Latest / Consciência em Conversa / Ecos do Passado
Transcript
- 0:04SPEAKER_00: Você não pensa o que pensa por acaso.
- 0:07SPEAKER_00: Vem descobrir porquê.
- 0:09SPEAKER_00: Começa agora, Consciência em Conversa, aqui com o psicólogo Alexandre Bortoletto.
- 0:16SPEAKER_00: Bem-vindos.
- 0:24SPEAKER_00: Você já assistiu a um reality show de casal e pensou, gente,
- 0:29SPEAKER_00: ela não está brigando com o namorado,
- 0:31SPEAKER_00: ela está brigando com o pai dela através do namorado?
- 0:34SPEAKER_00: Pois é, passamos o ano vendo a fazenda,
- 0:38SPEAKER_00: casamento às cegas,
- 0:40SPEAKER_00: 13 semanas de gente se declarando apaixonada por um estranho
- 0:44SPEAKER_00: e duas semanas depois gritando coisas que claramente vêm de outra década,
- 0:48SPEAKER_00: de outra casa, de outra mesa de jantar.
- 0:51SPEAKER_00: A gente assiste, ri, comenta no grupo do zap e não percebe que...
- 0:57SPEAKER_00: Boa parte das vezes está vendo um marodocumentário sobre nós mesmos,
- 1:01SPEAKER_00: porque o amor, meus amigos, é o lugar onde a nossa infância vai cobrar a conta.
- 1:09SPEAKER_00: E, olha, o Brasil andou às voltas com prazo para renegociar dívida bancária esse mês.
- 1:16SPEAKER_00: Dá para ir lá, ligar para o banco, parcelar, tirar seu nome do Serasa e seguir a vida.
- 1:22SPEAKER_00: Mas tem uma dívida que ninguém avisa que você tem,
- 1:25SPEAKER_00: que não aparece em nenhum aplicativo,
- 1:27SPEAKER_00: que não tem central de atendimento,
- 1:29SPEAKER_00: a dívida emocional que a gente herda lá da infância e carrega sem querer para o meio
- 1:34SPEAKER_00: da cama de casal.
- 1:36SPEAKER_00: Hoje eu quero te contar sobre uma pesquisa recente,
- 1:39SPEAKER_00: feita por dois psicólogos de um instituto canadense que foi atrás justamente disso,
- 1:46SPEAKER_00: como o trauma familiar da infância,
- 1:49SPEAKER_00: brigas dos pais,
- 1:50SPEAKER_00: Negligência, abuso,
- 1:53SPEAKER_00: aquele silêncio pesado depois do jantar reaparece,
- 1:57SPEAKER_00: décadas depois, dentro do casamento.
- 2:00SPEAKER_00: Eles entrevistaram 22 adultos,
- 2:03SPEAKER_00: entre 20 e 8 e 55 anos, todos com um histórico de trauma na família de origem.
- 2:09SPEAKER_00: Uns casados, uns separados, uns já no segundo casamento tentando fazer diferente.
- 2:15SPEAKER_00: E o que saiu dessas conversas dá pra resumir em três grandes movimentos.
- 2:20SPEAKER_00: Bora com calma, porque isso aqui vale mais que terapia de grupo de bar.
- 2:25SPEAKER_00: O primeiro movimento é o que eu chamo de eco emocional.
- 2:29SPEAKER_00: É aquele som que continua reverberando muito depois de a fonte ter parado de tocar.
- 2:36SPEAKER_00: Repara, você bate a mão numa taça de cristal, o som para em segundos, mas o eco, esse.
- 2:44SPEAKER_00: O quarto inteiro guarda por um tempo.
- 2:47SPEAKER_00: A infância é a taça.
- 2:49SPEAKER_00: O casamento é o quarto que segura o eco.
- 2:52SPEAKER_00: Dentro desse eco,
- 2:54SPEAKER_00: a primeira coisa que aparece é uma vergonha que a pessoa nem sabe de onde veio.
- 2:59SPEAKER_00: Tem gente que carrega,
- 3:01SPEAKER_00: lá no fundo,
- 3:02SPEAKER_00: a sensação de eu sou estranho demais,
- 3:05SPEAKER_00: quebrado demais, para ser amado do jeito certo.
- 3:09SPEAKER_00: Ninguém disse a isso com essas palavras na infância.
- 3:13SPEAKER_00: Mas o clima da casa,
- 3:14SPEAKER_00: o jeito como os pais brigavam,
- 3:17SPEAKER_00: como alguém foi tratado como incômodo,
- 3:19SPEAKER_00: isso vira uma crença que a pessoa nem sabia que tinha assinado embaixo.
- 3:24SPEAKER_00: É como aquele contrato de aplicativo que a gente aceita sem ler.
- 3:28SPEAKER_00: Concordo com os termos.
- 3:30SPEAKER_00: Só que os termos,
- 3:31SPEAKER_00: nesse caso,
- 3:32SPEAKER_00: foram escritos por outra pessoa na sua infância e você vem pagando prestação disso
- 3:37SPEAKER_00: a vida inteira sem saber o motivo do débito.
- 3:41SPEAKER_00: Depois vem a hipervigilância na intimidade,
- 3:45SPEAKER_00: que hoje, aliás, tem nome bonito nas redes sociais, apego ansioso.
- 3:50SPEAKER_00: Virou até hashtag,
- 3:52SPEAKER_00: virou teste de personalidade que todo mundo faz igual a teste de qual série combina
- 3:58SPEAKER_00: com você.
- 3:59SPEAKER_00: Mas na prática é isso.
- 4:01SPEAKER_00: A pessoa fica de radar ligada o tempo todo,
- 4:04SPEAKER_00: monitorando a cara do parceiro,
- 4:06SPEAKER_00: o tom da mensagem, O visto sem resposta, com medo de ser abandonado de novo.
- 4:12SPEAKER_00: E aí ouvir a controle, quer saber tudo, checar tudo, ouvir o oposto.
- 4:17SPEAKER_00: Um recuo na base do antes de ser abandonado, eu abandono primeiro.
- 4:24SPEAKER_00: Como quem já perdeu o sinal do wi-fi tantas vezes que agora vive checando a barrinha
- 4:29SPEAKER_00: de conexão a cada 30 segundos, mesmo quando ela está cheia.
- 4:34SPEAKER_00: E o terceiro eco é a desconexão emocional.
- 4:38SPEAKER_00: Aquele desligar por dentro no meio do conflito.
- 4:42SPEAKER_00: Aquela sensação de assistir a própria briga de fora, como quem assiste série com o áudio mudo.
- 4:48SPEAKER_00: Uma das entrevistadas resumiu isso de um jeito lindo e triste ao mesmo tempo.
- 4:54SPEAKER_00: Quando a coisa fica tensa demais, ela simplesmente desliga.
- 4:58SPEAKER_00: E o marido acha que ela não está nem aí, quando na real ela nunca aprendeu a linguagem de ficar.
- 5:04SPEAKER_00: E aqui cabe uma provocação.
- 5:07SPEAKER_00: A gente vive numa época viciada em positividade,
- 5:11SPEAKER_00: em só energia boa,
- 5:13SPEAKER_00: em legenda de story motivacional,
- 5:15SPEAKER_00: e isso empurra qualquer desconforto pra debaixo do tapete, inclusive dentro de casa.
- 5:21SPEAKER_00: A gente aprendeu a curtir,
- 5:23SPEAKER_00: a mandar coração,
- 5:24SPEAKER_00: a reagir com o emoji certo,
- 5:26SPEAKER_00: mas esqueceu como ficar 90 segundos dentro de um desconforto real,
- 5:31SPEAKER_00: olhando pro outro, sem fugir pro celular.
- 5:34SPEAKER_00: Desligar não é frieza.
- 5:36SPEAKER_00: Muitas vezes é a única ferramenta de sobrevivência que a criança lá
- 5:40SPEAKER_00: de trás conseguiu inventar numa casa onde sentir demais era perigoso.
- 5:44SPEAKER_00: Isso me leva ao segundo movimento da pesquisa, a transmissão entre gerações.
- 5:51SPEAKER_00: É basicamente aquele fenômeno de eu jurei que nunca ia ser como meu pai e,
- 5:57SPEAKER_00: aos 40 anos discutindo com o cônjuge,
- 6:00SPEAKER_00: você escuta a própria boca soltando a frase exata que sua mãe soltava.
- 6:05SPEAKER_00: Arrepia.
- 6:07SPEAKER_00: A pesquisa mostra a repetição dos padrões de conflito.
- 6:11SPEAKER_00: Grito, silêncio, ironia, o famoso não vou nem discutir, que é discussão pura disfarçada de paz.
- 6:20SPEAKER_00: A gente aprende a brigar do mesmo jeito que aprendeu a comer arroz com feijão.
- 6:24SPEAKER_00: Automaticamente?
- 6:26SPEAKER_00: Sem pensar, porque foi o único cardápio disponível na infância.
- 6:30SPEAKER_00: Tem também os mecanismos de defesa que,
- 6:33SPEAKER_00: lá atrás, eram inteligentíssimos e, hoje, meio que atrapalham.
- 6:39SPEAKER_00: Uma participante contou que, quando a relação aperta, ela desaparece dentro do trabalho.
- 6:46SPEAKER_00: 13 horas de Excel editando planilha até meia-noite,
- 6:51SPEAKER_00: porque foi assim que ela sobreviveu ao caos dos pais quando criança.
- 6:56SPEAKER_00: Isso não é workaholic.
- 6:58SPEAKER_00: Isso é uma criança escondida atrás de um notebook.
- 7:01SPEAKER_00: E cá entre nós,
- 7:02SPEAKER_00: numa economia que já cobra tanto desempenho,
- 7:05SPEAKER_00: tanta meta, tanto seja produtivo, fica fácil confundir esse esconderijo com virtude.
- 7:12SPEAKER_00: A cultura aplaude quem trabalha demais.
- 7:15SPEAKER_00: Ninguém pergunta de que ele está fugindo.
- 7:17SPEAKER_00: Tem a projeção.
- 7:19SPEAKER_00: E essa é daquelas que dá calafrio de tão comum.
- 7:22SPEAKER_00: A pessoa vê o pai ou a mãe estampado na cara do parceiro Mesmo
- 7:26SPEAKER_00: quando ele está sendo absolutamente razoável.
- 7:29SPEAKER_00: Um homem contou.
- 7:31SPEAKER_00: Quando a esposa levanta a voz, ele enxerga a mãe dele e reage como se tivesse 12 anos de novo.
- 7:39SPEAKER_00: Não 42.
- 7:40SPEAKER_00: É como assistir dublado um filme que já vimos mil vezes.
- 7:44SPEAKER_00: A boca do parceiro mexe, mas a voz que sai é de outra pessoa, gravada há décadas.
- 7:51SPEAKER_00: E daí vem os papéis distorcidos dentro do casamento.
- 7:56SPEAKER_00: Vira o salvador,
- 7:57SPEAKER_00: vira o responsável por tudo,
- 7:59SPEAKER_00: vira o filho invisível que nunca incomoda, nunca pede, nunca aparece.
- 8:05SPEAKER_00: E o apego confuso, ora grudento, ora sumido, testando o outro para ver se ele fica.
- 8:12SPEAKER_00: Um participante foi sincero.
- 8:14SPEAKER_00: Ele empurra a parceira pra longe só pra ver se ela volta,
- 8:19SPEAKER_00: porque no fundo ele não acredita que alguém fica.
- 8:23SPEAKER_00: Isso tem uma lógica interna perfeita, só que dolorida.
- 8:26SPEAKER_00: Se eu controlo o abandono, pelo menos ele não me pega de surpresa.
- 8:31SPEAKER_00: Só que... E aqui chega a parte boa.
- 8:35SPEAKER_00: O terceiro movimento da pesquisa,
- 8:37SPEAKER_00: que é sobre reconstrução, os entrevistados não ficaram só narrando a ferida.
- 8:43SPEAKER_00: Eles mostraram, um por um, que dá para reescrever o roteiro.
- 8:49SPEAKER_00: E olha que escolha de palavra irônica.
- 8:52SPEAKER_00: Reescrever o roteiro.
- 8:54SPEAKER_00: Porque é exatamente o que estamos fazendo aqui.
- 8:57SPEAKER_00: Trocando o script antigo por um novo, de propósito, linha por linha.
- 9:04SPEAKER_00: O primeiro passo foi quebrar o padrão de forma consciente.
- 9:07SPEAKER_00: Terapia, diário, identificar gatilho antes que ele vire briga.
- 9:13SPEAKER_00: Uma pessoa contou uma regra simples e poderosa,
- 9:16SPEAKER_00: nunca dormir com raiva,
- 9:18SPEAKER_00: porque os pais dela dormiam e aquilo corroeu o casamento deles feito ferrugem
- 9:23SPEAKER_00: em cano velho.
- 9:25SPEAKER_00: Regra pequena,
- 9:26SPEAKER_00: efeito gigante,
- 9:28SPEAKER_00: tipo aquelas mudanças de hábito que parecem bobas,
- 9:31SPEAKER_00: mas mudam o resultado inteiro,
- 9:33SPEAKER_00: tipo trocar refrigerante por água e seis meses depois perceber que o corpo é outro.
- 9:39SPEAKER_00: O segundo passo foi desenvolver o que dá para chamar de vocabulário emocional.
- 9:45SPEAKER_00: Aprender assim a nomear o que sente,
- 9:47SPEAKER_00: ao invés de só sentir uma bagunça sem nome dentro do peito e chamar isso
- 9:51SPEAKER_00: de estou bem.
- 9:53SPEAKER_00: Muita gente nunca teve esse dicionário em casa.
- 9:56SPEAKER_00: Os pais também não tinham.
- 9:58SPEAKER_00: Então aprender a dizer eu estou com medo,
- 10:01SPEAKER_00: eu estou magoado, eu preciso de um tempo, não de uma fuga.
- 10:06SPEAKER_00: Isso é quase aprender um idioma novo depois dos 30.
- 10:09SPEAKER_00: O terceiro é reconstruir o diálogo dentro do casamento.
- 10:13SPEAKER_00: Trocar, você sempre faz isso, por eu me sinto assim quando isso acontece.
- 10:19SPEAKER_00: Parece frase de adesivo de geladeira.
- 10:22SPEAKER_00: Eu sei, mas funciona, porque muda o lugar de onde a fala sai.
- 10:28SPEAKER_00: Sai da acusação e entra na experiência real da pessoa.
- 10:32SPEAKER_00: Um entrevistado resumiu bonito.
- 10:34SPEAKER_00: No dia em que ele parou de tentar vencer a discussão e começou a tentar escutar,
- 10:40SPEAKER_00: a relação inteira mudou de eixo.
- 10:42SPEAKER_00: O quarto é reprocessar a própria história,
- 10:46SPEAKER_00: aceitar os limites dos pais sem precisar nem absorver tudo,
- 10:51SPEAKER_00: nem carregar rancor para sempre, mas dar um novo significado para o que aconteceu.
- 10:57SPEAKER_00: Isso lembra bastante aquele exercício que às vezes fazemos sem perceber.
- 11:02SPEAKER_00: Contar a mesma história de um jeito diferente até ela parecer suportável.
- 11:08SPEAKER_00: Até a gente conseguir ficar na história sem se afogar nela de novo.
- 11:13SPEAKER_00: O quinto é cultivar intimidade seguindo pequenos rituais de segurança.
- 11:19SPEAKER_00: Reafirmar o vínculo, ter conversas abertas, se regular em dupla nos momentos difíceis.
- 11:25SPEAKER_00: E cá vai outra provocação, porque a gente vive numa era que perdeu boa parte dos seus rituais.
- 11:32SPEAKER_00: Casamos no civil e corremos pro brunch,
- 11:35SPEAKER_00: comemoramos aniversário de namoro postando uma foto e seguimos o dia.
- 11:40SPEAKER_00: Os rituais antigos,
- 11:41SPEAKER_00: o jantar de domingo,
- 11:43SPEAKER_00: o silêncio combinado, o gesto repetido toda semana, não eram enfeite.
- 11:48SPEAKER_00: Eles davam ao vínculo um chão.
- 11:51SPEAKER_00: Recriar pequenos rituais dentro do casal, mesmo pequenininhos, tipo um café antes de sair.
- 11:58SPEAKER_00: Uma pergunta específica no fim do dia é recolocar esse chão debaixo dos pés dos dois.
- 12:04SPEAKER_00: E o último ponto, talvez o mais bonito de todos, estabelecer novas normas familiares.
- 12:11SPEAKER_00: Muita gente entrevistada tinha um orgulho enorme de dizer que
- 12:15SPEAKER_00: a própria família hoje é mais saudável do que aquela em que cresceram.
- 12:21SPEAKER_00: Uma participante contou que na casa dela hoje fala-se de sentimento na frente
- 12:27SPEAKER_00: dos filhos, coisa proibida na casa em que ela cresceu.
- 12:31SPEAKER_00: E é isso, no fundo, provar para si mesmo que dá para quebrar a corrente sem quebrar a família.
- 12:38SPEAKER_00: Então fica o convite de hoje.
- 12:40SPEAKER_00: Você não escolheu a taça que bateram na sua infância nem o som do eco
- 12:45SPEAKER_00: que ficou reverberando dentro do seu peito.
- 12:48SPEAKER_00: Mas você escolhe Todos os dias,
- 12:51SPEAKER_00: o que fazer com esse som dentro do casamento, dentro da relação, dentro de casa?
- 12:56SPEAKER_00: Dá para renegociar essa dívida.
- 12:58SPEAKER_00: Sem juros,
- 12:59SPEAKER_00: sem Serasa,
- 13:00SPEAKER_00: só com atenção,
- 13:01SPEAKER_00: linguagem nova e um pouco de coragem para ficar 90 segundos dentro do desconforto
- 13:07SPEAKER_00: sem fugir para a tela do celular.
- 13:09SPEAKER_00: E se ouvindo esse episódio alguma frase bateu forte demais, talvez seja um sinal simples.
- 13:15SPEAKER_00: Vale a pena conversar com alguém sobre isso.
- 13:18SPEAKER_00: Terapia não é fraqueza,
- 13:19SPEAKER_00: é manutenção,
- 13:21SPEAKER_00: igual manutenção de carro,
- 13:23SPEAKER_00: só que do motor mais importante que você tem, que é a sua própria história.
- 13:27SPEAKER_00: Por hoje é isso, nos vemos no próximo episódio.