Latest / Na Mesa com Well / Doutrina ou Usos e Costumes | Ep. 3: O Silêncio de Frida
Transcript
- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o well, o lugar para quem busca a
- 0:03profundidade de forma acessível na correria do dia a dia.
- 0:07Hoje vamos para o nosso novo dossiê.
- 0:10Doutrina ou use costumes entre a fé e a forma.
- 0:14É muito bom estar aqui para mais essa análise, que, olha, promete
- 0:17ser densa hoje. Com certeza e a nossa missão,
- 0:21com essa análise aprofundada das Fontes.
- 0:23É justamente lançar um olhar com muito rigor, analítico,
- 0:28sobriedade e muita coragem, sabe sobre as sombras institucionais
- 0:33do passado da assembleia de Deus?
- 0:35Exato, porque a gente precisa olhar para a história Como Ela É
- 0:38uhum. O nosso foco hoje vai ser o
- 0:40papel fundamental e muitas vezes sufocado das mulheres lá na
- 0:45Aurora do pentecostalismo brasileiro.
- 0:48E como isso acabou culminando na ascensão de estruturas
- 0:51patriarcais de controle tipo bem rígidas?
- 0:54Sim, é uma virada histórica impressionante quando você
- 0:58analisa os documentos sociológicos.
- 0:59Nossa sim, mas antes da gente avançar, eu queria te pedir pra
- 1:03definir 2 conceitos essenciais do nosso glossário.
- 1:06Hoje, pra quem tá ouvindo a gente não ficar perdido.
- 1:09Claro, manda bala. O primeiro termo é o
- 1:11protagonismo feminino primitivo. O que as Fontes dizem sobre
- 1:16isso? Então esse termo descreve aquela
- 1:18participação extremamente expressiva de mulheres lá no
- 1:22início do movimento. A gente tá falando de liderança,
- 1:25de fundação, de igrejas, de traduções.
- 1:27Muito antes daquela institucionalização pesada, né?
- 1:30Exatamente, o movimento pentecostal validou a sua maior
- 1:34experiência espiritual no Brasil, no corpo de uma mulher,
- 1:37a primeiríssima pessoa, a ser batizada com o Espírito Santo
- 1:40por aqui. A Celina de Albuquerque.
- 1:42Ah, uau, foi uma mulher? Sim, lá no comecinho.
- 1:45Isso mostra que a autoridade inicial estava muito mais ligada
- 1:48ao carisma e à experiência espiritual do que um cargo
- 1:51formal. Tá, e aí a gente entra no
- 1:53segundo conceito que bate de frente com isso, que é o
- 1:57patriarcado eclesial estrutural. Isso e assim não é só sobre ter
- 2:02homens na liderança uhum é um modelo de governança
- 2:05centralizado exclusivamente neles.
- 2:08Que passou a normatizar não apenas a liturgia dos cultos,
- 2:11mas passou a vigiar minuciosamente os corpos
- 2:16femininos. As vestes, o comportamento,
- 2:19tudo, né? Tudo a instituição passou a
- 2:22ditar a subordinação social da mulher através dessa estrutura.
- 2:25Caramba. E bom para sair da teoria e ir
- 2:28para a vida real. A gente tem que falar da figura
- 2:30monumental da Frida vingri. Ah, Frida.
- 2:34A trajetória dela é basicamente um microcosmo de tudo isso que a
- 2:38gente tá falando, sim. Ela era tipo brilhante, ela não
- 2:41era só a esposa do pastor gunnar wing, né?
- 2:43De forma alguma. Ela chegou ao Brasil em 1917 e,
- 2:46cara, ela tinha uma bagagem teológica intelectual enorme.
- 2:49Ela era uma compositora fenomenal.
- 2:53Quem cantar pra cristão hoje em dia está cantando muita coisa
- 2:57dela, não é? Muito traduções, composições
- 3:00originais e mais, ela era editora.
- 3:04Ela liderava jornais como boa semente e, mais tarde, o som
- 3:08alegre, lá no Rio de Janeiro. Uhum, ela construiu toda
- 3:12identidade de comunicação deles. E não parava por aí, quando o
- 3:16guner não tava, ela assumia a direção dos cultos
- 3:19tranquilamente. Nossa, imagina o choque que isso
- 3:21causava na época? Demais e ela IA pra rua, sabe?
- 3:25Os relatos mostram a ferida pregando em praças públicas.
- 3:29No meio da rua? Sim, no meio de praças cheias,
- 3:32debatando teologia. E o detalhe, o próprio gunner
- 3:36vinger defendia isso com unhas e dentes.
- 3:39Ele sempre lembrava que ele mesmo tinha sido salvo por uma
- 3:42mulher Evangelista, lá na Suécia.
- 3:44Pra Ele, o Espírito Santo capacitava quem quisesse.
- 3:48Certo, vamos desempacotar isso. Porque, fazendo uma analogia, a
- 3:52Frida foi como aquela cofundadora brilhante de uma
- 3:55startup, sabe uhum? Ótima analogia.
- 3:59Ela ajuda a construir todo o Império, cuida do marketing,
- 4:03atrai o público, escreve o código fonte, que são os hinos.
- 4:07Só que de repente, a empresa cresce, vira uma corporação
- 4:10engessada e o conselho de diretores decide simplesmente
- 4:15apagá la da história. Né, o apagamento foi brutal.
- 4:19E tudo começou com um incômodo visceral que essa autonomia
- 4:23intelectual dela gerou. Principalmente naquela ala mais
- 4:26conservadora, né? Exato.
- 4:29Os pastores do norte e do nordeste do Brasil estavam
- 4:31emergindo numa sociedade extremamente patriarcal.
- 4:35Viu uma mulher estrangeira ditando doutrina, publicando
- 4:38textos, tendo autonomia teológica.
- 4:41Era um choque absoluto para. Eles eles Liam isso como
- 4:44insubmissão. Totalmente.
- 4:46O clima ficou tão pesado, as tensões chegaram a um nível tão
- 4:49alto que o gunar e a Frida foram forçados a se mudar para o Rio
- 4:53de Janeiro em 1924 para tentar amenizar as coisas.
- 4:56E o. Fim dela é super trágico.
- 5:00É de cortar o coração, porque depois que o gunar morre, ela
- 5:03volta pra Suécia. A liderança masculina no Brasil
- 5:06barra o retorno dela. Os líderes suecos também não
- 5:10apoiam e ela acaba sendo internada compulsoriamente num
- 5:13hospital psiquiátrico. Meu Deus, rejeitada por todo
- 5:17mundo que ela ajudou a erguer. Sim, ela morre lá, isolada, com
- 5:20a sua voz completamente silenciada.
- 5:22Então, o que isso tudo significa?
- 5:25Porque, pensando bem, como é que esse incômodo tão pessoal da
- 5:29liderança com uma mulher específica afrida se transformou
- 5:33numa regra estrutural, sabe, para vigiar todas as outras
- 5:37mulheres da igreja? É porque a eliminação de espaço
- 5:40da ferida foi tipo o laboratório, foi o teste.
- 5:43Ah, entendi. Entre os anos 30 e 50, a
- 5:46denominação sofreu uma guinada sociológica gigantesca, aquele
- 5:51movimento original, que era super dinâmico, contra cultural
- 5:54e dava voz aos marginalizados, começou a mudar.
- 5:57A crescer e a burocratizar. Isso em 1930.
- 6:00A gente tem a fundação da convenção geral ACGADBE.
- 6:02Com isso, a liderança masculina se cristalizou.
- 6:09Ocorreu uma clicalização forte. E aquele cuidado pastoral, que
- 6:13antes era puro acolhimento, virou o quê?
- 6:16Uma ferramenta de vigilância? Exatamente.
- 6:19Virou um mecanismo disciplinar de vigilância focado na mulher.
- 6:24Os chamados usos e costumes viraram um.
- 6:27Biopoder biopoder tipo um controle sobre a vida e o corpo.
- 6:32Isso mesmo. Passaram a ditar a estética, o
- 6:35corte de cabelo, as vestimentas, tudo para garantir a
- 6:39subordinação social dessas mulheres.
- 6:41Mais um. Deixa eu te jogar.
- 6:44Uma provocação que as Fontes levantam, manda.
- 6:46Será que esse controle estético implacável foi só uma reação de
- 6:50medo, um pânico moral por causa da revolução industrial e
- 6:54daquelas modas dos anos loucos das mulheres entrando no mercado
- 6:58de trabalho na década de 20? Hum.
- 7:01Ou foi uma ferramenta deliberada de dominação simbólica para
- 7:05garantir que o poder ficasse restrito aos homens?
- 7:08Olha, as Fontes apontam fortemente para dominação
- 7:11simbólica. Claro que o pânico moral com
- 7:14mundanismo secular existiu, serviu de desculpa, mas a
- 7:17aplicação das regras focava quase exclusivamente no corpo
- 7:21feminino. É assimetria gigante, né?
- 7:24Os homens não sofriam a mesma pressão estética.
- 7:27Nem de longe o corpo da mulher virou território onde a
- 7:30autoridade masculina precisava ser confirmada todos os dias.
- 7:34E isso exauste a pessoa, né? Se a mulher gasta toda energia
- 7:37mental dela, preocupada. Se a Manga da blusa está curta
- 7:40demais ou se um corte de cabelo vai fazer ela perder a salvação,
- 7:44ela não tem fôlego para questionar a liderança.
- 7:47É o apagamento da agência política pelo cansaço estético.
- 7:50Perfeito. E se conectarmos isso ao cenário
- 7:52maior, a gente percebe que para manter regras comportamentais
- 7:57tão rígidas em milhares de pessoas, você precisa de
- 8:01administradores muito Fortes. Você precisa de máquinas
- 8:05institucionais? Exatamente.
- 8:07E isso nos leva à consolidação das grandes redes de poder.
- 8:11E o principal nome que surge aí é o do Paulo leivas macalão.
- 8:15Ah, o macalão, as Fontes falam muito dele.
- 8:18Sim, ele foi ordenado pelo próprio vingrem em 1930 e foi
- 8:23evangelizar os subúrbios do Rio Bangu, realengo e, claro,
- 8:27Madureira. E ele não estava só abrindo
- 8:31igrejinhas, ele estava montando uma rede de poder.
- 8:34Uma rede de poder paralela gigantesca.
- 8:37Ele fundou o Ministério de Madureira e manteve um rigor
- 8:40fortíssimo nos costumes. Essa disciplina visual criava
- 8:44uma identidade unificada e lealdade cega ao líder.
- 8:48Nossa, é muito semelhante a construção de um Império
- 8:51político. É exatamente isso, a.
- 8:53Uniformidade da base serve como um.
- 8:58Como um teste de lealdade visual para os líderes que estão lá no
- 9:01topo da hierarquia, né? Sim.
- 9:03Eles olhavam para a congregação e sabiam fisicamente quem
- 9:07obedecia a eles. E quando você cria impérios
- 9:10assim, o choque entre os generais no topo é Questão de
- 9:13Tempo. O que nos leva ao grande cisma,
- 9:16a divisão política enorme que as Fontes relatam.
- 9:19A cisão de 1987. Foi a rutura definitiva entre o
- 9:23Ministério de Madureira e a missão ligada à CGADB.
- 9:27E como foi isso? Foi uma disputa eleitoral.
- 9:30Isso o líder de Madureira, o Manuel Ferreira, perdeu a
- 9:34eleição para a presidência da CGADB para o José Wellington
- 9:37Bezerra da Costa, que liderava o Ministério do Belém.
- 9:41E o José Wellington acabou centralizando o poder ali por
- 9:43décadas, né? Exato, e depois da derrota,
- 9:46Madureira se desligou em bloco. E o mais bizarro é que essas
- 9:50redes altamente estruturadas usaram a doutrina dos usos e
- 9:54costumes como uma Barreira de separação.
- 9:56Como assim? A roupa e o comportamento não
- 9:59serviam mais só para separar o crente do mundo.
- 10:02Serviam para mostrar de que lado político a igreja estava.
- 10:07O corpo da mulher virou um outdoor de filiação partidária
- 10:10dentro da denominação. Caramba, é é muito pesado ver
- 10:14isso. Se a gente fizer uma síntese
- 10:17dessa nossa jornada de hoje, a gente sai da voz pioneira e
- 10:21livre de uma mulher brilhante como a Frida wingren e de um
- 10:25movimento que dava voz a marginalizados para terminar
- 10:28analisando a construção de impérios ministeriais colossais,
- 10:32que basearam muito do seu controle e da sua política na
- 10:36vigilância da estética feminina. É triste, mas é a realidade que
- 10:40as Fontes mostram. E a grande lição teológica aqui
- 10:43é que a verdadeira autoridade eclesial deveria servir para
- 10:47libertar e edificar. Com certeza.
- 10:50E não para oprimir, vigiar ou apagar a dignidade daquelas
- 10:53pessoas, especialmente as mulheres, que o próprio Deus
- 10:57capacitou para a obra dele. Perfeito.
- 11:00E isso me deixa com o pensamento final.
- 11:02Sabe? Uma provocação para quem está
- 11:04nos acompanhando e pensando sobre tudo isso durante a
- 11:08semana, diga. Se o movimento pentecostal
- 11:11primitivo foi revolucionário lá no início, justamente porque ele
- 11:16quebrava as hierarquias sociais rígidas da época e dava voz aos
- 11:21marginalizados, como seria um verdadeiro Avivamento hoje?
- 11:27Será? Que ele criaria novas regras de
- 11:30exclusão ou ele finalmente retornaria às raízes de quebrar
- 11:35as Barreiras e as estruturas de vigilância que nos dividem?
- 11:40Fica aí pra gente refletir. Até o próximo.
- 11:43Episódio se você curte nosso conteúdo, segue a gente e deixa
- 11:47uma avaliação aqui na plataforma em que você tá ouvindo e fala o
- 11:51que te marcou nesse episódio até mais.