Latest / TIC, Educação e Web / Nativos digitais ou apenas ingénuos digitais
Transcript
- 0:00Olá, quem nos ouve? E bem vindos a mais uma análise
- 0:03aprofundada, vamos hoje mergulhar num tema absolutamente
- 0:06fascinante. Eu sou o anfitrião de serviço e
- 0:09estou cá para guiar esta nossa viagem.
- 0:12E eu sou a vossa especialista, olá, estou cá para ajudar a
- 0:16destrinçar os dados e perceber o que está realmente a acontecer.
- 0:20Ora bem, há uma imagem muito curiosa a que já todos nós nos
- 0:23habituamos, não é? Vemos um adolescente ou às vezes
- 0:26até uma criança super pequena, tipo com o telemóvel na mão.
- 0:29Sim, aquela coisa de deslizar o dedo sem sequer olhar.
- 0:33Exatamente a facilidade com que o polegar desliza no ecrã é
- 0:36quase hipnótica, é rápido, é fluido, parece quase uma
- 0:40extensão natural do próprio corpo, e perante isto a
- 0:43sociedade assumiu uma premissa muito reconfortante.
- 0:47Aquela ideia de que nasceram com o dom, não é?
- 0:49Nem mais esta geração domina a tecnologia de caras, mas e se
- 0:54esta imagem for apenas? A ponta de um iceberg muito,
- 0:58muito enganador. É o que podemos chamar de
- 1:00fluência de superfície pá é ilusão absoluta de que a
- 1:04destreza mecânica de interagir com uma aplicação brilhante e
- 1:09altamente viciante equivale a uma verdadeira compreensão do
- 1:13que está ali a acontecer por trás do ecrã.
- 1:15E quando olhamos para os dados reais, percebemos que isso é uma
- 1:18falácia gigante. É precisamente por aí que vamos
- 1:21arrancar nesta nossa imersão de hoje.
- 1:24Vamos desconstruir este mito? E temos Fontes muito sólidas
- 1:27para isso. Sim, a base para esta conversa é
- 1:30um levantamento exaustivo feito no relatório de abril de 2026
- 1:34pela akway é uma das principais entidades de avaliação do ensino
- 1:38britânico. O título é mesmo nativos
- 1:40digitais ou ingéneros digitais? Um título excelente, diga se de
- 1:45passagem. É genial, e a nossa missão hoje
- 1:48é mergulhar neste paradoxo. Como é que temos uma geração
- 1:52inteira que consegue editar um vídeo para o TikTok de olhos
- 1:55fechados, com transições e efeitos e tudo mais, mas que
- 2:00depois entra em pânico absoluto perante uma folha de cálculo
- 2:02vazia? Pois e o que é fascinante nesta
- 2:05investigação de base é a forma como desmonta um conceito em que
- 2:08todos quer dizer, todos nós acreditamos durante anos.
- 2:11Se pensarmos bem, o termo nativo digital foi cunhado lá atrás, em
- 2:142001. Pelo Mark premsky, certo?
- 2:17Exatamente. Naquela altura, fazia algum
- 2:19sentido para descrever uma geração que já crescia rodeada
- 2:22de computadores no meio daquela transição histórica, mas o termo
- 2:27envelheceu incrivelmente mal. Criou falsas expectativas.
- 2:31Completamente acabámos por rotular toda uma geração com uma
- 2:36competência intrínseca que na realidade não existe todo.
- 2:41Assumimos que lá está, por saberem usar o Instagram, sabiam
- 2:45usar a internet de forma madura. E os números são um verdadeiro
- 2:48banho de realidade esmagador para quem nos ouve.
- 2:52Vamos olhar para os contrastes, que eu acho que é onde a coisa
- 2:54fica interessante. Por um lado, temos quase 80% dos
- 2:56jovens ali, entre os 11 e os 18 anos, a usar o TikTok
- 3:00regularmente. E quase 70% grudados ao
- 3:03Snapchat. Exato, ou seja, há uma confiança
- 3:05tremenda no consumo e na comunicação instantânea.
- 3:09Mas aqui é que as coisas começam a ranger um bocado quando
- 3:12mudamos o foco para as ferramentas cruciais, as
- 3:15fundações daquilo que o mercado de trabalho vai exigir.
- 3:19Aí a confiança caiapic caiapic. Pouco mais de metade diz ter
- 3:23usado um processador de texto tipo Word com confiança, o
- 3:27PowerPoint não chega sequer aos 50%.
- 3:30E o Excel? O Excel é trágico, uns menos
- 3:3336%. O que nos leva à pergunta óbvia,
- 3:37porquê? O que é que explica este abismo
- 3:39de competências? É que repara?
- 3:41Não é que eles sejam menos inteligentes de todo.
- 3:44A questão principal é a arquitetura destas ferramentas,
- 3:48as redes sociais, os videojogos modernos, tudo isso é desenhado
- 3:53por equipas de milhares de engenheiros com um único
- 3:55objetivo na cabeça. Que é eliminar a fricção.
- 3:58Mental? Nem mais.
- 4:00A interface faz o trabalho todo por nós, o algoritmo entrega o
- 4:03conteúdo numa bandeja de prata. Nós só temos de deslizar o dedo
- 4:06de forma quase passiva. Portanto, é um consumo
- 4:09completamente sem resistência. Sem qualquer resistência.
- 4:13Mas quando abrimos uma folha de cálculo no Excel, o que é que
- 4:16temos à frente? Um ecrã em branco com uma grelha
- 4:20e a máquina não faz absolutamente nada até receber
- 4:23um comando lógico nosso. Exige muito mais da pessoa.
- 4:26Exige gestão de dados, exige pensamento abstrato, capacidade
- 4:30de estruturação. O que falta aos jovens não é a
- 4:33capacidade mecânica. Mexer num rato é literacia para
- 4:37serem arquitetos da tecnologia percebes.
- 4:40Eles sabem consumir a tecnologia, mas não a sabem
- 4:43moldar. Eu tenho aqui uma analogia que
- 4:45costumo usar, é como colocar o campeão do mundo de Mario kart
- 4:48ao volante de um carro na autoestrada.
- 4:50Ah, isso é perfeito. Ele domina o ecrã, faz as curvas
- 4:54virtuais na perfeição, conhece todos os Atalhos, mas no mundo
- 4:58real, debaixo de uma chuvada, ele não sabe mudar um pneu.
- 5:01Não compreendo a física de uma travagem a fundo e muito menos
- 5:04faz ideia de como um motor funciona.
- 5:06É o exemplo ideal. Estão confortáveis no jogo, mas
- 5:10perigosamente inaptos na estrada da vida real.
- 5:13E isto. Levanta uma questão prática
- 5:14muito séria, este buraco de competências não é só um
- 5:17problema académico de de tirar mais notas à disciplina de
- 5:21informática, pois não? Claro que não.
- 5:23Tem um peso económico gigante. O relatório estima que este
- 5:27défice custa à economia do Reino Unido cerca de 63000 milhões de
- 5:32livras por ano. É um número assustador.
- 5:34E como é que isto se materializa, na prática, no dia
- 5:37a dia de uma empresa? É aquela ineficiência invisível,
- 5:40sabes? Imagina um escritório ou uma
- 5:43agência de marketing? Contratam um jovem recém
- 5:45licenciado, super brilhante, criativo, que domina as
- 5:48tendências todas. Mas depois ele perde 3 horas a
- 5:51tentar formatar um documento importante porque não percebe a
- 5:54lógica dos parágrafos ocultos no Word.
- 5:57Ou pior ainda, apaga uma base de dados?
- 5:59Interesses, sem querer. Exato, porque não faz ideia de
- 6:02como funciona a sincronização na nuvem?
- 6:05As empresas estão literalmente a gastar rios de dinheiro em
- 6:08ensinar tarefas básicas, em ensinar jovens a criar pastas
- 6:12num computador, quando eles teoricamente.
- 6:15Nasceram com o smartphone colado à mão.
- 6:18E aqui damos o Salto de uma simples ineficiência no trabalho
- 6:21para um território muito mais, diria mais, Sombrio.
- 6:24A segurança pessoal deles. Sim.
- 6:27Porque se estes jovens apenas dominam a superfície brilhante
- 6:30das aplicações, o que é que acontece quando entram em águas
- 6:34mais profundas, águas onde a privacidade, a segurança e a sua
- 6:39própria perceção da realidade estão sob ataque?
- 6:42É aqui que passamos de uma dor de cabeça para os recursos
- 6:44humanos. Para uma verdadeira crise de
- 6:46saúde pública, Hum e até cívica. O dado mais perturbador do
- 6:51inquérito é que 34% dos jovens admitiram já ter partilhado
- 6:55informação pessoal online. Com estranhos com.
- 6:58Pessoas que não conheciam de lado nenhum nome completo a
- 7:02escola onde andam a localização do bairro.
- 7:05E na faixa etária mais vulnerável ali, entre os 11 e os
- 7:0813 anos, esse número sobe para os 38%.
- 7:12Isso é quase 4 em cada 10 miúdos de 12 anos.
- 7:14É trágico. Há um professor de ciências
- 7:16citado num estudo que resume isto na perfeição.
- 7:19Ele diz que a forma como os jovens partilham a sua vida
- 7:23revela uma ingenuidade real sobre os riscos online.
- 7:26Estamos a falar de crianças, a dar a morada a anónimos num chat
- 7:29de um jogo qualquer tipo Roblox ou Fortnite.
- 7:32E a ingenuidade não fica por aí, estende se à forma como consomem
- 7:36a realidade e as notícias, certo?
- 7:38Completamente, quase metade deles confessa não se sentir
- 7:41confiante para distinguir uma notícia verdadeira.
- 7:44De uma notícia falsa, e. Curiosamente, e isto contraria
- 7:47totalmente o mito do nativo digital, neste campo, eles se
- 7:50perdem para os pais e para os professores.
- 7:51Sim, os adultos apresentam níveis de confiança muito mais
- 7:56altos para detetar desinformação.
- 7:58Como consequência direta, 30% dos estudantes admitem partilhar
- 8:02informação online sem sequer verificar se é verdadeira.
- 8:05Um em cada 3 jovens atua como um megafone ativo de mentiras.
- 8:09E o ponto crucial é que não é por malícia, não querem fazer o
- 8:13mal. Por total ausência de defesas
- 8:16imunológicas, não é? Não têm filtro para o engano
- 8:18digital. Mas espera aí, sinto que tenho
- 8:21de fazer de Advogado do Diabo. Por um segundo, corremos o risco
- 8:24de parecer 2 velhos a gritar com as nuvens e a culpar a
- 8:27Juventude. É justo, avança.
- 8:29Nós adultos somos verdadeiramente melhores nisto é
- 8:32que o relatório também menciona que os assustadores 51% dos
- 8:35utilizadores de motores de busca, o que abrange a população
- 8:38adulta em peso. Não consegue identificar
- 8:41resultados patrocinados no Google?
- 8:42Metade das pessoas não sabe o que é um anúncio.
- 8:45Exato, clicam no primeiro link de caras.
- 8:48Será que não estamos a exigir aos adolescentes um nível de
- 8:51literacia e de ceticismo que a própria sociedade adulta está,
- 8:56quer dizer, a anos luz de atingir?
- 8:58É uma provocação excelente. E toca na ferida.
- 9:00Claro que sim. Os adultos estão igualmente
- 9:02perdidos. Ninguém, tipo ninguém, estava
- 9:04preparado para a velocidade com que a internet se tornou numa
- 9:08máquina de sugar. A nossa atenção é.
- 9:10Verdade, mas então qual é a diferença?
- 9:12Fundamental a diferença e a razão pela qual a urgência de ir
- 9:17tocar recai sobre os mais novos é a fase do desenvolvimento
- 9:20neurológico. Os adultos formaram a sua base
- 9:23cognitiva e o seu pensamento crítico no ambiente analógico.
- 9:27Estão a adaptar se a um Novo Mundo, muitas vezes de forma
- 9:30muito desajeitada. Mas os jovens estão a
- 9:32desenvolver o cérebro lá dentro. Sim, dentro de um ecossistema
- 9:36opaco altamente manipulativo. E desenhado para o vício.
- 9:41Ou seja, a vulnerabilidade deles não é só clicar no link manhos e
- 9:44perder 20 EUR. É o próprio desenvolvimento da
- 9:47psica humana que está em. Causa sem dúvida e perante um
- 9:51défice que afeta a sociedade toda.
- 9:53Qual é a resposta instintiva que costumamos ter?
- 9:55É atirar a responsabilidade para a escola, os professores que
- 9:58resolvam. Isso nem mais.
- 10:00E é aí que a tensão atinge o ponto de rutura, porque o
- 10:03instinto de sobrevivência é delegar na educação formal.
- 10:06Mas os educadores estão tão ou mais ajustados do que nós.
- 10:09E os dados apoiam isso. A vontade existe.
- 10:12Atenção. Cerca de 84% dos professores
- 10:15apoiam a necessidade urgente de ensinar literacia digital.
- 10:18Mas depois esbarramos na realidade, depois esses
- 10:20esbarramos logo a seguir. 45% deles dizem que não tem espaço
- 10:26no horário e, mais grave ainda, sentem uma falta de formação
- 10:30brutal. É fácil rirmo nos daquele
- 10:33contraste do miúdo que faz vídeos no cupcat, mas depois
- 10:36fica a olhar para a impressora como se fosse um extraterrestre.
- 10:38Mas o contraste do lado de quem ensina também é muito real.
- 10:42É um desafio quase impossível para a classe docente.
- 10:46Hoje em dia, o fosso geracional e tecnológico é massivo.
- 10:50O relatório recolhe alguns testemunhos que soam um a
- 10:53verdadeiros pedidos de Socorro, não é?
- 10:55Sim. Há um professor que desabafa de
- 10:57forma muito crua. Ele diz que enquanto educadores,
- 11:00não recebem os instrumentos nem informação para compreender o
- 11:04impacto de coisas, tipo a inteligência artificial.
- 11:07E o que acontece é que as escolas, por medo, começam a
- 11:09recuar. Evitam o tema.
- 11:11E quando a escola recua, isso cria esse vácuo.
- 11:14A batata quente passa para quem? Para as famílias?
- 11:16E é aí que é desigualdades para a um ritmo aterrador.
- 11:20Se a literacia digital passar a depender do que os pais
- 11:24conseguem ensinar ao jantar, estamos a criar um novo fosso
- 11:28colossal. Já não é que ele fosse dos anos
- 11:3090, onde quem tinha dinheiro comprava um computador e quem
- 11:33não tinha azar? Não, porque hoje o acesso ao
- 11:35ecrã é o universal. Todos têm telemóvel, o fosso
- 11:39moderno é o da competência. E da proteção é desigualdade na
- 11:44capacidade de julgar e extrair valor útil da tecnologia.
- 11:48Mas colocando nos sapatos de um professor de história, por
- 11:50exemplo, com 20 anos de carreira, como é que um educador
- 11:54cuja fonte de pesquisa fiável sempre foi uma enciclopédia
- 11:57física se prepara para explicar a um miúdo um enviesamento de um
- 12:00algoritmo do TikTok? Uma aplicação que ele próprio
- 12:04nunca instalou. Exato, como é que ele faz isso?
- 12:07É a mudança de paradigma mais profunda na educação recente.
- 12:11Historicamente, o professor era o guardião da informação na sala
- 12:14de aula. Hoje, a informação, seja falsa
- 12:18ou gerada por IA jorra do telemóvel do aluno.
- 12:21O papel do professor tem de sofrer uma mutação, completa.
- 12:24Passar de detentor do conhecimento para.
- 12:27Um filtro? Exato, um curador.
- 12:29O principal promotor da dúvida sistemática ensinar o aluno a
- 12:33fazer as perguntas difíceis àquilo que o ecrã lhe mostra.
- 12:37Mas a grande conclusão do relatório é que as soluções não
- 12:40podem passar por empurrão. O problema para um cantinho
- 12:42específico? O que nos leva às soluções
- 12:44concretas, porque, segundo os próprios jovens inquiridos, 77%
- 12:49deles acham que a solução é simples, isto das fake news e
- 12:52segurança, ensina. Se em tic com o professor de
- 12:54informática a lógica deles é super linear, envolve ecrãs, é o
- 12:59professor dos computadores, o. Que prova o quão enraizada está
- 13:02a tal confusão conceptual criar uma disciplina isolada de
- 13:06literacia digital num horário que já está pelas costuras é
- 13:09profundamente ineficaz. Sobretudo se for uma área
- 13:12opcional. Claro, se ensinarmos isto só aos
- 13:16alunos que escolhem vias tecnológicas, estamos a deixar
- 13:19dezenas de milhares de jovens completamente expostos a
- 13:22literacia digital de hoje. Não é saber escrever código
- 13:25Python percebes, é saber viver em sociedade.
- 13:28E a solução que está a ganhar tração lá fora e que o estudo
- 13:32defende, é a integração transversal no currículo.
- 13:35Não pode ser uma disciplina única, tem de ser uma postura em
- 13:39todas as salas de aula. Eu gosto imenso desse
- 13:41enquadramento da abordagem transversal, porque ensinar
- 13:44segurança online só na aula de informática é o equivalente
- 13:47exato a ensinar as regras de trânsito e o respeito pelas
- 13:51passadeiras unicamente na aula de mecânica automóvel.
- 13:54Grande analogia e faz todo o sentido.
- 13:56Saber como os pestões de motor funcionam é fixe.
- 13:59Mas não é isso que evita que sejamos atropelados na rua?
- 14:01Pá. A tecnologia é a nossa rua hoje
- 14:04em dia, mas como é que isso se materializa na prática, digamos,
- 14:08numa terça-feira de manhã? Numa escola portuguesa.
- 14:11Os exemplos que a investigação propõe são geniais, porque são
- 14:15orgânicos. Numa aula de português, onde se
- 14:18costuma analisar a argumentação num texto clássico, o professor
- 14:22passa a analisar a retórica e as técnicas de manipulação
- 14:25emocional de um poço viral no X antigo Twitter ou no Instagram.
- 14:29E numa aula de ciências? Em ciências, o método científico
- 14:33foca se na avaliação da fiabilidade metodológica de
- 14:36Fontes online duvidosas. E a cidadania?
- 14:39O debate mergulha no impacto que os algoritmos têm na
- 14:42radicalização. Política, ou seja, não estamos a
- 14:45exigir que o professor de Geografia vire um perito em
- 14:48redes neuronais de inteligência artificial do dia para a noite,
- 14:52estamos só a pedir lhe que use a sua especialidade, o seu
- 14:55pensamento crítico, no ecrã do presente.
- 14:58Exatamente, e já temos países a fazer isto de forma brilhante, a
- 15:02Finlândia é o padrão de ouro. Eles perceberam a urgência.
- 15:07E integram o ceticismo digital a partir da educação pré escolar.
- 15:10Incrível, mas eles também têm uma filosofia por trás muito
- 15:13interessante, não é? Têm têm infraestrutura, claro,
- 15:16exames digitais desde 2019 e uma biblioteca aberta espetacular
- 15:20chamada IOI ponto FI, mas o segredo deles é um conceito
- 15:25germânico chamado bildun digital bildun.
- 15:28É uma palavra com um peso cultural gigante, não significa
- 15:31apenas treino ou educação. Refere se à formação do caráter,
- 15:36ao desenvolvimento Holístico e à responsabilidade cívica.
- 15:41Ao aplicarem isto ao digital, estão a dizer que a tecnologia
- 15:45não é só um conjunto de ferramentas de escritório, é o
- 15:49terreno onde exercermos a nossa cidadania.
- 15:53Estão a formar cidadãos resistentes.
- 15:56E há outros países na vanguarda? Sim, a Irlanda.
- 15:59E levou a literacia digital ao mesmo nível de importância que a
- 16:02leitura e a escrita. O lema deles é a pedagogia
- 16:06primeiro, a tecnologia. Em segundo, a máquina
- 16:10servamente, não o inverso. Pedagogia primeiro devia estar à
- 16:14porta das nossas escolas e depois tínhamos Austrália, penso
- 16:18eu. A Austrália adotou um modelo
- 16:19híbrido, tem uma disciplina rigorosa de tecnologias
- 16:23digitais. Mas exigem que as competências
- 16:26sejam integradas e cruzadas com todas as outras áreas.
- 16:30É uma teia, não um silo isolado. Percebe se o padrão a vanguarda,
- 16:35percebeu que isto não é uma habilidade útil para ficar bem
- 16:38no LinkedIn? É, é uma urgência de
- 16:41sobrevivência democrática. E essa é talvez a vertente mais
- 16:45pesada que o relatório aborda. O custo cívico da ingenuidade.
- 16:49Sem dúvida a casa dos Lordes emitiu alertas muito diretos
- 16:53sobre isto. A própria democracia está em
- 16:56risco se não houver um esforço a nível nacional e a fundação
- 17:00nuffield provou estatisticamente que a capacidade de ler notícias
- 17:04no ecrã de forma fria e crítica está ligada a uma participação
- 17:09ativa e pacífica na democracia. Faz todo o sentido.
- 17:13Quando a Fronteira entre um facto comprovado e uma imagem
- 17:16gerada por iá desaparece no telemóvel, a fundação cívica
- 17:20colapsa um jovem que partilha uma mentira sem questionar.
- 17:23Hoje é um eleitor que pode ser manipulado amanhã.
- 17:27Daí o questionamento sistemático ser a nossa única vacina e o
- 17:30nosso kit de sobrevivência para o século 21.
- 17:32É a melhor forma de garantir que o futuro é de todos.
- 17:36E não só de meia dúzia de filhos da elite tecnológica que
- 17:39percebem o truque de magia. Chegámos ao momento de recolher
- 17:42as peças e tentar resumir a enorme viagem que fizemos aqui
- 17:46hoje. Começámos por implodir o mito
- 17:48preguiçoso de que nascer depois de 2000 confere por magia.
- 17:52Sabedoria tecnológica. Percebemos como afluência
- 17:56mecânica é a superficial. E como as aplicações atrofiam a
- 18:00nossa capacidade de raciocínio lógico profundo?
- 18:03Olhamos sem filtros para a ingenuidade com que os jovens
- 18:06expõem a vida e partilham mentiras.
- 18:09Reconhecemos a pressão injusta sobre os professores que não têm
- 18:11recursos e, no final, falámos do mapa que a Finlândia, a Irlanda
- 18:15e a Austrália estão a desenhar. Porque, em vez de construirmos
- 18:19muros infinitos para travar o oceano, temos de ensinar toda a
- 18:22gente a nadar e a ler as Correntes.
- 18:25E isto aplica se a todos nós, não só quem tem filhos ou é
- 18:28professor. A linha que separava o estar na
- 18:31net do estar na sociedade evaporou se completamente, o que
- 18:36me leva a uma provocação final para quem nos ouve pensar em
- 18:38casa. Pensei nisto quando ouvia as
- 18:40tuas explicações e acho que extravasa um bocado o relatório,
- 18:43mas vale a pena mastigar o assunto.
- 18:45Passamos este tempo todo a falar da importância de ensinar a
- 18:47operar a tecnologia, a dominar a folha de cálculo do Excel ou
- 18:51documento do Word. Sim, a parte da ferramenta, mas.
- 18:55A inteligência artificial está a dar saltos inimagináveis de mês
- 18:58para mês. Num futuro muito breve, AIA vai
- 19:02conseguir fazer todas essas tarefas chatas e técnicas de
- 19:05forma autónoma e perfeita. A máquina faz o Excel.
- 19:08A máquina escreve o relatório em segundos.
- 19:09Pois e aí a coisa muda de figura.
- 19:11Exatamente, se chegarmos a esse ponto, será que a definição do
- 19:15que é a literacia digital não vai sofrer a sua maior mutação?
- 19:19Será que vai deixar de estar ligada à capacidade de operar um
- 19:22software para passar a ser exclusivamente a nossa
- 19:25resiliência psicológica? É uma perspetiva fascinante.
- 19:30A nossa capacidade teimosa de duvidar, resistir e verificar
- 19:34metodicamente aquilo que a máquina incansavelmente e de
- 19:37forma super persuasiva nos apresenta ali no ecrã.
- 19:41Talvez o verdadeiro e supremo nativo digital do futuro não
- 19:45seja o que desliza os dedos mais rápido ou sabe programar melhor.
- 19:49Talvez seja aquele que sabe com a exatidão qual é o momento de
- 19:53afastar as mãos do teclado, apagar o ecrã e atrever se a
- 19:57pensar pela sua própria cabeça, fica a reflexão para todos,
- 20:01muito obrigado por estarem connosco em mais uma imersão e
- 20:04até à próxima.