Latest / Surra de Lúpulo / Cervejas de Fermentação Natural. Papo com Carola Carvalho e Diego Simão | Surra #228
Transcript
- 0:03Hipacondriaca apresenta... Surra de Lúpulo.
- 0:15Oi, pessoal. Bom dia, boa tarde, boa noite.
- 0:18Eu sou Ludmilla, mais conhecida no Instagram como Ivacondrica.
- 0:21E no programa de hoje, meus amigos, nós vamos falar de um
- 0:26assunto super geek cervejeiro, mas que a gente recebe muitos
- 0:30pedidos. Cerveja de fermentação natural.
- 0:34O que é isso? De onde vem?
- 0:37Do que se alimentam? Como se reproduzem?
- 0:39Hoje, no Surra de Lúpulo. Brincadeiras à parte, contamos
- 0:47com a doutora Ana Carolina e mais conhecida no Instagram como
- 0:52Carola Space Beer e Diego Simão para nos guiarem nesse mundo
- 0:58cheio de possibilidades. Antes de pedir que os nossos
- 1:04convidados deem um alô, a gente quer passar um recado muito
- 1:06importante. O Clube da Cozalinda está de
- 1:09volta com força total, meus amigos.
- 1:11E para fazer parte da Cozarada, você pode escolher por três
- 1:14planos diferentes. Para assinar, acesse o site
- 1:17cozalindadeloginha.lojavirtualnuvem.com.br e escolha o plano certo para
- 1:25você. O melhor de tudo é que mecenas
- 1:27têm condições especiais e um super desconto na escolha de
- 1:31qualquer um dos planos. Você não pode ficar fora dessa.
- 1:35Vamos deixar o site para você entrar certinho na lojinha na
- 1:38descrição do episódio e também no nosso blog.
- 1:41Vai lá fazer a sua compra. Agora sim, Carola e Diego dão um
- 1:47alô para a galera reconhecer a voz de vocês.
- 1:50Olá, pessoal. Aqui é a Carola Carvalho, do
- 1:52Space Fear. E hoje nós vamos contar um
- 1:55pouquinho sobre fermentação selvagem e essa bagunça que é
- 1:59essa selvageria, mas que traz produtos excelentes.
- 2:03E estamos aí. Agora, eu só queria falar uma
- 2:05coisa para o Diego. Diego, eu adorei, adorei o nome
- 2:09do clube. Cozarada.
- 2:12Cara, adorei. É sensacional.
- 2:14Estava esperando essa oportunidade para falar isso.
- 2:17Bom, aqui é o Diego que está falando.
- 2:18Tudo bem, galera? Como é que vocês estão?
- 2:21Faz um tempinho que eu não participava aqui.
- 2:23Sempre feliz de estar participando aqui do nosso
- 2:26querido Surra de Lupo, o qual eu também sou ouvinte.
- 2:29E é especial estar aqui com todos vocês e com a Carola.
- 2:33A gente que já discutiu em congressos, em várias discussões
- 2:37sobre o que é selvagem e o que não é.
- 2:39Então, vai ser legal demais. Muito bom, bem-vindo, muito bom
- 2:43tê-la aqui também, Carola, ter vocês dois.
- 2:46E eu sou o Leandro, mas hoje vocês podem me chamar de
- 2:49Tamarindo, que é aquele docinho ácido.
- 2:55A gente bate esse papo aqui bebendo alguma coisa.
- 2:58Vamos lá, Carola, você vai beber o quê nesse dia específico?
- 3:02Água, porque sem água você não faz nada, entendeu?
- 3:04Você não vive, não tem vida. Água é a base de tudo.
- 3:09Água. É segunda-feira.
- 3:10Muito bom, Diego. Ah, eu tava tomando um suquinho
- 3:13de uva aqui. Tá bom.
- 3:14É, suco da Aurora. Patrocina nós.
- 3:17Lud, você... Bom, eu tô aqui, tô dentro dos
- 3:20meus oitenta dias, né, meus amigos?
- 3:22Então eu tô sem beber mesmo. Eu tô sem beber.
- 3:25Minha vida é essa aí, Brasil, tá?
- 3:27Ninguém fica assim não. Então eu tô aqui na minha
- 3:28aguinha, minha albinha. Agora, eu queria saber, meu
- 3:32azedinho doce, minha bala de tamarindo, que se você não tomar
- 3:37cuidado, quebra o dente lá de trás.
- 3:41Tá bebendo o que aí? Se for tomado pela ansiedade, é
- 3:44perigoso mesmo, né? Porra, meu nome, qual meu nome?
- 3:49Bala de tamarindo é quebra-dente.
- 3:52Ó, eu também vou aqui no bonde dos não alcoólicos, eu vou de
- 3:57água também. Estamos gravando num dia
- 3:59específico da semana que fica muito difícil começar a semana
- 4:02bebendo. Então, vamos devagar.
- 4:04Isso aí, isso. E se você não puder apoiar a
- 4:17gente agora com aquela graninha, com aquele apoio, sem problemas,
- 4:21ajude a gente a chegar mais longe.
- 4:24Basta enviar o link desse episódio para o amigo que gosta
- 4:27de cerveja artesanal ou compartilhar nas redes sociais
- 4:31marcando a gente. Estamos em diversas plataformas
- 4:34de streaming, mas o coração enche de amor quando rolam
- 4:37aquelas cinco estrelinhas no Spotify.
- 4:40Agora, se fechar o combo cinco estrelas, mas comentário
- 4:44sussurrado no Apple Podcast, a gente pira de alegria.
- 4:48As avaliações ajudam as plataformas a entenderem que
- 4:50nosso conteúdo é relevante e melhora muito a distribuição dos
- 4:54episódios. Nos ajude!
- 5:10Bom, antes de começar esse papo, vale dizer que a gente já falou
- 5:14com a Carola e ela derrubou um monte de conhecimento pra gente
- 5:18no episódio cento e oitenta e sete sobre leveduras
- 5:21brasileiras. A gente esteve aqui também com a
- 5:22Luciana, que é do Laboratório da Cerveja, Minas Gerais.
- 5:26E com o Diego, que é tipo, porra, quase um co-host.
- 5:29Ele esteve com a gente aqui no setenta e dois, Sour Estilo.
- 5:33No cinquenta e um, Cervejas Ácidas.
- 5:35Em oitenta e nove, Italian Grape Ale.
- 5:38No cento e noventa e seis, falando da titia contemporânea.
- 5:42Só que o Diego, além de tudo, ele tem várias...
- 5:46Ele é meu palteiro preferido. Não tem o meu malvado favorito.
- 5:50Ele é o meu palteiro preferido. O sugestor de dor de pauta desse
- 5:56universo. Ainda bem.
- 5:56Graças a Deus. Alô, alô.
- 5:57Graças a Deus. Não tô reclamando não.
- 5:58Manda amar pra nós. Então é isso.
- 6:01Você que não ouviu ainda esses programas, ouçam.
- 6:03Fala, filhão. E tem outra.
- 6:05Ele corrompeu o sistema e tem um encontro selvagem.
- 6:08É verdade. Então, assim, existe ali toda
- 6:11uma linha de conteúdos praticamente com o Diego, cem
- 6:15por cento de Diego. É verdade.
- 6:17Cem por cento não, que tem um ou outro que ele só dá a entradinha
- 6:20ali, só fala a abertura, mas, cara, no geral tem a presença
- 6:23dele. Então, agora você falou de
- 6:25corromper o sistema, eu lembrei de outra música.
- 6:27Eu tô musical hoje, meus amigos, né?
- 6:30Caraca, amiga. Vixe, Maria.
- 6:32Eu tô é pit na cabeça, pane no sistema, alguém me
- 6:34desconfigurou. Pane no sistema, alguém me
- 6:38desconfigurou. Aonde estão meus olhos de robô?
- 6:43Vamos nessa. Vamos com seriedade agora.
- 6:45Seriedade, assunto é sério. Eu vou soltar a pergunta e quem
- 6:48quiser pula nela. No caso, Carola e Diego, tá?
- 6:51Não vai ser nunca nem eu, nem Leandro.
- 6:53Você vai pular nessa pergunta. Ah, mas seria interessante vocês
- 6:57tentarem responder, vai? Né?
- 6:59Acho melhor não, hein? Você é muito mais qualificada
- 7:02que eu. Doutorado, pós-doutorado.
- 7:05Diego estudando essa coisa ácida há dez anos.
- 7:08Coisa amarezinha, terroir e tal. Bom, vamos lá. o que é uma
- 7:11cerveja de fermentação natural e o que a gente espera do seu...
- 7:16Calma, respira. Ela já queria bater no botão
- 7:19vermelho. Uma, uma, uma...
- 7:21Ai, meu Deus. O que é uma cerveja de
- 7:27fermentação natural? O que a gente pode esperar do
- 7:30sensorial desse tipo de cerveja? Vamos lá, doutora Carola, você
- 7:34que está aí com tudo na ponta da língua.
- 7:36Não, deixa o Diego responder essa, porque o Diego é o cara da
- 7:39cerveja selvagem. Eu sou da levedura, eu deixo ele
- 7:41falar da cerveja selvagem, dessa parte sensorial, ele é o cara
- 7:45que entende isso. Não, mas a gente pode começar
- 7:48essa resposta negando a própria pergunta, né?
- 7:51Ah, começou. Opa!
- 7:53Porque a gente pode falar o seguinte, né?
- 7:55Toda fermentação é natural, né? Quem chamou esse cara pra
- 7:58participar disso? Tá.
- 8:01Não, é. A gente pode começar revertendo
- 8:04tudo. Ele é pai recente mesmo, gente.
- 8:06Olha só. Provavelmente ele ouviu de
- 8:08obstetra que todo parto é natural.
- 8:10O parto não natural é aquele que aconteceu algum imprevisto.
- 8:15Mas eu acho que o que a gente pode falar, por exemplo, é que
- 8:18fermentação natural, todas são, né?
- 8:20Eu acho que fermentação artificial a gente teria se a
- 8:24gente tivesse criado já uns nanorobôs que fossem lá e
- 8:27fizessem a fermentação. Ainda não acontece isso.
- 8:31Apesar de pessoas como a Carola serem possíveis de manipular, de
- 8:36criar uma levedura, alguma coisa assim.
- 8:37De inventar uma doideira, né? É, eu acho que a gente poderia
- 8:41começar por aí. Mas eu acho que quando a gente
- 8:43fala em fermentação natural, aqui a gente está trazendo um
- 8:46termo que está sendo muito usado no mundo do vinho, do vinho
- 8:52natural, do vinho natural. E que traduzindo para o mundo da
- 8:56cerveja é o que a gente chamaria de ou uma cerveja de fermentação
- 9:00selvagem ou uma fermentação espontânea, onde não há
- 9:04interferência na seleção dos micro-organismos.
- 9:06Acho que definir a categoria, né, e aí quando a gente tá
- 9:10definindo a categoria, a gente tá definindo a definição, eu
- 9:13acho que a gente tem que colocar esses primeiros termos, né, pra
- 9:16gente não se perder um pouco, porque existe hoje, né, eu acho
- 9:21que a gente vai ter que entrar num modo de congruência, né,
- 9:24entre as bebidas fermentadas pra gente ter um vocabulário único,
- 9:28porque senão a gente se perde, né.
- 9:30Porque fermentação natural é um tipo de expressão muito ampla,
- 9:34né, Carol? E a gente poderia discutir isso
- 9:39de outra forma, talvez, mas o que seriam as fermentações
- 9:42naturais no mundo do vinho, hoje em dia se define como as
- 9:46fermentações com menos intervenção, o menor uso de CO₂
- 9:50para inibir alguns tipos de micro-organismos ou totalmente
- 9:54parar uma fermentação. E por aí vai, né?
- 9:57E no caso que essa expressão quer dizer, são fermentações sem
- 10:02intervenção. Onde no mundo da cerveja se
- 10:04encaixaria somente para as cervejas de fermentação selvagem
- 10:08e espontâneas. E isso tudo assim, né?
- 10:10Tipo, muitas e muitas aspas. É, grosseiramente falando.
- 10:15Quando a gente fala fermentação sem intervenção.
- 10:17Porque só pelo fato da gente decidir estar fazendo uma
- 10:21cerveja, a gente já tá fazendo uma intervenção.
- 10:23A carne bíblica foi o ambiente falando, né?
- 10:25Tem um movimento antropológico. O homem está intervindo, ele
- 10:30deixa de ser espontâneo, por exemplo.
- 10:33E vale lembrar que, dependendo da bebida, você vai fazer uma
- 10:36fermentação espontânea, os players, os organismos que estão
- 10:40atuando ali, são diferentes. Então, as leveduras, no caso, as
- 10:44bactérias, que estão participando do processo de
- 10:46fermentação de um vinho, de uma cachaça, fermentação natural,
- 10:51fermentação espontânea, são diferentes dos organismos que
- 10:55estão participando da fermentação de uma cerveja.
- 10:58Por quê? Porque a fonte, o açúcar, são
- 11:01diferentes. Então isso vai fazer com que
- 11:04você acaba escolhendo já que bebida que vai ser feita,
- 11:08entendeu? Então a gente viu isso na
- 11:09Manipoeira, que você tem organismos que são diferentes em
- 11:13um determinado momento, porque são aqueles organismos que
- 11:16conseguem comer aquele tipo de açúcar, conseguem metabolizar
- 11:18aquele tipo de açúcar. Então, vai ser diferente da
- 11:22bebida que você escolher, entendeu?
- 11:24Então, aí que já começa o não tão espontâneo que nem o Diego
- 11:28estava dizendo. Você já escolhe qual açúcar você
- 11:30quer colocar ali. Então, você já vai direcionando
- 11:33para um tipo de organismo. Ok, mas isso é legal, entendeu?
- 11:36Porque a gente quer alguma coisa, a gente quer chegar num
- 11:38produto... A gente não quer uma coisa
- 11:40completamente aleatória, sei lá, uma seiva de árvore fermentada,
- 11:44entendeu? Não, a gente quer uma coisa que
- 11:45a gente já conhece, que a gente sabe que tem a... mercado pra
- 11:48isso, a gente sabe que a gente gosta daquilo, então a gente já
- 11:51vai direcionando pra isso. Agora, quanto à parte que você
- 11:54perguntou da parte sensorial, é, o sensorial é interessante, né?
- 11:58Porque, na verdade, quando você brinca com a selvageria, você
- 12:01não... A gente tem uma...
- 12:03Vai, o Diego vai me criticar e vai falar que tem uma certa
- 12:08tendência a ser ácida, mas eu já tomei cerveja de fermentação
- 12:11espontânea que não é ácida. que não tinha acidez.
- 12:14Então, mas assim, com certeza, a tendência é ser ácida, por causa
- 12:18dos organismos que estão atuando ali.
- 12:20Mas agora, deixa o Diego defender a acidez dele.
- 12:24Não, não, até eu concordo que... Eu acho que o que a gente tem
- 12:28que falar é Numa fermentação natural, obviamente, a gente vai
- 12:32ter presença de bactérias. O que talvez a gente não tenha é
- 12:36a ação delas, né? Quando a gente tá falando de
- 12:38cervejas selvagens, a gente espera realmente que ela seja,
- 12:43em algum momento, ela seja ácida.
- 12:45Porque também tem essa, né? Tipo, no começo ela pode até não
- 12:47ser ácida, mas ao fim do processo fermentativo ela ser.
- 12:51Mas também a gente pode ter cervejas onde existe um uso
- 12:55interno, maior de lúpulo, onde a gente vai ter cervejas que não
- 12:59necessariamente vão ser ácidas também.
- 13:01Então a gente tem toda uma possibilidade de trabalho, de
- 13:05controle, para, vamos dizer assim, o que receber.
- 13:09Mas, assim, respondendo a pergunta se a gente consegue
- 13:12esperar alguma coisa, a gente pode dizer que não.
- 13:16Mas não, também a gente pode colocar de certa forma, de
- 13:20muitas aspas. Porque, vamos dizer o seguinte,
- 13:22hoje a gente tem uma cerveja, que é a Manipoeira Selvagem.
- 13:26E aqui tem um trabalho muito legal da Carola, e de todo o
- 13:31corpo científico que acompanhou o projeto, que foi de acompanhar
- 13:34os micro-organismos que, vamos dizer assim, fizeram a
- 13:38fermentação desse projeto. Quando a gente faz essa cerveja,
- 13:42seja em sanitarina, seja, sei lá... em Ribeirão Preto, ou
- 13:45seja, no Nordeste, a gente sabe que vão ser cervejas diferentes.
- 13:49Mas algumas coisas, elas vão ser parecidas.
- 13:53Elas vão ser cítricas, elas vão trazer gosto de polvilho azedo,
- 13:58elas vão ter uma acidez lática. É porque o modelo de receita,
- 14:04que é padrão a todas, leva a acontecer uma fermentação
- 14:08parecida em todas, porque a origem do organismo é parecida
- 14:12para todas. Mas em termos gerais, e claro, a
- 14:15Manipoeira hoje a gente considera ela como um estilo
- 14:18dentro das cervejas selvagens. Mas se a gente pegar uma cerveja
- 14:22selvagem na categoria que não tem definição de estilo, a gente
- 14:27é obrigado a dizer que não tem o que esperar.
- 14:31Não dá para prever qual vai ser o resultado.
- 14:33E essa é a graça das cervejas de fermentação natural, cervejas de
- 14:38fermentação selvagem, né? Então, o legal é tu não ter o
- 14:42que esperar. Esse é um ponto legal.
- 14:45Desculpa, Diego. E eu acho que é o seguinte,
- 14:46quando você começa um processo de fermentação, você quer abrir
- 14:49uma cervejaria, você quer começar a sua primeira cerveja
- 14:53selvagem, você sabe que o primeiro tanque vai ser ruim.
- 14:56Porque o primeiro tanque, você ainda não deu uma selecionada
- 14:59naqueles organismos, entendeu? Então, a chance do primeiro
- 15:02tanque ser ruim é grande. E depois, aquilo tudo com o seu
- 15:06paladar, você vai provando e vai falando Putz, essa ficou boa,
- 15:09essa ficou ruim. Vai fazer o que com a ruim?
- 15:10Joga fora. Vai aproveitar a boa.
- 15:12Então, aqueles organismos que fizeram aquela cerveja boa, você
- 15:15acaba, vamos dizer, domesticando, selecionando para
- 15:19fazer as suas próximas cervejas, entendeu?
- 15:22Então, você acaba... Mesmo sendo isso, a não ser que
- 15:24seja sempre espontâneo, se for sempre espontâneo, sei lá, cada
- 15:28dia você está, mas assim, para ser sempre espontâneo, você vai
- 15:31ter que cada dia estar indo em um lugar, porque hoje, se você
- 15:35estiver dentro de uma fábrica da Cozalinda, dentro de uma fábrica
- 15:39pessoal da Companhia dos Fermentados, eles já têm, da
- 15:44Cantillon, por exemplo. Exato. ele já tem a própria
- 15:47microbiota ali agindo, entendeu? Então, ele já foi mais ou menos
- 15:51selecionado. Agora, se o cara, se o Diego
- 15:53amanhã resolve abrir uma fábrica, sei lá, no meio da
- 15:57Amazônia, cara, vai começar tudo de novo.
- 16:00Ele vai se enterrar, ele vai começar a pegar uns bichos
- 16:02estranhos até ele conseguir ter um produto de excelência que nem
- 16:05ele tem hoje, entendeu? Então, ele vai ter que... aquilo
- 16:07tudo vai ser um processo. Eu acho ainda até que existem
- 16:11formas da gente, vamos dizer assim, direcionar esse resultado
- 16:15de algum ponto. Usando lupulagem, quantidade de
- 16:20açúcar, desenho de mostura, tudo isso dá para ter alguma certa,
- 16:25vamos dizer assim, algum certo resultado.
- 16:28E eu até seria um pouco mais otimista dizendo que pode muitas
- 16:32vezes acontecer da primeira vez dar certo, tá?
- 16:35Só que tu corre sempre o risco de dar errado.
- 16:38Isso é óbvio. E acontece, né?
- 16:40Eu tive muita sorte até hoje, eu acho que só uma vez que não
- 16:45ficou legal, joguei a cerveja fora, mas geralmente dá muito
- 16:48certo. Só que o que acontece é que hoje
- 16:53poucos cervejeiros entendem que cerveja selvagem ou cerveja
- 16:57espontânea não é significado de descontrole. na verdade tem todo
- 17:03um projeto pra tu controlar o que vai acontecer naquela
- 17:07produção peraí você já tá furando a próxima pergunta já tá
- 17:14furando a pauta Diego ai meu Deus do céu E eu já tá...
- 17:19Vamos respirar. Porra, Tainha.
- 17:24Tá, mas só vamos aqui... Eu só queria consolidar uma
- 17:27coisa. Eu acho que a Carola colocou,
- 17:30assim, eu acho sempre legal de falar pra deixar o pessoal um
- 17:33pouco, vamos dizer assim, não é embasbacado, mas seria dizer,
- 17:38tipo, peraí, isso é um white climax.
- 17:40Mas cervejas belgas, do tipo lambique...
- 17:45Talvez não necessariamente a gente chame elas, deveria chamar
- 17:47elas de espontâneas. Porque como a Carola falou, lá
- 17:51dentro do local onde eles fazem as coisas, tu tens uma sala que
- 17:57é o cool shape, que vai resfriar a cerveja, mas ali é um grande
- 18:01ponto de inóculo. E é um inóculo controlado,
- 18:04porque é deles, tá lá, tá fechadinho.
- 18:06Eles controlam a microbiota deles ali, então É, exato.
- 18:10Essa história de abrir uma janela e tá vindo o passarinho
- 18:13ali é a maior conta do vigário, não?
- 18:15Tipo, não é assim, tá ligado? Então, por isso que essa
- 18:18discussão de fermentação natural, se a gente for olhar, é
- 18:22uma definição muito romântica. Na verdade, se a gente for olhar
- 18:26pelo lado microbiológico da coisa, e até mesmo histórico, a
- 18:31gente tem que ter em mente que tudo tá acontecendo porque o
- 18:35homem tá botando a mão. Então, tipo, não tem como ter,
- 18:38por exemplo, um vinho natural. espontâneo, por exemplo, né?
- 18:43Porque ele só foi, vamos dizer assim, lá na...
- 18:47Os primeiros vinhos estão sendo considerados aqueles que foram
- 18:50na Geórgia. Ah, porque tu tinha uma ânfora
- 18:53que ficou no tempo, ela fermentou sozinha.
- 18:55Mas pra aquela uva estar toda acumulada dentro daquela ânfora,
- 18:58por exemplo, ela teve que ser colhida por alguém.
- 19:01E não foi, tipo, um rinoceronte que foi lá, não foi um leão que
- 19:06fez isso. Foi, tipo, se humano, que foi
- 19:08lá, colheu, botou lá dentro e isso aconteceu de uma forma que
- 19:11eles não sabiam, mas não foi espontânea, aquilo aconteceu por
- 19:14conta da ação do ser humano, ponto.
- 19:17É, a não ser que você vai lá experimentar a uvinha,
- 19:20experimentar várias uvinhas que estão ali, aí você pode ser que
- 19:23você talvez tenha umas gotinhas de alguma coisa que você poderia
- 19:28chamar de vinho, entendeu? Porque a gente sabe que as
- 19:30leveduras, elas estão no ambiente.
- 19:32Então, elas estão ali. Elas gostam.
- 19:34A Saccharomyces gosta disso. Então, a Debaromyces gosta da
- 19:38outra coisinha. Então, elas estão ali no
- 19:40ambiente, entendeu? Mas você, exatamente, você
- 19:43colheu para você fazer um volume.
- 19:44Você ter quantidade suficiente para você beber, você teve que
- 19:49partir do princípio, né? Você teve que colher isso tudo.
- 19:51Você teve que plantar. Senão, você está chupando néctar
- 19:54de flor. A Carola vai lembrar, mas é uma
- 19:57coisa que foi um último argumento aqui, só pra fechar
- 20:00essa discussão, que a gente tava com a Silene no primeiro
- 20:03Encontro Selvagens, né, que a gente fez uma mesa sobre existe
- 20:06terroir no mundo da cerveja, né, e a briga era que eu tava
- 20:09dizendo que sim, e a Silene dizendo que não, mas só que o
- 20:13meu sim era no sentido de, tipo, existe porque existe intervenção
- 20:16humana, né, e o argumento final é, se não houvesse intervenção
- 20:21humana pra fazer o vinho, o Parreira não dava uva, dava
- 20:24garrafa de vinho. E não é isso que acontece.
- 20:27Então, olha só, calma, calma, calma, calma, calma, calma,
- 20:31muita calma nessa hora. Calma que tá vindo muita coisa.
- 20:35É, não, calma, respira, respira. Primeira coisa que eu queria
- 20:38falar aqui, a gente vai pular pra próxima pergunta, senão
- 20:41vocês nunca mais saem da primeira.
- 20:43Jesus, que apego. Comportem-se.
- 20:48É, a primeira intervenção aqui é, há uns dois meses atrás, um
- 20:52mês e meio atrás, a gente fez um programa para tentar descobrir
- 20:56como é que a gente chama cerveja especial.
- 20:59É especial? É artesanal?
- 21:01É craft? É mini?
- 21:02Independente? Independente.
- 21:05Eu tomei pedrada, porque não sei o que...
- 21:08Porque não sei o que lá, porque não sei o que lá.
- 21:11Tá bom. Aí agora o cara vem cheio de
- 21:13lisura. Não é bem assim, não pode ser
- 21:16natural. Porra, espontâneo.
- 21:18No final, Brasil, nada tem nome nessa jossa.
- 21:21Então você não chama mais Diego, ela não chama mais Carola, eu
- 21:24não sou mais Ludmilla, Leandro não é mais Leandro, Maurício é
- 21:26Maurício, Silvio não é Silvio. Jesus!
- 21:28É por isso que eu troco todo o programa, fica mais fácil.
- 21:32Mas aí é uma pessoa que tem, porra, múltiplas personalidades,
- 21:35fragmentado, o cara é fragmentado, entendeu?
- 21:39Enfim, a questão do sensorial aí, eu só ia fazer uma pequena
- 21:44intervenção assim, tá bom, o cara foi lá, fez a cerveja dele
- 21:48de fermentação natural, espontânea, o nome que vocês
- 21:50quiserem dar, que eu já também desapeguei de nome, tá?
- 21:52Desapeguei, vocês chamam do que vocês quiserem chamar.
- 21:55E aí chapou a fruta lá dentro, chapou um morango, chapou um sei
- 21:59lá o que cazzo. Tu não vai esperar que vai ter
- 22:03alguma coisa desse sabor ali? Pelo amor, não?
- 22:06Eu tô louca? Não, mas daí vai ter o sabor da
- 22:08fruta, não necessariamente da fermentação.
- 22:11Tipo, não dá pra prever a fermentação, a fruta dá pra
- 22:13prever. Entendi.
- 22:15Entendeu? Nossa, que desagradável.
- 22:17Eu que sou uma pessoa control freak, eu não poderia nunca
- 22:20trabalhar com isso. O que vai dar aqui?
- 22:21Não sei. O que eu entendi é isso, né?
- 22:24Você controla o mosto, você controla já a geolocalização
- 22:28ali, o ambiente, então você já sabe a microbiota que vive aí em
- 22:32Floripa, na fábrica da Coisa Linda e tal, então você já tem
- 22:36alguma expectativa. Nos primeiros momentos, você não
- 22:38tem essa expectativa da fermentação, mas o mosto Quando
- 22:41você braçou ali, você se preparou e falou...
- 22:44Tá, isso aqui é mais ou menos lá que eu quero chegar.
- 22:46Me ajudem. Aí você pede ajuda.
- 22:49Entrega na mão das leveduras, da microbiota e fala...
- 22:53Ajuda aí. E deixa acontecer.
- 22:55Não, mas vamos lá. Só entrando no mérito do que tu
- 22:58falou, tá ligado? Dá pra esperar, com uma certa
- 23:02experiência... Se eu olhar para a receita que
- 23:04está sendo feita da mostura, observando os parâmetros de
- 23:08quais são os tipos de açúcares que estão entrando nessa
- 23:12receita, se é mais simples, se é complexo, se existe um certo
- 23:16grau de lúpus, se é mais do que vinte B.U., se é menos.
- 23:21Certos parâmetros daquele mostro vão me dar indícios de como essa
- 23:26cerveja, sendo selvagem, provavelmente ela vai vir.
- 23:30Porque daí volta um pouco naquela discussão que a Carola
- 23:33estava dizendo, tipo comigo, no sentido de o Diego vai dizer que
- 23:36tudo é ácido. Depende da receita.
- 23:39Por exemplo, a minha base das cervejas mais conhecidas é na
- 23:43UVBU, então ela não deixa tanto a fermentação ática acontecer,
- 23:47mas por bactérias mais simples, mas o pediococos atinge.
- 23:52Agora eu tô fazendo saisons onde eu tô usando vinte e cinco IBU.
- 23:56A gente já tá levando uma carga de lúpulo maior pra controlar o
- 23:59micro-organismo. Então, assim, a acidez tá muito
- 24:02baixa. Então, por exemplo, as duas são
- 24:05cervejas selvagens, mas assim o resultado é diferente.
- 24:08Então, tipo, dá pra prever? Dá.
- 24:10Mas só que tem que lembrar que Não existe um padrão do que é
- 24:14uma cerveja selvagem em termos de receita básica.
- 24:18Esse é o grande problema dessa categoria.
- 24:21E aqui a gente não consegue dar uma cara definida, porque essa
- 24:25categoria é muito aberta. A manipueira selvagem
- 24:28simplesmente fechou um quadradinho e botou lá as
- 24:32definições. E por isso que existe hoje, como
- 24:35uma definição de estilo, a manipueira selvagem.
- 24:37Porque a gente fechou o quadradinho para ela participar
- 24:41ali. por causa do sensorial. Você vai definir muito mais por
- 24:45causa da receita, por causa da base que você acabou utilizando.
- 24:48Mas que vai levar... Teoricamente, vai levar a um
- 24:52sensorial parecido. Mas a gente sabe que quem foi na
- 24:56Feira Selvagem o ano passado, que conseguiu provar todas as
- 24:59manipuladoras, viu que apesar da receita ser a mesma, se tinha o
- 25:03sensorial diferente, entendeu? Se tem uma base que é parecida,
- 25:06mas é diferente uma coisa da outra.
- 25:08A cerveja manipueira que foi feita no sul, no Rio Grande do
- 25:12Sul, a outra que foi feita em Sergipe, eram cervejas
- 25:16diferentes. Você sente que tem uma coisa que
- 25:20é parecida, tem isso, tem aquilo, tem umas características
- 25:23que são semelhantes, mas no final são cervejas diferentes.
- 25:27Mas aí também, é aquela coisa, como qualquer cerveja que você
- 25:29vai tomar. Você vai tomar uma lager, ela
- 25:32também vai ser diferente, dependendo de quem fez, de onde
- 25:36ela foi feita... Os insumos, tudo muda.
- 25:39É, exatamente. É, e no final, no final, eu acho
- 25:43que é isso que a gente tá colocando aqui na aula.
- 25:45É, tipo, tu precisa de uma parametrização pra tu criar as
- 25:49caixinhas onde vai ficar cada coisa.
- 25:51Então, Lud, no final a gente... Não é contra os nomes.
- 25:55A gente só vê que necessita de uma melhor parametrização pra
- 25:59gente encaixar isso dentro das caixinhas que possam ser
- 26:03utilizadas, né? Eu super concordo.
- 26:05Só que eu não quero embatizar nada nesse mundo mais, pô.
- 26:08Ninguém quer se comprometer. Não, mas o que não pode
- 26:11acontecer é tu ter uma cerveja chamada de especial que é
- 26:14puramente especulativa da cabeça do mentiroso ou do cara que tá
- 26:17fazendo a propaganda. Porque ele tirou do pi, tá
- 26:21ligado? Que aquilo lá é uma cerveja
- 26:22especial. Que aquilo lá é uma cerveja
- 26:24premium. Quando na verdade é um sangue de
- 26:26boi numa garrafinha verde. Então, super entendo.
- 26:30Mas olha só, isso é outra pauta, gente.
- 26:33É. É isso que eu ia falar.
- 26:35E ainda tem outra. O Leandro vai defender que, se
- 26:37for de marketing, pode falar assim.
- 26:39Eu não acho que ele está errado nesse sentido.
- 26:41Mas, gente, novamente, esse é outro programa.
- 26:43Leandro, pula nele! Ó, posso falar, por exemplo,
- 26:47estão trazendo essa mesma ideia pro mundo selvagem, entendeu?
- 26:51Eu conheço pessoas que fazem cerveja selvagem porque o cara
- 26:54fermentou, sei lá, uma pedra, jogou a pedra ali e falou, ah,
- 26:58fermentou, fermentou o cápsulo, opa, mas é verdade, e acabou
- 27:01jogando no moço cervejeiro com uma levedura comercial e fala
- 27:05que aquilo é selvagem. Ah, puta, é, malzaço.
- 27:09Entendeu? Pra mim não é.
- 27:10Ah, porque tem um contexto, tem isso, tem aquilo.
- 27:12Não, não tem contexto nenhum. Tem o cara que pegou um poço de
- 27:15um dinossauro e jogou ali dentro e falou que foi a levedura do
- 27:18dinossauro. Não foi a levedura do dinossauro
- 27:20que fermentou aquilo, entendeu? Não foi.
- 27:22E vamos lembrar que existe uma grama gigantesca de leveduras e
- 27:27uma levedura que pode começar uma fermentação, tendo uma
- 27:31cândida, por exemplo, ela não vai arrastar aquele processo de
- 27:34fermentação que nem uma sacaronice, entendeu?
- 27:37Você não vai ter todo o processo fermentativo que a gente conhece
- 27:41para finalizar num produto alcoólico, bebível e tudo mais.
- 27:55Mas então vamos lá, já que a gente está chegando nisso, né?
- 27:57Vamos falar agora da parte realmente científica.
- 28:01E a gente está esbarrando nessa pergunta várias vezes vocês
- 28:04falando. Eu acho que eles já responderam.
- 28:06Eu acho que eles já responderam. Eu estou um pouco desconfiado
- 28:09disso, né? Como é que funciona esse
- 28:11controle dessa fermentação natural selvagem, né?
- 28:15E assim, se eu não posso interromper a fermentação, como
- 28:18é que eu sei que a cerveja está pronta?
- 28:20Tempo. Tempo e paciência.
- 28:23Assim, se você pegar estudos sobre experimentações
- 28:25espontâneas, selvagens, e até tudo que a gente fez no processo
- 28:29da manicureira, isso é nítido. Quando você começa a ver o
- 28:34processo de fermentação, a gente sabe que os primeiros organismos
- 28:38a começar esse processo de metabolizar aqueles primeiros
- 28:41açúcares, muitas vezes são organismos patogênicos, ou às
- 28:44vezes nem patogênicos. mas são organismos ambientais que estão
- 28:48ali e que não trazem sabores para a gente, não trazem a
- 28:52fermentação alcoólica do jeito que a gente gosta.
- 28:54Então, assim, os primeiros organismos que vão atuar nessa
- 28:58dinâmica populacional desses micro-organismos são aqueles
- 29:01organismos que a gente não tem interesse e que podem ser
- 29:04patogênicos, tá? Aí o que acontece?
- 29:07Os outros organismos que a gente gosta, estou dizendo o processo
- 29:11cervejeiro, o processo de fermentação, que nem a
- 29:14Saccharomyces, eles começam a atuar um pouco mais para frente,
- 29:17depois de uns cinco, sete, dez, às vezes até quinze dias depois
- 29:21da fermentação. E aí, quando esses organismos
- 29:23começam a crescer, eles começam a produzir álcool.
- 29:26E o que eles fazem? O álcool que eles produzem, eles
- 29:28matam aqueles patogênicos, eles matam aqueles organismos que a
- 29:31gente não quer na nossa bebida, que não vai dar certo, entendeu?
- 29:34Que pode ser que vai trazer uma dor de barriga, pode ser que vai
- 29:36trazer um off-flavor, pode ser que vai trazer, sei lá, qualquer
- 29:39coisa. Então, eu estou vendo o gráfico
- 29:41na minha frente e gostaria que vocês vissem assim.
- 29:43Ah, eu vou desenhar aqui para vocês verem.
- 29:45Então essas Saccharomyces começam a crescer, começam a
- 29:48matar os outros e pronto. As Saccharomyces também começam
- 29:51a deixar outros organismos que estavam presentes ali e que vão
- 29:54trazer toda uma parte sensorial, organolética interessante, até
- 29:58mesmo o corpo para a cerveja, para a bebida, enfim...
- 30:02Então ela vai deixar que esses organismos também atuem.
- 30:05Eu estou dando o exemplo dos saccharomyces, mas tem outras
- 30:08leveduras que também atuam nesse processo e que acabam eliminando
- 30:12esses organismos patogênicos. Não somente através do álcool,
- 30:15mas através de outros produtos, outros compostos que as
- 30:18leveduras acabam produzindo. Entre elas a acidez também, né?
- 30:22Entre elas a acidez, exatamente. Baixar o pH é fantástico você
- 30:25matar bicho. Exatamente.
- 30:27E essa questão do controle, eu acho que já está na literatura e
- 30:32é muito fácil de a gente ver. É o próprio desenho do monstro
- 30:36que a gente tem falado aqui no decorrer dessa conversa, que é
- 30:40os tipos de açúcar que vão estar disponíveis para os bichos, o
- 30:45tipo de lúpulo que está sendo usado, a quantidade.
- 30:49A gente tem várias coisas. Às vezes pode até baixar o pH.
- 30:53Tem várias coisas que você pode fazer para controlar essa
- 30:56cerveja, só que são vários dispositivos que a gente vai
- 31:01entendendo durante um ano, mas eu acho que o principal são as
- 31:06variedades de açúcares que estarão disponíveis, que isso
- 31:10define... vamos dizer assim, quais micro-organismos a gente
- 31:15quer que se reproduza. Tipo, a gente quer que consuma o
- 31:20açúcar mais simples em certa quantidade, aí depois a gente
- 31:24quer que apareça outro que consuma açúcares mais complexos
- 31:27em certa quantidade, e ao mesmo tempo a gente pode controlar ali
- 31:32a loculagem para controlar a ação das bactérias.
- 31:38Basicamente, esses são os vetores que a gente utiliza.
- 31:40Eu acho que são os grandes dinamizadores para se fazer
- 31:44cerveja. Perfeito.
- 31:45No final, você deu uma descrição de um cervejeiro bem preguiçoso.
- 31:48Não vou fazer muita coisa, não. Vou deixar que quem vai fazer o
- 31:53trabalho todo mesmo é a levedura.
- 31:55Mas é isso. Eu gosto de gente assim.
- 32:00É virginiano mesmo. Coisa linda.
- 32:02Coisa linda aí, ó, eu fazendo propaganda coisa linda à toa.
- 32:04Coisa linda. O que é engraçado é que todo
- 32:07mundo faz aniversário nesses próximos semanas, né?
- 32:10É isso aí. Os melhores nascem em setembro,
- 32:12né? Nem todo mundo, né?
- 32:15Nem todo mundo. Não, só os melhores, é.
- 32:20Só essa galera aí, ó. Isso aí.
- 32:25Bom, eu acho que, pra mim, o mais difícil é saber da história
- 32:30da... Quando a gente pergunta pra
- 32:31Carola e pro Diego, quando é que sabe que ela tá pronta é tempo.
- 32:34Ah, meus amigos, não fala pra me dar tempo em nada, não.
- 32:37Eu não tenho tempo a perder nessa vida de meu Deus, mas não
- 32:39dá, não dá. Não dá, Brasil.
- 32:41Por isso que eu não faço cerveja.
- 32:43Não, assim, até uma cerveja... Ai, tá, então tá bom, ok.
- 32:46Não ia até falar. Quando você faz uma cerveja
- 32:48normal, tem que esperar ela fermentar.
- 32:51A cerveja selvagem é a mesma coisa.
- 32:52Espera ela fermentar, dê tempo ao tempo.
- 32:55Não vai provar a cerveja selvagem em menos de um mês.
- 33:00Pelo amor de Deus, em menos de dois meses.
- 33:02Não prova, deixa ela lá trabalhar.
- 33:04Boa. Não se vai achar um lixo, vai
- 33:06querer jogar fora, vai passar mal.
- 33:07A gente sabe, a gente já teve essa conversa, né, Diego?
- 33:09Boa. A gente já revisou o livro de
- 33:14gringo. Ah, meu Deus, o gringo sabe
- 33:17tudo. Daí eu olho lá no livro do
- 33:20gringo e estava assim. Você faz lá, coleta coisa
- 33:23selvagem e na primeira semana você deixa fermentar e você toma
- 33:27para ver se está bom ou ruim. Você tem vontade de mandar um
- 33:31cara lá. Pelo amor de Deus, que maluco.
- 33:34Tá ligado? Que maluco.
- 33:35Vem aqui, toma aqui uma semana. É.
- 33:37Que que é isso? Eles são eurocentristas?
- 33:40Colonizados? Assim diria meu amigo?
- 33:43Não, cara. Tem uns caras loucos.
- 33:45Não, esse é burro mesmo. Tá ligado?
- 33:47Tipo, pelo amor de Deus. Cara, quando eu li, eu fiquei de
- 33:50cara. Tá achando que tá bebendo
- 33:52Yakult, rapaz? Essa parada não é Yakult, não.
- 33:54Porra. A hora que eu li, eu assim, não,
- 33:56eu não posso ser tão burro assim pra pensar diferente do cara.
- 34:00Ainda eu lembro que ainda mandei mensagem pra cara, o cara, eu tô
- 34:02louco? O cara tá fazendo isso aqui, tá
- 34:05doido. É isso.
- 34:06Gente, a referência agora. É que nem fungo.
- 34:09Eu vejo também gente que quer fazer coisa com fungo
- 34:11filamentoso. Cara...
- 34:14Você tem que tomar muito cuidado com fungo, fungo filamentoso,
- 34:16muitos desses, eles produzem micotoxinas que podem levar a
- 34:20problemas sérios ao longo da sua vida, inclusive câncer,
- 34:24entendeu? Então, assim, cara, é, você tem
- 34:27que, são tumorgênicos, muitos deles produzem, micotoxinas são
- 34:30tumorgênicas. Então, assim, não é brincadeira,
- 34:32entendeu? Ah, tem um fungo negro crescendo
- 34:35aqui, vou deixar. Não, você não vai deixar fungo
- 34:38negro crescendo na sua cerveja, pelo amor de Deus, entendeu?
- 34:41Não. Total.
- 34:43Bom, vamos caminhando aqui, e eu acho que é uma pergunta leiga, e
- 34:48esse programa tem essa função também, gente, de comunicar com
- 34:51as pessoas que ainda sabem tudo. São assim, o Diego, a Carola,
- 34:56né, Tomar, Paulo de Milho, Leandro.
- 34:58Então, assim, ajuda, assim, os nossos ouvintes que ainda não
- 35:01entendem tanto do assunto, e a nós também.
- 35:03Quais são os estilos mais indicados pra se fazer uma
- 35:06fermentação natural e espontânea?
- 35:08Se é que isso existe, você fala, não, cara.
- 35:09A gente faz um mosto indecifrado.
- 35:12A gente faz um mosto nada a ver com nada.
- 35:14Ou não, eu faço um mosto American Hippo aqui.
- 35:16Pra matar o Diogo do Coração. Fala pra mim, quais seriam,
- 35:20tipo... Até estilo fica errado falar
- 35:23estilo, porque a gente vai mudar a fermentação, vai mudar o
- 35:25estilo. Tudo bem, tá bom.
- 35:27Você tem razão. Mas vamos, então, melhorar a
- 35:28pergunta. Alguma coisa que se assemelhasse
- 35:31com isso, esse mosto é, ele vai ter características.
- 35:34Pô, me ajuda, cara. Me ajuda a te ajudar, cara.
- 35:37Me ajuda a comunicar a tua mensagem, velho.
- 35:40Não, tá bom, tá bom, tá bom, vai.
- 35:42E aí, Carola? E aí, Diego?
- 35:44Ó, quando, na primeira vez que eu fui dar palestra, curso sobre
- 35:48produção de cerveja selvagem, eu começava a palestra falando
- 35:52assim, ó. cerveja selvagem não tem regra e isso é muito real, e
- 35:58eu tava lembrando muito, que agora eu tava aqui essas semanas
- 36:02organizando o curso de realmente um curso de produção de cerveja
- 36:05selvagem que a Cozolinda tá promovendo, né E nesse curso, eu
- 36:11tava tentando relembrar um pouco do que a gente já usou de
- 36:13material, o que foi falado. E eu me peguei lembrando que lá
- 36:17por dois mil e dezoito, ainda quando o Diego Macieiro me
- 36:20chamou pra ir fazer essa primeira fala sobre como é que
- 36:23se faz cerveja selvagem, sobre a nossa visão, né?
- 36:26Eu acho que vale muito a gente dizer que não existe uma ré.
- 36:29E por isso não existe algo definido pra dar, pra dizer
- 36:33assim, isso aqui é uma cerveja selvagem, faça assim ou faça
- 36:36assado. O que eu posso dar é uma
- 36:37sugestão de receita... Extremamente simples...
- 36:41Para que a pessoa teste... Para ver qual vai ser o
- 36:44resultado... E não esperando um resultado
- 36:47X... Porque você não vai lá e faz um
- 36:49mosto... E faz a fermentação selvagem...
- 36:51E vai ter certeza que vai vir uma SB...
- 36:53E isso é o grande problema... Para se fazer julgamento
- 36:57correto... De cervejas selvagens...
- 36:59Porque elas não dá para parametrizar...
- 37:01Da mesma forma... Dito isso...
- 37:05A minha sugestão pra quem vai começar e quer fazer isso, né?
- 37:09Pra ele tentar esse começo, é ele usar uma receita, primeiro,
- 37:13né? Que não tenha muito lupo, né?
- 37:16Pra tu não inibir o aparecimento dos micro-organismos selvagens.
- 37:20Tu fazer uma receita simples, não cheia de brego-dego.
- 37:25Então, tipo, eu sempre gosto de falar da expressão de
- 37:28multineutro, porque... Quando tu tá fazendo esse tipo
- 37:31de cerveja, o que tu quer descobrir é o sabor e aroma
- 37:35daquela levedura selvagem. Pra tu fazer isso, tu não pode
- 37:39fazer uma stout, tá ligado? Tu não pode fazer uma red ale.
- 37:43Porque daí tu vai ter várias coisas que vão tá mascarando o
- 37:46sabor e do resultado dessa fermentação.
- 37:49Então faz lá só o malt pilsen, aí de repente coloca uns dez a
- 37:54vinte por cento de malte de trigo ou malte de trigo
- 37:58laminado, que vai trazer um açúcar fermenticível um pouco
- 38:01mais complexo, né? Pra deixar ali a breta aparecer
- 38:05e outras fermentações que são mais... que usam de açúcares
- 38:09mais complexos. E não exagerar na questão do
- 38:13lúpulo, porque o lúpulo, ele impede... a chegada do
- 38:16micro-organismo selvagem, principalmente as bactérias, né?
- 38:20Essa família. Então é sempre legal tu manter
- 38:23ali abaixo dos doze B.U. pra tu poder dar espaço de pelo menos
- 38:28aparecer ali um pediococcus, né? Que é uma bactéria um pouco mais
- 38:31resistente. Outro, deixar em quatro, que
- 38:34seria mais ou menos visando como é feita a produção de uma
- 38:37catarina sour. Então, assim, se eu pudesse dar
- 38:40uma sugestão, o primeiro eu diria para a pessoa, faz
- 38:43catarina sour. Aprende a fazer catarina sour,
- 38:46comece a entender como é a acidez de uma cerveja.
- 38:49E depois, de repente, usa até a mesma receita de uma catarina
- 38:53sal e joga ela para fazer uma fermentação selvagem.
- 38:56E daí tu vai poder fazer uma comparação do que é uma cerveja
- 38:59que fermentou com uma saccharomyces selecionada, com
- 39:02uma bactéria selecionada e por aí foi.
- 39:04E daí depois tu faz a cerveja selvagem.
- 39:07Então até seria, comece fazendo uma catarina, depois uma
- 39:11fermentação mista. Então pega a catarina, bota a
- 39:13breta, vira uma fermentação mista.
- 39:15E depois tu faz a fermentação selvagem.
- 39:17Mas é sempre assim, sempre mantendo o mais simples
- 39:20possível. Quanto mais simples possível,
- 39:24mais tu consegue ver o resultado do microorganismo.
- 39:26O que não pode chegar assim, vou fazer uma cerveja selvagem, que
- 39:30é uma stout com frutas vermelhas.
- 39:33Como é que tu vai ver o resultado desse micro-organismo,
- 39:35entendeu? Então, tipo, muitas vezes a
- 39:37pessoa já quer enfeitar o pavão sem saber se aquilo lá é uma
- 39:40galinha ou é um gato. Então, pô, sabe?
- 39:42É uma bagunça. Vira uma bagunça.
- 39:45É, vai no clássico primeiro, vai no...
- 39:47É o problema da Hello Kitty. A gente não sabe se ela é um
- 39:49gato ou se é uma menina. Também.
- 39:53Então é complicado. Então quanto, eu acho que é,
- 39:55mantenha simples e siga essas pequenas regras, né?
- 39:59E faça custo, né? Custo da coisa linda, hein?
- 40:02Fazer um mini adendo. Carola, você queria
- 40:05complementar? Só pra fechar isso, eu acho que
- 40:09quando você vai fazer, vai trabalhar com fermentação
- 40:11espontânea, vai fazer uma cerveja selvagem, até mesmo uma
- 40:15levedura selvagem ou isolada, não espere que você vai acertar
- 40:21o estilo. Ah, vou pegar...
- 40:23A Carola isolou uma levedura da Amazônia.
- 40:26Uma sacaramice da Amazônia. Vou pegar essa sacaramice e vou
- 40:29fazer uma estalte. Não, cara.
- 40:31Você não vai fazer uma estalte. Ela vai fazer o que ela achar
- 40:34que ela consegue fazer. Ela não vai trazer uma estalte.
- 40:36Ela não vai trazer uma lágrima. Ela não vai trazer uma...
- 40:39Ela vai trazer o que ela é, hein?
- 40:41Entendeu? E dentro do que ela é, ela vai
- 40:44ter uma tendência a ser mais isso ou mais aquilo.
- 40:46Mas ela não... Você não consegue fechar um
- 40:48estilo. E por isso que ali no começo
- 40:51falei. Não tem regra.
- 40:53Não dá pra ter o que esperar. E essa questão grande da
- 40:56fermentação natural, da cerveja selvagem, da cerveja espontânea,
- 41:00é a absoluta falta de característica que tu espere
- 41:05disso. A não ser quando tu faz um
- 41:06trabalho que é a manipueira selvagem.
- 41:09Pra tu ver o tamanho da loucura que foi esse projeto.
- 41:11Porque a gente conseguiu colocar uma cerveja selvagem dentro de
- 41:15uma caixinha, tá ligado? Então, essa é a grande sacada do
- 41:19projeto Manipoeira Selvagem, não diferente disso, né?
- 41:23E foi um acerto, assim, muito legal.
- 41:26Então, acho que aí tem muito isso.
- 41:28Show. Cara, mas aí... vocês falando e
- 41:31eu pensando aqui, se você não acerta o estilo e tal, e aí tem
- 41:34todo esse lance do deixar acontecer naturalmente, mas
- 41:37vamos lá, né? A gente taca a levedura na
- 41:40cerveja porque ela vai produzir o álcool e aí, em contrapartida,
- 41:44ela dá ali pra gente os aromas, sabores, e aí transforma essa
- 41:49parada numa coisa única. que tem a ver até com o que vocês estão
- 41:51falando de não tentar pegar um outro estilo, usando para uma
- 41:55fermentação selvagem, encorpar esse outro estilo de um outro
- 41:59jeito. Não vai funcionar desse jeito,
- 42:00né? É possível existir, então, tem
- 42:02muito a ver com aquilo que a gente está falando sobre o que
- 42:04esperar, né? Alguma previsibilidade nas
- 42:08cervejas de fermentação natural, selvagem e espontânea?
- 42:12Sim. Baseado no tempo?
- 42:13Não, é... Não, é legal, aí sobe o crédito.
- 42:24Mas sim, sim, dá para controlar, porque é exatamente isso que a
- 42:28gente estava falando na resposta anterior, né?
- 42:31O controle através das decisões de açúcares, de lupo, dá para
- 42:35controlar alguma coisa, né? E principalmente quando a fonte
- 42:38do micro-organismo já é conhecida.
- 42:40Então assim, é possível esperar alguma coisa?
- 42:43É, mas não é a mesma coisa do que quando tu tá produzindo uma
- 42:48SB, tá ligado? Eu vou lá, compro a levedura da
- 42:51SB, que veio lá em algum ponto lá da Inglaterra, E se tu fazer
- 42:56a fermentação entre dezenove e vinte e dois, tu vai ter o
- 43:00resultado X. Ou, vamos dizer, quando tu vai
- 43:03fazer uma cerveja de trigo, que tu vai fazer em temperatura X,
- 43:07vai dar banana, em temperatura Y vai dar cravo, sei lá.
- 43:09Então, assim, isso não existe. No mundo da cerveja selvagem,
- 43:13porque é um exemplo que eu gosto muito de dar, que é da Praia do
- 43:18Meio. E quando dá um ano mais quente,
- 43:20porque não tem controle de temperatura pra começar, né?
- 43:22A gente não pode fazer cerveja selvagem controlando
- 43:25temperatura, já não começa por aí.
- 43:27Mas, se eu pego um ano mais frio, eu tenho uma cerveja que
- 43:32ela tem um perfil de abacaxi de conserva.
- 43:34Se é um ano mais quente, ela tem um abacaxi mais novo, mais
- 43:38ácido. Então ela tem essas
- 43:39características que eu sei, por exemplo, esperar através do que
- 43:43o clima me deu. Entendi.
- 43:44Entendeu? E existe uma certa
- 43:46previsibilidade. Mas é uma cerveja que eu já
- 43:49tenho esses micro-organismos, como a Carol falou, tá
- 43:52selecionado, tá guardado, tá se reproduzindo desde dois mil e
- 43:55dezesseis. Então, tipo, é um filho que eu
- 43:58conheço bem. Já tá lá.
- 44:00Ele já passou da fase de engatinhar, ele tá andando
- 44:02sozinho, né? Daqui a pouco começa a
- 44:04incomodar, mas tá lá. É, adolescente vai começar a
- 44:06encher o saco daqui a pouco. É.
- 44:09Não, e assim, e é muito interessante, porque isso tudo,
- 44:12exatamente o que o Diego falou, conforme você brinca com essas,
- 44:15você brinca não, o universo brinca com essas coisas,
- 44:19temperatura baixa, temperatura aumenta, é aqui, é ali, aumenta
- 44:22a umidade, diminui a umidade, isso tudo mexe com o organismo,
- 44:26com os organismos que estão ali atuando, então você vai ter
- 44:28respostas diferentes na fermentação.
- 44:31Assim, eu tenho, por exemplo, e às vezes dentro da mesma espécie
- 44:35a gente tem uma variedade muito grande, né?
- 44:37Então, por exemplo, eu tenho uma saccharomyces que ela começa a
- 44:40flocular em temperatura acima de vinte e sete graus, entendeu?
- 44:44E eu tenho saccharomyces que vai flocular em quinze graus.
- 44:47Então, assim, você tá dentro da mesma espécie, mas você tem essa
- 44:51variedade, o metabolismo delas vão ser diferentes.
- 44:53Então isso vai mudar de como tá atuando ali.
- 44:57Se por acaso o Diego tá tudo padronizado, já tá ali mais ou
- 45:01menos a microbiota dele, de repente aparece uma abelhinha
- 45:04que veio de não sei aonde, do cabelo azul da Carola, e foi
- 45:07visitar a fábrica... E cara, aquela levedura começa a
- 45:10dominar ali, mudou tudo. Uma abelhinha que vai ali e
- 45:14trouxe um passarinho que veio da puta que pariu da Patagônia.
- 45:18E por acaso ele trouxe uma saccharomyces e deu baianos.
- 45:21Pronto, já mudou toda a microbiota que se adaptou ali.
- 45:24Então assim, a gente espera também que as coisas mudem, que
- 45:27as coisas evoluem. E tudo bem, e é legal isso.
- 45:30Essa é a parte interessante da cerveja selvagem.
- 45:33Você sabe que você não vai ter o controle sobre aquilo, entendeu?
- 45:36E você pode ter experiências inéditas, experiências únicas, e
- 45:39que vão trazer produtos inesquecíveis, ou não.
- 45:42Enfim, eu acho que você tem que estar aberto para isso.
- 45:45Você tem que estar aberto para esse processo inovador, vamos
- 45:48dizer assim. E sem tentar controlar, né?
- 45:51É, e por isso que eu acho que eu sempre advogo essa família de
- 45:56cervejas, a existência de umas cervejas ácidas complexas, que
- 46:00deveria ser ale, lagers e cervejas ácidas complexas.
- 46:04Porque a gente tá falando de um bicho tão diferente aqui, que
- 46:08não se joga nas mesmas regras do que as ale e lagers.
- 46:13E não dá pra gente usar o mesmo vocabulário e as mesmas, vamos
- 46:17dizer assim... A gente não pode esperar as
- 46:18mesmas respostas para esse tipo de cerveja.
- 46:21São perguntas diferentes e são respostas diferentes.
- 46:25E por isso que embaralha tanto a cabeça de todo mundo.
- 46:27Porque, infelizmente, hoje a gente não tem formação de
- 46:32cervejeiros para fazer cervejas selvagens.
- 46:35E é engraçado, porque as cervejas todas que a gente faz
- 46:38hoje vieram das cervejas selvagens.
- 46:40Exato. E está se perdendo esse
- 46:43conhecimento, está se perdendo por uma padronização.
- 46:47E essa padronização é terrível para o mundo da cerveja, porque
- 46:51a gente é tratado como um produto industrializado, como se
- 46:54fosse um milho enlatado. na pior das comparações, obviamente mas
- 46:59no sentido de que é um produto comoditizado e a gente não
- 47:04necessariamente é como cerveja selvagem, a gente é aquele vinho
- 47:08difícil, que tem terroir que ele é exclusivo, que ele é louco que
- 47:12ele é não sei o que, uma cerveja pode ser isso também, então pra
- 47:16gente sair dessa ideia geral do que é uma cerveja, a cerveja
- 47:20selvagem tá aí, e é isso que a gente deve utilizar ela e
- 47:23aproximar do mundo também, do mundo do vinho selvagem, né?
- 47:28Do vinho natureba, né? Porque a gente, claro, o vinho
- 47:31natureba, ele tá falando de outras coisas a mais, né?
- 47:33Tá falando de ser orgânico, de ter produção humana, humanizada,
- 47:38etc. A gente ainda nem chegou... a
- 47:41chegar nesse ponto. Mas vinho de fermentação natural
- 47:44e cerveja selvagem são extremamente possíveis de se
- 47:47comparar e de estar disputando os mesmos lugares.
- 47:51Tanto que a gente participa de feiras como a Feira Naturebas, a
- 47:54gente participa de outras feiras de produtos de fermentação
- 47:57selvagem. E por isso que teve a Semana
- 48:00Selvagem também. Legal.
- 48:02Só para finalizar uma coisa... Eu estava pensando aqui em um
- 48:05ponto que o Diego falou. Vale lembrar que dentro das
- 48:08cervejas selvagens, você tem aquelas cervejas que estão
- 48:10extremamente complexas e você tem também as cervejas selvagens
- 48:14que têm um drinkability excelente, entendeu?
- 48:17É mais fácil para todo mundo gostar, apreciar e tudo mais.
- 48:21E você tem outras que vão ser super complexas e vão ser,
- 48:24enfim... Não, perfeito.
- 48:26E elas têm um potencial de envelhecimento bizarro, né?
- 48:28Então, aquilo que você bebeu numa garrafa que tá pronta,
- 48:32entre aspas, recente, vai mudar muito.
- 48:35Assim como muitos vinhos que não têm nada a ver com o natural.
- 48:38Você vai pegar um vinho que, de repente...
- 48:40Cara, tem muita situação dessa de vinho, sei lá, mais taninudo,
- 48:45eu acho, que... Quando você abriu, não, não era
- 48:49pra abrir agora. Essa garrafa tinha que esperar
- 48:50uns cinco anos pra ela poder... O vinho tá mais macio, tá menos
- 48:55rústico, né? Enfim, tem isso no vinho.
- 48:56Só que o vinho se vende melhor. É, pode ser pra bom ou pra ruim,
- 48:59né? Você pode abrir num momento
- 49:01errado ou num momento super certo.
- 49:03Então, é isso. A fermentação...
- 49:05Puta, tava muito boa essa cerveja quando eu produzi.
- 49:09Agora tá horrível. Sim, você vai conhecendo o seu
- 49:12produto, né, também. Exatamente.
- 49:25Então, aí, já que a gente já fez esse gancho com vinho, eu fiz
- 49:28uma viagem a Mendoza esse ano, na Argentina, e numa das
- 49:31experiências de visitação em uma das vinícolas, rolava a
- 49:35possibilidade de você fazer o seu próprio vinho.
- 49:37Porque na garrafa vem aquele, assim, o vinho de corte, né?
- 49:41Não vai escrito dez por cento de tanto, de tal, de tal e tal uva.
- 49:45Mas, enfim, lá o cara ia te guiando nesse lugar do tipo
- 49:48assim, ó, faça o seu vinho aí, use pelo menos tantos porcentos
- 49:52disso aqui. E no final, você tinha o seu
- 49:56próprio vinho, digamos assim, né?
- 49:57Então, eu queria que nosso mestre Jedi Blender explicasse
- 50:03um pouquinho dessa profissão, né?
- 50:05E se de repente seria possível...
- 50:06Haver uma experiência dessa... Dentro do meio cervejeiro...
- 50:09Ia ser muito legal... Imagina...
- 50:11Você chegar... E faz uma visitação na coisa
- 50:13linda... No final...
- 50:14O cara pagou um milhão de reais...
- 50:15Para estar ali dentro... Com você...
- 50:17Palteiro... E aí...
- 50:19Vai lá... Agora faz aí...
- 50:20Que eu quero ver... Faz a tua coisa linda...
- 50:22Tua coisa feia... Essa cozarada.
- 50:27Faz essa cozarada. Faz essa cozarada toda aí,
- 50:29Brasil. Explica o Master Blender e
- 50:32explica se é possível. Eu vou lá na Coisa Linda só pra
- 50:35misturar cerveja. Fodeu!
- 50:38Tanto é possível que isso é uma das atividades que vão acontecer
- 50:43nesse curso presencial que vai ter agora na Coisa Linda.
- 50:46Obviamente que a intenção ali não é exatamente essa que tu
- 50:50falou, mas ela vai acontecer na prática como isso também.
- 50:54Porque o que a gente vai fazer, né?
- 50:55A gente vai ter aula de blend na prática, né?
- 50:58A pessoa vai tomar as cervejas que tem, é coisa linda.
- 51:00E a gente vai fazer uma dinâmica de grupo ali pra chegar até uma
- 51:04receita final. Vai separar em dois grupos, cada
- 51:07um faz o seu blend e depois a gente vai escolher qual que é o
- 51:11melhor ou o blend que ficou mais legal pra fazer.
- 51:14E aí a gente vai pegar, vai levar e fazer em vaso e cada um
- 51:17vai levar a sua garrafa pra casa, né?
- 51:19Vai levar quatro garrafas desse blend que todo mundo vai fazer.
- 51:22E é possível fazer, e é muito legal de fazer, porque, por
- 51:25exemplo, lá na Coisa Linda, a gente tem o costume de não
- 51:29trabalhar cinquenta mil coisas diferentes.
- 51:32Então, a gente tem lá sessenta barris, mas a gente tem, vamos
- 51:36dizer assim, cinco cervejas principais, que é a cerveja que
- 51:39tem as leveduras pré-selecionadas da Praia do
- 51:42Meio, a outra que é Selvagem, que vem da Mandioca, a outra que
- 51:47é... que veio das abelhas e a gente tem mais uma que a gente
- 51:52selecionou com cervejas belgas então a gente tem essas quatro
- 51:57aí e cada uma tem um resultado X dá pra tu entender o que é cada
- 52:01uma diferente uma da outra conta da levedura ser diferente uma da
- 52:05outra E ali tu pode fazer essa mistura, porque uma vai ser um
- 52:08pouco mais ácida lática, outra vai ser mais acética, outra vai
- 52:11ser mais breta, outra vai ser mais rústica.
- 52:14Então dá pra tu fazer isso. E também dá pra, tipo, por
- 52:17exemplo, a gente usar um pouco de fruta.
- 52:20A gente tem cerveja lá que tem bastante fruta, então a gente
- 52:23fez uma seleção X e a gente quer utilizar uma fruta.
- 52:26Dá para fazer também. Então é muito simples de fazer
- 52:30isso que acontece no mundo do vinho, fazer isso no mundo da
- 52:32cerveja também. Basicamente é até bem tranquilo,
- 52:36porque a gente vai fazer, coloca lá as medidas desse vinho na
- 52:40garrafa, bota para refermentar e pronto, tá pronto. tá feita a
- 52:43cerveja, espera um mês dois meses pra abrir a garrafa vai tá
- 52:47fermentada e você tá tomando a cerveja a coisa linda que você
- 52:50mesmo blendou mas o blend é isso, é misturar as cervejas que
- 52:54estão prontas definindo um caráter sensorial que tu acha
- 52:58que é mais legal porque quando a gente faz o blend o blend é a
- 53:03arte do cervejeiro, é a prática mais artesanal do mundo da
- 53:09cerveja, que é tu desenvolver um perfil sensorial através da sua
- 53:15habilidade enquanto blender, né, no caso.
- 53:18Total, mas valendo dizer que em relação ao vinho, você fazia o
- 53:21blend ali na hora e bebia o teu próprio vinho naquele minuto, na
- 53:25sua própria taça. Tu pode beber a cerveja flat
- 53:28também, não tem problema, é que nem tu beber lambique, né,
- 53:31lambique, tecnicamente ela tem que ser flat.
- 53:34É isso, porra, é isso. O negócio é experiência, é o
- 53:38avolate, é beber um... um latte numa casca de abacate porra, mas
- 53:45é legal essa ideia, assim, e eu não consigo imaginar como é que
- 53:48é fazer isso em grande escala, mas ah, mas dá pra fazer em
- 53:50pequena escala porque tu pode realmente tirar lá os setecentos
- 53:54ml de diferentes barris, escolhe três, quatro barris e faz o teu
- 53:58blend, e daí depois tu faz ela refermentar dentro da tua
- 54:01garrafa Que é isso que a gente quer fazer lá no curso, né?
- 54:03Que vai ter agora esse em setembro, depois tem o em
- 54:07outubro. Quer levar a pessoa a fazer a
- 54:09prática do Blend, né? Pra eles aprenderem, tipo, na
- 54:12prática como é que é fazer isso. Então, tipo, é muito um curso de
- 54:17formação. Mas essa de fazer o blend, de
- 54:20tomar lá, é muito possível de fazer num futuro, né?
- 54:24Principalmente quando a gente tiver um outro local.
- 54:26Agora é um local mais escondido, é bem industrial mesmo, não tem
- 54:30essa coisa de ser turístico, né? Mas quem sabe?
- 54:33É mais legal vir aqui pra Florianópolis do que pra
- 54:35Mendonça. Pega lá uma fila de duas horas e
- 54:38meia pra chegar na fábrica e daí tu faz tua cerveja, tá bom?
- 54:42Não, e tem umas vaquinhas na frente.
- 54:44Pelo menos tinha. Ainda tem, ainda tem.
- 54:47Perfeito. Gostaria de agradecer muito aqui
- 54:54a você, Diego, a você, Carola, por trazer esse conhecimento,
- 54:58essa ansiedade, essa vontade de falar sobre esse tema.
- 55:01Sempre fico vidrado nos olhos de vocês, brilhando, uns
- 55:04apaixonados pelo tema, e isso sempre me cativa.
- 55:08Obrigado pelo tempo de vocês, pela sabedoria, pelos
- 55:11conhecimentos. Poxa, obrigada a vocês pela
- 55:14oportunidade. Queria agradecer demais a
- 55:16presença. A Carol é uma gentileza
- 55:18tremenda, uma pessoa inteligente.
- 55:19Gente inteligente é outra parada, né, Leandro?
- 55:21Olha só, o que mudou na nossa vida?
- 55:24Tem uma tranquilidade no falar, né?
- 55:26Não é, rapaz? Eu aqui, ó, toda cagada, suada,
- 55:30preocupada. Não, estão os dois lá.
- 55:32Diego com esse cabelo ultra penteado.
- 55:34E Carola com a placidez do tipo assim, ó, eu posso falar disso
- 55:38aqui, mandando uma mensagem no WhatsApp pro Papa que tá tudo
- 55:41bem. Ai, queria agradecer demais o
- 55:45conhecimento que vocês compartilharam com a gente.
- 55:46Foi muito importante. É importante disseminar esse
- 55:48conteúdo. Então, muito obrigada, Carola.
- 55:50Obrigada, Palteiro. Love.
- 55:53Tamo junto. E antes da gente fechar de vez
- 55:59aqui, por aqui, só vamos falar o seguinte.
- 56:02A gente vai fazer uma pergunta específica apenas para os
- 56:05mecenas. E se você for mecenas, a Lud vai
- 56:08perguntar para eles sobre dicas para cervejeiros caseiros
- 56:12fazerem sua cerveja de fermentação natural.
- 56:15Como, por exemplo, a dica de não beber em uma semana.
- 56:18É possível? Se sim, como?
- 56:20Quais controles devem estar atentos?
- 56:23E por aí vai, muita coisa. Mas isso apenas para quem for
- 56:27mecenas, tá? Se você não for mecenas, chora
- 56:31sem essa resposta, morre na curiosidade.
- 56:33É, literalmente, tem que horrorizar.
- 56:37Pode morrer, inclusive. Se a resposta é você pode
- 56:41morrer, literalmente. Não falaremos mais nada.
- 56:45Comenta aqui pra parte dois. E encerrando o programa do
- 56:50jeitinho que a gente gosta, agradecendo aos mecenas que nos
- 56:54ajudam a manter a independência criativa do Surra de Lúpulo.
- 56:57Hoje eu gostaria de agradecer a quem tá aqui assistindo essa
- 57:00gravação, o Maurício Grilha, que tá sempre com a gente, o Rodrigo
- 57:04Lemes Moraes, o Samuel Souza, o Edu Sena e o Luiz Henrique
- 57:08Camargo, que hoje tava empolgadíssimo no grupo.
- 57:11Fica aí pra vocês. Obrigado, galera.
- 57:13Valeu. Leandro, a gente fala o que
- 57:15mesmo, hein, que eu esqueci dessa vez?
- 57:16Deixa o tempo resolver isso aí, Lodi.
- 57:18Porra, meu irmão! Não, não, não, não.
- 57:21Até semana que vem, pelo amor de Deus.
- 57:34Isso nos ajuda as plataformas a entenderem que nosso conteúdo é
- 57:36relevante e melhora muito a distribuição dos episódios.
- 57:40Nos ajude! Cara, quando você falou em
- 57:42comentário sussurrante, eu só lembrei de...
- 57:45Slave to love! Ah, Brasil.
- 57:52Essa era tua música de ataque, era isso?
- 57:55Minha música de ataque, não. Gente, essas coisas a gente não
- 57:57fala em podcast, Brasil. Mas entrega a idade.
- 58:01Isso eu não escondo, porque daqui a relativa...
- 58:04Este programa irá ao ar no dia vinte e nove de agosto e eu,
- 58:08neste dia, estarei a pouquíssimos dias de completar o
- 58:11quatro ponto quatro, entendeu? Então, tipo, eu não posso, não
- 58:15tem jeito, eu tô com a cara acabada já.
- 58:17Mas é só essa cara que eu tenho e vocês vão ter que me aturar.
- 58:19Vamos lá. Beba local.
- 58:26Beba com moderação. Este podcast foi editado por
- 58:37Play Audios.