Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #307 O Bêbado e a Equilibrista, Hino da Anistia: entrevista com João Bosco
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- 0:00O Aldir, como habitualmente fazíamos, ele vai até a
- 0:05minha casa, eu morava no jardim Botane, e aí então
- 0:09eu mostro o samba e conta essa história para ele.
- 0:13Bom, ele simplesmente pega aquele
- 0:17tema chapoiliano, projeta numa situação do Brasil
- 0:23naquele momento, nós estamos numa ditadura militar no
- 0:28ano de 1978, e então ele começa através do chapoilão
- 0:34contar a realidade brasileira naquele momento.
- 0:38Estamos falando de um momento
- 0:39político que estava quase explodindo tudo. Mestre
- 0:43Sara dos Mares trata de um momento que teve também uma
- 0:47comoção, mas a gente já conheceu a música com
- 0:50distanciamento histórico, e o bêbado e a equilibrista
- 0:53era quase que um rádio ao vivo contando o que a
- 0:57gente estava vivendo. Então, para quem estava lá, para
- 1:01quem viveu uma reverberação daquela época ali, ganha
- 1:07contornos realistas mais vivos, assim, mais
- 1:13pronunciados. Então, naquele momento ali, elas
- 1:17se tornam oínos para acelerar esse movimento do
- 1:23Brasil das exceções para a democracia. Peças
- 1:30raras. Olá, tudo bem? Eu
- 1:33sou Marcelo Abude, estou chegando com nossas peças
- 1:37raras. Para lembrar a Lei da Anistia,
- 1:41sancionada a 45 anos em 28 de agosto de 1979, neste e
- 1:47nos próximos dois episódios, você fica com entrevistas
- 1:51em torno da música o bêbado e a equilibrista de
- 1:55João Bosco e Aldir Blanque. Gravada
- 1:57por Elis Regina no disco Essa Mulher, lançado em
- 2:00maio daquele ano de 79, a canção logo se torna o Ino
- 2:05da Anistia. Tudo começa na noite de 25 de
- 2:09dezembro de 1977. Naquele Natal, nasce a ideia por
- 2:14trás de o bêbado e a equilibrista. Nesta
- 2:18edição eu converso com o João Bosco e nas próximas,
- 2:22você vai acompanhar entrevistas que gravei com
- 2:24o produtor musical João Marcelo Bosco e com o
- 2:27jornalista Silvio Essinger. Em
- 2:30três episódios, vamos fazer um retrato cantado que
- 2:34explica cada detalhe da importância que essa canção
- 2:37teve para aumentar a participação popular, no
- 2:41sentido de uma anistia ampla, geral e irrestrita a
- 2:45todas as pessoas brasileiras exiladas no período da
- 2:48repressão política. Vamos aos primeiros acordes desta
- 2:52história? Acompanhe a conversa com João Bosco,
- 2:56que relembra a criação da música. Essa
- 2:59entrevista foi gravada por mim em julho de 2023.
- 3:06Então assim, a primeira coisa que
- 3:08eu li numa biografia da Elise é que essa música
- 3:12teria nascido quando você soube da morte do Chaplin.
- 3:17Então eu queria saber se a
- 3:17origem foi essa e como é que nasceu a ideia da
- 3:20música, ainda da melodia, ainda do nascimento mesmo,
- 3:25por favor. Eu venho de uma família muito
- 3:29grande, nós somos dez irmãos, e naquela época era
- 3:36comum a família se reunir na casa dos meus pais, em
- 3:44Ponte Nova, em Minas Gerais. E
- 3:47isso também aconteceu em 1977. Essas
- 3:53reuniões se davam sempre em épocas de final de ano.
- 3:59Aquela época do Natal, o ano
- 4:02novo, passávamos todos juntos, irmãos, primos,
- 4:08sobrinhos, meus pais eram vivos, ainhenta e tudo. E
- 4:14não foi diferente nesse ano de 1977. Fomos
- 4:19todos para Ponte Nova e ficávamos hospedados na casa
- 4:23dos meus pais, todos. E era uma casa muito grande,
- 4:27em Minas Gerais, com um quintal, também muito
- 4:29generoso, com muitas mangueiras e outras frutas.
- 4:35E eu me lembro que teve o
- 4:37Natal no dia 24 e no dia 25. A
- 4:43gente acordou mais tarde e tal, e eu peguei o violão
- 4:46e fui lá para o quintal, que eu sempre costava de
- 4:51quando estava lá na casa dos meus pais e para o
- 4:54quintal. Eu peguei o violão, ficava
- 4:55sentado junto a um pé de manga daqueles, com um
- 5:01tronco bastante generoso, eu me costava ali e ficava
- 5:04dedilhando o violão, tocada alguma coisa e tal. Quando
- 5:07eu estava ali sentado, isso era no dia 25 de dezembro
- 5:11de 1977. Alguém chegou ali naquele quintal
- 5:16e disse para mim, olha, você sabia que o Charlie
- 5:20Chaplin faleceu. E eu então fiquei assim muito
- 5:28surpreso com aquela notícia ao mesmo tempo, muito
- 5:32tocado, porque o Chaplin era e continua sendo um
- 5:40cineasta, um ator, um escritor, um compositor, que
- 5:49levado para as telas do cinema situações específicas
- 5:55e ele viu uma certa classe social, geralmente, ele
- 6:00estava sempre na classe dos vagabundos, do sem emprego,
- 6:08daqueles que não têm facilidade para nada nessa
- 6:13vida e tudo, e fazia daquilo algo engraçado,
- 6:20positivo, ou seja, empurrava a gente para frente, sempre
- 6:27naquela situação de dificuldade. Isso
- 6:30tudo veio à minha cabeça na hora que me disseram, o
- 6:34Charlie Chaplin morreu. Eu comecei a me lembrar dos
- 6:37filmes do Chaplin, ele também era um compositor
- 6:41excelente. A primeira coisa que me veio
- 6:44à cabeça foi a canção Ismael, que era uma canção
- 6:50que ficou muito conhecida após o filme, e essa
- 7:00canção me veio à cabeça e eu fiquei então, dedilhando
- 7:03essa canção, e fiquei ali, passei algum tempo, e essa
- 7:09canção foi se soltando, ela foi se soltando, se
- 7:14soltando, e foi gerando uma melodia que nascia dessa
- 7:22ideia, e a harmonia então foi sendo construída em
- 7:27torno dessa melodia que nascia do Ismael. E
- 7:32aí quando eu vi, depois de horas ali, naquele lugar,
- 7:37com violão e tudo, eu vi que era um samba, que
- 7:44tinha duas partes, e embora essas partes fossem
- 7:52idênticas, se repetiam com detalhes no final de
- 7:59repetir certo momento da canção, e eu então achava
- 8:09que aquela canção, embora não fosse um samba enredo,
- 8:14era um samba que trazia dentro de si uma espécie
- 8:20de história, e aqui a história é chaplinhiana,
- 8:22porque ela veio daqui. Muito
- 8:24bem, acabou tudo isso, as festas e tudo, e o ano
- 8:30novo, e voltamos para o Rio de Janeiro. Já
- 8:34estávamos então no ano de 1978, aí encontro o Aldir,
- 8:41como habitualmente fazíamos, ele vai até a minha casa,
- 8:47eu morava no jardim Botânico, e aí eu mostro o
- 8:50samba e conto essa história para ele, entendeu? E
- 8:54ele grava o samba, como sempre fazia com as outras
- 8:59canções, naquele gravador de fita, cassete, tudo, e leva
- 9:04para casa. Algumas dias depois ele volta na
- 9:11minha casa, e quando ele adentra o apartamento, ele
- 9:18já tem uma expressão na sua face, nos seus olhos,
- 9:31algo que ele trazendo, tirando um papel do bolso,
- 9:36ele diz assim, eu tenho impressão que nós fizemos
- 9:39alguma coisa muito bonita, e ele tinha um papel, me
- 9:49dá aquele papel, como sempre fazíamos, eu sentava,
- 9:53pegava aquele papel e ia cantando a canção com
- 9:58aquelas novas palavras que aderiam a canção. E
- 10:06ele simplesmente pega aquele tema chapliniano, projeta
- 10:15numa situação do Brasil naquele momento, nós estamos
- 10:21numa ditadura militar no ano de 1978, e então ele
- 10:34começa, através do chapre, contar a realidade
- 10:40brasileira naquele momento, entendeu? E,
- 10:44bom, aí essa canção, ela se torna a canção que
- 10:54muitos brasileiros conhecem, hoje, e essa é o início
- 11:02da história da canção. Perfeito,
- 11:07e ele acrescentou algumas mensagens não tão cifradas,
- 11:13eram até evidentes falando dessa questão da anestia,
- 11:19tinham algumas frases, por exemplo, cair a tarde feito
- 11:22um viaduto, que fazia referência a um viaduto que
- 11:25caiu, acho que no Rio de Janeiro, se não me engano,
- 11:27não é isso? Tem o Paulo de Frontem ali em
- 11:301971, morreram com 38 pessoas. Falava
- 11:35da volta do irmão do Enfil, e, por exemplo,
- 11:39trazia nomes como Marias e Clarices. Essas
- 11:42mensagens, como é que você acredita que elas acabaram
- 11:45passando pela censura, e a música acabou se tornando,
- 11:50tem um momento em que ela se torna o que é conhecida
- 11:53hoje como o Hino da Anistia? Então,
- 11:56essa canção, que nós fizemos em 1978,
- 11:59coincidentemente, a Elis estava gravando um especial
- 12:05numa certa altura do final do ano de 1978 em São
- 12:08Paulo, e era então a minha convida para participar
- 12:11desse especial de televisão. Nós
- 12:15cantamos algumas canções nesse especial, e no
- 12:18Camarinho, eu mostrei a ela essa canção. E
- 12:24ela ficou tão impactada, e ao mesmo tempo ela se
- 12:32identificava tanto com o que estava ali, que a
- 12:36primeira reação dela foi querer colocar essa canção
- 12:41naquele especial, naquele momento. E
- 12:46estava lá comigo com o César Camago Mariano, e nós
- 12:49conseguimos convencê -la de que ainda era necessário
- 12:54trabalhar aquela canção, uma introdução, enfim, era
- 13:00necessário uma certa convivência com aquela
- 13:06canção, antes de lançá -la naquele especial de TV. E
- 13:14felizmente ela atendeu, e então essa canção foi
- 13:20lançada por ela em 1979, no disco Essa Mulher, que
- 13:27é o ano da Anistia. Então, quando essa canção foi
- 13:31feita, nós existia essa Anistia, quando ela
- 13:35desconheceu essa canção, também não existia, ou ao
- 13:38dia que não conhecia pessoalmente o Betinho, que
- 13:45era o irmão do Enfio, e sabia das histórias do
- 13:48Betinho, tanto que ele nessa canção, ele chama o
- 13:53Betinho de o irmão do Enfio, porque ele não
- 13:56conhecia o Betinho pessoalmente. Bom,
- 14:04mas essa, quando eu falo pra você, isso é a
- 14:08genialidade do Aldi, que é um letrista singular, único
- 14:16na música brasileira, capaz de construir esses retratos
- 14:25que abordam momentos da nossa realidade, entendeu?
- 14:32Então, ele fala, o primeiro verso
- 14:41que é esse, Caía Tade fez com Viaduto, ele já cria
- 14:45uma atmosfera daquilo que virá. Então
- 14:50ele narra esses anos de tortura, de assassinatos, de
- 15:01pessoas que perderam seus entes queridos, como Marias
- 15:05e Clarices, dos gansilados, entendeu? O
- 15:13Betinho era um deles, entendeu? Dado
- 15:17que o Betinho, quando volta pro Brasil e a gente se
- 15:21encontra com ele, a primeira coisa que ele diz
- 15:23é, a caça de vocês me trouxe de volta. Ela
- 15:28me trouxe de volta. E, enfim, a Elis, que também
- 15:36era uma pessoa, uma intérprete, genial e
- 15:42incomparável, né? E ela toma essa canção pra
- 15:48si e registra essa canção de forma definitiva, como
- 15:53ela fazia geralmente com outras canções, mas essa em
- 15:56particular, ela se identifica com cada palavra,
- 16:02com cada nota musical, com cada situação dessa música,
- 16:08ela se identifica tanto que as pessoas, quando escutaram
- 16:12a gravação da Elis, de Bebo, da equilibrista, elas
- 16:18se emocionam e essa canção, então, transcende de uma
- 16:22situação e passa a ser identificada como uma
- 16:27espécie de heno da Anistia, porque a Anistia, então,
- 16:30acontece logo depois, e essa canção foi chegando
- 16:33perto da Anistia, e quando a caça fala daqueles
- 16:38exilados, e aqui eu faço um parêntese, eu tive a
- 16:43oportunidade de conversar com Ferreira Goulart, certa
- 16:48vez, se ele iria assistindo um show meu, e ele foi
- 16:50levar pra mim um livro de presente dele, e esse
- 16:54livro, o título desse livro era No Rabo de Fugueirte,
- 17:00e ele fala que ele também se considerava um daqueles
- 17:03personagens do samba, porque ele também foi asilar do
- 17:07Brasil e teve em vários países da América do Sul,
- 17:13que quando ele chegava, ele passava um tempo, e de a
- 17:18pouco tinha um golpe militar, como aquele
- 17:22ocorrido aqui, então, ele teve no Peru, aconteceu
- 17:25isso, ele teve no Chile, ele teve na Argentina, e
- 17:28cada lugar tinha um golpe, e ele tinha que sair pra
- 17:31outro lugar, se asilar pra outro lugar, então o título
- 17:34do livro dele era No Rabo de Fugueirte, e conversamos
- 17:39muito sobre a caça e sobre o livro dele, mas, enfim,
- 17:45a caça acabou sendo eleita, como uma espécie de hino
- 17:51da Anistia, pela situação popular que as pessoas
- 17:55elegeram isso. Quando fizemos a caça, eu me
- 18:02lembro da Especial do Alde, quando a pessoa realiza
- 18:09algo que ela sente, que é alguma coisa que traz pra
- 18:15ela uma satisfação imensa por existir, por ser um
- 18:19letrista, por ser um sujeito que tá percebendo
- 18:22aquela realidade traduzindo aquilo pra outras pessoas,
- 18:27mas então é isso, quer dizer, aí eles gravam essa
- 18:32canção, e essa canção, então, atinge essas
- 18:35identidades de hino da Anistia e etc., também em
- 18:45função da interpretação magnífica da Elis, que vive
- 18:52cada momento dessa canção como se fosse, como se
- 18:57aquela canção saísse dela, ela tem esse comprometimento
- 19:01com a canção, e a canção surge, então, com esse
- 19:08vigor, e é uma canção que até hoje, quando você canta
- 19:14essa canção nos sons, as pessoas têm uma atitude
- 19:19espontânea de cantar junto essa canção, como se todos
- 19:25se encontrassem ali, como se todos tivessem uma razão
- 19:31em comum por estar ali, entendeu? E
- 19:35essa é uma coisa genial que todos nós conhecemos da
- 19:43parte do Audi, o grande letrista da música
- 19:53brasileira, Audi Blank, e também aliado, a maior
- 20:00intercute da música brasileira eles agiram, quer
- 20:02dizer, nesses momentos, aí acontece essa coincidência
- 20:08que parece que é o destino que traça, e tudo isso se
- 20:15encontra num certo momento pra traduzir uma realidade
- 20:20tão sofrida no Brasil. João,
- 20:24apesar da eles ter sido convencidas não cantar a
- 20:29música no especial, você cantou ela sozinho com
- 20:32violão e com o arranjo do César Camargo Mariano.
- 20:54Essa maneira que nós fizemos,
- 20:56essa canção não era nem pra ter ido ao ar, era
- 21:00uma espécie de um... a gente tocando ali um ensaio
- 21:04pra eles ver, entender, pra o César sentir, mais ou
- 21:12menos isso, mas depois aconteceu, ela passou por
- 21:16esse... Essa evolução. Me
- 21:19toda, né? É, exatamente. Mas
- 21:21eu acho que ela realmente se mostra pra nação
- 21:29brasileira, em 79, com eles e com aquele arranjo também
- 21:37que o César apresenta, bem no início, uma coisa que
- 21:43mistura o Chaplin, uma coisa de realês, uma coisa
- 21:48de rua, né? E aí dá uma canção, então
- 21:52aparece, ela sai e se mostra na sua forma
- 22:00inteira, na definitiva. Uma música que fala que o show
- 22:06de todo artista tem de continuar, é uma lei que
- 22:10fazer, né? Eu
- 22:24agora queria falar uma coisa ótima, só pra mim.
- 22:28Eu falei uma coisa muito
- 22:30chata, mas eu vou falar uma coisa muito agradável.
- 22:33Vocês já ouviram falar do irmão
- 22:35do Enfio nessa música que eu canto? Pois
- 22:38a peça está aqui hoje, gente. O
- 22:43Marato conseguiu. O irmão do Enfio, o Enfio e
- 22:51etc. O Betio está de novo com a
- 22:54gente, com a Mararia. João, tem alguns dados que eu
- 22:58também li na biografia feita pelo Julio Maria
- 23:00sobre eles, e eu não sei se você tem essa informação
- 23:04ou lembrança, não tem problema se você não tiver
- 23:08essa certeza, né? Mas, por exemplo, na internet eu
- 23:12encontro algo que ele cita, que é a chegada do Betinho
- 23:15no aeroporto e a música tocando no ambiente. Alguém
- 23:19colocou essa música ali por um gravador, alguma coisa
- 23:22assim. Você tem registro desse fato,
- 23:25memória disso, ou já viu essa imagem? Olha,
- 23:31eu não me lembro agora, entendeu? Porque
- 23:36também a essa altura, muitas coisas me fogem à
- 23:42lembrança. Mas, quando fizemos, por exemplo,
- 23:52o Preto da Porteja está a afetar e o presidente
- 23:54Miterraveio Brasil, também quando ele desceu do avião,
- 23:59eles tocaram esse samba, o Preto da Porteja está a
- 24:01afetar, que era meu e do Aldi. E
- 24:03é o Aldi fazendo uma letra afranterada, digamos assim,
- 24:13cheio dessas palavras que nos remetem ao jeito
- 24:20francês de falar. Como, por exemplo, o próprio
- 24:23título, Preto da Porteja está a afetar. Queria
- 24:27ver o primeiro verso, é a pagode em Cocotá. Cocotá
- 24:30é um bairro do Rio de Janeiro, mas eu acento,
- 24:33tudo isso remete à França. Mas
- 24:35o samba nunca saiu daqui, era meteramente brasileiro.
- 24:41Isso aconteceu. Então,
- 24:42é possível que quando o Betinho... Eu
- 24:45sei que o Enfio colocou esse samba no telefone para
- 24:51o Enfio antes dele chegar. Isso
- 24:55eu também sei, isso eu me lembro, que o Enfio liga
- 25:00para ele e coloca o samba no telefone antes dele
- 25:08chegar. Agora, quando ele chega, é bem
- 25:12natural e espontâneo que quando ele chega em solo
- 25:17brasileiro, se toca essa canção. E,
- 25:21tanto que depois ele chega para a gente e fala isso,
- 25:24ele falou para o Aldi e para mim, que nós nos
- 25:27encontramos em momentos diferentes e ele diz isso.
- 25:31A canção de vocês me trouxe
- 25:33de volta. Isso eu também sei.
- 26:09Eu acho que sempre tive para
- 26:12mim que a música é uma reportagem do seu tempo.
- 26:16Aquilo que os musicólogos falam da
- 26:18chamada sociogênese da música, o solo e o
- 26:21momento, o zeitgeist que gera aquela obra. Eu
- 26:26creio que a Ilis tenha feito uma leitura racional
- 26:32e também intuitiva de natureza emocional. Então,
- 26:37tem emoções, sentimentos e ideias, mas também o desejo
- 26:41de falar alguma coisa. Aquilo
- 26:45tendo sido escrito pelo Aldi e a canção do João,
- 26:51eles terem conseguido colocar uma mensagem que
- 26:55poderia ter ficado muito ruim, porque o talento
- 26:58deles conseguiu fazer, que ficasse boa, mas poderia
- 27:02ficar uma coisa... panfletária
- 27:07demais, piegas, poderia passar do ponto. É
- 27:11como muitas vezes eu me refiro às canções do amor,
- 27:14ou de amor. Fazer uma canção de amor, uma
- 27:18balada, falando de um grande amor, é muito
- 27:23difícil ficar bom, porque você pode esbarrar várias
- 27:27coisas. Então, acho que foi uma leitura e
- 27:31uma interpretação que representavam o desejo dela,
- 27:36o desejo das pessoas da época.