Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #360 Antônio Abujamra lê Pessoa - A Tabacaria, de Álvaro de Campos
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- 0:01Essas raras você tem sintonia com raiva.
- 0:12Olá, tudo bem? Eu sou Marcelo abud, seu
- 0:15podcaster radiofônico, e estou de volta com nossas peças raras.
- 0:21E hoje para anunciar que. A 11ª edição, o 11º episódio do
- 0:27podcast pois é poesia arte no plural, você pode buscar no
- 0:32Spotify, no YouTube ou no YouTube Music, que tem
- 0:36apresentação do Reinaldo Bessa, produção minha e da Débora isola
- 0:40e o apoio da zanzar produtora. Está no ar a partir desta
- 0:46segunda, dia 8 de setembro, e desta vez nós homenageamos o
- 0:52Antônio Abujamra, uma das lembranças que.
- 0:57Boa parte do público tem é do Antônio Abujamra lendo poesias,
- 1:03né? Ele fez isso durante muito
- 1:04tempo. Durante todo o tempo, aliás, que
- 1:07esteve na TV Cultura, no programa provocações.
- 1:11Isso entre 2002 1015, quando ele veio a falecer.
- 1:15Então, há pouco mais de 10 anos, o Abujamra entre os amigos.
- 1:21Ele já fazia podcast há muito tempo.
- 1:24Ele gravava poemas de Fernando Pessoa e distribuía entre os
- 1:30amigos. Era uma coisa muito especial.
- 1:33E o professor e diretor de TV e também da produtora noturna
- 1:38filmes, o Valdemar Jorge, nos conta essa história e na
- 1:43sequência compartilha conosco o Antônio Abujamra lendo a
- 1:48tabacaria de Fernando Pessoa. Acompanhe e emocione se bastante
- 1:55com esta peça rara. Eu.
- 1:58Tenho um CD cheio de poesias que ele.
- 2:01Mesmo gravava, pegava. O microfone?
- 2:04Lavava no. Carro, às vezes.
- 2:06E quando eu saía com ele no carro dele, um fusca, ele IA
- 2:09postar No No joker, alguma coisa.
- 2:11Assim ele deixava e ficava ouvindo as poesias e depois um
- 2:16dia ele me deu OCD, me deu 2 c. DS não sou nada.
- 2:21Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
- 2:26A par disso, eu tenho em mim todos os sonhos do mundo.
- 2:30Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do
- 2:33mundo que ninguém sabe quem é. E.
- 2:35Se soubesse quem é, o que saberiam, vai se para o mistério
- 2:39de uma rua cruzada constantemente por gente, para
- 2:42uma rua inacessível a todos os pensamentos, real,
- 2:46impossivelmente, real. Certa desconhecidamente certa.
- 2:51Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
- 2:54com a morte a por umidade das. Paredes e cabelos brancos dos
- 2:58homens. Com o destino a conduzir a
- 3:00carroça de tudo. Pela estrada Do Nada, estou hoje
- 3:05vencido, como se soubesse a verdade.
- 3:09Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer e não
- 3:13tivesse mais irmandade com as coisas, senão uma.
- 3:15Despedida, tornando se esta casa e este lado da rua a fileira de
- 3:19carruagens de um comboio e uma partida pitada de dentro da
- 3:22minha cabeça e uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de
- 3:25ossos. Na ida, estou hoje perplexo,
- 3:31como quem pensou e achou e esqueceu.
- 3:36Estou hoje dividido entre a. Lealdade que devo a tabacaria do
- 3:39outro lado da rua como coisa real.
- 3:41Por fora a sensação de que tudo é sonho como coisa real.
- 3:46Por dentro. Falhei em tudo como não fiz
- 3:52propósito nenhum. Talvez tudo fosse nada.
- 3:56Aprendizagem que me deram. Deixei dela pela janela das
- 3:59traseiras da casa. Fui até o campo com.
- 4:01Grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e
- 4:04árvores, e quando havia gente era igual a outra.
- 4:10Saio da janela, sento me numa cadeira, um que hei de pensar.
- 4:16Que sei? Eu do que serei, eu que não sei
- 4:19o que sou? Ser o que penso, mas eu penso
- 4:22ser. Tanta coisa.
- 4:24E a tantos que pensam ser a mesma coisa, que não pode haver
- 4:27tantos gênio. Neste momento?
- 4:31100000. Cérebros se concebem sonhos,
- 4:33gênios como eu, e a história não marcará quem sabe nenhum.
- 4:38Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
- 4:41Não, não creio em mim, em todos os manicômios, a doidos malucos,
- 4:45com tantas certezas e eu que não tenho nenhuma certeza, sou mais
- 4:48certo ou menos certo, não nem em mim, em quantas mansadas e não
- 4:53mansadas do mundo não estão nesta hora gênios para si
- 4:56mesmos, sonhando quantas aspirações altas e Nobres e
- 4:59lúcidas, sim, verdadeiramente altas e Nobres e lúcidas e quem
- 5:04sabe se realizáveis nunca verão a luz do Sol real?
- 5:08Nem acharão ouvidos de gente. O mundo é.
- 5:15Para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha
- 5:19que pode conquistá lo, ainda que tenha razão.
- 5:24Eu tenho sonhado mais que o que Napoleão fez, tenho apertado ao
- 5:27peito hipotético mais Humanidades que Cristo.
- 5:30Tenho feito filosofias em segredo que nenhum canto.
- 5:32Escreveu mas. Sou e talvez serei sempre.
- 5:35O da mansarda, ainda que não more nela.
- 5:38Serei sempre o que não nasceu. Para isso, serei.
- 5:41Sempre só o que? Tinha qualidades?
- 5:44Serei sempre. O que esperou que ele abrisse a
- 5:47porta ao pé de uma parede sem porta e cantou a cantiga do
- 5:50infinito numa capoeira e ouviu a voz de Deus num.
- 5:54Poço tapado. Crer em mim?
- 5:57Não, nem em nada. Derrame minha.
- 5:59Natureza sobre a cabeça ardente, o seu sol, a sua chuva, o vento
- 6:03que me acha o cabelo, e o resto que venha se vier.
- 6:06Ou tiver que vir ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas.
- 6:14Conquistamos todo mundo antes de nos levantar da cama, mas
- 6:18acordamos e ele é opaco, levantamo nos e ele é alheio.
- 6:24Saímos de casa e ele é a Terra inteira, mas o Sistema Solar, a
- 6:27via Láctea e o indefinido come chocolates, pequena, come
- 6:34chocolates. Olha que não há mais metafísica
- 6:37no mundo senão chocolates. Olha.
- 6:41Que as religiões? Todas não ensinam mais do que a
- 6:43confeitaria come pequena, suja, come pudesse eu comer chocolates
- 6:50com a mesma verdade com que comes?
- 6:52Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folha de
- 6:56estanho, eu deito tudo para o chão como tenho deitado a minha
- 7:01vida. Mas ao menos.
- 7:05Fica da amargura do que nunca serei a caligrafia rápida destes
- 7:09versos, pórtico, partido para O Impossível, mas ao menos
- 7:13consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas.
- 7:16Nobre, ao menos no gesto largo com que atiro a roupa suja que
- 7:19sou, sem roupro decurso das coisas e fico em casa.
- 7:24Sem camisa, por que consolas? Que não existe se.
- 7:29Por isso, consolas. Ou deusa?
- 7:31Grega, consumida como estátua que fosse viva, ou Patrícia
- 7:35romana impossivelmente, nobre nefasta.
- 7:38Ou cocote cerebre do tempo de. Nossos pais?
- 7:40Ou não sei que é moderno. Não concebo bem o que tudo isso,
- 7:44seja o que for, que seja se pode inspirar, que inspire meu
- 7:50coração é um. Balde despejado.
- 7:56Como os que invocam espíritos invocam, espíritos invoco a mim
- 8:00mesmo e não encontro nada. Eu chego a janela e vejo a rua
- 8:04com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios,
- 8:10vejo. Os carros?
- 8:11Que passam? Vejo os entes vivos vestidos.
- 8:14Que se cruzam? Vejo os cães.
- 8:17Que também existem, e tudo isto me pesa como uma condenação ao
- 8:22degredo. E tudo isto é estrangeiro, como
- 8:26tudo vivi, estudei, amei e até acreditei.
- 8:33E hoje não há mendigo que eu não invejo só por não ser eu.
- 8:38Olho a cada um os andrajos e as Chagas e a mentira e penso.
- 8:42Talvez nunca vivesses, nem estudasses, nem amasses, nem
- 8:44cresses. Porque é possível fazer a
- 8:47realidade de tudo isto sem fazer?
- 8:49Nada disso. Talvez tenha existido apenas
- 8:51como um lagarto a quem cortam o rabo e que é rabo pra quem do?
- 8:55Lagarto remexidamente, fiz de mim o que eu não soube e o que
- 9:02eu podia fazer de mim. Não fiz.
- 9:06O dominó que eu vesti era errado.
- 9:09Conheceram me logo. Por quem eu não era e não
- 9:12desmenti e perdi me quando quis tirar a máscara, estava pegada a
- 9:18cara. Quando atirei e me vi ao.
- 9:20Espelho já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia
- 9:24vestir o dominó que não. Tinha tirado.
- 9:28Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado
- 9:32pela gerência por ser inofensivo, e vou escrever essa.
- 9:35História para provar que eu sou sublime.
- 9:39Essência musical dos meus versos inúteis.
- 9:45Quem me dera encontrar te como coisa que eu fizesse e não
- 9:48ficasse sempre defronte da tapacaria de defronte.
- 9:51Calcão dos. Pés a consciente de estar
- 9:53existindo como um tapete em que um bêbado tropeça, um capacho
- 9:57que os ciganos roubaram. E não valia nada, mas o dono da
- 10:03tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
- 10:06Olho com o desconforto da cabeça mal voltada e com o desconforto
- 10:11da alma mal entendendo. Ele morrerá.
- 10:15Eu morrerei, ele deixará a tabuleta.
- 10:20Eu deixarei versos. A certa altura, morrerá tabuleta
- 10:24também e os versos também. Depois de certa altura, morrerá
- 10:27a rua onde esteve a tabuleta e a língua em que foram escritos os
- 10:30versos. Morrerá depois o planeta
- 10:32girante. Em que tudo isto?
- 10:34Se deu? Em outros satélites de outros
- 10:36sistemas, qualquer coisa como gente continuará fazendo coisas
- 10:39como versos e vivendo por baixo de coisas como.
- 10:41Tabuletas. Sempre uma coisa de fronte da
- 10:44outra, sempre uma coisa tão inútil como a outra.
- 10:47Sempre O Impossível, tão estúpido como o real, sempre
- 10:51isto ou sempre outra coisa ou nenhuma coisa e nem.
- 10:54Outra, mas um homem entrou na tabacaria para comprar tabaco e
- 11:01a realidade plausível cai de repente em cima de mim, semi
- 11:05ergoum e enérgico convencido? Humano.
- 11:08E vou tencionar escrever estes versos em que digo.
- 11:13Contrário, acendo um cigarro, pensar e escrevê Los e saboreio
- 11:18no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
- 11:22Eu sigo fumo com uma rota própria e gozo no momento
- 11:25sensitivo e competente. A libertação de todas as.
- 11:28Especulações e a consciência de que a metafísica é uma
- 11:33consequência de estar mal disposto.
- 11:36Depois deito me para trás na cadeira e continuo fumando.
- 11:42Enquanto destino me conceder. Eu continuarei fumando.
- 11:46Se eu casasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse
- 11:51feliz. Visto isso, levanto me da
- 11:55cadeira, vou a janela. O homem saiu da tabacaria
- 11:59metendo o troco na algibeira das calças.
- 12:01A reconheço é o Esteves. Sem metafísica.
- 12:05O dono da tabacaria chegou à porta.
- 12:08Como por um instinto Divino, Esteves voltou se e viu, me
- 12:11acenou me adeus, gritei lhe adeus só Esteves.
- 12:17E o universo reconstruiu se me sem ideal e nem Esperança, e o
- 12:23dono da tabacaria sorriu. Então você ficou com uma leitura
- 12:34de atabacaria, com uma produção primorosa.
- 12:37Muito diferente, inclusive, do que a gente ouve nos vídeos que
- 12:41estão no YouTube, né? Porque ali é a qualidade da
- 12:44captação do estúdio de TV. E aqui essa produção feita pelo
- 12:49Antônio Abujamra, com assim, muita dedicação a atabacaria de
- 12:56Fernando Pessoa. Antes de ir, eu volto a pedir o
- 13:06seu voto. No prêmio mtb melhores podcasts
- 13:10do Brasil, o peças raras concorrem na categoria assuntos
- 13:15diversos. Para votar, você deve acessar o
- 13:19site premiomtb.com.br. Lá você faz um cadastro bem
- 13:25simples. Em seguida, vai receber uma
- 13:28mensagem no e-mail que cadastrou e pode iniciar a sua votação a
- 13:35uma dezena de categorias. Você pode votar em cada uma
- 13:39delas ou apenas nas que escolher em assuntos diversos, por
- 13:43exemplo. Tem muitos podcasts incríveis e
- 13:47se você acha que o peças raras merece o seu voto, escolha nosso
- 13:52podcast e clique em votar. Depois confirme seu voto.
- 13:57Foto e escolha finalizar votação ou continuar votando em outras
- 14:03categorias. Eu agradeço o seu apoio por hoje
- 14:07é isso, até a próxima, quando eu volto com mais peças raras para
- 14:13você. Salomão esper.
- 14:17O processo de interação, o rádio entra com o áudio e o ouvinte
- 14:21com a. Imagem, José Paulo de Andrade.
- 14:25É impressionante como a voz é reveladora.
- 14:28Eli Correa. Por isso que eu digo, rádio é um
- 14:31grande companheiro, é a melhor companhia.
- 14:34Que alguém pode ter? Joseval Peixoto.
- 14:38Isso que eu posso dizer é que eu sou muito, mas eu tenho muito
- 14:41orgulho de ser radialista. Nicolau thuma.
- 14:45Radialista é a simbiose de rádio com idealista.
- 14:50Hélio Ribeiro. Meu Nome é Rádio, eu, eu não
- 14:54envelheço, me atualizo. Essas rádios você tem sintonia
- 14:59com rádio?