Latest / Na Mesa com Well / Elena Laidlaw e o Pentecostalismo Chileno | Apagamento Institucional
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- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o well na série apagamento
- 0:04institucional, abrimos os arquivos que a memória oficial
- 0:07prefere fechar no episódio de hoje, Helena Leide low e o
- 0:11nascimento do pentecostalismo chileno, investigando a irrupção
- 0:15de 1909, o protagonismo profético das mulheres e a
- 0:18ruptura com o metodismo. Ajuste o fone e venha encarar os
- 0:22fatos e as Fontes primárias. Vamos junto.
- 0:26É e pra quem está nos ouvindo, a maioria das pessoas.
- 0:29Tipo, imagina que o início de uma grande religião acontece de
- 0:32um jeito super organizado, né? Com certeza a gente logo pensa
- 0:37num líder todo distinto, um homem engravatado pregando um
- 0:41sermão impecável num púlpito Majestoso.
- 0:44Exatamente, mas olha, os relatórios policiais e os
- 0:48jornais chilenos de 1909 contam uma história bem diferente.
- 0:52Bem menos glamourosa, eu imagino.
- 0:55Totalmente. A centelha real o evento que
- 0:58detonou um dos maiores movimentos da América Latina foi
- 1:01uma jovem órfã de 18 anos. Caramba, 18 anos, sim. 18 e a
- 1:08primeira cena dela nos registros históricos é sendo arrastada
- 1:11para fora de uma igreja pela força policial, enquanto uma
- 1:14multidão marchava logo atrás. Dela, essa imagem é simplesmente
- 1:18cinematográfica pra nossa audiência.
- 1:20Fechem os olhos e tentem visualizar o nível de tensão.
- 1:24É um cenário intenso. Estamos em setembro de 1909.
- 1:27A localização é o templo da rua cueto, na capital Santiago.
- 1:31O ar está pesado. A congregação está dividida.
- 1:36E de repente, a polícia entra no espaço sagrado.
- 1:40Exato, mas a mulher que eles prendem não sai sobre vaias ou
- 1:44xingamentos. Dezenas de fiéis se revoltam,
- 1:47mas a favor dela, eles formam um bloco nas ruas e começam a
- 1:51cantar hinos a plenos pulmões até a porta da delegacia.
- 1:55E esse é o verdadeiro Marco Zero de uma ruptura irreversível no
- 1:59Chile. O problema é que se olharmos pra
- 2:01história oficial, aquela escrita pelas próprias instituições nas
- 2:05décadas seguintes. Aquela história que costuma ser
- 2:07bem maquiada, né? Exatamente essa cena caótica de
- 2:11rua é convenientemente esquecida.
- 2:14A narrativa confessional colocou o pastor norte americano Willis
- 2:17Hoover no centro do palco. Ele foi elevado à condição de
- 2:21patriarca isolado, o herói fundador do movimento.
- 2:25Como se ele tivesse feito tudo sozinho.
- 2:27Mas. Mas Fontes primárias discordam
- 2:29disso, certo? Completamente.
- 2:31Quando a gente faz uma investigação aprofundada em
- 2:33periódicos independentes da época, como o jornal Chilli
- 2:36evangélico, a narrativa muda, o véu cai, cai totalmente.
- 2:40Lendo as atas da polícia e a imprensa secular, fica óbvio que
- 2:44o verdadeiro agente detonador que desestruturou o metodismo
- 2:47tradicional não foi o reverendo estrangeiro.
- 2:50Foi a jovem escoltada pela polícia.
- 2:53Isso a Helena leilo. Ok, vamos desempacotar.
- 2:56Isso porque, para entender como uma jovem leiga consegue causar
- 3:01um terremoto religioso que quebra um sistema inteiro, a
- 3:05gente precisa voltar um pouco no tempo.
- 3:07Com certeza. De onde surge essa força tão
- 3:10disruptiva? Bom, a gente precisa olhar para
- 3:12um cenário de Extrema vulnerabilidade.
- 3:15O nome de batismo dela era neli leilo.
- 3:18Ela nasceu em 1891, filha de imigrantes escoceses, mas a
- 3:20infância dela foi brutalmente interrompida por uma epidemia de
- 3:24varíola que devastou a região. Os pais dela morreram quando ela
- 3:28tinha apenas 2 anos de idade. Nossa, então ela começou a vida
- 3:34sem absolutamente nenhuma rede de apoio, zero proteção nenhuma?
- 3:38Ela Foi enviada para um orfanato Metodista na cidade de temuko e
- 3:43ela ficou lá até o ano de 1900. Quando a instituição
- 3:46simplesmente fechou as portas? Espera aí, ela tinha o quê, 9
- 3:50anos de idade? 9 anos.
- 3:52Imaginem uma criança sendo atirada às ruas no Chile da
- 3:55virada do século. Ela enfrentou a mendicância, o
- 3:59trabalho doméstico exploratório, a fome severa.
- 4:02É uma realidade dura demais. Muito.
- 4:06A trajetória inicial de Helena é a personificação da margem da
- 4:10sociedade. Ela conhecia a invisibilidade
- 4:12muito de perto. O que nos leva ao ponto de
- 4:15virada, né? Pelo que eu vi nas Fontes, a
- 4:17gente dá um Salto temporal pra agosto de 1909.
- 4:20Helena, já adulta e carregando todas as marcas dessa vida nas
- 4:25ruas, chega a cidade portuária de Valparaíso.
- 4:27Ela tava convalescente, se recuperando de uma cirurgia
- 4:31extremamente debilitada, e ela encontra abrigo na casa do
- 4:35pastor Willis Hoover e da esposa dele, a Mary.
- 4:37O que acontece lá dentro? Olha.
- 4:41Valparaíso já estava fervilhando naquela época.
- 4:44É uma cidade portuária, então as ideias circulavam rápido.
- 4:48Havia relatos de avivamentos globais, tipo o da missão de
- 4:51mukti lá na Índia. Essas notícias chegavam por
- 4:54cartas e literatura, certo? Exato, havia uma expectativa
- 4:58pairando no ar e nesse ambiente de vigílias constantes na casa
- 5:02dos Rover, a Helena vivencia uma conversão poderosíssima.
- 5:07Mas não foi uma conversão daquelas silenciosas de.
- 5:10Reflexão interna no banco da igreja, né, tá?
- 5:13Nem um pouco, foi uma irrupção, ela rompeu instantaneamente com
- 5:17todo aquele decoro puritano que era esperado dela.
- 5:21Sabe, além dos relatos sobre esse momento, me veio uma
- 5:23analogia, a cabeça. Qual?
- 5:26Pensei na liturgia Metodista tradicional daquela época, como
- 5:29uma orquestra clássica impecável.
- 5:32Tudo era rigidamente coreografado por maestros, que
- 5:35eram os pastores missionários, quase todos homens e
- 5:37estrangeiros. Uma hierarquia super rígida.
- 5:40Sim, havia a hora exata de levantar o momento preciso de
- 5:45sentar. O sermão bem estruturadinho de 3
- 5:48pontos a partitura exata a ser seguida.
- 5:52A chegada da Helena ali foi como a introdução repentina de uma
- 5:55improvisação de jazz frenética no meio dessa sinfonia erudita.
- 5:59Nossa, uma analogia excelente, porque o jazz subverte a
- 6:03hierarquia da partitura, sabe? E a Helena subverteu a
- 6:06hierarquia clerical. Ela quebrou o roteiro.
- 6:09Totalmente, ela começou a apresentar danças estáticas,
- 6:12profecias em voz alta, discernimento de espíritos e,
- 6:16talvez o mais chocante para a época, ela passou a realizar a
- 6:20imposição de mãos. Espera, vamos pausar nisso aí?
- 6:24Imposição de mãos não era um ato reservado exclusivamente para os
- 6:27líderes ordenados? Historicamente, sim.
- 6:30Era um símbolo de transferência de autoridade de bênção,
- 6:33totalmente restrito ao clero masculino.
- 6:35Vê uma mulher leiga? Como o histórico de vida nas
- 6:38ruas impondo as mãos sobre as pessoas era um escândalo?
- 6:42Teológico gigantesco, e. Tem mais, ela chegou a ministrar
- 6:49a orar impondo as mãos sobre o próprio reverendo Willis roover.
- 6:53Sobre o líder máximo ali da região.
- 6:55Sim, e o que é fascinante aqui é que isso inaugura o que os
- 6:59sociólogos da religião chamam de uma nova teologia experiencial.
- 7:04Mas vamos traduzir esse termo para quem nos ouve.
- 7:06Teologia experiencial significa que, de repente, a autoridade
- 7:10não vinha mais do sujeito que tinha um diploma caríssimo de
- 7:13seminário na parede. É isso, exatamente isso.
- 7:16A autoridade passou a ser a experiência direta, como se Deus
- 7:19estivesse supostamente falando de igual para igual com A Órfã
- 7:22marginalizada. Isso nivela o campo de jogo,
- 7:25sabe? A autoridade deixava de ser
- 7:27institucional e passava a ser carismática.
- 7:30Se o espírito age através de quem ele quer?
- 7:33As Barreiras de gênero, de classe e de educação
- 7:35simplesmente desmorou, não? É uma revolução social dentro do
- 7:39ambiente religioso. Totalmente.
- 7:41Mas assim é crucial. Não cairmos no erro de tratar a
- 7:44Helena como uma heroína infalível.
- 7:46Sabe? Uma figura solitária salvando o
- 7:49dia? Ah, sim, não podemos criar uma
- 7:51lenda a geográfica em cima dela. Exato, o protagonismo dela foi o
- 7:56estopim que ativou e validou toda uma rede de liderança
- 7:59feminina. Mulheres como a Natália Molina,
- 8:02por exemplo, começaram a exercer papéis de destaque que seriam
- 8:05impensáveis meses antes. Havia uma sororidade espiritual
- 8:09sustentando essa irrupção. Faz todo o sentido.
- 8:12Mas, seguindo a lógica do poder, essa improvisação de jazz podia
- 8:17até ser tolerada em Valparaíso, que é uma cidade mais caótica e
- 8:21aberta a novas influências. O que acontece quando essa
- 8:24energia antissistema decide viajar pra capital?
- 8:28Aí o sistema reage. Como as igrejas tradicionais de
- 8:30Santiago recebem isso? Elas fecham as portas,
- 8:33literalmente. E aí chegamos aquele fatídico 12
- 8:36de setembro que a gente comentou no início.
- 8:39A Helena viaja para Santiago no dia 11, inicialmente para
- 8:42visitar a irmã que estava doente e ela levava no bolso uma carta
- 8:45oficial de recomendação escrita pelo próprio.
- 8:48Hoover, ou seja, ela tinha um endosso assinado pelo CEO do
- 8:52movimento. Sim, atestando o caráter e o
- 8:54trabalho dela, mas os gerentes das filiais não aceitaram.
- 8:59No domingo, dia 12, ela tenta falar nas congregações
- 9:02metodistas de Santiago, especificamente na primeira e na
- 9:05segunda igreja, e os pastores encarregados, os reverendos Rice
- 9:09e Robinson, simplesmente a proíbem de abrir a boca.
- 9:13A recusa não foi por falta de tempo na programação, né?
- 9:16Claro que não foi uma Barreira de contenção, eles perceberam
- 9:20que aquela forma de religiosidade era uma ameaça
- 9:23direta ao controle pastoral absoluto deles.
- 9:25Eu fico imaginando o choque da congregação.
- 9:28As pessoas sabiam o que estava acontecendo em Valparaíso, elas
- 9:31provavelmente queriam viver aquilo.
- 9:33E, de repente, os pastores mandam a mulher se calar e
- 9:36quando ela não recua, eles chamam a polícia para a própria
- 9:39ovelha. O que demonstra um nível de
- 9:42desespero institucional altíssimo.
- 9:44Chamar a força armada do estado para remover uma fiel do espaço
- 9:48sagrado é a admissão pública de que a teologia deles já não
- 9:52conseguia controlar o rebanho. É perder o argumento e usar a
- 9:56força. Exato.
- 9:57E a congregação se rebela. Em vez de ficarem sentados nos
- 10:00bancos passivos, eles se levantam e seguem a Helena.
- 10:04A marcha até a delegacia não foi um protesto silencioso.
- 10:07Os documentos relatam os fiéis cantando a plenos pulmões um
- 10:11hino chamado el fuego e la niebe.
- 10:13É de arrepiar. A rua E a delegacia viraram a
- 10:17primeira igreja dissidente de verdade.
- 10:19Com certeza, ali nasceu a rutura na prática.
- 10:23Mas e depois da prisão? Imagino que a pressão deve ter
- 10:26sido enorme para ela simplesmente abaixar a cabeça e
- 10:29sumir do mapa. Qualquer pessoa comum teria
- 10:32recuado, mas a Helena e a companheira de missão dela, a
- 10:35Natália Molina, fizeram o oposto, partiram para o ataque.
- 10:40Foram para onde? Entre finais de 1909 e o começo
- 10:42de 1910, as 2 empreendem uma vasta viagem missionária em
- 10:45direção ao centro sul do Chile. Estamos falando de lugares como
- 10:50concepcion, Valdívia, temoco. O que os registros mostram sobre
- 10:55essa viagem funcionou ou o pessoal dessas cidades achou
- 10:59aquilo bizarro demais? Foi um fenômeno de massas.
- 11:03Nós temos as cartas dos pastores locais dessas cidades arquivadas
- 11:06e os relatos são viscerais. Eles descrevem as igrejas sendo
- 11:09completamente galvanizadas. O impacto foi real, então?
- 11:12Muito real. Há registros de cultos que
- 11:15varavam a madrugada, pessoas chorando compulsivamente,
- 11:18pecadores contumazes confessando faltas publicamente.
- 11:22Eles narram até crianças sendo inspiradas a perdoar inimizades
- 11:25familiares antigas. Caramba.
- 11:27O poder de atração e de transformação que a pregação e
- 11:30as orações delas exerciam era avassalador.
- 11:33Aqui é que a coisa fica realmente interessante, porque
- 11:37se conectarmos as pontas, se ela estava atraindo essas multidões
- 11:41todas, convertendo pessoas no nível tão profundo e expandindo
- 11:45o movimento com tanto sucesso, porque a própria liderança que
- 11:49se beneficiou de tudo isso? Acabou se voltando contra ela em
- 11:53questão de meses. Essa é a pergunta que desvém da
- 11:56mecânica fria de como as instituições operam, sabe?
- 12:00Veja bem, o sucesso carismático, essa energia indomável que
- 12:04arrasta as multidões é extremamente útil, até essencial
- 12:07na fase de ruptura. O movimento precisava dessa
- 12:10explosão para quebrar as Correntes do metodismo.
- 12:13Sim, para abrir espaço. Só que, uma vez que a ruptura
- 12:16está feita, a nova liderança quer se estabilizar.
- 12:19Claro, eles querem construir o próprio castelo, agora não
- 12:22querem mais confusão na rua. Exato.
- 12:25Pra que uma nova denominação sobreviva a longo prazo,
- 12:27especialmente numa sociedade altamente conservadora e
- 12:30patriarcal como o Chile do início do século 20, ela precisa
- 12:34de uma coisa acima de tudo. Respeitabilidade.
- 12:37Respeitabilidade perante o estado e a sociedade burguesa.
- 12:40Eles precisavam mostrar ordem, previsibilidade, regras claras.
- 12:45Fazendo um paralelo que talvez seja familiar para quem está nos
- 12:47ouvindo hoje. É exatamente o ciclo que a gente
- 12:50vê em startups de tecnologia, não é?
- 12:52Como assim? O fundador original, muitas
- 12:55vezes caótico, excêntrico, sem filtros, constrói aquela ideia
- 12:59bilionária operando de dentro de uma garagem toda bagunçada.
- 13:03Mas, no segundo em que a empresa cresce e que abrir capital na
- 13:06bolsa de valores, o conselho de administração entra em pânico.
- 13:10Eles percebem que aquele fundador selvagem assusta os
- 13:13engravatados de Wall Street. Ah, total.
- 13:15Então, o que eles fazem? Eles expulsam o criador
- 13:18original. E coloca um executivo padrão, de
- 13:20terno e gravata no lugar, só para passar uma imagem de
- 13:23segurança institucional aos investidores.
- 13:25Uma comparação perfeita. O conselho de administração,
- 13:28nesse caso da história, era a nova liderança pastoral chilena
- 13:32e os investidores que precisavam ser acalmados eram a elite e a
- 13:35grande imprensa do país. E a sociedade conservadora deve
- 13:39ter batido pesado neles, né? A reação foi brutal e foi nesse
- 13:42momento que começou a construção maciça de estigmas.
- 13:46O que a gente conhece como a lenda negra da Elena lightlow o
- 13:49que? Dizia essa lenda negra, na
- 13:51prática, o que eles publicavam? Os ataques vieram de todos os
- 13:54lados, mas principalmente da grande imprensa secular como o
- 13:57poderoso jornal el Mercúrio, eles não tentavam debater
- 14:01teologia com a Helena. A estratégia era desumanizar a
- 14:04figura dela. Atacar a pessoa?
- 14:07Sim, eles começaram a publicar artigos, patologizando o
- 14:10comportamento dela. Utilizavam termos pesados,
- 14:13chamando de histérica, de iluminada, de desequilibrada.
- 14:16Houve até matérias acusando a Helena de usar técnicas de
- 14:19hipnotismo grosseiro para controlar a mente das
- 14:21congregações. E aqui a gente precisa ser
- 14:24absolutamente cristalino. Para quem tá acompanhando o
- 14:27raciocínio, esses rótulos da imprensa histeria, hipnotismo,
- 14:31desequilíbrio eram, de fato, diagnósticos clínicos baseados
- 14:35em alguma ciência real da época. Sob nenhuma circunstância.
- 14:40E é imperativo que isso fique claro, no alvorecer do século
- 14:4320, a linguagem médica e psiquiátrica era constantemente
- 14:46transformada em arma para punir mulheres que ousavam romper com
- 14:50o papel doméstico de submissão. E seria inclusive vendo a
- 14:53palavra grega para útero, né? Era um diagnóstico focado em
- 14:56incalar. Mulheres perfeito rotular uma
- 14:59líder feminina carismática de histérica era um mecanismo
- 15:02sociopolítico clássico de estigmatização, desacreditar a
- 15:06sanidade mental de uma mulher. Era a ferramenta mais rápida e
- 15:09eficaz para invalidar a autoridade espiritual dela.
- 15:12Tratar essas reportagens como diagnósticos hoje em dia é ser
- 15:15cúmplice do preconceito daquela época.
- 15:18Elas eram ferramentas deliberadas de silenciamento.
- 15:21É o velho truque covarde de chamar de louca a mulher que
- 15:25fala verdades altas demais ou que lidera de forma eficaz
- 15:28demais para o ego masculino aguentar.
- 15:31Mas o que me deixa perplexo de verdade é a liderança interna, o
- 15:35Hoover. O cara que deu a carta de
- 15:37recomendação endossando ela, como ele justifica jogar a
- 15:41Helena aos leões desse jeito? Ele faz um recuo tático de
- 15:44autopreservação. Em abril de 1910, o movimento
- 15:47realiza uma conferência crucial para organizar a nova igreja.
- 15:50A liderança masculina, liderada pelo hover, olha para os ataques
- 15:54ferozes do ao Mercúrio, olha para o estigma que a sociedade
- 15:57estava colando neles e decide que a fundadora da garagem
- 15:59precisa ser demitida. Para limpar a imagem deles.
- 16:04Isso. Para provar que eles eram
- 16:06ordeiros e respeitáveis, eles sacrificam a Helena.
- 16:09Em 30/04/1910, ela sofre um afastamento disciplinar.
- 16:14Ela é formalmente descontinuada da membrisia da igreja.
- 16:18Revoltante. A mulher que foi a centelha do
- 16:21Avivamento, que foi presa pela causa, que viajou o país
- 16:24liderando avivamentos, é expulsa friamente pelos mesmos homens
- 16:28que estavam confortavelmente colhendo os frutos da coragem
- 16:30dela. E a exclusão dela não se limitou
- 16:33àquela data, infelizmente. Se conectarmos isso ao Panorama
- 16:36geral, o que se seguiu nas décadas posteriores foi um
- 16:39processo sistêmico, que as ciências sociais chamam de
- 16:42mnemocídio e pneumacídio. Certo mnemocídio parece ter a
- 16:47mesma raiz de memória, seria literalmente o assassinato da
- 16:52memória. Exato é a supressão intencional
- 16:55do nome de alguém nos registros históricos.
- 16:57E pneumacídio. Deriva de pneuma, que significa
- 17:01espírito ou soprovital. É o sufocamento daquela energia
- 17:06carismática original que iniciou o movimento.
- 17:09Pra consolidar seu poder, a instituição precisava editar o
- 17:12próprio passado. Apagar as provas, sim.
- 17:15Revistas comemorativas oficiais que surgiram depois, como a
- 17:19famosa fuego de Pentecostes, começaram a reescrever a
- 17:23história da fundação. Eles simplesmente apagaram o
- 17:25nome de Elena ladolo e de toda aquela rede de mulheres ao redor
- 17:29dela. Criando um panteão fundacional
- 17:32exclusivamente masculino, todo centrado no Rover.
- 17:35Claro, porque para o mito de fundação fica bonito no quadro
- 17:38da parede da igreja, uma jovem órfã com histórico de miséria
- 17:42nas ruas, que orava e dançava de forma descontrolada.
- 17:46Não cabia no molde burguês. É uma higienização da história.
- 17:50E a ironia profunda? A grande reviravolta de toda
- 17:53essa investigação hoje em dia é de onde a gente consegue tirar
- 17:56as provas. Se a gente dependesse apenas dos
- 17:59livros comemorativos da igreja, a Helena jamais teria existido
- 18:03na história. Verdade, ela seria um fantasma?
- 18:06O protagonismo gigante que ela teve só pôde ser provado e
- 18:09reconstruído recentemente por pesquisadores acadêmicos porque
- 18:13eles cruzaram os dados usando os arquivos dos próprios inimigos
- 18:17dela. Sensacional.
- 18:18Foram as atas da polícia que apreendeu.
- 18:21Os jornais regulares que a difamaram e os relatórios dos
- 18:24metodistas tradicionais que a expulsaram, que registraram
- 18:27detalhadamente onde ela estava, com quem estava e o tamanho
- 18:31imenso do poder que ela exercia, os opositores guardaram as
- 18:35provas da grandiosidade dela. Isso é fascinante.
- 18:38Os detratores foram Os Guardiões acidentais da verdade histórica.
- 18:43E o que aconteceu com a Helena depois de ser varrida para baixo
- 18:47desse tapete institucional todo? Ela não procurou fundar uma
- 18:51seita concorrente ou criar um novo escândalo depois de 1910.
- 18:54Os registros indicam que a Helena viveu de forma muito
- 18:57discreta. Ela voltou ao anonimato na
- 18:59cidade de Santiago e permaneceu na obscuridade por mais de 4
- 19:04décadas. Ela viveu o resto da vida em
- 19:07silêncio. Sim, ela faleceu aos 61 anos, no
- 19:10dia 10/12/1952, internada no hospital Salvador.
- 19:15Foram necessários mais de 100 anos para que a história
- 19:18começasse a reparar esse apagamento, resgatando a
- 19:21complexidade dela não para transformá la numa Santa
- 19:24intocável, mas apenas para reconhecer seu papel histórico
- 19:28incontestável. Então, o que tudo isso significa
- 19:31para nós hoje, se a gente pensar bem a história institucional,
- 19:35seja de uma igreja, de um país ou de uma empresa?
- 19:40Não pode ser tratada como uma daquelas fotografias antigas de
- 19:43família, de onde a gente simplesmente pega a tesoura e
- 19:45recorta as pessoas que nos constrangem.
- 19:47Com certeza, o passado não cabe numa moldura perfeita.
- 19:51Não cabe o passado é confuso, é feito por pessoas complexas,
- 19:56marginais, imperfeitas. A história exige que a gente
- 20:00tenha a maturidade de olhar para os alicerces originais, mesmo
- 20:04quando a instituição decidiu rebocar e pintar a parede por
- 20:07cima. Só para esconder quem foi que
- 20:09colocou os tijolos? Essa maturidade é essencial, não
- 20:12dá para simplesmente fingir que as fundadoras não existiram.
- 20:15Exatamente, se o apóstolo Pedro afirmou abertamente, em atos um
- 20:1917, que Judas era contado conosco e teve parte neste
- 20:23Ministério, porque as instituições religiosas insistem
- 20:27em apagar da história o protagonismo daquelas que
- 20:30abriram os caminhos apenas para tornar o passado mais
- 20:33confortável? Fica essa reflexão crítica e
- 20:36necessária pra todos que nos acompanham.
- 20:38Locutor apresentador, este foi o episódio investigativo sobre
- 20:42Elena, live low e o nascimento do pentecostalismo chileno, na
- 20:46série apagamento institucional, a história que serve a Cristo
- 20:50não precisa esconder o que é desconfortável, precisa apenas
- 20:53ser verdadeira na mesa com o el profundidade e historicidade no
- 20:58seu corre diário.