
- 21:15ou pelo menos parou de ser divulgado pela Guinness.
- 21:17A Guinness não nega nem afirma que continua fazendo isso,
- 21:20enfim, Não sei. Não estou trabalhando lá dentro.
- 21:23Se gerar dinheiro para eles é importante, então não sei.
- 21:25Mas essa prática não era limitada para Guinness.
- 21:27Várias cervejarias fazendo isso, principalmente nos pubs, nas
- 21:30public houses, era muito comum fazer isso.
- 21:32Muito comum, inclusive, vender cerveja mais barato por passar
- 21:36por esse processo. Então, por exemplo, tu poderia
- 21:38tomar uma Guinness nova, era um valor, e tu poderia tomar essa
- 21:42mistura de Guinness mais nova com mais velha por um outro
- 21:44valor. Ironicamente ou estranhamente,
- 21:47em alguns momentos da história, essa mistura era mais cara,
- 21:50porque ela era considerada uma mistura mais nobre, porque ela
- 21:53tinha um caráter diferenciado. Mas a história tá aí pra gente
- 21:56olhar pra trás e dar risada ou ver como o povo era...
- 21:59Diferente, vamos colocar nessa forma, era ímpar.
- 22:03E uma coisa também interessante é que a receita da Guinness, a
- 22:08dry stout, ela se manteve relativamente a mesma ao longo
- 22:11do tempo, com uma única diferença.
- 22:14A receita base, não entrando em porcentagens, ela é malt pale,
- 22:18um malt levemente com mais caráter do que o malt pilsen.
- 22:22Ela usa cevada torrada, que é aquele grão bem escuro, que tem
- 22:26um caráter de café, um caráter mais pungente, de torra. e
- 22:29cevada em flocos. Essa sim é uma edição mais
- 22:31recente, coisa do século XX, mas século XX, gente.
- 22:34Eu acho que é em mil novecentos e setenta e três, quando eles
- 22:36fizeram a modificação mais recente de receita.
- 22:39Exatamente. Olha só.
- 22:41Cara, como eu queria saber, lembrar de datas.
- 22:43Eu não consigo lembrar nem o nome das pessoas, gente.
- 22:46É uma desgraça. A dica é pesquisar no dia, mãe.
- 22:49Eu já esqueci. Essa eu vou anotar.
- 22:55E tem um, de novo, business. A cevada em flocos, ela não dá
- 23:00uma mudança tão grande de sabor e ela é mais barata que o malte
- 23:04de cevada. Então, novamente, dinheiros.
- 23:07No final, a gente tem que entender que a gente não faz
- 23:10grandes companhias que viraram grandes companhias na sorte, né,
- 23:15gente? No final, tem muita coisa
- 23:17envolvida e a gente começa a descobrir por que algumas
- 23:21funcionaram e outras não. E só pra fazer a provocação de
- 23:26oxidação, o chopp misturado e etc.
- 23:29Pelo menos, eles ainda tentam... Essa cerveja é mais barata
- 23:33porque tá mais velha. Essa cerveja é mais cara porque
- 23:36tá misturada assim, assada. A gente podia sofrer muito
- 23:38menos, né? A gente paga o mesmo preço da
- 23:40cerveja oxidada em vários lugares.
- 23:42Nem falar nada, não. Vou nem dar continuidade.
- 23:44Vendida como nova ainda, né, Lud?
- 23:46Opa! Quase como selvagem.
- 23:49Parei! Parei, parei.
- 23:55Abraço, Tainha. Não é o caso do meu amigo.
- 23:58Deixa o meu coisa linda. Bom, uma grande companhia, como
- 24:02a gente tá falando aqui, E ela é construída também sob o pilar da
- 24:05inovação e da criatividade. Certamente a Guinness teve muito
- 24:09a ensinar nesse quesito. Então o Henrique já deu essa
- 24:11introduçãozona aí falando sobre ingredientes, sobre mudanças,
- 24:15sobre adaptações. Mas eu tenho certeza que mais
- 24:18pela frente. Tem coisas técnicas e metódicas
- 24:23que foram feitas pela Guinness também que elas entram aqui como
- 24:26diferenciais para ela ter realmente despontado na frente
- 24:30de outras cervejarias. Falando da cevada torrada, que a
- 24:33gente acabou de falar como um dos ingredientes principais, a
- 24:36gente não pode esquecer que várias mudanças técnicas levaram
- 24:43a esse tão famoso perfil da Guinness que a gente tem.
- 24:46Século XIX, gente. Antes do século XIX, na verdade,
- 24:49malte, como é que era malte era feito?
- 24:51Malte era secado ou com turfa ou com coque, que é um combustível.
- 24:55E tudo isso gerava fumaça, tudo isso gerava uma secagem
- 25:00irregular. Torrava algumas partes do malte,
- 25:02outras partes do malte ficavam mais secas, menos secas, na
- 25:06verdade, mais claras. E principalmente fumaça estava
- 25:08sempre presente nisso. Com...
- 25:10A chegada do século XIX, um jovem chamado Graham Wheeler,
- 25:15ele inventou uma maneira de secar o malte, principalmente de
- 25:19torrar malte sem causar um incêndio na sua planta de... na
- 25:24sua maltaria, por assim dizer. Ele inventou, basicamente, um
- 25:28tambor giratório que permitia com que o malte secasse de uma
- 25:31maneira mais homogênea. Ou seja, estava sempre girando
- 25:34com o fogo esquentando esse tambor.
- 25:36Então, gerava o calor não direto no malte, que já isolava a
- 25:42fumaça, o fator fumaça do rolê. E como estava sempre girando, o
- 25:46malte era seco de uma maneira uniforme.
- 25:50O que é que isso acontece? O que você deve estar se
- 25:52perguntando? O que o Henrique está sendo tão
- 25:53técnico? Isso gera, primeiro, malte mais
- 25:55claro e, consequentemente, com maior eficiência.
- 25:58Maior eficiência consegue fazer mais cerveja com menos malte.
- 26:03Isso foi muito importante para a Guinness também no seu business.
- 26:07E, além disso, como eles conseguiam fazer a torra do
- 26:10malte, sem tacar fogo em tudo, sem queimar realmente o malte,
- 26:14tu também conseguia gerar uma cerveja com caráter torrado sem
- 26:17ser queimado. Isso também é mega importante no
- 26:19caráter da Guinness, que é ter esse caráter de torra, mas sem o
- 26:23caráter queimado. Só para vocês terem uma ideia de
- 26:25comparativo, antes dessa invenção, na Inglaterra,
- 26:29principalmente, era muito utilizado maltes brown e maltes
- 26:32amber. Esses maltes são muito
- 26:35irregulares. Inclusive, hoje em dia, as
- 26:37pessoas tentando replicar estilos antigos tentam voltar a
- 26:40esses malts, mas são malts irregulares, eles geram
- 26:43resultados irregulares. Então, essa irregularidade não
- 26:47é, quando a gente fala de negócio, não é o ideal.
- 26:49A gente está procurando regularidade, a gente está
- 26:52procurando eficiência, a gente está procurando tudo isso.
- 26:55E aí, novamente, a gente pensa que esse tambor gerou essa
- 26:59eficiência que era necessária. E a Guinness entra nessa
- 27:02história toda do Graham Wheeler porque foi uma das primeiras
- 27:06cervejarias, se não a primeira, a adotar esse malt e essa
- 27:10técnica para fazer a secagem do seu malt.
- 27:12Então, ela, visionária, foi lá e atacou diretamente técnicas
- 27:16novas para gerar sua cerveja. Queremos gostinho de café, não
- 27:19gostinho de cinza. Perfeito.
- 27:22É uma excelente abordagem, Gabriel.
- 27:24É isso aí. E lembrando, a gente está
- 27:27falando de uma época que a gente falou bastante de business, mas
- 27:31o sabor, simplesmente por ser barato, ela não ia se manter no
- 27:35mercado, por ser mais barata. Tinha um caráter, tinha um sabor
- 27:38que precisava ser mantido, tinha uma identidade que precisava ser
- 27:42mantida na cerveja. Então, a sacada aqui é usar as
- 27:46técnicas a favor dela, tanto para obter o caráter, obter o
- 27:50sabor, quanto também para melhorar o seu business.
- 27:54Então, novamente, Lúdio, o que é?
- 27:56Money! Money, money, money, money!
- 28:03Outra coisa bem interessante aqui é que cervejas inglesas têm
- 28:08um método bem interessante de fazer a clarificação dela.
- 28:12Usam um ingrediente famoso chamado Isinglass, que é
- 28:17basicamente uma substância obtida da bexiga natatória de
- 28:20alguns peixes, principalmente beluga e algum outro peixe,
- 28:24insira algum outro peixe aqui que eu não lembro o nome dele.
- 28:26E ele é usado, basicamente, para fazer a filtração da cerveja,
- 28:29tornar ela mais límpida. E essa adição era feita direto
- 28:32nos casks. Depois de produção da cerveja,
- 28:33os casks eram aqueles barris grandes utilizados pelas
- 28:36cervejarias, era adicionado esse produto direto no barril e era
- 28:40distribuído... E durante o processo de
- 28:44distribuição já ocorria a filtração, essa decantação de
- 28:48sólidos que tornavam a cerveja mais límpida.
- 28:51E aqui sim, por uma questão mercadológica, a Guinness parou
- 28:55de usar o Isinglass para poder anunciar sua cerveja como uma
- 28:59cerveja vegana. Porque o Isinglass tem fonte em
- 29:02peixe. Peixe não é vegano.
- 29:04Logo, ao substituir o Isinglass por algum, eu não sei qual que
- 29:08eles usam hoje, mas provavelmente algum elemento que
- 29:12seja sintético, conseguem anunciar como um produto vegano
- 29:16e anunciar em cervejaria. Basicamente, eles conseguem
- 29:19vender em empórios, conseguem vender em restaurantes como um
- 29:24produto vegano. Fala, Gabriel.
- 29:26O lance do Isinglass para a história das cervejas britânicas
- 29:29é interessante por conta do Brasil também.
- 29:31A gente tem um longo processo de construção de uma cultura
- 29:36cervejeira nacional que nunca chega ao patamar de exportar.
- 29:42A gente vai ter notícias de comecinho de exportação na
- 29:45década de mil e oitocentos e noventa para países da América
- 29:47do Sul, mas não é algo expressivo.
- 29:48Mas uma coisa que o Brasil exporta desde sempre é
- 29:51Ictiocola, no caso, Isinglass. Então você vê isso registrado
- 29:55tanto em periódicos de associações de cervejeiros, no
- 29:58Brewer's Guardian, por exemplo, quanto em notícias de remessas,
- 30:02saídas de, seja do Rio de Janeiro, seja de Manaus, seja de
- 30:05Belém, seja de Recife, indo justamente para Liverpool, para
- 30:08Londres, para outras cidades portuárias do Reino Unido,
- 30:11enfim. É a contribuição brasileira pra
- 30:14cultura cervejeira britânica no século XIX.
- 30:16Olha aí, se você do século XIX está escutando a gente, você
- 30:20talvez esteja consumindo icing glass produzido no Brasil.
- 30:25Abraço pra você do século XIX. Vamos lá, outra coisa
- 30:28interessante também, de processo e de método, é que as cervejas
- 30:32inglesas, como eu falei antes, elas são servidas em casks.
- 30:36Não todas mais, hoje se tornou até um fator mercadológico
- 30:41continuar servindo em casks como uma questão de origem, né?
- 30:45Mas, geralmente, nos bares, eram usadas as beer engines.
- 30:49O que é uma beer engine? É uma bomba, imagina uma bomba
- 30:52para extrair água, que nem aquelas bombas que vocês veem em
- 30:55desenhos, que alguém fica bombeando em cima e sai água por
- 30:59uma torneira. A beer engine... de nela é muito
- 31:01semelhante no seu funcionamento. Então, essa bomba basicamente
- 31:05fazia uma sucção, criava uma sucção e tirava a cerveja de
- 31:08dentro dos casques e passava por uma torneira, uma torneira com
- 31:11um bico, parecia um bico de ganso, assim, e passava por
- 31:14dentro de um difusor que fazia a cerveja cair dentro do copo,
- 31:18gerando uma agitação e gerando aquele efeito de cascata que a
- 31:21gente tá acostumado hoje quando a gente abre a lata.
- 31:23Uhum. Esse processo gera uma maior
- 31:25cremosidade e justamente por causa desse difusor.
- 31:28Esse difusor faz com que o gás carbônico que está preso dentro
- 31:32do líquido, ele se desprenda e quando ele está servindo no
- 31:35copo, naturalmente aquela espuma vai subindo, vai se formando a
- 31:38cerveja e cria aquele efeito de cascata que é tão desejado numa
- 31:42Guinness, né? Com o comércio de latas, o
- 31:46comércio de vender latas se tornou um dos mercados
- 31:50gigantescos, inclusive para exportação.
- 31:52E para replicar esse mesmo efeito, começou a ser usado
- 31:55nitrogênio. Porque o nitrogênio gera bolhas
- 31:57menores. Quando a gente usa o nitrogênio
- 31:59numa cerveja, quando a gente injeta nitrogênio numa cerveja,
- 32:03ela gera bolhas menores, porque o nitrogênio sai mais facilmente
- 32:07de solução. E aí, quando acontece essa saída
- 32:10de solução, basicamente replica o mesmo efeito do dispersor que
- 32:14tem ali na torneirinha do beer engine, que era o efeito
- 32:18clássico. Então, isso, olha, novamente, é
- 32:21uma mudança que é feita no processo para tentar replicar o
- 32:25comportamento dos casks, Mas gerando a identidade, mantendo a
- 32:29ideia que é, como é que eu sirvo uma Guinness?
- 32:31A Guinness tem que ser servida desse jeito.
- 32:33Então eu vou replicar o processo que eu tinha na minha Beer
- 32:36Engine, eu vou replicar numa lata também.
- 32:39A própria cevada em flocos, ela também ajuda com essa
- 32:42cremosidade, essa untuosidade na boca.
- 32:44Mas eu não sei se a escolha da cevada em flocos, ela foi
- 32:50feita... Por causa da cremosidade, eu
- 32:51acho que ela tá mais relacionada à questão econômica mesmo do que
- 32:55propriamente, buscando essa cremosidade maior, eu acho que é
- 32:59uma feliz coincidência aqui. E também, eu acho que existe uma
- 33:03mística, né, quando a gente fala de cerveja, água de agudos, água
- 33:07de Petrópolis pra fazer cerveja, quem nunca ouviu essa na mesa de
- 33:11bar, né? Pelo amor de Deus.
- 33:13Não é, Luz? É o tempo todo?
- 33:15Não, só porque saiu da sua boca agora, vamos levar mais
- 33:17cinquenta anos pra conseguir desmistificar isso, entendeu?
- 33:21Tá errado, gente. Alguém vai pegar, assim, o
- 33:23recorde, água de agudos, na voz do Henrique Boaventura, boa.
- 33:28Fudeu! Não, pega esse recorte e diz, tá
- 33:33errado. Mas águas históricas, a gente,
- 33:37principalmente pra quem faz cerveja em casa, e eu sei que
- 33:39tem muita gente que faz cerveja que tá ouvindo isso aqui, as
- 33:41pessoas, naturalmente, quando iniciam, a primeira coisa que
- 33:44elas pensam quando olham pra água é, vou replicar a água do
- 33:48local. É a pior cagada que você pode tá
- 33:50fazendo. Porque basicamente, sim, a
- 33:52região onde tem a fábrica da Guinness hoje é uma região que
- 33:57tem uma água, um perfil de água muito específico, uma água mais
- 34:00alcalina, uma água mais dura, com mais íons dissolvidos.
- 34:05Mas isso não quer necessariamente dizer que essa
- 34:08água era exatamente a água usada na cervejaria.
- 34:11Por quê? Por N motivos.
- 34:13Mas principalmente porque o processo se torna muito mais
- 34:17simples se tu começa de uma água mais branda, por assim dizer,
- 34:20uma água mais simplificada. E era muito comum, tem registros
- 34:24inclusive históricos sobre isso, as cervejarias ferverem a água
- 34:28antes de usar ela para fazer a cerveja.
- 34:30E isso naturalmente fazia com que o pH baixasse.
- 34:33Eu não vou dar uma grande explicação aqui sobre o porquê
- 34:36que acontecia isso. Tem a Gabriela Lando, que é a
- 34:38química cervejeira, que ela poderia desvagar por horas sobre
- 34:42isso. Mas, basicamente, na fervura, a
- 34:45gente tem um rolê que faz com que o pH baixe e a dureza
- 34:48temporária baixe também. Então, era normal, era muito
- 34:52comum e tem toda essa questão dessa mística da água histórica,
- 34:56mas aqui não tem muito... Não foquem muito nisso.
- 35:00Foquem no fato de que a cerveja era feita com água, sim, mas não
- 35:04necessariamente a água da região específica que era mais propícia
- 35:09para fazer cervejas escuras ou cervejas amargas.
- 35:11A questão é que as cervejarias têm os seus próprios métodos,
- 35:15têm suas maneiras de manipular a água e olhar simplesmente para a
- 35:20distribuição de água da rede da cidade não é a melhor maneira de
- 35:24a gente botar o dedo e dizer... Essa é a água da cervejaria.
- 35:26E eu acho que por fim, porque eu já falei demais, já estou
- 35:29cansado, a gente tem ali na década de sessenta uma mudança
- 35:33bem interessante, que é a Guinness saiu de barris de
- 35:36madeira para barris para kegs de alumínio.
- 35:39Até os dias atuais, se a gente for olhar principalmente para a
- 35:42sul da Alemanha, República Tcheca ou Zéquia, a gente vai
- 35:46ver que barris de madeira ainda são utilizados, principalmente
- 35:50em cervejarias como, cervejarias maiores, cervejarias como a
- 35:53Pizner Urkel, cervejarias como a...
- 35:56A Fuller's usa ainda. Eu estive lá e tem cask também.
- 36:00De madeira? Uhum.
- 36:01Olha aí. Tem muitos de alumínio, mas tem
- 36:05muitos de madeira. Tem serviço de cask dentro do
- 36:09bar deles, dentro da fábrica, em vários bares, pubs.
- 36:12Coisa linda. Eu tenho um vídeo, inclusive,
- 36:14fazendo um serviço todo cagado. É que você não sabe ainda a
- 36:19pressão que você tem que dar, entendeu?
- 36:20E vem que vem, né? Quando tu puxa, vem que vem, né?
- 36:23Vem que vem que canta. Eu preciso quebrar, eu não tive
- 36:26essa experiência ainda. Mas, basicamente, quando a gente
- 36:30olha para barris de madeira, a gente tem um custo, um custo
- 36:33grande. A gente precisa de pessoas
- 36:36especializadas, os tanoeiros, para fazer a manutenção desses
- 36:39barris de madeira. Então, recuperar, construir
- 36:42novos, reparar esses barris de madeira.
- 36:45Quando adota-se o alumínio, a resiliência desses barris é
- 36:49muito maior e a manutenção é muito menor.
- 36:50Então, também tem uma questão mercadológica aqui importante,
- 36:54que é conseguir mandar, inclusive, para mais longe o
- 36:57meio de transporte poder ser menos cuidadoso, porque o
- 37:00alumínio é mais resistente que a madeira.
- 37:02Apesar que a gente sabe que, por marketing e por vários outros
- 37:07fatores, ainda tem cervejaria, como a Luz falou.
- 37:09A Fuller's ainda usa. Várias cervejarias na Alemanha
- 37:11ainda usam. Se tu vai visitar a Augustiner,
- 37:15por exemplo, você vai ver aqueles barris gigantescos lá
- 37:18estourando barril na tua frente de madeira.
- 37:20Não necessariamente é o melhor recipiente pra isso, mas
- 37:22historicamente faz todo sentido. Todo imaginário, eu acho, assim.
- 37:25Você chegar no bar da... É mais bonito, né?
- 37:28É muito mais bonito tu ver um barril num balcão sendo
- 37:31estourado, né? De madeira.
- 37:33Assim, é isso. Te transporta pra essa coisa da
- 37:36experiência, entendeu? Na visita da Filler, você chega
- 37:39lá no bar deles, no final, você pode servir o seu próprio chopp
- 37:43com a bomba. Eles vão ter.
- 37:45É muito engraçado isso, que no balcão, na frente, você tem os
- 37:48taps que são com a manivela do cask.
- 37:52E aí, atrás de você, na parede, tá a câmara fria com as mesmas
- 37:56cervejas, só que aclimatadas corretamente e tal.
- 37:59Tô falando corretamente porque eu não quero essa que vai estar
- 38:01numa temperatura diferente e tal.
- 38:03E é muito interessante tu poder fazer essa comparação.
- 38:05Tu chegou a fazer essa comparação?
- 38:06A gente tomou uma de cada e é diferente.
- 38:09Não é pouco diferente, né? Ela é bem diferente.
- 38:11É, é diferente. É bem interessante isso.
- 38:13Nossa, que saudade. Gabriel, você quer dar alguma
- 38:17pitada? Me levem, me levem, me levem.
- 38:20Só isso, me levem. é isso gente, filhos, patrocina nós poderia
- 38:36Bom, mas enfim, a gente está aqui falando de Guinness como se
- 38:41ela fosse só ela. A gente já falou que eles são
- 38:43bem orientados financeiramente, digamos assim, olhos no mercado,
- 38:46olhos no produto, olhos nos negócios.
- 38:50Mas ela começou sozinha, mas para crescer e dominar mercados
- 38:53como ela fez, ela entendeu que não era possível seguir assim.
- 38:57Então ela certamente buscou parceiros para evoluir e
- 38:59alcançar ainda mais mercados, gostos e flores.
- 39:03Então a gente quer entender um pouco dessa fase da dona
- 39:06Guinness, mas não tão mais sozinha assim.
- 39:09Pra gente chegar nesse patamar, vale só um recusinho no tempo
- 39:13pra gente entender um pouquinho melhor essa história
- 39:15institucional de quão grande a Guinness ficou há quanto tempo,
- 39:18pra justamente chegar no patamar de se aventurar a novas
- 39:22empreitadas. A Guinness, ela teve o seu
- 39:24estouro, o seu alcance mundial, ao mesmo tempo que estava
- 39:27fazendo aquele branding na segunda metade do século XIX,
- 39:31tem literalmente mercado em todos os continentes do mundo,
- 39:35vira a maior cervejaria do mundo, de fato, na virada do
- 39:38século XIX para o XX, e em mil oitocentos e oitenta e seis ela
- 39:40já tem suas ações na Bolsa de Londres, então ela vira uma
- 39:43empresa de capital aberto. A família ainda mantém uma certa
- 39:47porcentagem de controle, não majoritário, mas ali fica sempre
- 39:50no comitê de diretores, tem sempre o seu CEO ali.
- 39:53Mas isso vai ficando para trás conforme o século XX avança e
- 39:58ela, de fato, vira uma empresa enorme.
- 39:59Na segunda metade do século XX, ela está com investimentos
- 40:03altíssimos, ela tem seus clientes cativos, ela tem seu
- 40:06faturamento padrão. E ela também se aventura a
- 40:09outros quinhões de mercado de bebidas.
- 40:11Então ela vai comprar empresas que mexem com destilação,
- 40:14empresas que são donas de marcas de uísque, para ser um prenúncio
- 40:18do que veio de fato em mil novecentos e noventa e sete, que
- 40:21foi a fusão com a Grand Metropolitan, que também começou
- 40:24com um conglomerado de hotéis, mas depois também foi comprando
- 40:26empresas de bebidas, formando a GMG Brands.
- 40:31Então, Grand Metropolitan, Guinness Brands, as marcas
- 40:34pertinentes a essas duas empresas fundidas.
- 40:37Mas não é um nome muito bacana de se dizer, né?
- 40:40Aí, ainda assim, naquele ano de noventa e sete, eles foram lá,
- 40:43pagaram consultoria de branding, e a pessoa deu a ideia, baseada
- 40:47num lema que eles tinham, assim, de celebrando a vida todos os
- 40:50dias, em todo lugar. Uhul!
- 40:52Pra juntar um radical latino e um radical grego, o latino diae
- 40:57e o grego gel, né? Então seria um dia na terra,
- 41:00uma... experiência terrena, e virou a Diágio.
- 41:04Essa colossal, assim, que você olha em todo lugar.
- 41:07Às vezes você vai comprar um papel higiênico, ele vai ser da
- 41:10Diágio, dependendo de onde você estiver.
- 41:13Não sei, mentira. Não acho que eles não se
- 41:15aventuraram tão longe. Eu achei que essa era a
- 41:17Unilever. Você não tá confundindo, não?
- 41:22Mas olha, a Unilever é dona de papel higiênico, é dona de
- 41:25salgadinho. Ó, se você olhar direitinho aí
- 41:28no seu braço, tá escrito Unilever.
- 41:33É na camiseta com certeza. São todos os Illuminati aí do
- 41:36mercado. E a Diageo começou nessa fusão
- 41:39em noventa e sete. No próprio ano de noventa e
- 41:41sete, eles adotaram esse nome por conta dessa consultoria.
- 41:45E eles já tinham no radar marcas assim pra incluir sobre esse
- 41:49guarda-chuva. Se não me engano, a Burger King
- 41:51já tava aí no páreo, a Johnny Walker.
- 41:53E falando em Johnny Walker, né, como...
- 41:56Eu brinquei, a Diageo hoje é gigantesca.
- 41:59Por conta da Johnny Walker e de outras empresas, ela é dona de
- 42:02quarenta por cento da produção mundial de whisky escocese.
- 42:06É muita coisa, muita coisa. E ela também é dona de outras
- 42:10marcas que são líderes de mercado de outros segmentos.
- 42:12Então tem a Smirnoff de vodka, você tem no Tanqueray, nos
- 42:15jeans. Ela é dona da Ipioca,
- 42:17tradicional cachaça cearense. Nossa, cachaçinha também é da
- 42:20Diageo. E claro, da sua marca raiz, a
- 42:23Guinness. que continuou só crescendo e, meu Deus do céu,
- 42:28que cervejaria potente em vários sentidos.
- 42:30Mas apesar dessa repaginada institucional, a Guinness ainda
- 42:34continua sendo Guinness, ela ainda continua tendo sua sede no
- 42:38St. James's Gate em Dublin, ao mesmo
- 42:40tempo que a sede, por ser no mesmo lugar e testemunhar toda
- 42:44essa história, ela ainda assim é testemunha do tamanho que a
- 42:47Guinness é hoje, porque ela é um dos maiores pontos turísticos da
- 42:50Irlanda. Ela, segundo números
- 42:52pré-pandemia, ela atrai quase dois milhões de visitantes por
- 42:55ano. Caraca!
- 42:56Por ano. E lá dentro tem o Storehouse,
- 42:59que foi uma construção de mil novecentos e dois, que começou
- 43:02como laboratório de testes. Foi considerado o primeiro
- 43:05arranha-céu das ilhas britânicas e tal.
- 43:07E hoje, depois de ter ficado um tempo ocioso, você tem lá
- 43:10experiência pra conhecer processo, pra conhecer
- 43:12ingrediente. Você tem um rooftop bar com
- 43:14visão trezentos e sessenta, fire height, visibility, não sei o
- 43:17que tem. Hahaha!
- 43:19Então você tem aí uma empresa que tá na gênese da Diageo, que
- 43:23é essa titã, mas que mantém as suas raízes e dialoga bastante
- 43:27com a sua própria história, o que é bem legal.
- 43:29Sabe uma coisa que eu acho impressionante nisso?
- 43:31Ouvindo com a maestria que o Gabriel tá trazendo essas
- 43:35informações, a gente tem no mercado cervejeiro muito uma
- 43:39base de fãs, as pessoas olhando pra cervejarias pequenas, as
- 43:43pessoas gostam dessa... É minha cervejaria, entendeu?
- 43:47Essa é minha cervejaria pequena, eu sou fã dessa cervejaria
- 43:49pequena. E aí a gente pode pegar várias
- 43:51cervejarias aí que entrariam nesse rolê.
- 43:54Mas como a Guinness, ela é muito mais...
- 43:59Ela é gigantesca e as pessoas continuam adorando ela, sabe?
- 44:02Tem esse fator de adoração pra cerveja, pro consumo dela, mesmo
- 44:07ela sendo gigantesca. E ela é gigantesca, né?
- 44:10Acho bem interessante esse contraponto.
- 44:13Mas eu acho que isso tudo tem uma associação com eles terem
- 44:17conseguido criar esse storytelling, que pode até não
- 44:20ter sido cem por cento intencional, mas que as
- 44:23histórias foram sendo muito bem amarradas.
- 44:25Vamos lembrar, aí falamos já da arpa.
- 44:27Aí a arpa, ela vira um símbolo, é patenteado.
- 44:29O governo que quer usar tem que usar do lado contrário.
- 44:31Aí o Gabriel trouxe o Tucano. Porra, o Tucano ícone, tem poema
- 44:35com o Tucano, não sei o quê. Quando você vai vendo, eles vão
- 44:39levando a gente pra esse lugar, sabe?
- 44:41Do tipo... Vem ser enganado, emanado aqui.
- 44:44Eu tô ganhando dinheiro em cima de você.
- 44:46Vem ser enganado. Eu vou.
- 44:48Gabriel falou aí desse lugar. Eu tô seca pra ir à Irlanda pra
- 44:51ir tomar Guinness. Tô seca.
- 44:53Se tiver um hotel lá dentro, eu fico lá.
- 44:56Minha gente, estudar pra essa pauta foi, assim, duro.
- 45:00Pela vontade de tomar uma Guinness o tempo todo.
- 45:03É? O tempo todo.
- 45:04É verdade. E é tão caro aqui, né?
- 45:06Uma coisa deleitosa. Uma coisa deliciosa.
- 45:10Mas tem uma questão também. Existe uma grande engenhosidade
- 45:13na construção dessa história institucional, porque você tem
- 45:17também um lado cretino em vários momentos.
- 45:21Você tem, por exemplo, uma postura muito fã de dinheiro e
- 45:25pouco fã do seu próprio povo durante a grande fome do século
- 45:28XIX, as pessoas literalmente passando fome, e você protegendo
- 45:32o campo de cevada, porque aquilo era...
- 45:33Comodity, para você produzir cerveja, não poderia substituir
- 45:36a alimentação de ninguém. O lance da Guinness comprar
- 45:39essas empresas de segmento de destilaria no próprio século XX,
- 45:43essas compras têm um monte de fraude envolvida, passando um
- 45:46monte de gente para trás, mas isso vai sendo soterrado pela
- 45:49reputação maior que a vida que a empresa já tem.
- 45:52Você tem, sim, as suas desgramas.
- 45:55É o capitalismo, minha gente. O capitalismo está aí.
- 45:58Então, a minha esposa é originalmente jornalista
- 46:01assessora de imprensa e ela fala um termo que é colchão
- 46:05reputacional. Perfeito.
- 46:07Se a empresa estabelece um colchão reputacional, cujo saldo
- 46:11é positivo, ela pode fazer cagadas, aí dá uma comida nesse
- 46:15saldo, mas você segue ali com um colchão reputacional que,
- 46:18entendeu, te mantém nesse lugar. Ao mesmo tempo, essa
- 46:21engenhosidade de investir em vários negócios.
- 46:24Fica a dica aí, Henrique. Primeiro, para a gente fazer uma
- 46:28fusão, a gente vai ter que chamar alguém para fazer um
- 46:30rebranding, porque, a princípio, o nosso nome de batismo é muito
- 46:34ruim, assim como era o da Prediágio.
- 46:36Verdade. Primeira coisa.
- 46:38A segunda coisa é a gente precisa investir em outros
- 46:40líquidos. Falar só de cerveja não vai dar
- 46:43certo. Enfim, muita dica que a Guinness
- 46:46tá dando pra gente hoje, meus amigos.
- 46:48E a gente deveria ter começado o podcast lá pelo século XIX,
- 46:51talvez. Vai dar tudo certo, vai dar tudo
- 46:56certo. A gente caminhando aqui nessa
- 46:59pauta que nos seduz demais, vai levando a gente em manada, para
- 47:03dentro, dois milhões na manada. A gente vai falar de uma outra
- 47:07engenhosidade, se a gente puder falar assim, da relação do livro
- 47:13dos recordes e da cervejaria. Novamente, a gente toca no mesmo
- 47:17lugar. Poucas empresas conseguem deixar
- 47:19sua marca de maneira tão forte e fixada no imaginário dos
- 47:22consumidores. Mas vamos pensar, a criação do
- 47:25Guinness Book conseguiu fazer isso de uma forma muito grande
- 47:29para a cervejaria. Essa talvez seja a prova de que
- 47:32uma ideia aparentemente louca pode trazer muitos frutos.
- 47:35Fica aí também, gente. Quando eu falo uma coisa muito
- 47:38doida num grupo desse de WhatsApp de reunião, leve em
- 47:41consideração. Pensa que é o Guinness Book.
- 47:46E a loucura é que o Guinness Book virou uma marca autônoma
- 47:50também, que muita gente não associa a essa origem na
- 47:53cervejaria, mas teve origem nesse meio sim.
- 47:57Vou pintar um cenário hipotético aqui.
- 47:59Estava pensando em exemplos possíveis, esse não é o melhor,
- 48:02mas acho que ele vai conseguir ilustrar meu argumento.
- 48:06Papo de bar vai pra cada lugar, né?
- 48:08Você do nada tá revoltado com a política ou então revoltado com
- 48:13o preço do tomate. Aí de repente você começa a
- 48:15contar causas de família e as pessoas começam a, sei lá, ver
- 48:19qual bisavó viveu por mais tempo.
- 48:21Certo. Aí a pessoa fala, ah, minha
- 48:23bisavó viveu até noventa e três. Pô, isso não é nada, minha
- 48:26bisavó morreu com noventa e oito.
- 48:28Aí, de repente, a mente das pessoas levemente embriagadas
- 48:30vai chegando a tal patamar, quem será que foi a pessoa mais velha
- 48:34do Brasil? E chega em umas questões
- 48:36superlativas, assim. Hoje a gente pega o bendito do
- 48:38celular, vai lá, pesquisa, muito provavelmente a gente vai ter
- 48:41essa resposta. Mas na metade do século XX,
- 48:43essas e outras perguntas não tinham uma fonte fácil.
- 48:47Foi mais ou menos numa discussão meio tonta que surgiu a ideia do
- 48:51Guinness, que foi a sementinha que começou a ser plantada, ou o
- 48:55processinho que começou a acontecer, que começou a
- 48:58fermentar, na cabeça do Sir Hugh Beaver, lá na década de mil
- 49:02novecentos e cinquenta. Ele era o diretor administrativo
- 49:04da Guinness, que foi numa caçada, tipo aqueles rolês bem
- 49:07britânicos, se você já assistiu The Crown, que os caras levam
- 49:10até babador pro cachorro, pra eles montarem uma tendinha no
- 49:14meio das montanhas da Escócia pra ir lá caçar um bicho.
- 49:17Um bicho. E a Elizabeth vai dirigindo o
- 49:20jipe. Esse tipo de rolê, os caras
- 49:22estavam lá num papo cabeça e decidiram ponderar qual ave
- 49:26caçável seria a mais rápida da Europa, para os seus trabucos.
- 49:31Aí, nessa falta de resposta, depois dessa viagem aí, eles
- 49:35viram que não tinha muito onde consultar essa resposta.
- 49:39E aí, um pouco depois, veio a ideia desse diretor executivo,
- 49:43administrativo, de fazer uma promoção a partir da cerveja,
- 49:47lançando esse livro resolutivo de papo de boteco, dessas
- 49:52divagações todas, mas sendo um livro de fatos e cifras, das
- 49:57coisas mais variadas possíveis, que vinculasse a marca e tal, e
- 50:01que tivesse o seu apelo, como algo curioso, enfim.
- 50:04E aí num trabalho intensivão, os caras meteram lá treze semanas
- 50:07trabalhando de domingo a domingo, eles lançaram o
- 50:09Guinness Book of Records em mil novecentos e cinquenta e cinco.
- 50:13Por causa de uma pira do rapaz que foi lá atirar nos fazão.
- 50:17Eu gosto de piras. E aí o livro teve meio século de
- 50:24vendas astronômicas, hoje são mais de cento e cinquenta
- 50:27milhões de cópias vendidas, traduzido em quarenta idiomas
- 50:30diferentes. É uma marca que ficou autônoma
- 50:33no imaginário das pessoas, desde dois mil e um ela já não tem
- 50:36mais relação com a cervejaria, mas ao mesmo tempo é das mais
- 50:39confiáveis para você verificar esse tipo de informação, que era
- 50:42a intenção original quando ele foi pensado.
- 50:44Doido, eu acho muito doido. Eu me lembro de ter uma cópia do
- 50:46Guinness Book e eu passava horas vendo os recordes mais absurdos
- 50:52e idiotas possíveis e deleitava. É.
- 50:58Bom, a gente tá aqui falando de várias coisas que a Guinness
- 51:01inventou, e se eu fosse chutar, eu diria que aqui no Brasil,
- 51:05informações que eu não tirei do Guinness Book, ou seja, saíram
- 51:08diretamente de Miso Vaquito, a maioria das pessoas talvez
- 51:12conheça a Guinness apenas pela icônica dry stout.
- 51:15Mas é muito mais pra provar e saber sobre os estilos de
- 51:18cerveja produzidos por eles. Então não acreditem em mim
- 51:22quando eu digo que existem mais cervejas estilo, tem no que o
- 51:25Gabriel vai contar. Foi dado por todo um crédito.
- 51:29É isso, hein? A Guinness, ela é reconhecida
- 51:33pela Dry Stout, não é à toa, é uma guinada primordial fazer
- 51:38esse tipo de cerveja escura, tipicamente inglesa, que começou
- 51:41com as Porters, a Stout é uma evolução, é uma derivação de um
- 51:47tipo de cerveja que foi concebido no século XVIII, mas a
- 51:51Guinness não começou fazendo esse tipo de cerveja, a Guinness
- 51:53é uma cerveja irlandesa, a Porter e as Stouts são cervejas
- 51:56com desenvolvimento como uma raiz inglesa, mas depois tem
- 51:59essa grande conexão entre essas ilhas britânicas.
- 52:02A gente sabe que a empresa começou em mil setecentos e
- 52:04cinquenta e nove, fazendo as suas ales e as suas table beers.
- 52:08Em sessenta e nove, ela fez a sua primeira exportação de ales.
- 52:13Então foram seis barris e meios pra Inglaterra.
- 52:15Coisa de nada, coisa de nada, que em casa não dura três dias.
- 52:20Mas aí, um pouquinho depois, em mil setecentos e setenta e seis,
- 52:24importou-se a primeira porter inglesa pra Irlanda.
- 52:27Uma cerveja que teve um excelente acolhimento.
- 52:30E o cara, né, a gente tá vendo que ele e a sua família tiveram
- 52:33um tino de negócio excelente, repetido às vezes, logo entrou
- 52:36nesse jogo. E aí, dois anos depois, em mil
- 52:38setecentos e setenta e oito, ele passou a produzir porters
- 52:41também, mas sem deixar de lado a sua oferta de alhos.
- 52:45Mas aí, na virada do século, em mil setecentos e noventa e nove,
- 52:48aí ele coloca Porter como carro-chefe.
- 52:50E é um momento significativo, porque, se a gente lembrar meio
- 52:54historicamente, isso tá acontecendo Revolução Francesa,
- 52:57também tem essas guerras de revolução que vão envolver a
- 53:00Inglaterra. Então, o inglês que já consumia
- 53:03Porter tá com uma estrutura humana, uma estrutura
- 53:06financeira, uma estrutura de produção de alimentos um pouco
- 53:08abalada por esse esforço de guerra. e ele precisa pegar essa
- 53:12cerveja que ele toma sempre de algum lugar.
- 53:14Além disso, você tem uma porção de políticas tarifárias, tanto
- 53:17na Inglaterra quanto na Irlanda, que vão favorecer os cervejeiros
- 53:21irlandeses, inclusive, uma coisa que o Henrique já trouxe, o
- 53:24preço do malte, que inclusive na Irlanda era mais barato por um
- 53:27motivo bem sacana, que no caso era a mão de obra mais barata,
- 53:30consideravelmente mais barata do que na Inglaterra.
- 53:32E isso tudo vai favorecer com que a Guinness tenha uma
- 53:35dianteira econômica, uma dianteira momentânea, então um
- 53:38país relativamente em paz, um país que tenha essa
- 53:41infraestrutura para fornecer esse tipo de cerveja, que tem
- 53:43uma alta demanda na Inglaterra, por um preço mais baixo e por
- 53:46uma qualidade que foi cada vez mais sendo reconhecido como
- 53:49excelente. e constante, na medida possível naquela época.
- 53:53Então, em mil setecentos e noventa e nove, ocorre essa
- 53:56inversão do vetor do comércio. Então, ao invés de você importar
- 53:58cervejas inglesas para a Irlanda, você exporta cervejas
- 54:02de tipo inglês para os ingleses. E aí você começa a fazer essa
- 54:06reputação da Guinness em torno dessas cervejas escuras.
- 54:10Só que aí você também vai começar a adaptar esse tipo de
- 54:12cerveja escura. Você tem não só o mercado ali do
- 54:15lado da vizinha Inglaterra, mas você tem as colônias que depois
- 54:18vão compor a tal da Commonwealth.
- 54:20Tem o mito da IPA que é ultra-lupulada para viajar para
- 54:23as cuculhas do mundo. Mas, de fato, o lúpulo é um
- 54:26conservante importante e era usado, de certa maneira, em
- 54:29alguns estilos diferentes. E em mil oitocentos e um você
- 54:32tem a West Indies Porter, que é uma variedade um pouco mais
- 54:35lupulada justamente pra isso. E que vai chegar aos poucos no
- 54:39Caribe, vai chegar em Serra Leoa, vai chegar na Nigéria,
- 54:43esses são nomes de países um pouco mais receitos, mas nos
- 54:45territórios que hoje compõem esses países.
- 54:48E essa West Indies Porter vai ser justamente a antecessora da
- 54:51Foreign Extra Stout. Que é o estilo que, até hoje,
- 54:55bomba na Nigéria é feito lá, bomba no Caribe, bomba em
- 54:58Singapura. Então você vai ter, ao longo
- 55:01desse século XIX, variâncias, aprimoramentos e afunilamentos
- 55:06também dos carro-chefes da empresa.
- 55:08O termo stout, a palavra stout, é uma coisa de robustez.
- 55:11Você pensa numa pessoa stout, ele tem um porte stout, ele pode
- 55:15até ser uma pessoa mais baixa, mas ele tem uma certa robustez,
- 55:18um tronco, um quadril, uma coisa assim, e isso também vale para
- 55:22uma cerveja nas suas propriedades organolépticas.
- 55:26Então, o que veio a ser uma extra stout, você tem a superior
- 55:31stout, depois a extra superior stout, a extra stout porter, até
- 55:35você ter a extra stout. E isso são denominações que vão
- 55:39mudando ao longo do século XIX, justamente no afurinamento desse
- 55:42carro-chefe, dessa cerveja principal que a Guinness
- 55:45produzia. Até que nos anos XIV você tem,
- 55:48de fato, a Stout Renan. Pula para o século XX, você tem
- 55:51aí a marca se disseminando pelo mundo, mas finalmente em XIX,
- 55:55você tem a Draft. que é a tal da cerveja nitrogenada.
- 55:59A primeira vez que esse recurso de injeção, inoculação, como
- 56:04seria a melhor palavra para dizer?
- 56:05Injeção. Injeção do nitrogênio na cerveja
- 56:08servida no Butex, e que vai ser mais um lance clássico da marca,
- 56:14e que, por volta de trinta anos depois, vai ser lançado em lata,
- 56:18na primeira vez com um widget, com a bolinha.
- 56:19Para você que pensa que tem uma bolinha de tênis na latinha, é
- 56:22quase isso, mas não bem. E em noventa e sete, eles vão
- 56:25fazer uma segunda geração desse widget, que é a que tem até
- 56:27hoje, que corrigiu certas inconsistências na performance
- 56:31dessa bolinha. Às vezes, se a cerveja estivesse
- 56:33quente, soltava nitrogênio demais, virava um sorvetão
- 56:36champanhudo, fazendo uma meleca pra lá e pra cá e tal.
- 56:39Mas nesse fio de cervejas escuras, é mais ou menos essa a
- 56:42trajetória da Guinness. Mas como a Lud já adiantou, não
- 56:45é só isso, não é só disso que se vive essa marca.
- 56:48E aí você olhando hoje, parece Kit Kat.
- 56:50Você vai no Kit Kat, no supermercado tem o Kit Kat
- 56:52chocolate branco, o Kit Kat dark, o Kit Kat normal.
- 56:55Você vai no Japão, tem o Kit Kat de wasabi.
- 56:57Então a Guinness, ela também tem curadoria de sabores para
- 57:02diferentes mercados de uma forma muito diversa.
- 57:05Às vezes uma cerveja específica só para o mercado belga, porque
- 57:07sim. Às vezes uma cerveja específica
- 57:09só... Porque podem.
- 57:10Porque podem. Só para o mercado nigeriano,
- 57:13porque sim. E aí, se você pegar uma lista de
- 57:15estilos, você vai ter... E aqui eu vou ler mesmo a lista,
- 57:18porque decorar isso tudo é duro, mas chegaremos com maior
- 57:22contextualização em breve. Você tem a draft, a clássica, a
- 57:25original extra stout, a Foreign Extra Stout, a Special Export
- 57:29Stout, a West Indies Porter, que é um estilo revival, estilo
- 57:33histórico, a Bitter, dialogando com estilos ingleses, a Extra
- 57:36Smooth, Special Extra, essa para o mercado belga, a Nitro IPA, a
- 57:42Rye Pale Ale, uma pale ale de centeio, Golden Ale, Harp Lager,
- 57:46que foi lançada na década de mil novecentos e sessenta, em
- 57:49comemoração ao bicentenário da marca, também para tentar
- 57:53cativar consumidores que estavam preferindo essas cervejas mais
- 57:56leves, que eram tradicionalmente continentais.
- 57:59Você tem Black Lager, a Blonde American Lager, que está
- 58:03dialogando também com consumidores dos Estados Unidos.
- 58:07A Malta Guinness, que é um rótulo específico da Nigéria.
- 58:09A Caliber, que é uma lager sem álcool.
- 58:12Você teve Draft Zero Porcento também.
- 58:14Você já teve a Enigma Draft Lager, que não existe mais.
- 58:18Você tem hoje a Milk Stout, que é um rótulo que veio da Open
- 58:21Gate. A gente vai falar disso já já.
- 58:23E tem também, sob esse todo guarda-chuva, o Brewer's
- 58:26Project. que é como se fosse a tradição e inovação no mesmo hub
- 58:30dentro da Guinness há mais de cem anos.
- 58:32É um hub experimental, mas que tá com esse dedo no passado, no
- 58:35presente e no futuro. E eu achei a descrição que eles
- 58:38dão no site muito boa, e eu peço a licença aqui pra vocês pra
- 58:41ler, mas é curtinho. Ah, só se você fizer outra voz.
- 58:45Que otária. Meu Deus, não vai dar.
- 58:51O Brewers Project, segundo a própria marca, ele deu carta
- 58:55branca para se explorar novas receitas, reinterpretar antigas
- 58:59e colaborar para dar vida a cervejas empolgantes.
- 59:02O projeto criou muitas cervejas de sucesso, como a Dublin
- 59:05Porter, a Hop House XIII e a Guinness Rye Pale Ale.
- 59:09Esta cervejaria experimental em St.
- 59:11James's Gate está em funcionamento há mais de cem
- 59:14anos e é o principal núcleo de testes, experimentações e novas
- 59:18inovações. E isso eles têm acesso a diários
- 59:21de produção que vão até o século XVIII, a registros de receitas,
- 59:25testam, reinterpretam, lançam edições limitadas para...
- 59:29justamente sempre aproveitar essa narrativa do histórico da
- 59:33cervejaria pra um produto e dar esse caráter limitado especial
- 59:37pra ele também. E também, de certa forma, eu
- 59:40acho que dialoga com uma outra iniciativa, deve ter sido
- 59:45precursora, eu diria, uma iniciativa de portões abertos,
- 59:48né, Lúcia? Exatamente.
- 59:50A gente vai chegar agora nos portões abertos do céu.
- 59:53Nos portões abertos nessa porra, é tipo a porta da esperança.
- 59:57O Silvio Santos tava falando disso, ó.
- 1:00:00Henrique, mas você, em algum momento, achou que você fosse
- 1:00:02querer fazer um adendo? Eu ia fazer dois comentários.
- 1:00:05Primeiro, as duas cervejas mais fortes da linha da Guinness, a
- 1:00:10Esther Stout e a Foreign Esther Stout, são de mercados quentes,
- 1:00:14mercados tropicais. Isso é um fator bem
- 1:00:16interessante. E, ao contrário, as cervejas
- 1:00:18mais leves, a Draft, que é a Draft Stout, ela é do mercado
- 1:00:23mais consumida na Irlanda. Então, tipo, tem essa dicotomia,
- 1:00:27por assim dizer aqui. e eu já tive a chance de provar algumas
- 1:00:32das cervejas feitas nesse projeto do Brewers Project e é
- 1:00:35bem interessante porque são cervejas bem diferentes, se eu
- 1:00:40não estou enganado eu tomei a West Indy Porter, eu tomei a
- 1:00:42Milk Stout, que se eu não estou enganado é também do Brewers
- 1:00:46Project e eu tomei mais uma que eu não me lembro eu estava
- 1:00:49tentando me lembrar, eu não sei se não foi a Ripe Ale Ale, mas
- 1:00:52são cervejas muito diferentes, é qualquer coisa menos Guinness,
- 1:00:55isso que é o mais interessante e ainda assim são cervejas
- 1:00:57históricas Isso é bem interessante de analisar que
- 1:01:01quando a gente olha para hoje, hoje a gente tem um retrato.
- 1:01:04E principalmente quando a gente olha para hoje, Irlanda.
- 1:01:07Agora, se a gente olha para o mercado inteiro, é uma miríade
- 1:01:10de coisas que a gente tem em volta da marca que não é só
- 1:01:14aquela cerveja preta com o efeito de cascata.
- 1:01:17Desculpa, só para, no começo da introdução desse tópico, eu
- 1:01:19falei, cara, eu arrisco dizer que as pessoas, a maioria das
- 1:01:22pessoas conhece a Guinness só pela Dresdault, né?
- 1:01:26E aí tem esse recorte, como o Henrique falou, de repente você
- 1:01:29está olhando uma fotografia num quadro grande sem dar um zoom.
- 1:01:32Você vai dando um zoom em cada parte, você vai descobrindo
- 1:01:34vários detalhes. Vai, Gabriel.
- 1:01:37É como se fosse a Dry Stout no primeiro plano, mas no plano de
- 1:01:40fundo que você tá achando que tem só um background meio morto,
- 1:01:43tem muita coisa, um mosaicão de possibilidades.
- 1:01:46Mas eu tenho uma teoria tirada da minha cabeça hoje à tarde por
- 1:01:51conta dessa predileção desses mercados quentes por essas
- 1:01:54cervejas fortes, que são historicamente cervejas de
- 1:01:56exportação, em parte, especialmente no caso da Nigéria
- 1:02:00e de Serra Leoa, em parte porque você tem essa influência
- 1:02:03colonial que houve uma certa... É um direcionamento muito
- 1:02:07específico do tipo de produto que chega, inclusive num
- 1:02:10protecionismo de vetar outras ofertas de cerveja que não
- 1:02:14ocorreu no Brasil. Então você veta a importação de
- 1:02:18lagers ao longo do XIX, por exemplo, na segunda metade do
- 1:02:20XIX. E segundo, porque você também
- 1:02:22tem culturas que bebem fermentados cereais, e isso
- 1:02:25habitantes desses países dizem e dão como causa o enraizamento
- 1:02:29dessas cervejas no gosto dessas pessoas... como um bom receptor
- 1:02:34dessas cervejas também. Então é como se você unisse
- 1:02:38tradições diferentes, forças diferentes, nem sempre iguais,
- 1:02:41obviamente. Colonização é uma força bastante
- 1:02:44destrutiva, bastante impositiva. Mas você também tem essa
- 1:02:49imposição vetando essas outras influências que moldaram outros
- 1:02:52mercados pelo mundo, como as lagras.
- 1:02:54Então eu acho que isso explica um pouco a permanência desses
- 1:02:57estilos, pelo menos nesses países africanos, na minha
- 1:03:00cabeça. Total.
- 1:03:01E tem um outro fator também que, se a gente for pensar nas
- 1:03:04cervejas produzidas, as cervejas tribais, né?
- 1:03:06A gente fala em África, né? África é um continente
- 1:03:11gigantesco com muitas diferenças.
- 1:03:13Mas a gente fala também de cervejas à base de sorgo, que
- 1:03:16são cervejas com uma consistência maior, uma grande
- 1:03:19consistência mesmo. Cervejas...
- 1:03:21Cremoso é pouco pra dizer, porque são cervejas densas, que
- 1:03:25também se assemelham a essa... caráter de boca mais cheia,
- 1:03:29sabores mais intensos do que a própria dry stout.
- 1:03:32A dry stout, ela, apesar de ter um caráter torrado, ela é muito
- 1:03:35menos intensa em sabor do que uma foreign ester stout, por
- 1:03:37exemplo. Então, também tem esse fator de
- 1:03:39estarem acostumados com bebidas alcoólicas com caráter mais
- 1:03:43bold, mais stout. Robusto.
- 1:03:48Robusto. Isso aí.
- 1:03:50Bom, voltando para as nossas portas abertas, as portas da
- 1:03:54esperança, a gente vai falar aqui da Open Gate Brewery, uma
- 1:03:58cervejaria que existe há mais de duzentos e cinquenta anos, não
- 1:04:01podia existir sem estar atenta à inovação e o contato com o
- 1:04:05público. Então, é claro que a Guinness
- 1:04:07também não tirou o olho desses horizontes e a gente já falou um
- 1:04:10pouco disso quando fala do The Brewer's Project, né?
- 1:04:14Então, a gente agora vai entender um pouco mais o que
- 1:04:17significa essa cervejaria aí de portas abertas.
- 1:04:20Eu achei essa iniciativa muito legal, porque primeiro o Open
- 1:04:24Gate fazendo um diálogo com o Portão de St.
- 1:04:28James, que é onde fica a fábrica da Guinness, a original lá em
- 1:04:32Dublin. Então é como se você estivesse
- 1:04:34abrindo os portões da fábrica de chocolate do Willy Wonka. você
- 1:04:37tem essa iniciativa que expõe um pouco as engrenagens do processo
- 1:04:42criativo dessa cervejaria que sim, como a gente já
- 1:04:45estabeleceu, tem o seu carro forte na Dry Stout, mas que tem
- 1:04:49um leque de possibilidades e tem gente muito sagaz lá dentro com
- 1:04:53um referencial histórico muito grande para seguir, elaborar, se
- 1:04:56inspirar e reinterpretar, assim como tendências contemporâneas,
- 1:05:00um orçamento gigantesco, um apoio institucional enorme para
- 1:05:04tentar achar novas respostas para o que é uma cerveja que tem
- 1:05:09apelo de público pelo fato de ser uma cerveja diferente.
- 1:05:12Então essa iniciativa da Open Gate, que é...
- 1:05:15Uma cervejaria experimental, meio brewpub, meio taproom, você
- 1:05:18tem o serviço de rótulos exclusivos, você tem esse espaço
- 1:05:21que exala a inovação sob esse colchão de reputação que tem um
- 1:05:28recheio histórico muito forte. Mas que ela também se expandiu,
- 1:05:31além de Dublin, além da James Street.
- 1:05:34E tem sedes até onde eu sei, em Baltimore, em Chicago, nos
- 1:05:37Estados Unidos. Então tá levando essas ideias
- 1:05:40adiante. Inclusive com a Milk Stout, que
- 1:05:43hoje ela é veiculada como um rótulo da Open Gate.
- 1:05:45Tá vendo? E a gente achando que era fácil.
- 1:05:48Vamos abrir uma Open Gate na Rua da Cerveja, no Rio de Janeiro.
- 1:05:52Portão aberto. É mais fácil abrir aí em
- 1:05:55Batatai. Tem uma cervejaria boa em
- 1:05:59batatais, inclusive. Já chegou nos seus ouvidos?
- 1:06:01Não, já chegou uma garrafa, inclusive, para mim.
- 1:06:03Uma Weizenbock. Muito que bom.
- 1:06:05Intercâmbios. Muito que bom.
- 1:06:07Bom, aí a gente está chegando aqui no Brasil, né?
- 1:06:09A gente já falou que a maioria das pessoas talvez não saiba da
- 1:06:12riqueza de rótulos que eles produzem.
- 1:06:15E aí, da minha percepção, já foi muito mais fácil encontrar
- 1:06:18Guinness aqui no Brasil, né? Eu acho que houve uma época, uma
- 1:06:21época da minha época, não tô nem dizendo da história da
- 1:06:24cervejaria em si, né? Era muito mais fácil e possível
- 1:06:27tomar um chope Guinness engatado nesses pubs irlandeses pelo
- 1:06:30país. Mas a história do Brasil e da
- 1:06:33Guinness remonta de muito mais tempo do que esse meu comentário
- 1:06:36sobre ela estar engatada em pubs, entre aspas, irlandeses no
- 1:06:41Brasil e com vários pot twists, assim, que eu não imaginava.
- 1:06:45Então, eu queria, por favor, que você contasse.
- 1:06:48Então, o desenvolvimento dessa cultura cervejeira no Brasil,
- 1:06:52que se deu paulatinamente ao longo do século XIX, ele é
- 1:06:55bastante pautado pela oferta de cervejas britânicas no geral.
- 1:06:58Inclusive você tem uma dicotomia de cervejas pretas, que são
- 1:07:01porters e tal, de cervejas brancas, que são todo o resto.
- 1:07:05geral Wales. E aí o branco pode ser tanto uma
- 1:07:08oposição ao preto, porque as cervejas portas estão de fato
- 1:07:11cervejas escuras, quanto pode ser pelo fato de virem pale no
- 1:07:15nome, no rótulo pale, pálido, branco.
- 1:07:18Aí você tem essa associação. E a partir do final da década de
- 1:07:21mil oitocentos e sessenta, você também passa a ter oferta de
- 1:07:24Guinness no Brasil. entre esses rótulos, assim, de cervejas
- 1:07:28escuras que chegam pra cá, sobretudo em cidades litoranas,
- 1:07:31mas isso não fica restrito a Rio de Janeiro e Recife, isso vai
- 1:07:33aparecer em Belém, isso vai aparecer em Manaus, isso vai
- 1:07:35aparecer menos nas províncias do Sul, províncias porque não eram
- 1:07:40estados ainda no tempo do Império.
- 1:07:42Sempre o Sul deixado de lado. É porque havia bolhas de demanda
- 1:07:47específica e algumas dessas bolhas tentavam uma certa
- 1:07:50autossuficiência, que no caso eram algumas colônias de
- 1:07:53imigrantes, ainda que você tenha cidades com esse trânsito muito
- 1:07:56grande. Você tem os serviços ingleses
- 1:07:57chegando em quase Porto Alegre em mil e oitocentos e nove.
- 1:08:01Pô! Assim que se abriram os portos,
- 1:08:03já tinha inglês indo lá vender cerveja.
- 1:08:06Só que a Guinness passou a figurar nesse repertório também,
- 1:08:09junto com a Bass, junto com a Tenant, que é uma marca
- 1:08:11escocesa. E eu acho isso muito legal.
- 1:08:14É literalmente um nome super familiar, hoje super gigantesco,
- 1:08:18que aparece ali naqueles anúncios de venda.
- 1:08:21Ela vai aparecer nesse momento em que...
- 1:08:23As cervejas inglesas vão começar a perder espaço...
- 1:08:26Para cervejas que vêm de mercados produtores de lager...
- 1:08:29Cervejas germânicas, cervejas austríacas...
- 1:08:31Cervejas dinamarquesas... Quando a Carlsberg entrar no
- 1:08:34jogo e tal... Mas ela passa a ser muito
- 1:08:36veiculada... Especialmente em Pernambuco...
- 1:08:38Pernambuco parece um porto em que chega muita Guinness...
- 1:08:41Por bastante tempo... Especialmente ao longo da década
- 1:08:43de mil e oitocentos e setenta... Uma coisa que...
- 1:08:45Eu não sei a que fim levou... Mas parecia o mercado mais
- 1:08:49aquecido para isso... E uma coisa legal também é que
- 1:08:51em alguns periódicos você estava atento não só ao produto em si,
- 1:08:54mas ao estado da marca. Vira tipo fofoca institucional.
- 1:08:59Não é nem às vezes semanário para a população de imigrantes
- 1:09:03ingleses. Não, é um jornal comum que dá lá
- 1:09:05notícias gerais e tem lá... O senhor Arthur E.
- 1:09:08Guinness saiu da sociedade com seu irmão pela quantia de um
- 1:09:12milhão de libras esterlinas, que agora esse irmão Edward vai
- 1:09:16continuar administrando a empresa sozinho e o outro vai
- 1:09:19ser parlamentar, vai pro parlamento.
- 1:09:21Umas coisinhas assim que você acha na imprensa.
- 1:09:24Daí tu fica imaginando que provavelmente esse jornal veio,
- 1:09:27sei lá, escanteado dentro do navio, jogaram isso em
- 1:09:30Pernambuco e aquilo virou fonte, virou fonte de informação pra
- 1:09:34gerar informação pra quem morava aqui, né?
- 1:09:37O pior é que é um jornal católico que circulava no Rio de
- 1:09:40Janeiro que dá essa informação da empresa.
- 1:09:42Mas você tem muitos anúncios que são em inglês, mas muitos
- 1:09:46anúncios em português de armazéns de secos e molhados
- 1:09:49vendendo cerveja inglesa a preços módicos, entre as
- 1:09:52cervejas, a branca da Bass e a preta da Gates.
- 1:09:56Vários estabelecimentos assim. Gente, a gente não tem hoje pra
- 1:10:00beber a Bass aqui. Hoje a gente não tem, a gente
- 1:10:03tinha há mais de século atrás. Só queria reclamar.
- 1:10:06Reinava a Bass, a Tenant, e depois a Guinness, entre outras,
- 1:10:10a Ehlers e a Becks, é isso? Como é que é?
- 1:10:13Deixa eu pegar aqui um anúncio pra colar.
- 1:10:15Becks é uma marca. Não, não é a Becks, Becks, mas
- 1:10:17Ehlers e Bell, Ehlers e Bell, que era uma engarrafadora de
- 1:10:23Liverpool, que também produzia sua cerveja, mas que depois,
- 1:10:25inclusive, vai engarrafar Guinness na Inglaterra.
- 1:10:27E hoje não tem. Não tem.
- 1:10:40Bom, pra a gente dar aquela encerrada geral, a gente vai
- 1:10:44terminar com uma curiosidade abobrinha que eu achei muito
- 1:10:49maravilhosa. E aí, porque é uma curiosidade
- 1:10:51abobrinha, eu peguei esse tema pra mim.
- 1:10:53Porque a cara da curiosidade abobrinha sou eu.
- 1:10:58Então a gente vai falar do Splitting D.
- 1:11:01Uma cervejaria icônica cria seus próprios mitos, rituais,
- 1:11:06tradições. Isso tudo para entrar mais uma
- 1:11:10vez no imaginário dos consumidores e deixá-los ainda
- 1:11:12mais apaixonados e próximos da marca.
- 1:11:14Isso para mim tem uma coisa de humanizar a marca, de te
- 1:11:18aproximar dela de um jeito muito absurdo.
- 1:11:21Então, o que foi o splitting the G, na verdade, né?
- 1:11:26É uma expressão popular que foi associada ao modo corretíssimo,
- 1:11:30ao modo exato, preciso de servir um pint de Guinness.
- 1:11:35Ninguém melhor do que uma virginiana convicta para falar
- 1:11:37do modo correto e preciso, né? E tem relação direta ao ato de
- 1:11:42servir a cerveja da forma que a espuma fica cremosa e se alinhe
- 1:11:46perfeitamente no meio da letra G da palavra Guinness.
- 1:11:50Então, existe todo um ritual para servir a cerveja
- 1:11:54corretamente e o processo envolve servi-la em dois
- 1:11:59estágios. Primeiro, o copo é preenchido
- 1:12:02até cerca de três quartos. E eu, mesmo sendo virginiana,
- 1:12:05não poderia fazer esse serviço, porque, aparentemente, sou muito
- 1:12:09ruim em matemática. Então, três quartos para mim.
- 1:12:14Se não tiver a marcação no copo, não vai dar certo.
- 1:12:17Então, aparentemente, nessa primeira fase, serve cerca de
- 1:12:21três quartos do copo. E depois faz uma breve pausa.
- 1:12:24Sete e dezenove segundos. Aí, ó.
- 1:12:26Aí vem o carro preciso. Pá!
- 1:12:28Também, dados pesquisados hoje, amanhã eu esqueci.
- 1:12:31Amanhã eu vou mandar uma mensagem pra ele.
- 1:12:33E aí, quantos segundos? Repete, de desafio.
- 1:12:38Exatamente. E aí, pra permitir que a espuma
- 1:12:40dê aquela assentada básica, e aí só nesse momento que a cerveja é
- 1:12:45completada até o topo, né? E aí, quando essa técnica é
- 1:12:48seguida corretamente, a cabeça cremosa de espuma, né?
- 1:12:53Topo maravilhoso. Deve, assim, subir exatamente no
- 1:12:57meio da letra G da palavra Guinness.
- 1:13:00Isso demonstra um serviço técnico impecável, mas também
- 1:13:03uma espécie de tradição ou arte na cultura cervejeira irlandesa,
- 1:13:08especialmente entre os bartenders.
- 1:13:10E aí a gente já vê uma cervejaria que já estava
- 1:13:13incentivando a competição com o Guinness Book, só aumenta esse
- 1:13:17imaginário, né? Então, assim, alcançar esse
- 1:13:20serviço perfeito é visto como um sinal de habilidade e precisão,
- 1:13:25é tipo um surr. Você foi coroado o Sir Servidor.
- 1:13:30Acabei de cantar isso também. Sir Garçom.
- 1:13:36Exatamente. Mostrando que o atendente, o
- 1:13:38garçom ou a garçonete, respeita o ritual da Guinness e entende a
- 1:13:41importância da técnica pra servir a cerveja da forma
- 1:13:43correta, né? Então, a galera se orgulha
- 1:13:46disso. Deveria ter um broche do
- 1:13:48Outback. Pra servir o serviço.
- 1:13:50Você é um Sir Servidor. Risos Procurem depois.
- 1:13:56Tem um vídeo bem legal, antigo, do serviço da Guinness.
- 1:14:00É super antigo, acho que, sei lá, muito antigo.
- 1:14:03Como é que era o serviço histórico da Guinness.
- 1:14:05Não tem nada a ver com esse split in the G, não tem nada a
- 1:14:08ver com esse tempo. não tem, eu sei qual vídeo você tá falando
- 1:14:12chute porrada e bomba bota o copo, taca ali o terror na Bird
- 1:14:16Engine lá e soca a cerveja no copo depois passa uma régua em
- 1:14:19cima sabe o que a gente podia fazer Henrique?
- 1:14:21você que deu essa ideia, você podia catar esse vídeo e me
- 1:14:23mandar o link e aí vai tá lá no blog pra quem quiser assistir o
- 1:14:27serviço velho da Guinness vou catar, catarei Bom, a prática do
- 1:14:31splitting the G é um detalhe que reflete a longa tradição de
- 1:14:35servir a Guinness com precisão e cuidado, como eu já disse, que é
- 1:14:38muito valorizado. Mas toda moeda tem dois lados,
- 1:14:42meus amigos. Não é só o serviço.
- 1:14:45A gente vai falar disso do outro lado, do consumidor também.
- 1:14:49Eu adoraria ser essa tarada que tivesse Guinness à vontade pra
- 1:14:53ficar fazendo esse teste e me embebedar completamente.
- 1:14:56Nesse caso, a ideia é a façanha de você conseguir beber uma
- 1:15:02golada bem generosa do pint servido e terminar a golada
- 1:15:08exatamente... É muito ruim que eu vou falar no
- 1:15:11ponto G, gente. Uma mulher falando de ponto G.
- 1:15:16na marca do copo, né? Então, assim, essa prática
- 1:15:19também é vista como um sinal de precisão, habilidade, respeito
- 1:15:22ao serviço. E como toda disputa de boteco,
- 1:15:25né? Porra!
- 1:15:26Uma coisa que não seria resolvida pelo Guinness Book.
- 1:15:29Tem gente que fala que o split in the G, o que faria sentido, é
- 1:15:32quando o volume total da cerveja tá cortando a palavra Guinness
- 1:15:36na beirada da pint, bem no meio da palavra, consequentemente, no
- 1:15:40meio da letra G. Está partindo o G.
- 1:15:42Aham. E tem gente que defende que o
- 1:15:45volume correto é você deixar o volume entre a palavra Guinness
- 1:15:49e o emblema da harpa que tá logo acima, na lateral do copo.
- 1:15:52E nem pra isso existe consenso, como toda boa treta amistosa de
- 1:15:56barco. Tem coisa que não tem que ter
- 1:15:58solução, porque se tiver solução, perdeu o interesse.
- 1:16:01Saiu do mito, né? A ritualística da coisa.
- 1:16:05Então, assim, eu acho que essa versão do Split Indie me
- 1:16:09interessa bastante, porque ia ser um jeito divertido.
- 1:16:13Eu acho que a gente já tinha que marcar um encontro lá em Dublin
- 1:16:15pra gente fazer essa competição e ver quem consegue fazer essa
- 1:16:19golada generosa. O que vocês acham?
- 1:16:23Acho necessário. Não é?
- 1:16:24A gente sobe lá no Storehouse, aprende a servir e vai testando
- 1:16:28até conseguir partir esse jeito certinho.
- 1:16:30Eu acho que é isso. Tinha que ser aprender a servir.
- 1:16:32Não serviu errado. Vou ter que beber essa pra
- 1:16:35poder... Putz.
- 1:16:38É, Brasil. É meio que assim nos despedimos,
- 1:16:45né? Mas assim, você deve ter ouvido
- 1:16:50toda essa quantidade de informações e você ainda deve
- 1:16:53ter... Eu quero me aprofundar mais um
- 1:16:55pouquinho. A gente, para fazer essa pauta,
- 1:16:57para trazer essa pauta para vocês, a gente teve muita
- 1:17:01consulta em livros. Porque livros, gente, é
- 1:17:03importante. Leiam, comprem livros.
- 1:17:05E tem algumas recomendações. A minha, inclusive, é super
- 1:17:09genérica, mas é muito bom. Primeiro, quero começar com um
- 1:17:12livro bem de boas. História das Cervejas
- 1:17:14Britânicas, do Martin Cornell, basicão, excelente livro, tem a
- 1:17:18versão em português, tem a versão em inglês, livro que vai
- 1:17:21passar por todos os tipos de cerveja, toda a parte histórica
- 1:17:25das cervejas no Reino Unido. Lindo demais, é barato, comprem
- 1:17:29e leiam, não tem desculpa. E para quem está órfão da
- 1:17:32editora Crater, o e-book em português ainda está à venda,
- 1:17:35assim como o e-book da versão em inglês, eles estão inclusive com
- 1:17:38preço muito parecido na Amazon. Um livro fez uma parceria para
- 1:17:41relançar os livros, então talvez esse livro vá ser relançado.
- 1:17:44Glória. Glória.
- 1:17:45Também, esse aqui é para quem é versado no idioma bretão, mas é
- 1:17:49excelente. Os livros do Ron Pattinson,
- 1:17:52todos os livros do Ron Pattinson são excelentes e ele fala, deve
- 1:17:57ter mais de dez livros só para cervejas do Reino Unido.
- 1:18:00E são excelentes. É muita informação, muita
- 1:18:03informação mesmo, mas eu diria que para quem está querendo se
- 1:18:06aprofundar, é crucial os livros dele.
- 1:18:09As minhas indicações dizem respeito à própria Guinness e ao
- 1:18:14mercado e indústria de cervejas britânicas no geral.
- 1:18:18Infelizmente elas estão em inglês, então isso seria um
- 1:18:21obstáculo para algumas pessoas, mas a gente ainda carece de
- 1:18:24traduções, especialmente nesse segmento, um trabalho que a
- 1:18:27Crater fazia super bem. Gabriela Lando fez isso muito e
- 1:18:30muito bem. Mas enfim, a Guinness é uma
- 1:18:33empresa que tem a sua biografia oficial, tem vários jornalistas
- 1:18:36que se aventuram a escrever sobre ela, mas tem uma
- 1:18:38específica que eu achei muito interessante, porque ela tem um
- 1:18:41Q sentimental, mas também um Q de experiência em primeira mão,
- 1:18:44inclusive de acesso a arquivos, que é a do Tony Corcoran. que
- 1:18:47chama The Goodness of Guinness, A Loving History of the Brewery,
- 1:18:51Its People and the City of Dublin.
- 1:18:53O cara trabalhou na Guinness trinta e oito anos, antes e
- 1:18:56depois da Diageo, saiu e depois resolveu escrever esse livro
- 1:19:01biográfico barra declaração de amor à cervejaria, o que ela
- 1:19:04representa para Dublin. E depois dois outros livros,
- 1:19:07dois barra três, que falam de indústria, mercado cervejeiro na
- 1:19:11Inglaterra. Um é do Peter Matthias, que
- 1:19:14chama The Brewing Industry in England, de mil setecentos e mil
- 1:19:17oitocentos e trinta. É um livro que está disponível
- 1:19:19no archive para download, ele é de mil novecentos e cinquenta e
- 1:19:22nove. Ele é, inclusive, meio classicão
- 1:19:25entre historiadores e outras pessoas de humanas que
- 1:19:28escreveram sobre cerveja aqui no Brasil, no caso do Edgar Cobb,
- 1:19:31da Teresa Cristina Marques, por exemplo.
- 1:19:34Essa gente toda conhece essa bibliografia.
- 1:19:36E ele tem uma espécie de sucessor, que é feito por outros
- 1:19:39autores, porque houve essa lacuna. que é o Terence Gourvage
- 1:19:42e o Richard Wilson, que escreveram The British Brewing
- 1:19:45Industry, aí contemplando o período de mil oitocentos e
- 1:19:47trinta até mil novecentos e oitenta.
- 1:19:49E esses mesmos dois, o Terence e o Richard, eles organizaram um
- 1:19:52livro ótimo, que tem um ótimo capítulo sobre a Guinness,
- 1:19:55inclusive, chama The Dynamics of the Modern Brewing Industry.
- 1:19:59Esses três livros estão no archive, pra acesso por
- 1:20:02empréstimo, que é gratuito, ou pra download.
- 1:20:04Então, ainda que em inglês, pelo menos eles estão acessíveis.
- 1:20:08E o do Tony Corcoran tem disponível para compra o e-book
- 1:20:11também. Todas essas referências
- 1:20:13bibliográficas vão estar no blog do post desse episódio lá no
- 1:20:17site do Surredilúpulo e também na descrição do episódio aqui no
- 1:20:20streaming, onde você estiver escutando esse maravilhoso
- 1:20:23programa. Gente, quanta coisa, quanta
- 1:20:27alegria, meu coração se enche de felicidade quando a gente fala
- 1:20:31de história de cerveja, porque bem mais do que lúpulo e não sei
- 1:20:35o que, WPA, essas paradas, haze, a história da cerveja é bonita,
- 1:20:40e quando a gente pega no micro assim, vai olhando...
- 1:20:44Tem muita coisa legal e, nossa, aprendi bastante aqui nesses
- 1:20:48momentos que a gente pôde trocar sobre isso aqui.
- 1:20:51Então, essa cerveja, sabe, grandes marcas foram construídas
- 1:20:56e elas seguem sendo marcas icônicas e atuais.
- 1:20:59Elas são atuais, continuam sendo relevantes nos dias de hoje, né?
- 1:21:04E se você ouviu até aqui, se você participou desse momento
- 1:21:09junto conosco, você pode participar com as nossas redes
- 1:21:11sociais também. Você pode estar presente em
- 1:21:13nossas redes sociais. Você pode marcar lá no Surra de
- 1:21:16Luplo ou simplesmente nos seguir no Surra de Luplo, no Instagram
- 1:21:20e no TikTok, que é o arroba Surra de Luplo.
- 1:21:22E se você tiver alguma sugestão de pauta ou convidados, mande um
- 1:21:26e-mail para contato arroba surradeluplo.com.br.
- 1:21:28É isso, meus amigos. Gabriel, um agradecimento enorme
- 1:21:32por você discorrer sobre todo o seu conhecimento, nos
- 1:21:35abrilhantar com sua presença aqui.
- 1:21:37Puts, gente, eu que agradeço. Eu me sinto honradíssimo de
- 1:21:40estar aqui trocando essa ideia com vocês.
- 1:21:43Ainda não me acostumei a ouvir as vozes que estão sempre nos
- 1:21:46meus fones no meio de uma gravação aqui, digitalmente,
- 1:21:49frente a frente. Fazer essa troca é sempre muito
- 1:21:52legal. Eu aprendo muito com vocês e
- 1:21:53espero que a gente siga trocando.
- 1:21:56E, putz, é isso. Muito obrigado.
- 1:21:58Foi um prazer ter o Gabriel conosco.
- 1:22:00Foi uma nova experiência estar aqui agora dividindo a bancada
- 1:22:04do Surra de Lúpulo com o Henrique e nos próximos
- 1:22:07programas também com o Estevam. Enfim, novos ventos.
- 1:22:11Agradecer ao Leandro mais uma vez por toda a parceria nesses
- 1:22:14quatro anos e meio de Surra de Lúpulo.
- 1:22:17E é isso, pessoal. O que eu digo sempre no final,
- 1:22:20até semana que vem. Valeu.
- 1:22:22Tchau, tchau. Beba local, beba com moderação.