Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #316 Entrevista com Sérgio Vaz, criador do Cooperifa
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- 0:07Olá, tudo bem? Eu sou Marcelo Abud e estou de
- 0:11volta com nossas Peças Raras. Em agosto de dois mil e treze,
- 0:16eu fui recebido na casa do poeta Sérgio Vaz para uma conversa
- 0:20sobre como periferia pode rimar com poesia.
- 0:25Esta entrevista ficou guardada no meu acervo de Peças Raras e
- 0:29agora eu decidi dividir com você por um motivo muito especial.
- 0:34Como produtor e repórter do podcast Pois É Poesia, Arte no
- 0:39Plural, eu fui novamente conversar com o Sérgio Vaz, e
- 0:43desta vez para um episódio que acontece na quarta, dia quatro
- 0:48de dezembro, às oito da noite, com transmissão ao vivo e
- 0:52participação de outros agitadores culturais dessa área
- 0:56de saraus. É, o episódio é o sarau, a
- 0:59poesia do coletivo. Essa entrevista com o Sérgio
- 1:04Vaz, agora para o Sarau, a poesia do coletivo, o episódio
- 1:08do podcast Pois é Poesia Arte no plural, foi gravada também em
- 1:13vídeo pela produtora Erika Nascimento.
- 1:17E você já pode conferir alguns trechinhos, uma pílula desse
- 1:22papo no Instagram Pois é Poesia Underline Oficial. arroba Pois é
- 1:29Poesia, underline oficial o Instagram do podcast Pois é
- 1:34Poesia, apresentado pelo poeta Reinaldo Bessi e produzido pela
- 1:39Débora Isola, ainda com o apoio da Zanzar Produtora.
- 1:44Enquanto você espera pelo episódio desta quarta, dia
- 1:49quatro de dezembro, às oito da noite, que pode ser conferido no
- 1:54youtube.com barra arroba pois é poesia, aqui você fica com a
- 2:01conversa com uma tarde agradabilíssima que eu passei na
- 2:05casa do Sérgio Vaz e que compartilho agora com você, que
- 2:10é ouvinte há tanto tempo dessas nossas...
- 2:14Peças raras. Bom, a gente sempre morou na
- 2:18periferia, né? Meu pai é um cara que trabalhava
- 2:20operário da Bombril. E ele tinha o hábito da leitura,
- 2:23cara. Apesar de tudo, tinha o hábito
- 2:25da leitura. E a minha casa nunca faltou
- 2:27livros nem alimento, né? Então foi uma vida simples, mas
- 2:30nunca faltou isso. E um dia eu lendo um livro, era
- 2:32Os Deuses Astronautas, tentei ler um livro chamado Era Os
- 2:34Deuses Astronautas, não entendi nada.
- 2:36E meu pai teve a sensibilidade de comprar os livros infantis.
- 2:39Então praticamente foi introduzido a literatura pro meu
- 2:42pai, né? Que teve a sensibilidade dos
- 2:43livros infantis, passei pelos infantos juvenis, até chegar nos
- 2:46clássicos, essas coisas todas, né?
- 2:48Então eu fui muito influenciado pelo meu pai, pela leitura, né?
- 2:51E assim sempre gostei de ler. Cara, eram duas paixões que eu
- 2:53tinha, futebol e literatura, né, assim.
- 2:56Até me sentia meio estranho de morar na periferia nos anos
- 2:58setenta, adolescente, gostar de literatura, enquanto meus amigos
- 3:01não gostavam, né. Eu era aquele meio garoto
- 3:04gangorra, quando eu sentava todo mundo levantava, falava, puta,
- 3:06lá vem aquele cara chato, falar de cartões de areia e tal.
- 3:09E eu não conseguia entender como as pessoas não gostavam, né, e
- 3:11eu sempre fui muito tímido, muito fechado, assim, né, no
- 3:13começo. E os livros me ajudaram muito,
- 3:16né, cara. Mas, basicamente, eu não gostava
- 3:19de ser poeta, assim, eu não me sentia poeta.
- 3:21Eu tinha uma ideia que o poeta era aquele cara meio maluco, né?
- 3:24Que acorda de manhã e fala, bom dia cadeira, bom dia mesa, né?
- 3:28Bom dia geladeira. Aqueles caras que a gente...
- 3:31O estereótipo que a gente tinha, né?
- 3:33Morando na periferia, no auge da ditadura militar, o estereótipo
- 3:37era desse cara, meu. Ninguém ligava muito porque ele
- 3:39era bobão, né? Tava sempre falando de estrelas,
- 3:42de namorada que foi, que voltou e tal.
- 3:46Até eu conhecer Ferreira Goulart, Pabllo Neruda, que eu
- 3:49vi que a poesia era uma coisa diferente do que eu imaginava.
- 3:52Ah, isso eu já tava uns dezessete, dezoito anos.
- 3:54E aí eu comecei a ouvir música popular brasileira, que eu venho
- 3:56dos Biles Blacks, né? Eu ouvia muito Marvin Gaye,
- 3:58Jimmy Borrone, Tim Maia. E aí quando eu conheci a música
- 4:01popular brasileira, eu me apaixonei pelas metáforas.
- 4:04Que aí eu comecei a entender o que era a poesia.
- 4:05Que a poesia poderia ser uma coisa pra ajudar a não
- 4:07enlouquecer, pra ajudar a construir um país, reconstruir
- 4:11um país. Que era uma arma de ataque e
- 4:13defesa. E que a poesia não era aquilo
- 4:15que eu imaginava. Então aí me apaixonei pela
- 4:18poesia. Aí da literatura, propriamente
- 4:20dito, comecei a me apaixonar pelos poetas.
- 4:22Pablo Nenuda, Ferreira Goulart, João Cabral de Melo Neto,
- 4:25Eduardo Alves da Costa, Verlaine, Rambou, né...
- 4:30Federico Garcia Lorca, sempre fui apaixonado por Violeta
- 4:33Parra, enfim. E aí eu fui me introduzindo na
- 4:38poesia, assim. Bom, aí chegar a ser poeta foi
- 4:53uma decisão muito difícil, né? Porque você não escolhe ser
- 4:56poeta, né? Acho que é a poesia que te
- 4:58escolhe, porque ser poeta pra mim não é um privilégio, é um
- 5:01castigo. Porque as palavras não cabem
- 5:03todas dentro da gente, a gente tem que...
- 5:07E era uma paixão, como eu disse, era o futebol.
- 5:08Pra mim, eu queria ser jogador de futebol.
- 5:10Mas eu não tinha propriedade. Aí, quando eu participei de um
- 5:13grupo de música, eu não sabia nem tocar, nem cantar.
- 5:15Foi quando a minha turma falou, pô, por que você não faz as
- 5:17letras de música? Tinha uns dezessete pra dezoito
- 5:20anos. Essa fase, assim, que comecei a
- 5:22aflorar nessa coisa de ser poeta.
- 5:24Eu fazia uns versinhos, mas despretencioso, assim, sem
- 5:27muito... Era uma coisa até que eu tinha
- 5:30vergonha de fazer, sabe? E aí eu comecei a fazer as
- 5:32letras. Aí, fazendo as letras...
- 5:36Eu percebi que eu tinha facilidade para fazer as coisas
- 5:39com mais síntese. Aí eu comecei a fazer poesia
- 5:41mesmo. Poesia, poesia mesmo.
- 5:44Então foi nessa época, dezoito, dezenove anos, mas foi através
- 5:47da música, da literatura, que eu comecei.
- 5:49Aí nem me sentia poeta. Eu escrevia, mas eu venho de uma
- 5:53realidade da periferia de São Paulo, dos anos setenta, que
- 5:55ninguém nascia para ser poeta. Pra ser escritor, pra ser
- 5:59cantor. A gente nascia pra trabalhar
- 6:01doze horas por dia, né? Ser operário, que não é indigno
- 6:03pra ninguém, mas a gente não tinha sonhos, né?
- 6:06Era muito assim, falando de solidão, assim, muito...
- 6:09Eu sempre gostei de um cara muito triste, cara.
- 6:11Sabe? Uma tristeza me acompanha até
- 6:13nos dias de alegria, né? Então era coisa muito reflexiva,
- 6:16assim. Até eu não gostava muito do que
- 6:17eu escrevia, porque nem eu às vezes entendia.
- 6:21O que eu escrevia. E também gostava de falar coisas
- 6:26sobre... Da ditadura, assim, sabe?
- 6:29Nessa época eu trabalhava muito no bar do meu pai, eu falava
- 6:30muito sobre liberdade. Acho que eu estava precisando de
- 6:34liberdade e falava muito sobre isso.
- 6:36E eu começava a falar dessas coisas.
- 6:38Contra o racismo. Minha poesia era uma poesia de
- 6:39protesto, praticamente. A história não perdoa os
- 6:48covardes. E com o tempo, os mentirosos são
- 6:50devorados pela verdade. Ser livre é um preço caro a ser
- 6:54pago. E negar a vida é ser prisioneiro
- 6:56do acaso. Não tenho futuro.
- 6:59O passado não me pertence. E o presente...
- 7:02Bom, o presente ainda não abri Sangue, suor e lágrimas E no
- 7:07final um sorriso largo Para disfarçar a cicatriz de um
- 7:10coração Que mais parece um museu De lembranças distorcidas Queria
- 7:15que você soubesse E fizesse suas escolhas Pois se vai caminhar
- 7:19comigo É isso tudo que eu tenho a oferecer Veja a luz Quando
- 7:24você escreve um livro morando na periferia Primeiro você acha que
- 7:27o mundo inteiro Está esperando o seu livro chegar para acontecer,
- 7:29né? E aí você faz o livro, o livro
- 7:32não acontece nada, nem com você, nem com a comunidade, né?
- 7:34E aí você vê que a realidade é outra, que não basta ser poeta,
- 7:37não basta escrever um livro, que é preciso, além de escrever, é
- 7:40preciso divulgar, é preciso vender, é preciso correr atrás.
- 7:43E eu fui aprendendo ao longo disso, que não bastava ser só
- 7:45poeta, não bastava dizer que tinha inspiração, né?
- 7:48E aí foi muito difícil. Eu nunca desisti porque é uma
- 7:51coisa que está dentro da gente, né?
- 7:54Se eu pudesse, eu desistiria, né?
- 7:55Porque é um país que não gosta de ler, né?
- 7:57Tanto faz na periferia, como na classe média, como no rico.
- 7:59As pessoas não gostam de ler. E ainda mais na periferia
- 8:02daquele tempo. Nós estamos falando dos anos
- 8:04oitenta, né? No comecinho dos anos oitenta.
- 8:06Onde a gente viu uma realidade de violência muito grande.
- 8:09A minha região foi considerada a região mais violenta do mundo,
- 8:11né? Que é a região do Jardim Anjo, a
- 8:13Jardim São Luís. E você fazer poesia num momento
- 8:17desse... É desnecessário, né?
- 8:20Mas foi nessa época que eu comecei a divulgar meu livro em
- 8:22barzinho, porta de teatro, aí fui aquele cara chato que
- 8:24torrompia as pessoas pra poder vender livro, que foi muito
- 8:27legal. Aí o meu livro, o primeiro
- 8:28livro, não repercutiu muita coisa, né?
- 8:30O segundo também não. E assim foi indo.
- 8:33Foram independentes os meus primeiros livros.
- 8:34Hoje já teve editora, mas os meus primeiros livros foram
- 8:37independentes. Aí lancei o Literatura Poesia
- 8:40pela Global Editora. Fique esperto.
- 8:43Amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
- 8:45E para alcançar utopias, é preciso enfrentar a realidade.
- 8:49Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
- 8:53E se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
- 8:56Os eu são teus, assuma-os. Os acertos também, divida-os.
- 9:01Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando.
- 9:05É perdoar e pedir perdão, sempre.
- 9:08Tem umas notícias. Quando o bicho pegar, você vai
- 9:11estar sozinho. Não cultive multidão.
- 9:14Qual é a tua verdade? Qual é a tua mentira?
- 9:16O travesseiro vai te dizer. Prepare-se.
- 9:19Bom, o Colecionador de Pedras é uma coleção de literatura
- 9:21periférica feita em dois mil e sete pela Global Editora, que
- 9:24convidou alguns escritores que já tinham um trabalho na
- 9:28periferia, já tinham um certo conhecimento.
- 9:30E eu tinha acabado de lançar independente o meu livro
- 9:32Colecionador de Pedras. que era um pouco baseado no Drummond,
- 9:36né? No meio do caminho tinha uma
- 9:37pedra e eu fui recolhendo todas, né?
- 9:39Que era um presente para Drummond, devolver as pedras de
- 9:43Drummond, né? E aí tem um poema que eu gosto
- 9:45muito, que é Os Miseráveis, que é a história do bandido rico e
- 9:49do bandido pobre. e que é uma homenagem a um grande livro que
- 9:52eu li na minha vida, que é Os Miseráveis de Vitor Hugo, que
- 9:54foi um livro que me mostrou outra miséria.
- 9:56Eu achei que o miserável era só aquele que morava no barraco de
- 9:59madeira, e eu descobri que ele também poderia morar numa
- 10:01mansão. A miséria é uma coisa
- 10:03democrática. Vitor nasceu no Jardim das
- 10:12Margaridas, Erva Daninha nunca teve primavera, cresceu sem pai,
- 10:17sem mãe, sem norte, sem seta, pés no chão, nunca teve
- 10:20bicicleta. Jaúgo não nasceu, estreou, pele
- 10:23branquinha, nunca teve inverno, tinha pai, mãe, caderno e fada
- 10:28madrinha. Vitor virou ladrão, Hugo
- 10:31salafrário. Um roubava para o pão, o outro
- 10:34para reforçar o salário. Um usava capuz, o outro gravata.
- 10:38Um roubava na luz, o outro em noite de serenata.
- 10:41Um vivia de cativeiro, o outro de negócio.
- 10:43Um não tinha amigo, parceiro, o outro tinha sócio.
- 10:46E trato falado, Vitor tinha cara na notícia, enquanto Hugo fazia
- 10:51pose para a revista. O da pólvora apodrece penitente.
- 10:55O da caneta enriquece impunemente.
- 10:57A um só resta virar crente. O outro é candidato a
- 11:00presidente. Bom, a Cuperi foi um movimento
- 11:07cultural que transformou um bar na periferia de São Paulo em
- 11:10centro cultural. Com o que fez com que a
- 11:12comunidade se voltasse para a leitura, para a criação poética.
- 11:15E era uma das coisas que eu sempre imaginei fazer. por morar
- 11:18na periferia daquele tempo e não ter tantas pessoas como eu
- 11:21gostaria que gostassem de literatura como eu.
- 11:25Lógico que eu não sou o único, mas entre os meus amigos não
- 11:27eram todos. Sempre pensei em um jeito de um
- 11:33dia, de alguma forma, ajudar a minha comunidade em literatura.
- 11:36Só que eu nunca soube o que era e não tinha ideia.
- 11:39Aí eu, Marco Pezão, que é o cara que criou o Salão da Cooperiva
- 11:41comigo, começamos a reunir em um bar. para falar poesia, depois
- 11:47foi chegando gente, foi chegando aí e se transformou no sarau,
- 11:49que é o monstro que é hoje. E é uma das coisas muito
- 11:51bacanas, porque é quando a poesia desce do pedestal e beija
- 11:55os pés da comunidade, a literatura se desce da
- 11:58arrogância e chega ao leitor, às pessoas, que é o que ela deve
- 12:01fazer. E que acordou toda uma
- 12:03comunidade e outras comunidades. Então eu nem sei explicar a
- 12:06proporção que isso virou. Talvez alguém de fora, ou agora,
- 12:10ou depois de um tempo, vai saber explicar o que aconteceu.
- 12:14Tinha aquela história, o jovem da periferia ou ia para a igreja
- 12:19ou ia para o bar. O que é essa opção pelo bar?
- 12:20Bom, na verdade... Começou num bar, porque a gente
- 12:24gosta de cerveja, né? E aquele bar que acontece hoje
- 12:27era do meu pai. Eu trabalhei doze anos ali, a
- 12:29minha adolescência foi toda ali. Eu costumo dizer que aqui onde
- 12:32me escravizava, hoje é o que me liberta.
- 12:34Mas é porque o bar sempre foi o lugar mesmo das pessoas se
- 12:37encontrarem. A gente só renomeou ele, né?
- 12:40Lógico, deu um novo significado, mas ali...
- 12:43No bar da periferia, onde as pessoas se encontram pra falar
- 12:45depois do jogo de várzea. Onde as pessoas se encontram pra
- 12:48falar da associação Amigos de Bairro.
- 12:50As pessoas se encontram depois do trabalho.
- 12:52Faltava a poesia, né? E na periferia o que mais tem é
- 12:55bar. Bar e igreja.
- 12:56E eu sou da turma do bar, né? Na quarta-feira retrasada nós
- 13:00vimos umas quinhentas pessoas, que foi a chuva de livros, né?
- 13:03Teve quinhentas pessoas. Nós distribuímos oitocentos
- 13:04livros na comunidade, né? Então tem noites assim, cara,
- 13:07que fecha a rua. Tudo isso pra ouvir poesia.
- 13:10Então... Alguma coisa está acontecendo.
- 13:13Na semana passada, me ligaram na Companhia das Letras e falaram,
- 13:19olha, temos alguns livros para doar e tal, para conferir,
- 13:22queria saber se vocês aceitam. Lógico.
- 13:25Eu sei que muitas pessoas vieram por causa do livro, mas esses
- 13:29livros também vieram por causa dessas pessoas.
- 13:32A chuva de livros é quando a gente vai nas editoras pedir
- 13:35livros para distribuir de graça na comunidade, que faz parte da
- 13:38nossa campanha de incentivo à leitura.
- 13:40Então a gente dá o livro para o jovem não falar que não compra
- 13:43porque é caro. A gente está traficando
- 13:45informação. Assim como traficantes, as
- 13:48primeiras doses são grátis. Depois, se ele quiser, ele que
- 13:50vai na biblioteca sustentar o vício.
- 13:54O que você percebe da mudança na comunidade a partir da poesia?
- 13:58Vários jovens que continuaram estudando, que voltaram a
- 14:01estudar, vários adultos que sentiram vontade de estudar.
- 14:04A gente percebeu que as escolas começaram a comparecer, que os
- 14:07alunos começaram a se interessar por literatura.
- 14:09A gente percebeu que algumas pessoas que não tinham cidadania
- 14:12agora têm cidadania, porque eu acho que a literatura tem esse
- 14:14poder de dar cidadania às pessoas.
- 14:17E é o cidadão que muda o bairro, que muda o estado, que muda o
- 14:19país. E agregado à educação, à
- 14:22cultura, é uma coisa extremamente poderosa.
- 14:24A gente tem percebido a grosso modo de jovens que escreveram
- 14:26seus livros, jovens que escreveram teses sobre a
- 14:28cooperifa, mestrados sobre a cooperifa.
- 14:30Então, pessoas ali que descobriram no chão do bar que
- 14:34adoravam literatura. Hoje tem uma biblioteca dentro
- 14:36do bar. Hoje você percebe que às vezes o
- 14:38moleque te para na rua pra falar do livro, que leu, que gostou,
- 14:41que não gostou. É uma mudança muito grande.
- 14:51Magia negra é o Pelé jogando futebol.
- 14:54É, mas o futebol pra mim, cara...
- 14:57Ele é uma coisa muito poética na minha vida.
- 14:59Eu vejo o futebol como poesia, como uma coisa mágica, porque a
- 15:03gente saía de manhã pra jogar futebol e voltava à noite, cara.
- 15:07Não sei se você é dessa época, mas a gente jogava o dia
- 15:08inteiro, porque não tinha videogame, não tinha Facebook,
- 15:11não tinha Twitter. Colocava duas pedrinhas num
- 15:14canto, duas no outro e passava o dia jogando, cara.
- 15:17E era uma magia. A gente queria ser jogador de
- 15:18futebol e não era por causa do dinheiro.
- 15:21E não era por conta da fama, porque eu venho dos anos
- 15:23setenta, né, que... Depois dos anos oitenta que
- 15:26começou essa coisa do dinheiro e tal.
- 15:28Mas era por paixão mesmo. E eu sou muito apaixonado, sou
- 15:30um palmeirense doente, não, né? Doente, gosto muito do
- 15:34Palmeiras, gosto muito de ir ao estádio.
- 15:35E eu vejo o futebol como uma coisa do povo, assim, uma coisa
- 15:39da periferia, assim. Futebol de várzea, a gente tem
- 15:41um projeto chamado Futebol de Várzea, que a gente dá um jogo
- 15:45de camisa pro time de futebol, mas ele tem que levar a família
- 15:47durante um mês ao sarau. A gente tá pagando pros caras
- 15:49ouvirem poesia. Aí temos sete times já,
- 15:54patrocinamos sete times de futebol.
- 15:56Ah, é isso aí, a forma de eu devolver, de alguma forma, os
- 15:59sonhos que eu sempre tive de estar perto do futebol.
- 16:03E um cara que tem um time de várzea hoje, ele tem que ter
- 16:05dinheiro, porque, cara, consome muito tempo.
- 16:07E acho que poesia tem tudo a ver.
- 16:09Acho que quando o Sócrates dava um calcanhar, quando o Garrincha
- 16:11vira pra um lado e vai pro outro, quando o Zico mete uma
- 16:14bola de falta ou no vazio, acho que é...
- 16:17Eu acho que isso é poesia, né? Aliás, muito maltratado
- 16:19ultimamente por esses pedra de pau que não sabem escrever nada.
- 16:25Então é isso, acho que essa paixão é inata, né, cara?
- 16:29Mas eu sou um apaixonado, não sou um torcedor.
- 16:31Eu sou um apaixonado, sou um cara de assistir XV de Jaú e
- 16:34Juventus. Se deu Corinthians, que eu não
- 16:38sou fã, e Luverdense. Eu gosto de futebol, é diferente
- 16:41explicar isso. Também.
- 16:44Uma definição de poesia pra você.
- 16:46Não sei, alguma coisa. Eu acho que uma das coisas mais
- 16:49loucas que eu acho é que a literatura tem um poder
- 16:51maravilhoso de mudar as pessoas. Para o bem e para o mal.
- 16:54Até porque as pessoas que governam esse país leem, né?
- 16:57Mas eu acho acima de tudo um prazer, cara, assim, que é de
- 17:00ler. Eu vejo na periferia uma coisa
- 17:02que me deixa muito triste. Às vezes o cara vai todo dia pro
- 17:04trabalho no mesmo horário, no mesmo ônibus, sentado ali.
- 17:07E eu lendo aquela paisagem que ele vive por anos.
- 17:09E poderia estar lendo um livro, assim, nesse...
- 17:12Nesse inteirinho, assim, nesse tempo.
- 17:13E eu lembro que a época que eu lia mais é quando eu trabalhava
- 17:16de ônibus. Porque eu pegava do final e ia
- 17:18até o final no centro. E era um cara que quando via já
- 17:21tinha chegado, cara. E eu mergulhava tanto no livro,
- 17:23cara, que era assim... Era impressionante, como não
- 17:27tinha tempo, né? O tempo e o espaço eram uma
- 17:29outra coisa. E eu não sei como a gente não
- 17:31consegue hoje fazer com que as pessoas leiam, não para ser
- 17:34alguém, mas pelo prazer, assim, sabe?
- 17:37Prazer de ler, o prazer de ler um bom livro ou um mau livro,
- 17:39mas de ler, assim. Eu gostaria de um dia poder
- 17:41fazer mais coisas para que as pessoas leiam.
- 17:44Eu gostaria de fazer um projeto de lei que é assim, só sentar no
- 17:46ônibus pessoas especiais, idosos e quem tivesse lendo um livro.
- 17:49O resto não precisa sentar. Porém, queria ter vivido melhor.
- 18:02Porém, a mediocridade sempre foi farta e generosa nos caminhos
- 18:07que escolhi para viver. Queria ter sido mais alegre.
- 18:11Porém, a tristeza sempre foi companheira fiel nos dias
- 18:15intermináveis de abandono. Queria ter amado mais as pessoas
- 18:20que conheci, o que fingi conhecer.
- 18:23Porém, na maioria das vezes, também não me conheci.
- 18:27Queria ter andado mais livre, porém, algemado e ignorância,
- 18:31perdi muito tempo tentando voar sem sequer saber andar.
- 18:36Queria ter lido mais livros, porém, analfabeto de ousadia,
- 18:40passei muitos anos enxergando pelos olhos aglomecidos de
- 18:44outras pessoas. Muito legal ouvir o Sérgio Vaz,
- 18:54né? Bom, então, quer ouvir mais um
- 18:57pouco, conhecer o pensamento do Sérgio Vaz, entender tudo que se
- 19:02passa na mente do poeta? O canal é youtube.com barra
- 19:07arroba Pois É Poesia. Eu te espero por lá.
- 19:11Como produtor, como repórter, tenho feito muitas entrevistas e
- 19:15você é meu convidado, minha convidada. para conhecer também
- 19:20o podcast Pois é Poesia, Arte no Plural.
- 19:25Um grande abraço e até a próxima quando eu volto com mais
- 19:30entrevistas e peças raras para você.