Latest / Surra de Lúpulo / A História do Estilo India Pale Ale, a IPA | Surra #233
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- 0:11Oi pessoal, bom dia, boa tarde, boa noite.
- 0:18Eu sou Ludmilla, mais conhecida no Instagram como Hipacondriaca.
- 0:22E no programa de hoje, meus amigos, mais um episódio da
- 0:26série documental na qual falaremos de situações e
- 0:29personalidades históricas que marcaram o universo da cerveja.
- 0:33Música Música Música Música Antes de prosseguirmos, a gente
- 1:05quer passar um recado muito importante.
- 1:07O Clube Cozalinda está de volta com força total.
- 1:11Para fazer parte da Cozarada, você pode escolher três planos
- 1:15diferentes. Para assinar, acesse o site
- 1:18cozalindadeloginha.lojavirtualnuvem.com.br e escolha o plano certo para
- 1:26você. O melhor de tudo é que mecenas
- 1:29têm condições especiais e um super desconto na escolha de
- 1:33qualquer um dos planos. Você não pode ficar fora dessa.
- 1:36Nós vamos deixar o site na descrição desse episódio e
- 1:39também no nosso blog pra você entrar e fazer a sua compra.
- 1:47Olá, Lud. Você já sabe, eu sou o Leandro,
- 1:50mas hoje vocês podem me chamar do Bitter Condria.
- 1:54Quer ser a Lud? É a hipacondríaca aqui da dupla.
- 1:57Eu nunca fui o maior fã de hipas.
- 2:00Eu gosto, gosto muito. Mas eu sou muito mais bitter do
- 2:05que hipa. E aí, rapaz, vocês vão ver que
- 2:07minha cabeça vai ganhar um nó nessa história aqui que a gente
- 2:10vai contar. Vai dar nó.
- 2:11Você talvez fosse então um epacondríaco.
- 2:15Oi, oi, oi. E a gente vai contar essa
- 2:21história aqui dizendo que bebe algo para molhar a garganta.
- 2:25Ludi, você que ainda está nos oitenta, o que você está
- 2:28bebendo? Eu já nem sei que dia que esse
- 2:30programa vai lá. Estou completamente bêbada em
- 2:33relação a isso, porém estou na água, porque esse programa, como
- 2:36você bem afirma, ele é melhor regado à água, para a gente se
- 2:41manter sóbrio até o final. Exato.
- 2:44E você, Pierre Condrico? Epa, Condrico!
- 2:49Tá bebendo o quê? Água.
- 2:51É programa histórico, tem água. Pronto, acabou.
- 2:54Vamos. Boa.
- 2:56Vamos lá. E você que está nos ouvindo,
- 3:10tomando uma cervejinha ou então no trânsito, quer ajudar, mas a
- 3:13grana está curta agora, não tem problema, ajuda a gente a chegar
- 3:18mais longe. Basta enviar o link desse
- 3:21episódio para um amigo que gosta de cerveja artesanal, que acha
- 3:24que todas as cervejas artesanais do mundo são IPAs.
- 3:28Aquele que diz que adora uma IPA e só uma IPA e fica por aí,
- 3:31manda para ele para ele entender a história dessa cerveja. ou
- 3:34compartilhando nas suas redes sociais, marcando a gente.
- 3:37Estamos em diversas plataformas de streaming, e o nosso coração
- 3:41enche de amor quando rolam cinco estrelinhas no Spotify.
- 3:45Agora, você quer mais que um olhar?
- 3:47Quer mais do que um sorrisinho? Faz o combo de cinco estrelas
- 3:53mais comentário na Apple Podcast, porque a gente pira.
- 3:56A gente fica muito louco, de alegria, calma.
- 4:02E as avaliações ajudam as plataformas a entenderem que o
- 4:05nosso conteúdo é relevante e melhoram muito a distribuição
- 4:09dos episódios. A história daí.
- 4:35Originada na escola cervejeira britânica, esse tradicional
- 4:39estilo de cervejas, India Pale Ale, é caracterizado pelo
- 4:44amargor que vem dos lúpulos. Dizem que o sucesso e
- 4:48popularidade desse estilo brotou na Índia e outras colônias
- 4:53britânicas do Oriente ao longo do século XIX, conquistando
- 4:57posteriormente a própria Grã-Bretanha e os Estados
- 5:00Unidos. Ao longo do século XX, o estilo
- 5:03sofreu um declínio na sua popularidade.
- 5:05Esse hiato acabou no final do século devido ao interesse dos
- 5:09cervejeiros artesanais norte-americanos, a locomotiva
- 5:12do mercado, que o transformaram no estilo de cerveja artesanal
- 5:16mais popular do planeta. Só isso.
- 5:18Chegando a ser entendido até como sinônimo de cerveja
- 5:22artesanal em alguns lugares. Podemos dizer que a IPA é a mãe
- 5:27de uma infinidade de subestilos. Os cervejeiros artesanais
- 5:32misturaram esse estilo às suas criatividades para criar tantos
- 5:37novos estilos a pontos da IPA ganhar uma categoria popular.
- 5:41própria na última edição do Guia de Estilos BJCP.
- 5:45A categoria vinte e um, que é composta por nove estilos.
- 5:50American Ipa, Belgian Ipa, Black Ipa, Brown Ipa, Red Ipa, Rye
- 5:55Ipa, White Ipa e Hazy Ipa. Em outras categorias ainda vamos
- 6:01encontrar a Original English IPA, que está lá na categoria
- 6:06doze, em Pale Commonwealth Beer. E a Double IPA, na categoria
- 6:10vinte e dois, Strong American Ale.
- 6:12Existem ainda outros subestilos não classificados no guia, como
- 6:17Triple IPA, DDH IPA, que é a Double Dry Hopping IPA e a
- 6:21Session IPA. Eu gosto muito, hein?
- 6:23Fica a dica aí. Inclusive, várias dessas eu
- 6:26gosto. falar, não tem nada aí que eu, tipo, virei a cara, não
- 6:30vou tomar nunca, eu não tenho essa porra não.
- 6:32Não tem sour nesse bolo, né? Sour não é estilo, a gente vai
- 6:36arrumar um problema com o patrocinador, se controla.
- 6:39Essa participação no movimento da cerveja artesanal ao redor do
- 6:42mundo gerou um grande interesse pela sua história.
- 6:46Segundo a versão mais popular, mistura longas viagens marítimas
- 6:51feitas à vela para o Oriente e ingleses na Índia.
- 6:55Mas será que é isso mesmo? Não, né?
- 6:57Porque quando começamos a pesquisar a história da IPA, a
- 7:01gente fica sabendo que essa versão popular da história do
- 7:04estilo é mais um daqueles mitos da cerveja que acabaram se
- 7:08consolidando como verdade de tanto serem repetidas.
- 7:12Então, para esse episódio, nós nos apoiamos fundamentalmente no
- 7:17trabalho do jornalista inglês Martin Cornell, pesquisador da
- 7:21história da cerveja na Inglaterra e que se debruça
- 7:24sobre o tema desde dois mil e três.
- 7:27Um dos problemas da forma como a história da cerveja vem sendo
- 7:30escrita é o fato de que ela se fecha em si, sem se conectar com
- 7:34fatos e contextos históricos maiores.
- 7:37Então, Não se pode falar da história da India Pale Ale sem
- 7:41abordar a presença britânica no subcontinente indiano por meio
- 7:45das atividades da Companhia das Índias Orientais, ou no
- 7:49original, como diria Jack Sparrow, East Indian Company.
- 7:53A EIC foi fundada em mil e seiscentos por comerciantes de
- 7:57Londres, a quem a rainha Elizabeth I concedeu o monopólio
- 8:02do comércio com as Índias Orientais, o subcontinente
- 8:07indiano e China, por um período de quinze anos, que foi renovado
- 8:11pelo rei James I em mil seiscentos e nove, por tempo
- 8:16indeterminado. Para conduzir suas operações, a
- 8:19Companhia das Índias Orientais recebeu permissão para exercer a
- 8:23soberania em nome da coroa e do governo inglês.
- 8:26Qualquer pessoa que negociasse sem a licença da companhia era
- 8:30passível de confisco de seus navios e carga, bem como a
- 8:34prisão. Havia aproximadamente setenta
- 8:37navios em serviço regular no comércio das Índias Orientais,
- 8:42os chamados East Indiamen, que eram navios mercantes, porém
- 8:47armados com canhões. Um típico East Indiamen
- 8:51carregava entre trinta e trinta e seis canhões, como bem afirma
- 8:56Cornell. o comandante de um navio poderia ganhar até doze
- 9:01mil libras por ano com negócios privados, vendendo produtos
- 9:05ingleses na Índia, geralmente para os funcionários civis da
- 9:08empresa, nos postos comerciais conhecidos como fábricas e
- 9:13trazendo produtos indianos de volta para a Grã-Bretanha.
- 9:17Os primeiros navios da companhia chegaram à Índia em mil
- 9:20seiscentos e doze, estabelecendo uma feitoria em Surat, na costa
- 9:24oeste da Índia. Entre os principais itens de
- 9:27comércio estavam algodão, seda, salitre, salitre é um nitrato de
- 9:31potássio, chá e ópio. O comércio desses dois últimos
- 9:35produtos estavam intimamente relacionados.
- 9:37Para conseguir o chá, que crescia somente na China, a
- 9:41companhia o trocava pelo ópio conseguido na Índia, tendo sido
- 9:45responsável pela introdução do ópio na China.
- 9:48A respeito do comércio de chá, afirma Mark Cartwright.
- 9:53As importações de chá para a Grã-Bretanha alcançaram um tal
- 9:57montante que, antes uma mercadoria com altos preços, ele
- 10:02passou a ser uma bebida mais barata do que a cerveja
- 10:05produzida no país. Com a ajuda das importações de
- 10:08açúcar barato das fazendas escravagistas no Caribe, os
- 10:12britânicos tornaram-se uma nação de bebedores de chá.
- 10:18Ainda no século XVII, a companhia instalou vários postos
- 10:23comerciais no subcontinente indiano, em Bombem, em
- 10:28Mazulipatã, em Madras, Alcutá, aumentando gradativamente seu
- 10:34poder e alcance. Construiu fortalezas, punhava
- 10:37moedas, administrava suas próprias cortes de justiça e
- 10:41mantinha prisões para quem fosse condenado por elas.
- 10:45Chegando a governar a Índia após a Batalha de Plassey, em mil
- 10:49setecentos e cinquenta e sete, quando as tropas da companhia
- 10:53derrotaram o Nabarucirá de Udola, da província de Bengala e
- 10:57seus aliados da Companhia Francesa das Índias Orientais.
- 11:02No auge do seu governo na Índia, em mil oitocentos e três, a
- 11:05companhia tinha um exército de cerca de duzentos e sessenta mil
- 11:10homens. Duas vezes o tamanho do exército
- 11:13britânico, como afirma Cartwright.
- 11:17Muito mais do que uma empresa comercial, a Companhia Britânica
- 11:20das Índias Orientais, no fim das contas, tornou-se um Estado
- 11:24dentro do Estado, até mesmo um império dentro do império, não
- 11:28respondendo a ninguém, com exceção de seus acionistas.
- 11:33Lud é praticamente um poder paralelo.
- 11:36A Rainha Elizabeth criou a milícia do mar e falou, vai, faz
- 11:40teu nome. E depois não tinha como
- 11:42controlar os caras. É isso aí, a milícia.
- 11:44É a pilatalia. Pilatas.
- 11:47Pilatas na China. Seu governo durou até mil
- 11:54oitocentos e cinquenta e oito, após a primeira guerra de
- 11:57independência indiana ocorrida naquele ano.
- 12:00A coroa britânica assumiu o governo direto da colônia,
- 12:03instituindo o novo Raj de Britânia.
- 12:06Essa guerra foi uma rebelião contra o domínio britânico, que
- 12:10teve várias causas, mas cujo estopim inicial veio do protesto
- 12:15dos cipóis, cipaios em português, ou soldados indianos
- 12:19empregados pela companhia, contra o fato de seus salários
- 12:23serem muito menores do que os dos soldados britânicos.
- 12:27Naquele momento, a companhia empregava cerca de quarenta e
- 12:30cinco mil soldados britânicos e mais de duzentos e trinta mil
- 12:34cipaios, como diz Carter Wright. Depois que o motim foi
- 12:39suprimido, o sentimento na Grã-Bretanha era de que uma
- 12:42colônia tão importante como a Índia não poderia mais ser
- 12:46deixada nas mãos de uma empresa privada.
- 12:50Criticada pelos seus monopólios e termos comerciais que
- 12:54beneficiavam apenas ela mesma e seus acionistas e acusada de
- 12:59corrupção, a companhia foi dissolvida pelo parlamento
- 13:02inglês em mil oitocentos e setenta e quatro e os seus
- 13:05exércitos foram absorvidos pelo exército britânico.
- 13:09Em mil oitocentos e setenta e sete, a rainha Vitória foi
- 13:13proclamada imperatriz da Índia. Tendo este contexto, essa
- 13:30introdução dessa força que era a Companhia das Índias Orientais,
- 13:34ali podemos agora falar da história oficial, mas coloca
- 13:38essa história oficial em aspas gigantescas, tá?
- 13:42Porque a versão mais repetida para a criação do estilo IPA,
- 13:45India Pay Oil, É aquela que diz que durante o período de
- 13:49dominação colonial britânica da Índia, os administradores
- 13:53coloniais e os militares que eram mandados para servir ali
- 13:56precisavam ser abastecidos de cerveja que tinha que vir da
- 14:00Inglaterra, uma vez que na Índia não se produzia bebida.
- 14:04Alguns autores, como o Pete Brown, chegam mesmo a afirmar
- 14:07que conseguir uma cerveja decente para o abastecimento das
- 14:11tropas era uma questão urgente, pois muitos soldados ingleses
- 14:16morriam bebendo araque, uma bebida fermentada local feita de
- 14:20suco de palma. Você já bebeu araque?
- 14:22Não, mas eu sei que você é de araque!
- 14:26Caralho, tá muito rápida hoje. Piada não, foi boa.
- 14:30Araque é bom, cara. Araque é bom, já bebi.
- 14:33Se o araque for o araque que eu tô pensando, se o araque de hoje
- 14:36for o mesmo araque do passado, que não deve ser, é uma bebida
- 14:38que você coloca o gelo e ela fica branca.
- 14:41Ela é translúcida, igual uma água.
- 14:43Você coloca o gelo e ela fica branca.
- 14:45Ela tem sabor de quê? De mentira.
- 14:48Ah, cara. Um anis.
- 14:50Um anis. É um mentol muito forte, sabe?
- 14:53Ela tem aquela coisa... Pô, tem horocólico altíssimo.
- 14:56É tipo um gudã. Cigarro gudã.
- 14:59Não, merda. É mais pra uma Rolls.
- 15:04Tá mais pra uma linha de Rolls. Uma vez que as cervejas poderiam
- 15:10não resistir à viagem de navio da Inglaterra até a Índia, que
- 15:13poderiam durar até seis meses no mar balangando, um cervejeiro
- 15:18chamado George Hodgson, proprietário da Bull Brewery,
- 15:22criado em mil setecentos e cinquenta e dois em Londres,
- 15:25teria criado uma cerveja Pale Ale com uma carga extra de
- 15:28lúpulo para suportar a viagem. O efeito conservante do lúpulo,
- 15:32descrito já pela monja beneditina Hildegard von Bingen,
- 15:36do século XI, volta e escuta nosso programa, volta não,
- 15:40quando terminar, escuta lá, garantia que a cerveja chegasse
- 15:43fresca ao seu destino e lhe dava o amargor característico.
- 15:47Essa história é tão furada logo de cara, né?
- 15:49Como é que ele fez teste? Testou assim, com essa carga
- 15:51durou dois meses, estragou. Vou aumentar a carga, durou
- 15:54quatro meses. Ele demorou quantos anos para
- 15:56fazer esses testes? Vai, segue aí hoje.
- 15:59Essa nova cerveja teria feito muito sucesso entre os ingleses
- 16:03na Índia e passou a ser procurada também na Inglaterra
- 16:06por aqueles soldados e administradores que voltavam da
- 16:10sua temporada no Oriente. Tendo se popularizado aí, depois
- 16:14de um lote dessa cerveja que estava sendo levado para a
- 16:17Índia, foi resgatado de um naufrágio na década de mil
- 16:20oitocentos e vinte e leiloado para os habitantes locais da
- 16:24Inglaterra. Que isso, é muita prova social,
- 16:27meus amigos. É muita, e ó...
- 16:29A gente viveu algo parecido aqui, que foi o verão da lata,
- 16:32tá? Lembra Ipanema?
- 16:34Verão da lata? Então...
- 16:36Todo mundo conta essa história. O que não se repete com muita
- 16:40frequência é o fato de que um dos responsáveis pela propagação
- 16:44dessa história foi ninguém mais, ninguém menos do que o
- 16:46responsável pela criação do moderno conceito de estilo de
- 16:49cervejas. O jornalista britânico, crítico
- 16:53de cervejas e whiskeys, Michael James Jackson.
- 16:57Achei que você ia falar Michael James Fox.
- 17:01O seu livro de estreia, The World Guide to Beer, publicado
- 17:06em mil novecentos e setenta e sete, foi traduzido para mais de
- 17:09dez idiomas e foi uma forte influência da revolução da
- 17:13cerveja artesanal nos Estados Unidos.
- 17:15No Brasil, foi publicado em dois mil e nove o Guia Ilustrados à
- 17:19Arda Cerveja, que é uma versão do The World Guide to Beer.
- 17:23No capítulo sobre as eios inglesas e norte-americanas,
- 17:26Jackson escreve um parágrafo sobre a história da IPA que você
- 17:29vai ouvir agora para que não restem dúvidas da sua parcela de
- 17:33responsabilidade na divulgação desta história.
- 17:37O rajá britânico na Índia precisava de um suprimento
- 17:40regular de cerveja. De que outra forma se poderia
- 17:43governar o maior império do mundo?
- 17:44O problema é que a cerveja exportada da Inglaterra se
- 17:48degradava durante a longa e quente jornada marítima,
- 17:51contornando o cabo. A solução era prepará-la com uma
- 17:54densidade levemente maior que a da pale ale normal e carregar no
- 17:58lúpulo. Na verdade, os lúpulos entravam
- 18:01mais como conservantes naturais. Os cervejeiros britânicos nunca
- 18:05pararam de produzir a IPA. Mas a maioria do que é feito mal
- 18:09se distingue da pale ale comum ou da bitter.
- 18:14Enquanto Conocer, reconhecido internacionalmente e autor
- 18:19mundialmente respeitado, poucas pessoas questionam as histórias
- 18:23contadas por Jackson. Seja nos inúmeros livros sobre
- 18:27cerveja que veio a publicar, seja na sua famosa série
- 18:30televisiva The Beer Hunter, que foi ao ar no final da década de
- 18:34mil novecentos e oitenta no Reino Unido e nos Estados
- 18:37Unidos. E é muito assistida ainda hoje
- 18:40no meio cervejeiro brasileiro, através do YouTube, salvo
- 18:44engano. E sendo ele a voz mais influente
- 18:47em alimentos e bebidas do século XX, como diz Garrett Oliver,
- 18:51quem teria coragem de questionar a sua versão da história?
- 18:55No caso, a gente agora, né? É, mas a culpa é do Sérgio.
- 19:00A culpa é do Sérgio Barra. Profano grau, segue lá.
- 19:04Haters! E aí vamos falar agora, Lud, das
- 19:16Pale Whales antes e depois de Hodgson.
- 19:19Felizmente, alguns pesquisadores tiveram essa coragem de
- 19:23questionar Garrett Oliver, de questionar Michael Jackson, de
- 19:28questionar todo mundo. O principal dos quais,
- 19:31certamente, é o jornalista inglês Martin Cornell, autor de
- 19:35diversos livros sobre a história da cerveja na Inglaterra e do
- 19:39site Zetafile. Lendo jornais e livros dos
- 19:42séculos XVIII e XIX, atrás de pistas sobre o surgimento do
- 19:46estilo, ele percebeu que desde o início do século XVIII, os
- 19:50ingleses já sabiam que cervejas mais alcoólicas e lupuladas
- 19:53resistiam melhor às longas viagens marítimas.
- 19:56Olha o teste que eu falei. E que o armazenamento em barris
- 19:59garantia a qualidade da cerveja por até mais de um ano.
- 20:03Segundo ele, a cerveja deve ter chegado às Índias já nos
- 20:07primeiros navios a navegar para o Oriente, ainda no século XVII.
- 20:12Haveria menção de um capitão de navio das Índias Orientais sendo
- 20:17bem abastecido com cerveja inglesa.
- 20:20Já em mil seiscentos e trinta e oito, em mil setecentos e
- 20:23cinquenta, quase mil e quinhentos barris de cerveja
- 20:27estavam sendo exportados da Inglaterra para a Ásia em geral,
- 20:31número que havia subido para nove mil barris em mil e
- 20:35oitocentos. Pete Brown, por sua vez, cita
- 20:37registros de Pale Ale sendo bebida na Índia em mil
- 20:41setecentos e dezesseis. Quando o presidente da colônia
- 20:44em Madras, localizada no Golfo de Bengala, Joseph Collett, foi
- 20:48castigado pela Companhia das Índias Orientais por uma conta
- 20:50mensal nabucodoso-oreana, bem Milton Cunha, que incluía vinte
- 20:56e quatro dúzias e meia de Borton Ale e Pale Beer. infelizmente,
- 21:03Brown não cita a fonte da sua informação e parece haver um
- 21:07pequeno erro de data, uma vez que Collett assumiu o cargo de
- 21:11presidente de Madras apenas em oito de janeiro de mil
- 21:14setecentos e dezessete. De qualquer maneira, a citação
- 21:18corrobora com a afirmação de Cornell de que as cervejas
- 21:22inglesas já chegavam regularmente à Índia muito antes
- 21:26de Hodgson abrir a sua cervejaria em mil setecentos e
- 21:29cinquenta e dois apenas. Importante abrir um parênteses
- 21:32para discutir o que se entendia por Pale Ales ou Pale Beers no
- 21:36contexto dos séculos XVII e XVIII.
- 21:39Não se trata do estilo English Pale Ale, como passará a ser
- 21:43definido a partir da década de mil novecentos e setenta pelas
- 21:47obras de Michael Jackson. Mas no contexto da virada do
- 21:50século XVII para o XVIII, uma Pale Ale podia ser, na prática,
- 21:55qualquer cerveja mais pálida do que havia antes. principalmente
- 21:59depois que a inovação da fundição de Koch por Abraham
- 22:03Darden, em mil setecentos e nove, tornou possível controlar
- 22:06consistentemente a temperatura da cevada maltada para produzir
- 22:10malte pale. Como explica Martin Cornell, as
- 22:14maltarias não podiam usar carvão comum para secar o malte verde,
- 22:19pois ele envenenava o produto. E por isso usavam o coque, que é
- 22:24basicamente o carvão que teve removido os seus compostos
- 22:29voláteis e tóxicos. A partir de um anúncio em um
- 22:31jornal de Calcutá do século XIX, Pete Brown afirma que sabendo
- 22:36que um alto teor alcoólico e grandes concentrações de lúpulo
- 22:39ajudam a preservar a cerveja por longos períodos, os cervejeiros
- 22:43ingleses teriam escolhido, para exportar para a Índia, cervejas
- 22:47do tipo October Ale. Cervejas de outono, fortes,
- 22:51claras e bem lupuladas, populares entre a nobreza rural
- 22:55do século XVIII, fabricadas para serem maturadas em adegas por
- 22:59até dez anos. Enviadas sem maturação prévia
- 23:02para a Índia, elas maturavam na viagem que poderia durar até
- 23:06seis meses e chegavam à Índia totalmente acondicionadas e
- 23:11prontas. Dessa forma, ao contrário do que
- 23:14se conta no mito, em vez de estragar a cerveja, a longa
- 23:19viagem para o Oriente, na verdade, a arredondava,
- 23:23finalizava o seu processo. Segundo o autor, teria sido esse
- 23:28estilo de cerveja que George Hodgson... teria enviado para a
- 23:32Índia, adaptando a sua receita ao longo do tempo, a partir do
- 23:36feedback dos seus clientes. Martin Cornell também afirma que
- 23:39as cervejas que os comerciantes da companhia compravam de
- 23:42Hodgson eram estilo Porter e October Ale.
- 23:46Hodgson, portanto, não fabricava nenhuma cerveja especial para
- 23:50ser exportada para a Índia. As October Ales podem ter sido
- 23:54as precursoras do que viria a ser conhecido como IPA.
- 23:57A partir de suas pesquisas em periódicos indianos, afirma
- 24:01Cornell que durante um bom tempo a India Pale Ale foi
- 24:05identificada como uma cerveja sazonal fabricada em outubro.
- 24:09Um anúncio na Calcutá Gazette, de vinte de janeiro de mil
- 24:14oitocentos e vinte e dois, descreve a carga recém-chegada
- 24:18no navio Honorable Company, que incluía pale ale de primeira
- 24:23qualidade de Hodgson, de genuína produção de outubro.
- 24:28Três décadas depois, no Leeds Intelligencer, de dezoito de
- 24:33outubro de mil oitocentos e cinquenta e seis, a cervejaria
- 24:36Tetley's anunciava aos seus clientes que estava entregando
- 24:40East India Pale Ale, produzida nessa estação.
- 24:45Apenas com o desenvolvimento de um sistema de refrigeração
- 24:48eficiente no final do século dezenove, os cervejeiros puderam
- 24:51começar a produzi-la o ano todo. Então, ao contrário do princípio
- 24:57amplamente seguido hoje em dia, que diz que a IPA é uma cerveja
- 25:01que tem que ser consumida fresca, no século XIX parecia
- 25:06ser consenso de que ela era uma cerveja que precisava ser
- 25:09maturada para alcançar o ponto ideal de consumo.
- 25:13Retornando para o final do século XVIII, um anúncio da
- 25:17Calcutá Gazete de abril de mil setecentos e oitenta e quatro,
- 25:22citado tanto por Cornell quanto por Brown, fala sobre a venda de
- 25:27dois tipos de cerveja, além de Pale Ales e Porters, na Índia,
- 25:33Strongen Ales e Small Ales. Segundo Cornell, Strong Ale
- 25:38deveria ser outro nome genérico para se referir às Pale Ales,
- 25:43literalmente cerveja forte. Mas Small Ale era uma cerveja
- 25:48levemente lupulada, com não mais do que quatro e meio ou cinco
- 25:52por cento de teor alcoólico, contrariando a ideia de que
- 25:55apenas cervejas fortes e bem lupuladas conseguiam sobreviver
- 25:58à jornada para o Oriente. Segundo as pesquisas de Cornell,
- 26:01a primeira aparição do termo East India Pale Ale na imprensa
- 26:06aconteceu em um jornal australiano, apenas em vinte e
- 26:10nove de agosto de mil oitocentos e vinte e nove, mais de um
- 26:13século depois das cervejas inglesas começarem a desembarcar
- 26:17na Índia. A edição daquele dia do Sydney
- 26:20Gazette, em New South Wales Advertiser, publicou que a venda
- 26:25de Mr. Spark possui cervejas da Taylor Walker e East India Pale
- 26:30Ale. Alguns meses após esse primeiro
- 26:33anúncio, em dezenove de fevereiro de mil oitocentos e
- 26:35trinta, outro jornal australiano, o Colonial Times of
- 26:39Hobart, Na Tasmânia, anunciava a venda da Taylor Brown Stout e
- 26:44East India Pale Ale. Sendo assim, até o momento, a
- 26:47primeira cerveja a ser nomeada de India Pale Ale é a da
- 26:51cervejaria Taylor Walker, fundada em Londres em mil
- 26:55setecentos e trinta. Até meados da década de mil
- 26:58oitocentos e trinta, era possível encontrar também a
- 27:01denominação de Pale Ale for India, Pale Ale preparada para a
- 27:07Índia, ou Pale Sport India Ale, em anúncios nos periódicos da
- 27:12Inglaterra. A Pale Ale preparada para a
- 27:15Índia certamente tinha mais lúpulo do que aquela vendida na
- 27:19própria Inglaterra. Cornell cita um tratado sobre
- 27:22alimentação e dieta, de autoria de Jonathan Pereira, publicado
- 27:26em mil oitocentos e quarenta e três, que afirma que A pale ale,
- 27:31preparada para o mercado da Índia, e portanto conhecida como
- 27:34Indian Pale Ale, é cuidadosamente fermentada, de
- 27:38modo a ser desprovida de qualquer doçura, ou seja, seca,
- 27:42e contém o dobro da quantidade normal de lúpulo.
- 27:46Parece que as payaways para exportação eram lupuladas a seis
- 27:51libras por barril ou mais, enquanto as domésticas eram
- 27:56lupuladas por metade dessa taxa. Mas não é possível afirmar que
- 28:01eram feitas dessa forma desde o começo da sua exportação, um
- 28:05século antes. Essa cerveja mais lupulada era
- 28:08também mais cara do que os outros estilos existentes no
- 28:11mercado britânico. William Ford, secretário da
- 28:14Associação de Malteadores, escreveu em mil oitocentos e
- 28:17sessenta e dois que a India Pale Ale era...
- 28:21Um artigo em grande e crescente estima pelas classes média e
- 28:25alta da sociedade. enquanto os trabalhadores ainda preferiam
- 28:31beber porter e mild ale. Na Índia, onde uma IPA podia
- 28:37chegar a custar quatro vezes mais caro do que na Inglaterra,
- 28:41as pale ales exportadas por Hodgson, Bass and Allsop e
- 28:46outros também eram bebidas pelos europeus de classe média e alta.
- 28:50os oficiais militares e os funcionários públicos civis que
- 28:54trabalhavam para a Companhia das Índias Orientais,
- 28:57comercializando, administrando e cobrando impostos.
- 29:00As forças da companhia, ou as posteriores forças do exército
- 29:04britânico na Índia, prefeririam e continuaram bebendo pórter na
- 29:10Índia até o final do século XIX. Para aproveitar o crescimento da
- 29:14popularidade das IPAs no mercado doméstico, algumas cervejarias
- 29:18que não produziam o estilo começaram a trapacear com a sua
- 29:22cerveja já existente. Como explica Cornell, quase
- 29:25todos os cervejeiros vitorianos produziam quatro ou cinco graus
- 29:29diferentes de cerveja amarga clara.
- 29:31O que eles faziam, então, era renomear as suas Strong Bitters
- 29:34de guarda como IPA. Por isso, Cornell chega a
- 29:39colocar em dúvida se existiu de fato um estilo adequadamente
- 29:43distinguível que podemos chamar de IPA, ou se a denominação não
- 29:49era apenas uma peça sofisticada de marketing para uma bitter bem
- 29:53loculada. E aí a gente vai entender aqui o
- 30:02papel do Hodgson no comércio com a Índia, né?
- 30:05Ao longo dos séculos XVIII e XIX, além da Bowl Brewery,
- 30:10várias outras cervejarias também enviavam cervejas para a Índia,
- 30:15sempre se referindo aos jornais de Calcutá.
- 30:18Pete Brown afirma que a primeira POA a ser mencionada pelo nome
- 30:23foi da cervejaria Bell's, de Burton Upton French, em mil
- 30:29setecentos e noventa. Mas, infelizmente, ele não cita
- 30:32a fonte completa. Segundo Cornell, Hodson teria
- 30:36sido o primeiro a começar a enviar garrafas identificadas
- 30:39com o nome da sua cervejaria, e por isso acabou se tornando o
- 30:43cervejeiro mais conhecido e ganhando a fama de inventor do
- 30:46estilo. O primeiro anúncio com o nome
- 30:48das cervejas de Hodson apareceu no Calcutá Gazette em setembro
- 30:53de mil setecentos e noventa e três.
- 30:55Em janeiro de mil oitocentos e um, o mesmo Calcutá Gazette
- 30:58publicou um anúncio para a chegada de cerveja de Hodson
- 31:02recém-chegada e agora exposta para venda apenas por dinheiro
- 31:07vivo. A cervejaria de Hodgson era uma
- 31:09das menores de Londres, produzindo uma média de onze mil
- 31:13e duzentos barris por ano durante os primeiros dezesseis
- 31:17anos da sua existência. Sua vantagem era a de que estava
- 31:21localizada em Bull Bridge, perto das docas da Companhia das
- 31:25Índias Orientais. Facilitava em Blackwall, na
- 31:29margem norte do rio Thames, a leste de Londres.
- 31:32Sua vantagem era que ela ficava localizada em Bull Bridge, perto
- 31:37das docas da Companhia das Índias Orientais.
- 31:39Essa proximidade facilitou o seu contato com os capitães dos
- 31:43navios dessa companhia. Além disso, Hodson oferecia aos
- 31:47capitães um crédito estendido de até dezoito meses para pagar
- 31:52pela cerveja que compravam dele. Em mil oitocentos e nove, a
- 31:55reputação da cervejaria Bowe já havia sido estabelecida na
- 31:59Índia. Seu nome já era uma garantia de
- 32:01qualidade. Naquele ano, ela era descrita na
- 32:04Gazette como a Pale Whale selecionada de Hodgson,
- 32:07garantida por excelência superior, como afirma Cornell.
- 32:11Não há dúvida de que a Pale Ales, de Hodgson, conquistou a
- 32:15maior parte do, comparativamente pequeno, mercado de cerveja
- 32:19indiano antes de mil oitocentos e vinte.
- 32:22Que Hodgson era facilmente a cerveja com a melhor reputação
- 32:26no mercado indiano. E que a reputação da cervejaria
- 32:30Bau durou décadas, mesmo depois que as cervejarias rivais
- 32:34chegaram e começaram a tirar Hodgson do mercado com suas
- 32:37próprias Pale Ales. A cerveja de Hodgson fazia muito
- 32:43sucesso também na Austrália, como mostra um anúncio no
- 32:46Monitor de Sydney. Outro jornal de Sydney, o
- 32:49Monitor, reclamou em abril de mil oitocentos e vinte e oito
- 32:53que a cerveja colonial não era tão boa quanto a Pale Ale de
- 32:58Hodgson. E anúncios em jornais
- 33:00australianos para a Pale Ale de Hodgson de pelo menos mil
- 33:04oitocentos e vinte e três a chamavam de celebrada e
- 33:08altamente estimada. Naquele ano, existiam sete
- 33:12cervejarias em funcionamento em Sydney, o que explica a
- 33:15comparação de cerveja que vinha de Londres com aquela colonial,
- 33:19ou seja, produzida na colônia. Em mil oitocentos e onze, já sob
- 33:24a administração do seu filho Mark, a cervejaria se concentrou
- 33:28mais intensamente no mercado da Índia.
- 33:31Dois anos depois... estava enviando cerca de quatro mil
- 33:34barris por ano ao Oriente, quatro vezes a quantidade
- 33:38embarcada em mil oitocentos e um.
- 33:41Já em mil oitocentos e vinte e um, sob a administração de
- 33:45Frederick Hodgson, neto do George e Thomas Drane, a
- 33:49cervejaria foi reconstruída e decidiram cortar dos negócios os
- 33:53capitães da Companhia das Índias Orientais e enviar suas cervejas
- 33:57para as Índias eles mesmos. Para isso, eles encerraram o
- 34:03acordo de longa data de dar crédito de doze ou dezoito meses
- 34:08na cerveja que vendiam os capitães da companhia,
- 34:10aumentaram o preço em vinte por cento e se recusaram a vender em
- 34:15quaisquer termos que não fossem em dinheiro, abrindo um
- 34:18escritório em Cornhill, Londres, e se estabelecendo como
- 34:22transportadores. Na Índia, se os comerciantes
- 34:25locais tentassem importar a cerveja de outra cervejaria,
- 34:29eles baixavam tanto seus preços que espantavam seus
- 34:33concorrentes. E mesmo que os comandantes dos
- 34:36navios conseguissem cerveja com outra fábrica, a reputação da
- 34:40Boa era tamanha na Índia que essa cerveja dificilmente iria
- 34:43encontrar compradores. Com isso, eles conseguiram
- 34:46desagradar tanto os capitães da companhia quanto os comerciantes
- 34:50de Calcutá e Madras, que descobriram que também estavam
- 34:54sendo excluídos dos negócios com a marca mais importante no
- 34:58comércio local de cerveja. Então, no início de mil
- 35:01oitocentos e vinte e dois, insatisfeito com os termos
- 35:03comerciais mais restritivos impostos por Frederick Hodgson e
- 35:07Thomas Drane, Campbell Majoribank, presidente da
- 35:11Companhia de Índias Orientais em diversas ocasiões, teria se
- 35:15reunido com Samuel Alsop, proprietário da cervejaria
- 35:19Alsop, de Burton-Upon-Trent, na busca de um novo parceiro
- 35:24comercial. Marjorie Banks procurou a Alsop
- 35:28porque sabia que o cervejeiro tinha experiência em exportar
- 35:31para países distantes. As cervejarias de Burton eram
- 35:35grandes exportadoras de cervejas escuras para a Rússia e o
- 35:39Báltico, Talvez Russian Peristaltes e Baltic Porter, que
- 35:44passavam por uma grave crise no final do século XVIII e início
- 35:49do século XIX, devido ao contexto de guerra entre a coroa
- 35:53britânica e a França revolucionária.
- 35:56O bloqueio continental decretado por Napoleão Bonaparte em mil
- 36:00oitocentos e seis. Napoleão se meteu em cerveja,
- 36:02gente. Fechou os portos bálticos aos
- 36:05comerciantes ingleses. Entre mil setecentos e oitenta e
- 36:08meados da década de mil oitocentos e vinte, o número de
- 36:11cervejeiros em Bolton caiu de treze para cinco.
- 36:15Eles encontraram na exportação de suas cervejas para a Índia a
- 36:18sua tábua de salvação. Localizada distante da costa, a
- 36:22produção das cervejarias de Burton tinha que ir através de
- 36:25canais até Liverpool, ao norte, ou Londres, ao sul, e dali
- 36:30iniciar a sua viagem marítima para a Índia.
- 36:33A chegada da ferrovia a Burton em fez com que o frete entre
- 36:39Londres e Burton caísse de três libras a tonelada para quinze
- 36:43gallons. Além disso, o tempo que um
- 36:46barril de cerveja levava para viajar até a capital caiu de uma
- 36:49semana para doze horas. Major Banks teria dado ao Alsop
- 36:53amostras da cerveja de Hodgson, para que ele tentasse
- 36:56reproduzir. Mas a cerveja de Alsop teria
- 36:59ficado melhor devido ao caráter particular da água de Burton.
- 37:03A água dura proporcionava uma conversão melhor do amido em
- 37:08açúcar, e o alto teor de sulfato de cálcio realçava os sabores
- 37:13dos maltes e dos lúpulos. E na década de mil oitocentos e
- 37:17trinta, Alsops e Bass, criada em mil setecentos e setenta e sete,
- 37:22já exportavam seis mil barris por ano para a Índia.
- 37:27Entre mil oitocentos e trinta e dois e trinta e três, a Bass
- 37:30tinha quarenta e três por cento do comércio anual de cerveja
- 37:34para a Índia, de doze mil barris.
- 37:37Hudson e Draining, apenas vinte e oito por cento e Allshop doze
- 37:42por cento. O comércio de Hudson continuou a
- 37:44declinar até que entre mil oitocentos e quarenta e um e
- 37:48quarenta e dois caiu de vez para apenas seis vírgula cinco por
- 37:52cento dos dezoito mil e trezentos barris anuais contra
- 37:56vinte e nove por cento da Baix e trinta e seis e meio por cento
- 38:00da Allshop. A estratégia de Frederick Hudson
- 38:03e Thomas Drane tinha dado errado e eles resolveram concentrar
- 38:06suas vendas na própria Inglaterra.
- 38:08Mas não conseguiram evitar o seu declínio.
- 38:11A abertura da estrada de ferro não beneficiou apenas o comércio
- 38:15das cervejarias de Burton-Upon-Trent com o Oriente.
- 38:18Já em mil oitocentos e quarenta...
- 38:19Os comerciantes de vinho de Londres...
- 38:22Começaram a anunciar... India Pale Ale anônimas...
- 38:25Sem os nomes dos cervejeiros... Na década de mil oitocentos e
- 38:29cinquenta... A produção de Burton...
- 38:31Era de novecentos e setenta e um mil barris por ano...
- 38:35Passando no final da década de mil oitocentos e sessenta...
- 38:38para um vírgula setecentos e cinquenta milhões de barris por
- 38:42ano, e em mil oitocentos e oitenta e oito subiu para três
- 38:45milhões de barris por ano. Ao mesmo tempo, como informa a
- 38:48Cornell, várias cervejarias londrinas montaram filiais em
- 38:53Borton para tentar preparar os pay-ways que não conseguiam
- 38:56fazer adequadamente com a água de Londres.
- 38:58Em mil oitocentos e quarenta e dois, a cervejaria de Hodgson
- 39:01era apenas a vigésima quinta maior de Londres em consumo de
- 39:05malte, com pouco menos de cinco mil quartos por ano, o
- 39:09equivalente a uma produção de aproximadamente vinte mil barris
- 39:13de cerveja. Em mil oitocentos e quarenta e
- 39:15nove, Edwin Abbott e Sam Payowale e Stoutbrills assumiram
- 39:21os negócios na antiga cervejaria de Bow Bridge.
- 39:24A cervejaria ainda mudou de mãos mais algumas vezes até ser
- 39:28comprada pela já citada Taylor Walker em mil novecentos e vinte
- 39:32e sete e ser demolida em mil novecentos e trinta e três.
- 39:42Aqui a gente começa a vislumbrar o naufrágio de um mito.
- 39:46Na Inglaterra, a primeira menção para a Índia Pale Ale aparece na
- 39:50edição de trinta de janeiro de mil oitocentos e trinta e cinco
- 39:54do Liverpool Mercury. Cornell chama atenção para o
- 39:58curioso fato de que a cerveja anunciada era justamente da Bow
- 40:02Brewery e que, como foi dito antes, a partir de determinado
- 40:06momento concentrou suas vendas na própria Inglaterra.
- 40:10Apesar de já estar à venda em Londres desde pelo menos mil
- 40:13oitocentos e vinte e dois, segundo anúncio no The Times de
- 40:17onze de janeiro daquele ano, também citado por Cornell,
- 40:20apenas a partir da década seguinte o estilo começa a se
- 40:24popularizar no Reino Unido. Cornell ainda cita que apenas a
- 40:28partir de mil oitocentos e quarenta e um apareciam no The
- 40:32Times cinco ou seis pequenos anúncios diários de comerciantes
- 40:36vendendo India Ale ou Pale India Ale, Pale Export India Ale e
- 40:44outras variações, marcando o momento em que a cerveja
- 40:47realmente decolou em Londres. Por isso, Cornell questiona
- 40:50também a história de que o responsável pela popularização
- 40:54do estilo na Inglaterra tenha sido o famoso naufrágio ocorrido
- 40:57no Canal da Irlanda, por volta de mil oitocentos e vinte e
- 41:00sete, de um navio que carregava trezentos barris de cerveja.
- 41:05Na ocasião, vários barris teriam sido resgatados e vendidos a
- 41:10donos de pubs em Liverpool pela seguradora do navio.
- 41:14Segundo suas pesquisas, teria acontecido realmente um
- 41:18naufrágio na costa de Lancashire envolvendo um navio que
- 41:22transportava barris de cerveja para a Índia.
- 41:25Barris de IPA foram, de fato, colocados à venda em Liverpool
- 41:29devido a esse acontecimento. Mas não na década de mil
- 41:32oitocentos e vinte, como conta a versão popular da história, e
- 41:35sim em mil oitocentos e trinta e nove.
- 41:37Se tratava do Eastern India Man, de quinhentos e oitenta e quatro
- 41:40toneladas, chamado Crusader, carregado por barris de India
- 41:44Pale Ale das cervejarias de Bass e Alsop. além de outros artigos,
- 41:49produtos acabados de algodão, seda, carne bovina e suína em
- 41:53barris, caixas de persianas de vidro, lingotes de ferro e
- 41:58chapas de lata. Crusader deixou o porto de
- 42:01Liverpool no dia seis de janeiro de mil oitocentos e trinta e
- 42:04nove e foi colhido por nada mais, nada menos do que a pior
- 42:09tempestade que se abateu sobre a costa da Irlanda no século
- 42:13dezenove. Acontecimento que ficou
- 42:15conhecido como a noite do grande vento.
- 42:19Estimativas sugerem que naquela noite morreram entre duzentas e
- 42:23quatrocentas pessoas. Milhares de casas e chalés foram
- 42:27destelhados, com muitos daqueles pegando fogo.
- 42:31Entre trinta e quarenta navios foram afundados ou encalharam,
- 42:35com tripulações inteiras morrendo afogadas.
- 42:38O Crusader foi empurrado de volta para o porto de Liverpool,
- 42:42atingindo um banco de areia e quebrando o postado, como afirma
- 42:47Cornell. o Crusader começou propriamente a quebrar apenas no
- 42:51domingo, dezessete de fevereiro, mais de cinco semanas depois de
- 42:55ter encalhado, embora tenha se despedaçado em quatro dias.
- 43:00No entanto, a primeira venda de carga salva do naufrágio do
- 43:03Crusader já havia ocorrido em Liverpool na quinta-feira, sete
- 43:07de fevereiro. Incluía tecidos de algodão,
- 43:10tecido de lã, lenços e véus de seda, folhas de flandres e India
- 43:15Ale das marcas Bass e Alsop, Segundo Cornell, a história da
- 43:21popularização da IPA no Reino Unido por meio do naufrágio do
- 43:24Cruzeiro surge pela primeira vez em um livro chamado Burton Upon
- 43:28Trent, sua história, suas águas e suas cervejarias.
- 43:31Escrito por um certo William Molinot e publicado em mil
- 43:35oitocentos e sessenta e nove. A respeito do naufrágio, Molinot
- 43:39escreve... A Índia parece ter sido o
- 43:42mercado exclusivo para a cerveja amarga de Burton até cerca de
- 43:46mil oitocentos e vinte e sete, quando em consequência do
- 43:49naufrágio no canal da Irlanda de um navio contendo uma carga de
- 43:53cerca de trezentos barris. Vários barris salvos foram
- 43:57vendidos em Liverpool para o benefício dos subscritores e por
- 44:01este meio, de uma maneira notavelmente rápida, a fama da
- 44:04nova cerveja indiana se espalhou por toda a Grã-Bretanha. houve
- 44:10de fato um naufrágio e a subsequente venda da carga de
- 44:13cerveja recuperada em Liverpool. Porém, mais de uma década depois
- 44:18daquilo que o Molinó citou. Para Cornell, não é possível
- 44:21afirmar que esse episódio foi responsável pela popularização
- 44:26da IPA na Inglaterra. porque a cerveja produzida para o mercado
- 44:29da Índia já estava disponível em Liverpool desde pelo menos o ano
- 44:37em que a cervejaria de Hodgson abriu uma agência em Liverpool
- 44:40para a venda da Pale Ale engarrafada para comerciantes e
- 44:45outros. Além disso, o primeiro uso
- 44:47conhecido da expressão East India Pale Ale em uma publicação
- 44:51britânica vem de um jornal de Liverpool datado de mil
- 44:54oitocentos e trinta e cinco, quatro anos antes do naufrágio
- 44:57do Crusader, segundo Cornell. A julgar pelo aumento nos
- 45:02anúncios do IPA nos jornais de Londres, o verdadeiro impulso
- 45:06para a popularidade da cerveja parece ter sido alguns anos após
- 45:10a Grande Tempestade, em mil oitocentos e quarenta e um.
- 45:14Esse foi certamente o ano em que Bass finalmente abriu uma loja
- 45:18em Liverpool. para a venda de Pale India Ale, declarando em um
- 45:22anúncio no Gore's Liverpool General Advertiser, em vinte e
- 45:26dois de abril, que anunciava à nova loja que esta cerveja, a
- 45:31tanto celebrada na Índia, tornou-se agora um artigo de tão
- 45:34grande consumo neste país, onde está quase substituindo todos os
- 45:39outros tipos de licor de malte. O mesmo livro de Molinot teria
- 45:44sido responsável também pela informação de que George Hodgson
- 45:48teria inventado o estilo. A origem da India Ale é por
- 45:53consentimento comum creditada a um cervejeiro londrino chamado
- 45:57Hodgson, que descobriu o processo de fabricação de uma
- 46:00bebida peculiarmente adequada ao clima das Índias Orientais e
- 46:05que, sob o nome de India Pale Ale, monopolizou o comércio
- 46:09indiano de cerveja inglesa. A cervejaria onde a Pale Ale foi
- 46:13produzida pela primeira vez, de acordo com a opinião popular,
- 46:17foi a Old Bow Brewery, Antes dele, nenhum cervejeiro, nem
- 46:23mesmo Hodgson, havia reivindicado os créditos pela
- 46:27descoberta de que cervejas mais fortes e lupuladas funcionavam
- 46:32melhor para exportação para o Oriente.
- 46:34Assim, o historiador parece ter encontrado o responsável pela
- 46:38criação dos mitos que compõem a história popular dos tiros.
- 46:43Mas Molinó escreve quase um século após os fatos que narra.
- 46:47E as suas afirmações não se baseiam em pesquisas, mas no
- 46:51consentimento comum e na opinião popular, como está expresso no
- 46:57próprio texto. Ou seja, como infelizmente ainda
- 47:00acontece muito quando o assunto é a história da cerveja.
- 47:04O autor estava apenas reproduzindo afirmações que eram
- 47:07repetidas, como se diz popularmente, no boca a boca, na
- 47:12boca pequena. O que a gente pode concluir
- 47:21então? No final do século XIX, graças
- 47:25ao desenvolvimento dos sistemas artificiais de refrigeração e a
- 47:30maior compreensão das propriedades da levedura, a
- 47:34Lager se popularizou, sendo fabricada na Índia e fazendo o
- 47:38trabalho de refrescar ainda melhor do que a IPA.
- 47:43Porém, segundo Martin Cornell, a verdadeira responsável pela
- 47:47queda de popularidade da IPA foi a grande queda de densidade, que
- 47:51aconteceu devido à Primeira Guerra Mundial.
- 47:54Impostos muito elevados no pós-guerra obrigaram os
- 47:56cervejeiros a reduzir a potência de suas cervejas para tentar
- 48:00mantê-las acessíveis, fazendo com que as IPAs fossem se
- 48:03assemelhando a best-beaters. Até que, na década de mil
- 48:07novecentos e cinquenta, os dois estilos viraram praticamente
- 48:11sinônimos. Em mil novecentos e quarenta e
- 48:14oito, o livro The Brewer's Art, publicado pela White Bread,
- 48:18dizia que o termo India Pale Ale estava agora quase obsoleto.
- 48:23Foi a revolução da cerveja artesanal que aconteceu nos
- 48:27Estados Unidos a partir da década de mil novecentos e
- 48:29setenta que fez renascer o interesse pelo estilo, ainda que
- 48:34ele fosse amplamente produzido nos Estados Unidos já no século
- 48:37dezenove. particularmente no Nordeste, região da maior
- 48:41influência britânica, foi a revolução da cerveja artesanal
- 48:45que aconteceu nos Estados Unidos a partir da década de mil
- 48:47novecentos e setenta, que fez renascer o interesse pelo
- 48:51estilo. Ainda que ele fosse amplamente
- 48:54produzido nos Estados Unidos, já no século dezenove,
- 48:57particularmente na região nordeste, região da maior
- 49:01influência britânica. Então, a IPA se tornou
- 49:04praticamente sinônimo de cerveja artesanal, servindo de
- 49:08inspiração para a criação de muitos outros estilos.
- 49:11Um episódio da história da IPAS que passa quase despercebido a
- 49:15maioria dos amantes do estilo é o fato de que elas podem ter
- 49:18chegado ao mercado brasileiro muito antes de chegar até mesmo
- 49:23aos Estados Unidos. Segundo as limitações das
- 49:27navegações à vela até meados do século XIX, a viagem marítima
- 49:32entre a Grã-Bretanha e a Índia incluía navegar para o
- 49:35Atlântico, através das Ilhas Canárias e para o Mar Aberto.
- 49:39Correntes e os ventos alíseos faziam com que os navios
- 49:43tivessem que navegar para o oeste, quando tentavam ir para o
- 49:47leste. Depois de cruzar o Equador, os
- 49:50navios frequentemente se aproximavam da costa do Brasil e
- 49:55então navegavam oeste. de volta pelo Atlântico Sul, contornavam
- 50:00o Cabo da Boa Esperança pelo Canal de Madagascar, pelo Oceano
- 50:04Índico, de volta pelo Equador e aí sim chegavam a Bombay ou a
- 50:09Calcutá, cerca de seis meses após deixar Londres ou
- 50:13Liverpool. Após a abertura dos portos
- 50:16brasileiros às Nações Amigas de Portugal, declarada por Dom João
- 50:20em vinte e oito de janeiro de mil oitocentos e oito, quando
- 50:23ele deu linha lá de Portugal, os navios em viagem para a Índia
- 50:27podiam usar os portos brasileiros como uma parada
- 50:30estratégica no meio da viagem. E efetivamente faziam.
- 50:34Como nos informa a Gazeta do Rio de Janeiro, agora essa Gazeta é
- 50:37nossa, o único jornal a circular no Rio entre mil oitocentos e
- 50:41oito e mil oitocentos e vinte e dois.
- 50:42Ainda em mil oitocentos e oito entraram no Rio noventa navios
- 50:46estrangeiros de comércio. Dois anos depois esse número já
- 50:50tinha subido para quatrocentos e vinte e dois.
- 50:53Em setembro de mil oitocentos e oito já existiam cem firmas
- 50:59inglesas estabelecidas no estado do Rio de Janeiro.
- 51:02Segundo o levantamento feito a partir da Gazeta do Rio noventa
- 51:06e dois por cento dos navios ancorados no porto da cidade até
- 51:10setembro de mil oitocentos e vinte e dois A carga era sempre
- 51:14declarada como cerveja de nacionalidade britânica.
- 51:19Ou seja, Lute, era um bando de mito que foram todos
- 51:24bombardeados e naufragados, pegando aqui a história do
- 51:28Crusader, que a gente acha que IPA foi um estilo mega
- 51:33científico criado com o objetivo de longas viagens e que
- 51:37consolidou-se e nunca mais mudou.
- 51:39E a gente viu que ele mudou pra caramba, na verdade, até ser só
- 51:43consolidado agora, no século XX, né?
- 51:46rapaz, e que é primo da minha paixão, é primo das bitas super
- 51:51primo, primo próximo de primeiro grau, ou seja, mexe com a minha
- 51:55cabeça Ótimo explorar essa história com você, Lud.
- 52:03Muito obrigado por estar aqui. Obrigado, Sérgio, por ter feito
- 52:06toda essa pesquisa para a gente. Essa pesquisa vastíssima.
- 52:09As referências bibliográficas estarão todas na descrição desse
- 52:13episódio e no nosso post no blog.
- 52:16Você vai poder ver tudo de onde o Sérgio tirou essas
- 52:19informações. E vamos terminar esse programa
- 52:22do jeitinho que a gente gosta, que é agradecendo aos nossos
- 52:25mecenas, que nos ajudam a manter a independência criativa e muito
- 52:28conteúdo bacana toda semana por aqui.
- 52:31Hoje o nosso conteúdo vai pro Wagner Dantas, Carlos Eduardo
- 52:34Rocha, Luana Carvalho Bandeira, Lucas Pirola e Sérgio Barra.
- 52:40Obrigado, galera. É isso aí, Leandro.
- 52:42E a gente fala o quê? Até semana que vem.
- 52:44Até semana que vem. Beba local.
- 52:58Beba com moderação. Este podcast foi editado por
- 53:09Play Audios.