Latest / Na Mesa com Well / Até o Fim: Mehdi Dibaj — Condenado por não negar a Cristo
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- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o el lugar, para quem busca
- 0:03profundidade e historicidade de forma acessível na correria do
- 0:07dia a dia. E este é o nosso novo episódio
- 0:10da série até o fim, mártires e testemunhas que permaneceram
- 0:14quando seguir Cristo. Custou tudo com o princípio
- 0:17editorial de não romantizar a morte e não fabricar heróis,
- 0:21investigando homens e mulheres reais que descobriram o quanto
- 0:25sua fé realmente valia. Apresentamos.
- 0:29Medi digbas, condenado por não negar a Cristo.
- 0:33Hum, imagina é estar trancado num cubo 1^(3) úmido,
- 0:39completamente escuro, de tipo exatamente 1 m de largura, um de
- 0:47comprimento e um de altura. Nossa. 1 m² de.
- 0:50Tudo. Não tem espaço para ficar de pé
- 0:54e também não tem espaço para deitar esticado, né?
- 0:56As suas pernas e os seus braços ficam permanentemente
- 0:59encolhidos. Agora, para quem está
- 1:01acompanhando a gente, imagina ficar dentro dessa caixa por 2
- 1:05anos inteiros? Caramba, é, é sufocante.
- 1:08Só de tentar visualizar essa cena, sabe?
- 1:11Eu acho que a nossa tendência natural, quando a gente ouve a
- 1:13palavra mártir é a gente logo imagina um cenário de cinema,
- 1:18né? Sim.
- 1:19Total. Aquela coisa épica.
- 1:22Isso. Aquela coisa de Império Romano,
- 1:24a arena lotada, os leões. Tipo um herói de queixo erguido
- 1:28enfrentando a morte com uma trilha sonora heroica ao fundo.
- 1:32Mas é a história do médio de base destrói totalmente essa
- 1:36visão romantizada. É, joga a gente pra uma
- 1:39realidade bem mais fria. Muito mais fria, calculista e
- 1:43francamente aterrorizante, porque o martírio moderno não
- 1:47acontece sobre os holofotes. Ele acontece nesses corredores
- 1:51de uma de uma burocracia estatal que é projetada justamente para
- 1:55triturar vidas, sabe? Aham perfeitamente e para a
- 2:00gente entender a mecânica dessa máquina, né, que esmagou a vida
- 2:03do debagi, a gente tem que olhar para o cenário onde ele estava
- 2:07inserido. Certo.
- 2:08É, a gente tá falando aqui do Iran logo na esteira da
- 2:11revolução de 1979? Que foi um período meio
- 2:15turbulento, né? Muito, porque teve aquela
- 2:18euforia. Inicial tipo, a revolução
- 2:21derrubou a monarquia do chá. EEE veio meio que embalada numa
- 2:27promessa utópica de Liberdade de justiça social.
- 2:31Só que essa Esperança foi muito rapidamente sequestrada, digamos
- 2:37assim, e esmagada por uma teocracia implacável.
- 2:41Que era liderada pelo aiatolá comeni.
- 2:44Espera, vamos é, vamos analisar isso com calma, porque acho que
- 2:47esse ponto é bem crucial para o nosso dossiê.
- 2:49Como que uma promessa de Liberdade se transforma tão
- 2:54rápido num sistema de perseguição assim tão absoluta?
- 2:57É que ocorre uma fusão totalitária.
- 3:00Sabe o estado? Ele se funde com a religião de
- 3:03uma forma tão intrínseca que a teologia vira o código penal.
- 3:08Uau a teologia vira lei. Exato.
- 3:11Então, a partir desse momento, discordar de um princípio
- 3:15religioso é não é mais só uma heresia moral, passa a ser
- 3:20considerado alta traição contra a pátria.
- 3:24Entendi e aí a inteligência do país entra na jogada?
- 3:27Isso o aparato de inteligência que é o temido Ministério da
- 3:31inteligência do Irã, o mois. Eles pararam de policiar só
- 3:36aqueles crimes comuns ou, sei lá, espionagem Internacional.
- 3:40Eles passaram a policiar as consciências.
- 3:43Eles precisavam garantir tipo um monopólio absoluto do
- 3:46pensamento. E é exatamente aí que entra o
- 3:49nosso personagem. O med divas.
- 3:51Isso ele era um cristão ex muçulmano.
- 3:55E pra lógica desse regime teocrático cara, um homem que
- 3:58muda de fé é uma ameaça existencial gigante.
- 4:02Porque tipo, prova que o controle deles tem falhas, né?
- 4:05Exatamente. Mostra que o controle do estado
- 4:08sobre a mente das pessoas não é absoluto.
- 4:10Mas é o que eu acho louco. É que o de bagi não era um
- 4:15rebelde armado. Ele não era um ativista político
- 4:19super perigoso. Nada disso.
- 4:21Não, de jeito nenhum. Pela descrição que a gente tem
- 4:24nas Fontes, ele era um homem super comum.
- 4:27Tipo, estava na faixa dos 60 anos, cabelos grisalhos, tinha
- 4:31uma barba espessa. Ele não acordou um Belo dia com
- 4:34a ambição de, Ah, avô desafiar o aiatolá e virar um símbolo de
- 4:38resistência. Longe disso.
- 4:40Pois é, ele simplesmente se recusou a assinar um formulário
- 4:43burocrático onde ele teria que declarar uma mentira sobre o que
- 4:47ele realmente acreditava. E isso é essência do que a
- 4:50Hannah Arendt chamava de banalidade do mal.
- 4:52Né, nossa total. O terror muitas vezes ele não
- 4:56vem de um vilão clássico. Gritando ordens sádicas.
- 4:59Ele vem de funcionários atrás de uma mesa com carimbos, papéis, o
- 5:04regime. Ele não queria transformar o de
- 5:07baixo num herói público. Porque heróis inspiram revoltas,
- 5:10né? Exato.
- 5:11Regimes totalitários sabem muito bem que mártires que morrem em
- 5:15praça pública geram rebelião. O que eles querem de verdade é o
- 5:20homem quebrado. Que assine o papel.
- 5:22Isso alguém que assine uma retratação para que o estado
- 5:25possa pegar isso e usar como propaganda para dizer, tipo,
- 5:28vejam, a ideologia dele era fraca, ele cedeu.
- 5:31E isso explica muito, é muito do que aconteceu logo a seguir
- 5:35nessa linha do tempo, porque em 1983 ele é preso.
- 5:39E ele fica a 68 dias sob essa acusação de difamar o caimeni.
- 5:45Só que a verdadeira armadilha não foi uma operação policial
- 5:48digna de filme de ação. Foi tipo um procedimento
- 5:51puramente administrativo. Sim, foi bizarro.
- 5:54Em 84, ele vai até uma repartição pública só para
- 5:57resolver umas questões sobre uma fiança de um terreno.
- 6:00Era Para Ser só 11 balcão de atendimento, bater um carimbo e
- 6:03voltar para casa. Mas, em vez disso, ele é detido
- 6:06ali mesmo. E desaparece.
- 6:08Exato, ele desaparece no sistema prisional deles por nada menos
- 6:12que 9 anos. E aí a galera pode se perguntar,
- 6:15né, por que mantê lo 9 anos sem um julgamento formal de tipo
- 6:20morte imediata? Aham por quê?
- 6:22Porque a tortura burocrática ela é metódica.
- 6:25Quando eles percebem que é que a prisão física em si não vai
- 6:29arrancar aquela confissão que eles tanto querem, eles
- 6:31simplesmente mudam o alvo. Covardia total.
- 6:35Muita. Se o homem não cede pelo próprio
- 6:37sofrimento, eles atacam a base da vida dele, eles vão atrás da
- 6:41família. Cara, é esse momento do dossiê.
- 6:44Me deixou muito chocada, porque a esposa do dibagi é a Zizi
- 6:49bipagi. Ela se torna o novo foco do
- 6:52regime. Sim, eles encostam ela na parede
- 6:56com o ultimato monstruoso. Ela tinha que escolher ou ela
- 7:00renunciava publicamente à fé dela.
- 7:03Ou seria condenada à morte por apedrejamento?
- 7:06É brutal. Eu tento assim, eu fico tentando
- 7:08me colocar no lugar dessa mulher e eu simplesmente não consigo
- 7:12processar, sabe o nível de terror psicológico de ouvir um
- 7:16negócio desses, vindos do próprio estado?
- 7:19É uma violência que destrói a pessoa por dentro antes de ter
- 7:23qualquer agressão física, né? O estado cria um dilema que é
- 7:28impossível de resolver. E sobre essa pressão esmagadora,
- 7:32a azizi cede, ela quebra. É compreensível, né?
- 7:36Uma pressão desumana. Muito.
- 7:39E aí a engrenagem do estado entrar em ação com força total
- 7:43para pagar as instâncias daquela família uhum.
- 7:45Ela é forçada a negar o cristianismo.
- 7:48O casamento dela com o medi é oficialmente anulado por decreto
- 7:52e. E cara, o detalhe mais cruel de
- 7:54todos, ela é forçada a abandonar os 4 filhos pequenos.
- 7:58Nossa wiza a Marion, o Youssef e a ferester.
- 8:02Isso mesmo e, para piorar, ela ainda é entregue a um casamento
- 8:06arranjado com um muçulmano que foi aprovado pelo governo.
- 8:09Eles tipo reescreveram literalmente a realidade social
- 8:13e familiar de um homem com umas 2 canetadas.
- 8:16Os filhos se tornaram órfãos de pais vivos, assim, da noite para
- 8:21o dia. Exatamente.
- 8:23A mãe é levada e o pai fica trancado.
- 8:26E aqui eu preciso te interromper rapidinho, porque a lógica
- 8:30humana diz que qualquer um enlouqueceria numa situação
- 8:32dessas, né? Com certeza.
- 8:34Se sei lá, imagina estar numa prisão iraniana e receber a
- 8:38notícia de que sua esposa foi tirada de você, forçada a casar
- 8:41com outro cara, e os seus filhos estão totalmente desamparados, a
- 8:45mente simplesmente desmorona, certo?
- 8:48Deveria desmoronar, né? O mó contava exatamente com
- 8:51isso. O grande objetivo deles era a
- 8:53aniquilação completa da identidade do dibage.
- 8:56Só que a resposta dele a tudo isso é, é o que chocou até os
- 9:00guardas mais cascas grossas. Lá da prisão de even tem um
- 9:04colega de cela que sobreviveu e ele contou uma história que
- 9:07cara, desafia a compreensão. Ele relatou que enquanto os
- 9:11filhos ocasionalmente conseguiam visitar o pai e viam aqueles
- 9:14guardos, espancando pessoas e agindo com uma brutalidade.
- 9:18Extrema, sim. O de bajá mantinha uma postura
- 9:22que era intocável. Eu li essa parte, ele caminhava
- 9:24pelo pátio de even cantando, né? Exato, cantando o.
- 9:28Relato fala de um rosto sereno que ele estava frequentemente
- 9:31sorrindo. Ele ficava caminhando pelo
- 9:34pátio, recitando uns hinos antigos em farcy e em inglês, e
- 9:39ele agradecia em voz alta por poder ver as Montanhas de Teerã
- 9:43pelas pequenas flores que nasciam ali perto dos muros.
- 9:47Sério, como que isso é possível? Pois é, e essa atitude, cara,
- 9:51isso aterroriza os torturadores? Deve bugar a mente deles.
- 9:55Total, porque o poder de um regime autoritário mora na
- 9:59crença de que eles controlam o corpo e a mente das pessoas.
- 10:02Uhum. Aí quando eles aplicam a maior
- 10:04dor possível, tiram a família, a dignidade, a Liberdade.
- 10:09E o cara responde admirando uma flor e cantando, o estado é
- 10:14percebe o limite do próprio poder.
- 10:17Eles esbarram ali numa numa cidadela interior que ele
- 10:21simplesmente não tem ferramentas para invadir.
- 10:23O que, claro, obriga a burocracia mudar de método de
- 10:27novo, né? Se esse homem consegue encontrar
- 10:30Alegria no pátio, olhando para o céu e pra grama, bom, a solução
- 10:34do estado é simples, vamos apagar o céu.
- 10:36Exatamente isso. Vamos cortar qualquer estímulo
- 10:40visual ou auditivo que ele tenha.
- 10:42E é aí, gente, que a gente volta pra aquele cubo assustador que a
- 10:46gente mencionou lá no começo. A solitária Extrema, né?
- 10:49E não era só uma cela isolada comum.
- 10:52Esse espaço de 1 m³ não permite que o corpo descanse de jeito
- 10:57nenhum. Os músculos atrofiam, as
- 10:59articulações inflamam, muito por causa da umidade e daquela
- 11:03postura fetal forçada. Credo.
- 11:05Mas além dessa tortura física, toda a ciência, a psicologia,
- 11:10fala que a privação sensorial é. Projetada para fazer a mente
- 11:14devorar a si mesmo, aham porque, tipo, sem estímulo externo, sem
- 11:18luz, sem som nenhum, o cérebro começa a gerar alucinação, venha
- 11:23paranoia. E, eventualmente, rola uma
- 11:25dissociação da realidade. É um plano bem metódico, para
- 11:28quebrar a sanidade do indivíduo. Uma quebra metódica, sem dúvida.
- 11:31E olha, no começo, pelos relatos, parece que isso IA
- 11:35mesmo acontecer. Ele lutava é desesperadamente
- 11:38contra a insônia, pra não enlouquecer ali dentro daquele
- 11:41Breu, o de baixo tentava impor umas regras a si mesmo.
- 11:45Ele tentava criar estrutura. Né isso?
- 11:47Ele tentava manter horários rígidos de oração, tentava
- 11:51contar o tempo que, no fim das contas, é o que os manuais de
- 11:54resistência militar ensinam a fazer, né?
- 11:56Tentar manter o controle cognitivo através de uma rotina
- 12:00mental. Exato, mas a rotina num vazio
- 12:03absoluto. Assim ela eventualmente se
- 12:05esgota. Cara.
- 12:06O Salto surpreendente que rolou na mente e no espírito do de
- 12:10baixo naqueles 2 anos. Foi justamente o abandono dessa
- 12:14necessidade de controle. Sério, sim.
- 12:18Ele percebeu que ficar lutando contra a escuridão estava
- 12:21drenando as forças dele. Então a grande virada ali não
- 12:25foi uma técnica de sobrevivência que ele aplicou?
- 12:29Foi uma entrega total. Nossa.
- 12:31Uau ele relatou depois que ele parou de criar esses horários
- 12:34fixos de oração e passou a viver, tipo, num estado de
- 12:38comunhão contínua. Ele começou a gerar o próprio
- 12:41estímulo interno dele. Ah, preenchendo aquele vazio da
- 12:44cela com a convicção, a certeza de que Deus estava literalmente
- 12:48ali do lado dele. Ele pegou aquele isolamento
- 12:51absoluto e transformou na companhia mais intensa possível.
- 12:55Caramba, e essa explicação muda a perspectiva de tudo, porque
- 13:01não é que ele bloqueou a realidade?
- 13:03Ficou fingindo que não estava lá.
- 13:05Ele habitou aquele espaço de um jeito que o regime não conseguia
- 13:11entender nem detectar. Exato.
- 13:13E aí o estado percebeu que o plano falhou de novo.
- 13:16O que leva a gente pra um dos episódios mais mais surreais de
- 13:21toda essa trajetória? Eles ficaram tão desesperados,
- 13:24sabe, tão frustrados por não conseguirem quebrar a mente dele
- 13:29naquele cubo, que eles tentaram uma tática que é incrivelmente
- 13:34cínica. O teste do dentista.
- 13:36Ah, o teste do dentista é uma jogada clássica, né?
- 13:40De serviços de inteligência que eles chamam de negabilidade.
- 13:42Plausível. Aham, porque, como a execução
- 13:46formal de um cara que se recusava a ceder podia pegar
- 13:50muito mal, eles queriam que o problema se resolvesse sozinho.
- 13:53Mais fácil para eles, né? Com certeza.
- 13:56Então, o que eles fazem? Eles marcaram um tratamento
- 13:59dentário para o dibage. Numa clínica fora dos muros da
- 14:02prisão, uhum enviaram ele sozinho, sem escolta armada, sem
- 14:07algema, nada. A porta da rua estava
- 14:10literalmente aberta para ele. O que eles queriam, no fundo,
- 14:12era que ele tentasse fugir. Porque aí a narrativa muda
- 14:15completamente. Se ele fugisse, ele deixava de
- 14:19ser um prisioneiro de consciência e passava a ser só
- 14:22mais um fugitivo da justiça. E aí eles poderiam atirar nele
- 14:26nas ruas e o relatório oficial IA dizer é morto ao tentar
- 14:30escapar e pronto, caso resolvido.
- 14:33Perfeito? Exatamente essa lógica.
- 14:35O ônus da culpa passaria todinho para o prisioneiro, mas a
- 14:39integridade do dibage quebrou essa armadilha por dentro.
- 14:42Sim, ele saía, sentava na cadeira do dentista, recebia o
- 14:46tratamento de boa. E aí, no horário exato
- 14:50Combinado, o cara voltava e batia na porta da prisão para
- 14:53que os guardas deixassem ele entrar de novo.
- 14:55Inacreditável. Ele desarmou uma armadilha
- 14:58letal, simplesmente contendo a palavra dele, com o nível de
- 15:01honra que o próprio estado desconhecia totalmente.
- 15:04Cara, eu fico imaginando a perplexidade dos agentes abrindo
- 15:08a porta para aquele cara, sendo que eles torciam para ele nunca
- 15:11mais voltar. Sim, deve ter sido uma cena.
- 15:14É no mínimo patética para os guardas.
- 15:17Muito. Mas a paciência burocrática tem
- 15:20um limite, né? Quando destruir a família não
- 15:22funciona, quando o cubo lá de 1 m não enlouquece a mente e
- 15:27quando a armadilha da fuga do dentista também falha.
- 15:31Aí o estado finalmente tira aquela máscara administrativa
- 15:35fingida e parte pra brutalidade formal mesmo.
- 15:38E aí a gente chega. Em dezembro de 1993, o tribunal
- 15:41Islâmico de sari decide encerrar esse teatro todo.
- 15:47E o médio de base é formalmente levado a julgamento e, claro,
- 15:51sentenciado à morte. E a acusação oficial lá nos
- 15:54autos, ela é bem clara e direta, apostasia.
- 15:57Ou seja, abandonar a religião do estado.
- 16:00Isso e a punição para isso era inegociável.
- 16:03Era a execução. E de novo, de baixo, reage de um
- 16:07jeito que tipo desafia muito a compreensão humana, porque
- 16:10qualquer pessoa ali estaria implorando pela vida, chorando,
- 16:14tentando fazer um acordo de última hora.
- 16:16O que seria o natural, né? Sim, mas não.
- 16:19Ele escreve uma apologia, uma defesa teológica que é descrita
- 16:23como profunda, Serena, super estruturada.
- 16:27Ele chega ao ponto de pedir ao juiz que é por favor acelerasse
- 16:31a execução. O único favor.
- 16:33Que ele exigiu do tribunal ali foi o direito de usar Cruz dele
- 16:37no momento em que fosse morto, ele, tipo, já estava pronto para
- 16:41aquele Alívio final, sabe? É que, para ele, a morte ali
- 16:44tinha virado a porta de saída de um pesadelo que já durava há
- 16:47quase 10 anos e era a chance de finalmente encontrar aquele Deus
- 16:51com quem ele passava os dias na solitária.
- 16:53Exato. As coisas raramente seguem
- 16:55aquele fluxo que está previsto. Especialmente quando um ator
- 16:59externo decide intervir na história para quebrar essa
- 17:02Barreira do silêncio. Ah, sim, e é aí que entra em
- 17:06cena uma figura muito importante, o bispo armênio hike
- 17:11ofsepien mir, e o papel desse cara não pode ser subestimado
- 17:15nesse dossiê. Nem um pouco.
- 17:16O hike era o líder das assembleias de Deus no Irã e ele
- 17:20era um amigo bem próximo do dibage e ele sabia, é muito bem
- 17:26como que ditaduras operam. A escuridão é sempre a maior
- 17:29aliada de uma execução. Com certeza o sigilo protege o
- 17:33estado. Isso se o mundo inteiro não
- 17:36soubesse que o médio de bege estava para ser enforcado em
- 17:39breve ele seria morto ou, sei lá, numa madrugada qualquer IA
- 17:43virar só mais um número num arquivo empoeirado lá em Teerã.
- 17:46O bispo Reiki. Ele ele teve que fazer um
- 17:48cálculo de risco que era aterrador, cara.
- 17:51Ele sabia que se ele agisse publicamente, isso IA atrair a
- 17:55ira imediata e letal do mó. Uhum, ele estava colocando um
- 17:59alvo nas próprias costas. SIM, 1 alvo enorme.
- 18:02Mas ele chegou à conclusão de que o silêncio também a destruir
- 18:05o futuro de todos eles que viviam ali.
- 18:07Então ele tomou uma atitude drástica e que.
- 18:10Atitude, Hein? Usando ali uma rede de Contatos
- 18:13que incluía até é um guarda de origem Armênia que IA viajar
- 18:17para Teerã, o rei que conseguiu contrabandear cópias oficiais
- 18:21daquela sentença de morte. E daquela apologia belíssima que
- 18:24o de baixo escreveu de dentro da prisão de sali?
- 18:26E o mais incrível é que ele não guardou isso na gaveta, tipo,
- 18:30Ah, vou proteger aqui o Rai, que jogou uma Granada de luz em cima
- 18:35daquele regime. Ele vazou esses documentos
- 18:37oficiais todos para a imprensa Internacional, para órgãos das
- 18:41Nações Unidas e até pro Vaticano.
- 18:43Foi uma jogada de mestre. Foi estrondosa.
- 18:45A defesa do diba já acabou sendo publicada na íntegra.
- 18:49Num dos jornais mais influentes do mundo, que é o the times de
- 18:52Londres, assinada pelo jornalista Bernard levin, então
- 18:56pensa, o mundo inteiro subitamente estava olhando
- 19:01focado para uma pequena sala de tribunal lá no Irã.
- 19:04E essa pressão Internacional, ela cria um colapso imediato de
- 19:08relações públicas por regime, porque ditaduras se importam
- 19:13muito. Mas muito mesmo com a imagem que
- 19:16elas projetam internacionalmente.
- 19:17Principalmente quando envolve grana, né?
- 19:19Exato, especialmente quando tem interesses comerciais e
- 19:22diplomáticos em jogo. O constrangimento deles foi tão
- 19:25grande, mas tão grande, que a burocracia iraniana fez um
- 19:28negócio que é raríssimo de se ver.
- 19:31Eles recuaram. E aí no dia 16/01/1994 de forma
- 19:36super abrupta. Aquelas portas de ferro abriram
- 19:39e o mad foi libertado. Uau.
- 19:42Sabe? Esse é aquele exato momento que,
- 19:45se fosse num filme, começariam a subir os créditos finais com uma
- 19:48musiquinha bem alegre? Pois é, mas a gente sabe que a
- 19:51realidade tem uma textura muito, muito mais sombria, né?
- 19:56A Liberdade dele teve um preço de sangue.
- 19:58O estado até cedeu a pressão, mas eles não engoliram aquela
- 20:02humilhação e a conta chegou rápido demais. 3 dias.
- 20:06Meu Deus, foi apenas isso que durou aquela Alegria completa da
- 20:11Vitória. 72 horas depois do debas respirar o ar livre pela
- 20:15primeira vez, o bispo hayke aquele homem que orquestrou toda
- 20:19essa campanha Internacional. Sim, ele foi sequestrado à luz
- 20:23do dia cara nas ruas de terena, enquanto ele IA para aeroporto.
- 20:27E a forma como o estado lidou com o bispo expõe totalmente a
- 20:31hipocrisia. EAA brutalidade super covarde
- 20:37desse sistema deles, o corpo do rei que foi encontrado uns dias
- 20:41depois e ele foi executado com 26 facadas no peito. 26 é muito
- 20:48ódio, né? É bizarro, não teve tribunal,
- 20:51não teve juiz, muito menos direito de defesa.
- 20:56O aparato de inteligência só tipo mandou um esquadrão da
- 20:59morte apagar a voz que tinha ousado expor o regime deles pro
- 21:03mundo. É o que a gente pode chamar de
- 21:05lei da compensação do terror. Eles perderam aquele prisioneiro
- 21:09famoso, então eles foram lá e eliminaram a liderança que
- 21:12salvou ele. Isso envia uma mensagem bem
- 21:15macabra para o resto da comunidade lá.
- 21:17Tipo assim é. Podemos até ter soltado ele
- 21:20hoje. Mas a gente ainda controla a
- 21:23vida de todos vocês. E o peso psicológico dessa troca
- 21:26macabra acabou caindo todo sobre os ombros do dibagi, né?
- 21:30Com certeza. Aquele homem que era inabalável,
- 21:33que sorria para os guardas malvados, que aguentou 2 anos
- 21:36numa caixa úmida, cara, ele foi simplesmente esmagado pela culpa
- 21:40do sobrevivente. Dá para entender o porquê?
- 21:42Dá tem o relato do funeral do amigo que ele desabou em prantos
- 21:46e disse a frase que acho que define a dor daquele momento,
- 21:49sabe? Ele falou, eu deveria ter
- 21:51morrido? Não.
- 21:52O irmão heik. A Liberdade dele tava manchada
- 21:56com o sangue da pessoa que ele amava.
- 21:58E essa é uma ferida que não cicatriza fácil, mas a tragédia
- 22:03ainda aguardava um ato final. Infelizmente.
- 22:06Porque a grande lição sobre regimes autoritários é que
- 22:10quando aquela pressão Internacional diminui, quando as
- 22:13câmeras dos correspondentes estrangeiros.
- 22:15É, vou embora para cobrir a próxima crise global.
- 22:18A burocracia volta a operar nas sombras, né?
- 22:21Paciente? Vingativa.
- 22:23A soltura ali em janeiro foi só um recuo estratégico.
- 22:26Não foi uma absolvição real. E isso joga a gente direto para
- 22:30junho de 1994, cara. Tinha um passado, meros 5 meses
- 22:33desde que ele tinha sido solto. A poeira, assim, parecia que
- 22:37estava sentando. O de baixi estava com os olhos
- 22:43voltados pro futuro. Ele estava planejando celebrar
- 22:46uma coisa super simples, mas que tinha um significado monumental
- 22:50na vida dele. O aniversário da filha.
- 22:52Isso o aniversário de 17 anos da filha caçula dele, aferest.
- 22:57Eles iam se reunir na cidade de carage, lá no Jardim kalliça, e
- 23:01essa IA ser finalmente a primeira reunião completa
- 23:04daquela família que o estado tinha despedaçado há mais de uma
- 23:07década. E o planejamento dessa festa?
- 23:10É, simbolizava meio que o triunfo da vida sobre aquela
- 23:14morte estatal toda, mas é exatamente cara nesse momento de
- 23:18maior vulnerabilidade emocional, de Esperança da família que a
- 23:22máquina ataca de novo. Que tristeza, o?
- 23:24Caminho para essa celebração. O médio de baixo foi
- 23:27sequestrado. Ele desapareceu.
- 23:30Aquele reencontro que a família esperou por mais de 10 anos
- 23:34simplesmente nunca aconteceu. O fim dessa linha do tempo é
- 23:38devastador demais. Porque em 5/07/1994 o corpo dele
- 23:43foi encontrado jogado numa área de floresta lá nos arredores de
- 23:47Teerã, e ele foi assassinado com exatamente o mesmo modus
- 23:51operandi que usaram no bispo Reiki, morto a facadas de uma
- 23:56forma bem brutal e silenciosa. E tem um detalhe estarrecedor
- 24:00que foi revelado anos depois. E que confirma essa engrenagem
- 24:04do terror toda. Oficiais do próprio Ministério
- 24:07da inteligência do Irã admitiram formalmente a responsabilidade
- 24:12por esse assassinato extrajudicial.
- 24:14O próprio mois assumiu. Sim, isso significa algo
- 24:17profundo, aquela sentença de morte por apostasia que foi
- 24:21emitida lá em dezembro de 93 pelo tribunal, ela não tinha
- 24:25sido cancelada de verdade. Eles só adiaram.
- 24:28Isso. O estado só percebeu que
- 24:30executar ele legalmente é gerar muito problema diplomático.
- 24:34Então eles terceirizaram a execução para os assassinos
- 24:38clandestinos deles mesmos. Eles mataram o homem longe dos
- 24:41olhos da lei e provaram que, no final das contas, a caneta do
- 24:46burocrata e a faca do assassino pertencem exatamente ao mesmo
- 24:50braço estatal. Olha, essa análise toda levanta
- 24:53um conto bem fundamental para a gente encaminhar o nosso
- 24:56encerramento. Porque alguém pode perguntar,
- 24:59por que revirar essas dores hoje em dia, né?
- 25:01Sim, é uma pergunta válida. A gente corre muito risco de
- 25:04olhar para o Irã de 1994 como algo que já está arquivado.
- 25:07Tipo um documentário no story Channel sobre um passado super
- 25:11distante. Mas as dinâmicas que mataram de
- 25:14bagi, elas continuam operando de forma assustadoramente parecida.
- 25:18Agora na sim. É essencial trazer isso para o
- 25:25nosso contexto atual. E a gente tem um exemplo claro.
- 25:29Em 2007, o iça, o filho do mad debash.
- 25:33Ele teve lá de pé diante do parlamento britânico justamente
- 25:38para dar testemunhos sobre a morte do pai.
- 25:41E aquilo foi um choque de realidade gigante pros
- 25:44legisladores ocidentais. Ele deixou muito claro que a
- 25:48perseguição institucionalizada não ficou presa lá nos anos 90,
- 25:52não mesmo hoje. Em pleno século 21, enquanto a
- 25:55gente fica aqui debatendo trivialidades no conforto das
- 25:59nossas bolhas de segurança, né, no ocidente?
- 26:01Com certeza. Tem homens e mulheres sendo
- 26:04submetidos a mesmíssima burocracia do terror, sendo
- 26:07exprimidos em celas solitárias simplesmente por insistirem na
- 26:11Liberdade de suas próprias consciências.
- 26:13Sabe, durante esse mesmo debate lá na Câmara dos Lordes
- 26:17britânica e. Eles trouxeram de volta aquela
- 26:20pergunta que foi feita pelo jornalista Bernard Levi, lá em
- 26:231994, no the times, e ela ressoa hoje, assim como um?
- 26:28Trovão, ele perguntou o? Seguinte.
- 26:33Quão frágil deve ser o controle de uma religião se ela precisa
- 26:37ser escorada por enforcamentos e assassinatos?
- 26:40Eu acho que essa é a pergunta que é.
- 26:44Desnuda de vez o medo do tirano. Porque o estado não mata por ser
- 26:49forte, ele mata porque ele tem pavor da autonomia mental de um
- 26:53único indivíduo, sabe? Nossa, perfeitamente colocado se
- 26:58tem uma síntese pra toda essa trajetória burocrática e tão
- 27:03cruel é a ressignificação do que realmente é ter convicção.
- 27:09O testemunho do de base cara dentro daquela cela de 1 m²
- 27:13prova que a verdadeira fé. Não depende de um Monte de
- 27:17arquitetura impressionante. Ela não é mantida por cadeiras
- 27:20confortáveis. Ela definitivamente não precisa
- 27:24do aplauso ou da aceitação das massas.
- 27:27Muito pelo contrário, né? Exato.
- 27:29Muito pelo contrário, ela se mostra inquebrável, justamente
- 27:33naquele momento que todas as vantagens terrenas são
- 27:36arrancadas de você e, tipo, só sobra o escuro absoluto é lá.
- 27:41Nessa escuridão que a gente descobre o que realmente habita
- 27:45dentro de nós. Isso nos deixa com com uma
- 27:48reflexão bem forte pro final, algo pra ficar martelando na
- 27:52cabeça da gente depois que esse áudio acabar, pra quem tá
- 27:55ouvindo a gente agora pensa nisso.
- 27:58Se amanhã nossa realidade virasse de ponta cabeça, se tipo
- 28:02todas as nossas redes de proteção social, o nosso status,
- 28:06o nosso conforto material. Fossem subitamente retirados por
- 28:10um estado hostil, se fossemos separados daqueles que a gente
- 28:13mais ama, despidos de qualquer direito e trancados cara na mais
- 28:18absoluta solidão de 1 m² sem nunca mais ter acesso à luz do
- 28:23Sol, o que de fato sobraria de pé nas nossas convicções?
- 28:26É uma pergunta pesada, mas muito necessária.
- 28:29Se você curte nosso conteúdo, segue a gente, deixa uma
- 28:31avaliação aqui na plataforma em que você está ouvindo e fala, o
- 28:34que te marcou nesse dossiê até mais?