Latest / Elas na Escrita / #28 Literatura, comida e afeto
Transcript
- 0:01Então é, gente, bom dia, boa tarde, boa noite.
- 0:04Outra vez. Estou aqui no terceiro episódio
- 0:06dessa nova temporada do podcast elas na escrita e hoje eu estou
- 0:10muito feliz que eu vou acho que bater um papo muito gostoso, que
- 0:12é de um tema que eu adoro. A gente vai falar de literatura
- 0:14e comida. Estou chamando esse episódio de
- 0:16comer, escrever e amar, que é a gente falar de comida e
- 0:20literatura na mesa. E para isso eu estou aqui então
- 0:22com 2 autoras e jornalistas e também 2 pessoas que falam muito
- 0:27dessa relação entre a comida, a literatura e as palavras, a
- 0:29internet. Eu acompanho vocês, acompanho a
- 0:31Denise há muito tempo. Então esse tema que me interessa
- 0:34muito dentro do lado da escrita, né?
- 0:37Foi me despertando ainda mais. É paixão acompanhando o conteúdo
- 0:40de vocês. Então eu vou apresentar elas
- 0:42brevemente aqui para vocês saberem com quem a gente vai
- 0:44conversar. Eu tô aqui com a Denise Godinho,
- 0:47que ela é jornalista, escritora, contadora de histórias e
- 0:50roteirista. A Denise une literatura e
- 0:52gastronomia no projeto Capitu. Vem para o jantar, que também
- 0:56virou um livro que para quem tá assistindo em vídeo, o livro tá
- 0:59aqui atrás. A gente tá atrás aqui do meu
- 1:00pescoço. Vocês podem ver Denise seja
- 1:02super bem-vinda. Obrigada.
- 1:04Tô muito feliz de tá aqui. É uma honra.
- 1:06Tô muito animada para nosso papo.
- 1:07Eu também tô e eu tô aqui também agora com a Jane, Luci e a Jane.
- 1:11Ela é escritora, publicitária, jornalista, cozinheira e pós
- 1:15graduada em cozinha brasileira. Ela é especialista em cultura e
- 1:18história do chá, criadora do gastrolitê.
- 1:21Gestora de projetos culturais de fomento a escrita e culinária,
- 1:25ela é semifinalista do Jabuti 2025 e autora de 2 livros,
- 1:29ensaios sobre a cozinha afetiva e comida e memória, 23 histórias
- 1:33de cozinha para aquecer o coração, ambos pela editora
- 1:36labrador. Seja bem-vinda, jenio.
- 1:38Eu fiquei muito feliz cuidar de ter oportunidade aqui de
- 1:40conhecer um pouco melhor você pelo podcast.
- 1:42Ah, obrigada, Isabela. Eu fiquei super feliz com o
- 1:44convite e é sempre bom a gente sentar numa mesa pra falar sobre
- 1:48comida e livros, né? Com.
- 1:50Certeza, gente, eu aí agora já baixando as expectativas de uma
- 1:53pessoa que não entende absolutamente nada de culinária
- 1:55e gastronomia. Eu sou a pessoa da escrita, da
- 1:57literatura, mas eu adoro comer e eu gosto muito da comida nos
- 2:01livros. Acho que o que me desperta é
- 2:03muito interesse em vocês, que eu comecei a perceber que, enquanto
- 2:06leitora, é uma coisa. O que inclusive me incomoda é
- 2:09quando eu tô lendo uma história, assistindo um filme, e gente, o
- 2:11personagem nunca come e eu fico, que horas esse personagem vai
- 2:14comer? É possível que ele não vai tomar
- 2:16um copo d'água, não vai parar para almoçar?
- 2:17Parece que ele não vive de verdade, é quase 11 existência
- 2:22meio faltando ali alguma coisa. Eu percebi que isso me mexia
- 2:25comigo de alguma forma e percebi também que isso era muito
- 2:28importante para mim quando eu comecei a escrever e
- 2:30principalmente no meu livro mais recente, o baixo Paraíso, ele
- 2:33tem muito de comida e não numa relação afetiva.
- 2:37Como AA, que vocês estão acostumados e trouxe 11,
- 2:39personagem que na verdade tem muitos problemas com a comida,
- 2:42ela come de forma ali, é impulsiva e buscando preencher
- 2:46um buraco com essa comida, preencher uma fome que ela nunca
- 2:49consegue é preencher de outra forma.
- 2:51Então ela busca esse refúgio no alimento e eu comecei a ver o
- 2:54quanto isso era importante para mim através da escrita no baixo
- 2:57Paraíso. Isso foi virando ali é
- 2:59praticamente o tema central da história, a narrativa.
- 3:02Ela vai ali ao redor de 2 mulheres que são a Marília e a
- 3:04Gabriela, tem uma relação entre elas uma.
- 3:07A relação da descoberta entre o corpo e uma relação muito forte
- 3:10com essa descoberta, entre o alimento, a fome e o desejo.
- 3:13E aí vocês trazem esse esse tema, na verdade, de uma forma
- 3:16muito mais afetiva e de uma forma até gostosa de acompanhar.
- 3:20Eu queria entender com vocês como que começou essa relação,
- 3:23que vocês que são escritoras e jornalistas, por que que vocês
- 3:26acabaram se embrenhando? Então, por esse lado da
- 3:28literatura e da comida, que a gente não vê muita gente falando
- 3:31disso, acho muito interessante que vocês são um ponto fora da
- 3:34curva. De onde surgiu o interesse.
- 3:37Bom, é no meu caso, né? Eu sou jornalista e eu é
- 3:41exatamente 2014. Eu estava escrevendo uma para
- 3:45uma revista chamada revista da cultura, que era distribuída
- 3:47gratuitamente na Livraria Cultura, e eu decidi reler dom
- 3:51casmurro. E eu me deparei com uma menção
- 3:54de uma cocada muito importante para história e para relação da
- 3:58Capitu, do Bentinho. E eu fiquei intrigadíssima
- 4:01assim, primeiro que eu fiquei com vontade de comer cocadas.
- 4:03Então eu fui para minha cozinha para fazer o doce com que eu
- 4:05tinha uma lata de leite condensado, um coco ralado que
- 4:08matou minha vontade de comer o doce.
- 4:11Mas eu fiquei me questionando no momento assim, porque essa coisa
- 4:14de comer o doce, lendo sobre o doce me fez pensar, será que o
- 4:17Machado de Assis gostava de cocadas?
- 4:19Será que ele tava comendo uma cocada quando ele escreveu esse
- 4:22trecho? E isso me deu a ideia de criar
- 4:24um blog chamado Capitu vem para o jantar para fazer, né?
- 4:28A proposta inicial era aprender a cozinhar mesmo com as
- 4:32receitinhas que eu IA. Receitas não, né?
- 4:34Os alimentos que eu IA encontrando é ao longo das das
- 4:37leituras dos meus escritores preferidos, então.
- 4:42Desculpa o pigarro aí, gente, a menina está numa pós pneumonia,
- 4:46vou contar para você. Desculpa, é.
- 4:49Então assim, o que aconteceu foi que eu comecei a cozinhar, é
- 4:54claro, aprender a cozinhar, mas eu comecei a apurar o meu olhar
- 4:57para perceber que aquele alimento ele queria dizer muito
- 5:00mais do que só alimentar o personagem.
- 5:02Ele queria também é trazer contexto social, histórico,
- 5:05cultural. E aí eu comecei a fazer.
- 5:08Essa pesquisa mais profundamente, vamos dizer
- 5:10assim. Mas eu sempre tive uma relação
- 5:13com a gastronomia assim. Eu venho de uma família que é de
- 5:16italianos, portugueses e baianos.
- 5:18Então todo mundo cozinha todo mundo.
- 5:20A vida acontece na minha família, ao redor de uma mesa.
- 5:22Nossa, que combinação. Exatamente.
- 5:24Só que assim, isso me deixou um pouco, porque é meio
- 5:27contraditório, né? Uma pessoa que é apaixonada por
- 5:30estar na cozinha e não saber cozinhar.
- 5:32Então o Capitu ele surgiu para, né?
- 5:35Preencher esse espaço, eu acho. Eu, eu sempre brinco assim, que
- 5:38não é que eu. Eu aprendi a cozinhar porque eu
- 5:39acho que é Oo cozinhar. O saber culinário.
- 5:42A gente vai sempre, né, renovando, mas é, já são aí mais
- 5:47de 10 anos desse projeto. Então é, eu entendi que a comida
- 5:51ela dentro de uma história, ela conta uma outra história, ela
- 5:53aprofunda aquela narrativa, sabe?
- 5:56AI que demais. Eu vi assim, que legal.
- 5:57De onde veio essa, essa, esse ponto ali de partida, né?
- 6:00De uma cocada. Maravilhosa.
- 6:04É porque na época eu fiz com leite condensado, coco ralado,
- 6:07mas na época eu fui descobrir, foi falar, espera, né, não era
- 6:10leite condensado na história do Machado, né?
- 6:12Porque até existia leite condensado na época, mas era um
- 6:15produto caríssimo, vindo de fora, então era uma cocada,
- 6:18muito provavelmente feita ou com o mel da rapadura ou com ovos,
- 6:21por causa da culinária portuguesa.
- 6:23Então eu fui também investigando o que como eram feitos esses
- 6:27alimentos, né? Essa curiosidade de descobrir
- 6:29mais essa parte da linha, né, que é demais?
- 6:33Pra você, Jane? Olha, é, você fez um comentário
- 6:36aí, né? De que te incomoda muito quando
- 6:38um personagem não come, quando ele não toma uma água, né?
- 6:42É, eu sempre percebi essa relação da comida num
- 6:47personagem, num filme, no livro. É porque era um ponto de
- 6:52humanização e de aproximação com aquele personagem que você
- 6:55estava se identificando tanto. E eu tinha a impressão de que
- 6:58quando ele comia, né? É quando ele tomava uma água,
- 7:02fazia alguma coisa, mexia alguma coisa muito humana, me
- 7:05aproximava mais dele ainda, então já tinha, tinha esse é
- 7:10esse olhar. Eu sempre fui a cozinheira da
- 7:12casa, desde criança, desde cedo, sempre dominei o fogão, né?
- 7:16E por necessidade, por cozinhar para as pessoas em casa.
- 7:19Vem de uma família muito grande, então todo mundo tinha seus
- 7:22papéis meio estabelecidos e trabalhando e alguém assumiu a
- 7:26cozinha e eu acabei assumindo. E eu assumi a cozinha também,
- 7:29muito num papel de eu fui tia muito cedo, né?
- 7:34Com 10 anos eu já era tia. Imagina, né.
- 7:37E aí então as minhas irmãs que engravidaram, né?
- 7:44É, eu tinha por conta dessa relação com a comida.
- 7:48E eu ficava pensando no que que podia ser afetivo para eles, de
- 7:52lembrança. Então eu queria cozinhar.
- 7:53Eu queria que eles tivessem essas memórias, que era uma
- 7:55coisa que eu não tive, que eu não me lembrava de ter tido, né?
- 7:59E aí? Passo o tempo, vão.
- 8:02São 2 caminhos, né? Primeiro, porque como
- 8:05jornalista, fui assessora de imprensa por muito tempo e
- 8:08trabalhei numa assessoria de imprensa que eu tive a
- 8:10Felicidade de atender muito chefe de cozinha e muito
- 8:13restaurante. E a minha diretora na época,
- 8:16Cláudia Castilho, que era assim, uma é uma super de uma
- 8:19conhecedora de gastronomia. É, e com muitos contatos nessa
- 8:24área é. Acabou me dando todas as contas,
- 8:28né? Para cuidar.
- 8:29Então, eu já tinha uma proximidade com o tema, já
- 8:31escrevi, então eu tinha que escrever sobre eles e acompanhá
- 8:33Los em entrevista, levar na TV, então eu estava sempre mais
- 8:36perto deles e pitacando ainda, né?
- 8:39Na nas receitas, aí em paralelo, tinha esse ponto da comida
- 8:47afetiva, que aí é o meu ponto de maior profundidade.
- 8:52E basicamente o tema dos meus livros me incomodava um pouco.
- 8:57É, me causava uma certa estranheza a história da cozinha
- 9:00afetiva, de usarem o termo afetivo.
- 9:03E a gente até então não tinha muito.
- 9:05Você falava a palavra, mas você não tinha uma sistematização do
- 9:08que era o que que era aquilo? Quase perde o significado, né?
- 9:12Você, por exemplo, estar num café que se coloca como uma
- 9:15cozinha afetive, a gente não entende.
- 9:17Olha, eu queria isso, né? Me dava um negócio.
- 9:19Ao mesmo tempo que eu. Eu queria promover uma memória,
- 9:22né? Pensando na minha família, nos
- 9:23meus sobrinhos, nos meus amigos. Eu queria.
- 9:25Eu gosto de dar comida de presente, né?
- 9:27Cozinhava e dava, né, doce de presente.
- 9:32E aí quando alguém falava do afetivo, Ah, comida afetiva, né?
- 9:35E eu, o que que é comida afetiva pra você, né?
- 9:38O que que é? E ninguém sabia me explicar.
- 9:41E aí eu falei, bom, e é o que a gente aprende no jornalismo, né?
- 9:43Se você não tá encontrando a resposta, você vai ter que
- 9:46buscar. E aí em 2021 eu comecei uma
- 9:50pesquisa, né, colocando psicologia, antropologia,
- 9:53algumas outras áreas do conhecimento pra gente tentar.
- 9:57Não sistematizar, mas abrir uma conversa sobre o que seria a
- 10:00cozinha afetiva. E aí fizemos uma pesquisa, foram
- 10:04mais de 120 pessoas entrevistadas pra gente poder
- 10:07começar a capturar e abrir, né? Os trabalhos, as conversas, né?
- 10:11Ampliar essa discussão e pra pra pra gente não banalizar o termo.
- 10:19Porque tinha muita gente que começava que que dizia que
- 10:22cozinha afetiva era muito, que era comida de vó, eu?
- 10:26Acho que é a primeira coisa que vem.
- 10:27Sempre vão, né? Comida, muita coisa, né, gente?
- 10:30Comida de vó, comida de infância.
- 10:31Comida de infância, comida memória, comida cultura, comida
- 10:35política, então são muitos vieses para você encaixar Oo
- 10:40termo afetivo numa caixinha só. Então a gente tentou ampliar.
- 10:45Esse significado, né? E aí a gente chegou No No ponto
- 10:49principal, né? Na Na captação dessas das
- 10:53respostas, dessas pessoas, que era da gente descobrir que não
- 10:58era. A gente não tava falando do
- 10:59afetivo, não só de memórias boas e do do afetivo.
- 11:02O feito com amor, feito com carinho, que as pessoas
- 11:05confundem muito com o confort food, né?
- 11:08Mas era. A gente fala da comida afetiva
- 11:10como algo que afeta. Te.
- 11:14Mata me lembro do do da personagem que eu tava te
- 11:17falando do livro, que é como se AA comida afeta tanto a ponto de
- 11:21virar o ponto central dela e da história dela.
- 11:23Faz parte, é. É como ela se manifesta no mundo
- 11:26e como talvez como ela esteja pedindo ajuda, né?
- 11:29Então a gente fala do quanto esse alimento, esse por pra
- 11:32dentro, né? Afeta EE.
- 11:35Aí a gente foi descobrindo que não necessariamente era uma
- 11:37coisa boa, gostosa, né? E aí eu fui descobrir por mim.
- 11:42Consegui colocar sistematizando, tanto que aí saiu o ensaio sobre
- 11:44a cozinha afetiva, né, que é um ensaio, é pra abrir as
- 11:47conversas. EE, aí eu precisei começar a
- 11:51exemplificar, né? E daí que saíram as crônicas,
- 11:54né, sobre AAO, que seria a cozinha afetiva, né?
- 11:57Então separei 23 histórias. São 23 pessoas que fizeram parte
- 12:01da minha vida e tentando dar exemplo de como que eu descrevi
- 12:03e juntava isso a comida naquele contexto.
- 12:07E a comida que me disparou para isso que eu posso exemplificar
- 12:10melhor sobre a cozinha afetiva, foi quando o meu pai faleceu e
- 12:16eu detestava a comida do meu pai.
- 12:19Comida do meu pai, gente do céu. Lá em casa a gente também não
- 12:22tem uma família muito da cozinha.
- 12:24Denise tava trazendo isso. Eu falei, nossa, eu sempre quis
- 12:27isso. Na verdade, gente, era meio, Ah,
- 12:29sei lá, cada um fazia alguma coisa pra algum canto ali era.
- 12:31Muito doido, né? E foi a partir do luto, né?
- 12:35Que na hora de ressignificar aquilo que em algum momento o
- 12:38luto te ele te pega, né? Você você passa por um período e
- 12:42é um processo que fica. É que perdura, né?
- 12:46Não é uma coisa que que acontece Do Nada, mas se tem um pontinho
- 12:49chave a hora que que você entende que aquela pessoa não
- 12:52vai estar ali. E para cada um é uma coisa.
- 12:55E no meu caso, meu pai foi me lembrar da comida que eu não
- 12:59gostava, e aí você se lembra do sabor, você se lembra de tudo e
- 13:03aí você entende que aquilo te afeta.
- 13:06Aquele sabor faz você. Ele é uma coisa muito específica
- 13:09e você consegue lembrar. De um prato ou de algum sabor
- 13:13muito específico e aquilo fica registrado na tua memória, né?
- 13:18Ligado aquela pessoa ou aquela situação?
- 13:21Então foi a partir daí aí, né? Dediquei o meu trabalho a isso,
- 13:27né? Eu falo muito da culinária de
- 13:28papel, que é um termo que no jornalismo gastronômico a gente
- 13:30usa. É pra registrar, né?
- 13:35As o que você tem de receita, mas também o que você tem de
- 13:39experiência? Com a comida, então, acho que
- 13:43foi nossa, mas foi nessas 2. Que material rico para quem
- 13:47escreve também, né? Na lasanha escrita, a gente
- 13:49acaba falando com muitas mulheres que escrevem, então
- 13:51olha como a comida é esse material rico também para a
- 13:53gente buscar na memória memória, que muito isso.
- 13:56Então buscar essas experiências assim, isso na escrita é
- 13:58riquíssimo. E é muito interessante assim.
- 14:01Eu vou agora falar de uma polêmica, porque esse a comida
- 14:05afetiva ela é. É um termo controverso que virou
- 14:08moda, né? Virou uma estratégia de
- 14:10marketing. Sim, isso que eu tentei falar
- 14:13ali, no meio que exatamente isso vem na minha cabeça, esse comida
- 14:15afetiva. Primeira coisa, na verdade, que
- 14:17me vem. Eu penso, Ah, comida de vó,
- 14:18comida de infância. E aí hoje virou esse.
- 14:21Ah, nós somos uma cozinha de uma comida afetiva.
- 14:24E aí tem um estabelecimento e quase virou realmente esse ponto
- 14:27comercial. Virou, virou realmente um ponto
- 14:29comercial. E eu acho que muita gente pegou
- 14:31o ranço do termo afetivo, como foi no meio da culinária, o
- 14:34pessoal pegar o ranço do da expressão confort food.
- 14:37Nossa, hoje em dia a gente acaba fazendo isso com vários termos,
- 14:39né? Vários termos muito tão
- 14:41desgastados. Você esvazia.
- 14:43É exatamente eles esvaziam. Você esvazia.
- 14:45E foi justamente pensando nesses esvaziamento que eu não queria
- 14:47que Oo cozinha afetiva que a cozinha afetiva, uma coisa que
- 14:51que eu acho tão importante e tão expressiva é.
- 14:54Caísse nessa, nessa panela, eSIM, tem o oportunismo.
- 14:58Vai existir. O marketing da nostalgia sempre
- 15:01é, e aí tem. Eu deixo tudo muito aberto,
- 15:04porque o que é comida afetiva para você não é a minha.
- 15:07O que é? Cada um tem a sua isso.
- 15:09Que eu penso a comida afetiva. Ela é muito pessoal, né?
- 15:11Para você chegar no lugar e falar, eu vendo comida afetiva,
- 15:14talvez para quem? Eu não sei exatamente isso, né?
- 15:17Porque o afeto passa por muitos lugares.
- 15:19E, como você disse, o afeto pode inclusive despertar coisas boas
- 15:22e coisas ruins, né? São diferentes, boas ruins.
- 15:24E é uma coisa que a gente tentar imprimir em qualquer coisa que a
- 15:30gente vai escrever sobre cozinha afetiva.
- 15:31É. É uma jornada pessoal e
- 15:33intransferível, não só eu que digo para Denise o que o que é
- 15:37afetivo, né? É, eu posso servir para ela um
- 15:40pudim e ela define se a gente vai ter um afeto a partir disso.
- 15:44E restaurantes são muito comuns, embora é marcas se apropriam
- 15:48disso. Mas falando de pequenos
- 15:50restaurantes, é muito bonitinho, é muito charmoso.
- 15:53É muito legal quando alguém, né? Traz as receitas de família e
- 15:57classificam como cozinha afetiva.
- 15:59Mas eu sempre falo, não é? É afetivo para ele.
- 16:01Nós vamos criar a nossa relação, vamos provar e a gente vai ser
- 16:04amigo, mas eu eu não vou ter uma relação com com com a tua avó,
- 16:08né? Mas talvez eu tenha com você.
- 16:10É muito legal para pensar. E agora a gente foi muito legal
- 16:13que eu tô conhecendo a Jane um pouco através da Denise, a
- 16:15Denise me me apresentou ela, eu pensando né, buscando mulheres
- 16:19que também trabalhava esse tema, mas a Denise eu acompanho há
- 16:21tantos anos, eu não lembro desde quando assim é, eu eu encontrei
- 16:25assim, o perfil ainda era bem menor, a Denise cresceu muito
- 16:28assim nesses últimos anos, era ainda estava bem no comecinho
- 16:30quando eu comecei a te acompanhar e eu lembro de ter
- 16:33achado a ideia muito genial do Captur vem para o jantar, porque
- 16:36eu ficava assim, caramba, porque que eu não tive essa ideia, me
- 16:39deu essa sensação. Sabe quando você lê o livro
- 16:40muito bom e você vai? Eu preferia ter escrito esse
- 16:42livro porque eu tenho essa é exatamente essa experiência de
- 16:45gostar muito de comer. Eu gosto de estar na cozinha, eu
- 16:48gosto de sair para comer, até com as pessoas para comer, mas
- 16:50eu não sou, nunca soube cozinhar muito bem, eu não sei cozinhar
- 16:53quase nada até hoje. Acho que não era uma coisa de
- 16:55família, minha família não não tinha esse momento de cozinhar,
- 16:58então eu não aprendi, sei cozinhar.
- 17:00O basicão de quando eu vim, fui morar sozinha, eu olhava poxa,
- 17:04imagina eu justamente aprender a cozinhar a partir dos livros, a
- 17:08partir do que eu encontro ali nas histórias?
- 17:10E depois disso, você que você começou meio que pensando nesse
- 17:13ponto de partida da cocada, AI pensei ali na cocada que o
- 17:16projeto surgiu. Como ficou essa relação para
- 17:18você? Depois você hoje em dia você
- 17:20busca os livros, suas leituras, pensando ali.
- 17:23AI me falaram que ele tem 11 comida legal, me falaram que ele
- 17:27tem alguma coisa boa ou você ainda vai um pouco no susto já
- 17:30eu vou ler o que eu quiser e vai aparecer ali para mim alguma
- 17:32coisa dentro do livro. Ou você já tem essa busca a
- 17:34partir do Capitu? Eu acho que é um pouco dos 2
- 17:37assim, primeiro que hoje em dia eu recebo muitas mensagens de
- 17:39pessoas que estão. Vão lendo alguma coisa e se
- 17:41deparam com o alimento, aí manda um foto do trecho e fala,
- 17:44lembrei de você e eu acho isso assim, eu fico muito encantada
- 17:47de saber que as pessoas lembram de mim quando estão ali lendo um
- 17:50livro e vem um alimento, sabe? Isso é muito legal.
- 17:53E aí às vezes, muitas vezes eu não conheço o livro e aí eu fico
- 17:55curiosa, aí eu vou atrás, mas é, ultimamente eu tenho feito assim
- 17:59uma leitura muito mais livre e aí sempre encontro, né?
- 18:02Porque assim eu acho que é. Tem um historiador italiano.
- 18:07Chamado máximo montanari que ele diz uma frase que me pega muito
- 18:10assim, que é que ele diz que pros seres humanos, a comida não
- 18:15é só natureza, ela é sempre cultura.
- 18:17E ele tem um livro inclusive que chama comida, cultura.
- 18:21E nesse livro ele exemplifica, genialmente o pão.
- 18:25O pão não é algo que a gente acha na natureza, a gente entra
- 18:28no Mato, a gente não vai achar um pé de pão, uma árvore que dá
- 18:31fruta de pão. Assim, pra gente fazer o pão a
- 18:34gente teve que ter um conhecimento muito específico
- 18:36sobre é agricultura, sobre como ingredientes é se interagem,
- 18:41teve que ter o domínio do fogo. Então assim é, é ele, ele, ele
- 18:47mesmo cita aqui nos o poemas homéricos.
- 18:50O termo fazedores de pão existe pra definir, né?
- 18:53Distinguir o homem selvado. De tudo selvagem, do homem
- 18:57civilizado. Então, assim, desde quando a
- 18:59gente bateu um olho numa planta e soube, soube identificar se
- 19:02ela era comestível ou não, a gente começou a dominar o fogo,
- 19:05sentar ao redor de uma mesa e cozinhar juntos.
- 19:07A comida passou de ter parou, de ter aquele significado só de
- 19:11nutrição, ferramenta de sobrevivência.
- 19:13Ele virou afeto, virou sentimento, virou ritual.
- 19:16Então faz muito sentido que quando a gente começasse a
- 19:18contar histórias, a comida fizesse parte disso, porque é ao
- 19:22redor de uma mesa que as melhores.
- 19:25Acho que qualquer história assim, tipo pensar na nossa
- 19:27história pessoal, é ao redor de uma mesa que as conversas
- 19:30acontecem, que romances começam, que guerras são travadas,
- 19:34entendeu? Então assim, quando você pega
- 19:36você mesmo como escritora, né? Você usou ali 11 fio condutor
- 19:41dessa comida para contar. E isso é muito interessante
- 19:43porque ela vira uma ferramenta tanto para o escritor, porque é
- 19:47uma ótima forma de você fazer essa história, andar para frente
- 19:50ao redor dessa mesa. Mas a gente, como leitora, a
- 19:53gente se conecta instantaneamente com aquilo.
- 19:55Porque é uma forma de convidar a gente para fazer parte dessa
- 19:58mesa, de fazer parte daquele universo, sabe?
- 20:01É, eu sempre comento uma entrevista que um jornalista uma
- 20:05vez perguntou para o Jorge Amado e falou assim, Jorge, por que
- 20:08que você tem tanto, né? Comida, nossa história.
- 20:11Tanta gente cozinhando, né? E comendo.
- 20:14Ele respondeu, tipo, simples. E eu escrevo sobre pessoas, as
- 20:17pessoas comem. Exato, é isso que eu falo, dessa
- 20:21estranhas desde quando eu não encontro comida.
- 20:22E você falou exatamente, tudo acontece ao redor da mesa assim,
- 20:26uma comemoração que a gente faz, né?
- 20:27Comemoração seja aniversário, seja é, Ah, eu ganhei alguma
- 20:31coisa, eu fui pro a gente vai pra mesa, a gente sai pra algum
- 20:34lugar pra comer, a gente está no trabalho, aquela hora da fofoca,
- 20:36é hora da mesa, é a hora do lanche, é onde tudo acontece.
- 20:39Né? A cozinheira Julia charge é a
- 20:41cozinheira Americana, né? Que eu acho que muita gente
- 20:43consegue conhece por causa do filme ou do livro Julia e Julia.
- 20:46Ela falava que uma festa sem o bolo é apenas uma reunião, e
- 20:51isso é muito verdade, né? A gente precisa de comida para
- 20:54esses pequenos rituais do nosso cotidiano, né?
- 20:56A gente vai conhecer uma pessoa especial, vai jantar, a gente
- 20:58vai para aniversário, almoço de domingo, então é a comida, faz
- 21:02parte da nossa vida. Primeiro porque obviamente todos
- 21:05nós aqui precisamos comer para sobreviver, mas não é só isso,
- 21:08né? A comida, ela é uma cola social,
- 21:10ela une a gente ao redor desse afeto, desse sentimento, dessas
- 21:13histórias. Nossa, exatamente acho que aí
- 21:16aí. Muito com esses temas de
- 21:17pesquisa da Jane também. E eu IA te perguntar, você
- 21:20pensando nisso, da memória, isso você tem pesquisado nos últimos
- 21:23tempos? Você falou dessa crônica e dessa
- 21:26comida afetiva que é afetiva de uma forma para cada um, já que o
- 21:29afeto ele tá para cada pessoa tem uma experiência muito
- 21:32específica. O que que você tem Descoberto a
- 21:35partir disso? Assim, do que eu sei que é
- 21:37difícil perguntar, então, o que é comida afetiva?
- 21:39Mas o que que você acha que de mais?
- 21:41É legal e mais importante você ter Descoberto nessas suas
- 21:44relações, nesses seus estudos, em relação com a comida, o
- 21:48afeto, a memória e as histórias que essas pessoas trazem.
- 21:52Bom, eu acho que eu consegui resumir porque nas palestras que
- 21:57que eu preciso dar sobre o tema, é claro que as pessoas perguntam
- 22:00o que é a cozinha afetiva? E eu preciso responder, né?
- 22:04Então, eu costumo dizer que cozinha afetiva é uma jornada
- 22:08pelo significado do sabor. E uma jornada pessoal e
- 22:12absolutamente intransferível. Que é essa que eu esse trechinho
- 22:16que eu citei é. E aí a função dela, a função das
- 22:22palestras e do livro, é muito mais te dar insumo para você
- 22:28identificar a sua. É quase como se tivesse dando um
- 22:31passo a passo para você começar, prestar atenção no que você
- 22:35come, no que faz parte do seu dia a dia.
- 22:38É, qual é a relação daquela comida?
- 22:40Quando tem alguém na sua casa, o que que você come no trabalho?
- 22:44E você falou a hora da fofoca, isso foi importante para você?
- 22:47Pelo visto ali, AA fofoca do do trabalho legal, de vocês saírem
- 22:51e compartilharem alguma coisa, você vai identificando.
- 22:55Então a ideia é, é dar muito mais, né?
- 22:57Insumo, te dar ferramentas para você descobrir o que é para
- 23:02você, para que a gente, para que, para que ninguém possa
- 23:05chegar e te dizer o que é. Né?
- 23:08De enfiar na tua cabeça. Então, o que eu descubro hoje
- 23:14ainda conversando com as pessoas, porque elas tentando
- 23:16identificar depois da palestra ou depois do livro, elas começam
- 23:20a identificar para elas, né? O que que é?
- 23:23Então elas começam a me trazer e aí muitas trazem.
- 23:27A primeira coisa é um entendimento de si, porque elas
- 23:32começam a olhar para elas e elas param de comer no automático.
- 23:36Isso é muito legal. Aí elas começam a prestar
- 23:38atenção nos livros, nos personagens, na novela, né?
- 23:43E de novela a gente tem alguém para citar aqui também, né?
- 23:46Que que é Superinteressante você identificar a comida na novela
- 23:51no núcleo é de. Que que é num núcleo rico e num
- 23:57núcleo a menos favorecido economicamente a relação, por
- 24:01exemplo? Aquele grande café da manhã
- 24:03desse núcleo rico, como você colocou, é quase uma forma
- 24:06justamente de é especificar quem é aquela família, né?
- 24:09Uma grande mesa, mesa farta. E aí você percebe as pessoas se
- 24:13aprofundando e prestando atenção que viu na novela.
- 24:16Um negocinho, né? A diferença da comida.
- 24:18E aí ele transfere isso para ele.
- 24:20Então eu vejo nesse primeiro momento esse entendimento de si.
- 24:25É, eu vejo 11 vontade de começar a cozinhar, porque a gente parou
- 24:30de cozinhar. E é engraçado que a gente para
- 24:33de cozinhar, mas a gente é um voyer da cozinha, porque o
- 24:36número de programa é de programas de que que ensinam
- 24:41culinárias, tipo assim, aumentou absurdamente dos reality
- 24:45aumentaram nos últimos 15 anos, que é um número absurdo.
- 24:48Então a gente tem alguns números assim mapeando esses.
- 24:51Esses trabalhos, né? De de de gastronomia.
- 24:54Oo perfil do do do chefe. Celebridade, né?
- 24:58Que virou uma coisa. O pesadelo na cozinha eu lembrei
- 25:02agora na temporada nova e novamente aquilo que você falou,
- 25:06né? Nem só as experiências boas.
- 25:08Tem também a parte do pesadelo e a gente adora assistir.
- 25:10Aqui a gente gosta de ver. Então assim, é muito engraçado
- 25:13que numa é uma população que 11 espectador que adora ver, fazer
- 25:19comida e aprender, ele não cozinha, é verdade.
- 25:21E tem uma série de fatores aí. Trabalhar fora faz isso.
- 25:24Você vai criando outras relações afetivas com outras.
- 25:27É com outras comidas, com outros sabores, vai.
- 25:29Colocando, eu não tenho tempo para isso, eu não.
- 25:31Tenho tempo parar. E aí a gente é o que eu percebo
- 25:36também que é uma busca. Quando eles trazem para mim que
- 25:38eles voltam, é quando eles voltam a se perceber e voltam
- 25:42para cozinha. Eles.
- 25:44Percebem não só uma melhora Na Na saúde física, né, de poder
- 25:49comer melhor e tá se sentindo melhor, como também na saúde
- 25:52mental. Sim.
- 25:54Então não tem como a gente falar que comida é só alimento, porque
- 25:58ela tem tantas etapas em volta. Isso a gente não tá nem falando
- 26:01de política, de cultura. A gente tá falando daqui de como
- 26:05a sua relação com o entorno, com a comprinha que você faz.
- 26:08E a cozinha, né? Aquele processo de fazer comer
- 26:12depois guardar, lavar, fazer. Como ele disse sobre você e como
- 26:16ele te centra, então, se você fala em comida, eu já penso numa
- 26:21forma romântica de Viver A Vida, sabe?
- 26:24Se você se você está descascando uma cebola ali ou descascando
- 26:27uma batata, você está com tempo de pensar alguma coisa.
- 26:29Inclusive, por exemplo, depois que eu li.
- 26:32Como água para chocolate, eu nunca mais piquei de cebola de
- 26:35outro jeito, porque eu lembro da Tita chorando, nascendo por
- 26:39causa da enxurrada, do choro, da das cebolas.
- 26:43Assim. Não tem uma vez.
- 26:45Eu vou fazer um arroz do dia a dia.
- 26:47Eu penso na Tita, sabe? De comar água para chocolate.
- 26:50E eu acho que assim. Eu costumo dizer que a comida,
- 26:53ela faz a gente entender a história com maiúsculo, que é a
- 26:57história de sociedades, a história coletiva, mas também a
- 27:00história de com h minúsculo, que é a nossa história, a história
- 27:03da nossa mesa, que a gente coloca na mesa é o que a nossa
- 27:07família come, que mostra pra gente quem é, quem nós somos, o
- 27:10que, qual é o nossa posição perante ao mundo.
- 27:13Então, assim, é muito importante essa comida não é só um
- 27:15alimento. E assim é indo um pouquinho mais
- 27:18ali para um lado político da coisa.
- 27:20Eu acho que a partir do momento que uma pessoa consegue, né,
- 27:23como você disse, é ter esse autoconhecimento, né?
- 27:26AA partir da comida. E aí começa a prestar atenção à
- 27:29comida em histórias. E aí ela começa a prestar
- 27:31atenção que existe um toda, uma cadeia de alimentação ali, que é
- 27:34muito política. O que você?
- 27:35Coloca e a. Gente nem observa, mas o que
- 27:38você coloca no, na, no prato? Fala muito sobre relações
- 27:41econômicas e políticas, né? Então acho que vai criando
- 27:44camadas de consciência. Que vão são muito mais profundas
- 27:48do que simplesmente escolher algo pra comer, sabe?
- 27:50Com certeza. E eu tô achando muito legal
- 27:52ouvir vocês falarem, de ver o quanto vocês são apaixonados por
- 27:55esse espaço, né? Da comida, do fazer, do preparar
- 27:58e do quanto isso se relaciona com a gente, com as nossas
- 28:00experiências. E muitas vezes é e com as
- 28:03palavras, né? Como vocês conseguiram trazer
- 28:05essa relação também pra escrita, que às vezes a gente tá muito
- 28:07também? A gente que é jornalista, que é
- 28:09autora, que é roteirista, fica muito achando ali que as
- 28:11palavras vêm ali, tá? Tá só no papel ou vem de um
- 28:14lugar muito solitário, muito interno, e não é esses espaços
- 28:17criativos, eles vem muito da experiência externa, vem muito
- 28:20de como a gente enxerga, experimenta o mundo, de como a
- 28:23gente sente, de como a gente cheira, experimenta um sabor,
- 28:26isso tudo vai, né, afetando a escrita e os processos criativos
- 28:30e outros da nossa rotina. E eu queria entender, até para
- 28:32vocês que também escrevem, que também tem livros, que também
- 28:35tem roteiro, que são, que tem essa relação também forte com a
- 28:38palavra. Como essa relação com a comida
- 28:41se introsa com o processo criativo de vocês?
- 28:44Como que se dá um pouco isso? Porque, por exemplo, vocês têm
- 28:47os livros publicados, então como foi trazer isso para as páginas?
- 28:50Essa experiência que é tão humana, tão é, né?
- 28:53Textura, tão sabor, tão cheiro, tentar trazer isso para o livro.
- 28:57AI eu acho que dá certo, porque a gente.
- 29:00Come gosta de comer EE porque a gente tá falando de gente.
- 29:05Eu acho que dá certo porque a gente fala de gente e dá certo
- 29:09porque a Denise, eu tenho certeza que ela acredita nisso
- 29:12também, que falar sobre comida tem que ser de domínio público,
- 29:15não é um assunto de chefe de uma escritores de comida, todo mundo
- 29:19come ou deveria comer, né? A gente fala sempre que se você
- 29:23tem uma memória de comida para lembrar a memória afetiva, então
- 29:26isso também é um privilégio, porque muita gente não teve.
- 29:30Né? Não tem, né?
- 29:31A gente o Brasil voltou para o mapa da fome, então é um ponto
- 29:34de já começa por aí, você tem um dá um estalinho de empatia, né,
- 29:38alguém não teve, como é que a gente aumenta a nossa mesa,
- 29:41então eu acho que dá certo para mim não foi difícil, porque eu
- 29:45tava falando sobre gente, então acho que eu tava usando algumas
- 29:48metáforas da comida para falar sobre pessoas, né?
- 29:51E você tá falando de gente, você tem que falar com todo mundo
- 29:54como jornalista. A primeira coisa que a gente
- 29:57aprende é falar com todos. Não torne o seu texto difícil,
- 30:02né? É leve, leve a resposta que você
- 30:06está buscando, né? Fale com todo mundo.
- 30:09E aí eu acho que quando a gente fala de comida, não, não tem um
- 30:11que escapa, né? Então.
- 30:13Que é um tema que todo mundo gosta tanto.
- 30:14Como vocês estavam? Colocando.
- 30:16E eu acho que o fato da comida ser tão fundamental pra gente
- 30:19entender seres humanos é é é muito fácil se conectar.
- 30:23Quando a gente fala de comida, sabe?
- 30:25Porque a gente fala de um cheiro, as pessoas sentiram esse
- 30:27cheiro também. A gente fala de o barulhinho de
- 30:30alguma coisa fritando na cozinha, as pessoas já ouviram
- 30:32esse barulho, sabe? Então eu acho que é muito fácil
- 30:35falar de comida. Eu tenho muito mais dificuldade
- 30:36quando eu falo de outro, porque eu acho que é orgânico, sabe?
- 30:39Da gente, sabe, a gente tem que comer para sobreviver, então
- 30:42quando a gente vai escrever, é muito fácil de escrever,
- 30:45texturas, sabores, sentimentos que esses alimentos despertam.
- 30:48E eu sempre comento assim, quando eu criei o Capitu e eu
- 30:52tive essa dúvida, né? Será que Machado de Assis
- 30:54gostava de cocado? Será que ele é comia uma cocada
- 30:57enquanto ele escrevia aquele trecho?
- 30:58Depois eu fui pesquisar e descobri que o Machado de Assis,
- 31:01ele tinha uma grande relação com doces e cocados ele.
- 31:05A mãe dele faleceu, o pai dele se casou novamente com uma
- 31:08doceira e ele ajudava essa doceira a vender doces,
- 31:11incluindo cocados na rua E. Muito provavelmente esse estava
- 31:14no livro então por conta disso, né?
- 31:15Exatamente cotidiana é? Porque assim eu acho que se a
- 31:17gente for fazer um exercício de a gente escreveu um romance e a
- 31:20gente for alimentar esses personagens.
- 31:22É muito provável que a gente vai alimentar com que a gente gosta,
- 31:26porque a gente sabe o que aquilo desperta na gente.
- 31:28Tem uma história muito curiosa do Eça de Queiroz, que eu gosto
- 31:31de comentar o Eça de Queiroz. Ele gostava muito de comer, ele
- 31:34era assim 111, apaixonado pela gastronomia, só que ele teve um
- 31:39grande problema. É físico e estomacal, que na
- 31:43época as pessoas acham que achavam na época que ele tinha
- 31:45morrido de tuberculose, mas foram ver cartas dele que ele
- 31:49falava que ele gostava de caminhar 10 km por dia.
- 31:51E quem? Não tem tuberculose, não,
- 31:53caminha 10 km por dia. Eu estou aqui com pneumonia, uma
- 31:57pós pedamonia quase, né? Falando meio torto, imagina ele
- 32:00com tuberculose no 10 km aí hoje em dia existe uma linha de
- 32:05historiadores que acredita que o que ele teve foi doença de
- 32:07Crohn, então assim ele tinha 11 problemas muito sérios pra
- 32:10comer. O que que ele começou a fazer?
- 32:12Ele começou a alimentar os personagens dele.
- 32:14A gente tem no primo Brasil uma descrição de um bacalhau que
- 32:17dura 3 folhas. Então assim é, é, é muito
- 32:21interessante como a gente vai levando essa.
- 32:24Inclusive existe pesquisadores portugueses que que eu esqueci o
- 32:29nome dele agora, mas ele fez uma pesquisa sobre todos os
- 32:32elementos citados na obra do Eça de Queiroz e é impressionante,
- 32:36tem tudo relacionado a essa questão dele.
- 32:38Ele não podia comer, então ele alimentava os personagens dele.
- 32:41Então acho que é muito natural, sabe a gente que é apaixonado
- 32:43por comida e não só pelo comer, mas o entender a comida.
- 32:47Eu sempre falo lá no Capitu, né? Eu faço as receitas literárias.
- 32:49Várias, porque eu me divirto fazendo.
- 32:51Mas o projeto do capítulo não é um projeto de receita, ele é um
- 32:54projeto de pensar a comida, assim como é o projeto da da
- 32:58Jane. Então acho que é meio orgânico,
- 33:01né? Quando a gente coloca isso no
- 33:02papel, é vai que vai assim. E é um é um repertório grande
- 33:05que você tem de sabor, porque até da história, da, da, da
- 33:08memória, da quando a gente está falando de comida, memória, você
- 33:12vai lembrar de ir lá de trás. Mas você não vai parar de comer
- 33:15até o último dia da sua vida, você vai comer, então você pode,
- 33:17a gente pode criar uma memória adulta.
- 33:19Então eu fico com muitas memórias, né?
- 33:21Quando alguém falava assim, tipo uma menina, é uma palestra, né?
- 33:24Dele acho que que eu dei No No encontro do mandiário do
- 33:28literato EEA, gente terminou a palestra e ela, uma das meninas
- 33:32fez um comentário, falou assim, gente, eu acho que ela não, não
- 33:34tinha familiares, não cresceu com a mãe, com a avó e ela não
- 33:38tinha. Ela se sentia mal quando alguém
- 33:39falava sobre cozinha afetiva, porque era um tema que ela ela
- 33:41não tinha. Nesse dia que ela estava de
- 33:44fora. Ela estava de fora e aí ela
- 33:46falou, não, isso me deu uma perspectiva legal, porque eu
- 33:48tenho com outras pessoas, inclusive com sabores ruins, né?
- 33:52Então ela tem isso. Então é.
- 33:56Acho que como a gente tem muito repertório, você vai construindo
- 34:00isso ao longo da vida. Você vai provar um negócio
- 34:02amanhã. Né?
- 34:04Você pode construir, criar uma relação afetiva.
- 34:07Ela não tá sempre ligada ao passado, né?
- 34:09Todo dia você pode criar uma coisa nova todo dia.
- 34:12Isso me lembrou um dia que a gente tava no meu trabalho
- 34:14atual. Tem um momento.
- 34:15Eu falei da da das conversas, que tem o momento do lanche.
- 34:17Ela tem um restaurante, não para pra lanchar no meio da tarde e
- 34:20um dia que chegou a gente. Né?
- 34:23Tem almoço e tem lanche, então a gente sempre vai, vai meio que
- 34:26juntos. E aí, um dia, No No horário do
- 34:29lanche, Do Nada, a gente desceu e tinha pedacinhos de cana,
- 34:32sabe? Não sei se vocês já chuparam
- 34:34cano, mas eu super chupava cano quando era criança, isso lá em
- 34:38Brasília, mas e não? EE era uma coisa que veio da
- 34:40família de uma amiga minha, que o pai dela trazia de uma
- 34:43chácara. Então tive essa experiência.
- 34:45Mas eu cheguei esse dia e meus colegas de trabalho estavam um
- 34:48deles falam assim, o que é isso? Aí eu falei.
- 34:51AI ela, mas meu Deus, eu, peraí, eu vou pegar uma, mas como é que
- 34:54come? E aí ficou engraçado essa
- 34:56experiência na mesa porque tinha tinha eu de Brasília, tinha
- 34:58outra que era de São Paulo, tinha um menino que era de
- 35:00Manaus, e cada um numa relação diferente com aquele pedaço ali.
- 35:03De de cana EAE uma delas falando como que come?
- 35:06Que que eu faço com isso aqui? Então, acho engraçado que é uma
- 35:09nova memória que se construiu na fase adulta, como você falou,
- 35:12sem sem precisar de pensar numa memória afetiva só da infância.
- 35:15Com o repertório que vocês tinham, cada um trouxe um pedaço
- 35:18e vocês construíram uma coisa que é de vocês, é próxima vez
- 35:21você for chupar cana. Eu com certeza.
- 35:23Eu lembro, todo mundo lembrado, Natacha, eu vou falar da taxa,
- 35:26vou lembrar que você não sabia nem com quem chupava cana e
- 35:29perguntou, o que eu faço com isso?
- 35:30Como ficou na minha cabeça? E é muito curioso isso, né?
- 35:33Porque a gente está falando de um país que é continental.
- 35:36Então, assim, tem muitas pessoas que moram no lugar do Brasil e
- 35:39não conhecem ingredientes do outro lugar.
- 35:41E a gente mora nesse país que é muito distante, né?
- 35:43As pessoas não tem essa, essa, esse conhecimento desses
- 35:46ingredientes tão ricos que a gente tem no Brasil.
- 35:48Eu tenho um clube do livro que chama manjar, do literato, que a
- 35:50gente analisa obras. E aí uma vez a gente foi
- 35:53analisar Macunaíma. E como é um projeto online, vem
- 35:58pessoas do Brasil inteiro. E é muito engraçado quando você
- 36:01pegava pessoas do sudeste lendo Macunaíma e falando, eu não
- 36:03estou entendendo nada, eu não sei o que que significa essas
- 36:06palavras. E aí vem uma galera do norte,
- 36:09nordeste e falava, gente, eu me senti representado, porque eu
- 36:12sei exatamente do que ele está falando, sabe?
- 36:14Então é também tem isso, né? Essa questão, né?
- 36:17Tipo, ela nunca tinha aprovado cana.
- 36:20Né, e como a gente também. Repertório muda.
- 36:23Né? Exatamente, vai.
- 36:24A gente vai aumentando esse repertório, é isso.
- 36:26A gente vai tendo mais referências e isso vai
- 36:28influenciando a nossa carreira, né?
- 36:31É culinária, né? E o que é bom de comida, que é
- 36:34assim também, né? A gente, eu acho que é uma arma
- 36:37secreta, porque. Saber fazer algo.
- 36:41Olha, não, eu acho que absorver esse conhecimento com relação a
- 36:44comida, né? Todo mundo.
- 36:46Porque comida não é só você ler. Você pode ler a receita.
- 36:50Mas você prepara, você tem a textura, então você tem uma
- 36:52outra, outro registro tátil, então você vai absorver aquilo e
- 36:57o sabor, cheiro, então você está usando todos os sentidos pra pra
- 37:01registrar esse conhecimento, então acho.
- 37:03Que por isso que que forma assim memórias tão intensas com a
- 37:05comida? Né?
- 37:06Sim. É só pegar Oo Proust, né?
- 37:09Com as madeleines, com as madeleines e a Lygia
- 37:12fagundestelli, que ela fala que AO olfato tem uma memória
- 37:15memorável. Porque é muito isso.
- 37:17Você sente o cheiro de alguma coisa, você é transportado pra
- 37:20um lugar, você sente o sabor de uma coisa, você vai, sabe?
- 37:23É muito louco como funciona, né? É muito doido.
- 37:26Fala é sempre. Acho que a expressão não seria
- 37:28isso uma arma secreto? É a gente.
- 37:30Consegue? Eu acho que você expande quando
- 37:32você fala sobre a comida ou quando eu estou registrando
- 37:34alguma coisa, porque eu não estou só estudando sobre o tema,
- 37:37né? Então está absorvendo isso, está
- 37:39colando muito. Mais na gente são muitos inputs.
- 37:43E assim, tem uma coisa, né? Eu tenho um filho de 5 anos e a
- 37:47gente esquece algumas coisas, né?
- 37:49Provavelmente quando a gente pensa nas memórias mais antigas
- 37:52nossas, a gente já aprendeu a falar, sabe?
- 37:55E a gente esquece. Como foi aprender assim?
- 37:58A enxergar AA, sentir sabor. E passar por esse processo
- 38:02assim, desde a amamentação até a introdução alimentar com ele foi
- 38:06muito interessante assim, de ele pegar uma mão pela primeira vez
- 38:09e colocar na boca e sentir texturas e cheiro.
- 38:12E você vê aquele bebê tentando se conectar com aquilo.
- 38:15Você fala, caramba, a gente esqueceu, que loucura é isso,
- 38:18sabe? A gente esqueceu que foi essa
- 38:20primeira sensação de pegar o abacaxi e colocar na boca.
- 38:22Ele, por exemplo, ele não toma refrigerante, mas eu já deixei
- 38:26ele experimentar porque ele já pediu e ele experimentou e ele
- 38:30falou. Cuspiu assim?
- 38:31E falou, meu Deus, arde. Olha a sensação dele, tipo o
- 38:35gás, o refrigerante, arde a boca.
- 38:36Então isso é muito interessante. Sabe como que a gente, eu acho
- 38:39que é uma forma também da gente se conectar e tá sempre
- 38:42procurando conhecer sabores diferentes, justamente para se
- 38:45conectar com essa pessoa que a gente foi, é introduzindo em
- 38:49experimentar exatamente. Isso é muito.
- 38:51Legal AI, que legal, gostei disso.
- 38:54Gente, e pensando no nos projetos de vocês, por exemplo,
- 38:56zenise hoje em dia o que que você mais gosta de fazer ali no
- 39:00Capitu? Se é pesquisar as histórias que
- 39:03vem a partir de uma comida, se é fazer a receita, se é aprender a
- 39:06fazer uma receita e o que que você nota que o público gosta de
- 39:10assistir, já que a gente tava falando que as pessoas gostam
- 39:12muito de acompanhar, você tem os vídeos ou o que, o que elas
- 39:14gostam mais de ler e pra gente depois eu queria saber qual
- 39:17dessas histórias você mais gostou de contar?
- 39:20Qual você acha que mexeu ele com você de alguma forma também?
- 39:23Olha, hoje em dia eu gosto muito da pesquisa, sabe, de você e de
- 39:28mergulhar numa pesquisa e de escrever e achar referências.
- 39:33Eu gosto muito disso, mas não tem jeito.
- 39:35O público gosta de receita, né? Mas então por isso eu tenho unir
- 39:40os 2 universos assim, eu simplesmente não faço uma
- 39:42receita. Eu conto a história de como eu
- 39:44descobri aquela receita, a história do escritor tal ao
- 39:47longo enquanto eu vou preparando.
- 39:49Então foi um jeito de unir, né? Agradar?
- 39:52Algoritmo e agradar o que eu gosto de fazer, mas eu sou
- 39:56apaixonada pela parte de cara. Mergulhar, entender o que que
- 40:00aquilo quer dizer da onde veio, sabe?
- 40:02Isso é o que me dá tesão mesmo, sabe?
- 40:05E é muito legal que você vai fazendo vários caminhos a partir
- 40:08daí, né? Você vai tanto que você trouxe
- 40:09umas histórias super legais de e você encontra isso.
- 40:12Você traz no seu projeto história de escritores,
- 40:15histórias que estão ali por trás do livro que a gente nem
- 40:17imagina, né? A gente passa, vê ali que, sei
- 40:20lá, apareceu no livro sutilmente alguém.
- 40:22Servindo umas torradinhas e aí você vai olhar por trás, o que
- 40:25que tem naquelas? Torradas eu acho que assim,
- 40:28desculpa a metáfora, bem assim de chinfrinho, mas assim, eu
- 40:32acho que o livro é tipo uma lasanha, entendeu?
- 40:35Tem várias camadas ali. Enquanto você pega esse
- 40:39alimento, ele te convida aí desbravando essa camada,
- 40:42entendeu? E você vai entender o contexto
- 40:44histórico. Por que que aquele alimento foi
- 40:45escolhido ali? Por que que ele quer dizer como
- 40:48que as pessoas comiam, né? Tipo, pega o Machado de Assis ao
- 40:51longo da obra. Hora dele.
- 40:52Você consegue entender como as pessoas comiam durante o segundo
- 40:56reinado no Rio de Janeiro? Inclusive, tem uma historiadora
- 40:59chamada rosa belluzo que ela fez uma pesquisa sobre isso.
- 41:03Ela analisou crônicas e contos do Machado e fez toda uma
- 41:06pesquisa sobre como se comia no Rio de Janeiro durante o segundo
- 41:09reinado, a partir dessas crônicas do Machado.
- 41:12Nossa, que incrível, é sensacional.
- 41:16Bom, eu faço a mesma coisa que a Denise, mas com.
- 41:21Com gente comum é. Então as crônicas me dão essa
- 41:30visão, me dão essa possibilidade de acho que aprofundar no na
- 41:38outra pessoa e fazer com que ela se veja também a partir da da
- 41:43história que ela me conta com relação ao sabor, é.
- 41:47De todas as crônicas que eu escrevi, eu não tenho como
- 41:50escolher uma. História é impossível, é?
- 41:53Muito difícil, mas o que eu posso colocar aqui?
- 41:57Todas elas têm um ponto muito especial e é um jeito de eu
- 42:00homenagear cada pessoa que passou pela minha vida, né?
- 42:03De dizer o quanto ela é importante e o quanto ela é, o
- 42:07quanto ela pode se ver através daquilo, né?
- 42:10E. Eu estou fazendo Oo segundo, né?
- 42:13O comida memória é uma sequência, então eu preciso
- 42:15lançar um por ano. Então são crônicas, porque não
- 42:18tem sentido ser um livro só, porque como eu vou continuar
- 42:21comendo e ligando pessoas a comida?
- 42:23Eu vou continuar escrevendo, né? Que.
- 42:25A sua ideia é lançar um por ano, então?
- 42:27Eu estou terminando o segundo agora e tem que ser um por ano.
- 42:30Aí a né, a já tempo, né, gente, né?
- 42:33Exatamente. É bastante coisa, é bastante,
- 42:35mas assim dá para gente arrumar 20 histórias por ano.
- 42:39Bom, eu pelo focado em comida eu consigo.
- 42:41Se for outro tema, não. Então acho que o que me dá, o
- 42:45que me brilha os olhos é é fazer com que as pessoas se abram.
- 42:49Quando eu começo a falar de comida, todo mundo desarma.
- 42:52Então é muito legal você, a pessoa, se abrir a partir do
- 42:56sabor e você conseguir conhecê la e conseguir entender um
- 43:00pouquinho do universo dela e fazer uma conexão, né?
- 43:03Juntar com ela de alguma maneira.
- 43:07Tô tentando pensar em alguma assim pra poder te dar, né?
- 43:10Mas todas elas são tão especiais e.
- 43:14Nesses últimos anos, você acha que em relação até cozinha, como
- 43:17vocês 2 têm? Cozinhado mais experimentado
- 43:20mais esse espaço até das receitas de experimentar novos
- 43:23sabores. Que que vocês descobriram nesse
- 43:25campo? Se tem algo que hoje vocês
- 43:26adoram? Tem alguma receita.
- 43:28Denise, que deu muito certo, o que você foi fazer e nossa,
- 43:31ficou perfeita. Não acredito que não tinha feito
- 43:33isso antes e alguma que foi um desastre, que você olhou e
- 43:35falou, meu Deus. Desastre?
- 43:37Tem muitos assim, principalmente durante o começo do projeto, que
- 43:40eu não sabia cozinhar. Eu lembro que eu fui inventar de
- 43:42fazer uma bala de caramelo do da fantástica fábrica de.
- 43:46Chocolate bala de caramelo parece, né?
- 43:48E eu falei, vou fazer essa bala. Só que assim ninguém me avisou
- 43:51que tinha que ser uma panela alta, porque o caramelo ele
- 43:54sobe. Eu fiz uma panela pequena meu,
- 43:58espalhou caramelo no fogão e o caramelo assim passa 2 segundos,
- 44:02ele endurece, né? Eu tive que tirar do fogão com
- 44:05faca assim, tirando, eu demorei dias para levar aquele caramelo
- 44:09do fogão, sabe? É, mas assim tem uma, tem várias
- 44:13receitas favoritas assim, sabe? É, mas eu acho que é uma grande
- 44:17surpresa. Foi o puf boergion, da Julie
- 44:20Giulia, eu ouvi. Falar isso também?
- 44:22Porque foi muito surpresa para minha receita, eu nunca tinha
- 44:25comido quando eu li o livro e eu fui tentar fazer.
- 44:27De que ele é feito? É uma carne, é um guisado de
- 44:31carne com vinho tinto, muito vinho tinto, muita manteiga.
- 44:35Algumas receitas vão cogumelo, cenoura e assim basicamente é um
- 44:39é 11. Carne cozida num olho muito
- 44:42gostoso de vinho e eu faço isso e é muito louco porque na
- 44:47história da Julie Giulia, né? Da Julie Powell ela faz para
- 44:51surpreender. Editora que publicou, desculpa a
- 44:54Julia chaelde, a Julia chaelde faz a receita também na época
- 44:58para surpreender eu não lembro qual era o contexto.
- 45:00Eu vou lembrar aqui, eu fiz a primeira vez para surpreender
- 45:04uma sogra, ex sogra, e ela ficou encantada e assim virou a minha
- 45:08receita de surpreender pessoas. Então quando eu vou fazer?
- 45:10Tem alguma coisa que eu preciso? Vou receber alguém diferente.
- 45:13Aí eu faço o puf, burgignon. Sabe, e?
- 45:15Tem dado certo, sabe? É muito legal assim, o preparo
- 45:18da receita. Ele é bem longo, ele demora
- 45:20quase 5 horas para ser feito, mas é muito delicioso assim, né?
- 45:25AI é delicioso demais, gente. É para mim.
- 45:28Eu eu lembrei do bef burgignon, porque eu eu aprendi a fazer com
- 45:32uma chefe que uma das melhores que eu já conheci na vida.
- 45:36Infelizmente ela não está aqui mais é que é a Michele Maia.
- 45:40E ela ensinou, e ela era vegetariana, então ela ensinou a
- 45:42fazer 11 versão com cogumelo e embora eu não como a carne, eu
- 45:48não sou vegetariana, né? Então eu torci o nariz, né?
- 45:52Quando fui ensinar, eu falei, AI, misericórdia, eu falei, mas
- 45:54a Michele é tão burra. Eu falei, não é possível que
- 45:56fique ruim, né? E aí fiquei absolutamente
- 45:58surpresa e comecei a reproduzir em casa, tanto que eu não
- 46:00consigo fazer com carne, eu só faço com cogumelo.
- 46:03Essa história tá no livro que eu falo muito dela é, mas a.
- 46:09Se deu errado, eu não vou lembrar que é muita coisa da
- 46:12errada, muita, muita. Mas eu lembro de mim tentando,
- 46:15gente, eu como falei, eu sou né, uma pequena pessoa tentando
- 46:19aprender alguma coisa na cozinha.
- 46:21Há quanto tempo eu tento fazer um bom bolo de cenoura com
- 46:23chocolate? Vocês não imaginam, jura?
- 46:25Até hoje vira e mexe ele sai errado, eu não sei o que
- 46:27acontece, ele se desmancha, ele sai empapado ou ele passa do
- 46:32ponto, gente, eu não sei, eu vou treinar, eu nunca mais fiz, eu
- 46:35vou sair inspirada daqui, dessa conversa eu vou tentar fazer.
- 46:38Manda foto pra gente. Tá, mas AA, Denise, você falou
- 46:41que sempre o Bonfim que você faz para impressionar.
- 46:44Uma que eu faço para impressionar e que é da minha
- 46:46família e essa sempre dá certo. É o frango doce.
- 46:49O. Frango doce provou, né?
- 46:51Eu nunca fiz. Não, mas eu eu lembro da
- 46:53história do livro. Para eu impressionar.
- 46:55Até falei fora do microfone, frango doce, o frango.
- 46:58Doce? Nada.
- 46:59É um frango Agridoce. Na verdade, a gente cozinha,
- 47:02você faz, dá aquela fritadinha nele, aquele o eu descobri agora
- 47:06essa expressão super antiga, o pingue frita.
- 47:10O pessoal fala falar do frango, daquele frango tostadinho que
- 47:13fica na panela pingo um pouquinho de água e frita pingo
- 47:17um pouquinho de água. É mais ou menos isso.
- 47:19Mas eu faço um caramelo Agridoce e dou uma banhada nele.
- 47:23Nossa, gente. Nossa é de.
- 47:25Chorar, então, o frango doce realmente quando eu quero
- 47:28impressionar quando eu preciso frango doce eu sei que vai dar.
- 47:30Certo, e você falou que pretende escrever agora, então, um livro
- 47:34com essas crônicas? É a expectativa, como que as
- 47:38histórias chegam até você? Onde você tem buscado essas
- 47:41histórias? Porque geralmente a gente vamos
- 47:44fazer. A gente trabalha com muita gente
- 47:45aqui que busca inspiração para escrita, o que quer saber como
- 47:49escrever. E é uma dúvida de muita gente
- 47:51não saber como buscar histórias. E acho que, como bons
- 47:53jornalistas, vocês são craques nisso.
- 47:56Bom, eu acho que começa como sempre autobiográfico.
- 48:00Você escreve para você, você escreve porque você quer se
- 48:02organizar por dentro. E aí você pode inventar um
- 48:06personagem, mas ele sempre vai ter um pouco de você hoje.
- 48:09Então, a partir do do do autobiográfico, quando eu dei os
- 48:13exemplos das crônicas, as pessoas começaram a surgir
- 48:16querendo contar suas próprias histórias, o que eu acho
- 48:19incrível. Então, hoje as.
- 48:21Histórias gostam de contar, né? As histórias.
- 48:23Muito. Você fala sobre comida, todo
- 48:24mundo tem, todo mundo tem um sabor, gente, e é muito legal
- 48:27você partilhar. Isso é, eu tenho a Felicidade
- 48:31de, assim como a Denise também ter.
- 48:33É leitor no Brasil inteiro. EE, eu acho muito engraçado como
- 48:37vem de cada um de um pedacinho e a maioria é, tá.
- 48:41Eu tenho muita gente No No Ceará, Belém do Pará, Minas
- 48:47Gerais. Aí vem, depois vem Rio de
- 48:49Janeiro, depois vem São Paulo. Será a gente tem tem algum algo
- 48:54específico? Então a gente comentou sobre
- 48:57isso, eu dei uma palestra pra pra turma da.
- 49:00Da Universidade Federal do Ceará, que, aliás, foi muito
- 49:03legal isso, abriram um grupo de estudos sobre afeto na cozinha,
- 49:07a partir do livro para entrar como isso foi muito legal.
- 49:10E aí a gente comentou justamente isso, né?
- 49:13Ah, imagina, né, eles adoraram, né?
- 49:15Saber, Ah, então a gente está em primeiro, né?
- 49:17Com certeza, comida afetiva é aqui, né?
- 49:20Eu eu não sei, não sei se é por conta da relação que se cria,
- 49:23como eles são tão abertos, pelo menos eu eu percebo isso, né?
- 49:28Então é. Eu recebo muita história, às
- 49:32vezes por áudio, No No Instagram, conta.
- 49:36É do pessoal do Ceará. Fortaleza tem um Monte.
- 49:41Nossa, desculpa, isso é muito curioso, né?
- 49:43As pessoas mandam muito áudio pra pra mim também no por isso
- 49:47tem conta as histórias. Assim eles mandam áudio e teve
- 49:50uma que eu que eu recebi aí esse me quebrou.
- 49:54Porque as pessoas gostam do livro, querem contar as
- 49:56histórias, né? Então começa a chegar, aí eu
- 49:58começo a falei, gente, eu falei, vou escrever sobre mim, mas
- 50:01vamos lá, vou escrever sobre vocês também, né?
- 50:03E eles querem ser bem retratados ali, né?
- 50:06As pessoas querem saber de si ali pela, pelo sabor.
- 50:10E aí um deles, a pessoa me mandou um áudio falando, Jane,
- 50:14querida, eu adorei o seu livro, não sei o que, e falou, e era um
- 50:17audio enorme, toda fofa, e aí no final ela falou, então eu só
- 50:21estou eu não, eu não li ele, eu não.
- 50:24Eu não. Eu não vi todas as histórias.
- 50:26Eu não ouvi todas as histórias porque eu não sei ler.
- 50:31E quem, na verdade quem lê é a minha filha.
- 50:33E ela tá viajando. Mas assim que ela voltar, ela
- 50:35vai continuar lendo. Caramba, olha só.
- 50:38E ainda assim, então ela tirou o tempo dela.
- 50:42Ela tava ouvindo, a filha, tava lendo Pra Ela.
- 50:44Ela tirou um tempo pra falar comigo no Instagram, contar a
- 50:48história. Me contou uma história incrível
- 50:50de feijoada, que é por conta de uma história de feijoada que tem
- 50:52lá. No livro e aí eu falei, gente,
- 50:56que coisa mais incrível, a história.
- 50:58Chega que demais. Acho que o que eu acho mais
- 51:00legal nesse relato de vocês é que eu sempre tenho muito assim.
- 51:02Eu Acredito que todo mundo tem uma história para contar.
- 51:04Falo, gente, todo mundo vai ter uma história para contar, mas
- 51:06geralmente as pessoas não acreditam nisso.
- 51:08Tanto que geralmente esse espaço do livro, quando a gente tem um
- 51:10livro publicado, parece uma coisa muito distante, né?
- 51:13Ah, as pessoas que escrevem, né, são jornalista, o roteirista,
- 51:16escritor parece uma coisa distante, porque a gente perde
- 51:19aquela distância da história oral, dessa história da
- 51:22oralidade, que é onde as pessoas se identificam com o saber.
- 51:25Contar histórias com a todo mundo tem alto para narrar.
- 51:27E aí trazendo comida, como vocês têm colocado, que traz esse
- 51:31ponto de afeto, acho que é tão forte, traz isso da memória,
- 51:33todo mundo come, todo mundo tem uma história, acho que vem então
- 51:36o projeto de vocês assiste um vídeo.
- 51:38Um texto e fala, caramba, eu tenho um negócio muito legal que
- 51:41eu preciso dizer. Então eu acho isso muito bacana
- 51:43das pessoas se verem nesse espaço de pera aí, que eu tenho
- 51:46uma história boa para contar. E assim, eu estou agora num
- 51:49projeto que não tem nada a ver comida, né?
- 51:51Eu estou escrevendo um livro sobre a história de uma tia que
- 51:54ficou 21 anos internada no hospital do juqueri, que foi o
- 51:56maior. É ou não ficção?
- 51:59Não contando a história dela. Ah, uma pesquisa de arquivos e
- 52:02tal. E.
- 52:04Boa parte dessa pesquisa é história oral.
- 52:07É sentar com as pessoas mais velhas da minha família, porque
- 52:09Ela Foi internada nos anos 40, ficou 21 anos internada nesse
- 52:12hospital psiquiátrico. E eu fui percebendo como a
- 52:17comida tá muito presente dentro dessa história, porque a minha
- 52:20bisavó, ela trabalhava mais como lavadeira para juntar dinheiro
- 52:25para comprar as comidinhas que essa minha tia, a avó, gostava
- 52:28para levar nos dias de visita. É, tinha tem toda uma questão de
- 52:32que ela gostava de goiabada com queijo e não podia ter no
- 52:36hospital, então ela escondia. Então assim, a gente vai criando
- 52:40e aí eu acho que é uma. Eu fiquei me questionando assim,
- 52:42né, porque eu falei, obviamente, eu falei levar essa comida para
- 52:44essa história, apesar que não tenha nada a ver especificamente
- 52:47sobre culinária ou gastronomia, mas não tem como escapar, porque
- 52:51a comida ela vai, ela ela conecta esses pontos, sabe?
- 52:55Então acho que é isso que você falou, todo mundo tem uma
- 52:57história, todo mundo tem uma história que vai é que pode
- 53:00virar um grande. Grande livro sabe que pode virar
- 53:02uma grande narrativa, um grande filme, um grande roteiro.
- 53:05É, é um exercício mesmo, da gente começar a olhar para gente
- 53:08com mais carinho. E também eu acho que a própria
- 53:10literatura em si, ela é 11 processo de autoconhecimento.
- 53:15A gente lê esses livros, né? A gente viaja com autores, a
- 53:18gente conhece lugares, a gente conhece personalidades, e aí
- 53:21isso influencia a gente também, porque aí a gente começa a olhar
- 53:24e falar, pera, mas eu também tenho uma história legal aqui
- 53:26que parece isso, eu já vivi isso, já conheci uma pessoa que
- 53:29vivenciou isso. Então é é só a gente olhar com
- 53:32carinho para nossa própria história que com certeza tem
- 53:34vários livros aí que a gente pode escrever.
- 53:36É isso. Chega num ponto muito bacana que
- 53:37eu lembro que há um tempo atrás, é falando sobre literatura e
- 53:40livro escrita e publicando. É.
- 53:43Me perguntaram AI, mas de onde vem o grande tema?
- 53:46Quando é que você tem aquela grande ideia, aquele grande?
- 53:48Eu fiquei pensando, não tem esse momento de buscar o grande tema.
- 53:53Então é um pouco que vocês colocaram de ir olhar para
- 53:55dentro, pensar que talvez na alimentação a gente entende como
- 53:58as histórias estão com a gente no cotidiano.
- 54:01Se a gente reparar, falar não, espera aí, onde estão minhas
- 54:03memórias, onde estão os meus caminhos, o que que eu lembro, o
- 54:06que que eu vivi? E a partir daí vem muita coisa.
- 54:09Então a gente não precisa ficar buscando, né?
- 54:10Aquele grande. Ápice acho que você não precisa
- 54:13inventar. Ela vai aparecer.
- 54:14Ela tem muita história por aqui, então você pode puxar e você
- 54:18puxa o fio, a partir da sua, você vai conectar com um Monte,
- 54:21né? E vocês?
- 54:22Tem percebido que vocês dialogam com pessoas de diferentes idades
- 54:25a partir desse tema da alimentação?
- 54:27Como tem sido isso? Porque hoje a gente acho que é
- 54:29muito comum falar. Ah, não se cozinha mais.
- 54:31Então a geração nova não, não cozinha ou só quer assistir.
- 54:34Como vocês tem percebido isso aqui?
- 54:36Como esse tipo de de conteúdo, esse tema da da comida e da
- 54:40alimentação chega em pessoas mais velhas, mais jovens, mais
- 54:42novinhas? O que que tem chegado para
- 54:45vocês? Bom, para mim são 2 perfis, os
- 54:48mais jovens. São aspirandes a escritores e
- 54:52que se conectam, né, com com a comida, mas também com o
- 54:55processo de escrita do do criativo.
- 54:57Então os mais novos chegam por essa feitura, querendo saber
- 55:01como fazer mais de olho no tema. Mas quem se derrete, quem
- 55:06realmente chega é 35 mais pra mim, entre 35 e 65 é pra mim.
- 55:15Esse é o é. É AA.
- 55:16Minha faixa tá aí. Eu preciso sempre pensar neles
- 55:18quando eu tô escrevendo. É no meu.
- 55:20Chega muita gente jovem por causa do conteúdo em si, né?
- 55:23Do Capitu. Assim, os vídeos rápidos que eu
- 55:25acabei entrando Na Na onda do algoritmo.
- 55:28Pra e que faz muito bem. Você consegue dialogar muito com
- 55:31esse esse espaço, como você colocou da pesquisa.
- 55:33São vídeos muito legais, muita coisa muito cheia de história e
- 55:37ao mesmo tempo é dinâmica, é legal.
- 55:38De assistir, eu acho que tem esse público jovem que vai pelo
- 55:41conteúdo, tanto é que eu recebo mensagens do tipo.
- 55:43Faz um workshop de roteiro para para livro de vídeos de
- 55:46internet. Sabe que é o que eu penso,
- 55:48assim, um dia eu vou fazer. Mas que vai?
- 55:50Chegar, quem sabe. Mas eu acho que é a maioria. 35
- 55:55mais que é apaixonado por por comida, sabe?
- 55:58Apaixonado por é pessoas que vivenciam em si o que linho dá o
- 56:01brilhinho. No é assim, o quentinho no
- 56:03coração é é 35 mais. Será que é quando a gente
- 56:05percebe essa relação com a comida que eu fico pensando até
- 56:08em mim? Realmente, alguns anos atrás,
- 56:09acho que você não percebe essa relação.
- 56:12Você tem a memória, tem os afetos, você vai desenvolvendo
- 56:14ali, principalmente quando você é criança.
- 56:16Mas acho que você não entende que isso é um tema, né?
- 56:18Que isso é um alguma. Coisa.
- 56:20É. Curioso é porque tem um prestar
- 56:21atenção em si, né? Então tem um vem com a
- 56:24maturidade, você parar e refletir sobre alguma coisa e de
- 56:27repente, ser pela comida. É, você vai fazer aquela
- 56:30análise? Né?
- 56:31Mas sabe que eu acho também que tem 11 questão aí é meio que de
- 56:36é que vai mudando de geração em geração, tipo, você pega, sei
- 56:39lá, os anos 90, a gastronomia, ela tinha uma coisa, é muito da
- 56:43indulgência, né? Você pode comer, vou comer coisa
- 56:47gostosa, porque isso é nostálgico, porque eu quero
- 56:50agora, não agora. Eu tenho uma preocupação muito
- 56:52grande com a saudabilidade e eu acho que existe uma movimentação
- 56:55de retorno para cozinha nesse momento, sabe?
- 56:59Perguntaram, é eu eu participei do Felipe postos esse final de
- 57:02semana e aí eu falei sobre o assunto e tal.
- 57:05E uma pergunta foi justamente sobre isso, como que eu via com
- 57:08o boom do TikTok, o boom da internet, esses jovens que estão
- 57:12parando de cozinhar a gente teve, né?
- 57:13Oo CEO lá do iFood falando que 10 anos as pessoas vão parar de
- 57:16cozinhar. É como que eu via isso, né?
- 57:19E eu falei que eu não eu. Eu, honestamente, eu acho que
- 57:23pode ser que eu esteja falando dentro de uma bolha, mas que
- 57:26existe uma movimentação de volta pra cozinha e muito relacionada
- 57:29a essa procura de comida saudável.
- 57:31E a partir do momento que você procura uma alimentação
- 57:33saudável, você quer saber a história desse elemento, a
- 57:36história desse ingrediente, e acaba que vai se conectando com
- 57:39essa forma de você fazer o próprio alimento, de já ter uma
- 57:41noção maior do que colocar no seu próprio prato.
- 57:45É, eu tô mais otimista, honestamente, assim, eu acho que
- 57:48existe essa esse apego maior. AAA cozinha é, vamos ver, né?
- 57:54A ver. Que legal, vou torcer por esse
- 57:56caminho também. É também não torço por esse
- 57:58caminho, mas tem muita gente boa escrevendo sobre comida, tem
- 58:03muita gente cozinhando. Então quando alguém faz uma
- 58:06declaração dessa, que as pessoas não vão cozinhar.
- 58:11Não sei. Bom, eu não vou parar de comer,
- 58:13alguém vai cozinhar. Então, em algum momento, quando
- 58:16eu não puder cozinhar, tem. Então sempre vai ter alguém
- 58:19preparando. Então eu acho bonito isso.
- 58:22Mas o fogo sempre vai ter que estar aceso.
- 58:24E cai sempre para aquela história que você falou do
- 58:26privilégio, né? Pra você comer, alguém vai
- 58:28cozinhar pra você, quem é que vai fazer essa comida?
- 58:31E é bastante elitista, né? O comentário?
- 58:33De ninguém vai fazer o que vai surgir.
- 58:36Não. Alguém vai vai ter uma classe
- 58:38trabalhadora cuidando daquilo. E aí, né?
- 58:40Então? Vamos todo mundo ajudar, né?
- 58:43Vamos fazer parte. A gente é que já tá passando
- 58:46quase 1 hora, acredita? Geralmente passa muito rápido.
- 58:48Quando a gente tem um papo gostoso assim, eu?
- 58:50Gostei, vamos comer? Não é deu fome que esse
- 58:53episódio? Eu já tô até pensando o que que
- 58:54eu vou comer depois aqui? Mas eu achei legal que a gente
- 58:56ainda terminou de um jeito tão otimista, esse fogo sempre aceso
- 59:01em que as pessoas vão continuar cozinhando.
- 59:02E acho que é por aí. E gostei muito de conversar com
- 59:04vocês justamente para entender, eu acho que um pouco mais dessa
- 59:07relação de vocês com a comida, a palavra literatura.
- 59:09Acho que eu vou com muitas ideias na cabeça.
- 59:12Isso e com certeza isso vai estar nos meus próximos livros
- 59:14também, para a gente encerrar. Então, antes de fechar o
- 59:16episódio, vocês querem contar rapidamente quais são os
- 59:19próximos projetos? A Denise ali já deu, né?
- 59:21Já deu um spoilerzinho. Mas o que que vocês têm então de
- 59:24livro a caminho é, querem deixar então o arroba de vocês onde a
- 59:27gente acompanha, onde a gente lê vocês, o que que vocês querem
- 59:31deixar aí por aí? Gente, bomba, eu quero agradecer
- 59:33muito. Estar aqui é uma delícia.
- 59:35Fazer parte dessa conversa é, convido as pessoas que estão
- 59:38ouvindo a gente a me seguir lá no arroba capítulo vem para o
- 59:41jantar. Eu tenho um projeto de
- 59:43republicar o livro, porque o livro foi lançado em 2016, então
- 59:46eu quero fazer colocar novas receitas, novas crônicas, é dar
- 59:50uma reformulada nele e estou fazendo esse projeto da da
- 59:54história da minha tia, né, que ficou No No juqueri, que não tem
- 59:58nada a ver com isso, mas é uma pesquisa mais jornalística, mais
- 1:00:01pessoal. E muita coisa assim, porque eu
- 1:00:05estou fazendo uma movimentação ali no conteúdo do Capitu e
- 1:00:08muitas coisas novas virão, então me sigam para acompanhar.
- 1:00:11Vem por aí. AI, Isa, obrigada.
- 1:00:16Eu adorei estar aqui papear sobre comida com você e com a
- 1:00:20Denise, que é minha musa também, né?
- 1:00:23Minha inspiração. Bom, eu estou trabalhando no
- 1:00:26cozinha, no comida, memória, né? No volume 2, é, estou
- 1:00:30trabalhando no trabalho de pesquisa e mapeamento do doce de
- 1:00:33leite. Aí ele é um pouco mais
- 1:00:34acadêmico, né? O caminho do doce de leite no
- 1:00:36Brasil. E estou num terceiro projeto que
- 1:00:41fala sobre as relações de memória, comida e pacientes com
- 1:00:44Alzheimer e em processos demenciais, que tem bastante
- 1:00:47impacto dentro das famílias. E a comida é uma ponte de.
- 1:00:51Conexão então, para a gente, para mim, isso é um tema
- 1:00:53bastante importante. Então esses são os. 3 projetos
- 1:00:57eu vi um pouco da sua pesquisa, eu IA trazer, mas eu falei, meu
- 1:01:00Deus, vai ser um episódio a parte, quando a gente foi entrar
- 1:01:03nesse tema. E bom, e aí, vocês podem me
- 1:01:07seguir no gastrolitê que eu vou adorar, né?
- 1:01:10Compartilho algumas coisas por lá, principalmente relacionadas
- 1:01:12ao livro, e eu queria muito mandar um beijo, posso?
- 1:01:17Há muita gente aqui, tem muita gente incrível que escreve sobre
- 1:01:20comida, muita gente é que eu bebo da fonte, né?
- 1:01:24E pessoas que precisam ser absolutamente reconhecidas.
- 1:01:27Uma dela é a Rafa, do doce leite de Pedra, que faz um trabalho
- 1:01:30incrível no interior do Ceará. É com a dosaria brasileira,
- 1:01:34verdadeira pesquisa brasileira. Tá com ela, é?
- 1:01:38Queria mandar um beijo também para o pessoal da da da
- 1:01:41Universidade Federal do Ceará. É o professor Robson especial,
- 1:01:45que transformou o esse esse grupo, essa esse tema numa numa
- 1:01:51num grupo para se estudar sobre comida e afeto.
- 1:01:55Gente, Minas Gerais, o pessoal do tempero de palavras, também
- 1:01:57de Belém, Pará, né? Que teve o meu livro agora esse
- 1:02:00mês como livro do mês que ele, gente, é tanta gente, o Brasil
- 1:02:04inteiro é de anara maravilhosa do tempero de palavras é.
- 1:02:09O pessoal do comer história o. Pessoal do comer, história
- 1:02:12Paulistana, desvairada, o Tiago. Alê guerra.
- 1:02:14Alê. Guerra, a gente tem tanta gente
- 1:02:16incrível que ó. Muita gente para conhecer gente,
- 1:02:19muita gente, obrigada demais. Então por vocês estarem aqui,
- 1:02:22quem sabe depois a gente pode até conversar no outro episódio
- 1:02:24em áudio sobre esse outro tema de pesquisa seu que é super
- 1:02:27importante, que eu acho que tem sido muito legal trazer outros
- 1:02:30temas a partir da escrita aqui, né?
- 1:02:32A gente não falar só sobre livro especificamente.
- 1:02:35Então foi um episódio muito gostoso.
- 1:02:37Obrigada por quem acompanhou a gente até aqui.
- 1:02:39E até o próximo episódio, tchau. Tchau.