Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #297 Praia Viva, radioteatro de Lygia Fagundes Telles
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- 0:00Essa rádio é você em sintonia com o rádio. Rádio
- 0:07Bandeirantes Primeiro sábado do mês é sábado de
- 0:14interferência. Agora no você é curioso,
- 0:19interferência. E hoje o professor Marcelo
- 0:27Abude está aqui presente, porque no dia que ele
- 0:30mandou os alunos ele não veio, ele faltou, bom dia
- 0:33Marcelo Abude. Bom dia, é sempre um prazer
- 0:35estar aqui no estúdio, é mais gostoso, é mais
- 0:37emocionante. Aqueles seus alunos foram aprovados
- 0:41que vieram no você é curioso? Ainda
- 0:43estão em fase, no meio de semestre, ainda é bom eles
- 0:46ficarem atentos. Eles estavam de recuperação,
- 0:48porque eles vieram aqui. Mas
- 0:48eles foram muito bem, aprendendo bastante coisa
- 0:50aqui. Muito bom. E
- 0:52hoje qual será o tema, só em linhas gerais, que será
- 0:56o tema de hoje? É um rádio teatro de 1944,
- 0:59que foi feito aqui na Bandeirantes no domingo à
- 1:01noite. O Praia Viva, um texto da
- 1:04Ligia Fagundis Telles. Foi bem feito aqui em 1944.
- 1:08Foi muito bem feito, repercutiu
- 1:09bastante. O José Medina era o diretor
- 1:11e também fez a adaptação desse rádio teatro, com o
- 1:14elenco fantástico, só para citar dois nomes, Vida
- 1:17Alves e Walter Foster. Ah, então está fátil hoje,
- 1:21Silvânia. Vamos conhecer essa história,
- 1:23então contada pelo Marcelo Abude. No
- 1:32próximo dia 19 de abril, Ligia Fagundis Telles
- 1:36completa 90 anos de idade. Autora
- 1:39de romances como as Meninas e Siranda de Pedra, a
- 1:43escritora paulistana é eleita em 1985 para a
- 1:47cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras. Em
- 1:512005, recebe o Prêmio Camões, o mais importante
- 1:56da literatura de língua portuguesa. Recentemente,
- 2:00o programa Memória, apresentado e produzido por
- 2:04Milton Barrón, reproduziu a palestra de Ligia Fagundis
- 2:07Telles na abertura da quinta balada literária em
- 2:11São Paulo, ou som momento em que ela revela como se
- 2:15descobre prosadora. Então as minhas páginas contavam
- 2:21histórias, todas as duas. Eram
- 2:23histórias terríveis, eram histórias metonhas de muras
- 2:27sem cabeça. Era a menina na fazenda
- 2:30Silvantele, aprendi com minhas páginas que morto
- 2:34tem a vossa manhola. Então eu ouvi aquelas histórias,
- 2:39adorava um dia, minha página faltou, faltou, não
- 2:44pode. Então eu fiquei contando a
- 2:46história. Nesses instantes eu comecei a
- 2:49inventar. Então agora não era eu. E
- 2:52inventando, eu não sentia medo. Fiquei
- 2:55liberta do medo. Quando eu ouvia, tremei a inteira.
- 3:00Eu contando, eu dominava.
- 3:03Beleza. Então, contando essas
- 3:06histórias, eu comecei a escrever para não esquecer
- 3:10os cadernos de escolas. Ligia
- 3:14publica um livro porão e sobrado ainda na
- 3:17adolescência. Mas a própria autora considera
- 3:20que a estreia na literatura se efetive em 1944 com o
- 3:25volume de contos Praia Viva. Na
- 3:27época, o rádio Teatro era uma das principais atrações
- 3:32da bandeirantes. Na noite de domingo, 6 de
- 3:35agosto daquele ano de 1944, com direção de José Medina,
- 3:41o Teatro Bandeirantes apresenta a adaptação de
- 3:45Praia Viva. Quase sete décadas depois, a
- 3:52rádio Bandeirantes homenageia lija a Fagundes Telles e
- 3:56apresenta agora uma nova radiofonização do conto
- 4:01Praia Viva. O problema é que nós vamos
- 4:06ter que enfrentar, Silvão. O
- 4:07problema é que eu apareço aqui em sete páginas do
- 4:11roteiro. Esse que é um problema. Nós
- 4:13fizemos uma série de adaptações aqui para que eu
- 4:16e a Silvânia pudéssemos participar desse diálogo,
- 4:20porque entre uma moça e uma senhora chamada Susana.
- 4:23Todo mundo já me chama de
- 4:25Susana agora. Agora vira a Susana. Foi
- 4:27feita pela vida Alvis. Teremos
- 4:29também participação de Chico Prado no papel de
- 4:33Francisco. Teremos a Fernanda Albino, que está
- 4:38aqui com a gente, e o Marcelo Abude vai participar
- 4:40também. Certo? Certo. Então
- 4:42vamos fazer direito para que daqui a 60 anos alguém
- 4:46lembre que nós fizemos isso. Vamos
- 4:48caprichar? Exemplo para como não fazer. Porque
- 4:50do mês passado foi terrível, hein? Vamos
- 4:53lá. Vamos lá, começando. dona
- 5:03Susana, eu não suporto mais a minha vida. Está
- 5:08se tornando impossível. A minha taça de amargura está
- 5:12transbordando. Você precisa ter paciência,
- 5:16criatura final. O que é que você pode fazer?
- 5:18Eu já decidi. Eu
- 5:20vou propor o desquite. Desquite?
- 5:22Tá louca? Nem pense nisso. Eu
- 5:23preferi sofrer todas as amarguras, humilhações, mas
- 5:26pelo amor de Deus, não pense em desquite, hein?
- 5:28Mas por que, dona Susana?
- 5:30Afinal, o desquite é uma coisa tão
- 5:31comum hoje em dia. Eu conheço tanta gente
- 5:34desquitada. Ah, acontece que eu também sou
- 5:37desquitada. A senhora, dona Susana? É,
- 5:39e se ele peço que aceite o meu conselho, é porque
- 5:41eu não desejo a ninguém aquilo que aconteceu comigo.
- 5:44Eu também pensava como você
- 5:45nos primeiros tempos de casada. Por
- 5:47isso, aceitei a proposta de desquite do meu marido.
- 5:50Entretanto, depois disso, eu nunca mais
- 5:52tive o momento de ser quer de felicidade em minha
- 5:54vida. Nos primeiros dias de
- 5:56desquitada, eu vivia confusa, apoderi -se de mim
- 5:59um grande tédio. Foi quando percebi que amava
- 6:01meu marido mais do que suponho. Começaram
- 6:04então os dias de verdadeira margure. E
- 6:06certa tarde, depois de ter ouvido o Cetus Watus,
- 6:09recebi uma carta dele. É mesmo? É
- 6:11uma carta que nunca mais desapareceu da minha
- 6:13memória. E nessa carta ele dizia...
- 6:16Susana, minha querida amiga, o que
- 6:19nos aconteceu é realmente lamentável. É
- 6:23realmente lamentável e sinto uma vontade louca de voltar
- 6:26atrás e recomeçar agora que descobriu de estava o erro.
- 6:29Voltar, Susana, voltar. Pederíamos
- 6:31de novo aquele trenzinho e velho chefe da estação
- 6:34esboçaria um sorriso malicioso ao ver os grãos
- 6:37de arroz saindo da manga de seu vestido. Voltaríamos
- 6:40ao quarto caiado de azul surpreendendo seu olhar a
- 6:43princípio para aquelas letrinhas vermelhas na
- 6:45fronha branca, que dizia... O
- 6:47amor faz passar o tempo. E o tempo faz passar o amor.
- 6:51Sentiria sua boca bem junto ao meu
- 6:53ouvido sussurrando. Mentira isso, não é? Diga
- 6:57que mentira! Pois bem, minha querida Susana.
- 6:59Repito agora nesta carta. Mentira
- 7:01sim, meu amor. Não posso esquecer aqueles dias
- 7:04felizes. Às vezes a saudade é tão
- 7:06intensa que chego a acreditar numa nova vida
- 7:08para nós dois. Sinto um desejo desesperado de
- 7:11recomeçar. Porém um desejo inútil, porque a
- 7:15verdade é que é tarde demais para deter a marcha
- 7:17dos acontecimentos. Caso minha manhã, ela não é
- 7:22bonita nem tão inteligente como você, mas fui atraído
- 7:25pela sua bondade e simgelesa. Além
- 7:28disso, ela me quer muito a ponto de aceitar a situação
- 7:31equívica que um homem desquitado pode oferecer a
- 7:34uma mulher solteira. Portanto,
- 7:37adeus Susana. Desejo a você muitas felicidades,
- 7:41já que tudo o que mais ardentemente desejei não se
- 7:44tenha realizado. Francis. Mas então ele ainda amava?
- 7:50É, mesmo que assim fosse, gera
- 7:51demasiado tarde. Aquelas palavras, caso minha manhã,
- 7:55ficaram dançando no meu cérebro como um angustioso
- 7:58pesadelo. Caso minha manhã. E
- 8:00como a senhora se sentiu diante daquela carta? Lembro
- 8:03-me apenas que a carta caiu me das mãos e maquinalmente
- 8:06dirigindo a janela da minha alcova e recostei o rosto
- 8:09na vidraça. Sentimei aérea como uma sonâmbula.
- 8:12Olhei para o jardim florido, já
- 8:14vi entrada primavera e pensei, pena que o céu
- 8:17continue nublado. Amanhã talvez chova, amanhã. E
- 8:21o meu cérebro foi alfinitado por aquelas
- 8:23palavras, caso minha amanhã. Então
- 8:26a senhora ainda gostava muito dele, não é? Ah
- 8:28sim, por mais que me esforçasse em ganar minha
- 8:30minha própria, a minha própria não conseguia. Foi
- 8:33então que em pelida por uma força estranha resolvi
- 8:36reconciliar -me com ele. Podíamos
- 8:38recomeçar porque não. Achei que a outra intrusa devia
- 8:41afastar -se de nossa vida. Ela
- 8:43não podia tomar o meu lugar. Se
- 8:44eu estava viva e ele ainda me amava, por que haveria
- 8:47eu de ceder? E o que corajou a buscar
- 8:50essa reconciliação? Você deve ter observado que na
- 8:54carta ele me dizia, não é bonita nem inteligente como
- 8:57você. Aquilo deu -me coragem. Eu
- 9:00me lê no espelho e constatei que era realmente
- 9:02bonita. Sorri com entusiasmo. E
- 9:04meu olhar caiu instintivamente sobre o
- 9:07telefone que estava na minha mesa de cabeceira. E
- 9:09aí pensei, e se eu o telefonasse antes de ir ao
- 9:12encontro dele? Talvez fosse mesmo mais acertado.
- 9:15E foi o que eu fiz. Mas
- 9:17antes eu refleti um instante. Depois
- 9:19com a mão tremula e o coração batendo acelerado de
- 9:21skate. Demoraram um pouco para atender. E
- 9:25de repente, ouviu uma voz de mulher.
- 9:38Mas então eu não estou
- 9:40compreendendo. Ele não dizia na carta que se
- 9:42casaria no dia seguinte? Uso
- 9:45o resto. Dantes daquela afirmativa, fiquei
- 9:47com a respiração suspensa e desliguei o telefone
- 9:49suavemente. Depois soube que o carteiro havia
- 9:52se enganado e entregado a carta do Francisco numa
- 9:55casa do outro quarteirão. Demorou
- 9:57até que chegasse ao seu verdadeiro destino. Ai,
- 10:00que fatalidade. Conformei -me, abri a janela, deixei
- 10:06entrar um pouco de ar puro. Sinto
- 10:08-me melhor arrasperar o ar frio e perfumado da noite.
- 10:11E depois, o que fez? Lembrei
- 10:13-me de viajar. Eu precisava ir para qualquer
- 10:16recanto do mundo. Meu pensamento então voou para
- 10:18uma praia longínqua, onde eu passava a meninice e
- 10:22onde eu fora tão feliz. O mar sempre exercia uma
- 10:25grande atração sobre mim e ele me chamava tão forte
- 10:28que até as vozes da terra ficavam abafadas. A
- 10:31praia parecia -me alguma coisa vive, sensível, que
- 10:34me chamasse o seu convívio. Lembro
- 10:37-me que, referindo -se ao mar, meu pai me dizia
- 10:39certa vez. O oceano é mal, minha filha.
- 10:44Ele tem dois olhos e enxergam
- 10:46a gente de longe. Judia de tudo o que encontra,
- 10:49rasta casas, espanca a todo mundo. Às
- 10:52vezes passa um dia bonzinho, recolhido, mas
- 10:55logo fica ruim outra vez. Sim,
- 10:58é isso, minha filha. Você agora é feliz, mas quando
- 11:01a coisa vem mesmo, é igualzinha uma pancada de
- 11:04remo. Deu -me com ele na nuca. Pois
- 11:07fique sabendo que, naquele dia que sua mãe me deixou,
- 11:10sentia a mesma coisa. Mesma coisa, bem na nuca. E
- 11:17eu de vez em quando me lembro da fisionomia de meu
- 11:20pai, mesmo que ele estivesse morto para não se
- 11:22estirador que eu também sentia na nuca. Senhora,
- 11:27com sua história, está quase me fazendo mudar de
- 11:29ideia. Pois sigo o meu conselho, minha
- 11:31amiga. É preferir me sofrer e
- 11:33empregar todos os esforços para harmonizar sua vida
- 11:37com seu marido, o que desquitasse. E
- 11:40a senhora chegou a ir para tal praia? Não.
- 11:43Refletir melhor e cheguei a ter medo daquela praia
- 11:46viva, que podia zombar da minha infelicidade, trazendo
- 11:48ao meu espírito as mais amargas recordações. E
- 12:00aí, vida alve, isso fez melhor o Marcelo Abude? Ah,
- 12:02não tem ato. Que é a Silvão e a Alves? Ah,
- 12:04não tem ato. É, eu acho que é compatível,
- 12:06né? Cada uma na sua geração são
- 12:08talentosíssimas. A gente tem que fazer rádio
- 12:11e teatro toda semana, a Silvão e a Alves fica
- 12:13arrepiada com sua desempenha. Você
- 12:14achou, Chico? Nota para a Silvão e a Alves.
- 12:16Missão dada, missão cumprida, né?
- 12:17Aí é pra vocês. Muito
- 12:19bem, muito bem. Pode mandar, Marcelo Abude, que
- 12:22a gente faz aqui, tá? Pode deixar, toda semana um.
- 12:26Muito bem, fica aqui que depois
- 12:27você vai fazer a degustação curiosa com a gente. Você
- 12:30fez um malu na sua comer grilo frito, agora você vai
- 12:33passar por hoje uma também. Mas
- 12:35vamos fazer um intervalo e voltamos já com ela, de
- 12:37novo, a música traduzida de Silvão e a Alves. Você
- 12:41é curioso? Então fique onde está. Ambedo,
- 12:44Tiz. Do Ronaldo Vieira Garcia, acho
- 12:47que fomos perfeitos. Se pede pra gente fazer isso
- 12:49todo sábado. Ah, tá bom. O
- 12:53Antônio Henrique, perdão, Antônio Henrique Sauer
- 12:56Terréria de Santana de Panaíba, tem 55 anos, está
- 12:59participando do teste do dia, diz que não é da
- 13:02época do rádio e teatro, mas com toda sinceridade
- 13:04achou muito interessante interferência. Será
- 13:06que um retorno às peças do rádio seria um grande nicho
- 13:09a ser ocupado? E acho que a gente podia até
- 13:12largar as nossas funções. Nós
- 13:14vamos fazer uma reunião com Marcelo Abud após o
- 13:16programa. Marcelo Abud tem reunião após o
- 13:19programa, está convocado. Alguns
- 13:22registros, o Paulo Melo Pereira é fã de uma galha
- 13:24junha, diz que lembra da infância dele, Roberto Alves
- 13:27adorou interferência, fomos melhores do que no primo
- 13:29cobre, o primo rico, ele gostou mais. Pior
- 13:32que aquilo não tava. O Roberto Rocha também gostou,
- 13:34Marisa Ramos pede um alo pro marido rica para toda
- 13:36a família. É que a nossa pegada é de
- 13:38drama, não é de comédia, viu? Nossa
- 13:39pegada é drama. Aqui a gente termina, mas na
- 13:43semana que vem... Você é curiosa? ...tem
- 13:45mais.