Latest / Surra de Lúpulo / A Lei de Pureza "Alemã" | Surra #225
Transcript
- 0:00e o que? Ipa Condrica apresenta surra de
- 0:14lúpulo. Oi pessoal, bom dia, boa
- 0:16tarde, boa noite. Eu sou o Ludmilla, mas
- 0:19conhecida no Instagram como a Andréca, e no programa
- 0:22de hoje, meus amigos, nós vamos seguir a série
- 0:24documental na qual a gente fala de situações e
- 0:27personalidades históricas que marcaram o universo da
- 0:30cerveja. Essa série contou com a
- 0:32colaboração do Sérgio Barra, a somelha historiador, que
- 0:35foi responsável por toda a pesquisa pro tema
- 0:37selecionado. E nesse episódio nós falaremos
- 0:40sobre a polêmica lei de pureza alemã, ou como os
- 0:44alemãs gostam de chamá -la muito grosseiramente,
- 0:47Reinheitsbult. Oi Lud, muito bom estar aqui
- 0:50com você mais uma vez nesse formato histórico, e
- 0:54eu sou Leandro, mas hoje vocês podem me chamar do
- 0:57impuro, né? É, você nasceu do pecado, né,
- 1:00cara? Todos nós, teoricamente, somos
- 1:03impuros pela macula do primeiro pecado,
- 1:06teoricamente. É, você não é todo mundo. É.
- 1:10Assuma sua impureza pra você. Porra,
- 1:15não aprendeu nada mesmo, né? Na
- 1:17volta a gente compra, então. E
- 1:21nós vamos contar essa história bebendo algo para
- 1:24a mulher, a garganta. Lud, o que que você vai beber?
- 1:27Cara, eu tô no meu famigerado
- 1:28período sem bebê, né? Saco cheio já. Tô
- 1:32com uma Coca Zero hoje, pra ver se dá uma mudada
- 1:35um pouco, sem uma bebê água, água com gás, Coca
- 1:37Zero, Coca Zero. E você, décimo quinto,
- 1:41apóstolo impuro. Décimo quinto. Tá
- 1:44bebendo o quê? Eu vou de água também, se o
- 1:47programa é histórico, a gente já sabe que eu apelo
- 1:51pra água, porque não dá. A garganta não deixa. Tá
- 1:56certo, vamos lá. Se você gosta do nosso
- 2:06conteúdo e ainda se identifica com a gente,
- 2:09apoia o surra de Lupo por meio do site apoia
- 2:12.sebarrasurradilupo ou comprando uma camiseta na
- 2:17nossa loja .surradilúpulo .com .br. Messenas
- 2:21ganha conteúdo exclusivo toda semana, participa do
- 2:25nosso grupo de WhatsApp e sorteios de brindes
- 2:28insanosos. Ah, mas a garanta tá curta ou
- 2:32você ainda não ama tanto a gente assim? O
- 2:35outro jeito de ajudar é seguindo a gente na sua
- 2:37plataforma de streaming preferida e dando cinco
- 2:40estrelinhas no Spotify e no Apple Podcast. Lembre
- 2:43-se de compartilhar esse programa com seus amigos,
- 2:45isso ajuda muito na distribuição dos episódios.
- 3:01Ah, Reinhard Schbold.
- 3:04Frequentemente traduzida como a lei alemã
- 3:06de pureza da cerveja foi decretada em 23 de abril
- 3:09de 1516 pelo Duque Guilherme IV da Baviera.
- 3:14Esse é daqueles tópicos
- 3:17obrigatórios em qualquer curso, palestra ou aula
- 3:20sobre a história da cerveja, onde afirmações sem
- 3:23muita fundamentação documental se cristalizaram
- 3:26em verdades devido à falta de pesquisa histórica. As
- 3:30interpretações mais repetidas a respeito da Reinhard
- 3:33Schbold afirmam que ela teria sido a primeira ou a
- 3:36mais antiga lei de segurança alimentar da
- 3:39história e levanta várias hipóteses a respeito do
- 3:42estabelecimento de dois dos três ingredientes que ela
- 3:45determina como obrigatórios para a produção da cerveja,
- 3:48a cevada e o lúpulo. Como, por exemplo, que
- 3:51obrigatoriedade do uso de cevada seria resultado de
- 3:54uma escassez de trigo na Baviera no início do século
- 3:57XVI. Porém, essas hipóteses extrapolam o
- 4:01breve texto da lei que, analisado no seu todo,
- 4:04evidencia seu real caráter econômico. Não
- 4:08são apenas esses os malentendidos, outros muito
- 4:12comuns a respeito da Reinhard Schbold. Atratam
- 4:16como se desde o seu início se aplicasse a todo
- 4:19território alemão e não apenas na Baviera. E
- 4:23isso é dito em um momento histórico em que a
- 4:25Alemanha, como Estado Nacional Unificado, ainda
- 4:29nem existia. Por outro lado, curiosa e
- 4:33contraditoriamente, é possível encontrar também
- 4:36interpretações que afirmam que a lei se aplicava a
- 4:40toda Alemanha, com exceção da Baviera. Devido
- 4:43ao fato de que nunca se deixou de fazer cerveja com
- 4:46trigo na Baviera, as famosas, preferidas de
- 4:49muitos ou aquelas que por onde muitos começaram, as
- 4:52famosas Weissbier, o que seria ainda mais improvável.
- 5:07Bom, então a gente vai aqui
- 5:09começar a dar um contexto para essa história toda. Na
- 5:12época da promulgação da lei, no início do século
- 5:16XVI, a Alemanha ainda não existia como Estado Nacional
- 5:20Unificado, algo que só vai acontecer na segunda metade
- 5:24do século XIX. O território da atual Alemanha
- 5:27era formado por diversos reinos e cidades livres que
- 5:30compunham o Sacro Império Romano Germânico, que durou
- 5:34de 962 a 1806. Ao sul localizava -se o Ducado
- 5:41da Baviera, que existia ainda antes da formação do
- 5:44Sacro Império, que eram de domínios das antigas tribos
- 5:47germânicas da era pré -crista. O
- 5:50Ducado da Baviera com a Constituição Territorial, que
- 5:53se corresponde ao atual Estado da Baviera, se forma
- 5:57no século X, em 907, e foi governado pela Casa de
- 6:02Wittelsbach entre 1180 e 1806, quando, então, é
- 6:08levado ao Reino da Baviera, tem um acordo entre
- 6:11Maximiliano IV, José e Napoleão Bonaparte. O
- 6:15Reino continuou sendo governado pela Casa de
- 6:18Wittelsbach até a sua dissolução em 1918 e a sua
- 6:23integração à República de Weimar. De
- 6:26Lerme IV, sobe ao Trono em 1508, em sucessão ao seu
- 6:32pai, Alberto IV. E ele governou o Ducado da
- 6:36Baviera até 1545, tendo seu irmão mais novo, Luiz X,
- 6:42como o Correjente. Aí a gente agora vai dar
- 6:45aquela mergulhadinha na lei e suas interpretações, e aí
- 6:49é que mora o perigo, né? Lerme
- 6:51IV foi um monarca de grande atividade no campo
- 6:54cultural, sendo importante colecionador e comissário de
- 6:57arte. Encomendou um importante conjunto de
- 6:59pinturas a vários artistas e ordenou a reforma do
- 7:03Palácio de Dachau, de uma ruína gótica em um palácio
- 7:06de quatro alas em estilo renacentista. Mas
- 7:09o seu feito mais relevante parece ter sido, de fato,
- 7:13o decreto da lei de pureza da cerveja. Apresentado
- 7:17em 23 de abril de 1516, perante um comitê composto
- 7:22por nobres e cavaleiros na cidade de Ingolstadt, a lei
- 7:26fixava preços para a comercialização da cerveja e
- 7:30determinava que, a partir daquele momento, os únicos
- 7:32ingredientes que deveriam ser utilizados para a
- 7:35fabricação da cerveja deveriam ser lúpulo, malte
- 7:38de servada e água. Vale uma observação aqui. A
- 7:42ação da levedura na fermentação alcoólica só vai
- 7:45ser descoberta pela ciência apenas em 1835, por isso
- 7:50ela não é citada aqui. Proclamamos
- 7:55com este decreto, por autoridade de nossa
- 7:58província, que no Ducado da Baviera, tanto no país como
- 8:01nas cidades e nos mercados, as seguintes regras se
- 8:04aplicam à venda da cerveja. Do
- 8:06dia de São Miguel, 29 de setembro, ao dia de São
- 8:10Jorge, 23 de abril, o preço para um mes, antiga
- 8:16unidade de medida austro -bávara, que equivale a 1
- 8:18,069 litros, ou um cop, recipiente em forma de
- 8:24tigela, utilizado para líquidos. Não
- 8:27pode exceder o valor do fênig de Munique. Do
- 8:29dia de São Jorge ao dia de São Miguel, o mes não
- 8:33será vendido por mais de dois fênig do mesmo valor,
- 8:36e o cop por não mais de três heller. Se
- 8:42isto não for cumprido, a punição indicada abaixo será
- 8:45administrada. Se qualquer cervejeiro fermentar
- 8:48ou tiver outra cerveja, que não a cerveja do verão,
- 8:51não deve vendê -la por mais de um fênig por mes. Além
- 8:55disso, nós desejamos enfatizar que no futuro, em
- 8:58todas as cidades, nos mercados e no país, os
- 9:02únicos ingredientes usados para a fabricação da
- 9:04cerveja devem ser sevada, lúpulo e água. Qualquer
- 9:08um que negligenciar, desrespeitar ou transgredir
- 9:12estas determinações será punido pelas autoridades da
- 9:15Corte, que confiscarão tais barris de cerveja sem
- 9:18falta. Se, entretanto, um comerciante
- 9:21no campo, na cidade ou nos mercados, comprar dois ou
- 9:25três barris da cerveja, que contém 60 mes. Para
- 9:30revendê -los ao Camponês Comum, apenas para este
- 9:33será permitido acrescentar mais um heller por cop do
- 9:36que o mencionado acima. Além
- 9:38disso, caso aconteça escassez e subsequente
- 9:41aumento do preço da sevada. Nós,
- 9:44o docado da Baviera, teremos o direito de fazer
- 9:47apreensões para o bem de todos os interessados.
- 9:52Várias motivações parecem ter
- 9:54concorrido para a promulgação da lei. Apesar
- 9:57de ser geralmente interpretada como uma das
- 10:00mais antigas leis de segurança alimentar da
- 10:03Europa, a principal preocupação da lei parece
- 10:06ser de ordem econômica e não sanitária. São
- 10:09estabelecidos preços máximos para a venda de diferentes
- 10:13medidas de cerveja de acordo com o período do
- 10:16ano. Então, por exemplo, de setembro a
- 10:18abril, ou seja, os meses de setembro, os meses mais
- 10:20frios, a cerveja seria mais barata, um maço ou um cop,
- 10:24deveriam custar no máximo um fênis. Enquanto
- 10:28os meses quentes de abril a setembro, a bebida
- 10:31aumentava de preço. Um maço, podendo chegar a dois
- 10:34fênins e um cop a um fênin e meio. Se
- 10:38o comerciante estivesse vendendo cerveja, que não
- 10:41fosse aquela produzida no verão, deveria vendê -la
- 10:43mais barata. Além disso, estabelecia uma
- 10:46punição para quem descomprisse o estabelecido.
- 10:50Qualquer um que negligenciar,
- 10:52desrespeitar ou transgredir estas determinações será
- 10:56punido pelas autoridades da Corte que confiscarão tais
- 10:58barris de cerveja, sem falta. A
- 11:03única parte da lei que parece interessar aos
- 11:06autores que se ocupam da história da cerveja, que é
- 11:08a preocupação com a determinação dos ingredientes
- 11:11obrigatórios da bebida, se reduz apenas uma frase.
- 11:15Abre aspas. Além
- 11:18disso, nós desejamos enfatizar que no futuro, em
- 11:22todas as cidades, nos mercados e no país, os
- 11:26únicos ingredientes usados para a fabricação da
- 11:28cerveja devem ser cevada, lúpulo e água. Como
- 11:34falamos mais no começo e que vamos chamar a atenção
- 11:37novamente, é a ausência da levedura, cuja ação na
- 11:40fermentação alcoólica só viria a ser descoberta pela
- 11:43ciência em 1835, dois séculos depois. Apenas
- 11:49no início do século XX, foi incluído o quarto
- 11:53elemento. Na mesma ocasião, o termo
- 11:56cevada foi substituído por Mount. Na
- 11:59bibliografia cervejeira, essa lei é frequentemente
- 12:02interpretada como a primeira, uma das primeiras,
- 12:05ou a mais antiga lei de segurança alimentar da
- 12:08história. Porém, o próprio imperador
- 12:11Frederico I, conhecido como Frederico Barbarossa, pode
- 12:16ter sido autor da primeira regulamentação da cerveja
- 12:19conhecida na Alemanha. O imperador Frederico I, no
- 12:22Justiça, tibitates, Augustenses, Código de Leis
- 12:26da Cidade de Augsburgo, de 1156, decretou. O
- 12:32cervejeiro que fizer cerveja ruim ou servir medida
- 12:35injusta será punido. Sua cerveja será destruída ou
- 12:40distribuída gratuitamente entre os pobres. No
- 12:46outro ocasião, agora, em 1447, o Conselho Municipal
- 12:51de Munique recomendou as cervejarias da cidade a
- 12:55usar nas suas receitas apenas a água cevada e
- 12:57lupa. Quarenta anos depois, em 30 de
- 13:00novembro de 1487, o Duque, Alberto IV, pai do
- 13:05Guilherme IV, transformou a recomendação do Conselho
- 13:08Municipal em obrigação, dando origem à primeira
- 13:12edição da pureza da cerveja. Fica
- 13:14claro, então, que, além de 1516, nada mais fez do que
- 13:19estender essa obrigatoriedade a todo do Cado da
- 13:22Baviária. Encontramos exemplos anteriores também
- 13:25fora do Sacro Império Romano -Germânico. Em
- 13:281267, Henrique III da Gran Bretânia introduziu o Size
- 13:35of Bread and Ale, que estabelecia o rígio do
- 13:38controle dos ingredientes e dos preços do pão e da
- 13:41cerveja. E essa lei parece remeter a
- 13:44outras ainda mais antigas do reinado de Henrique II.
- 13:48Diante disso tudo, não se pode
- 13:50afirmar que a Reinhardst -Bolde foi a primeira lei a
- 13:54regulamentar a utilização de ingrediente da cerveja. E,
- 13:57se levarmos em consideração as suas alterações
- 14:00posteriores, também não poderíamos afirmar que é a
- 14:03mais antiga. Mas de onde veio, então, a
- 14:06afirmação de que a lei da pureza tinha por objetivo
- 14:08primário a segurança alimentar? Bom,
- 14:11essa tese é defendida por Kost Dornbuss no seu livro
- 14:15Proust, A História da Cerveja Alemã. Esse
- 14:18livro é considerado uma obra de referência sobre o
- 14:20assunto. O autor procura nos convencer
- 14:23de que a qualidade da cerveja na Baviária passava
- 14:26por uma queda constante na passagem da idade média
- 14:29para idade moderna devido ao uso de ingredientes
- 14:32controversos na sua composição. Embora
- 14:36o lúpulo fosse conhecido como aromatizante de cerveja
- 14:39desde o século 8 ou 9, inúmeras ervas como cominho
- 14:44ou zimbro, até mesmo sal, caroço, foligem, giz ou
- 14:48ovos cozidos eram usadas para melhorar o sabor da
- 14:52cerveja ou para encobrir sabores estranhos. Em
- 14:57Munique, em 1363, a própria Câmara Municipal tomou assim
- 15:03a tarefa de fiscalizar a produção de cerveja e em
- 15:061372 restava apenas 21 cervejeiros na cidade.
- 15:12Porém, ainda que a preocupação com
- 15:14a qualidade da cerveja fosse uma preocupação
- 15:16constante das autoridades bávaras, isso não
- 15:19significava necessariamente que o escopo da lei de
- 15:231516 fosse esse. Os exemplos citados pelo autor
- 15:27não dizem nada sobre a lei de 1516. A
- 15:31recomendação da servada e a consequente interdição do
- 15:34uso do trigo é usamente explicada por uma possível
- 15:37escassez de trigo que, a partir de então, ficaria
- 15:41reservado para a produção de pão. Essa
- 15:43afirmação, o que pode ser encontrada em Donbush. Abre
- 15:47aspas. Além disso, havia escassez
- 15:51frequente de trigo na Baviera Medieval e os
- 15:54duques, bem familiarizados com os hábitos gustativos
- 15:57dos seus súbditos, temiam que os bons bávaros
- 16:01preferissem renunciar ao pão de cada dia do que não
- 16:03tomarem a sua bebida diária. Fechamos.
- 16:07Porém, essa afirmação não vem acompanhada de documento
- 16:10que a comprove. Se fosse realmente o caso de
- 16:13mais colheitas, a lei deveria ser revista a cada
- 16:16safra. Fato que nunca aconteceu. Junto
- 16:18a isso, sabemos que as tradicionais cervejas de
- 16:20trigo, as vás bia, uma especialidade da Baviera
- 16:23nunca deixaram de ser produzidas. Porém,
- 16:27a sua produção parece ser um privilégio da casa real
- 16:30da Baviera. Outros nobres e monastérios só
- 16:33poderiam produzê -las com licença concedida pelos
- 16:36duques. Bem, caroça aí nesse angô, hein?
- 16:39Só digo isso. Para
- 16:43citar alguns casos, em 1520, o barão Rancesto, da
- 16:47casa de Degenberg, recebe esse privilégio em caráter
- 16:51exclusivo e perpétuo de produzir as cervejas de
- 16:54trigo. Em 1567, o duque Alberto V
- 16:58tentou revogar esse privilégio, porém sem
- 17:01sucesso. Já em 1602, o último barão de
- 17:04Degenberg, Rond Sigmund, morre sem deixar herdeiros
- 17:08e o privilégio retorna para as mãos do duque Maximilien
- 17:11I de Wittelsbach, bisneto de Guilherme IV. Mais
- 17:17uma vez aqui, o que parece prevalecer são os interesses
- 17:20econômicos dos duques da Baviera na preservação do
- 17:25seu monopólio de produção de cervejas de trigo e não
- 17:29qualquer preocupação com a qualidade da servada ou a
- 17:32falta de trigo. A Leque Chacarossi? Bom,
- 17:35o monopólio bom é monopólio que dura, né? Contém
- 17:38ironia, meus amigos. Esse monopólio durou cerca de
- 17:41200 anos, até 1798, quando vários monastérios e
- 17:46cervejarias burguesas receberam permissão para
- 17:49fabricar vásvias de forma não exclusiva, época que o
- 17:53consumo de cervejas de trigo estava ainda clínio.
- 17:56Em 1872, o duque Ludwig II
- 17:59concedeu a um cervejeiro chamado Georg Schneider, não
- 18:03apenas a permissão para a produção, mas também o
- 18:06aluguel do estabelecimento estatal dedicado à
- 18:09fabricação desse tipo de cervejas em Munique, a
- 18:12Weissens -Brauhaus, dando fim de forma definitiva ao
- 18:16monopólio da Casa Reinante. O
- 18:18mesmo se dá com obrigação do uso do lúplu. O
- 18:21uso do lúplu na produção de cerveja era conhecido
- 18:23desde pelo menos o século 8, mas a conclusão da
- 18:27transição completa do uso do grúit para o lúplu
- 18:29demorou séculos. No território do Sacro Império
- 18:33Romano -Germânico, foi no norte que o seu uso ganhou
- 18:36força, entre os séculos 12 e 13, época da publicação
- 18:41do livro da Monja Benedina, Rio de Garvómbi, que a
- 18:44gente já falou aqui no nosso programa, na nossa
- 18:48série documental. Livro das sutilizas das várias
- 18:52naturezas da criação, escrito entre 1151 e 1158,
- 18:57onde ela descreve o uso do lúplu na cerveja por suas
- 19:01propriedades conservantes. O que pouco se sabe e fala
- 19:05é que o grúit era taxado e utilizado pela igreja
- 19:08como fonte de renda. Os primeiros documentos
- 19:11conhecidos que concederam aos mosteiros o monopólio
- 19:14do uso do grúit datam do século 9. Mosteiros,
- 19:19bispos e outros titulares dos direitos dessa mistura
- 19:22foram autorizados a conceder o uso fruto também a
- 19:26outros produtores mediante o pagamento de uma taxa.
- 19:30Compras e vendas dos direitos do
- 19:32grúit efetivamente se tornou uma espécie de imposto
- 19:35indireto sobre a cerveja, gerando uma renda
- 19:38significativa para a igreja. Dessa
- 19:40forma, a igreja católica tinha o controle sobre a
- 19:43mistura de ervas que durante 700 anos constituiu
- 19:47um dos ingredientes amargos essenciais para produzir
- 19:50cerveja. Por outro lado, não havia
- 19:53impostos a pagar ao Papa pelo lúplu, nem mesmo em
- 19:56regiões controladas por católicos. A
- 19:59Heinreidskibut, ao determinar o uso do lúplu como um
- 20:02dos 3 ingredientes obrigatórios da cerveja,
- 20:05ajuda os cervejeiros bávaros a economizarem o dinheiro
- 20:08dos impostos da igreja sobre o uso do grúit. Em
- 20:111517, o lúplu ganha um aliado inusitado, os
- 20:16cervejeiros de Wittenberg, que haviam aderido à
- 20:19reforma protestante de Martin Luthero. Wittenberg,
- 20:22cidade onde Luthero concluiu seus estudos de teologia e
- 20:26se tornou professor da Universidade Local. Era
- 20:28capital da cerveja na região da Saxônia, com
- 20:32cerca de 150 cervejarias no início do século XVI. Para
- 20:38os luteranos, o uso do lúplu era um ato de
- 20:41rebelião contra a igreja católica. E
- 20:43rebelião, hoje, rebeldesbons. Assim,
- 20:46a transição do grúit para o lúplu também se
- 20:49apresentava como uma opção econômica, política e
- 20:52religiosa. É platituíche em cima de
- 20:54platituíche, meus amigos. As evoluções da Rhein -Heinz
- 21:05-Gibold. Em 1906, a Rhein -Heinz -Gibold
- 21:09foi estendida a todo o Império alemão na fase de
- 21:131871 a 1918. Na mesma ocasião, o termo
- 21:17sevada foi substituído por malte e foi incluído o
- 21:21quarto ingrediente obrigatório da cerveja, a
- 21:24levedura. Por esse motivo, seria um erro
- 21:26cronológico referir -se a lei alemã de pureza de
- 21:291516, já que a sua atualização é muito mais
- 21:33recente. Vale dizer que esse termo é
- 21:36facilmente encontrado em muitos rótulos de cerveja
- 21:38alemão hoje em dia, geralmente como forma de
- 21:41atestar a qualidade da cerveja. Com
- 21:44a queda do Império, após a Primeira Guerra Mundial, o
- 21:47Estado Livre da Baviera condicionou a sua adesão à
- 21:51República de Weimar, de 1919 a 1933, a doção da
- 21:56Rhein -Heinz -Gibold, em todo o país. É
- 21:58apenas nesse momento que a lei vai ganhar esse nome.
- 22:01Esse termo foi cunhado por um
- 22:03membro do Parlamento do Estado da Baviera, Hans
- 22:06Rau. Durante um debate acalorado sobre a
- 22:09tributação da cerveja, além disso, a lei era
- 22:12simplesmente conhecida pelo nome Surutwebut. Em
- 22:16tradução livre, seria algo como proibição dos
- 22:18substitutos ou dos adjuntos. No
- 22:21seu original, a lei não contém a palavra pureza, ou
- 22:24qualquer expressão que indique que a cerveja
- 22:27produzida com os três ingredientes obrigatório era
- 22:30mais pura. Da mesma forma que não afirma
- 22:33que cervejas feitas com outros adjuntos seriam menos
- 22:36puras ou impuras. A ignorância desse fato pode
- 22:40levar às interpretações equivocadas sobre os
- 22:42objetivos iniciais da lei. A
- 22:44Baviera voltou a fazer a mesma exigência de aplicação
- 22:48da Rhein -Heinz -Gibold, quando aderiu à atual
- 22:51República Federal alemã em 1949, depois da Segunda
- 22:55Guerra Mundial, gente. Existem
- 22:57hoje duas leis de pureza da cerveja, a da Baviera e
- 23:01a da Alemanha. Embora a versão bávara ainda
- 23:03restringe a uso de qualquer coisa, que não seja malte
- 23:07de sevada, lúpulo, água e levedura, para todas as
- 23:10cervejas de baixa fermentação, Lager, ela
- 23:12permite o uso adicional de malte de trigo ou senteio,
- 23:15por exemplo, apenas para as cervejas de alta
- 23:18fermentação, azeios. A versão alemã, por outro
- 23:21lado, é um pouco mais tolerante quando se trata
- 23:24de cerveja de baixa fermentação. Admitindo
- 23:27a adição de açúcar de cana, de beterraba, de
- 23:29amido modificado, açúcar invertido, bem como corantes
- 23:32feitos a partir desses açúcares. No
- 23:34norte da Alemanha, o uso de substitutos do malte,
- 23:37como arroz, amido verde e amido de batata, era não
- 23:40apenas permitido, mas até mesmo protegido pela lei
- 23:44imperial alemã de 1873. Os cervejeiros alemães que não
- 23:48cumprissem a lei poderiam vender as suas bebidas, mas
- 23:51não poderiam denominá -las de cerveja. Em
- 23:541987, o Tribunal Europeu considerou a Reinhheizk
- 23:58-Burk, uma restrição inadimissível ao mercado
- 24:01comum europeu recentemente integrado, que pedia que
- 24:04cervejas de outros países vendessem suas cervejas, não
- 24:07Reinhheizk -Burk, na Alemanha. Da
- 24:10mesma forma, os cervejeiros alemães foram autorizados a
- 24:13ignorar as restrições da Reinhheizk -Burk, ao produzir
- 24:17cervejas para exportação, sem prejuízo do seu produto
- 24:21ser denominado cerveja. Fichando
- 24:28aqui, amarrando os trabalhos, depois dessa
- 24:31viagem histórica, podemos enxergar a Reinhheizk -Burk,
- 24:35como um fato histórico que não pode ser analisado
- 24:38separadamente das suas diversas interpretações. O
- 24:42texto da lei é sucinto e dá margens para que os
- 24:45autores busquem diferentes explicações, seja para as
- 24:48suas motivações principais, seja para a escolha dos
- 24:51ingredientes que ela torna obrigatórios na produção da
- 24:54cerveja. O maior problema, em grande
- 24:56parte dessas interpretações, é decorrente do fato dos
- 25:00autores que se ocupam exclusivamente da história
- 25:03da cerveja, não analisarem a lei no seu todo,
- 25:06prestando atenção apenas em uma frase, aquela que
- 25:09determina os ingredientes obrigatórios e que, segundo
- 25:12eles, seria mais importante. Hoje
- 25:14em dia, persiste a polêmica em torno dos efeitos da
- 25:17Reinhheizk -Burk, sobre a formação da escola
- 25:20cervejeira alemã. De um lado estão aqueles que
- 25:23defendem que a restrição das matérias primas exige
- 25:25uma maior criatividade dos cervejeiros alemães, e que,
- 25:29assim, muitos estilos teriam nascido dessa necessidade de
- 25:32adaptação das receitas às limitações impostas pela
- 25:35lei. De outro lado, estão aqueles
- 25:38que defendem que a lei trouxe mais malefícios do
- 25:41que benefícios ao restringir o uso de matérias primas.
- 25:44De acordo com o Garrett
- 25:45Oliver, abre aspas. Pode -se argumentar que a
- 25:50Reinhheizk -Burk reprimiu a criatividade ao banir muitos
- 25:55ingredientes interessantes, mas seu caráter conservador,
- 25:59ao mesmo tempo, poupou os consumidores alemães dos
- 26:02estragos causados às cervejas americanas desde o
- 26:08fim da lei seca. Porém, essa discussão deixa de
- 26:12fora alguns aspectos importantes. Primeiro,
- 26:16o fato de que a Reinhheizk -Burk não pode ter tido um
- 26:19impacto real na produção de cerveja fora da baviera,
- 26:23como ficou indicado acima. Pelo
- 26:24menos até o início do século XX. Segundo
- 26:27lugar, faltam pesquisas mais detalhadas que mostrem qual
- 26:31foi o nível de aplicação efetiva da lei, em que
- 26:34medida ela foi respeitada e em que medida os
- 26:36cervejeiros buscavam escapar da sua aplicação. Até
- 26:40o momento, o que se pode afirmar com alguma certeza,
- 26:43alguma, e eu adoro alguma certeza, é que a Reinhheizk
- 26:48-Burk pode ter sido a responsável pelo
- 26:50desaparecimento de um estilo de cerveja muito comum na
- 26:53baviera medieval, o Roganbeer. Esse
- 26:56estilo era produzido com pelo menos 30 % de malte
- 27:00de centeio, significado de Rogan em alemão. É
- 27:04comum encontrar textos que atribuem o seu
- 27:06desaparecimento a uma escassez de centeio, que
- 27:09então teria ficado reservado para a produção de pão.
- 27:12Exatamente a mesma explicação que
- 27:14comumente se utiliza para justificar a proibição do
- 27:18uso de trigo na Reinhheizk -Burk. O
- 27:20que só mostra que essa é somente mais uma daquelas,
- 27:24entre aspas, explicações fáceis, que não têm
- 27:28qualquer embasamento documental e que são
- 27:31aplicadas a vários contextos diferentes. Por
- 27:34isso mesmo devem ser vistas com desconfiança por parte
- 27:37do leitor atento e curioso. É
- 27:45isso aí, meus amigos, é muito platitoíche na essa
- 27:48lei de pureza, que não é tão pura assim, que não é
- 27:51tão assado, e a gente termina esse programa do
- 27:53jeito que a gente gosta, agradecendo aos nossos
- 27:56messenas, que nos ajudam a manter a independência
- 27:58criativa e muito conteúdo bacana toda semana. Então
- 28:02muito obrigada, Ana Castilho, Carlos Henrique
- 28:05Barbosa, Maria Fernanda Freita, Jada Termenezes e
- 28:08Maurício Weijant. É isso, Leandro, o que a
- 28:11gente fala pra esse povo? Até
- 28:13semana que vem! Beba local, beba com moderação.
- 28:33Este podcast foi editado por
- 28:36PlayAudios.