Latest / Decantando Ideias / Decantando Ideias #24: O tempo de guarda da governança
Transcript
- Olá, sejam muito bem-vindos e bem-vindas a mais um Decantando Ideias. Que bom ter a companhia de quem nos ouve para esse nosso bate-papo, né? Quase um ritual aqui para a gente pensar junto. É isso aí. Um prazer estar aqui de novo. E para quem está chegando agora, nós mergulhamos nas reflexões do Alexandre de Sales. Ele é fundador da As Consultoria, tem mais de 30 anos de estrada em estratégia, foi CFO, se levam, enfim, uma bagagem imensa. E é autor da coluna Decantando Ideias, lá no Substack, que, claro, inspira nosso nome e nossas conversas. Exatamente. E hoje a inspiração vem de um texto dele chamado O Tempo de Guarda da Governança. Governança corporativa. Um tema que, olha, às vezes assusta um pouco, né? Parece algo meio pesado, burocrático. Pois é, mas a ideia aqui, como sempre com o Alexandre, é usar a metáfora do vinho para descomplicar e ver por outro ângulo. Mostrar que talvez não seja só custo, sabe? A famosa metáfora do vinho. Ele sempre traz isso. Como funciona nesse caso? Então, ele pega a ideia de um vinho de guarda. Pensa num, sei lá, um grande vinho tinto. Um bordô, um barolo, mas recém engarrafado. Bem jovem. Certo. Se você provar ele agora, ele pode parecer meio desajeitado, sabe? Áspero, com um tanino pegando, as CDs lá em cima. Falta harmonia. Sim, aquela sensação de que ainda não está pronto, né? Exato. Uma pessoa talvez menos experiente poderia até achar que é um vinho ruim, verde. Mas o ponto é, o valor dele não está só no que ele é agora. Está no potencial. No que ele pode vir a ser. Isso. Com tempo de adega, com paciência, aquela aspereza vira complexidade, vira elegância. E aí ele faz a ponte. A governança corporativa seria como esse vinho. Entendi. Então aquelas práticas todas, auditoria, conselho, controles, compliance, podem parecer um custo agora meio verdes. Exatamente. Essa é a percepção comum que ele quer questionar. Podem parecer um peso, uma formalidade, até um freio no curto prazo. Sim. Mas ele argumenta que isso é o tempo de guarda da empresa. É o investimento que você faz hoje para garantir a solidez, a longevidade lá na frente. É a base para construir algo que dura. Faz sentido! Mas aí vem aquela tensão, né? O mundo corporativo hoje é muito focado no agora, no resultado do trimestre. Como justificar esse gasto com governança que só vai dar retorno, assim, visível lá na frente? Essa é a grande questão, né? E a resposta do Salles está justamente nos frutos que não são colhidos amanhã. Ele fala de coisas como, por exemplo, acesso a crédito mais barato. Ah, claro! Bancos e investidores olham para isso, né? Para a solidez, para a transparência. Com certeza. Confiam mais. E tem a fidelidade dos investidores de longo prazo, aqueles que não querem só o boom rápido, mas sim algo sustentável. E a própria imagem da empresa, imagino? A reputação? Fundamental. Uma marca vista como íntegra, bem gerida... Isso atrai cliente, atrai talento, atrai parceiro. E talvez o mais importante, sabe? A capacidade de passar por crises. Ah, sim. Nenhuma empresa está imune, né? Nenhuma. E uma boa governança ajuda a, primeiro, talvez até evitar algumas crises, por identificar riscos antes. E segundo, a navegar melhor quando a tempestade chega. Mantenha confiança mesmo na dificuldade. Lembra de uma frase dele sobre isso? Algo como... Governança é vinho de guarda. No início, exige paciência. No final, entrega elegância. É essa ideia. Boa. Captura bem essa troca, né? O esforço agora pela classe, pela robustez depois. Mas exige mesmo essa visão de longo prazo. Que nem sempre é fácil manter, né? Com a pressão do dia a dia. Pois é. E o que acontece quando falta essa paciência? Quando a empresa decide, sei lá, cortar caminho, afrouxar os controles para acelerar ou mostrar um número melhor agora? Eu tá ao beber o vinho antes da hora. Exatamente essa analogia. E os riscos são enormes. É tratar a governança como algo supérfluo, é como pegar aquele vinho de guarda novinho, abrir, achar ruim e jogar fora. O problema não era o vinho, era a falta de paciência. E na prática, nas empresas, quais as consequências? Ele menciona exemplos sem necessariamente dar nomes a todos, mas aludindo a casos conhecidos. Startups, por exemplo, que tiveram aquele crescimento explosivo, valuation nas alturas e que depois desabaram por falta de controle básico, por problemas éticos, falta de transparência. O caso da WeWork, que ele já citou em outros textos, é um exemplo disso, né? O crescimento sem a vidraça da governança para dar sustentação. Mas não é só startup, não. Ele fala também de empresas grandes, maduras, com história, que às vezes cedem à tentação. Maquiar um resultado aqui, tomar um atalho ético ali para bater a meta... E aí comprometem décadas de credibilidade, né? Exatamente. E o ponto central que ele tira disso tudo é o custo desse atalho, o custo do escândalo, da perda de confiança é quase sempre muito, mas muito maior do que o investimento que teria sido feito em governança lá atrás. É mais caro consertar o estrago do que prevenir. Muito mais. Porque a confiança, uma vez que quebra, reconstruir isso leva anos, décadas talvez. É um processo bem mais longo e doloroso do que esperar o vinho da governança maturar direito. E isso leva direto para outro ponto forte dele, a credibilidade, a confiança como o ativo mais raro, mais varioso hoje em dia. Sem dúvida. Ele bate muito nessa tecla. O mercado investidor, cliente, funcionário, a sociedade toda até perdoa um erro de execução, uma estratégia que não deu certo. Mas a falta de integridade, de transparência, isso é muito mais difícil de perdoar. É interessante pensar nisso. Tipo, o investidor aceita o risco do negócio, mas não o risco de ser enganado nos números, né? Exato. O cliente pode até entender um atraso, mas se sentir enganado. Aí a relação azeda de vez. O funcionário pode passar por uma fase difícil, mas se perceber que a liderança não é ética, o engajamento vai embora. Faz todo sentido. E aí, nesse contexto todo, a governança não é só um conjunto de regras chatas. É a estrutura que protege esse ativo essencial, a confiança. Ele usa a imagem do barril de carvalho para o vinho. Ah, sim. Onde o vinho descansa e evolui. Isso. A governança seria esse barril. Um trabalho quieto, contínuo, que não dá manchete todo dia, mas que está ali, protegendo a essência, permitindo que a empresa amadureça de forma segura. Gostei dessa imagem. É um contraponto àquela coisa da cegueira por métricas que ele critica, né? A obsessão só pelo número imediato. A governança protege algo mais profundo. Perfeito. Protege o intangível, que no fundo sustenta o tangível. E aí, conecta com a ideia de governança como antecipação de risco e pilar para a longevidade. Não é custo, é reserva de valor. É o que faz a diferença entre quem atravessa a crise e quem fica pelo caminho. Ele até usa a experiência pessoal dele como CFO para ilustrar isso, né? Dizendo que aprendeu que cada real investido em controle e transparência economiza vários lá na frente. Sim, ele reforça muito isso. Seja evitando um processo judicial caro, seja conseguindo um juro melhor no banco porque a empresa passa confiança, seja conseguindo conter uma crise de imagem antes que ela exploda, são benefícios concretos, mesmo que não apareçam no balanço do mês que vem. Entendi. No fim das contas, levar a governança a sério é uma aposta na longevidade. É dizer, a gente acredita que essa empresa merece durar, merece ter um futuro sólido. E pensando nas ideias dele de forma mais ampla, Essa aposta na longevidade via governança parece se encaixar naquela filosofia maior de respeitar o tempo, deixar as coisas respirarem, em vez daquela pressa toda que ele diz que turva o vinho e a gestão. Totalmente conectado. A metáfora do vinho volta em vários temas. O ritmo certo de crescer, implementar tecnologia com calma, construir cultura. que também leva tempo, né? Sempre essa ideia de que o tempo, bem usado, é um aliado, não um inimigo a ser vencido pela velocidade pura e simples. Lembro de um texto que ele falava em trocar a obsessão por velocidade pela obsessão por legibilidade. A empresa se entender com honestidade, a governança ajuda nisso então, nessa clareza. Perfeitamente. Traz clareza de processo, de responsabilidade, de risco, de resultado. E essa clareza interna ajuda a tomar decisões melhores e a construir a confiança externa. A velocidade certa e o crescimento vêm como consequência disso, não como objetivo único. Então, tentando amarrar tudo, a mensagem principal desse tempo de guarda da governança seria o quê? Que assim como o vinho, a governança precisa de paciência, de investimento constante para construir credibilidade e resiliência para a empresa durar. Exato. E a consequência direta é o alerta. Tratar governança só como custo hoje é uma visão curta, que pode custar o futuro. Não é enfeite, é ativo estratégico, é proteção. As empresas que realmente duram, as empresas de guarda, geralmente investiram nisso. Não buscaram atalhos. E essa conversa toda sobre tempo, paciência na governança, faz a gente pensar, né? Como isso se aplica em outras áreas? Construir cultura organizacional forte, por exemplo. Decidir a hora certa de inovar de verdade. Será que não exige a mesma coisa? Ótima conexão, provavelmente sim. Cultura. Com certeza, não se faz por decreto, né? Leva tempo, consistência, exemplo para a coisa pegar. Inovação também, não basta a ideia genial, tem que ter a paciência para testar, aprender, ajustar, achar o timing certo para escalar. Temas para a gente continuar decantando por aqui, né? Ideias que precisam desse tempo para respirar antes de virar ação. Com certeza. Vamos continuar explorando essas provocações do Alexandre. Fica então o convite para quem nos ouve seguir acompanhando. E quem quiser ler os textos originais, a coluna Decantando Ideias está lá no Substack. O endereço é alexandredesales.substack.com. Assinem lá que vale a pena. E claro, assinem nosso podcast também, né? Na sua plataforma preferida para não perder os próximos bate-papos. Isso aí. E para fechar hoje, vamos deixar a pergunta que o próprio Alexandre faz no final desse texto. A sua organização, onde você trabalha ou lidera, está tratando a governança como custo de hoje ou como patrimônio de amanhã? É uma pergunta simples, mas com uma profundidade enorme, né? E talvez uma outra para a gente pensar junto, será que a cultura da empresa realmente apoia essa visão de longo prazo? Ou será que a pressão do dia a dia acaba, sem querer, incentivando a beber o vinho antes da hora em várias frentes? Essa coerência entre o discurso e a prática parece ser o terroir, né? O solo onde a boa governança pode de fato crescer e proteger a empresa. Excelente ponto. A cultura como o solo fértil para a governança poder vingar. Bom, agradecemos demais a companhia de todo mundo nessa nossa conversa. Esperemos que tenha sido útil, que tenha provocado algumas reflexões. Obrigado pela escuta, pessoal, e pela reflexão conjunta aqui. Até a próxima taça.