Latest / TIC, Educação e Web / Ética e IA na sala de aula
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- 0:00Hum. Imaginem a seguinte cena, um
- 0:02professor olha para um ensaio em cima da secretária ou no ecrã e
- 0:06é um texto impecável. A gramática é perfeita, a
- 0:10estrutura é Imaculada, os argumentos são cheios de
- 0:12nuances. Pois o sonho de qualquer
- 0:15professor não é. Exato, mas a questão é que a
- 0:17pergunta que ecoa na cabeça daquele professor já não é de
- 0:20todo. Que nota é que eu vou dar a este
- 0:22trabalho? A pergunta cada vez mais
- 0:25frequente e até angustiante é, quem?
- 0:28Ou o quê escreveu isto? É o verdadeiro elefante na sala
- 0:31de aula. É mesmo bem vindos a mais uma
- 0:34análise profunda. Hoje vamos mergulhar numa
- 0:37autêntica crise nas nossas escolas, uma crise que lá está,
- 0:41começa na tecnologia, mas que acaba na própria essência
- 0:44daquilo que significa aprender. O que torna esse teu cenário
- 0:48inicial tão real e assustador? É que o contrato pedagógico
- 0:51tradicional foi subitamente quebrado.
- 0:53Quer dizer, durante décadas nós tínhamos uma linha de montagem
- 0:57do conhecimento que era muito clara a.
- 0:59Escola, explicava a matéria, o aluno IA investigar.
- 1:03Exatamente. Organizava as ideias com o seu
- 1:05próprio esforço e entregava o resultado.
- 1:07E agora? Agora temos um intermediário
- 1:10sintético que simula esse esforço todo numa fração de
- 1:12segundos. Num piscar de olhos.
- 1:14E o grande debate entre os profissionais da educação hoje
- 1:16em dia oscila muito entre 2 extremos bastante perigosos.
- 1:20Ou proíbem estas ferramentas e fingem que ainda vivemos em
- 1:231995, ou então abraçam aos ChatGPT de braços abertos, sem
- 1:26qualquer tipo de rede de segurança.
- 1:30Pois e é precisamente para navegar nesse espaço intermédio
- 1:34que hoje vamos descascar um conjunto de Fontes super
- 1:36interessantes. Temos do nosso lado uns guiões
- 1:39desenvolvidos por investigadores da Pontifícia universidade
- 1:42católica do Chile. Que são fascinantes, diga se de
- 1:45passagem. Muito.
- 1:46E vêm complementados por um artigo que adapta estes
- 1:49conceitos todos diretamente à realidade do ensino básico e
- 1:52secundário. Para quem nos ouve, a nossa
- 1:54missão hoje é desconstruir aquela ideia muito superficial.
- 1:57De que a inteligência artificial serve apenas para os alunos tipo
- 2:01fazerem batota? Claro.
- 2:02O que os nossos documentos mostram é que trazer e a para a
- 2:05escola exige uma revolução ética e pedagógica muito, muito
- 2:09profunda. E o ponto de partida de toda
- 2:11esta investigação é estabelecer uma premissa que, sinceramente,
- 2:16muitas vezes escapa aos debates na praça pública, que é o facto
- 2:20que as ferramentas tecnológicas não são neutras.
- 2:23Nunca foram, não é? Nunca.
- 2:25A tecnologia carrega sempre os valores de quem a desenha e de
- 2:28quem a utiliza. Portanto, o objetivo aqui dos
- 2:31guiões não é de todo dar um manual de instruções sobre qual
- 2:35é o melhor prompt a escrever no ecrã.
- 2:37O objetivo é redefinir o papel de quem ensina.
- 2:40Ou seja, o professor tem de mudar a sua postura.
- 2:43Completamente. O docente moderno é, antes de
- 2:46mais um agente moral, a função principal dele é garantir que a
- 2:50tecnologia serve os valores humanos, e não o contrário.
- 2:54E para percebermos como é que o se faz na prática, as Fontes
- 2:57indicam que, primeiro, temos de olhar para a evolução da própria
- 3:00profissão. Antigamente, a grande exigência
- 3:03sobre um educador era a sua competência disciplinar, certo?
- 3:07Saber muito bem a sua matéria. Sim, saber os factos históricos,
- 3:10as fórmulas matemáticas. Exato, mas agora a transição
- 3:14face para um conceito que, confesso, me chamou imensa
- 3:17atenção na leitura, a filósofa xanon vallar cunhou em 2016.
- 3:23Uma ideia chamada responsabilidade tecnomoral e
- 3:27isto para mim muda tudo, porque já não estamos a falar de ter
- 3:30meras competências digitais, estamos a falar de cultivar
- 3:33disposições de caráter. E essa distinção é crucial para
- 3:37quem nos está a ouvir, porque ter uma competência digital é,
- 3:40sei lá, saber como abrir uma folha de cálculo ou treinar um
- 3:43modelo de linguagem. É a parte técnica.
- 3:45Exato. A responsabilidade tecno moral,
- 3:47por outro lado, é a obrigação ética de cultivar virtudes
- 3:51específicas para conseguirmos conviver com estas tecnologias
- 3:54emergentes sem perdermos a nossa humanidade no processo.
- 3:58Como a tecnologia avança muito mais depressa do que as leis?
- 4:01A nossa única defesa real é o nosso caráter ético.
- 4:04O que, pá, me faz pensar numa analogia que nós costumamos
- 4:08aplicar à condução automóvel? Como assim?
- 4:11Tradicionalmente, ensinar matemática ou história era como
- 4:14ensinar a mecânica de um carro. Mostrávamos como o motor
- 4:17funciona? A engrenagem, a matéria pula,
- 4:20mas esta responsabilidade tecnomoral é o equivalente a
- 4:23ensinar a conduzir na vida real. Estou a perceber.
- 4:27Não basta dominar a técnica de virar o volante ou pisar a
- 4:30embraiagem. É fundamental ensinar que não se
- 4:33acelera junto a uma passadeira ou que temos de abrandar num
- 4:36bairro residencial por uma questão de respeito pelos
- 4:38outros. São disposições de caráter, um
- 4:40sentido de sivismo. Não é só saber guiar a máquina.
- 4:43Essa analogia é perfeita porque ilustra exatamente o desafio que
- 4:47temos em mãos, e o guião dos investigadores chilenos mapeia 8
- 4:52dessas virtudes tecnomorais que são essenciais agora à sala de
- 4:56aula. 8 consegues dar alguns exemplos práticos.
- 4:58Sim, tem moça, honestidade, justiça, autocontrolo,
- 5:03humildade, empatia ou civismo, responsabilidade, flexibilidade
- 5:08mental e, claro, a prudência. E se olharmos para a base disto
- 5:12tudo, a prudência surge mesmo como a virtude central.
- 5:15E a tal fronesis dos gregos, não?
- 5:17É exatamente. É a versão Moderna disso.
- 5:20Na prática escolar, a prudência é a capacidade de avaliar as
- 5:23consequências antes de agir. É o professor e o aluno saberem
- 5:27exatamente quando é benéfico ligar a IA para ajudar no
- 5:30raciocínio. E quando é que a devem desligar
- 5:33por completo? Pois desligar para forçar o
- 5:35próprio sempre a trabalhar sozinho e depois.
- 5:38Hum, há outra virtude nessa lista que tendo em conta como
- 5:42estas ferramentas funcionam hoje me parece absolutamente urgente
- 5:46que é justiça. Por causa das desigualdades?
- 5:49Porque, se pensarmos bem, AIA tem um potencial gigante para
- 5:53democratizar o conhecimento, mas, ao mesmo tempo, pode ser a
- 5:56maior máquina de amplificar desigualdades que já inventamos.
- 6:00Sem dúvida, pensa no acesso desigual.
- 6:03Um aluno que venha de um contexto socioeconómico
- 6:05favorável pode perfeitamente ter uma subscrição paga para os
- 6:08modelos de a mais avançados, aqueles que raciocinam melhor,
- 6:12que têm menos falhas. E o colega do lado que não tem
- 6:15essas possibilidades fica dependente das versões gratuitas
- 6:18que nós sabemos, frequentemente sofrem de falhas lógicas ou têm
- 6:22informação desatualizada. Exato.
- 6:25E a virtude da justiça obriga o educador a estar ciente desta
- 6:28assimetria. Um professor com
- 6:30responsabilidade tecnomoral. Vai planear as suas aulas e as
- 6:34avaliações, garantindo que o uso da IA não deixa logo ali metade
- 6:38da turma para trás, seja por limitações financeiras ou até
- 6:42por causa de algoritmos enviesados.
- 6:43E isso leva nos quase organicamente à virtude do
- 6:47autocontrolo, porque a própria forma como estas aplicações
- 6:50estão desenhadas, pá, elas convidam ao menor esforço
- 6:53possível. O ecrã está ali Branquinho, o
- 6:56professor a pescar a prometer respostas imediatas para
- 6:58problemas complexos. É um design sem atrito nenhum.
- 7:02O fim do atrito é o grande modelo de negócio das
- 7:05tecnológicas do século 21. E é precisamente por ser tão
- 7:08fluido e sedutor que nós precisamos desse autocontrolo.
- 7:12O ser humano é, por natureza, uma máquina de poupar energia.
- 7:16Se houver um atalho, nós vamos por lá.
- 7:18Vamos sempre por lá. O que nos transporta das
- 7:20virtudes Morais para os riscos práticos que as nossas Fontes
- 7:24identificam? Os investigadores mapearam 5
- 7:27riscos muito reais que decorrem dessa falta de atrito.
- 7:30O primeiro é o que eles chamam de efeito de inversão ou
- 7:33invergion effects no original. Esse conceito é fascinante
- 7:37porque descreve de forma perfeita o que acontece quando o
- 7:40aluno cede a essa atalho, o aluno acaba por processar a
- 7:44informação de uma forma incrivelmente superficial.
- 7:46Completamente superficial. Quer dizer, em vez de ler um
- 7:49texto denso, de 10 páginas e extrair o significado com
- 7:53esforço, ele vai à máquina e pede, dá me aí 3 pontos
- 7:56principais em tópicos. O volume de informação até
- 8:00parece o mesmo, mas a profundidade da aprendizagem e o
- 8:03esforço cai em apic. E o perigo desse processamento
- 8:06assim tão raso é que cria um hábito terrível, quando o aluno
- 8:10se habitua a receber a informação, já toda mastigada e
- 8:13formatada, ele entra logo no segundo risco que os
- 8:15investigadores mapearam. Que é a preguiça meta cognitiva,
- 8:19certo? Pois e este é um estado muito
- 8:21perigoso, onde desaparece o questionamento.
- 8:25A resposta gerada pelo GPT ChatGPT, por exemplo, tem um tom
- 8:29tão autoritário e está tão bem escrita que o aluno simplesmente
- 8:34suspende a sua capacidade de investigar.
- 8:37Deixa de pensar sobre como é que chegou àquela conclusão.
- 8:40Exato. Perde a reflexão sobre o próprio
- 8:42processo de pensamento. A resposta da IA passa a ser
- 8:46aceite como uma verdade absoluta só porque lá está.
- 8:49Tem uma gramática impecável. O que nos atira logo de cabeça
- 8:52para um dos problemas técnicos mais falados hoje em dia.
- 8:55Se o aluno sofre dessa tal preguiça meta cognitiva e aceita
- 9:00tudo como verdade, pá, o que é que acontece quando a máquina
- 9:03decide inventar factos? É o desastre.
- 9:05Porque nós sabemos bem que os modelos de linguagem não têm
- 9:09qualquer compromisso com a verdade, eles são só motores de
- 9:12probabilidade de estatística. Adivinhar a próxima palavra.
- 9:15Exatamente. E aí aí que chegamos ao terceiro
- 9:18risco, que é o cenário perfeito para a desinformação através das
- 9:23famosas alucinações, os modelos genertivos erram.
- 9:27E o pior é que erram com uma confiança inabalável.
- 9:30São mentirosos muito convictos. Muito convictos, podem citar
- 9:34autores que nunca nasceram, inventar estudos científicos Do
- 9:37Nada e construir argumentos lógicos baseados em premissas
- 9:41totalmente falsas. Se o estudante perdeu a
- 9:43musculatura do pensamento crítico, como falávamos há
- 9:46pouco, ele nunca vai verificar as Fontes a máquina torna, se
- 9:49apenas o motor de validação de informações falsas.
- 9:52É assustador, mas aqui, espera aí, deixa me fazer um bocadinho
- 9:56de Advogado do Diabo e trazer uma perspetiva diferente para a
- 9:59mesa. Força.
- 10:00As Fontes mencionam um quarto risco, que é o deslocamento do
- 10:04esforço cognitivo essencial, ou seja, a ideia de que a máquina
- 10:08assume a pesquisa e a síntese. No entanto, não passamos as
- 10:12últimas décadas a dizer que automatizar processos
- 10:15aborrecidos era o grande caminho para o progresso.
- 10:18Sim, é o argumento comum. Se aí há fizer a parte pesada e
- 10:22entediante de cruzar dados e estruturar frases e se não devia
- 10:26libertar a nossa mente humana para ter ideias maiores, mais
- 10:29criativas e estratégicas. Eu percebo a questão, esse
- 10:33argumento da libertação criativa é muito atrativo, sem dúvida.
- 10:37Mas os barra num princípio fundamental da psicologia da
- 10:41aprendizagem que os autores dos guiões sublinham e a diferença
- 10:45entre uma carga cognitiva que é inútil e a chamada carga
- 10:48cognitiva Germana. Germana.
- 10:50Ah, é a carga essencial. A ideia é que nem toda a
- 10:54dificuldade é um obstáculo que deve ser removido.
- 10:57Ah, ou seja, é aquele esforço que nós não podemos de todo
- 11:01delegar noutra pessoa ou numa máquina.
- 11:05Exatamente o próprio ato de estruturar a frase de lutares
- 11:09com as palavras de tentares ligar um novo conceito àquilo
- 11:13que tu já sabias antes. Tudo isso causa uma frustração,
- 11:16mas é uma frustração produtiva. Percebam.
- 11:20Esse esforço, que muitas vezes nos parece apenas de trabalho
- 11:23chato, há uma perda de tempo, é o que cria as sinapses no
- 11:26cérebro, é o que gera aprendizagem profunda e
- 11:29duradoura. Pensa, por exemplo, no treino
- 11:32físico, OK, ninguém contrata um assistente para ir levantar
- 11:36pesos no ginásio em seu lugar, esperando ficar com músculos no
- 11:39final da semana. Pois não?
- 11:40Pois não? Era bom, mas não funciona.
- 11:42O atrito mental de analisar e sintetizar não é um defeito do
- 11:46sistema educativo, é o próprio processo formativo.
- 11:49Quando nós deslocamos esse esforço para AIA, os nossos
- 11:52músculos cognitivos atrofiam. Essa imagem do ginásio é muito
- 11:56poderosa. É a ideia de que a frustração
- 11:59diante da página em branco não é uma falha de produtividade.
- 12:02É literalmente a ginastica mental a acontecer se a máquina
- 12:06levanta o peso por nós, a máquina que fica cada vez mais
- 12:09musculado e inteligente. E nós ficamos estagnados.
- 12:12Precisamente, e isso conduz logo ao quinto e último risco
- 12:16apontado pelos investigadores, que é a redução da presença da
- 12:20social. A frieza da máquina.
- 12:22Sim, a aprendizagem é e sempre foi, ao longo da história, um
- 12:26ato social. É no diálogo de corredor,
- 12:28naquela troca de olhares, de confusão numa sala de aula ou
- 12:31num debate aceso sobre uma ideia, que o conhecimento se
- 12:34consolida de verdade. E se substituirmos isso por uma
- 12:37janela de chat? Desvalorizamos a figura do
- 12:39professor e isolamos o aluno. A educação perde a sua dimensão
- 12:43mais humana. Ficam só interações frias com
- 12:46uma máquina de respostas infinitas.
- 12:48É um Panorama complicado e sabendo que corremos todos estes
- 12:53riscos. Pá.
- 12:54Desde o atrofio cerebral. Até o isolamento social.
- 12:58Como é que capacitamos as pessoas para navegar nestas
- 13:01águas? Porque parece me que há aqui uma
- 13:03enorme confusão entre saber utilizar a tecnologia e saber
- 13:07pensar sobre ela. Os professores ouvem
- 13:10constantemente que precisam de apostar na literacia digital dos
- 13:13alunos, mas as nossas Fontes apontam que isso já não chega.
- 13:16Pois não? Não de todo.
- 13:18A distinção que os investigadores fazem entre a de
- 13:20literacia digital e literacia em deliberação ética, muda
- 13:25completamente o paradigma. Explica me lá essa diferença?
- 13:28Bem, a literacia digital no seu âmago é mecanicista é apenas a
- 13:33capacidade de interagir com o software, ou seja, um estudante
- 13:37pode saber criar comandos sofisticados, os chamados
- 13:40prompts. Aplicar parâmetros complexos e
- 13:44integrar diferentes aplicações de a.
- 13:46Do ponto de vista digital, é um sobre dotado um cromo dos
- 13:50computadores. Exato, mas, ao mesmo tempo, esse
- 13:53talento todo pode ser usado para propósitos completamente
- 13:56desastrosos se não houver bússola moral.
- 14:00É como dar um martelo de alta precisão a uma pessoa sem lhe
- 14:02explicar o que é que deve ou não ser partido na sala.
- 14:05Não é a. Analogia do martelo é a
- 14:07certeira. Esse estudante com elevada
- 14:10literacia digital, mas com zero literacia ética, pode usar as
- 14:14suas capacidades para falsificar autorias, pode manipular
- 14:18resultados para contornar sistemas de plágio da escola ou
- 14:22introduzir enviesamentos deliberados num projeto.
- 14:25E a literacia ética vem travar isso.
- 14:28Vem a literacia em deliberação ética é o que permite decidir
- 14:33como interagir com a tecnologia de forma moralmente responsável.
- 14:37Ponderando sempre o impacto das nossas ações na comunidade.
- 14:41E no meio dessa deliberação ética toda, há um conceito
- 14:45mencionado nos guiões que me pareceu honestamente uma lufada
- 14:49de ar fresco, especialmente no mundo tão polarizado em que
- 14:52vivemos hoje. Falo do princípio da Caridade.
- 14:56Como é que nós ensinamos um jovem a lidar de forma
- 14:58construtiva com perspetivas contrárias?
- 15:01Especialmente quando são atiradas para um ecrã por um
- 15:03algoritmo. Hum, o princípio da Caridade é
- 15:07uma regra clássica da argumentação filosófica, mas que
- 15:10agora ganha uma nova urgência na era da inteligência artificial.
- 15:14Essencialmente dita que antes de criticarmos a ideia do outro, ou
- 15:18neste caso, o texto que foi gerado por um modelo, devemos
- 15:22interpretar essa posição na sua forma mais forte, mais coerente
- 15:26e mais racional possível. Em vez de atacarmos logo a
- 15:29fraqueza. Exato.
- 15:31O instinto nas redes sociais é procurar a falha mínima e
- 15:35construir logo um espantalho argumentativo para atacar e
- 15:39ridicularizar. O princípio da Caridade exige o
- 15:42oposto, requer uma abertura genuína.
- 15:45O aluno aprende a perguntar se a si mesmo, qual é a intenção mais
- 15:49válida por trás desta resposta da IA?
- 15:52Haverá aqui algum ponto de vista que eu não considerei antes de
- 15:56rejeitar isto logo à partida. É, no fundo, o exercício de
- 15:59empatia intelectual que antecede a crítica.
- 16:02Muito giro, mas para que o aluno chegue a esse ponto de
- 16:05maturidade, o professor tem de desenhar a experiência de
- 16:07aprendizagem de forma completamente nova.
- 16:10Sem dúvida. E é aqui que os investigadores
- 16:12propõem a evolução de um modelo que já é muito conhecido na
- 16:15pedagogia OTPACK para o novo AITPAC.
- 16:20Como é que isto transforma o planeamento prático de uma aula?
- 16:22Imagina, por exemplo? Uma aula sobre o ciclo da água.
- 16:25Bom, o modelo tepeca original focava se na intersecção entre 3
- 16:31conhecimentos, o tecnológico, o pedagógico e o de conteúdo.
- 16:35Ou seja, o professor tinha de saber a matéria do ciclo da
- 16:38água, saber como explicá la adequadamente aos miúdos daquela
- 16:41idade e escolher a ferramenta certa, tipo um vídeo ou um
- 16:44quadro interativo. Exatamente agora, com a
- 16:47transição para OIT pack, os investigadores adicionaram.
- 16:51A camada da inteligência artificial a todos estes
- 16:54cruzamentos de conhecimento. Mas a verdadeira inovação deste
- 16:57modelo não é só o AI, é que ele envolve tudo isto num domínio
- 17:02envolvente e obrigatório, dedicado inteiramente à ética.
- 17:05O que significa que o planeamento da aula já não acaba
- 17:08no momento em que o professor diz pronto, vou usar um chatbot
- 17:11para gerar um quiz interativo sobre a evaporação.
- 17:14Pois não, a camada ética obriga o professor a fazer perguntas
- 17:17muito difíceis nos bastidores. Antes de chegar à sala.
- 17:20Perguntas como quê? Do género.
- 17:22Será que os dados pessoais dos meus alunos estão realmente
- 17:26seguros nesta plataforma gratuita que eu escolhi?
- 17:29Será que a linguagem gerada por este bote tem algum viés de
- 17:33género quando dá exemplos de cientistas?
- 17:36E será que todos os alunos têm internet suficiente em casa para
- 17:40prolongar este exercício? A vida de quem assina torna se
- 17:44incrivelmente mais exigente. E não fica por aí, porque não
- 17:47basta fazer estas perguntas no planeamento em casa, é preciso
- 17:51trazer estas inquietações para dentro da sala de aula.
- 17:55A literacia ética não se ensina apenas com manuais teóricos.
- 17:58Maçadores ensina se pela modelação prática, o professor
- 18:02precisa de pensar em voz alta à frente dos alunos.
- 18:06Esse detalhe pareceu me fantástico quando li.
- 18:09Basicamente, em vez de trazer o exercício já todo cozinhado de
- 18:12casa, o professor abre a ferramenta em frente à turma
- 18:15inteira e narra o seu raciocínio ético.
- 18:17Sim, exatamente. Diz qualquer coisa, como?
- 18:21Bem, vamos pedir a esta ferramenta uma imagem de uma
- 18:24reunião de grandes líderes históricos, mas reparem no
- 18:27comando que eu estou a escrever. Porque é que acham que não deve
- 18:30ser demasiado genérico neste prompt.
- 18:32O que é que o algoritmo nos vai mostrar se não formos cuidadosos
- 18:35com a representação cultural? É O Mestre a mostrar a
- 18:38engrenagem do pensamento. E ao modelar esse questionamento
- 18:41ali em tempo real, o educador está a combater diretamente
- 18:45aquela preguiça, meta cognitiva de que falámos há pouco, está a
- 18:48provar aos alunos que a interação com AIA exige uma
- 18:51desconfiança saudável e muita intencionalidade.
- 18:54O aluno percebe, finalmente, que o trabalho mais importante
- 18:57acontece antes de pressionar a tecla enter e depois de ler a
- 19:01primeira resposta. Nunca durante aquele
- 19:03milissegundo em que o servidor processa a informação.
- 19:06Nunca. Mas mesmo que nós consigamos
- 19:09cultivar esta maravilha ética toda na sala de aula, há um
- 19:12problema gigantesco à nossa espera no final do período
- 19:15escolar, a famosa crise da avaliação.
- 19:18No mundo onde uma máquina escreve uma resposta brilhante
- 19:21sobre qualquer tema, no tempo que nós demoramos a beber um
- 19:24copo de água, o que é que estamos realmente a testar
- 19:26quando pedimos um trabalho escrito para fazer em casa?
- 19:29Pois a dura realidade é que estamos a testar, muitas vezes,
- 19:32apenas a capacidade que o aluno tem de copiar e colar.
- 19:35O método de avaliação focados exclusivamente no produto final
- 19:39descrito entrou em rutura total. E os guiões abordam este pânico
- 19:44generalizado dos professores, propondo um regresso às bases.
- 19:47Dar um passo atrás. Sim.
- 19:49Antes sequer de escolhermos o formato do teste, temos de
- 19:53responder a 3 perguntas fundamentais, primeiro, quais
- 19:57são os nossos objetivos reais de aprendizagem?
- 19:59Segundo. Que tipo de avaliação, formativa
- 20:02ou somativa, serve melhor esse objetivo?
- 20:05E terceiro, que é a grande pergunta que AIA nos impõe, por
- 20:09que motivo é que nós necessitamos sequer de
- 20:12tecnologia neste processo de avaliação específico?
- 20:16E sugere que o formato da avaliação tem que sofrer uma
- 20:19mutação drástica nas escolas. Se o professor continua a pedir
- 20:22formatos que são perfeitamente automatizáveis, como o
- 20:25tradicional resumo de um livro, o sistema esmorona se.
- 20:29Temos de transitar para o que os autores chamam de avaliações
- 20:32autênticas. Exato.
- 20:34E a avaliação autêntica foca se essencialmente no processo e na
- 20:39capacidade de interrogação do aluno, e não no PDF final.
- 20:43Por exemplo, em vez de pedir o ensaio tradicional, o professor
- 20:47pode até pedir o ensaio, mas o momento em que se dá a nota é
- 20:50numa defesa oral em sala de aula, cara a cara.
- 20:53Onde o aluno tem de cruzar as ideias que estão escritas com
- 20:56novos conceitos dados ali no momento?
- 20:58Isso. Ou então num cenário em que se
- 21:00incentiva o uso ativo da IAA, tarefa pode ser invertida.
- 21:04O aluno usa a máquina para gerar um texto sobre um evento
- 21:07histórico e o seu trabalho real. Aquilo que vai ser avaliado é
- 21:11entregar uma revisão crítica implacável desse mesmo texto.
- 21:15O aluno torna se o editor do texto.
- 21:18Ele tem de identificar as alucinações da máquina.
- 21:21Corrigir falhas lógicas, apontar onde estão em enviesamento.
- 21:25Essa inversão de papeis é brilhante.
- 21:27O aluno deixa de ser impressora humana e passa a ser, sei lá, o
- 21:31auditor de qualidade intelectual da máquina.
- 21:34Uma excelente forma de opor e para ajudar as escolas a
- 21:37decidirem quando e como aplicar AIA nestas tarefas todas sem
- 21:41correrem riscos desnecessários, os investigadores trazem uma
- 21:45ferramenta visual muito prática, que traduz as complexidades da
- 21:48ética para o dia a dia. É o semáforo.
- 21:51Do risco ético, pedagógico. O semáforo do risco, como é que
- 21:55isso funciona? É um instrumento de diagnóstico,
- 21:58ele divide as condições de implementação da IA na escola em
- 22:01níveis desde o nível zero até o nível 4 e permita a direção da
- 22:05escola avaliar se a instituição tem a maturidade necessária para
- 22:08avançar com uma atividade ou se deve parar imediatamente.
- 22:11Vamos trazer isso para a nossa realidade.
- 22:13Imagina uma escola pública portuguesa comum?
- 22:16O que é que seria o nível 4, ou seja, o vermelho vivo?
- 22:18O risco inaceitável. Bem, um cenário de nível 4
- 22:23acontece quando, por exemplo, um professor cheio de boas
- 22:25intenções, diz a uma turma do oitavo ano na sexta-feira Malta
- 22:30para o trabalho de segunda. Usem uma inteligência artificial
- 22:33qualquer em casa para vos ajudar a escrever o guião da
- 22:36apresentação. UI, onde é que está o perigo?
- 22:39UI. O risco aqui é máximo, não há
- 22:42qualquer capacitação técnica nem ética prévia.
- 22:45O professor não sabe que plataformas vão ser usadas, os
- 22:48alunos que são menores de idade vão expor os seus dados pessoais
- 22:52e possivelmente os seus próprios textos a plataformas que vão
- 22:56treinar os modelos com essa informação privada.
- 22:58Para além de que os alunos sem acesso a uma boa internet em
- 23:01casa ou a bons computadores ficam logo prejudicados.
- 23:05Exato, há uma vulnerabilização de direitos dos menores, há uma
- 23:09total falta de equidade e uma ausência completa de andaimes
- 23:13pedagógicos. É o caos absoluto, é o vermelho
- 23:16no semáforo. E, por outro lado, o que seria o
- 23:19nível zero? O verde brilhante.
- 23:21O cenário perfeitamente seguro. No nível zero, a mesma escola
- 23:26forneceria um ambiente seguro, talvez uma versão educacional de
- 23:30uma plataforma de IA que seja fechada, onde os dados
- 23:34garantidamente não são partilhados externamente.
- 23:37Os professores receberam formação específica antes?
- 23:40O trabalho que é pedido tem regras claríssimas sobre o que
- 23:44AIA pode e não pode fazer. E muito importante, todos os
- 23:48alunos realizam a tarefa na biblioteca da escola, onde há
- 23:51computadores em número igual para todos.
- 23:53Pronto assim, o risco ético e pedagógico é quase inexistente,
- 23:57porque intencionalidade humana garantiu, logo à partida, as
- 24:00condições operacionais e Morais daquele exercício.
- 24:03Nem mais. Isto muda a perspetiva
- 24:05completamente. Fica claro que a pergunta que os
- 24:08diretores e os educadores devem fazer.
- 24:10Não é a velha questão binária do os nossos alunos podem não não
- 24:14usar os 7 GPTA. Pergunta estruturante tem de
- 24:17ser, para que é que precisamos da IA nesta tarefa em concreto?
- 24:21E o que ganhamos ou perdemos em profundidade de raciocínio com
- 24:24essa inclusão? Porque, como as Fontes insistem
- 24:28repetidamente, a avaliação e a incorporação de tecnologia nunca
- 24:33são atos meramente técnicos, são escolhas profundamente políticas
- 24:37e éticas. A forma como avaliamos o aluno
- 24:41comunica lhe de forma muito direta o que é que a escola e a
- 24:45sociedade realmente valoriza nele.
- 24:48Se continuamos a premiar o produto final perfeito em
- 24:51imediato? Então promovemos AIA, se
- 24:53começamos a premiar o processo confuso, imperfeito, difícil e
- 24:58profundamente reflexivo de chegar a uma ideia própria,
- 25:02então promovemos a aprendizagem humana.
- 25:05Fechando aqui o círculo desta nossa exploração.
- 25:08Começamos por ver que o ensino contemporâneo já não passa por
- 25:12erguer muros altos em torno da escola para barrar o sinal aos 7
- 25:16GPTA evolução passa por cultivar aquelas virtudes tecno Morais da
- 25:22chanonvalor, a prudência para saber quando desligar as
- 25:25máquinas, a justiça para garantir acesso equitativo a
- 25:29todos e o autocontrolo para resistir à tentação do atalho
- 25:33cognitivo. Percorremos também os perigos
- 25:35invisíveis da preguiça meta cognitiva.
- 25:38E do efeito de inversão, e entendemos a diferença fulcral
- 25:42entre a carga cognitiva inútil e o tal esforço essencial que
- 25:46constrói os músculos do nosso pensamento crítico.
- 25:49E concluímos que a literacia em digital permite nos interagir
- 25:53com as ferramentas, é verdade, mas só a literacia em
- 25:56deliberação ética nos permite governá las a necessidade de
- 26:00abordar a tecnologia com Caridade argumentativa e de
- 26:03planear as aulas com a camada ética do modelo Haiti PAC.
- 26:08Bem, já não é uma sugestão para o futuro.
- 26:10É uma exigência do presente. Exato.
- 26:13E o semáforo do risco mostra nos que o espaço para aquele
- 26:16improviso inocente nas escolas acabou, definitivamente.
- 26:21No fundo, todas estas complexidades, sejam teóricas ou
- 26:25práticas, desembocam numa conclusão que é partilhada por
- 26:29todos os investigadores envolvidos nestes guiões, sim.
- 26:32A conclusão inegável de que o elemento humano é
- 26:35insubstituível. A presença social de quem ensina
- 26:38a empatia do professor perante as dificuldades da turma e a sua
- 26:42posição firme como agente moral nunca foram tão cruciais como
- 26:46hoje. A tecnologia não é nem nunca
- 26:49será um professor. É apenas um instrumento que tem
- 26:52de submeter aos valores humanos e aos propósitos educativos que
- 26:56nós definimos. A escola é e tem de continuar a
- 26:59ser um Reduto de humanidade. Voltando àquela imagem com que
- 27:02começámos o nosso episódio, o professor, perante um ensaio
- 27:05impecável de autoria desconhecida, deixamos no ar um
- 27:08pensamento provocador para quem nos ouve refletir ao longo do
- 27:12dia, se a inteligência artificial foi efetivamente
- 27:15criada para assumir o fardo de produzir e organizar todas as
- 27:18respostas do mundo de forma instantânea, talvez o verdadeiro
- 27:22papel da educação do futuro. Deixe de ser ensinar as pessoas
- 27:25a memorizar e a responder corretamente.
- 27:28Talvez a nossa missão principal passe agora a ser ensinar as
- 27:30mentes humanas a fazerem as perguntas incisivas e
- 27:33desconfortáveis que as máquinas nem sequer sabem que precisam de
- 27:36ser feitas. O que é que isso muda na forma
- 27:38como encaramos as nossas aprendizagens?
- 27:40Amanhã de manhã? Muito obrigado por nos
- 27:42acompanharem nesta análise profunda.
- 27:44Até à próxima. Até à próxima.