Latest / Na Mesa com Well / Discipulado | Ep. 2: O Falso Conforto da Graça Barata
Transcript
- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o el hoje vamos fazer uma reflexão
- 0:03teológica profunda sobre a obra discipulado de districh bonffer,
- 0:08trazendo os alertas urgentes desse clássico para a realidade
- 0:11da igreja nos dias de hoje. É um prazer estar aqui pra essa
- 0:15nossa análise de hoje. Sabe?
- 0:17É. Imaginamos logo de partida a
- 0:18seguinte situação, alguém entra numa loja, né?
- 0:21E adquire o item mais luxuoso, o mais inestimável que existe,
- 0:26aham. Mas aí, na hora de pagar, o
- 0:28vendedor avisa que não é preciso dar absolutamente nada em troca.
- 0:32E, mais do que isso, a pessoa informada de que não precisa
- 0:36mudar absolutamente nada no próprio estilo de vida, para
- 0:39poder usufruir daquele item. Soa bom demais para ser verdade,
- 0:42né? Exato, sou impossível.
- 0:44Edith von horffer definitivamente achava que sim.
- 0:47E ele deu um nome muito, muito preciso para isso.
- 0:50Ele chamou de graça barata. É uma expressão forte, com
- 0:54certeza. Apenas revisar um clássico da
- 0:56teologia. Mas é tipo olhar no espelho
- 0:59mesmo. A gente quer entender como a
- 1:00mensagem Cristalina de Jesus tem sido diluída por essas
- 1:05estruturas. Que bom que a gente mesmo criou
- 1:08ao longo do tempo. Exatamente.
- 1:10A intenção aqui não é de forma alguma traçar um discurso
- 1:14histórico, abstrato ou meramente acadêmico, focado só lá no
- 1:18passado. Sim, até porque o problema está
- 1:20acontecendo agora, né? Pois é, o propósito central da
- 1:24nossa conversa é ouvir a voz do próprio Cristo, através da
- 1:28exegese do texto bíblico e das observações do bonniefer, e
- 1:32olha, observa se com a frequência alarmante nos nossos
- 1:36dias. Que a igreja atual, em vez de
- 1:38ser uma ponte, muitas vezes impõe umas Barreiras
- 1:41institucionais de doutrinárias muito pesadas.
- 1:44Barreiras que atrapalham mais do que ajudam.
- 1:46Sim, exato. Em vez de facilitar esse
- 1:49encontro com a palavra viva, essas mega estruturas acabam se
- 1:54colocando ali, no meio, entre Jesus e aqueles que o buscam.
- 1:57Certo, vamos desempacotar isso. Porque da preocupação com essas
- 2:02Barreiras institucionais que você citou, a gente
- 2:04inevitavelmente esbarra na Barreira mais perigosa de todas?
- 2:08Que é a distorção da própria graça.
- 2:11Isso, a distorção da graça, o material de banhoofer define a
- 2:14graça barata de uma forma muito contundente, sabe?
- 2:18Ele a descreve como o perdão barateado o consolo barateado o
- 2:22Sacramento barateado. É quase como se fosse uma
- 2:25liquidação espiritual, né? Tipo uma espécie de resto de
- 2:29estoque espiritual mesmo, a graça acaba transformada num
- 2:32mero princípio intelectual, uma doutrina onde a fatura AA fatura
- 2:36já está paga antecipadamente, permitindo que a pessoa
- 2:39permaneça ali confortavelmente no seu pecado.
- 2:41O que é um absurdo teológico. Total e a grande questão é.
- 2:46Como essa graça barata é fabricada hoje, porque, bom, não
- 2:50é algo acidental, certo? Parece haver um mecanismo nas
- 2:54igrejas contemporâneas que ativamente produz esse tipo de
- 2:58graça. É um ponto crucial.
- 3:00O que é fascinante aqui é que esse mecanismo moderno de
- 3:04fabricação dessa graça barata. Nasce de uma ansiedade
- 3:08institucional por relevância cultural.
- 3:11Relevância e vão ser francos por números.
- 3:14Né? Exato.
- 3:15Por números. Por manter a máquina
- 3:17funcionando. Como se mantém as cadeiras
- 3:19cheias e toda essa estrutura eclesiástica girando?
- 3:23Bom, abaixa se o custo de entrada.
- 3:26Faz todo o sentido uma lei de mercado básica.
- 3:29A pressão para manter a adesão alta faz com que a liderança
- 3:32remova a exigência do arrependimento profundo.
- 3:35Então o que a gente vê hoje é uma mercantilização absurda da
- 3:40graça. Onde o evangelho vira produto?
- 3:42Perfeito, o evangelho passa a ser centrado quase
- 3:45exclusivamente num conforto terapêutico e na prosperidade
- 3:49pessoal. Transforma se o perdão de
- 3:51pecados num produto de consumo. É quase como sabe como assinar
- 3:55um serviço de streaming voltado para exercícios físicos?
- 3:59Como assim? A pessoa vai lá, paga a
- 4:01mensalidade, que seria o dízimo no caso.
- 4:04Baixa o aplicativo no celular e, de repente, ganha o rótulo de
- 4:07alguém que cuida da saúde. Mas nunca pisa numa esteira.
- 4:10Nunca pisa numa esteira nem derrama uma única gota de suor.
- 4:14Há um conforto imenso em pertencer ao clube sem a
- 4:17necessidade real de mudar os próprios hábitos.
- 4:20E olhando para a crítica do buy off, isso se espelha de forma
- 4:23muito assustadora na igreja da época dele.
- 4:26Que tentava ser culturalmente relevante a qualquer custo, né?
- 4:29Pois é uma igreja que oferecia um batismo sem disciplina.
- 4:33E uma comunhão sem nenhuma confissão, feal de pecados.
- 4:36E o que é fascinante aqui é a distinção cirúrgica que o autor
- 4:40faz entre a justificação do pecado e a justificação do
- 4:44pecador. Ah, essa distinção é vital,
- 4:46explica um pouco mais. Olha só, a graça barata
- 4:50justifica o pecado? Ela funciona como uma licença,
- 4:53tipo quase que validada em cartório pela própria
- 4:57instituição religiosa. Para impiedade continuar.
- 5:00É como se dissesse, olha, está tudo bem, Deus entende, não
- 5:03precisa mudar. Exato.
- 5:05Ela resolve tudo lá na esfera teórica, para que o mundo
- 5:09continue sendo exatamente o que é.
- 5:11E o indivíduo não precise sofrer aquele atrito, sabe?
- 5:14De ter que mudar de vida na prática.
- 5:16E qual seria o contraponto a isso?
- 5:18Em oposição absoluta a isso, temos o que bone of chama de
- 5:22graça preciosa. Essa é aquele Tesouro oculto no
- 5:25campo, a Pérola de grande valor pela qual alguém vai lá e vende
- 5:29absolutamente. Tudo.
- 5:36O que tem? Não tem como ser barato pra
- 5:43gente aquilo que custou tudo pra Deus.
- 5:45Nenhuma chance. Não pode ser algo barato pra
- 5:48humanidade, aquilo que custou o preço máximo para o próprio
- 5:51Deus. Contudo, ela é maravilhosa.
- 5:54Ela é graça justamente porque, justifica o pecador, ela perdoa
- 5:58a pessoa, mas ao mesmo tempo a chama inexoravelmente pro
- 6:03verdadeiro discipulado de Jesus Cristo.
- 6:05Ou seja, não há separação entre ser perdoado e ser chamado a
- 6:09seguir os passos de Jesus. Exatamente o perdão e o chamado
- 6:13são simultâneos. Ué, e essa rejeição visceral da
- 6:17graça barata nos conduz diretamente.
- 6:19Ao que a graça preciosa exige de fato, ali no chão de fábrica da
- 6:23vida cristã? No dia a dia mesmo.
- 6:25Sim, porque existe uma união indissolúvel entre a fé e a
- 6:30obediência. A frase central que ecoa na obra
- 6:33inteira e que nossa é um verdadeiro soco no estômago.
- 6:37É aquela só, o que crê é obediente e só o obediente é que
- 6:42crê. É de uma profundidade incrível.
- 6:45Demais. E o autor alerta veementemente
- 6:49sobre o perigo de tentar separar essas 2 coisas de forma
- 6:52cronológica, sabe? Como se fosse possível a ter fé
- 6:56hoje e deixar a obediência lá para um futuro distante.
- 6:59Como? Uma opção premium, né?
- 7:01E que você destrava depois. Isso tipo um pacote cristão vip,
- 7:06e aqui o texto levanta essa necessidade urgente de resgatar
- 7:10a ortofraxia. Uma palavra que às vezes assusta
- 7:14as pessoas. Né?
- 7:14Sim, assusta. Mas só para esclarecer esse
- 7:17termo técnico, a ortopraxia basicamente significa que não
- 7:22basta a gente ter apenas a doutrina correta na cabeça que
- 7:25seria a ortodoxia aham preciso ter a prática correta na vida
- 7:29real, certo? O fazer precisa,
- 7:32obrigatoriamente, se alinhar ao saber.
- 7:35Perfeitamente, a ortopraxia não é um bônus para cristãos assim
- 7:39super dedicados. Ela é o único modo de existência
- 7:43possível do discípulo. A mortificação do pecado lá no
- 7:47secreto não é uma sugestão de estilo de vida para melhorar a
- 7:50autoimagem? Não é autoajuda.
- 7:52Longe disso, e o texto demonstra isso através da exegese dos
- 7:56chamados daqueles primeiros discípulos, se a gente olhar
- 8:00para Levi lá na coletoria de impostos, ou para Pedro com as
- 8:05suas redes de pesca. O chamado de Jesus exige uma
- 8:09obediência imediata, um rompimento físico e prático com
- 8:13a vida antiga. Eles largam tudo na mesma hora.
- 8:17Sim, e essa ação de deixar tudo pra trás é o que,
- 8:20paradoxalmente, vai criar a situação em que a fé é possível.
- 8:24Nossa, é como tentar aprender a nadar, além do manual técnico
- 8:28sentado ali na beira da piscina. Uma ótima analogia.
- 8:31Porque, por mais que a teoria faça todo o sentido ali na
- 8:35mente. Não dá para descobrir se a água
- 8:38realmente sustenta o corpo até que aconteça o Salto.
- 8:41Exato, precisa entrar na água? Se o Pedro não tivesse saído
- 8:45daquele barco no meio da tempestade, ele IA ter esse lá,
- 8:48uma ótima teologia sobre barcos, mas ele nunca teria
- 8:52experimentado o milagre de andar sobre as águas, ou melhor, de
- 8:55ter fé em Cristo no meio do caos.
- 8:57Essa é uma ilustração muito precisa, porque a situação em
- 9:01que a fé se torna possível. Hum, ela nunca é fabricada por
- 9:06um esforço intelectual de tentar acreditar com mais força, sabe?
- 9:10Forçando a mente, né? Isso ela é criada de fato pelo
- 9:14passo prático de obediência, e o texto de boni estabelece um
- 9:18contraste brutal entre essa obediência simples e direta de
- 9:22Pedro e a atitude do jovem rico. E do intérprete da lei também,
- 9:26né? Sim, de ambos.
- 9:28Porque ambos tentaram fugir da obediência simples, criando uns
- 9:33dilemas éticos supercomplexos. Aquele famoso veja bem.
- 9:37Exato, o veja bem, o jovem rico queria discutir todos os
- 9:41pormenores da teologia da salvação com um bom mestre, mas,
- 9:46na verdade, o que ele estava buscando era uma interpretação,
- 9:49uma brecha hermenêutica. Para não ter que mexer no bolso.
- 9:53Exatamente uma brecha que permitisse a ele manter todos os
- 9:56seus bens intactos. E ainda sair dali se sentindo
- 10:00justificado. Mas Cristo corta toda essa
- 10:03abstração com uma exigência de ação concreta.
- 10:07Vai, vende tudo o que tens. A verdadeira fé não foge para o
- 10:10debate teológico, só para eventar obedecer.
- 10:12Nunca a fé age. E a gente faz muito isso hoje em
- 10:15dia, a gente costuma tratar esses imperativos diretos de
- 10:18Cristo. Como esse vende tudo.
- 10:21Da mesma maneira que a gente trata aquela página de termos e
- 10:23condições de um site. Nossa verdade.
- 10:26A gente só rola a tela o mais rápido possível e clica lá no
- 10:30aceito no final, sem a menor intenção de ler com calma ou de
- 10:34cumprir qualquer daquelas regras na vida real, mas aqui é onde a
- 10:40coisa fica realmente interessante.
- 10:42Vamos lá? E confesso que isso me gera até
- 10:45uma certa confusão. Então me ajuda a entender uma
- 10:48coisa, claro, se a gente focar. Tanto nessa exigência absurda de
- 10:53obediência de que nós precisamos dar esse passo e agir sempre.
- 10:58A gente não tá jogando pela janela tudo o que a reforma
- 11:00protestante, tudo o que Martinho Lutero nos ensinou sobre a
- 11:04salvação ser exclusivamente pela fé e não por.
- 11:08Obras. Como que toda essa exigência de
- 11:14ação não se transforma, no fim das contas, em um novo
- 11:17legalismo? Olha, se conectarmos isso, um
- 11:19Panorama maior, a própria história e a trajetória do
- 11:23Martinho Lutero esclarecem perfeitamente esse aparente
- 11:26paradoxo. Não se trata, de forma alguma,
- 11:30de voltar para o legalismo. Certo.
- 11:33Pense no seguinte. Deus levou lutero, inicialmente,
- 11:36para os rigores do mosteiro. Certo?
- 11:38Certo. Mas o que o mosteiro havia se
- 11:40tornado naquela época? Ele tinha se transformado numa
- 11:44rota de auto afirmação espiritual, uma espécie de arena
- 11:48olímpica, onde os Santos ficavam competindo para ver quem
- 11:51conseguia acumular mais méritos. Mais jejum, mais flagelos, uma
- 11:56verdadeira fábrica de justificação por obras.
- 11:59Exatamente. E o desespero do lutero veio
- 12:02justamente quando ele percebeu que todos os esforços e castigos
- 12:06que ele se impunha eram inúteis diante da santidade.
- 12:12Deus nunca, mesmo levando a vida mais piedosa possível lá dentro
- 12:17daquelas paredes. E foi exatamente nesse posto de
- 12:20insuficiência que a graça finalmente o alcançou.
- 12:24A grande chave aqui é que o lutero não deixou as paredes do
- 12:28mosteiro para poder. É pecar livremente lá no mundo
- 12:32secular, sabe? Celebrando que Ah, agora a graça
- 12:35cobre tudo está liberado. Pelo contrário, para lutero, a
- 12:39compreensão da verdadeira graça foi um chamado irresistível.
- 12:43Ao discipulado no meio do mundo, ele foi, na verdade, devolvido à
- 12:47sociedade civil para lutar ali, corpo a corpo, contra o pecado
- 12:52cotidiano. E não fugir dele num quarto
- 12:55isolado. Isso.
- 12:56A justificação do pecador empurrou ele de volta ao mundo,
- 13:00não porque o mundo fosse inofensivo agora, mas porque a
- 13:03obediência absoluta, o mandamento de Jesus, deveria
- 13:06agora ser a regra. Viva lá, na família, no trabalho
- 13:09e na praça pública. E.
- 13:11Isso muda toda a perspetiva do que a.
- 13:13Graça e banhofe era aponta o dedo bem na raiz do problema
- 13:16protestante moderno. Ele diz que o erro fatal dos
- 13:20herdeiros de lutero. Foi transformar o resultado
- 13:23final da vida. Que era o Descanso na graça.
- 13:26Isso, transformar esse Descanso numa premissa lógica para ficar
- 13:30calculando e justificando o próprio pecado diário usando a
- 13:34graça com uma desculpa esfarrapada para dispensar
- 13:37obediência de todo dia? É uma distorção perversa demais.
- 13:41O que era um motor para buscar a santidade no mundo lá para o
- 13:45lutero virou um sofá macio para nossa complacência hoje.
- 13:50E essa obediência radical, quando é vivida no cotidiano
- 13:53mesmo, ela acaba provocando um choque inevitável com o sistema
- 13:58ao nosso redor. Inevitável porque é impossível
- 14:01viver dessa forma e não colidir com o mundo.
- 14:04E é bem aí que entra a teologia da Cruz.
- 14:06No material, o texto faz muita questão de esclarecer que a Cruz
- 14:10não é uma tragédia cotidiana qualquer.
- 14:13As pessoas confundem muito isso, né?
- 14:15Demais. Às vezes a gente escuta o
- 14:17pessoal confundindo a Cruz com aqueles perrengues normais do
- 14:20dia a dia, Ah, alguém fura o pneu do carro, pega uma virose
- 14:24chata e já diz, nossa, essa é a minha Cruz?
- 14:27Pois é. Mas o autor é enfático a dizer
- 14:30que isso é apenas o sofrimento inerente à vida humana natural,
- 14:34a verdadeira Cruz envolve um sofrimento e uma rejeição que
- 14:37são muito específicos, causados única e exclusivamente pelo
- 14:42nosso compromisso de estar em comunhão com Jesus Cristo.
- 14:45Exato. A rejeição é o elemento central.
- 14:48Aí é a própria engrenagem do sofrimento da Cruz.
- 14:51Morrer na Cruz significa sofrer esse estigma de ser um
- 14:54rejeitado, um proscrito entre as outras pessoas, simplesmente por
- 14:58causa da lealdade ao evangelho. E não por ser alguém
- 15:01desagradável, né? Não, não por ser fiel.
- 15:04E a maior resistência a esse conceito, incrivelmente não vem
- 15:07do mundo ateu circular. Vem de dentro da própria
- 15:10estrutura religiosa. Sério.
- 15:12Sim, a gente vê isso lá. No círculo íntimo de Jesus,
- 15:16aquele episódio em que Pedro tenta repreender Jesus no
- 15:20capítulo 8 do evangelho de Marcos, revela uma atuação
- 15:23escancarada do adversário de Deus, operando de dentro da
- 15:27própria comunidade de fé. Tentando livrar a fé da
- 15:33necessidade do sofrimento, o Pedro tinha acabado de confessar
- 15:37que Jesus era o Cristo. Mas lá na cabeça dele, um
- 15:40Messias jamais poderia ser um cara sofredor ou derrotado aos
- 15:44olhos humanos. Queria a.
- 15:47Coroa, mas sem a Cruz e aquela resposta duríssima de Jesus, o
- 15:52famoso a ré da Satanás? Nossa, é muito forte.
- 15:56É um Farol de advertência para qualquer igreja contemporânea,
- 15:59uma igreja que viciada em aplausos, em pragmatismo, em
- 16:03entretenimento ali de palco. Tenta forjar um caminho de
- 16:07crescimento e de Glória que desvia completamente de qualquer
- 16:11tipo de sofrimento. O verdadeiro discipolado não
- 16:14assina nenhum contrato prometendo facilidades, né?
- 16:18Nenhum ele submete o crente à lei fundamental de Cristo, que é
- 16:22exatamente a Cruz. E para não perdermos o rigor,
- 16:25exegético dessa nossa reflexão. Tem uma observação no texto que
- 16:29me chamou muita, muita atenção sobre como nós lidamos com os
- 16:33mandamentos bíblicos hoje em dia.
- 16:35Qual parte? Lá no passado, os primeiros
- 16:37discípulos ficaram maravilhados e bom, até apavorados ao verem a
- 16:42determinação de Jesus subindo aquele caminho para Jerusalém,
- 16:45indo direto em direção à morte. Eles estavam espantados com o
- 16:49Cristo indo para Cruz. Mas hoje parece que a igreja
- 16:52contemporânea entra em pânico, não diante do caminho de Jesus
- 16:56para Cruz. Mas, diante das ordens literais
- 16:59dele, o vem de tudo ou o dar a outra face nos incomodam
- 17:04profundamente. O que a gente vê na prática é
- 17:07uma verdadeira ginástica hermenêutica.
- 17:09Nossa, com certeza. Um esforço colossal nos púlpitos
- 17:13para reinterpretar esses imperativos absolutos.
- 17:17A gente tenta transformar ordens práticas físicas em meras
- 17:22disposições mentais. A gente diz, Ah, não é que
- 17:25precisa dar a outra face de verdade?
- 17:28É só uma atitude interior ali de não guardar mágoa do irmão.
- 17:31A gente espiritualiza o mandamento para não ter que
- 17:34cumprir, né? Exatamente.
- 17:36Nós espiritualizamos o texto para esvazia lo da ação física.
- 17:40E por que a gente faz isso? Simplesmente para evitar o custo
- 17:44público, a vergonha e aquela ruptura externa que a obediência
- 17:48visível com certeza causaria. Nós queremos muito conforto
- 17:52daquele perdão interno. Mas abominamos a ideia de romper
- 17:55de verdade com os padrões da nossa cultura atual.
- 17:58E essa ânsia por reinterpretação transforma a simplicidade da
- 18:03obediência na mais pura desobediência.
- 18:06A Cruz exige morte real, não apenas uma metáfora poética
- 18:09bonitinha. O venha e morra não é força de
- 18:12expressão. Não é a morte da nossa velha
- 18:15natureza nas águas do batismo, é o que nos insere, de fato, na
- 18:19comunhão desse perdão. E quando o texto aprofunda o
- 18:23conceito do bode expiatório, a gente entende que o discípulo
- 18:26não está apenas sofrendo suas próprias perdas.
- 18:30Ali, sozinho, ele é chamado a tomar sobre si o fardo do irmão.
- 18:35E isso é pesado demais. Muito pesado.
- 18:38E veja, carregar o fardo não significa apenas ter selar
- 18:41paciência com temperamento difícil daquele colega do lado.
- 18:45Não é só aturar alguém chato. Não.
- 18:47Significa, num sentido infinitamente mais profundo,
- 18:51suportar os pecados do mundo, absorvendo a ofensa e liberando
- 18:56o perdão através do poder da Cruz de Cristo.
- 18:58A única forma de um cristão suportar o pecado alheio sem ser
- 19:02destruído ali por dentro pelo ressentimento é através do
- 19:05perdão ativo. E isso prova que o discipulado
- 19:08custa, de fato, a própria vida. A gente morre pro nosso ego, né?
- 19:11Exato. O cristão carrega esse fardo
- 19:15terrível, mantendo os olhos completamente fixos na comunhão
- 19:19com Cristo, pois foi ele quem suportou a verdadeira Cruz de
- 19:23forma substitutiva, por nós primeiro.
- 19:25Então, o que tudo isso significa para nós enquanto comunidade de
- 19:28fé? Porque, veja bem, esse indivíduo
- 19:31que carrega a sua Cruz, ele não é deixado abandonado e isolado
- 19:35no mundo, vagando sozinho. Não, de forma alguma.
- 19:37Ele é arrancado da velha vida dele, sim.
- 19:41O chamado de Jesus separa o indivíduo, tornando o só perante
- 19:45o mediador, rompendo aquelas lealdades terrenas que se
- 19:48colocavam acima de Deus, mas no mesmo instante que ele é isolado
- 19:53desse mundo, ele é enxertado na comunhão visível da igreja.
- 19:56A nova família, né? Isso o texto até lembra que
- 19:59recebemos 100 vezes mais irmãos, irmãs e mães acompanhados, é
- 20:05claro, de perseguições. Sempre tem esse detalhe que a
- 20:08gente gosta de esquecer. Pois é.
- 20:10As perseguições vem no pacote. E aí que chegamos ao sermão do
- 20:14Monte, onde essa igreja visível é descrita como O Sal da Terra e
- 20:18a luz do mundo, aquela famosa cidade edificada sobre o Monte
- 20:22que não pode ser escondida de jeito nenhum.
- 20:25O meu grande questionamento, diante de tudo que a gente viu
- 20:28sobre esse estado de comodismo da igreja atual, é, como nós
- 20:31podemos ser essa cidade edificada sobre o Monte de forma
- 20:35visível e impactante? Mas sem escorregar para aquela
- 20:38exibição vaidosa dos fariseus. Ou pior pra essas estratégias de
- 20:43marketing corporativo que tentam vender a imagem de uma igreja
- 20:46super perfeita. Isso levanta uma questão
- 20:49importante, especialmente quando a gente se depara com um dos
- 20:52maiores paradoxos bíblicos ali exposto nos capítulos 5 e 6 de
- 20:56Mateus. Qual paradoxo?
- 20:58Jesus diz para gente que a nossa justiça deve brilhar diante dos
- 21:02homens, para que vejam as nossas boas obras, certo?
- 21:04Certo, Mateus 5? Mas.
- 21:06Pouquíssimas frases depois, ele adverte que a nossa mão esquerda
- 21:11não deve saber o que A direita faz para que a nossa justiça não
- 21:15seja praticada com o fim de ser vista pelos outros.
- 21:19Verdade. Como reconciliar essa
- 21:21visibilidade absoluta? Com essa invisibilidade quase
- 21:25intencional. O material do boné esclarece
- 21:28isso de uma forma magistral. Olha só o que brilha para o
- 21:31mundo ver. Não são as virtudes éticas, as
- 21:34qualidades Morais ou a suposta superioridade humana dos
- 21:38discípulos. O que brilha intensamente é a
- 21:41Cruz. A isso muda tudo.
- 21:43Muda completamente. A verdadeira igreja não se torna
- 21:47visível por causa das suas campanhas publicitárias ou dos
- 21:49seus eventos enormes. Mas em sua pobreza de espírito,
- 21:53na sua estranheza perante o mundo e, principalmente, em sua
- 21:56Mansidão diante do ódio e em sua capacidade de promover a paz
- 22:00enquanto suporta rejeição. Ou seja, a santidade verdadeira
- 22:05destrói o sectarismo egoísta. Ela não constrói aqueles muros
- 22:09para criar umas bolhas eclesiais autorreferentes onde a gente
- 22:13fica lá dentro batendo Palmas uns para os outros pela nossa
- 22:16própria Piedade. Perfeito.
- 22:18O que se torna visível não é o crente apontando para sua
- 22:22própria retidão, querendo parecer o bom moço, é o próprio
- 22:26Cristo tomando forma concreta e visível ali no meio da
- 22:30congregação. Através da vida daquelas
- 22:32pessoas. Isso isso acontece através do
- 22:34sacrifício mútuo, da disciplina silenciosa e da obediência
- 22:39simples no dia a dia, desse modo, a olharem para a igreja.
- 22:43As pessoas não glorificam a genialidade institucional dos
- 22:47cristãos ou do pastor, elas glorificam apenas o pai que está
- 22:51nos céus. E a essência dessa justiça de
- 22:53que excede a dos escribas e fariseus?
- 22:56O que o novo testamento chama ali de perisquião, né?
- 22:59Aquele algo a mais, aquele excedente extraordinário da vida
- 23:02cristã, tudo isso encontra sua expressão máxima no amor
- 23:05incondicional, inimigo. O extraordinário, no fim das
- 23:09contas, não é fazer um culto mais elaborado, com mais luzes e
- 23:12fumaça. O extraordinário está na Cruz e
- 23:15suportar o mal sem qualquer desejo de retaliação.
- 23:18É o verdadeiro discipulado em ação e é o que mais falta hoje
- 23:22em dia. Sem dúvida, caminhando agora
- 23:25para o encerramento da nossa análise de hoje, eu quero deixar
- 23:28uma última provocação, ela é fundamentada no embate cortante
- 23:32de Jesus com aquele intérprete da lei, bem na introdução da
- 23:35parábola do bom samaritano. Lembra do que a gente conversou
- 23:38mais cedo sobre as pessoas tentarem discutir teologia só
- 23:41para fugir da ação? Claro, jovem rico, né?
- 23:44Pois é, o intérprete ali de Lucas 10, querendo se justificar
- 23:49e, claro, se esquivar da responsabilidade imediata, ele
- 23:53levanta uma daquelas questões filosóficas super profundas.
- 23:57Mas, afinal, quem é o meu próximo?
- 23:59E sejamos francos, a igreja frequentemente repete essa
- 24:02mesmíssima pergunta, só que sobre disfarces modernos.
- 24:06Fazemos seminários inteiros sobre isso.
- 24:09Exato. Nós promovemos debates
- 24:11infindáveis sobre quem merece a nossa ajuda, quem está dentro
- 24:15dos limites da nossa responsabilidade teológica,
- 24:18apenas para justificar nossa própria inércia.
- 24:21A gente faz isso para evitar o custo financeiro, emocional e
- 24:25social que o amor prático exige. Mas a resposta de Jesus, na
- 24:29parábola, no entanto, aniquila completamente esse conflito
- 24:33ético vazio. A verdadeira questão cristã
- 24:36nunca é definir categoricamente o objeto do nosso amor.
- 24:40Para ver quem passa na peneira de quem merece ser o próximo, a
- 24:43questão é agir. A ordem é sair do nosso conforto
- 24:46e ser o próximo de quem tá ali, caído, quebrado, à beira do
- 24:50caminho. A fé não vive nesse Reino
- 24:52abstrato das ideias. Ela só se consolida na ação
- 24:55concreta, suada e inadiável da obediência.
- 24:59O cristianismo sem o discipulado é sempre um cristianismo sem
- 25:02Cristo, como o próprio Boeing of nos adverte com tanta beleza e
- 25:06firmeza nas páginas desta obra. Quando Cristo chama um homem,
- 25:10ele o convida a vir e morrer, abandonemos a ilusão da graça
- 25:13barata e voltemos ao caminho Estreito da obediência, sabendo
- 25:17que perder a própria vida por amor a Jesus é, na verdade, um
- 25:21único meio de encontrá la para eternidade.