Latest / Elas na Escrita / #31 Bethania Pires Amaro e Julia Codo - entre a prosa e o conto
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- 0:01Tá. É, oi, gente, oi gente, bom dia,
- 0:09boa tarde, boa noite. Hoje eu estou aqui com 2 autoras
- 0:12incríveis. Toda vez eu começo falando isso,
- 0:13mas é porque realmente eu eu convido autores que eu gosto
- 0:16muito. Estou aqui com a Julia codo e a
- 0:18Bethânia pires, Amaro, e a gente vai falar um pouquinho sobre
- 0:21tudo. Vocês sabem que a gente começa a
- 0:23falar de escrita, mas hoje a gente vai.
- 0:24Partir de um ponto entre contos e romances que a gente tem aqui,
- 0:272 autoras que são muito boas no conto e no romance.
- 0:30Olha que não é todo mundo que consegue fazer isso.
- 0:32Sejam bem vindas, meninas, e eu vou apresentar um pouquinho
- 0:36delas para vocês, para vocês conhecerem, né?
- 0:37Acho que dispensa Apresentações, mas a gente conhece um pouquinho
- 0:40melhor. É a Bethânia.
- 0:42Ela nasceu em Recife, em 1988, mas foi criada na Bahia, Ilhéus,
- 0:45em Salvador. Seu primeiro livro, o ninho,
- 0:49publicado pela editora Record, foi vencedor na categoria de
- 0:52contos do prêmio Sesc APCAE Jabuti.
- 0:55Ela reside atualmente em São Paulo, onde trabalha na
- 0:57Secretaria municipal de educação.
- 1:00E aqui do lado dela, a gente tem a Julia codo, que ela é editora,
- 1:03escritora, roteirista e tradutora.
- 1:05Em 2019, foi uma das selecionadas para antologia leia
- 1:08mulheres, da editora Jandaíra. Ela é autora do volume de contos
- 1:12você não vai dizer nada, publicado pela nós em 2021, e do
- 1:15romance caderno de ossos, publicado agora nesse ano, né?
- 1:19Em 2025, pela companhia das letras.
- 1:22Então, sejam bem vindas, Júlio Bethânia.
- 1:24Obrigada, estou feliz de ter vocês aqui.
- 1:27Obrigada Isabela. Boa noite a todos.
- 1:30Um prazer estar aqui com a Júlia contigo.
- 1:32Para conversar de literatura, conversar de narrativas curtas,
- 1:36de romance também. Exato.
- 1:39E eu acho, o que eu acho mais bacana é justamente vocês
- 1:41conseguirem transitar entre esses esses 2 gêneros, esses 2
- 1:44estilos de escrita, que é muito diferente.
- 1:46Eu mesma, confesso para vocês que eu já tentei escrever
- 1:49contos, não sei se isso já aconteceu com vocês.
- 1:51O meu livro mesmo mais recente, que é de romance, baixo Paraíso,
- 1:54eu comecei falando que eu IA escrever um livro de contos.
- 1:56Aí quando eu vi, eu tava escrevendo é sobre a mesma
- 1:59personagem de todos os contos. E eu falei, gente, na verdade eu
- 2:01tô escrevendo romance e não. Livro de contos e aí eu não sei,
- 2:04eu acho que eu não consigo escrever contos, eu embalo no
- 2:06meu personagem, sabe? Eu me agarro ali, então acho que
- 2:10pra gente até começar, eu queria entender como que começou um
- 2:13pouco. A gente sempre vai com essa
- 2:15pergunta, a escrita pra vocês, talvez quando vocês se
- 2:17descobriram e se entenderam como escritoras e como que foi pra
- 2:22vocês entrarem nesse gênero do conto, como que vocês começaram,
- 2:25se foi uma escolha é intuitiva assim, ou se foi uma escolha
- 2:30certa, Ah, vou escrever o conto, ou se aconteceu.
- 2:32Conta um pouquinho para mim, desse início para vocês?
- 2:37É, então é primeiro gente, muito prazer estar aqui, Isabela e
- 2:42Betânia e todos os ouvintes. É, então eu comecei, é eu
- 2:48sempre, eu sempre gostei de já no colégio, assim adolescente e
- 2:52tal, eu já escrevia contos, tá? Teve um momento da minha vida
- 2:55que eu é mais parei de escrever, eu dei uma canção meio.
- 3:01Aquele período da universidade assim, você começa a ter
- 3:04contato. Deu uma assustada assim, mas eu
- 3:07gostava, já gostava muito de escrever crônicas e contos,
- 3:10então eu me arriscava mais nesses gêneros mais curtos, né?
- 3:15Eu acho curioso assim, porque tem gente que existe um pouco
- 3:20uma ideia de que o conto é mais fácil, né?
- 3:22Então, Ah, porque todo mundo, as pessoas normalmente começam com
- 3:26o conto. Eu não concordo tanto, eu acho.
- 3:29Existe um pouco mesmo assim, né? Existe.
- 3:30Que eu não acho que o autor, ele começa com um conto, depois vai
- 3:34para o romance. E foi o que eu fiz.
- 3:35Na verdade, é um aquecimento também, é um aquecimento.
- 3:38Eu comecei com um conto, eu fui por romance, mas eu não acho
- 3:41necessariamente o conto um gênero mais fácil, eu acho.
- 3:44Que depende da pessoa, inclusive, né?
- 3:46Você mesma falou que teve mais dificuldade de de escrever
- 3:49conto. Eu IA fazendo oficinas assim, eu
- 3:52vi muita gente que não conseguia muito escrever o conto, não
- 3:55conseguia fazer uma história, porque o conto ele condensa
- 3:58todos os elementos narrativos, né?
- 4:01Isso é uma coisa interessante para você trabalhar também a
- 4:04limitação de número de páginas, então pode sair uma coisa muito
- 4:09legal dali. É, e tem gente que tem mais
- 4:12facilidade de fazer uma história coesa, curta, com aquele limite
- 4:16de páginas. E tem gente que tem muita
- 4:18dificuldade que realmente não consegue, né?
- 4:20Começa a escrever um conto, não consegue finalizar, não
- 4:23consegue. É fazer a história, fazer
- 4:25sentido naquele com aquela limitação, né?
- 4:28De só que essa limitação pode ser muito interessante pra você
- 4:33trabalhar esses elementos condensados mesmo, né?
- 4:35EEE tem gente que. Que é boa nisso e tem gente que
- 4:40não. E você acha que é um pouco mais?
- 4:42Para mim é. Veio com você, não foi um?
- 4:44Trem foi assim, é, eu acho que Como Ele É, para mim é um gênero
- 4:49muito bom para você experimentar a linguagem, porque Como Ele É
- 4:52mais curto, você começa de um jeito.
- 4:55Eu sei mais ou menos onde eu vou terminar.
- 4:57E se der certo, deu certo, se não deu certo, eu jogo fora.
- 5:01Agora o romance fica anos com ele, né?
- 5:02Então tem essa coisa. Então eu acho que segue coisas
- 5:06muito interessantes No No conto por causa disso, justamente por
- 5:09causa do limite de páginas, é por causa da da experimentação,
- 5:14da linguagem e tal. Então para mim foi assim, eu
- 5:16comecei quando eu retomei a coisa da escrita na minha vida,
- 5:20de quero fazer isso mesmo, eu fui fazer oficina com a Noemi
- 5:24jafe. E então a gente praticava muito
- 5:28conto lá, né? Então acaba sendo 11 gênero de
- 5:33entrada para muita gente, né? Apesar de algumas pessoas não se
- 5:36adaptarem a esse gênero, tem gente que não vai bem no conto.
- 5:39E aí quando vai no romance, a pessoa consegue desenvolver
- 5:42melhor, porque ela tem mais espaço, mais tempo para
- 5:44desenvolver a ideia e para ela aquilo funciona melhor.
- 5:48E para e outras pessoas vão bem no conto e mas eu eu gosto de
- 5:52narrativa, então eu gosto dos 2. Então você tá experimentando os
- 5:562, né? Mas assim, pra mim foi mais
- 5:58fácil começar no conto, porque eu já escrevi há um tempo e aí
- 6:01eu treinei muito gênero, conto e quando você publica, eu pelo
- 6:06menos eu não publiquei todos os meus textos, os meus primeiros
- 6:08eu não publiquei, né? Eu publiquei depois de um tempo,
- 6:10eu já tinha, já vinha de um tempo escrevendo contos e.
- 6:16Terminei é quando eu comecei a sentir que eu dominava mais, que
- 6:20eu comecei a pensar no livro, cortei várias histórias que eu
- 6:24tinha pensado numa primeira versão.
- 6:25Depois é tentei trabalhar uma unidade no livro também.
- 6:30EE aí começou desse jeito assim, porque eu já tinha alguns pontos
- 6:35prontos. Aí depois comecei a pensar num
- 6:37livro e foi assim, aí é já. Aí lancei o livro e comecei,
- 6:43agora eu vou. Então já mais ou menos domínio
- 6:47isso daqui. Eu queria me aventurar numa
- 6:49coisa nova, mas eu sou muito da narrativa mesmo.
- 6:52Então eu fui para o romance porque acho que poesia eu até
- 6:55escrevi uma outra, mas eu acho que eu não nossa poesia.
- 6:58Eu chego lá, sabe? Eu não tenho coragem, é, então
- 7:01eu falo assim, vou tentar um romance, vamos ver se eu
- 7:04consigo. E aí o romance foi muito difícil
- 7:07para mim, porque eu tava muito habituada com o conto e o e o
- 7:11meu modo de escrita, que é meu caótico.
- 7:13Então eu escrevo, escrevo, escrevo, escrevo, termino.
- 7:17Aí tem que pegar outro trabalho, aí me desorganizo, eu não tenho
- 7:20aquela. Organizaçãozinha.
- 7:22Metódica de escrever todo dia. Então, para mim isso foi muito
- 7:26difícil no romance. Primeiro que eu tava escrevendo
- 7:28uma coisa que eu nunca tinha escrito.
- 7:30Eu já tinha escrito muitos contos antes de lançar meu livro
- 7:32de contos. E segundo.
- 7:35Por esse jeito assim, ter um, ter cortado assim de de
- 7:39produção, que se adaptava melhor ao conto, então foi muito
- 7:43difícil. É seguir com a linha.
- 7:46Eu eu sentia que eu parava o romance, talvez eu perdia a
- 7:49linha, então eu demorei muito tempo para terminar o romance.
- 7:52Foi muito difícil, mas eu gostei do desafio assim, foi importante
- 7:58para mim, também para eu. Experimentar outra forma?
- 8:01Né, uma forma nova? E você, Bethânia, que chegou com
- 8:05livro de contos, saiu ganhando todos os prêmios possíveis e
- 8:08agora tem que isso? Gente, olha, eu comecei como
- 8:13leitora de contos, né? Já na no fim da da escola,
- 8:18quando apresentam pra gente, né? Aqueles contistas clássicos
- 8:21brasileiros. E eu me apaixonei muito pelo
- 8:24gênero. É por conta do impacto realmente
- 8:28emocional. Aquela questão de em pouco
- 8:30tempo, você tem uma experiência muito poderosa, né?
- 8:34Essa própria questão do nocaute, do conto, que não
- 8:36necessariamente vai ser uma surpresa, mas que é sempre algo
- 8:40que vai ali te chacoalhar um pouco, né?
- 8:43Vai te fazer aquele aquela sensação assim de.
- 8:46De de que você foi envolvido numa trama que, embora curta,
- 8:50ela completa então. Os contistas, né, que eu vinha
- 8:54lendo e que eu admirava todos eles me davam experiências muito
- 8:58incríveis, né? Em pouco tempo, em pouco espaço,
- 9:01isso era algo que que me agradava muito, né?
- 9:04E ao longo da da minha vida universitária, eu sou do
- 9:07direito, né? Mas eu sempre é.
- 9:10Escrevi contos junto com também narrativas infantis.
- 9:13Espero conseguir voltar a isso mais para frente.
- 9:16Narrativas infantojuvenis é que também é é 11.
- 9:20Enfim, um gênero que eu amo de paixão, né?
- 9:24Mas sempre escrevendo contos e participava desses concursos de
- 9:28contos para tentar assim ver o que que era, sabe?
- 9:32Em termos de o que é assim, participar de uma antologia, tem
- 9:36um livro que tem um trabalho seu e será será algo que para mim
- 9:40era muito difícil de visualizar a época.
- 9:44É lá em Salvador, né? Isso é algo que eu falo sempre,
- 9:47não havia nas livrarias, quando a gente entrava nas livrarias,
- 9:49trabalhos de escritores contemporâneos brasileiros, com
- 9:52exceção de Lygia EE, do Veríssimo.
- 9:55Então eu não conhecia escritores, é, não era algo que
- 9:58para mim parece que parecesse possível, parecia algo de é, é.
- 10:03Talentosos assim é de outro. Mundo, né?
- 10:07Eu pensei nisso assim, é, eu senti isso Na Na universidade
- 10:13assim que eu fiz letras para mim.
- 10:14Isso me distanciou da verdade. Exato.
- 10:17Então, por muito tempo eu não achei que era uma possibilidade
- 10:20escrever um livro. Eu escrever um livro, né?
- 10:23E enfim, depois de várias antologias com contos,
- 10:27participando dessas premiações em antologias.
- 10:30Durante a pandemia que eu resolvi realmente me dedicar
- 10:32mais à escrita, profissionalizar mais a minha escrita de ficção,
- 10:36né? E aí entrei em uma série de
- 10:37cursos, oficinas, aí que surgiu é o projeto do livro.
- 10:41Então os contos na verdade são um gênero que para mim assim é,
- 10:47eu sou. Eu sou realmente muito
- 10:49apaixonada por esse gênero. Existe muito esse preconceito,
- 10:52né, de que não há espaço para o conto.
- 10:55Ou que as pessoas são menos interessadas no conto?
- 10:58Embora eu acho que isso é discutível, porque como as
- 11:01pessoas só são apresentadas a romances o tempo inteiro, o
- 11:04destaque é sempre para os romances, né?
- 11:07Muitas vezes não chega realmente a crônica tem pouco espaço,
- 11:10conto tem pouco espaço, a poesia tem pouco espaço.
- 11:13AA poesia até realmente ela tem 11 gênero que tem ali os seus é
- 11:18apaixonados, digamos. Mas não se compara com grande
- 11:22gênero, né? Em termos de mercado, que é o
- 11:25romance. Então, ao meu ver, quando
- 11:28apresentado, há contos é, enfim, sólidos, né?
- 11:32Contos assim, tecnicamente bem produzidos.
- 11:35A experiência de leitura é muito boa.
- 11:38Então todas as pessoas aqui, eu apresentei bons livros de
- 11:40contos, me deram um retorno muito positivo.
- 11:43Por isso eu tenho a impressão de que realmente se fosse algo que.
- 11:46Se fosse mais discutido, mais presente em clubes de leitura,
- 11:49mais presente é na frente ali das livrarias.
- 11:52Eu acho sim, que as pessoas é se interessariam e possivelmente.
- 11:57Enfim, abrir esse seria seria possível abrir mais espaço, né?
- 12:01É, mas eu eu concordo, acho que eu vejo muito.
- 12:03A gente tem hoje o romance ali, né, naquele, naquele espaço, e
- 12:07parece que esses outros gêneros orbitando tanto que eu falei
- 12:10para vocês que, Ah, tentei escrever, conto e não e não
- 12:13consegui, não dei conta, mas, inclusive, acho que por eu não
- 12:15ser muito leitora de contos, você coloca isso antes de ser
- 12:18escritora de contos, ser uma leitora, e a gente tem isso, né?
- 12:20Quando a gente é leitora de algo, aquilo vai facilitar a
- 12:23escrita, obviamente. EE, como foi para vocês, então?
- 12:27A Júlia falou um pouquinho dessa transição para o romance.
- 12:30Como foi para você que você tem essa paixão pelo conto?
- 12:33Estava escrevendo os contos, mas você já está com romance aí para
- 12:35ser publicado. EE falou aqui que já está
- 12:37escrevendo outro, já são 2 gente, gente, como é que tem
- 12:40muitos? Projetos em curso, inclusive de
- 12:41outro livro de contos. Olha, é porque eu não pretendo
- 12:44abandonar os contos. É realmente meu gênero mais
- 12:47automático, digamos. Existem justamente pessoas para
- 12:50quem o romance é mais fácil, né? Flui mais facilmente.
- 12:54Seria de se pensar que a. É, pra algumas pessoas a escrita
- 12:57do romance é mais fácil do que pro conto, seria algo que às
- 13:00vezes gera um estranhamento, mas é muito verdade, né?
- 13:03Na minha experiência conversando enfim com com vários colegas, é
- 13:06os romancistas raiz, digamos assim, né?
- 13:10Eles já vão direto pro romance e pra eles flui muito mais fácil,
- 13:13né? Pra mim é o contrário, o conto
- 13:15flui muito mais fácil, né? É o recorte daquilo que
- 13:19exatamente o que eu quero mostrar, de como eu quero
- 13:20mostrar, é algo que vem com muito mais facilidade, tanto
- 13:24que. Quando eu esse ano, né,
- 13:26recomecei alguns projetos. Eu tava com um projeto de de
- 13:29romance, um novo projeto de romance, mas imediatamente me
- 13:33surgiu a ideia de conto e eu comecei pelo projeto do livro de
- 13:36contos, então já tenho ali uns 23 contos escritos.
- 13:39Aí parei, né? Porque se deixar é é AA feitura
- 13:44dos contos. É algo que é é muito natural
- 13:47para mim, no sentido de que eu sempre produzo, é, é.
- 13:52Com com muita frequência, embora não assim religiosamente, de ter
- 13:56uma rotina de escrita. Mas viver, né?
- 13:58A vida me me apresenta muito material que eu gostaria de
- 14:04trabalhar. É no formato de um conto.
- 14:07Acho que é um pouco como a Júlia falou então, né, que tem?
- 14:09Parece que o conto chega mais para vocês e o romance vem como
- 14:12esse espaço experimentação. Né?
- 14:17É o conto pra mim, ele é ele é realmente mais fácil.
- 14:20Quando eu tenho que escrever, eu conto, eu resolvo, mas mas é um
- 14:23é uma história, né? Pra você fazer um livro, você
- 14:26tem que fazer várias, mas eu faço mais, eu faço mais, com
- 14:30mais facilidade mesmo. Parece que eu Domino mais.
- 14:33E vocês? 2 são muito boas no conto eu IA
- 14:35até perguntar pra vocês, o que que vocês acham que?
- 14:38Não sei se a gente consegue chegar nesse que que define um
- 14:39conto pra ser bom. Assim como vocês acham que
- 14:42chegam no caminho de pô, esse conto ficou legal, porque a
- 14:45gente percebe também quando escreveu algo legal ou quando
- 14:47leu algo muito bom. O que que vocês acham que fazem
- 14:49esse conto ter esse, como você disse, essa surpresa da
- 14:52narrativa encerrada ali em pouco tempo, esse, esse espanto,
- 14:56talvez. Eu acho que com por causa do do
- 14:58limite de páginas, ele, ele. Pegam um parece que você escolhe
- 15:03um momento de muita. Você tem que escolher 11.
- 15:07Você não vai contar a vida inteira da da pessoa, né?
- 15:10Da do personagem, você não vai contar a história inteira.
- 15:12Você vai escolher um momento de muita intensidade e fechadinho
- 15:17ali. E tem aquela que você até
- 15:20comentou, né, Bethânia? Do da metáfora do cortázar, do
- 15:23do lutador de boxe, que num romance você você ganha do
- 15:28leitor por pontos. E no conto por nocaute, né?
- 15:32Então é, tem 11 tensão permanente ali.
- 15:35Uma intensidade é que você mantém nas páginas.
- 15:40E o romance? Ele tem momentos de intensidade,
- 15:42momentos que menos intensidade. Ele vai alternando, vai
- 15:46alternando, vai alternando. E o conto não é, mas é.
- 15:50E tem uma coisa também de você escolher, você não vai contar
- 15:52tudo, a pessoa vai intuir algumas coisas.
- 15:55No romance também tem isso, né? O subtexto, né, aquilo que os
- 15:59não ditos que que o leitor sente, mas não tá exatamente
- 16:02dito No No romance também tem e é, e eu acho importante, é uma
- 16:06das coisas que eu gosto muito na literatura, né?
- 16:10É, mas no conto tem mais, porque como você tem menos páginas e
- 16:14você conseguir é deixar isso. Ser subentendido, para o leitor
- 16:19é muito legal, então eu acho que que legal são as qualidades do
- 16:24conto. Eu tinha colocado até para gente
- 16:26falar disso um pouquinho mais para frente.
- 16:27Você tinha falado disso, que é não, não dito, né?
- 16:30Eu acho que está presente Na Na escrita de vocês 2 e como que
- 16:33vocês trabalham isso numa narrativa?
- 16:35O que que vai ser dito, o que vai ser mais entregue, vamos
- 16:38dizer assim, e o que que vai ficar naquele subtexto?
- 16:40Mas ao mesmo tempo, o que que vocês querem ali?
- 16:43Que o leitor entenda o que que vocês querem que o leitor
- 16:45subentenda ou também não tem essa?
- 16:47Esse esse pensamento tão prático na hora de escrever, porque
- 16:50muita gente realmente às vezes escreve, vai levar.
- 16:53Sim, mas é uma decisão difícil de de ser tomada, né?
- 16:57O quanto a gente mostra e o quanto a gente oculta.
- 17:00Porque no caso do ninho, eu passei o livro por por vários
- 17:04colegas, né? O livro passou por leitura
- 17:05crítica 2 vezes. Inclusive passou pelo Marcelino,
- 17:09né? Como a gente tava conversando
- 17:10aqui. Antes.
- 17:11Gente, quase todo podcast o Marcelino aparece, né?
- 17:13Você já sabe o Marcelino preto, figura conhecida, incrível.
- 17:17Inclusive como contista, né? É?
- 17:20Então, assim, às vezes eu notava que o retorno de alguns leitores
- 17:25era, olha, eu não percebi isso daqui pelo que está aqui.
- 17:28E de outros eram, você já disse demais aqui, não precisa dizer
- 17:31tudo isso. Não dá para cortar, porque eu já
- 17:35entendi há tempos. Isso daqui.
- 17:37Então você precisa meio que medir, exato, um equilíbrio, né?
- 17:42Daquilo que você quer que o leitor perceba.
- 17:45Logicamente, caso contrário, a experiência dele vai ser é
- 17:48inferior, né? No caso, quando o leitor
- 17:51realmente consegue captar. É as diversas camadas de
- 17:55significado, de interpretação possíveis ali, ou pelo menos
- 17:59assim uma parte delas, né? Perceber que ali algo muito
- 18:02maior do que aquilo que tá na superfície.
- 18:04Então essa percepção é muito importante pra que o leitor se
- 18:07sinta impactado ou se sinta comovido, né?
- 18:11Por um conto o que é a função, digamos assim, que é o nosso
- 18:14objetivo maior. Então só pesar essa, esse, essa
- 18:19Fronteira aí, né? Entre o que dizer e o que não
- 18:21dizer. Sempre há algo que eu faço com
- 18:23muita experimentação. E vai um pouco ali, do intuitivo
- 18:26também, né? Tem o pensamento ali presente,
- 18:28mas para encontrar o equilíbrio vai um pouco da sua intuição,
- 18:31né? Também.
- 18:31Até como leitora, acho que isso ajuda muito para você, Júlia,
- 18:35por aí. Também é difícil medir mesmo o
- 18:39que dizer, o que não dizer, porque às vezes você.
- 18:44Acha que o leitor não vai entender?
- 18:46E aí alguém lê e fala, não, isso aqui tá, você tá explicando
- 18:49demais. E aí outras vezes você eu tenho.
- 18:55Você tem que saber reler, reler, muitas vezes tentar dar um
- 19:00espaço, né, entre a escrita e a releitura, né?
- 19:04Botar um pouquinho na gaveta, esperar um pouquinho para reler.
- 19:06E aí você ler, ler com outros olhos, ler com olhos novos e
- 19:10mostrar para outras pessoas. Isso é muito importante, é
- 19:13muito. Importante porque é isso.
- 19:14Às vezes você acha que você que tá dando para entender e o
- 19:18pessoa não pega a você vê que a você mostra para 11, número ali
- 19:22de pessoas, a maioria não pega, um ou outro pega.
- 19:25Aí você fala, Hum. Precisa, a maioria não pegou.
- 19:28Precisa dar uma ajustada, precisa mostrar mais e às vezes
- 19:33é a. Fala não, isso aqui você está
- 19:36explicando porque é muito chato também, é o texto explicativo,
- 19:40você fala assim, é eu, quando eu leio e percebo que está
- 19:43explicativa, eu não gosto, então só que às vezes a gente, mesmo
- 19:46escrevendo, não percebe, né? Que a gente quer que o leitor
- 19:49entenda aquilo ali, mas já já entendeu, ele já deu para
- 19:53entender e aí é medir mesmo, é difícil, é um equilíbrio
- 19:57difícil, então é bom sempre mostrar para outras pessoas, né,
- 20:00o trabalho. De leitura, releitura,
- 20:02reescrita. Além do editor que vai ler.
- 20:05Que também vai te ajudar com isso.
- 20:07É bom sempre mostrar para mais gente também.
- 20:10Eu sempre faço isso, mas para alguns amigos que eu sei que são
- 20:12bons leitores, ou escritores, ou pessoas que não são escritoras,
- 20:16mas que são bons leitores assim. Legal é sempre lembrar que o que
- 20:19a gente pensa muito no escritor como esse trabalho sempre muito
- 20:21sozinho, né? Muito isolado em algum lugar,
- 20:24tem esse lado sozinho, mas tem esse lado do coletivo, né?
- 20:27Eu acho que tem uma fase do sozinho e tem a fase do abrir a
- 20:31porta. Que acho que eu li isso em algum
- 20:33lugar, não lembro que o livro foi, mas que falava que o
- 20:34escritor. Esse momento de escrever a
- 20:36portas fechadas, e ele tem que ter o momento de abrir e
- 20:39escrever um pouco ali, de portas abertas e pensando um pouco em
- 20:42tema, vocês 2 nos livros, tanto de contos quanto também em
- 20:45romance, a gente tá com esse romance mais recente, vocês
- 20:48trabalham com temas mais densos, complexos, não sei se vai ser
- 20:51assim todos os livros, mas é temas às vezes até um pouco
- 20:54obscuros ou mais pesados. Como vem a escolha dessa
- 20:57temática? É algo que busca vocês, por
- 21:00exemplo, alguma obsessão. Todo escritor tem uma
- 21:02obsessãozinha, uma imagem, um tema que tá ali na cabeça.
- 21:05Ou foi algo que chamou a atenção de vocês em determinado momento
- 21:08da vida? Algo que vocês queriam falar?
- 21:10Como foi a escolha desses temas dos livros de vocês?
- 21:15Olha, para mim, acabou surgindo muito organicamente.
- 21:18Eu IA escrever um livro de contos curtos de humor e quando
- 21:21eu vi, eu estava escrevendo totalmente.
- 21:27Pois é, estão lá os meus contos de humor na gaveta ainda.
- 21:30Quem sabe eles saiam algum dia, né?
- 21:34E. Que a medida justamente que eu
- 21:37IA escrevendo, eu percebia que cada vez mais esses temas
- 21:40ligados a família vinham surgindo, emergindo no texto,
- 21:44né? E aí que eu percebi que
- 21:45realmente o projeto tinha que mudar, IA ser realmente um
- 21:47projeto sobre essas vivências femininas dentro de casa.
- 21:51E acho que é Socorro que fala que o primeiro livro é o livro
- 21:54das nossas obsessões, né? Aquilo que tá mais perto ali da
- 21:56superfície. Eu acho que esses eram as
- 22:00questões. Essas eram as questões que
- 22:02realmente mais me assombravam me.
- 22:04Que causavam estranheza e que eu queria compartilhar, né?
- 22:07Com com outras pessoas. Mas estou curiosa em ouvir a
- 22:10Júlia, porque é o é um livro muito sobre silêncios, né?
- 22:15O. O.
- 22:15Romance, né? São silêncios diferentes.
- 22:20Mas é, eu acho que o livro de contos ele foi primeiro, eu fui,
- 22:24é isso. Eu tava experimentando muito.
- 22:27E aí quando eu pensei em fazer um livro.
- 22:30É, eu fui pensando no que que esses contos tinham em comum.
- 22:34Então, eles todos têm uma estranheza e eles falam de
- 22:39relações humanas. Mas tem sempre 11
- 22:42incomunicabilidade, né? 11.
- 22:47Desconforto com com com as com as relações, com com a.
- 22:55Qual a estranheza da vida? Mesmo essa frase você não vai
- 23:00dizer nada. Ela meio que se repete em em
- 23:02vários contos, não exatamente dessa forma, mas às vezes com
- 23:05algumas pequenas mudanças. E ela pode ser uma pergunta, ela
- 23:08pode ser uma afirmação. Então eu fui trabalhando um
- 23:12pouco isso. Esse desconforto um pouco com a
- 23:16vida e com as relações humanas, né?
- 23:18No nos contos, então, alguns eles já estavam prontos e meio
- 23:21que conversavam entre si, então eu juntei, outros eu fui
- 23:25escolhendo, fui escrevendo, depois mesmo pensando já num
- 23:28livro, é isso. São temas variados, mas sempre
- 23:33tem essa, essa coisinha, esse silêncio, como a essa estranheza
- 23:40e o silêncio. O incômodo com o silêncio também
- 23:43tem, mas é um tipo de silêncio diferente do do do livro, do
- 23:48romance. O romance.
- 23:51Ele surgiu um pouco. Eu já tinha tinha acabado de
- 23:54terminar o livro de contos EE aí a gente tava em 2019, governo
- 24:01assim, Bolsonaro. Então tava uma crise política
- 24:06ali que para mim tava me angustiando muito.
- 24:09Logo depois começou a pandemia. Então ele nasceu um pouco de uma
- 24:12angústia minha. É, então é ele.
- 24:18Pra mim era um era um momento que que a gente tava com é o
- 24:23silenciamento da, da de algumas questões, de algumas violências
- 24:27que aconteceram no Brasil, que a gente não elaborou o nosso
- 24:31passado não elaborado, traumático, traumas coletivos
- 24:34não elaborados. Eles estavam voltando, estavam
- 24:37ecoando ali de alguma forma. Nesse momento político?
- 24:41EE eu acho que a gente fala muito pouco sobre essas
- 24:44violências. É que a gente que o nosso país é
- 24:50promoveu, né? E que então várias violências,
- 24:54né, seja. Aí entra normalmente o silêncio,
- 24:58o massacre indígena e tudo da colonização.
- 25:01Mas aí no caso do meu livro, a ditadura militar, que era uma
- 25:05coisa que é um passado recente. Então eu falei um pouco da minha
- 25:09geração, que é uma geração que nasceu depois da ditadura, mas
- 25:12assim viveu um pouco os efeitos dela, porque é, eu acho que eu
- 25:16sou um pouco mais velha do que vocês.
- 25:18Eu nasci nos 83 ali, início dos anos 80.
- 25:22Então tinha acabado de acabar. Quer dizer, não tinha nem
- 25:25acabado, mas tá, é, quando eu era criança, tinha acabado de
- 25:28acabar a ditadura e eu sentia como uma coisa realmente não
- 25:32elaborada esse trauma que que que.
- 25:36Que as pessoas é. Teve essa decisão de seguir
- 25:38adiante, de vamos passar por cima disso.
- 25:41Vamos é pensar no futuro, não vamos olhar para o passado.
- 25:45Então é e que eu senti que foi um erro assim e que a gente
- 25:50tinha que trabalhar mais isso. Então foi um pouco essa ideia da
- 25:54de trazer isso para o livro. Então ele narra, é uma a
- 25:59narradora do livro não sou eu, é?
- 26:01Muita gente confunde um pouco. Já, já muita gente.
- 26:04Já vem me perguntar se era uma história, se era uma autoficção.
- 26:07Ah, isso sempre acontece. Se era biográfica, um amigo meu
- 26:10recentemente leu o meu livro um colega do trabalho, e aí ele
- 26:13quis te perguntar, e quantos por cento ele é verdade?
- 26:16Eu falei, não é autobiográfico ele, mas uma porcentagem.
- 26:19Eu falei, não. Não tem nada real, acho que foi
- 26:21o Vila matas que respondeu, sei lá, ele.
- 26:25Falou assim, zuando assim, meio. Sei lá, 7% 73.
- 26:29Vírgula 4% sabe, a gente não sabe, eu acho.
- 26:33Que não sei pra vocês, mas pra mim existem temáticas que de
- 26:35alguma alguma forma passam pela gente, né?
- 26:38Atravessam a gente. Então esses temas fazem parte da
- 26:41gente, da nossa vida, de alguma forma, sim, mas tudo que a
- 26:43gente, quando você escreve sobre isso, não quer dizer que ele é
- 26:46autobiográfico, é verdade. Quer dizer que você está se
- 26:48inspirando em temas que te atravessam é porque tem autores
- 26:51que trabalham com uma história mais autobiográfica, sim, mais
- 26:54autobiográfica. No meu caso, não, mas ele tem
- 26:58todo uma. É um contexto histórico e
- 27:02político que eu conto que eu fiz uma pesquisa histórica, EEE, que
- 27:06é verídico. Então, como é muito, trabalha
- 27:09com 111 determinado período real, com coisas que aconteceram
- 27:15na realidade, as pessoas acham que também a história é real,
- 27:19então a história dos personagens não é real.
- 27:21É da sua família? Não é da minha família, mas.
- 27:24Eu emprestei várias coisas pra é pra essa narradora de qualquer
- 27:28forma, porque são temas que que que que conversam muito com com
- 27:33o que eu sentia na época, mas também porque a minha família,
- 27:36Ela Foi uma família de meus pais, se conheceram do movimento
- 27:40estudantil, eles foram é, eles atuaram muito contra a ditadura.
- 27:46É, chegaram a ser detidos, meus pais, meus tios, todos assim.
- 27:50Então é EE. Era uma coisa que eu escutava
- 27:52quando era criança, das histórias dos da, da família,
- 27:56tal. Então é uma coisa que algumas
- 27:58coisas eu emprestei assim. Tem umas cenas de infância que
- 28:01mais ou menos eu lembro. No meu livro, ele aparece a
- 28:05história da vala de Perus, que é uma vala descoberta em 1990, é
- 28:08que tem mais de 1000 ossadas, entre elas algumas de que foram
- 28:13de presos políticos torturados durante a ditadura militar.
- 28:17E então eu é, eu lembro dessa história quando era criança.
- 28:22É então tem algumas coisas da, da, da protagonista, da
- 28:27narradora que conversa um pouco com a minha história, mas ela
- 28:30não. Não é a minha história, não tem
- 28:34uma história trágica como a que eu conto no livro, que é uma
- 28:36história muito trágica, né? Da da tia dela, da família dela.
- 28:41Então foi mais ou menos assim, foi mais ou menos assim que
- 28:43surgiu o tema. Foi mais de uma angústia e eu
- 28:46fui trabalhando, fui pesquisando.
- 28:47Quanto mais eu pesquisava a história da da da vala de
- 28:50perlus, eu achava ela muito importante ser contada e muito
- 28:53interessante, porque foram acontecendo milhões de coisas
- 28:56assim com essas ossadas. EE isso me ajudou no processo
- 29:01criativo também, eu inventei muita coisa.
- 29:04E que é o mais legal, né? Como diria marcilio no Freire
- 29:07banho que o escritor pode mentir.
- 29:08É que a realidade não é suficiente também é bom você às
- 29:12vezes poder também. Exato.
- 29:14Às vezes. Quando você reproduz exatamente
- 29:16a realidade, nunca ficção não funciona.
- 29:19Não, às vezes. As pessoas não acredita?
- 29:21Funciona, mas nunca vai ser a realidade é porque ela nunca.
- 29:24Vai ser a realidade, sempre vai ser um recorte.
- 29:26Né, a memória já é uma. É uma invenção da sua?
- 29:31Uma invenção? Não, né?
- 29:32Ela já é um pouco fictícia, porque é uma narrativa.
- 29:34Você criou aquela narrativa. Uma pessoa que viveu de repente,
- 29:37uma pessoa que viveu a mesma história vai contar de outra
- 29:40forma, ela. Exato.
- 29:41Mas isso da realidade é tão engraçado.
- 29:43Eu lembro de que de uma entrevista da Mariana Carrara,
- 29:45em algum lugar que ela falou que teve 11 trecho do livro dela, do
- 29:49primeiro que ela tinha colocado uma história real e que era tão
- 29:51absurdo que as pessoas ficavam nessa parte aqui.
- 29:53Ela exagerou um pouco na. Narrativa, né?
- 29:55Acho que. Acho que aqui ela perdeu a mão e
- 29:57ela falava, era a única parte. Eu acho isso tudo o que as
- 30:01pessoas acham que é que é verídico, não é?
- 30:04E quando você é, coloca uma coisa exagero aqui, a pessoa
- 30:09acha que eu inventei e não inventei.
- 30:13E você está e? Trazem muito esse tema da
- 30:15violência, né? Vocês colocar é você tava
- 30:17colocando tanto no seu romance quanto no seu livro de contos,
- 30:20como é pra vocês trabalhar com esse tema da violência ali?
- 30:22Vocês tem algum cuidado na hora de escrever?
- 30:25Pensam no que vai chegar no leitor ou não?
- 30:27E como tem sido o retorno dos leitores pra vocês?
- 30:30Acho que a gente tava até conversando um pouco sobre o que
- 30:33vocês colocam de entregar de mãos ou não.
- 30:36O entendimento dos leitores é, já aconteceu de surpreender
- 30:39muito vocês ou geralmente conversa muito com o que vocês
- 30:41realmente pensaram e escreveram ou acontecem.
- 30:44A gente fala, nossa, que interpretação maluca foi essa,
- 30:48mas ou diferente? Olha, em questão de como abordar
- 30:51a violência é para mim o que mais me marcava quando eu
- 30:56entrava em contato, né? Com com mulheres,
- 31:00principalmente, que relatavam episódios de violência.
- 31:03Era quando elas não percebiam que aquilo ali era uma
- 31:05violência. É muito frequente realmente que
- 31:09a violência esteja completamente naturalizada ali dentro daquela
- 31:13casa. E aquela mulher, ela não apenas
- 31:14não entende que ela sofreu uma violência, como em grande parte
- 31:18das vezes ela também pratica essa violência, né?
- 31:21Seja contra outras mulheres, que é o foco do livro, né?
- 31:23Violências entre mulheres é pelo menos assim.
- 31:26A grande maioria dos contos trata justamente de violências
- 31:30intergeracionais ou violências ali.
- 31:33É, é realmente femininas, digamos, e de uma mulher contra
- 31:37a outra, embora em alguns casos, logicamente, né, seja abordado
- 31:41também a violência masculina e a violência sexual.
- 31:44É, mas nessas narrativas que chegavam até mim, né?
- 31:49Eu notava muito como elas eram narradas, como algo cotidiano,
- 31:53comum, normal. Não há nada a ver aqui e vamos
- 31:57seguir adiante, né? Essa era a postura.
- 32:00Então eu notava que eu me chocava mais do que a pessoa que
- 32:03tava me contando aquilo ali, né? Então era isso que eu queria que
- 32:06o leitor experimentasse quando lesse o ninho, né?
- 32:10Personagens que bom é personagens que não tão
- 32:13conscientes é seja das violências que elas praticam,
- 32:16como também das que elas sofrem na grande maioria dos casos e
- 32:20mesmo quando elas têm consciência da violência.
- 32:23Elas muitas vezes não conseguem escapar de reproduzir essa
- 32:27violência, né? Essa dificuldade de escapar os
- 32:30padrões familiares aos quais nós somos acostumados, né?
- 32:33A forma como a gente se acostuma a pensar, a desenvolver nossos
- 32:37afetos, é a forma como a gente se expressa.
- 32:40Tudo isso é muito condicionado pelas famílias e é muito difícil
- 32:43fugir. Quando a gente vê, mesmo tendo
- 32:46consciência, às vezes vem um pensamento, a gente fala alguma
- 32:49coisa, né? Que a gente depois pensa, poxa,
- 32:52por que que eu fui fazer um comentário desse ou por que que
- 32:55eu fui pensar exatamente nesses termos, né?
- 32:58É, eu comento que, por exemplo, quando eu eu amamento, né?
- 33:01E eu tomei um remédio que eu não podia tomar, comentei com uma
- 33:04amiga, poxa, amiga, tomei esse remédio que que coisa não podia
- 33:08ter tomado. Né?
- 33:10E agora tava meio preocupada, ela, amiga, é só vomitar o
- 33:14remédio. E eu falei, como você vai que
- 33:17ela eu não, amiga, eu não vou conseguir vomitar o remédio.
- 33:20Ela, como tu não sabe vomitar, tipo assim, ainda numa idade
- 33:22dessa, não sabe vomitar. Ou seja, um provável distúrbio
- 33:26alimentar que se passou aí despercebido de pessoas muito
- 33:30próximas. É muito frequente, muito
- 33:32frequente, que pessoas na mesma casa não conheçam de é sobre
- 33:35distúrbio alimentar de outras, né?
- 33:37Então esses é é. Esse aspecto da violência era o
- 33:42que eu queria trazer no livro, né?
- 33:43Não? Aquela violência assim é tipo na
- 33:46cara do leitor, mas AA violência que passa despercebida muitas
- 33:50vezes, que passou despercebida pelos personagens, né?
- 33:53E que o leitor possivelmente iria ser chamado ali para perto
- 33:56para que ele dissesse, isso aqui é normal, né?
- 33:59É normal esse tipo de de relação é normal.
- 34:02Esse tipo de é de comportamento de padrão.
- 34:05Né? Então gerar essas provocações
- 34:07para muitas pessoas, elas podem ter lido aqui e pensado, vida
- 34:10que segue, normal, né? Enquanto para outros como né,
- 34:14como para mim aquilo ali era realmente objeto de de 11
- 34:18desconforto, né? Então eu queria trazer esse
- 34:20desconforto e essa estranheza para o livro, então foi foi mais
- 34:23ou menos por aí, é muita pesquisa também, por exemplo, a
- 34:27violência sexual. Eu lembro que a época eu estava
- 34:29discutindo o projeto com Assis Brasil.
- 34:31E ele falou, pelo amor de Deus, mais um marido abusador, não?
- 34:34É e. É isso que eu quis dizer quando
- 34:36eu digo que a realidade nem sempre se traduz bem para
- 34:38ficção, porque às vezes, por mais que seja algo chocante,
- 34:42acontece com tanta frequência que a gente não se escandaliza
- 34:46mais, né? Então seja violência urbana, né?
- 34:48O ciclista que foi assassinado é por um celular.
- 34:52Antes mesmo de pegarem o celular, já tinham atirado, o
- 34:54homem já tinha morrido, algo que a gente pensa, nossa, mas.
- 34:57Segue porque não choca mais profundamente a gente é algo que
- 35:02acontece diariamente, da mesma forma inúmeras outras
- 35:05violências, né? Então como apresentar isso de
- 35:08uma forma que é o leitor ainda se sensibilizasse, né?
- 35:11E foi isso que ele quis dizer quando ele me falou, pelo amor
- 35:14de Deus, mais um marido abusador não, né?
- 35:16Então, a partir daí eu fui estudar, é violência doméstica
- 35:20no seu sentido ali mais tradicional da violência sexual,
- 35:23é que em 90% dos casos é contra a mulher, né?
- 35:27E, enfim, vendo documentários, entrevista com psicólogos, elas
- 35:32falavam muito sobre como a pessoa que sofreu um abuso
- 35:36sexual tende a reproduzir esse comportamento de abuso ao longo
- 35:40da vida. Algo que para mim não era muito
- 35:42intuitivo, né? Porque a gente pensaria se eu
- 35:45sofri uma violência, jamais que eu iria.
- 35:48Conscientemente reproduzir essa violência, né?
- 35:51Então isso passa muito por um por uma questão que é típica da
- 35:54da da família, que é a formação de identidade, a formação da sua
- 35:57personalidade, a sua personalidade, a sua forma de
- 36:00expressar amor. Às vezes ela se forma de um modo
- 36:03tão abusivo que você não consegue evitar, né?
- 36:07Então eu pensei, é isso que eu queria abordar, né?
- 36:10Quando eu tratasse de violência sexual e.
- 36:13Só um exemplo, né? Mas para para todos os contos eu
- 36:15tentei fazer um trabalho mais ou menos nesse sentido.
- 36:17Vocês 2, vocês pesquisam então, né?
- 36:19Vocês 2 colocaram, tem essa fase da pesquisa e tudo.
- 36:22E quando você falou de histórias, você era histórias
- 36:25que você pesquisava ativamente, ouvia, buscando para o livro,
- 36:28não histórias que você ouviu em algum momento na vida e puxando
- 36:31a memória para trazer. Muitas histórias que eu
- 36:33vivenciei ou diretamente através de familiares, né, de amigas.
- 36:40Por exemplo, eu tinha uma tinha uma funcionária da minha
- 36:43faculdade que um dia que faltou. É também uma história que eu
- 36:46conto sempre. E ela chegou para a gente igual
- 36:48porque você faltou. E ela estava No No hospital
- 36:51porque é sabe como é. Meu marido me traiu com a minha
- 36:54irmã lá em casa. Sabe como é, né?
- 36:57Sabe como é? Aí eu expulsei ela.
- 37:00Briguei com ele, ele veio para cima de mim, falei para cima de
- 37:02mim, não, eu peguei uma fax, fachei ele.
- 37:05Aí ele já está no hospital, mas está tudo bem, já voltou e o
- 37:08escrito é tipo assim, já estou de volta, minha irmã já saiu, o
- 37:11relacionamento que segue e ela contou isso com muita
- 37:14naturalidade, com muita naturalidade, da mesma forma que
- 37:18amigas. Conformação universitária com
- 37:20bons empregos independentes profissionalmente, contavam que
- 37:24os namorados tiravam comida do prato dela, contava que ela
- 37:27tinha que tirar. É fazer vídeo com data para
- 37:29mostrar onde ela estava, porque senão ele não acreditava na
- 37:32foto, achava que era é de outro, outro momento.
- 37:36Ou seja, em diversas classes sociais, é diversos tipos de
- 37:41violência, são completamente naturalizados.
- 37:43A hora que ela falou, ela falou, AI, que coisa meio chata, eu
- 37:45tenho que ficar fazendo esse vídeo.
- 37:47E ela não tinha noção que era uma violência, da mesma forma
- 37:49que essa funcionária não tinha noção desse contexto de
- 37:53violência, né? Então, a maioria desses contos
- 37:55realmente veio de experiências assim, por incrível que pareça,
- 37:59quando você bota a isata a verdade, o que?
- 38:02Aconteceu e veio daí o título também, porque o ninho traz um
- 38:06pouco isso. Quando você pensa em mim, parece
- 38:08que você vai para casa, para o aconchego, mas ao mesmo tempo,
- 38:10esse espaço ambíguo. É maternidade, vai ser um livro
- 38:14fofo. E aí?
- 38:15É tudo bem, eu? Queria justamente esse
- 38:18contraste, né? Por isso eu pedi uma capa que
- 38:20fosse ali mais sombria, que contrastasse com a imagem que
- 38:24normalmente a gente faz do ninho, né?
- 38:25Eu passei por alguns títulos é acabei decidindo por esse para.
- 38:30Esse choque mesmo de de expectativas do leitor.
- 38:34Legal. E para vocês, então, o que
- 38:36transitam esses entre esses 2 espaços do conto e do romance?
- 38:39Como que é a hora de construir personagem é muito diferente ou
- 38:43para vocês é meio natural, já que você pensa muito?
- 38:45Essa narrativa curta estava muito presente para vocês e
- 38:48vocês só expandem. Como que é essa construção de
- 38:50personagem pensando nesses 2 estilos tão diferentes?
- 38:54AI olha a construção de personagem.
- 38:58Ela ocorre muito na minha cabeça.
- 39:00Eu fico um tempo mesmo para escrever o conto, que é mais
- 39:02curto. Antes de eu começar a escrever,
- 39:04eu tenho que estar. Eu tenho que ter pensado muito
- 39:07sobre essa personagem. Ela fica AA história, fica um
- 39:11tempo na minha cabeça antes de eu escrever.
- 39:13Então eu vou e eu vou fazendo algumas anotações também, eu,
- 39:17eu. Fico Bloco de Notas, celular, às
- 39:20vezes eu mesmo mando mensagem para mim mesma no WhatsApp, é, e
- 39:26aí eu fico é pensando na nessa personagem, nossa personagem por
- 39:31muito tempo é, eu meio que vou elaborando ela na minha cabeça
- 39:36isso tanto no conto quanto no romance, é agora, claro.
- 39:40Romance é uma personagem com você muito tempo, né?
- 39:43Ela fica até te apavora, ela. É meio que um fantasma, aquela
- 39:49personagem assim, se você até você terminar o romance, porque
- 39:52é muito tempo, você fala, meu Deus do céu, é preciso dar um
- 39:55destino pra essa personagem aqui, porque ela fica, ela fica
- 39:59mesmo assombrando, né? Então eu acho que tem uma a
- 40:05elaboração do no conto da personagem é, mas ela fica
- 40:09comigo ali, é por um tempo mais curto, aí eu vou lá, escrevo,
- 40:13ponto, fecha. Ela vai, aí depois eu passo para
- 40:17o próximo. Agora do romance é, tem uma
- 40:21elaboração inicial para você começar, né?
- 40:24Dar um start ali no romance, que é parecida com a do conto, eu
- 40:29acho. Para mim foi assim.
- 40:30Mas aí ela dura, né? Porque você vai aprofundar mais
- 40:34no romance, você vai mergulhar no tempo.
- 40:36Você ficou com você escrevendo seu tempo?
- 40:38Porque aí, desde 2019 eu terminei em 2.
- 40:41É que é? Teve um tempo pra publicação,
- 40:44né? Terminei 2023.
- 40:46Ah, mas é, ficou, então, mas é legal.
- 40:48A gente a gente vê que existem esses tempos diferentes, né?
- 40:51Sim. Uns 45 anos?
- 40:52Dia desses eu estava falando com o André, deu foego aqui, e aí
- 40:55ela estava trazendo isso, que tem um livro que está com ela
- 40:57uns 10 anos e até hoje. Ela e você não terminou, é?
- 41:00Eu espero para os próximos dias. Ela teve.
- 41:02Deixa mesmo sair um mês? Sim, exatamente.
- 41:05Ela episódio sim. É muito, muito maluco, né?
- 41:08Oo quanto os esses livros têm tempos diferentes, né?
- 41:11Enquanto. Alguns temas que foi muito
- 41:12rápido. É um livro difícil.
- 41:14Assim eu fui. Aí eu comecei, aí eu.
- 41:16Eu larguei, aí eu não vou escrever outro aí não.
- 41:21Larguei ele algumas vezes, aí peguei de novo, aí a história
- 41:23não me. Eu sentia que ela estava comigo
- 41:26ainda, então, de novo, a personagem estava ali me
- 41:29assombrando e eu então eu precisava terminar.
- 41:32Então foi um processo meio caótico assim, mas eu espero que
- 41:38o próximo seja uma coisa mais tranquila e mais rápida, mas
- 41:43vamos ver. Para mim também é bem caótico,
- 41:46intuitivo. Assim, eu acho que por mais que
- 41:48a gente estude técnica, narrativa, estude construção de
- 41:51personagem, é na hora de efetivamente construir o
- 41:54personagem. Para mim, não funciona fazer
- 41:56nenhum tipo de lista, ficha ou esquema ali de quem é aquela
- 42:01pessoa, né? Eu tenho que realmente
- 42:03compreender quem ela é é internamente, né?
- 42:07Saber o que que move e sentir que é alguém que eu conheço, né?
- 42:10Então é um processo muito interior.
- 42:13E que não tem muito, digamos assim, muitas regras.
- 42:17Assim, acaba que o personagem, para mim, surge primeiro a
- 42:21estranheza de alguma situação, alguma algo que me gerou uma
- 42:26estranheza, e a partir dali eu vou construir os personagens ao
- 42:28redor. Então não é algo que para mim
- 42:31surge primeiro. O personagem dificilmente vai
- 42:33surgir primeiro. O personagem, normalmente eu vou
- 42:36construir. Para que ele sirva, né?
- 42:39AA, mostrar essa fotografia, né? Esse recorte que a gente faz com
- 42:42o livro, né, de um de uma determinada vida, de um
- 42:44conflito, e que no romance, com certeza é mais desafiador, né?
- 42:48E tem sido para mim também é agora na escrita, né?
- 42:51No manuscrito do romance é permanecer tanto tempo como
- 42:56personagem, né? Acompanhar as mudanças ou não
- 42:59desse personagem, os momentos que a gente gostaria que ela
- 43:01mudasse, na verdade, né? É questionar também o quanto a
- 43:06gente realmente muda, né? Ao longo, ao longo do tempo, e o
- 43:09quanto é tão nosso que é muito difícil de é de modificar.
- 43:15E a gente muda, a escrita vai mudando junto também, né?
- 43:18Então tem. Tudo tem, sim.
- 43:20Às vezes a gente imaginou uma coisa pra personagem, a gente
- 43:24pensava uma coisa sobre ela. E é bom você estar aberto também
- 43:29pra escrita e te mostrando outros caminhos, né?
- 43:32Então, às vezes você. É, pra mim é importante eu ter
- 43:35uma imagem mais ou menos clara de quem É Ela, mas também deixar
- 43:39ela ser construída com a escrita.
- 43:42Então, às vezes ela não é essa personagem aqui.
- 43:44Ela não é assim, não ela. Ela tomou vida ali.
- 43:47Ela É Diferente. Ela Foi pra outro caminho, né?
- 43:49Às vezes acontece isso também. Uma curiosidade que eu tenho é
- 43:53se mudou algo pra vocês da escrita do primeiro livro pro
- 43:57próximo, porque, por exemplo, no primeiro vocês estavam ali no
- 43:59espaço, talvez daquele escritor onde ninguém conhece.
- 44:02Então você está escrevendo quietinha, está na sua casa,
- 44:04ninguém tem expectativa nenhuma, nada aconteceu.
- 44:07E de repente, entre 1 e outro, vieram prêmios ou vieram
- 44:11jornais? Vieram é participação em
- 44:13bate-papo, evento, feira, diálogo com muitos.
- 44:16Os leitores, como é? É a escrita.
- 44:19Depois disso tudo, metália tá até dando 11 risadinha nervosa
- 44:23aqui. Aumenta a pressão, aumenta a
- 44:25expectativa. Pra mim, eu acho que uma das um
- 44:28dos fatores que fizeram é o é o romance ser difícil também.
- 44:33Eu não sei, né, como seria sem sem começar o romance antes do
- 44:37mas foi isso assim, então tem uma tensão maior, porque bom,
- 44:41agora eu acho que. E já vão, vão olhar mais, vão
- 44:45ser mais de tem uma expectativa em cima de você e tem uma tensão
- 44:50maior sua mesmo de não decepcionar e de expectativa do
- 44:56que que vai acontecer, né? Até por passar do conto, por
- 44:59romance. Romance normalmente é mais lido,
- 45:01então dá um medo maior. Tem isso assim, sim.
- 45:05E para você, né? Você tem sentido um pouco isso?
- 45:08Para mim, algumas vezes chega a ser meio.
- 45:11Paralisador a depender, né? Então, enquanto eu estou
- 45:14escrevendo, né? Por exemplo, eu trabalho em
- 45:16alguns manuscritos. Assim, é às vezes ao mesmo
- 45:21tempo. Você consegue trabalhar em mais
- 45:23de uma história ao mesmo? Tempo se for de um conto, né?
- 45:25Às vezes eu se me vem um conto muito forte, muito pronto, eu
- 45:28sento e escrevo, conto, né? Dou uma pausa no almance o conto
- 45:31ele, eu consigo concluir ele rapidamente, né?
- 45:34Quando ele já vem assim, com todo estruturado e pronto, eu
- 45:38sei que é o momento. Eu eu sento e escrevo e meio que
- 45:42sigo, né, né, no romance, que é de fato um projeto de anos aí,
- 45:46né? Não é algo que é, é é construído
- 45:48em pouco tempo, pelo menos para mim seria inviável até até um
- 45:53livro de contos para mim demorou anos, né?
- 45:56Então um romance nem se fala e essa ideia de que justamente,
- 46:00né, as dificuldades já da transição de gênero, né, de
- 46:03transitar do gênero conto para o gênero romance.
- 46:07Então são outras técnicas narrativas.
- 46:09Outra forma de você explorar o arco do personagem é, então,
- 46:13além dessas questões, dessas mudanças todas, ainda tem com
- 46:17certeza nessa é é esse lidar com as expectativas, né?
- 46:22De de talvez que se espere que seja um livro muito próximo do
- 46:25primeiro que pareça ou que não sei.
- 46:28É, é, existe sim, 11 expectativa de que.
- 46:33Quem gostou de o ninho, né? Vá gostar do próximo livro.
- 46:36Então isso gera, sim, uma certa, digamos, responsabilidade com a
- 46:40escrita. E que as vezes é, é.
- 46:43Grava um pouco na fluidez do manuscrito, né?
- 46:47É, talvez é um pouco para aquilo que a gente tava conversando no
- 46:49comecinho antes de gravar hoje a gente já tava gravando, nem
- 46:52lembro do de você tá na hora da porta fechada, né?
- 46:55De acho que se isolar um pouquinho ali para poder não,
- 46:58talvez não se deixar afetar e pensar no nisso do público.
- 47:01Vocês já tiveram alguma leitura que surpreendeu muito assim que
- 47:04que colocou vocês no lugar de nossa?
- 47:06Porque será que a pessoa teve essa leitura ou algo algo que
- 47:09chega para vocês? Eu não sei se leitores mandam
- 47:11mensagem, se as pessoas já comentaram algo.
- 47:13Que deu uma mexida em vocês, que trouxe alguma surpresa?
- 47:17Olha, para mim, o mais surpreendente foi uma leitora
- 47:21num clube de leitura que ela realmente identificou o exato
- 47:24ponto em que eu tinha a ideia central de cada conto, de onde
- 47:27eu tinha começado a tipo assim, a inspiração para aquele conto,
- 47:31né? De onde eu comecei cada um dos
- 47:33contos. E nem sempre aquilo está no
- 47:35começo e nem sempre é óbvio, mas é uma estranheza inicial que ela
- 47:39realmente captou. Isso foi muito surpreendente.
- 47:42E também com relação a um dos meus contos, mas foi na leitura
- 47:45beta, né? Antes Lair da publicação do
- 47:47livro, já os leitores me deram uma interpretação que eu não
- 47:50tinha vislumbrado no momento, né?
- 47:52Com relação ao último conto, uma possibilidade de se interpretar
- 47:56ali, enfim, a interação que a mulher tem com o homem, né?
- 47:59E a filha dela é tá ali na praia.
- 48:02Então que aquela interação tivesse sido propositadamente,
- 48:06é. Arquitetada por esse homem de
- 48:08alguma forma, é uma leitura possível e que não tinha me
- 48:11ocorrido, né, no momento que eu escrevi.
- 48:14Então eu acho que o livro, o texto se desprende de nós, né?
- 48:18E a leitura, ela também confere significado ao livro.
- 48:21Ela acrescenta, o livro, o livro também se constrói pela leitura,
- 48:24é, então é sempre muito gratificante mesmo é conversar
- 48:28com leitores. Clubes de leitura sou umas pan
- 48:30de clubes de leitura, porque a gente sempre tem essas
- 48:32surpresas, né? É isso que ela falou mesmo, que
- 48:35é 11. Parte só é do escritor.
- 48:40Tem uma parte enorme que que fica a cargo do do, do leitor
- 48:46mesmo, e que ele vai perceber coisas que a gente que ele
- 48:49percebe. Às vezes a gente não pensou
- 48:51nisso pra escrever, mas tava lá também.
- 48:56Porque tem coisas que são inconscientes que a gente coloca
- 48:59no texto, né? E às vezes a pessoa de fora
- 49:01percebe que a gente não percebeu.
- 49:03Então tem uma parte. Eu adoro receber comentários de
- 49:06leituras, é uma coisa que realmente é uma coisa mais
- 49:11satisfatória. E acho que é muito legal hoje em
- 49:13dia a gente ter esse diálogo maior, né?
- 49:15Sim, a gente nas redes sociais consegue ter um contato mais
- 49:19próximo, né? Com os leitores que escrevem, às
- 49:20vezes, inbox e tal. E poxa, ali.
- 49:24E aí é muito gostoso, porque é isso como uma prática tão
- 49:27solitária, né? Que a gente.
- 49:30Que a gente fica no escuro ali, sem saber se aquilo vai fazer
- 49:33algum sentido pra outra pessoa além de você.
- 49:36Então é muito bom agora, 111 história, que é a mais engraçada
- 49:42de todas, mais absurda que aconteceu.
- 49:44Foi agora, com esse romance, que AA narradora do livro ela não
- 49:49tem nome, é? Ela só vai contando, tá?
- 49:53Ela vai contando um pouco. Da história da família dela e da
- 49:56história da tia chamada Eva. Mas a narradora mesmo, que é uma
- 50:00das protagonistas, junto com a tia Eva, ela não tem nome, mas é
- 50:05aí 11 moça me inscreveu que tem um canal de de de leitura.
- 50:11Tem um tem um Instagram de leitura, ela escreveu uma
- 50:15pequena resenha no Instagram. É contando a história do livro
- 50:19ela, começou Ana. É, é uma mulher que voltou ao
- 50:22Brasil, tem uma tia chamada a Eva, que não sei o que lá.
- 50:25Ela deu um. Nome?
- 50:26Ela deu um nome. Só que o mais louco é que em
- 50:29algum momento da escrita eu tinha pensado em dar um nome.
- 50:32E eu tinha pensado assim, se eu fosse dar um nome à ceana,
- 50:36porque é o nome, é. Eu queria um nome curto, igual a
- 50:41Eva, bem curtinho. Mas eu tenho uma irmã também que
- 50:44se chama Ana, e eu tenho, e ela é gêmea da outra irmã que chama
- 50:48Bia, Beatriz, e aí eu falei assim, Ah, não vou colocar o
- 50:50nome de uma das irmãs gêmeas, e é isso, e a outra, Geraldo, a
- 50:54ciumeira fora que é, eu achei interessante, ela não tem o nome
- 50:58também, eu achei, eu quero que ela não tenha nome, eu quero que
- 51:01cada leitor possa dar um nome. EEE, fica esse mistério, mas eu
- 51:06tinha pensado o primeiro, o único nome que eu pensei em dar.
- 51:10Depois eu desisti, foi Ana e eu fui depois que ela escreveu esse
- 51:13texto com Ana em vários. Lugares do texto, eu?
- 51:16Falei assim, eu devo ter deixado escapar um Ana ali.
- 51:19Eu fui lá, procurei no arquivo, não tinha Ana em nenhum lugar, e
- 51:25ela, ela tinha certeza que a narradora se chamava Ana.
- 51:29E eu falei, eu falei, nossa, você é muito louco como você,
- 51:32porque a narradora não tem nome. Como você adivinhou que era a
- 51:35Ana? Porque eu tinha pensado no nome
- 51:36Ana, ela. Meu Deus, não sei de onde eu
- 51:39tirei isso. De curiosidade, Bethânia, você
- 51:43tava falando do tempo. Quanto tempo você levou pra
- 51:45escrever o livro de contos? E o romance, você lembra?
- 51:48Tem uma ideia? 2 anos de sentar pra escrever
- 51:52assim, né? É pros 2 é?
- 51:54Sendo que o romance agora tá indo no terceiro ano, né?
- 51:57Eu comecei a escrever ele antes de.
- 51:59Vou participar até do prêmio Sesc com ninho, porque
- 52:01justamente eu pensei, tem um livro de contos.
- 52:04Ninguém vai querer publicar um livro de contos de uma autora
- 52:07que não se conhece, né? Eu eu sou de fora do mercado
- 52:10editorial, então não conhecia realmente assim o meio, como se
- 52:14fazia, quais os caminhos para publicação?
- 52:17E pensei, acho que com o romance vai ser mais fácil de uma
- 52:23editora dar uma chance, né, para ver o manuscrito.
- 52:25E aí eu comecei a escrever o romance.
- 52:29Antes mesmo de participar do prêmio Sesc, assim que eu acabei
- 52:32a segunda versão do livro de de contos, né?
- 52:36E então, desde 2000, EE 23, início de 2023, é 2023, 2024,
- 52:43agora já estamos, 2025 já tá indo aí no terceiro ano, que já
- 52:46tá em 15000000 de versões, né? Esse próximo.
- 52:49Livro, aí sei como é, e tem aquele momento que todo mundo
- 52:52começa a encontrar e falar, ih, quando vem o próximo e.
- 52:55Aí você começa a ficar. Estamos nervoso, né?
- 53:02E a gente tá ó, perto de encerrar pra gente ir pensando,
- 53:05quem que inspira vocês? Assim, quem vocês acham que
- 53:08mudou? Talvez um pouco a forma de vocês
- 53:10verem. Nossa, hoje eu tô mexendo muito
- 53:12nesse microfone, não sei o que, eu tô batendo nele toda hora.
- 53:15Quem que vocês acham que mudou um pouco a forma de vocês lerem,
- 53:18verem a literatura ou até de escrever?
- 53:21Quem que inspira vocês? Não sei se de clássicos, de
- 53:23contemporâneo. O que que vocês veem de mais
- 53:25especial também na literatura contemporânea hoje?
- 53:28Vocês que são autoras contemporâneas?
- 53:30Olha, eu leio muito a literatura contemporânea brasileira e
- 53:33Latino, Americana principalmente, então todo esse
- 53:35movimento de literatura feita por mulheres é algo que eu já
- 53:38acompanho há bastante tempo, com imensa admiração.
- 53:41E justamente é. Gratidão mesmo por terem
- 53:46começado a abrir esses caminhos, né?
- 53:48A gente sabe das dificuldades de leitura no Brasil e que por
- 53:52muito tempo só existiam homens nas prateleiras, né?
- 53:56Principalmente homens aqui do sudeste.
- 53:59Então, que a literatura hoje esteja se diversificando, esteja
- 54:03abraçando todas essas outras experiências, né?
- 54:06Essas experiências de pessoas de regiões diferentes, das mais
- 54:09diversas identificações de gênero, né?
- 54:12Com, enfim. É, é todos os tipos de de
- 54:15experiência. Realmente hoje está um pouco
- 54:18melhor do que antes, né? Nem sempre está no ideal, mas
- 54:21antes eu não encontrava nada disso, nada.
- 54:24E olha que eu sempre frequentei muito a livraria, muito, muito
- 54:26sebo, é muita biblioteca pública e era muito difícil, né?
- 54:32Então, hoje já se já se começou a abrir esse espaço, então é
- 54:36realmente todas essas mulheres, principalmente.
- 54:38Eu gosto muito de citar mulheres, porque muitas mulheres
- 54:40influenciaram no trabalho do ninho.
- 54:42Né? A Cíntia moscovich, que é uma
- 54:44contista extraordinária, com quem também eu estudei logo No
- 54:47No. Foi minha primeira oficina, né?
- 54:49O próprio Marcelino Freire, que também foi uma, enfim, uma
- 54:53grande referência sempre para mim.
- 54:55A Giovanna madaluso é a geri de Arraes, né?
- 54:59Pilar Quintana, a Maria Fernanda ampuero, a Mariana Henriques.
- 55:03Ali está gigante e. Realmente assim eu sou.
- 55:07Eu sou muito fã da literatura contemporânea, então é algo que
- 55:10eu costumo ler como regra, né? Os clássicos eu já já vinha
- 55:15antes, né? Já tinha lido muita coisa.
- 55:17O que faltou ler. Vai esperar mais um pouco?
- 55:20Não vai ser por agora, né? E pra vocês tem a também.
- 55:24É difícil isso do nome, mas você acha que tem algo que te inspira
- 55:27mais? Eu fico meio que incrível quando
- 55:29me perguntam porque eu sempre esqueço alguém, eu falo.
- 55:33De um branco total. Eu sou muita pessoa do branco,
- 55:35gente, me pergunta, o que você também é possível?
- 55:38Lembrar de? Tomar.
- 55:38Mas assim, uma pessoa que foi muito importante pra minha
- 55:41formação, pra como escritor, eu não posso é que é a noemijaf
- 55:44assim, que eu não posso deixar de citar ela, que ela mudou
- 55:47realmente a forma de eu pensar a literatura.
- 55:51Até hoje é uma grande referência pra mim.
- 55:54Eu faço até hoje. A gente tem um grupo, né, de
- 55:57escrita na escravedeira, com alguns autores já.
- 56:01E a gente continua praticando a escrita e mostrando uns pros
- 56:05outros. EEE.
- 56:07Legal que o grupo se. Manteve, se manteve.
- 56:09O grupo que começou há anos se manteve.
- 56:13E ela é uma grande referência pra mim.
- 56:15E ela me deu força mesmo. Eu acho que se não fosse ela
- 56:18falar, você tem que continuar, você tem que publicar eu num.
- 56:21Eu não teria seguido, então EE admiro muito como escritora.
- 56:28EE, aí eu também ando lendo muitas mulheres brasileiras e
- 56:33que que também é uma novidade mais dos últimos. 5, 10 anos.
- 56:38Porque eu sempre uma pessoa que li muitos homens, né?
- 56:41Uhum? Acho que então quase todas é
- 56:42entendido muito a literatura contemporânea Latino Americana,
- 56:45como AA Bethânia é. O melhor que é a literatura, é
- 56:49muito. Então isso Mariana Henriques ali
- 56:51na mero Anne, a selva mada, a Samantha juveblin e nossa Emílio
- 57:00são muitas ali. Na é.
- 57:03Isso Simone corrida. Estou e eu estou esquecendo mais
- 57:08outras milhões, mas são grandes referências para mim.
- 57:11Eu acho que é o que de que a de melhor assim produzido de
- 57:14literatura hoje em dia. Foi se uma horinha, obrigada.
- 57:20Mas antes da gente encerrar é quanto para gente, onde a gente
- 57:23encontra vocês online, Betânia, se quiser é falar do seu livro é
- 57:26o linho. E se quiser falar onde a gente
- 57:29encontra online, Julinho, resumindo seu trabalho mais
- 57:31recente, então que bem-vindo aí esse ano.
- 57:34Bem, eu estou lá no Instagram, no Bethânia pires Amaro arroba
- 57:37Bethânia pires Amaro, é o new também está disponível em todas
- 57:40as livrarias, é, adoro quando me contatam no Instagram ou enfim,
- 57:46é por qualquer modo para comentar sobre o livro.
- 57:48Então vai ser sempre um prazer ouvir todos os leitores, né, que
- 57:51se sintam aí, é comovidos o suficiente, né, para para
- 57:56estender a mão. É algo que eu sempre faço com os
- 57:58livros. Eu eu tinha mandado uma mensagem
- 58:00para Júlia, como leitora da Júlia, antes de escrever.
- 58:04O livro então, todos os livros que realmente me comovem muito.
- 58:07Eu costumo entrar em contato com o autor ou autor e dizer que eu
- 58:10tive uma experiência positiva, porque eu acho que é, somos
- 58:14poucos leitores, né? Temos que ser mais, temos que
- 58:16ser mais, mas a gente mesmo se alimenta, né?
- 58:19Então é algo que eu costumo fazer como leitora e adoro agora
- 58:23receber como escritora. Então olha aí, fica a.
- 58:24Dica gente, também gente, é meu Instagram é Júlia, ponto codo.
- 58:29É também. Meus livros estão aí disponíveis
- 58:33nas livrarias, é tanto físicas quanto online, é ou nas no site
- 58:39das editoras tem, é, você não vai dizer nada na editora nossa
- 58:43e caderno de ossos na companhia das letras.
- 58:46E também adoro receber é comentários de leitura.
- 58:50Pode me escrever inbox sempre. Amo.
- 58:52É isso. Muito, muito feliz de estar aqui
- 58:55com vocês, né? Feliz também.
- 58:57Obrigada pelo papo. Olha como passa rapidinho, né?
- 58:59A gente sempre acha que que mora muito, mas rapidinho já foi,
- 59:02gente, obrigada. Então pra quem seguiu com a
- 59:04gente até aqui, obrigada Júlio, obrigada Betânia, por
- 59:07participarem delas na escrita. Eu adorei, obrigada, tchau,
- 59:10tchau, gente.