Latest / Chá de coragem, com Elisama Santos. / AQUELA HISTÓRIA - O LEGADO DE BETINA E A FORÇA DE UMA MÃE , com Elisama Santos
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- 0:01Sabe aquela história, aquela que parece um filme?
- 0:05Aquela que te faz encarar alguns medos e se perguntar como ela
- 0:09conseguiu? Aquela que emociona, por vezes
- 0:13assombra, mas lembra que a vida é sempre maior e mais complexa
- 0:19do que o que a gente vê? Antes de começar, eu quero te
- 0:23fazer um pedido carinhoso e muito importante.
- 0:27Escute de coração aberto. Com muito respeito à vida de
- 0:32quem decidiu narrar sua história pra gente.
- 0:34As conversas aqui são fluídas e sem roteiro, como encontro na
- 0:39sala de casa. Só comente o que você falaria
- 0:42olhando nos olhos de quem lê. Essa é Juliana, uma mulher de
- 0:48riso fácil, sarcasmo na ponta da língua e uma coragem olhar para
- 0:53a vida que me emociona e me assombra.
- 0:57Ela viveu, dentre muitas outras coisas, o meu maior medo, o medo
- 1:02de quase todas as mães. E continuou gigante.
- 1:06Com ela eu aprendi uma frase que eu vou levar comigo pra sempre,
- 1:10o ditado africano poderoso quando a morte chegar, que ela
- 1:14te encontre viva. Obrigada Ju por contar aquela
- 1:18história, por falar tão lindamente da betina, por ser
- 1:22você. Que a gente não esqueça que está
- 1:25viva, bem viva. Eu quero começar agradecendo
- 1:29você ter topado conversar comigo é você ter topado contar sua
- 1:33história é da bestina. Você sabe o quanto eu te admiro.
- 1:37E quando eu pensei nesse programa assim, inventei a ideia
- 1:40do programa. Eu falei, eu queria tanto.
- 1:41Começar com a Ju porque que ela mora tão longe?
- 1:44Mas na questão, tá, mas tem que contar tua história também, né?
- 1:48Elizelma, porque ó da advocacia pro bolo de porte pra chegar
- 1:52onde tu chegou, ó. Tirar a tua história, então é
- 1:55essa hoje de ver o seu lado amiga me.
- 1:58Conta para as pessoas quem é você, como você se define, o que
- 2:02você gosta, enfim. Meu nome é Juliana.
- 2:07Eu acho que aqui eu estou hoje como mãe da betina, né?
- 2:14Mas sou professora universitária, sou psicóloga,
- 2:18né? Atuo hoje na clínica.
- 2:21Estou nesse flerte, se continua ou não na docência, mas sempre
- 2:25trabalhando com psicologia do desenvolvimento da aprendizagem
- 2:29a partir da psicanálise. Sou mãe do Miguel, que hoje tem
- 2:3412 anos. Os nossos Miguéis, os nossos
- 2:39Miguéis e da betina que faleceu com 5 anos de idade, que faz 3
- 2:46anos esse. Faz 3 anos esse ano, caraca.
- 2:52Como você não já tem 3, vai fazer 4, cara.
- 2:56Olha, parece que o tempo, o tempo vira um outro.
- 3:00Um é outra. Percepção outra percepção é
- 3:02outra percepção. É 2021 que ela faleceu também em
- 3:062025. Vai fazer 4 anos.
- 3:08Acho que desde do diagnóstico já tudo muda, a percepção de tempo
- 3:13já muda, né? Totalmente.
- 3:17Você sabe que eu tava pensando nisso esses dias, né?
- 3:20Com com a vinda novamente, né? para as mídias sociais, da
- 3:25história dela, da experiência que eu tive no dia que eu recebi
- 3:30o diagnóstico, porque a gente saiu de casa com bebê, né, de 2
- 3:34anos e 9 meses, que tava com dor abdominal, tinha tido antes de
- 3:39vômito. Eu falei assim, Ah, deve ter
- 3:40comido alguma coisa que não fez bem.
- 3:43Tava ali. Mas me deu um negócio, eu vou
- 3:46levar pro hospital pra ver, porque nunca vai pro hospital,
- 3:48né? Eu não sou disse.
- 3:51Não vai, né? Febre a gente tudo não que é
- 3:54displicente, mas entende que com essa tem as suas questões, né?
- 3:58Exatamente. E aí ela fez uma tomografia e eu
- 4:03entrei com uma criança com dor de barriga no hospital pra em
- 4:08menos de 24 horas fazer 11 videolaparoscopia.
- 4:13E quando abriram, era um tumor. Foi menos de 24 horas.
- 4:16Menos de 24 horas eles eles falam, ó, tem uma massa.
- 4:21Imaginaram que era apêndice superado, e aí quando abriu
- 4:26assim, eu nunca vou esquecer a cara do médico vindo falar
- 4:29comigo. Ele veio assim e ele era marido
- 4:35de uma amiga minha. E ele falou assim, olha, vocês
- 4:39vão ter que ser Fortes, porque é um tumor.
- 4:42De aspecto muito ruim, então, possivelmente é maligno.
- 4:47Não posso garantir, porque não sou patologista, mas é isso.
- 4:54E aí começou uma jornada alucinada que eu falo que como
- 5:00as como a questão do tempo, como as coisas se conversam, né?
- 5:03Eles dizem porque eu passei uma coisa muito surreal naquele
- 5:05hospital, para além do diagnóstico de câncer da betina.
- 5:10Miguel teve uma. Olha, você lembra quando Miguel
- 5:12teve uma aden, que ele era um bebê, tinha 7 meses, e aí me
- 5:16indicaram uma hematologista? A mulher era muito difícil,
- 5:22muito difícil. EE eu fiquei com muito ranço
- 5:25dela, que ela virou para mim e falou assim, ó, se ele chorar,
- 5:28ele morre. Eu falei, nós estamos falando um
- 5:29bebê gata, como assim? Você fala, foi uma mãe?
- 5:33Com bebê de 7 meses, sem chorar ele morre.
- 5:36AI o tatu, né? Das pessoas.
- 5:38Nossa, fiz um alarde naquele hospital e isso, né?
- 5:42Há anos atrás o Miguel tá com 12, então 11 anos atrás, e daí
- 5:45quando eu tava vivendo essa situação no hospital com a
- 5:48betina, com 2 anos e 9 meses, deram o nome dessa médica.
- 5:53Falei, não quero não essa daí não.
- 5:54Se for a se for a única opção, o que que eu tenho que fazer pra
- 5:58sair daqui? E aí surgiu a doutora Mônica.
- 6:02E aquela mulher foi um anjo, gente, pra você ter uma ideia,
- 6:06eu só entendi o que estava acontecendo depois que a betina
- 6:10tinha feito o primeiro protocolo de quimioterapia.
- 6:12Foi foi registrado no HC de Londrina que ela teve que fazer
- 6:17o tratamento em Londrina como o início de quimioterapia mais
- 6:21rápido que eles conheciam porque a betina, em 7 dias, entre a
- 6:24cirurgia e a primeira quimio, deu 7 dias.
- 6:27Cara, eu falo assim, quem tem amigo tem tudo.
- 6:31Elis ama. Porque no dia que eu receber
- 6:33essa essa médica ver doutora amônia, eu até me repito, esses
- 6:37dias eu fui num num show, ela estava na hora que ela bateu o
- 6:39olho em mim e chorando as 2 num bar escutando por diante.
- 6:45Aí ela olhou pra mim. Foi assim, ela falou assim, tá,
- 6:49eu sou a doutora amônia. Nós vamos fazer esse exame
- 6:52acontecer, porque daí precisava de uma ressonância e tinha que
- 6:55ser sedada, porque a ressonância demoraria 1 hora e meia.
- 6:58Caraca, porque daí como tinha que fazer?
- 7:01Como ele estourou? Porque o tumor rompeu?
- 7:05Como o tumor rompeu, a Beatriz já estagiou exatamente, já
- 7:09estagiou em nível 4, então já se considerava um tumor.
- 7:14Eu nunca sei falar essa palavra. Então, desde o começo, então ela
- 7:21tinha que fazer de tronco, de abdômen total AE pélvis lá, não
- 7:27sei o que fazer, a ressonância. Eu sei que essa essa médica, ela
- 7:33fez um negócio assim que em 3 dias saiu a imunusita química da
- 7:36betina. Em 3 dias eu ainda tava tentando
- 7:39saber como que eu lidava com a menina, com os buracos que tinha
- 7:42feito nela da videolaporoscopia. E eu já tinha o resultado é um
- 7:46rabo do mio sarcoma. Gente, as pessoas não fazem
- 7:49ideia assim, pra quem nunca teve contato com esse mundo, a
- 7:54algumas biópsias demoram 20 dias pra sair.
- 7:56O resultado? 20 dias, algumas demoram 20.
- 7:58Dias é aquela mulher mover o céu e Terra.
- 8:00Eu falo assim, você tem uma pessoa na vida que eu tenho
- 8:02gratidão. A doutora amônia é a Isabela,
- 8:07que é uma amiga minha, harken hoff, que ela é médica
- 8:09endocrinologista em Londrina. Mas.
- 8:14Porque foi assim, gente? Ela chegou quando deu resultado.
- 8:18É rápido. Miossarcoma tinha tido um
- 8:22problema com a medicação. Só tinha os 5 hospitais no
- 8:24Brasil que teria essa medicação. Você foi para o Google?
- 8:28Foi na, mas foi ainda não foi não.
- 8:30Teve de nada? Estou te falando.
- 8:32Então quando eu falo pra você que eu só entendi o que estava
- 8:34acontecendo, a minha filha já tinha feito o primeiro lote de 5
- 8:37dias de quimioterapia. Também foi uma semana, né?
- 8:39Piada, eu? Não tinha tempo.
- 8:40Eu não aterrisei não. Eu acho que tem coisa que eu não
- 8:43aterrisei até hoje. Tem coisa que ainda está
- 8:45elaborando, tá? Elaborando ainda, né?
- 8:47E aí o que que aconteceu foi justamente que ela ela
- 8:51conseguiu, em 3 dias, resultados aí em manistoquímica já saímos
- 8:55daqui. É ir pra onde vai.
- 8:56Conseguiu em em Curitiba. Eu falei, gente, eu vou
- 8:59enlouquecer se eu for pra Curitiba.
- 9:01Tinha Curitiba, Londrina, Brasília, São Paulo, quinto
- 9:07estado. Eu nem lembro.
- 9:08Acho que era o Mato Grosso. Eu falei, eu vou enlouquecer se
- 9:11eu tiver que ir pra pra Curitiba, porque assim imagina
- 9:15fazer o eu vou ter que mudar pra.
- 9:17Lá Curitiba, quanto tempo daqui a gente tá em Maringá?
- 9:19600 km, dá umas 6 horas de viagem, acho que uns 480 km de
- 9:24Londrina, 1 hora e meia isso dirigindo sossegado aí.
- 9:30Eu falei, cara, o que que eu vou fazer?
- 9:31Liguei para uma amiga minha que AA Isabel.
- 9:36Falei, gata, eu preciso arrumar alguém de Londrina, por Deus que
- 9:43está no céu em 4 horas, o médico que pegou o caso da betina lá,
- 9:49que foi o doutor Daniel, ligou para mônia.
- 9:53Eles acertaram tudo e pato. E eu já estava assim, ó, amanhã
- 9:57você vende mala e cuia, que daqui você vai de ambulância
- 9:59para Londrina começar o tratamento.
- 10:02Eu cheguei num dia lá dentro, no outro dia eu estava fazendo
- 10:03quimioterapia. Eu não tinha nem.
- 10:04Entendido não estava não. E como foi contar para ela?
- 10:09Aí que está, ela tinha 2 anos e 9 meses.
- 10:11Daí eu eu fiz. Eu falei para ela que tinha uma
- 10:14surpresa que ela tinha a dor de barriga dela.
- 10:17Era uma surpresa que tinha na barriga dela.
- 10:21E por conta dessa surpresa, a gente IA ter que viver uma vida
- 10:23um pouco diferente. Caraca.
- 10:27E o Miguel tava com 5 anos na época, né?
- 10:32E aí eu falei, olha, filha, tem uma surpresa na sua barriga, vai
- 10:35ter que tirar essa surpresa. Então você vai pra cirurgia e
- 10:40dependendo de né, do que a gente vai viver, é isso.
- 10:44Então quando a gente foi pra Londrina, eu acho que começou.
- 10:51Porque eu fui de ambulância, né? E daí faz um recorde, betina,
- 10:55ela já eu, eu falo assim, esse mundo era muito pequeno Pra Ela,
- 10:59eles ama muito pequeno. Esse aqui era muito pouco Pra
- 11:02Ela, porque a betina nasceu de 34 semanas e 5 dias, num parto
- 11:07de 20 minutos na sala da minha casa, tá?
- 11:12Então assim, foi um negócio bombar.
- 11:15Eu tava com a parteira em casa, AA enfermeira.
- 11:19Ela tinha acabado de avaliar e ela falou, não está alta, não
- 11:22sei o que junta as coisas que você precisa ir pro hospital,
- 11:23você vai ter que tomar uma medicação porque você está em
- 11:25trabalho de parto. A única coisa que eu fiz foi o
- 11:30RA, porque assim eu falei, putz grilo, como que essa criança vai
- 11:34nascer tanto tempo antes? Miguel nasceu de 41 semanas e 3
- 11:39dias. Como que essa criatura vai fazer
- 11:42isso? Do jeito que eu urrei, eu
- 11:44acocorei, porque eu acocorei não, eu já fui.
- 11:49Pra posição que eu não sei porque meu corpo só pare na
- 11:52posição ginecológica é pior que tem, mas meu corpo?
- 11:54Não gosta dele, é como ele gosta.
- 11:57E aí ela nasceu. Parecia que esse parto de de
- 12:00fazenda assim, sabe aquelas de novela?
- 12:02Ela gritando pro meu marido, pega, pega pano, pega a toalha,
- 12:06pega a toalha, limpa que não sei o que eu tô sem uva e pegando
- 12:09betina com não sei o que e põe meu betina no meu colo.
- 12:11E aquela confusão, ela pedindo 10 coisas pra Chico e eu só
- 12:14pensava assim, se ela pedir mais alguma coisa, meu marido vai
- 12:16espanar, liga pra ambulância. Ele vai dar?
- 12:20Ele vai dar conta. Ele não liga pra ambulância,
- 12:22liga pra Cris. Precisa de torpedo de oxigênio.
- 12:24Ela é prematuro, não sei o quê. E eu betino.
- 12:26Aqui no e a. Desesperada, desesperada, gente.
- 12:32E ela, grávida de 15 semanas, tava tudo pé aí.
- 12:36E juro por e foi um evento assim, porque daí quando chegou
- 12:39a ambulância, daí tem que vir de alta complexidade, porque daí eu
- 12:44sei que pararam na frente do meu, do prédio que eu morava.
- 12:46Parecia aquela cena de Velozes e Furiosos.
- 12:50Tanto é que acharam que tinha morrido um velho no prédio pra
- 12:52ter parada já é uma confusão. Então betina já nasce nessa
- 12:55coisa e ela andou de ambulância. E aí, o que eu fiz?
- 13:05Que hoje eu tenho essa consciência?
- 13:07Na época, eu. Não tinha.
- 13:09Quando a gente foi entrar na ambulância, eu comecei a contar
- 13:12a história do nascimento dela, AI.
- 13:17E aí ela IA falando, é mamãe, é? Também tinha um moço com essa
- 13:21roupa azul pra levar a gente, porque precisava ir pro hospital
- 13:26pra ter certeza se você tava respirando direitinho, porque
- 13:29você nasceu muito pequenininha e não era pequenininha.
- 13:33Mamãe, né? Não era pequenininha.
- 13:36E falou, é. E daí a gente.
- 13:37Eu fui contando a história do nascimento dela daqui pra
- 13:40monteira, 1 hora e meia a nã de ambulância.
- 13:44E eu sempre falo, mal, sabia eu quando ela nasceu, que isso IA
- 13:47se tornar rotina na nossa vida, né?
- 13:51Mas eu acho que ali que eu, que eu entendi assim, era uma
- 13:57experiência muito dura, porque assim eu lembro, eu tenho uma
- 14:01memória muito ruim, mas eu lembro a roupa que eu estava
- 14:04quando a Mônica, 7 horas da manhã virou para mim e falou
- 14:07assim, mamãe, não tem uma notícia boa.
- 14:12Eu estava sozinha com a betina. No hospital.
- 14:15Isso foi quando você chegar em Londrina, não em Maringá, né?
- 14:19E aquela assim, eu estava sozinha.
- 14:20E quando ela disse, ó, é um câncer num estágio grave, vocês
- 14:25precisam de tratamento imediato. Não é um câncer de boas.
- 14:30Perspectivas. De bom prognóstico.
- 14:34E aí quando eu cheguei, fiz esse caminho da ambulância que eu te
- 14:37falei. Quando eu cheguei lá e o médico
- 14:39nos recepcionou. É aquela situação tensa de
- 14:42hospital. Já as crianças caraquinha,
- 14:45porque eu já fui direto pra né, pra pediatria oncológica.
- 14:50E aí eu fui construindo com ela o que seria a infância dela ali,
- 14:55né? Então acho assim, ali, naquele
- 14:58momento eu entendi que mais do que a doença, era a vida que
- 15:04tinha que prevalecer, então que eu IA.
- 15:10Fazer o que eu podia para que ela pudesse viver aquela
- 15:12experiência como parte da vida dela, não como a vida dela.
- 15:18Isso acho que foi a única coisa que eu tive clareza, porque
- 15:20assim essa missesa eu entendi assim, é, isso vai ser um tanto
- 15:26é que o médico foi conversado, aí não sei o que faz entrevista
- 15:29tal. O Chico não tinha chegado ainda.
- 15:31O Chico é meu marido, não tinha chegado ainda em Londrina,
- 15:33porque não podia ir na ambulância aí.
- 15:39O médico falou, olha, o eu não quero saber o prognóstico não me
- 15:43coloca ele não, mas você precisa saber não, eu não quero saber o
- 15:47prognóstico, porque se tiver 99% de chance boas ou 1% abrigue a
- 15:53mesma. Então, para ter saudações,
- 15:57companheiro, faça o teu trabalho que eu faço o meu.
- 15:59O meu é cuidar da minha filha. Tu cuida dos remédios?
- 16:02Levantei. Muito pão da casa?
- 16:04Levantei te Ju por levantei. Meu marido olhando assim para a
- 16:09porta, eu falei. Assim, Juliana julel.
- 16:11Ele foi assim, eu falei, se você quer ter essa notícia, tenha
- 16:14você para você e saiba que isso não vai chegar em mim e muito
- 16:17menos sabetim. É porque ele já começou com um
- 16:21câncer, com uma notícia ruim, muito ruim, então assim.
- 16:24Porque ele ele venceu. Ele já é uma metástase assim.
- 16:26Qual era o programa? Não pode você querer saber essa
- 16:28lógica agora eu te entendo muito.
- 16:30Assim, porque eu já IA. Querer saber não IA ser uma boa
- 16:33notícia. Entendeu?
- 16:34Não. Se a gente soubesse o dia da
- 16:36morte, a coisa era diferente. A questão é, eu acho que é isso
- 16:40que eu que eu fiquei, morrer. Todo mundo morre, uns mais
- 16:45rápido, outros menos rápido. Isso faz parte da vida.
- 16:48A questão é, como a gente vai Viver A Vida?
- 16:49E naquele momento eu decidi. E eu tenho uma cena assim, sabe?
- 16:53Um exame que quando as pessoas no hospital começaram a olhar
- 16:55para betina com aquela cara de que assim é câncer e de morte.
- 17:00Sim. Zão, ó, até me arrepia.
- 17:02Pois eu arrumei um laço deste tamanho, não é?
- 17:07Dei lhe um banho, arrumei aqueles cacho, pus um vestido
- 17:11amarelo, ouro, um laço desse tamanho, e falei, vou mandar
- 17:15minha filha, a mamãe tá desconfortável, tava
- 17:18desconfortável, não falou isso tá dodói, né?
- 17:20Ela falou tá dodói. Eu falei assim, esse desconforto
- 17:22é porque a barriga tá cheia de pum, nós temos que andar pra
- 17:25sair pum e daí eles vão mandar e a gente andou naquele hospital.
- 17:30Ela linda de? Amarelo o ouro.
- 17:32Eu falei assim, não, minha filha está viva, minha filha está
- 17:35viva. Ela só vai estar morta quando
- 17:37ela estiver morta. Enquanto ela estiver viva, ela
- 17:39vai ser viva. Cara, eu acho que essa é a coisa
- 17:42mais inspiradora que eu vi de você No No processo inteiro, a
- 17:45campanha, muito de longe, mas o quanto você lutou pela vida da
- 17:52betina assim? Essa coisa do prognóstico diz
- 17:55muito, né? Porque eu não, eu não quero
- 17:57prognóstico. For um dia ela vai viver esse um
- 17:59dia ela vai viver. Ela vai estar viva nesse um dia.
- 18:03E eu acho que e foi isso mesmo, porque você sabe que coisas que
- 18:06eu fui vivendo, né? E daí assim, e uma eu realmente,
- 18:10eu só entendi o que estava acontecendo.
- 18:12Ela fez 5 dias de quimioterapia, 5 dias primeiro protocolo.
- 18:16Seria do que? Já ficamos 5 dias internada,
- 18:18então foi assim, 5 dias internada, Eu e Ela, eu tentando
- 18:21entender o que que era aquele negócio.
- 18:23Miguel, em casa, com com chip, só vídeo, é só vídeo chamada.
- 18:29E aí minha sogra veio para cá que minha sogra é 11.
- 18:33Anjo, né? Veio, ajudou bastante.
- 18:36Mas eu fiquei assim, gente, pegar nome de medicação,
- 18:40aprender, é assim, não, gente, tipo assim, medicação que não
- 18:45pode correr rápido porque senão deve dar alguma reação.
- 18:49Nossa, não pode comer isso, não pode comer aquilo.
- 18:51A partir de agora é isso, é aquilo, aquilo outro.
- 18:53E eu falei assim, meu Deus do céu, aí quando a gente voltou
- 18:58para casa, então assim, 7 dias no hospital aqui em Maringá, 5
- 19:01dias no hospital em Londrina, eu cheguei, fui dormir porque eu
- 19:04falei, gente, preciso dormir. Daí quando eu acordei, eu
- 19:09aterrizei, rapaz do céu, a minha filha tá com câncer, o que que
- 19:12eu faço? Aí fui pedir as contas Na Na Na
- 19:16faculdade que eu dava aula. Falei, gente, não tem como eu
- 19:19continuar como professora de estágio.
- 19:22Não tem como eu continuar com nada, porque agora a minha
- 19:25missão é ser mãe de betina, ser mãe de betina, mãe de Miguel.
- 19:29Então é isso que eu vou fazer. A minha eu brinco, eu nem
- 19:34trabalho pra pra universidade que eu trabalho, eu trabalho
- 19:36para minha coordenadora. Eu já falei Pra Ela, Márcia
- 19:39prviato, no dia que você sair eu saio junto, porque eu liguei Pra
- 19:43Ela também e falei, ó, estou nessa condição, vou pedir
- 19:46exoneração. Eu falei, não, você não vai
- 19:48pedir exoneração, você não vai pedir exoneração.
- 19:51E a equipe, né, da da, da universidade, foi sensacional,
- 19:54porque eles me acolheram. Eu não dava aula no primeiro
- 19:58semestre, então tudo que eu tinha extra para fazer, eles não
- 20:03me zeraram tudo. No segundo semestre eu já estava
- 20:06um pouco mais organizado, consegui dar algumas aulas, mas
- 20:08o que eles poderiam podiam fazer por mim?
- 20:10Eles sozinho, total, total, e foi assim, fundamental.
- 20:15Por isso que eu falo, quem tem amigo e tem tudo, eu ligava, te
- 20:18juro por Deus, eu tenho assim a mel, um dia eu falei assim, juro
- 20:22por Deus, era 11 horas da noite, a betina quer jogar, dado.
- 20:28Brotou os que 20 dados naquele hospital.
- 20:32Eu preciso de argila preta porque daí assim eu sou muito da
- 20:35natureza, né? Muito do óleo essencial da
- 20:37argila. Não sei o que aí.
- 20:40Alguém falou que argila preta era muito bom para processo
- 20:42cicatrização, que não sei o que eu preciso argila preta brotava
- 20:48brotava, eu preciso de açafrão, não sei o que brotava.
- 20:53Eu vou fazer uma campanha para ajudar a ONG, porque a ONG, a
- 20:57ONG viver lá em Londrina, que dá o suporte para as famílias das
- 21:00crianças que estão em tratamento no HC, está precisando de alguma
- 21:04coisa. Vamos, vou fazer um trem para
- 21:06ajudar. Pessoal da faculdade junta.
- 21:09Um pessoal que eu não via há 15 anos, me achou, ajudou.
- 21:15Porque daí foi um processo. Mas assim eu falei, gente, tem
- 21:17que ajudar quem tá ajudando a gente, porque senão a gente
- 21:19enlouquece. Porque assim ambiente de
- 21:20hospital enlouquecedor um género enlouquecedor enlouquecedor,
- 21:25porque você vê o sofrimento acontecendo o tempo todo, né?
- 21:30E aí eu tomei muito pra mim, justamente isso que eu tinha que
- 21:33preservar, a infância da betina. Né?
- 21:37Tinha essa clareza, não tinha. Eu fui fazendo, então eu fui.
- 21:41Não adianta nada. A única coisa que eu fiz é dizer
- 21:44foi o seguinte, depois que eu pedi as contas para tudo quanto
- 21:46é lugar, encerrei com meus pacientes.
- 21:50Disse que eu não tinha condições, que eu estava vivendo
- 21:52uma situação muito difícil. Encaminhei, né?
- 21:55Os pacientes. Foi falar assim, gente, tá que
- 22:02que eu que que eu vou fazer agora com essa criança, né?
- 22:06Foi justamente pensar assim, eu preciso parar a análise.
- 22:13Não é o momento de eu pensar em. Minha cabeça agora e eu pensar
- 22:16no que eu tô vivendo eu não vou, eu não vou dar conta, eu não vou
- 22:20fazer análise lacaniana, né? Não vou dar conta de viver,
- 22:23chega. Se eu for pro divã, eu não vou
- 22:26dar conta de vã, certo? Não é que que que é melhor
- 22:30caminho, imagina, não é isso. Mas eu tinha tanta clareza que
- 22:33naquele momento eu tinha que viver.
- 22:35Como uma experiência assim, de preocupação materna primária
- 22:38mesmo, sabe? Eu tinha que estar totalmente
- 22:40disponível para ela. Não tava no momento de olhar
- 22:44para mim e foi realmente o que aconteceu.
- 22:46Eu vivi para ela e para o Miguel durante os 2 anos EE, 2 meses de
- 22:53tratamento e foi assim, até inventando história dentro do
- 22:57hospital da medicação para fazer ela tomar sem problema.
- 23:02Betina não dava trabalho para nada no hospital.
- 23:04Todo mundo ficava Encantado, impulsionava de entrar no centro
- 23:07cirúrgico, sair do centro cirúrgico.
- 23:09Ela fez quantas cirurgias? Ela fez a implante do podcast do
- 23:13do cateter que foi, fez a vídeo s, depois mais 4, mas daí já foi
- 23:19no período de recidiva. Mas a betina.
- 23:22A betina era uma Diva, cara, betina.
- 23:25Assim, eu tenho vídeos dela na UTI.
- 23:28Que ela tinha acabado de tirar pela terceira vez o tumor, já no
- 23:31final do tratamento. E ela falando assim, mamãe, cadê
- 23:38minha maquiagem? Porque tem essa também, né?
- 23:41Rasguei todas as minhas discussões sobre não deixar a
- 23:46criança se maquiar. Não sei o que, betina.
- 23:48E tinha lápis de olho de tudo quanto é cor.
- 23:50Cadê minha maquiagem? Porque porque você quer
- 23:52maquiagem, mamãe, preciso me arrumar que tá aqui só de
- 23:56calcinha, na UTI, tô só de calcinha e vou ficar com essa
- 23:59cara lavada, tá bom, minha filha?
- 24:03O que que você quer, filha? Você quer fazer o que você quer?
- 24:05Vamos maquiar. Então Ela Foi muito viva em todo
- 24:09tratamento, né? E a gente e era isso mesmo, a
- 24:13gente, ela fez o tratamento 66 meses recidivou.
- 24:18Não tinha, não foi identificado mais nenhuma célula cancerígena
- 24:21nela. Entramos na manutenção.
- 24:24Quando entrou na manutenção, sai daqui os protocolos de ficar
- 24:27internado, né? Durante o período de internação,
- 24:29a gente vivia brincando de tudo. Eu comprava fantasia, betia na
- 24:34betia. Internações para ela, que era
- 24:37para acompanhar. Como eu, eu falava para ela da
- 24:40surpresa, até Ela Foi nomeado como surpresa.
- 24:45Assim, ó, essa surpresa não é uma surpresa que precisa de um
- 24:47tratamento para ela não voltar, porque não é uma surpresa legal.
- 24:51E ela falava, era uma gracinha ela com 3 anos, contando a
- 24:53surpresa na barriga dela, quando ela, né?
- 24:56Eu acho assim que uma passagem que foi importante foi quando a
- 25:01quimioterapia começou a cair o cabelo dela e ela achou o cabelo
- 25:03todo cacheadinho, né? E ela não queria raspar a
- 25:07cabeça. E aí eu fui, eu raspei.
- 25:10Eu cheguei em casa com a cabeça raspada e daí quando ela me viu
- 25:16com a cabeça raspada, ela virou e falou assim, eu preciso
- 25:21raspar, né, mamãe? Eu falo, filho, eu acho que é
- 25:24melhor, porque olha a casa, né, ele tá caindo tudo, não tá
- 25:27confortável, né, filha? Ela falou assim, você ficou
- 25:31bonita. Eu falei, obrigada, meu amor,
- 25:34né? Ela, eu falei, você também vai
- 25:36ficar bonita. E daí a gente raspou a cabeça
- 25:38dela. E daí?
- 25:40A partir daquele momento, eu acho que ela entendeu um pouco
- 25:42de que aquilo sempre lembrando que tinha 3 anos, né?
- 25:46Nisso. Então.
- 25:47Assim, quando ela entendeu que tinha alguma coisa diferente,
- 25:50porque a partir daquele momento ela seria uma criança careca.
- 25:53Mas eu sempre pensei assim, ela tinha 11 força de vida, uma
- 25:59grandeza dentro dela, que eu falo assim, gente, a única coisa
- 26:03as pessoas perguntam. Ah, você se revolta, e isso e
- 26:06aquilo. Eu falei assim, gente, eu, eu
- 26:07não tenho tempo de me revoltar. O que eu tenho isso?
- 26:12Eu não tenho tempo de me revoltar.
- 26:13O que eu sinto é honra. Eu me sinto honrada de poder ter
- 26:17sido mãe da betina, porque cada vez que ela IA para o hospital,
- 26:22cada vez que internava, cada vez que tinha uma situação que era
- 26:25mais difícil, que a medicação, dava muito efeito colateral.
- 26:29A maneira que ela lidava com isso era de uma serenidade.
- 26:34Que ensina tanto, né gentil? Por Deus, a menina tinha 3 anos
- 26:37e 4 meses e ela catava o baldinho dela.
- 26:39Ela catava o baldinho, ela falava, mamãe, eu vou vomitar.
- 26:43Eu dava um baldinho, ela vomitava no baldinho e me
- 26:45entregava o baldinho. A gente chegava da
- 26:48quimioterapia, ela andava com o baldinho dela, tiju por Deus e
- 26:51ela não, porque eu ensinei, porque eu não queria.
- 26:53Filha, pode não, ela fazia assim, vomitava no baldinho
- 26:57dela, ela virava na patente e dava descarga.
- 27:01Então assim, ela entendeu o que que IA fazer parte, eu tinha
- 27:03para surpresa não voltar, até que um dia eu falei para ela,
- 27:07filha, ela tinha mais ou menos uns quase 4 anos.
- 27:11Ela falou assim, mas mamãe, que que surpresa é essa?
- 27:14Eu falei, filha, na verdade é um chama câncer, né?
- 27:19É uma doença que deu no seu corpo e precisa tirar EE com a
- 27:25medicação para ela não voltar. Ela falou, por isso que eu tenho
- 27:28que vir para o hospital. É filha, por isso eu preciso vim
- 27:31canto para o hospital para que o câncer não volte.
- 27:35Então tá bom, tudo bem? Nossa, era.
- 27:41Algumas internações eram mais difíceis, porque a medicação era
- 27:43muito forte, né? Passava muito mal, tinha uma
- 27:47quimioterapia, né, que era terrível, que ela ficava com
- 27:51muito gosto de ferro na boca. Então, assim, o estar com a
- 27:55betina nesse percurso era um exercício com um time que assim.
- 27:58Nós não podemos porcaria nenhuma na vida.
- 28:03A nossa impotência é o que há de mais real na nossa vida.
- 28:09E estar com Ela Foi um exercício da insignificância.
- 28:15Cara, e como é difícil, né? Tipo assim, uma febre no filho,
- 28:18a gente já fica desesperada de você vê o filho chorando de dor,
- 28:22você vai enxergando e falando, nossa, eu não posso fazer nada.
- 28:24E quando chega numa situação como a medicina chegou?
- 28:27Que isso de você olhar o que eu posso fazer é a gente confiar
- 28:30que a nossa presença é fazer muito, né?
- 28:31Tá com ela é fazer o que? Tudo que eu posso fazer é tá com
- 28:35ela, a vivencia é isso, com ela é, tá aqui pra aprender, pra
- 28:37aprender com ela, tá aqui pra porque não tem outro caminho,
- 28:40não tem você não, não tinha o que fazer ali, além de de
- 28:46reconhecer essa grandeza, né? Porque elas surpreendem muito,
- 28:50muito quando você vive essa coisa, essa criança.
- 28:52De 3 anos, com baldio na mão e você olha e fala meu Deus do
- 28:55céu, parei um anciã, um. Anciã, mas a betinet é uma
- 28:58diferente. A betinet eu tenho certeza, é
- 29:01toda vida a betinet. A betin é, ela chegou, por isso
- 29:05que eu falo que ela é um cometa, porque ela chegou do jeito que
- 29:08ela chegou, ela nasceu do jeito que nasceu, era um cometa meu,
- 29:11ela e morreu do jeito que morreu.
- 29:13Ela, eu acho que assim, dentro da experiência do hospital, eu
- 29:17fui tentando poupar ela do contato com a morte de outras
- 29:20crianças, porque tinha dias que eram terríveis, né?
- 29:21Elizano assim, nossa, e assim era coisa que eu nem
- 29:24compartilhava com as pessoas que eu falei, assim, como que você
- 29:26chegue para uma pessoa e como você tá, tá tudo bem, não tá,
- 29:29não tô bem hoje não, o que que foi?
- 29:303 mais me ligaram porque 3 crianças morreram hoje, né?
- 29:34Então eu vivi, eu acho que quando eu tava falando com você
- 29:36antes, se fosse um ano atrás, eu acho que essa conversa seria um
- 29:40pouco diferente. Porque acho que no momento eu
- 29:42estou hoje olhando assim, falando, cara, como eu dei conta
- 29:45de tudo que eu dei conta como eu segui a vida e como é é eu
- 29:53suportei estar naquele lugar e mantendo ela viva do jeito que
- 29:57eu mantive, assim, sabe, não que não ouça eu que fiz tudo, mas
- 30:00assim eu sei que eu. Que eu fiz, mas que por tanto é
- 30:03que eu não li. Tem culpa de nada, mesmo com
- 30:06todo mundo, porque eles sabem que eu escutei de gente falando
- 30:09assim, nossa, mas o que que aconteceu?
- 30:10Que teve câncer? Que ela teve câncer?
- 30:13Nossa, teve um dia que eu fiquei tão putiada.
- 30:15Eu falei, cara, eu dei para ela engolir.
- 30:18Eu comprei um câncer no mercado. Pô, dei para ela engolir, nossa,
- 30:21mas a criança é o sintoma da casa.
- 30:23Eu falei, gente, a gente pode até falar isso?
- 30:27Não, a gente pode até falar isso quando a gente tá falando de uma
- 30:30dinâmica, de uma psicodinâmica, de um sintoma familiar ali,
- 30:34agora falando disso, de um câncer, pelo amor de Deus,
- 30:37nossa, mas olha, gente do céu, cada coisa de doer.
- 30:42É sobre proteger a betina. A minha mãe teve câncer.
- 30:47E as pessoas vinham visitar minha mãe e muitas vezes a gente
- 30:50consolava as pessoas. Mas o tempo todo.
- 30:52A gente que falava não, está tudo bem.
- 30:53As pessoas chegavam na casa da minha mãe.
- 30:54A gente estava rindo, contando besteira, porque ali virou, é
- 30:58isso aqui a gente vai ter esses próximos meses com
- 31:00quimioterapia, com tudo mesmo, careca, e assim é isso.
- 31:04Aí. E as pessoas vinham como se elas
- 31:07estivessem visitando minha mãe. Morta vê lá, vê lá.
- 31:10Isso era uma coisa que eu ficava doido.
- 31:12As pessoas vinham ver a Betinha, tanto é que é minha.
- 31:14Só Deus que me perdoe. Mas eu falo assim, gente, a
- 31:17pandemia tem várias questões. Eu sinto muito por todas as
- 31:20perdas, mas o fato da gente estar em pandemia, minha filha
- 31:23não ter contato com morrer gente agorenta foi uma benção.
- 31:26Porque isso as pessoas veem como se a pessoa.
- 31:28Estivesse. Morrido eu acho que o mais
- 31:30bonito de tudo, quando a gente pensa de você falar assim, a
- 31:33minha filha está viva porque foi uma briga.
- 31:35Mantê la viva o que as pessoas querem, se reclamou, já vou
- 31:38errar como se tivesse morrido. Não, eu recebi quando a gente.
- 31:46A betina nos últimos 7 dias, que foi quando a gente já internou e
- 31:50ela entrou em processo, não tinha o que fazer, mas assim
- 31:54podia morrer hoje, como podia morrer dali 3 meses, como eu já
- 31:56tinha visto, né? Eu recebi várias ligações me
- 31:59dando peso, mas a minha filha viva ainda valeu várias, várias,
- 32:04várias. Então assim, é uma falta de, de
- 32:08de eu assim de conhecimento mesmo, sabe?
- 32:12Eu fico pensando que é de conhecimento mesmo.
- 32:15Porque quando a gente foi vivendo nesse sentido de que
- 32:18assim ela está viva, ela está viva e isso EE, tanto é que eu
- 32:23tenho uma história que é ótima gente, quando recidivou a
- 32:26segunda vez, porque daí assim tava em recidiva, a gente foi
- 32:31fazer um exame de rotina. Aquela pentelha virou pra mim e
- 32:36falou, vai achar uma bolinha. Eu falei, cale a boca, betina,
- 32:40para de agora. Alô para de gorar, menino, tá
- 32:43doida? Não, não.
- 32:45Não vai achar nada, betina, que isso?
- 32:47Ela falou, vai achar uma bolinha, alô?
- 32:49Eles vão por olha com mentira e tudo.
- 32:51Como diz mineira é coisa mais plena, plena, vai achar uma
- 32:57bolinha. Eu falei assim, pô, para com eu,
- 32:59vai. Achar a bolinha?
- 33:00Tchau. E tava e ali todo mundo já
- 33:02conhecia a gente. Betina já tinha sido o garoto de
- 33:04propaganda do laboratório. Daí já ficou as meninas falando
- 33:08para betina, não fala assim não. Como foi para você receber esse?
- 33:13Achou uma bolinha? Aí que eu falo exame que eu não
- 33:18sei se eu psicotizei eu. Eu sempre falo que eu tenho
- 33:22impressão que eu psicotizei nisso, porque o que eu fiz?
- 33:27Eu eu já todos os exames que tem para esse câncer eu eu sei ler,
- 33:34né? Na hora que eu abri o resultado,
- 33:39eu só respirei fundo. Betino estava brincando No No no
- 33:46playground do prédio com meu filho e o meu marido.
- 33:51Eu chorei 5 minutos. Eu chorei 5 minutos.
- 33:58Passei irmão no telefone, liguei pro médico da betina, Daniel
- 34:02voltou pra onde você foi? Não, Daniel, não, Daniel, não é
- 34:07isso, o câncer voltou, tá louca, Juliana?
- 34:12Antes tivesse, estou te mandando o resultado e daí você fala,
- 34:15quando eu preciso ir para Londrina?
- 34:18Desliguei o telefone e respirei fundo.
- 34:22Fui bater chantilly, Sério? Porque eu sabia que IA ser uma
- 34:29temporada difícil. Fui brincar com ela de e com o
- 34:32Miguel e com meu marido de torta na cara, porque a única coisa
- 34:37que passava na minha cabeça era. Eu preciso deixar o Chico também
- 34:42o mais relaxado possível, porque eu vou ter que contar para ele
- 34:45isso. Caraca.
- 34:48Eu vou ter que contar para o Miguel, contar para o partido.
- 34:52Daí o Miguel já estava com o site entendendo muito todo, né?
- 34:56E eles falavam tudo. A bethinha era uma criança e
- 34:58perguntava para ela, porque você está fazendo?
- 35:00Você vai para o hospital? Porque eu tenho câncer.
- 35:04E eu preciso fazer AA kimio. Ela falava kimio.
- 35:09Ela tinha um sotaque kimio. Eu vou fazer a kimio para o
- 35:12câncer não voltar. E aí, brincando de torto na
- 35:18cara. Juliana no céu.
- 35:21Aí eu falei, não vou falar com ela antes do antes do Daniel me
- 35:25ligar. Daí a gente foi dormir e contei
- 35:29para o Chico, muito angustiada. Porque que que vai ser agora, e
- 35:37agora, e agora, e agora? Quando volta a história
- 35:41diferente, a gente já sabe quem voltou, eu já, eu já sabia.
- 35:45Eu já tinha visto muita criança morrer, né?
- 35:48Daí ele falou assim, olha, ele vai fazer cirurgia e daí assim
- 35:52isso era dezembro. Ele falou, passa, tá pequeno
- 35:55ainda. Curtas festas de final de ano
- 35:59interno, dia 8/01/2021. Para fazer a cirurgia.
- 36:06Aí eu falei assim, não vou falar com ela. 3 dias depois ela olhou
- 36:12para mim, quando que eu vou para o hospital?
- 36:15Eu falei, por quê? Achou a bolinha?
- 36:18Não achou a mamãe achouraca, achou nós vamos dia 8, que que
- 36:23vai fazer filho? Daí a gente tem que conversar
- 36:26com o tio e o Daniel para ver o que que vai acontecer com com 44
- 36:31anos e meio, que ela é de junho. E aí a gente foi, operou, tirou
- 36:38a AI, todo mundo muito feliz. Cirurgia de sucesso.
- 36:43Vamos começar o segundo protocolo, vamos ver dar tudo
- 36:46certo, porque tava encapsulado, então não tinha.
- 36:48Rompido. Isso em janeiro.
- 36:52Mas e como você já já tava sentindo que?
- 36:55Já foi ali que bateu, assim que eu posso passar pelo menos no
- 37:00aniversário dela com ela. E aí todo mundo assim, por que
- 37:05que você tá pensando isso? Que mãe não pode desistir?
- 37:09Daí eu falava, gente, eu vi tanta gente morrer, tanta gente
- 37:12morrer, tanta criança morrer, que eu que eu sentir não vai
- 37:18dar. E aí começou.
- 37:21Você acha que ela se enchia também?
- 37:22Ela sabia, né? Eu nem sabia.
- 37:23Ela sabia. Ela sabia.
- 37:25Eu Nem Ela começou depois que ela voltou do hospital.
- 37:28Dessa vez ela começou assim, eu entrava no quarto.
- 37:30Ela tava brincando com Miguel. Miguel, como que você acha que é
- 37:33o céu? Por onde você acha que a gente
- 37:39vai quando a gente morre? Belíssimo dia, não sei.
- 37:45Arno, não sei, metida, começou uma onda que eu falo, gente, aí
- 37:51eu falo assim, puta merda, não é qualquer um que aguenta isso.
- 37:54Eles começaram a brincar de enterro, eles andam.
- 37:57Uh, ela precisava elaborar. Ela precisava elaborar.
- 38:00Aí que eu falo, eles começaram a brincar de inteiro.
- 38:02Tinha 11 caixa de brinquedo que virava o caixão.
- 38:05Eles tiravam tudo. Entravam, fechava ele e o ela e
- 38:11o Miguel. E como foi importante pro Miguel
- 38:14vivenciar essa brincadeira também?
- 38:16Nossa, muito como gente. Aí ela virava pra mim, e assim,
- 38:21mãe, como que você vai me reconhecer?
- 38:30Te reconhecer como meu Tina quando eu não chegar mais aqui
- 38:36Do Nada elisame, eu estava fazendo arroz.
- 38:39Essa criatura chegava e falava assim comigo, Do Nada, Ciro, eu
- 38:46sou sua mãe qualquer. Eu vou te reconhecer sim, se a
- 38:50mamãe sempre vai te reconhecer. Seja aqui, seja onde for, a
- 38:54mamãe sempre vai te reconhecer. Tá aí o médico e a mamãe, não
- 38:56tem uma úmida que eu não tenho. Certeza vai me reconhecer, vai
- 38:58me reconhecer pela voz, porque a gente brincava muito que a voz
- 39:02dela era ardida, que nem aí eu falei, não, filha, fica
- 39:06tranquila que a mamãe vai reconhecer.
- 39:08E aí a gente voltou a fazer tratamento e super empolgar.
- 39:13Não vai dar certo, vai dar certo, vai dar certo, vamos
- 39:15confiar. Mas aí assim eu já sentia que
- 39:18aqui tinha algo já dizendo que não IA.
- 39:21Mas eu fui me vendo. Eu tive um momento de muito
- 39:23desespero, um dia que ela estava assim, há 3 dias sem comer, e aí
- 39:28eu falei assim, puta merda. Eu meti, você precisa comer,
- 39:31filha, você está doente, eles ama.
- 39:34Ela olhou para mim séria como é? Eu falei, o que?
- 39:41Eu estou doente, mãe? Elisabe, eu fiquei tão passada
- 39:47na hora que olha, eu caí de cama. 30 minutos depois eu virei
- 39:54para ela. Não, eu falei, você não tá
- 39:55doente, só que você pode ficar se você não comer, tenta comer
- 40:00alguma coisa, por favor, mas o câncer tava já desconfortável,
- 40:04né? EEO corpo vai entrando numa
- 40:05homeostase, por Deus, você não sabe.
- 40:08Eu tive uma cólica renal, eu caí de cama, de cama.
- 40:14Daí ela falou, Ah, não, mas você que está doente, né?
- 40:17É, sou eu, o filho que está doente, e ela vinha me dar coisa
- 40:20para comer, me dar água, meu Deus.
- 40:23E aí eu entendi assim, cara, ela, Nem Ela sabe que tem
- 40:28câncer, ela sabe que câncer não é doença, mas gente, eu, meu
- 40:32marido, a minha família, eu sei que fui eu que sustentei isso.
- 40:36Eu tenho muito claro isso, porque eu que coloquei essa
- 40:38ideia, mas todos compraram comigo, ninguém tratou metido
- 40:42com uma criança doente. Nada, entendeu?
- 40:45Eu eu dei uma briga com ela, ela, há 3 dias, antes dela
- 40:49morrer. O médico veio brigar comigo.
- 40:51Quando você fala assim com ela, eu falei assim, porque ela está
- 40:54viva e ela vai ser uma criança educada.
- 40:56Ela não pode falar assim com os outros.
- 40:59Ela não pode falar assim com os outros.
- 41:01Ela está viva ela. Entendeu?
- 41:03E Ela E Eu vou educar e vou ser mãe dela até a hora.
- 41:06Ela é o último. Dia eu vou ser mãe dela.
- 41:08Até o último minuto, então, assim.
- 41:12Então a gente foi vivendo as coisas nesse sentido de que ela
- 41:15ela não tinha. Ela sabia que ela tinha câncer,
- 41:17ela tinha clareza disso. Ela falava o nome das
- 41:19medicações, ela falava o nome, ela sabia tudo, mas ela não
- 41:24tinha se apropriado a questão da doença.
- 41:27E a gente quando recidivou de novo, aí eu eu falei para o
- 41:33médico na hora que fez a terceira AA última cirurgia.
- 41:38Ele falou, dessa vez não foi uma cirurgia boa.
- 41:40Teve que por um cateter nela, porque tava é comprimindo o
- 41:46cateter do rim. Então ela sentia muita dor.
- 41:52Aí eu falei para eles e eu falei assim, Ah, ok, que que faz?
- 41:57Agora vamos ter que pensar, repensar o protocolo quando
- 42:02começa. Eu acho que tem para ela ser
- 42:06recuperada, a servir. Eu falei assim, eu posso viajar?
- 42:11Eu lembro dessa história, você viajou com ela?
- 42:16AI tem que ver a imunidade. Não sei o que eu falei, só quero
- 42:18saber se eu posso viajar. E foi aí que a gente embarcou.
- 42:22Vocês foram para onde? Gente, foi para Santa Catarina
- 42:25porque ela queria andar de roda gigante.
- 42:28Falei, mamãe, quero andar de roda gigante.
- 42:30Eu falei até um nome. Daí eu fui para o Beto Carrero.
- 42:33E aí a gente foi vivendo um dia de cada vez, sabe?
- 42:36Se um dia de cada vez vamos no Beto Carrero, no outro dia ela
- 42:40quer descansar, ela descansava, no outro dia fomos para
- 42:44palmerode porque eu tinha um zoológico lá.
- 42:48No outro dia eu quero ir para praia, e daí na praia, tipo
- 42:55assim, não tava preparado para praia, né?
- 42:56E tava meio frio até. Ela quebrando o pau comigo, que
- 43:00eu era uma péssima mãe, que eu não tinha vergonha na minha cara
- 43:03porque eu não tinha levado um casaco Pra Ela.
- 43:06Eu falei, você largou no carro, eu não vi, me desculpa, não dá
- 43:10pra ir buscar não, você é uma péssima mãe, só mesmo, fazer o
- 43:13quê? O que que a gente pode fazer
- 43:14agora que agora é o que a gente tem, filha, é a mãe que você tem
- 43:18essa, Ah, não sei o que, então me dá enrolei uma canga, comprei
- 43:23uma canga no negócio lá do do dos bondinho.
- 43:27Daí na praia eu sentei, ela falou, mamãe, eu quero entrar na
- 43:31água. Daí o Miguel também quero,
- 43:33mamãe, não sei o que. Daí deixei um de cueca de
- 43:36calcinha. Ela vê, eles pegou na minha mão
- 43:41e falou, vem, mãe. E eu fui de.
- 43:45Roupa. Eu fui de roupa, ela olhou pra
- 43:49mim assim, aproveita a vida e mãe.
- 43:58Aproveita o vida, mãe, de frente para o mar, na praia de
- 44:03Laranjeira, do Paraná. Aproveita, gente.
- 44:06Eu fiquei tão sem chão, tão sem chão aquela hora.
- 44:12E quando a gente saiu da praia, a gente entrou no estacionamento
- 44:17onde estava o carro. Eles estavam cheio de Areia e
- 44:19não sei o quê. Eu falei para o moço,
- 44:20estacionamento tem com chuveiro para eu dar banho neles, porque
- 44:23assim tu está com muita Areia, não sei o quê.
- 44:27A gente vai pegar um hotel e não queria chegar assim no hotel.
- 44:30Ele olhou, caiu com as crianças pequenas e foi tomar banho.
- 44:34Dei pai dela, começou a cair o cabelo dela.
- 44:37De TUF, nossa, e cai muito para quem vai.
- 44:40Viver isso, gente, é. É assustador, é, você toma um
- 44:44surto na hora do tonto de cabelo?
- 44:47Aí quando começou a cair o cabelo dela, só olhou para mim,
- 44:51tá na hora de ir para casa, mãe? Eu falei, nós vamos para cá.
- 44:56Eu, a gente IA parar no hotel para ver.
- 44:59Eu virei para o Chico e falei assim, nós vamos tocar direto.
- 45:01Vamos direto na casa, vamos no hotel?
- 45:03Não. Nós vamos tocar direto e a gente
- 45:06tocou de Curitiba para cá, de de Santa Catarina para cá.
- 45:10Chegamos em Maringá, amanhecendo o dia.
- 45:16Então assim, eu já pensando assim é a morte enunciada mesmo.
- 45:25Aí raspei a cabeça dela. Daí eu falei assim, a mamãe vai
- 45:27raspar também? Ela falou, dessa vez não, mãe.
- 45:30Dessa vez você fica de cabelo. Comprei.
- 45:32Eles falam isso a. Aluna não deixou eu raspar o
- 45:34cabelo. Até eu falei, mas eu gostei pra
- 45:37caramba. Filha de cabelo raspado é tão
- 45:39mais vida, amor, botava ela não deixa.
- 45:42Eu me preocupar com o meu bem? Eu acordo, já estou pronta.
- 45:44Não tem que passar 50 creme pra ficar bom não, mamãe, só eu vou
- 45:48raspar. A gente e tinha uma coisa já com
- 45:53o cabelo, né? Porque quando saiu OOO, segundo
- 45:57tumor, eu decidi fazer uma festa Pra Ela também, uma coisa pra
- 46:03comemorar com as amigas. Daí eu falei a festa do cabelo.
- 46:08E aí a gente comprou tinta colorida, roxa, azul, cor de
- 46:12rosa, e porque ela falava muito, mamãe, eu quero pintar meu
- 46:16cabelo. E eu sabia que ela IA ficar
- 46:18careca de novo. E dei todas as as amiguinhas,
- 46:23né, que é a Cida, todo as a Fran pintou o cabelo, Eu e Ela é
- 46:27muito danada, né? Porque você acredita lizandro
- 46:30que eu falo como ela tinha uma coisa com a vida assim que era
- 46:34muito lindo, porque ela deixou todo mundo pintar o cabelo
- 46:37primeiro. Ela Foi a última a pintar o
- 46:40cabelo e ela falou assim, mamãe, eu vou pintar de rosa.
- 46:42Eu falei, então eu vou pintar de rosa para ficar igual com você,
- 46:44né? Pensa 40 e poucos anos é de
- 46:47cabelo rosa. Rosa chiclete, como diz a outra,
- 46:51pois ela pintou o cabelo de roxo, foi a única que pintou o
- 46:54cabelo de roxo, ela ela não queria que ninguém disse, ela
- 46:58estrelou ela, na hora que ela apareceu ficou todo mundo de
- 47:01errado, eu não, mas assim plena, você tá entendendo?
- 47:05Plena, maravilhosa. E nessa festa ela falou assim,
- 47:09obrigado, tem uma foto até que mostra Eu e Ela assim olhando
- 47:12uma de frente pra outra, ela, obrigado mamãe por realizar meu
- 47:15sonho. Daí eu falei, todos que a mamãe
- 47:18puder, filho. Vocês não era ler também, não
- 47:20foi? Oi.
- 47:21Vocês não era ler, não foi até uma coisa assim que.
- 47:23Você, ela, na semana que ela no hospital, você acredita?
- 47:26Como que? Olha o que eu falo assim, a
- 47:29betina fez eu entender a magnitude da frase, que é que
- 47:32quando a morte te encontrar, que ela me encontre viva.
- 47:38Quando a morte me encontrar, que ela me encontre viva.
- 47:41Porque a betina morreu. Cara, não encontrou.
- 47:45Eu não estava no momento que ela morreu, porque me deu uns 5
- 47:48minutos. Eu vim para Maringá para ver os
- 47:50meninos, porque o Guilherme e o Miguel estava muito agitados e
- 47:55eu falei assim, e eu estava há 8 dias no hospital, eu tinha vindo
- 48:00só uma vez para Maringá. Eu estava assim, 9 horas da
- 48:03noite eu saí de Londrina, 9 horas da noite eu vim, aí eu
- 48:05cheguei. Os 2 choraram abraçado comigo.
- 48:09O Miguel tentando falou, mas por que mamãe?
- 48:11Eu falei, porque tá chegando a hora dela, o filho, porque ela
- 48:14teve um negócio também, isso é muito interessante.
- 48:17A betina escolheu quem ela queria ver, ela não deixou
- 48:21qualquer pessoa entrar no hospital na última semana pra
- 48:25ver ela. Se ela não queria ver, ela
- 48:27falou, pode sair ela na porta. A pessoa chegava na porta, ela
- 48:30falava, saia, dava de beber, saia.
- 48:34Ela só deixou eu chegar perto dela que ela queria, e os irmãos
- 48:37ela queria, né? Meu marido tem 11, filho mais
- 48:42velho não quer pra meu também, né?
- 48:44Mas e aí? Ela queria ver os irmãos,
- 48:48brincar com os irmãos, e daí eu vim na véspera, né?
- 48:51Da morte dela, eu vim pra cá. O Chico conta que 15 minutos
- 48:57antes dela morrer, 15 minutos, ela tava quebrando o pau com
- 49:00ele, porque ela ele deu água de coco quente Pra Ele.
- 49:03Você não serve nem pra me dar uma água de coco, gelar.
- 49:08E o Deus, ô vaba, garota nossa, é uma abusada.
- 49:14Você tem assim, se ela não me serve nem pra me dar uma água de
- 49:17coco gelada. Aí ele falou, que bicho ousado.
- 49:20Não, ela tá viva, viva. EE, no hospital foi muito, até
- 49:26até uma coisa interessante assim foi, teve uma, lógico, gente,
- 49:32tava eu e o Chico surtado, né? Porque é uma coisa a gente saber
- 49:34que vai morrer, outra coisa tá morrendo mesmo, né?
- 49:36Vivenciar isso? Coisa, eu tenho intuição que
- 49:38isso está acontecendo. Outra coisa, eu chegar a hora.
- 49:40Entendeu? Então assim daí ela é
- 49:43carequinha. Ela quis ir ver meu pai, tinha
- 49:45ido ver meu pai. E quando a gente chegou em
- 49:47Maringá, eu cheguei em Maringá no domingo, na segunda-feira, a
- 49:50gente IA começar químio. E aí ela virou.
- 49:52Para mim, mas foi depois da viagem.
- 49:54Foi. Ela virou para mim e falou
- 49:56assim, mamãe, eu não quero ir para Londrina.
- 49:57Por quê? Porque eu não vou voltar.
- 50:01Ela falou isso para você? Eu não vou voltar, eu não quero
- 50:03ir para Londrina, eu não vou voltar.
- 50:05Eu falei para filho, vai fazer só os remédios.
- 50:09Ela silenciou, beti nunca tinha feito isso, ela silenciou, vesti
- 50:14ela de princesa do jeito que ela queria, pus uma peruca, que ela
- 50:16tinha ganho uma peruca, a gente foi para ela, foi 1 hora e meio
- 50:20em silêncio, isso nunca acontecia.
- 50:22E beti um cantava o tempo todo, falava o tempo todo, chegamos em
- 50:26Londrina. Eu falei para o Daniel e Daniel
- 50:30não tem alguma coisa errada. O betino falou que não volta
- 50:31para casa, imagina, está doida, pare com isso aí eu IA pedir o
- 50:35exame, daí eu vou pedir. Eu falei, faça, na hora que fez
- 50:39o exame de imagem já estava, já estava careca de ver exame, Na
- 50:43Na hora que eu bati o olho, você já entendeu tudo, eu entendi
- 50:46tudo, por isso que ela não estava comendo, ela já não tinha
- 50:48espaço, o tumor tinha tomado tudo, o médico não conseguiu
- 50:52voltar para falar comigo, o médico fez.
- 50:54Ultrassom? Ele não voltou, não voltou.
- 50:58O médico teve uma crise de hipertensão, ninguém conseguia
- 51:02falar comigo. 2 dias depois que eles vieram falar comigo para
- 51:07contar que tinha mais que fazer, eu falei assim, então para tudo.
- 51:10Então para a quimioterapia, tudo que tem para fazer, para e vamos
- 51:15seguir os dias conforme dá. E aí veio a questão do ler, que
- 51:19ela virou para mim e falou assim, mamãe, eu quero escrever.
- 51:24Eu falei, como que é? Como que escreve Miguel?
- 51:29Aí eu falei as letras. Ela escreveu como escreve, papai
- 51:35lê ela escreveu. Aí ela como escreve.
- 51:38Te amo, lê ela escreveu. Como é que faz os números?
- 51:49Preciso dos números pra eu. E Ela Foi copiar, então assim,
- 51:53mamãe, quero brincar de tal coisa.
- 51:55Então vamos brincar, mamãe, quero tal boneca.
- 51:58Tava na época daquelas lol daquela.
- 52:02O Chico até me contou essa semana.
- 52:03Eu não sabia dessa história, que quando ele chegou na reap
- 52:05Londrina que ele achou a boneca que ela queria e que ele catou a
- 52:10boneca você todo show da lógica começou a chorar.
- 52:17E daí que todo mundo fica perguntando, o que que
- 52:18aconteceu, quem que cata uma boneca?
- 52:20Quem que cata a boneca, meu Deus do?
- 52:22Céu, percebe isso aqui? Isso aqui que eu falo é Sério o
- 52:25tempo todo assim. Então eu digo, gente, está
- 52:27morrendo de chorar de tava aí que que a tua boneca chora no
- 52:29meio de uma loja de brinquedo, ele falou, alguém ajuda esse
- 52:32moço? Pelo amor de Deus, porque a dona
- 52:34da boneca foi brincar com a boneca só uma semana, mas ela
- 52:38brincou com a boneca aquela semana.
- 52:43E é isso. A gente foi vivendo a vida,
- 52:45porque eu acho que é isso. Lizano sabe a gente AA morte.
- 52:52Ela é algo que vai acontecer na nossa vida.
- 52:55A questão é como a gente vai decidir viver esse momento?
- 52:59E a bentinda te fez prometer para aproveitar a vida, né?
- 53:01Ela queria muito. Ela queria muito e ela
- 53:04aproveitou a vida dela e eu me sinto assim, muito honrada de
- 53:09ter podido fazer parte disso. E ao mesmo tempo que eu sinto
- 53:13assim o quanto eu cresci enquanto pessoa mesmo, sabe de
- 53:18de que assim não. As coisas que se tornam muito
- 53:21pequenas. Quando a gente tem um problema
- 53:23desse tamanho, o resto não é mais problema, né?
- 53:26Mas ao mesmo tempo, quanto eu permiti olhar para mim também?
- 53:29Isso porque se ela falou, aproveita a vida, mãe, aproveita
- 53:32a vida. E essa conversa?
- 53:34Fica comigo, tanto é que eu falo que porque que eu continuo feliz
- 53:38em pé? Nunca mais, não em pé, nunca.
- 53:44Como tipo assim, inteira, nunca inteira.
- 53:46Não vai acontecer. Mas feliz porque assim, por
- 53:49honra mesmo, a história maravilhosa que minha filha me
- 53:52ensinou de que a gente assim, né?
- 53:54No hospital, ela falava, eu estou bom. 1 hora que eu e o
- 53:56Chico desorganizamos. O Chico começou a brigar comigo
- 54:00no hospital. Acho que ele estava tão tenso
- 54:03com tudo que estava acontecendo, que ele teve que arrumar uma
- 54:05confusão. Sim, então o Cláudio da vida,
- 54:07precisamos descontar isso. Eu ganhei.
- 54:09Medicina deu um grito? Deu.
- 54:10Nunca tinha acontecido isso. Medicina deu um grito.
- 54:13A imagem que me veio na hora que ela deu um grito é tipo aquele
- 54:15tapa que a gente dá na mesa para essa palhaçada.
- 54:19Para com isso eu tô. Morrendo, já falou com?
- 54:22Todas as letras, gente, eu, eu paralisei, eu paralisei.
- 54:30Eu não falei Pra Ela uma filha que você está morrendo, né?
- 54:32Bom, eu não falei em nenhum momento isso.
- 54:34Mas ela sabia, ela sabia que ela não tinha que voltar ela.
- 54:36Se ela virava, ela me perguntou para o médico, tanto é que eu
- 54:39ganhei um colar de uma da da cirurgiã, da doutora Carol, que
- 54:43que é metade do coração, porque como ela perguntava e perguntava
- 54:47para as pessoas, como ela IA me achar que a Carol mandou gravar
- 54:50o meu nome num lado e o dela no outro, só que com a graça do
- 54:56senhor, como diz o né? Graças a Deus foi algo rápido,
- 55:01porque eu vi as crianças definharem por meses.
- 55:03A única coisa que eu falava assim, meu Deus, isso não deixa
- 55:07minha filha sofrer, eu não dou. E eu não dava conta lizame era o
- 55:10meu limite. Se ela começasse a definhar, era
- 55:14o meu limite. Então, assim, ela morreu com
- 55:16dignidade e com uma tanta vida dentro dela.
- 55:23Que eu acho que é isso? Sabe aí o Chico que te ligou
- 55:25para contar? O Chico estava com ela.
- 55:27O Chico me ligou, eu estava voltando já para Londrina, já
- 55:30estava, não só eu estava com a minha irmã, porque me deu uns 5
- 55:33minutos. Eu acordei 5 horas da manhã,
- 55:35liguei para minha irmã, eu falei, eu preciso, eu vou para
- 55:37Londrina agora. E eu não quero ir sozinha, não
- 55:41quero ir sozinha. A minha irmã falou assim, eu
- 55:43preciso desmarcar plantão. Eu falei, minha filha, você
- 55:46desmarcou no carro, porque eu em 15 minutos eu estou aí.
- 55:50Eu estava indo para Londrina, o Chico me ligou e falou assim,
- 55:54você vai demorar. Daí eu falei assim, não, porque
- 55:57eu já estou aqui. Chegando no pedágio, ele falou
- 56:01porque ela entrou em processo ativo de morte.
- 56:07Aí eu virei para ele e falei assim, já eu estou.
- 56:10Aí desliguei. Mas eu te mandei para o
- 56:13universo. Eu falei, filha, não precisa me
- 56:15esperar. Se não me esperar, não precisa.
- 56:17A gente já viveu. Muita coisa além da ajuda filha.
- 56:19Porque eu tenho clareza que tudo que a mamãe podia fazer por
- 56:22você, a mamãe fez. E eu te amo imensamente.
- 56:26Não precisa me esperar. Ela morreu, eu tava estacionando
- 56:30na frente do hospital. E olha, no exame que eu falo,
- 56:36como são as coisas, né? A gente fez piada dia inteiro.
- 56:42No dia que ela morreu, a gente fez piada o dia inteiro, porque
- 56:45a gente ficou tão aliviado que ela não sofreu tanto do que
- 56:49poderia fazer, que a gente fez piada o dia inteiro.
- 56:53A betina pediu pra eu ir pra ser levada pro mar, né?
- 56:56Ela falou, mamãe, eu quero ir pro mar.
- 56:58Falei, como assim pro mar? Ela, quando eu morrer, eu quero
- 57:01ir pro mar. Então a gente cremou a betina,
- 57:03né? Aí virou uma piada danada,
- 57:06porque daí assim, meu Deus, mas quanto é que fica?
- 57:09Eu nunca tinha cremado ninguém. Quanto será que fica de cinza
- 57:12aí? A gente correndo, a voz do pote
- 57:15não faz sentido de nada comigo, pessoas escrotas, pô.
- 57:19Não. Aí a minha irmã vira assim, ó
- 57:21Juliana, é só um saquinho de reju.
- 57:22Aqui não é um saco de cimento. Aí a gente e a menina morta, meu
- 57:28Deus do céu, aquela cena, uma confusão naquele necrotério de
- 57:32de Londrina, um pouco brigando porque a amante tinha vindo para
- 57:36reconhecer o corpo do cara e a família não queria deixar aquela
- 57:39confusão. De repente eu olho daí tinha que
- 57:41reconhecer. Agora eu falei, eu não vou ver
- 57:42minha filha dentro do ml, não vou ver, daí ele recusa.
- 57:47Eu sei que naquele momento a minha irmã foi reconhecer.
- 57:51Eu não queria ir sozinha, né? Minha irmã foi.
- 57:54A minha irmã sai rindo do necrotério junto com a moça da
- 57:57funerária, as 2 rindo, eu me sortei, vocês estão louco,
- 58:02porra, desculpa gigar, vocês estão louco?
- 58:05Como assim vocês estão saindo rindo?
- 58:07A Tatiana virou para mim, a minha irmã caçula, ela é tão
- 58:10filha da puta, Juliana, aquela guria é tão filha da puta que
- 58:15ela tá rindo. Eles Ah, por Deus, estão no céu.
- 58:19A betina tinha feito quimioterapia, crianças que
- 58:21morrem. Pessoa que morre depois de uma
- 58:23terapia fica cinza, fica estranha betina estava rosada e
- 58:27rindo e rindo. Parecia 11 boneca dormindo.
- 58:32Foi aí que eu entendi assim, estamos todos em paz, vivemos
- 58:35aqui. Tínhamos que viver as dores, que
- 58:38não foi fácil, mas também com a beleza de enxergar a vida.
- 58:42Porque isso, né? A coisa tá aí e a gente.
- 58:48Eu tive a clareza. Não vou dizer lucidez, porque eu
- 58:51não sou uma pessoa muito Luci. Ainda bem, eu já tive a clareza
- 58:56de viver assim, de maneira a brincar cada vez que a morte
- 59:01vinha rondar, de falar para os meus filhos da importância de
- 59:08Viver A Vida. Como ficou para o Miguel, você
- 59:10acha que. O Miguel se revoltou muito, se
- 59:13revoltou muito, mas aí que tá que eu falo como é importante?
- 59:17Quando a gente permite se falar dos mortos, o Miguel até hoje
- 59:24briga com a betina em casa. Sério, você tinha que estar aqui
- 59:29isso, né? Não sei o que comece a brigar.
- 59:31Então assim a gente compra uma comida diferente.
- 59:34Nossa, betina IA adorar isso, vê um desenho.
- 59:38Nossa, a betina IA gostar muito disso.
- 59:40Nesse jogo ela é uma presença muito viva.
- 59:43E com honra a existência dela, é isso.
- 59:45Muito viva, ela tem uma presença muito viva na nossa casa assim,
- 59:49sabe? E não é de um peso.
- 59:50Eu falo que a saudade que eu sinto hoje não é nem a saudade
- 59:54dela, eu tenho. Sinto muita saudade do que eu
- 59:56não tive. Sim, eu não tive meu filho para
- 1:00:00buscar ela no colégio. Eu nunca vou buscar ela no
- 1:00:02colégio, nunca vou poder reclamar de uma nota baixa dela.
- 1:00:09Do namorado, entendeu? Da primeira menstruação, de uma,
- 1:00:17sabe assim, ela é bailarina, né? Betina fez aula de balé, ela
- 1:00:20adorava de poder ir ver o recital dela, sabe?
- 1:00:25Então eu eu vejo assim, muito disso.
- 1:00:30E hoje também eu estou me respeitando mais, porque antes a
- 1:00:33gente eu ficava muito nessa posição também, que você falou,
- 1:00:35sabe? De ficar acolhendo as pessoas.
- 1:00:38Hoje já não. Hoje eu estou me respeitando
- 1:00:39mais, não. Você quer chorar a perda dela.
- 1:00:42Depois eu choro com outra pessoa.
- 1:00:43Comigo eu não sou a pessoa, mas. Está te apoiando nisso?
- 1:00:46Não. E eu tenho.
- 1:00:47Nossa, e o quanto isso é importante para você colocar um
- 1:00:49limite na sua energia? É, mas.
- 1:00:51Eu acho que é isso que eu acho que eu falo assim, foi lá em
- 1:00:54Salvador, estava te contando a história de quando eu fui para
- 1:00:56Salvador, porque uma amiga minha, minha filha, em plena fé
- 1:00:58de iemanjá, o que virou e falou assim, eu fui me apresentar para
- 1:01:02o marido dela. Eu falei, Ah, eu sou mãe de
- 1:01:04betina. Aí ela virou e falou assim.
- 1:01:08Não ser mãe de betin é um dos seus papéis, né?
- 1:01:14Você várias outras coisas eu achei.
- 1:01:16Foi uma pancada tão grande na minha cabeça, nossa, foi uma
- 1:01:22pancada tão grande que foi ali que eu fechei um ciclo.
- 1:01:25Aquele dia eu saí do hospital exatamente, foi em fevereiro
- 1:01:30desse ano, foi ali que eu saí do hospital, eu deixei a identidade
- 1:01:34de ser mãe betin. Né?
- 1:01:36Eu voltei para mim e daí nessa questão de olhar para minha dor,
- 1:01:40de reconhecer, de falar o que eu fiz foi um foda para caralho,
- 1:01:44foi foda para Ah, um caralho. Nem eu nem eu imaginava isso.
- 1:01:49E lá dentro do hospital, tudo que eu vivi com ela, mas ao
- 1:01:53mesmo tempo também sou humana e eu preciso me respeitar.
- 1:01:56Então acho que AA história tem essa beleza, sabe?
- 1:01:59De que a gente também vê que a vida é muito rápida, muito
- 1:02:03fugaz, né? Então a gente precisa também se
- 1:02:05respeitar muito cada vez. Faz parte dessa promessa feita
- 1:02:10para ela, né? De aproveitar a vida.
- 1:02:12Porque aproveitar a vida não é somente curtir, é também colocar
- 1:02:15esses limites. É também falar, se respeitar.
- 1:02:18Chega. Eu sei que você tá sentindo e eu
- 1:02:20não sou eu que vou te acolher nisso, porque eu tenho a minha
- 1:02:23dor aqui, querido querida, a minha dor nessa situação, amor,
- 1:02:27a gente não. Vai comparar a dor, mas assim
- 1:02:29não tenho. Espaço para ouvir a tua não
- 1:02:31nesse movimento. Não sou eu que preciso da cor.
- 1:02:35Também é isso? Cara Ju, eu nem sei o que eu
- 1:02:39quis dizer assim, desde desde sempre.
- 1:02:42Assim, acho que a forma que você encarou tudo, a Gana que você
- 1:02:47teve o tempo inteiro de falar amor, o checha.
- 1:02:50Minha filha viva é isso. Foi uma das coisas que eu mais
- 1:02:53admirei e admiro na tua história, sabe?
- 1:02:56Assim a betina viveu, viveu. Ela viveu com câncer.
- 1:03:00Ela viveu em a betina? Não, não.
- 1:03:03Morreu antes da. Hora dela, nenhum momento,
- 1:03:05nenhum momento. E a viagem que vocês fizeram
- 1:03:07para mim foi foi uma coisa que me marcou, vocês terem viajado
- 1:03:11ou você ter tido vocês terem tido, e acho que muito de você
- 1:03:15assim, porque o Chico foi muito na tua rasteira.
- 1:03:18Foi, não é? Foi.
- 1:03:19Mas ainda bem que ele engatou, né?
- 1:03:21Eu falei, ainda bem que ele não atrapalhou, porque eu tava bem,
- 1:03:23né? Aí no.
- 1:03:25Meio que eu não precisei brigar. Com ele, sabe?
- 1:03:28Ainda imagina uma altura da betina?
- 1:03:30Bem que puxar toda a. Vida tinha bem que puxar.
- 1:03:35E aí você pegar a betina e ir? Pra praia, sabe?
- 1:03:39EE deixar a betina viver, eu acho que foi um presente Pra
- 1:03:45Ela. Pra você, pro Miguel, que eu
- 1:03:50acho que a experiência que o Miguel teve da perda da irmã
- 1:03:53dele. É muito única, muito o luto na
- 1:03:56infância. Mas e o jeito que ele pode viver
- 1:03:59esse luto, você entende assim? Elaborando, né, elaborando
- 1:04:03falar. E vendo a irmã viva, sabe?
- 1:04:06Assim, isso que você. Você nunca tinha me contado
- 1:04:09dessa história do doente, de Como Ela É.
- 1:04:10Eu estou doente, acho. Que eu nunca tinha falado para
- 1:04:12ninguém, não? Como ela, ela sabia que ela
- 1:04:15estava muito viva. Muito ela.
- 1:04:16Nem Ela. Ela tinha o câncer, quase não
- 1:04:18tinha ela. Então ela nem tinha dimensão que
- 1:04:20seria da mãe na cara até hoje. Você falou do Miguel, dessa
- 1:04:25questão de como ele elaborou o luto.
- 1:04:27É muito interessante, porque o Miguel, ele, quando eu cheguei
- 1:04:35do hospital, cabetina ele, que abriu a porta, quando eu voltei
- 1:04:40de Londrina, sem o mexia nele, que abriu a porta.
- 1:04:44Caraca, a gente deitou na cama e falou, olha só, eu nunca tinha
- 1:04:49pensado nisso. Tô pensando nisso agora.
- 1:04:52E daí o Miguel 5000000 chorou. A gente pegou o Miguel, né?
- 1:04:57No colo, 9 anos, meu marido é grandão, pegou ele no colo e a
- 1:05:01gente fez com ele o que a gente fez quando ele nasceu.
- 1:05:05Porque quando eu cheguei do hospital com o Miguel, deitou eu
- 1:05:09e o Chico na cama, o Miguel no meio, e a gente ficou namorando
- 1:05:12o Miguel. Só que e nesse dia ele chorava
- 1:05:17tão dolorido que a gente deitou na cama, pois ele no meio
- 1:05:20abraçou. E a gente não tinha o que falar,
- 1:05:23não tem, não tem o que falar. Então a gente só tinha que
- 1:05:25chorar junto mesmo. Daí a gente chorava junto e ele
- 1:05:30foi podendo assim falar da tristeza, da dor, porque que
- 1:05:35isso dá recado. O bem com isso é porque que isso
- 1:05:38aconteceu com a minha irmã? Que inferno.
- 1:05:40E a gente é isso, filho, né? É, ele fala assim, mamãe, eu não
- 1:05:46sei o que acontece. Depois ela me perguntava, mas eu
- 1:05:48não sei, mãe, e ninguém sabe filho, né?
- 1:05:52E a gente não quer saber, porque pra saber a gente tem que ir pra
- 1:05:56não estamos querendo saber agora não, também chega lá, então a
- 1:06:00gente faz, mas assim, EE, isso ele ele vai.
- 1:06:03Às vezes uns amigos fazem umas piadas muito chatas com relação
- 1:06:07à morte da irmã, porque a criança é terrível mesmo, mas
- 1:06:11daí ele chega em casa, ele chora, ele briga.
- 1:06:14E ele fala, eu acho que assim o falar é importante nomear, sabe?
- 1:06:19Então ele ele tem essa experiência.
- 1:06:20Uma das coisas que ela me perguntava assim, mãe, criança
- 1:06:23também morre? Olha, eu vou, eu vou falar um
- 1:06:28negócio, gente, ela, Ela Foi, ela era uma criança assim que
- 1:06:32ela me fez. E eu trabalhava com criança, né?
- 1:06:37Eu trabalhei com psicóloga escolar, uma caralhar de ano.
- 1:06:41Mas eu falava assim, meu Deus do céu, essa vidinha, encomenda
- 1:06:45essa, ei, odeio encomenda, pai santista.
- 1:06:49Eu falei, uai, betina, a pessoa morre no tempo dela, se é nova
- 1:06:53velha não tem, né? É morrer.
- 1:06:57Mas até lá nós vamos estar aqui. É isso, né?
- 1:07:00É isso. Então vamos.
- 1:07:02Cadê minha maquiagem então? Tá minha maquiagem, se ela vai
- 1:07:05me encontrar? Vida é bonita, eu não sei se ela
- 1:07:07não vai me encontrar com você, não tá entendendo?
- 1:07:11Ela, Ela Foi mesmo viva, é bonita, toda maquiada no caixão,
- 1:07:15tava de batom. Você, pô, Daniel, não, não tem
- 1:07:20não tem como dar risada dessas coisas.
- 1:07:22Olha, gente, foi demais. Obrigada.
- 1:07:25Gratidão por me ouvir. E cada vez que eu falo eu me
- 1:07:29curo mais assim, então é muito importante para mim também.
- 1:07:33É, eu quis muito te ouvir, porque eu é a vida precisa, a
- 1:07:40morte precisa encontrar a gente viva.
- 1:07:43Eu tenho uma sede de vida, sabe? Eu eu quero beber a vida num
- 1:07:47gole só. E a história da betina é uma
- 1:07:52história que me lembra sempre assim, da desse furor de viver.
- 1:07:57Que a bethita teve tempo tem, sabe?
- 1:08:01E que você conseguiu manter a hora das coisas que como mãe, eu
- 1:08:06te admiro muito, cara, porque como mãe olhar porque você
- 1:08:11conseguiu dar conta de segurar essa onda.
- 1:08:15Acho que as pessoas às vezes falam assim, AI, que é muito
- 1:08:18difícil a morte. Acho que é difícil você
- 1:08:23sustentar a vida com a morte tão rondando, né?
- 1:08:25A morte tão perto assim. E você conseguiu.
- 1:08:28E eu acho muito inspirador do jeito que você conseguiu, sabe?
- 1:08:33Cada vez que eu te encontro com a gargalhada que a gente faz
- 1:08:38piadas horrorosas. Eu tenho que fazer.
- 1:08:43A vida continua, sabe? Ele continua.
- 1:08:46E a vida está, né? A vida está, gente.
- 1:08:49A vida está e é. E é isso.
- 1:08:51Problemas acontecem, fomentos acontecem.
- 1:08:55Mas enquanto a gente se propor a viver, que viva, né?
- 1:09:00Com dignidade, com respeito. E eu acho que foi isso mesmo.
- 1:09:03No caminho eu não sabia o que eu estava fazendo, não.
- 1:09:05Hoje eu tenho mais clareza e cada dia que passa eu vejo
- 1:09:09assim, puta. Eu realmente o que eu passei são
- 1:09:12pra poucos e da maneira que eu fiz.
- 1:09:17Mas eu falo assim, eu tive muito apoio no sentido do meu marido,
- 1:09:21por mais que tinha. Das loucuras que acontecia, ele
- 1:09:24estava, ele engatava, pelo menos não punha, sabe assim, não IA
- 1:09:28contra ele. Só falava assim, você tem
- 1:09:31certeza? Não, não IA virar, não tinha
- 1:09:37certeza, não ligou? Tenho, tenho, tá tudo certo, tá
- 1:09:40tudo certo, tô com todos os remédios que ela vai precisar,
- 1:09:43só vamos, Juliana, e se precisar ir pro hospital, meu filho Santo
- 1:09:47catarino, deve ter algum, eu acho, eu acho, desconfio,
- 1:09:50desconfio, tenho. Nós vamos, vamos, vamos só
- 1:09:54viver. E é isso.
- 1:09:56Acho que a gente tem que ir, ir. Eu vivo isso hoje muito
- 1:10:00intensamente também, porque eu aproveito a vida, né?
- 1:10:03Obrigada, Ju. Os amigos, obrigada, obrigada,
- 1:10:07obrigada. Eu que agradeço sempre.
- 1:10:08Bom te ver e sempre, sempre, sempre.
- 1:10:11Obrigada. É isso, gente.
- 1:10:14Se você não se você não tem coração, porque eu não estou
- 1:10:17conseguindo nem te dar tchau, mas é.
- 1:10:19Acabamos essa conversa aqui. Vou precisar todos os 2 de água
- 1:10:23para me reidratar. Honrando a vida dessa menina,
- 1:10:27honrando incrível e aproveitar a vida.
- 1:10:30Amanhã a gente vai aproveitar muito.
- 1:10:31Essa vida vamos aproveitar. É isso.
- 1:10:33Que fique todos esse recado. Aproveitem.
- 1:10:36Aproveita a vida.