Latest / Decantando Ideias / Decantando Ideias #22: Crescer às cegas é servir no escuro
Transcript
- Olá! Que bom ter você aqui com a gente para mais um Decantando Ideias. É aquele nosso convite, né? Uma pausa na correria para a gente refletir um pouco sobre negócios, gestão, estratégia, com base nas ideias do Alexandre de Sales. A gente acredita nisso, que as boas ideias, assim como um bom vinho, ficam melhores quando a gente dá um tempo para elas decantarem, para amadurecerem. E hoje, olha, o tema vem da reflexão número 22 do Alexandre. O título já diz muito. crescer às cegas é servir no escuro. A gente vai mergulhar nessa ideia. Será que a governança, que às vezes parece só burocracia, não é, na verdade, essencial para crescer de forma mais... É uma provocação muito boa e vinda de quem entende do assunto. Para quem talvez não conheça tão a fundo, o Alexandre de Sales é fundador e CEO da AS Consultoria. Ele tem mais de 30 anos de estrada como estrategista, foi esse level de multinacional por um bom tempo, é uma referência forte em planejamento, finanças e, claro, governança, que é o nosso papo hoje. Ele até criou frameworks próprios, como o Strong, sabe? Para fortalecer as empresas. Então, o que ele escreve vem muito dessa vivência prática, do dia a dia mesmo. Essa bagagem faz toda a diferença, né? E para a gente começar a desembolhar essa ideia de crescer às cegas é servir no escuro, o Alexandre usa uma metáfora ótima, a do vinho numa taça alpaca. Como é isso? Vai tomar o vinho, mas te servem numa taça que você não enxerga através dela. Sei lá, de cerâmica, de metal. Você não vê a cor do vinho, não vê se tá límpido, se tem borra no fundo, nada. Você pega a taça, sente o peso, talvez a temperatura, mas a visão, que é tão importante pra apreciar um vinho, né, fica de fora. Beber assim é quase um ato de fé, concorda? Falta clareza total. Totalmente. Nossa, a gente perde muito da experiência, né? Da análise prévia. E como é que isso se liga ao crescimento das empresas? A conexão é direta, sabe? Uma empresa que quer crescer, expandir, lançar coisa nova, entrar em outro mercado, mas faz isso sem uma estrutura mínima de governança, está agindo exatamente como quem serve esse vinho no escuro. E o que é governança aqui, né? De forma simples. São as regras, as práticas, os processos que direcionam e controlam a empresa. É ter processo claro, controle interno funcionando, transparência nas informações, saber quem responde pelo quê. Sem isso, a liderança não enxerga direito o que está rolando lá dentro. Hum, entendi. Quer dizer, o faturamento pode até estar subindo, bonito no gráfico, mas a qualidade desse crescimento, se ele é firme mesmo, fica meio obscura. Exatamente isso. O gostinho inicial, que pode ser a venda maior, ganhar mercado, pode até parecer ótimo, pode deixar o gestão super otimista, mas essa falta de visão interna, Essa cegueira operacional, financeira, ela cobra um preço. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega. É igual beber o vinho às cegas. Você não sabe o que está consumindo de verdade. É, e pensando no contrário, tem toda aquela beleza de poder ver o vinho na taça transparente, né? Analisar a cor, o brilho, as lágrimas na taça, a borda indicando a idade. A visão informa, prepara a gente. No mundo dos negócios, essa taça transparente seria a governança, então. Perfeito, é essa a analogia, uma boa governância como essa taça de cristal, limpinha. Ela não muda o negócio em si, o vinho continua o mesmo, mas ela permite ver com clareza o que tem ali dentro. Isso significa ter métricas confiáveis, auditorias que checam se está tudo certo, um conselho que atua de verdade, que pergunta, que cobra, não só para cumprir tabela. Sem essa vidraça, as decisões de crescimento acabam baseadas em quê? Muitas vezes é no feeling, né? No otimismo, em histórias bonitas, mas sem o lastro dos fatos, dos riscos reais. E essa falta de visão, essa escuridão aí, deve esconder uns perigos grandes, imagino eu. Empresas que parecem estar decolando, mas por dentro a coisa está complicada. Nossa, sem dúvida. É aí que a metáfora fica ainda mais forte. Muitas empresas, principalmente as que crescem muito rápido, sabe? Startups, por exemplo. Elas ficam meio hipnotizadas pela própria história de sucesso. O foco vai todo para receita, para trazer cliente, para velocidade. E olha... Até dá para entender, só que nessa correria elas ficam cegas para os sedimentos, lá no fundo da taça, os problemas que vão se acumulando. Que tipo de sedimento seria esse na prática? Dá para a gente pensar em exemplos? Há vários. Por exemplo, a receita cresce, que é uma beleza, mas os controles de custo de despesa ficam para trás. Aí a margem que aparece no papel não é real. Ou então o número de clientes dispara, mas os processos de compliance, sabe, para estar de acordo com as leis, as normas, Ficam frágeis. Aí abre porta para multa, para processo. Os relatórios podem até mostrar números lindos, mas a qualidade da informação ali pode ser duvidosa. Talvez uma contabilidade meio criativa ou simplesmente falta de controle mesmo. Beber esse vinho no escuro é tomar a decisão de investir, contratar, expandir, sem saber o tamanho real do risco. É uma combinação perigosa. Excesso de confiança com ignorância do perigo. E essa cegueira cria uma vulnerabilidade que não é só incerteza, né? Pode levar a crises bem concretas. Com certeza. A falta de governança, essa operação às cegas, vira um risco sistêmico para a empresa toda. Pode facilitar a fraude interna, que ninguém vê por um tempão. Pode esconder passivos trabalhistas, fiscais, ambientais, que quando aparecem, quebram o caixa. E pode acabar numa crise de reputação daquelas que destroem a confiança de todo mundo. Cliente, investidor, mercado. O caso da WeWork, que você citou rapidinho, parece um exemplo bem disso, né? É um exemplo clássico, muito didático mesmo. A WeWork teve aquele crescimento explosivo. Uma narrativa de disrupção muito forte, valuation lá na estratosfera era o vinho da moda que todo mundo queria provar. Só que era tudo servido na tal taça opaca. Faltava a transparência da governança para mostrar se o modelo de negócio parava em pé, qual era a estrutura de custo real, as práticas de gestão, os conflitos de interesse. Por fora brilhava. Mas quando eles tiveram que abrir os números para o IPO, foi como acender a luz naquela taça opaca. Aí todo mundo viu a borra. Prejuízo gigante, modelo insustentável, gestão pra lá de questionável. O valor da empresa desabou. A falta de transparência quase acabou com eles. É, um alerta e tanto. Mas, mesmo assim, a gente ouve muito falar da resistência à governança, especialmente em empresas que estão crescendo rápido. Muitos líderes acham que é burocracia, que é um freio, que tira agilidade. Como você vê isso? Olha, essa talvez seja a maior miopia em relação à governança. A mais perigosa. Eu entendo percepção, porque sim, implementar controle, processo, leva tempo, custa dinheiro. Mas a ideia está fundamentalmente errada. Voltando para a nossa metáfora, a taça transparente, ela não limita o vinho. Pelo contrário, ela revela, ela valoriza o vinho. O cristal não atrapalha a degustação. Ele enriquece, deixa a gente ver as nuances. Da mesma forma, uma governança sólida, bem ajustada ao tamanho da empresa, ela não tira agilidade. Ela dá a segurança e a informação para poder acelerar, mas acelerar com consciência, de forma sustentável. Como assim segurança para acelerar? Parece meio contraditório para quem só pensa em governança como controle, como restrição. Pensa assim, quando você tem clareza dos seus números de verdade, liquidez, dívida, margem, quando os seus processos estão mapeados, controlados minimamente, quando você entende seus riscos, você tem muito mais segurança para ser usado, para crescer, você sabe até onde dá para esticar o investimento sem quebrar o caixa, consegue ver os buracos na estrada antes de cair neles ou pelo menos se preparar, consegue falar com o investidor, com o banco, com o parceiro de um jeito mais crível. A transparência que a governança traz não engessa, ela liberta a gestão daquele medo do desconhecido, sabe? Você pode correr, mas sabe onde está pisando. O Alexandre de Sales mesmo costuma contar uma experiência pessoal que mostra bem isso. Ele estava num processo de expansão super acelerada numa empresa, com pressão de todo lado para crescer rápido. Só que aí, olhando os números com mais calma, algo que a governança, mesmo que inicial, permitiu, eles começaram a ver uns sinais de alerta, tá? E aí, o que eles fizeram é puxar o freio de mão. Criaram um conselho que acompanhava mais de perto, com reunião todo mês, olhando painéis bem claros, como estava a liquidez, a dívida, a rentabilidade por produto. Essa informação, essa luz acesa na operação, não impediu o crescimento. Pelo contrário, funcionou como um farol. Permitiu que a diretoria ajustasse a rota, renegociasse prazo com o fornecedor, otimizasse estoque, buscasse dinheiro de forma mais inteligente. A empresa conseguiu crescer forte, mas o principal cresceu de forma sustentável, porque a liderança viu os riscos e as oportunidades com clareza. A governança ali foi a luz no caminho, não a âncora do barco. Essa história é muito boa porque tira a governança do abstrato, né? Mostra na prática. Então a ideia não é que a governança vai eliminar o risco, porque isso não existe em negócio nenhum. Exato. Não existe negócio sem risco. Impossível. A questão é que a governança permite enxergar esse risco. Permite medir, entender e aí sim tentar mitigar de um jeito mais eficaz. É como o vinho na taça transparente. Ele se revela primeiro para os olhos, permite uma análise antes mesmo de sentir o cheiro ou gosto. O negócio também se revela melhor para a gestão quando tem relatório confiável, indicador consistente, auditoria, um lugar sério para discutir e decidir como comitês e conselhos. Quer dizer, a decisão final de arriscar ou não, de ir por aqui ou por ali, continua sendo humana. Tem intuição, coragem, visão de futuro envolvidas. Sem dúvida alguma. Governança não substitui a literança, a visão estratégica, mas ela qualifica a decisão. Transforma o que seria uma aposta no escuro numa escolha informada. É a diferença crucial entre operar no achismo e operar com base em dado, em fato. É como escolher um vinho para uma ocasião especial. Você pode pegar qualquer garrafa ali na sorte, que seria crescer às cegas, ou pode ler o rótulo, pesquisar a safra, conhecer a vinícola, crescer com governança. A segunda opção não garante 100% que você vai amar o vinho, mas, poxa, aumenta muito a chance de acertar, né? O que eu acho fascinante nisso tudo é essa diferença clara que você colocou. Beber o vinho no escuro é muito na base da sorte. Beber no claro é uma escolha consciente. Envolve análise, conhecimento... Precisamente. E trazendo para o nosso mundo, crescer um negócio às cegas é operar no campo do risco puro, quase do acaso. Fica dependendo de um monte de coisa que você não controla e, pior, muitas vezes nem vê. Já crescer com governança, isso sim é gestão estratégica de verdade. É usar a informação, a estrutura, para tomar a melhor decisão possível, mesmo num cenário incerto. O vinho não perde a poesia, o encanto, só porque a gente serve e aprecia ele na luz. Pelo contrário, ele ganha profundidade, ganha respeito, a gente admira as qualidades dele. A gestão de uma empresa também ganha essa profundidade, essa solidez, quando opera com clareza, com transparência. Então, para a gente amarrar a ideia central da reflexão do Alexandre, tentar crescer ignorando a governança é como servir o bebê vinho na taça opaca. É um caminho arriscado, turvo, que depende demais da sorte e provavelmente vai trazer surpresas bem desagradáveis. Resumiu perfeitamente. E a outra face da moeda é que a governança bem feita é a taça de cristal. Ela não muda o negócio em si, o potencial dele, o vinho, mas permite que ele seja visto, entendido, gerenciado com clareza, com todas as suas nuances e riscos. Não é um peso que atrasa, é a luz que clareia o caminho. Não é camisa de força, é farol que guia para um crescimento mais seguro, mais consciente e, no fim das contas, mais sustentável. Permite de verdade enxergar e sentir o verdadeiro sabor do crescimento da empresa. E essa busca por clareza, por crescimento sustentável, é uma jornada contínua, imagino eu. Assim como um vinho bom pode continuar melhorando na garrafa, as reflexões sobre gestão também precisam sempre amadurecer. Exatamente. E esse é bem o espírito aqui do Decantando Ideias, né? Nas nossas próximas conversas, a gente vai continuar explorando... essas complexidades da estratégia, da liderança, da gestão nesse mundo tão doido e desafiador que a gente vive. Sempre com esse olhar de buscar o que está por trás do óbvio, das soluções fáceis, das decisões apressadas. Quem sabe um próximo papo interessante seja justamente discutir como achar o ponto certo entre essa clareza da governança e a agilidade que o mercado cobra hoje. É um dilema bem real para muito líder por aí. Opa, tema excelente para a gente decantar no futuro. Então fica aqui o convite para quem está ouvindo. Continue essa jornada de reflexão com a gente e com as ideias do Alexandre de Sales. E é bom lembrar, né? Todas as reflexões que inspiram esses nossos papos, incluindo essa de hoje sobre Crescer às Cegas, Crescer às Cegas a Servir no Escuro, episódio número 22, estão lá na coluna Decantando Ideias no Substack. É só procurar por Alexandre de Sales no Substack. A gente convida todo mundo a assinar a newsletter, é de graça, aí recebe os textos novos direto no e-mail e fica sabendo também das versões em áudio, como essa nossa conversa aqui. O endereço é alexandredesales.substack.com. Vou repetir, alexandredesales.substack.com. Então, enquanto a gente processa essas ideias, talvez até com uma taça na mão, transparente, por favor. A gente deixa no ar a pergunta final que o Alexandre propõe para cada um pensar na sua realidade. As decisões na sua jornada profissional ou na sua empresa estão sendo servidas no claro ou no escuro? Uma ótima pergunta para a gente levar. Agradecemos demais a sua companhia nessa conversa e reforçamos o convite. Assine a coluna Decantando Ideias no Substack, alexandredesales.substack.com para não perder nada. A gente espera você na próxima.