Latest / Devaneios de uma Bruxa Solitária / No caldeirão da Bruxa | Ep08
Transcript
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- 0:05SPEAKER_00: Olá bruxas, sejam bem-vindos ao episódio 8 do Devaneiros de uma Bruxa Solitária.
- 0:11SPEAKER_00: Eu sou a Morgana.
- 0:13SPEAKER_00: Hoje eu quero falar-vos um bocadinho sobre um conceito
- 0:21SPEAKER_00: que de certeza
- 0:22SPEAKER_00: que já ouviram falar tem a ver com,
- 0:24SPEAKER_00: e eu intitulei este episódio de No Caldeirão da Bruxa.
- 0:31SPEAKER_00: Muito Pelo que nós vamos conversar hoje,
- 0:34SPEAKER_00: mas também porque a minha proposta aqui com o Youtube e a minha proposta com
- 0:42SPEAKER_00: as redes sociais sempre foi voltada para
- 0:50SPEAKER_00: essa mistureba que eu considero ser
- 0:55SPEAKER_00: a bruxaria.
- 0:56SPEAKER_00: Uma mistureba de conceitos,
- 0:58SPEAKER_00: uma mistureba de ingredientes que nós Vamos colocando dentro de um caldeirão para
- 1:05SPEAKER_00: que depois possa sair alguma coisa nova.
- 1:09SPEAKER_00: Então, nós estamos nos aproximar a passos bem largos do Halloween,
- 1:15SPEAKER_00: do Dia das Bruxas,
- 1:16SPEAKER_00: de Sawin, Sawin, Samain,
- 1:19SPEAKER_00: como alguns chamam também,
- 1:21SPEAKER_00: e eu achei interessante trazer este conceito aqui no nosso podcast,
- 1:28SPEAKER_00: nas nossas conversas,
- 1:30SPEAKER_00: e por isso mesmo Resolvi trazer o simbolismo do caldeirão de uma forma abrangente,
- 1:38SPEAKER_00: mas antes de chegarmos especificamente ao simbolismo do caldeirão,
- 1:43SPEAKER_00: eu quero-vos fazer pensar um bocadinho sobre o que é o caldeirão.
- 1:47SPEAKER_00: O caldeirão da bruxa que nós conhecemos hoje e nós vemos hoje em dia,
- 1:53SPEAKER_00: nada mais é do que as panelas Antigas ou nada mais são do que panelas antigas.
- 2:02SPEAKER_00: Eu não sei se existia ou se existe ainda em todas as partes do mundo,
- 2:09SPEAKER_00: da Europa e também de Portugal,
- 2:13SPEAKER_00: mas aqui na minha zona,
- 2:15SPEAKER_00: que é o norte de Portugal,
- 2:17SPEAKER_00: era muito comum ou mais usual nós utilizarmos uns caldeirões para cozinhar.
- 2:25SPEAKER_00: Sim, os caldeirões que nós utilizamos com as perninhas e que têm aquele simbolismo,
- 2:30SPEAKER_00: ou que têm aquele desenho de caldeirão, na verdade eram as panelas.
- 2:34SPEAKER_00: Não é, eram as panelas para cozinhar e para se preparar as refeições.
- 2:41SPEAKER_00: Portanto,
- 2:41SPEAKER_00: era algo comum, banal,
- 2:43SPEAKER_00: do dia-a-dia,
- 2:44SPEAKER_00: porque eram as panelas,
- 2:46SPEAKER_00: ou os tachos das panelas,
- 2:49SPEAKER_00: que se utilizavam para cozinhar e preparar as refeições do dia-a-dia.
- 2:56SPEAKER_00: Eu, portanto,
- 2:58SPEAKER_00: sendo o caldeirão um objeto banal do dia-a-dia e agora estando associado às bruxas,
- 3:06SPEAKER_00: eu acredito que tenha nascido de uma ligação entre a mulher,
- 3:12SPEAKER_00: a cozinha,
- 3:13SPEAKER_00: o conhecimento das ervas e numa altura,
- 3:16SPEAKER_00: lá está,
- 3:16SPEAKER_00: eu não posso afirmar com 100% de certeza que o caldeirão Era utilizado no momento
- 3:24SPEAKER_00: da caça às bruxas ou na época da Inquisição.
- 3:27SPEAKER_00: Mas eu posso afirmar que ainda é utilizado em algumas regiões aqui do Norte,
- 3:34SPEAKER_00: mais de interior,
- 3:36SPEAKER_00: e que ainda se utiliza os caldeirões para a preparação das refeições,
- 3:42SPEAKER_00: principalmente,
- 3:43SPEAKER_00: antigamente que as lareiras Eram integradas na cozinha e era,
- 3:49SPEAKER_00: portanto,
- 3:49SPEAKER_00: o fogão,
- 3:50SPEAKER_00: não era aquele instrumento que nós conhecemos hoje em dia,
- 3:54SPEAKER_00: ou aquele equipamento que nós conhecemos hoje em dia,
- 3:57SPEAKER_00: mas era uma lareira,
- 3:59SPEAKER_00: o fogão era uma lareira integrada na cozinha e que essa lareira chegava até ao teto,
- 4:07SPEAKER_00: portanto tinha uma chaminé que Ocupava até o teto,
- 4:13SPEAKER_00: chegava até o teto, não é aquele exaustor que nós utilizamos hoje em dia.
- 4:18SPEAKER_00: E isso servia para defumar,
- 4:20SPEAKER_00: fazer os defumos,
- 4:21SPEAKER_00: as defumações, os artigos ou os produtos de origem animal, claro, mas defumados.
- 4:29SPEAKER_00: Então, defumava-se na chaminés enquanto a lareira estava acesa.
- 4:32SPEAKER_00: E muitas vezes preparavam-se também as sopas, os caldos e comidas, principalmente no inverno.
- 4:41SPEAKER_00: Nessas fogões mais antigos, que eram as lareiras mais abertas e integradas na cozinha.
- 4:47SPEAKER_00: Então, ainda na casa dos meus avós e também na casa que pertence aos meus pais,
- 4:55SPEAKER_00: no caso à minha mãe,
- 4:57SPEAKER_00: a lareira ainda é mais aberta e não tem recuperador de calor
- 5:04SPEAKER_00: como atualmente nós temos.
- 5:07SPEAKER_00: As lareiras são pensadas principalmente na casa dos meus avós.
- 5:12SPEAKER_00: A lareira que tem na sala,
- 5:14SPEAKER_00: que existe na sala, é e foi pensada a partir do chão, ocupando até o teto.
- 5:23SPEAKER_00: Portanto, toda essa coluna, digamos assim, é ocupada até o teto.
- 5:28SPEAKER_00: E é aberta, ampla, para se colocar o caldeirão e cozinhar-se ali.
- 5:36SPEAKER_00: Então, eu acredito que esta associação do caldeirão,
- 5:41SPEAKER_00: um objeto banal do dia-a-dia,
- 5:42SPEAKER_00: de cozinhar no dia-a-dia,
- 5:45SPEAKER_00: está ou ficou associado às bruxas como nós atualmente percebemos e trabalhamos com,
- 5:52SPEAKER_00: porque também ficou associado à mulher,
- 5:56SPEAKER_00: uma vez que era maioritariamente a mulher que cozinhava.
- 6:00SPEAKER_00: Então, No meu entendimento,
- 6:03SPEAKER_00: ficou associado também à mulher que sabe que tem conhecimento das ervas,
- 6:09SPEAKER_00: porque antes de haver a medicina que nós conhecemos hoje em dia,
- 6:13SPEAKER_00: as pessoas tinham que utilizar ervas,
- 6:15SPEAKER_00: porque era a medicina que existia nessa altura.
- 6:20SPEAKER_00: Então havia e tinham muitas mulheres que sabiam e tinham muito conhecimento
- 6:24SPEAKER_00: sobre ervas e sobre as suas propriedades medicinais e utilizavam Lógico, o fogo,
- 6:32SPEAKER_00: a cozinha, o caldeirão para fazer essa transformação e essa alquimia no caldeirão.
- 6:39SPEAKER_00: Portanto,
- 6:42SPEAKER_00: também há uma história que eu não sei até que ponto é que ela é ou não verdadeira.
- 6:48SPEAKER_00: Uma vez que estava dedicado às mulheres a cozinha e a preparação da alimentação,
- 6:54SPEAKER_00: havia mulheres que Numa altura em que os maridos iam para as guerras,
- 7:01SPEAKER_00: e não estou a falar recente,
- 7:02SPEAKER_00: estou a falar de uma altura um pouquinho mais remota,
- 7:05SPEAKER_00: eu digo recente 100 anos,
- 7:07SPEAKER_00: mas ainda é recente,
- 7:09SPEAKER_00: pode parecer que não,
- 7:09SPEAKER_00: mas ainda é recente,
- 7:11SPEAKER_00: mas eu estou-me a referir a uma altura ainda mais remota do que isso,
- 7:15SPEAKER_00: em que as mulheres ficavam na casa e os maridos iam para as guerras.
- 7:23SPEAKER_00: E muitas vezes elas não sabiam dos paradeiros,
- 7:26SPEAKER_00: ou melhor, do paradeiro dos maridos por muito, muito, muito tempo, meses e até anos.
- 7:32SPEAKER_00: Então houve ali uma altura em que as mulheres,
- 7:35SPEAKER_00: uma vez que não tinham o meio do sustento da casa,
- 7:38SPEAKER_00: porque nós ainda estamos a falar de uma altura patriarcal,
- 7:41SPEAKER_00: elas tiveram que se desenrascar e começaram a produzir algo que hoje
- 7:47SPEAKER_00: em dia é tão banal e está nas prateleiras de qualquer supermercado, que é a cerveja.
- 7:54SPEAKER_00: Então há uma versão que associa o caldeirão da bruxa,
- 8:00SPEAKER_00: ou o facto de estar associada a mulher, a bruxa, ao caldeirão da bruxa, não é?
- 8:05SPEAKER_00: Ao caldeirão.
- 8:07SPEAKER_00: Há uma versão que nos diz que vem deste lugar em que a mulher começa a produzir
- 8:15SPEAKER_00: em grandes quantidades cerveja porque foi o seu meio de sustento numa altura em que
- 8:20SPEAKER_00: os seus maridos iam para as guerras E não voltavam,
- 8:25SPEAKER_00: elas não sabiam se iriam voltar porque passavam-se meses e anos sem
- 8:30SPEAKER_00: que elas tivessem novidades deles.
- 8:34SPEAKER_00: Portanto,
- 8:36SPEAKER_00: ficou então conhecido e associado à mulher conhecedora das plantas
- 8:41SPEAKER_00: como forma medicinal.
- 8:46SPEAKER_00: E nós estamos aqui,
- 8:48SPEAKER_00: eu quero sempre focar e relembrar, A época em que estamos a conversar, não
- 8:54SPEAKER_00: A época que nós estamos nos a referir.
- 8:56SPEAKER_00: Nós estamos a referir de uma época em que a mulher tinha que ser aquele.
- 9:02SPEAKER_00: Hoje em dia também, não é?
- 9:03SPEAKER_00: Nós não estamos tão longe assim, pasme-se, pasme-se, que as temáticas são exatamente as mesmas.
- 9:13SPEAKER_00: Mais modernos, com tecnologia, redes sociais, mas as temáticas são as mesmas.
- 9:21SPEAKER_00: Andamos às voltas com as mesmas temáticas há séculos.
- 9:28SPEAKER_00: Poderia dizer milénios, não é?
- 9:31SPEAKER_00: Enfim, portanto,
- 9:32SPEAKER_00: nós estamos a falar aqui numa época em que as mulheres que tinham mais conhecimento
- 9:37SPEAKER_00: de
- 9:41SPEAKER_00: Formas de ver a vida,
- 9:44SPEAKER_00: ou formas de lidar com a dor,
- 9:46SPEAKER_00: ou formas de estar na vida ligeiramente
- 9:52SPEAKER_00: diferentes de um padrão religioso,
- 9:56SPEAKER_00: porque nós estamos aqui a falar sempre da religião que incute,
- 10:00SPEAKER_00: impõe, obriga, invade, não é?
- 10:05SPEAKER_00: Que é a Inquisição.
- 10:06SPEAKER_00: Portanto, aquilo que nós conhecemos como caça às bruxas.
- 10:08SPEAKER_00: Uma mulher que soubesse algo a mais sobre ervas e que não fosse um homem,
- 10:14SPEAKER_00: poderia sim ser acusada de bruxaria.
- 10:17SPEAKER_00: Alguns homens foram acusados, certo, mas boa parte das bruxas que foram acusadas são mulheres.
- 10:25SPEAKER_00: Nós estamos a falar aqui especificamente de mulheres, obviamente.
- 10:30SPEAKER_00: O caleirão passa de um objeto cotidiano a um objeto mágico,
- 10:36SPEAKER_00: que nós utilizamos atualmente na nossa prática mágica,
- 10:41SPEAKER_00: também como símbolo, mas para as nossas ritualísticas.
- 10:46SPEAKER_00: Então é muito comum,
- 10:47SPEAKER_00: eu falo por mim,
- 10:48SPEAKER_00: enquanto uma bruxa natural, pagã,
- 10:50SPEAKER_00: solitária,
- 10:51SPEAKER_00: que também posso ser considerada eclética,
- 10:55SPEAKER_00: Eu tenho alguns caldeirões,
- 10:58SPEAKER_00: portanto não muitos, claro,
- 10:59SPEAKER_00: mas um ou outro,
- 11:01SPEAKER_00: de vários tamanhos,
- 11:04SPEAKER_00: ou melhor,
- 11:04SPEAKER_00: de tamanhos diferentes, para práticas diferentes ou para ocasiões diferentes.
- 11:10SPEAKER_00: Então eu tenho dois caldeirões pequeninos,
- 11:14SPEAKER_00: um que está veiculado ou que está consagrado à minha bomba gira,
- 11:21SPEAKER_00: Tenho um outro também pequenino que eu trouxe de uma vila que eu visitei aqui
- 11:26SPEAKER_00: no norte de Portugal e que eu encontrei este,
- 11:29SPEAKER_00: dei de caras com este caldeirão e decidi trazer.
- 11:32SPEAKER_00: O formato ligeiro é muito diferente, mas não deixa de ser um caldeirão.
- 11:35SPEAKER_00: Tenho um caldeirão que é aquele que está mais presente nos altares,
- 11:39SPEAKER_00: nos meus altares, nos meus rituais e tal e coisa, de 5 litros.
- 11:44SPEAKER_00: E tenho um outro que ainda está por recuperar, que é um caldeirão já maior, gigantesco, não é?
- 11:51SPEAKER_00: E que é mais provável que ele vá utilizar quando ele estiver,
- 11:55SPEAKER_00: claro, recuperado, porque ainda precisa de ter ali uma boa reforma, não
- 11:59SPEAKER_00: Mas é muito provável que ele vá utilizar mais em rituais fora, no exterior.
- 12:06SPEAKER_00: Porque ele, de facto, é maior e comporta também mais fogo, certo?
- 12:11SPEAKER_00: Pronto.
- 12:12SPEAKER_00: Então, o que é que eu quero dizer?
- 12:13SPEAKER_00: O caldeirão deixou de ser um objeto...
- 12:17SPEAKER_00: De cozinhar ou de preparar ou de confeccionar as nossas refeições diárias
- 12:22SPEAKER_00: do nosso cotidiano para ser um objeto mágico que nós utilizamos na bruxaria moderna.
- 12:30SPEAKER_00: Lembrando também que eu não quero que se esqueçam do seguinte.
- 12:39SPEAKER_00: Quando nós utilizamos ou quando nós hoje em dia temos determinados objetos mágicos e
- 12:44SPEAKER_00: que utilizamos na nossa prática mágica,
- 12:48SPEAKER_00: Nós muitas vezes canalizamos especificamente esse objeto
- 12:53SPEAKER_00: para aquela determinada prática mágica, para aquela coisa específica.
- 13:00SPEAKER_00: Mas nesta altura,
- 13:02SPEAKER_00: e isto acontece também com os grimórios e tal e coisa,
- 13:05SPEAKER_00: nesta altura não acredito,
- 13:08SPEAKER_00: claro eu não posso afirmar com 100% de certeza,
- 13:11SPEAKER_00: mas eu não acredito que numa altura em que qualquer coisa era motivo para se ir para
- 13:16SPEAKER_00: a fogueira,
- 13:18SPEAKER_00: Não acredito que as mulheres que de facto praticavam a bruxaria,
- 13:23SPEAKER_00: elas tinham ou fariam diferença dos seus objetos.
- 13:29SPEAKER_00: O que é que eu quero dizer?
- 13:31SPEAKER_00: Uma mulher que praticasse bruxaria era muito pouco provável ter objetos específicos
- 13:37SPEAKER_00: para praticar a bruxaria,
- 13:38SPEAKER_00: porque ela tinha que esconder o facto de ser bruxa e de praticar bruxaria.
- 13:44SPEAKER_00: Então, eu vejo dessa forma, não é?
- 13:48SPEAKER_00: Não quer dizer que isso seja verdade mais uma vez porque eu não...
- 13:54SPEAKER_00: isso é uma visão minha, uma reflexão minha.
- 13:57SPEAKER_00: Eu não li propriamente num livro de um historiador XYZ ou de um mago XYZ
- 14:03SPEAKER_00: que vem ensinar como é que uma mulher deve praticar bruxaria.
- 14:08SPEAKER_00: Mas é muito pouco provável que uma bruxa,
- 14:11SPEAKER_00: uma mulher Na altura da Inquisição,
- 14:15SPEAKER_00: de facto,
- 14:15SPEAKER_00: tivesse a oportunidade ou o privilégio de separar objetos mágicos do seu cotidiano.
- 14:24SPEAKER_00: Portanto,
- 14:25SPEAKER_00: eu acredito que para fazer a bruxaria,
- 14:27SPEAKER_00: o feitiço que ela quisesse fazer,
- 14:29SPEAKER_00: a ritualística que ela quisesse fazer,
- 14:31SPEAKER_00: ela teria que usar aquilo que ela tinha à mão.
- 14:34SPEAKER_00: E a isso nós vamos dar origem à definição ou à distinção
- 14:42SPEAKER_00: Entre o que nós chamamos, nós não, porque eu não chamo assim, de baixa magia e de alta magia.
- 14:50SPEAKER_00: A baixa magia é exatamente isto que eu estou a explicar.
- 14:53SPEAKER_00: É aquela mulher que tem que fazer o que ela tem que fazer com aquilo que ela tem à mão.
- 14:58SPEAKER_00: Enquanto que a alta magia,
- 15:01SPEAKER_00: isto também não deixa de ser um preconceito,
- 15:02SPEAKER_00: não deixa de ser aqui em misoginia, sei lá se se pode considerar misoginia.
- 15:10SPEAKER_00: A alta magia é normalmente associada às ritualísticas cerimoniais que eram
- 15:18SPEAKER_00: na altura praticadas dentro das sociedades secretas por homens brancos ricos.
- 15:27SPEAKER_00: Portanto,
- 15:29SPEAKER_00: a mulher,
- 15:29SPEAKER_00: reparem,
- 15:30SPEAKER_00: a mulher não podia praticar bruxaria porque ela era Considerada bruxa
- 15:35SPEAKER_00: e atirada à fogueira, ou,
- 15:37SPEAKER_00: como muitas vezes foram mulheres que não foram propriamente atiradas à fogueira,
- 15:42SPEAKER_00: mas foram atiradas ao mar, à água,
- 15:45SPEAKER_00: se elas se salvassem,
- 15:46SPEAKER_00: eram bruxas, se elas morressem, afogadas, estavam inocentes, não é?
- 15:53SPEAKER_00: Enfim, mas as mulheres não poderiam praticar a bruxaria e os homens,
- 15:58SPEAKER_00: determinados homens de uma elite social, hum?
- 16:02SPEAKER_00: Que tiveram acesso aos grimórios e a livros mais eruditos podiam praticar bruxaria
- 16:11SPEAKER_00: e às vezes havia alguma coisa que poderia não ser tão bem visto pela igreja católica
- 16:19SPEAKER_00: mas que bem contornado teriam ali o perdão e poderiam continuar a fazer
- 16:25SPEAKER_00: a sua ritualística, a sua magia cerimonial.
- 16:30SPEAKER_00: Portanto,
- 16:31SPEAKER_00: Na minha perspectiva,
- 16:33SPEAKER_00: novamente,
- 16:34SPEAKER_00: isto é para refletirmos sobre,
- 16:38SPEAKER_00: o caldeirão é um símbolo,
- 16:40SPEAKER_00: mas os grimórios que nós falamos e conversamos hoje em dia,
- 16:44SPEAKER_00: que qualquer bruxa tem de ter um grimório,
- 16:46SPEAKER_00: um livro das sombras,
- 16:47SPEAKER_00: não é bem assim,
- 16:49SPEAKER_00: porque na bruxaria raiz,
- 16:51SPEAKER_00: Passava-se tudo boca a boca,
- 16:53SPEAKER_00: não necessariamente de geração em geração,
- 16:54SPEAKER_00: mas era provável que se passasse de geração em geração porque era mais fácil,
- 16:58SPEAKER_00: porque era a filha,
- 16:59SPEAKER_00: porque era a neta,
- 17:00SPEAKER_00: era mais fácil do que falar com uma vizinha ou com alguém que não se conhecia
- 17:04SPEAKER_00: de parte nenhuma.
- 17:05SPEAKER_00: No entanto,
- 17:07SPEAKER_00: não necessariamente tinha que ser de geração em geração,
- 17:10SPEAKER_00: mas era mais fácil passar de boca a boca do que,
- 17:15SPEAKER_00: terem grimórios ou terem livros onde até esse termo grimório ou livro
- 17:21SPEAKER_00: das sombras talvez seja mais recente e dentro talvez de algumas
- 17:26SPEAKER_00: de alguns círculos específicos pronto mas não eram tão usuais
- 17:33SPEAKER_00: para quem era bruxa camponesa de quem vivia do campo e tinha aquela magia mais
- 17:39SPEAKER_00: do dia a dia do cotidiano para resolver problemas do cotidiano
- 17:43SPEAKER_00: enquanto Isto foi algo que eu ouvi recentemente e fez muito sentido.
- 17:49SPEAKER_00: Vejam lá se isto não faz sentido também para vocês.
- 17:53SPEAKER_00: Quando se fala da bruxaria praticada ou da alta magia praticada,
- 17:58SPEAKER_00: da magia cerimonial praticada pelas sociedades secretas,
- 18:02SPEAKER_00: que eram compostas maritariamente por homens,
- 18:04SPEAKER_00: numa altura em que os homens tinham todos os direitos e mais alguns,
- 18:07SPEAKER_00: homens brancos,
- 18:09SPEAKER_00: todos os direitos e mais alguns e as mulheres poucos ou nenhuns,
- 18:15SPEAKER_00: Eles não tinham mais nada que fazer.
- 18:17SPEAKER_00: Portanto,
- 18:17SPEAKER_00: eram ricos,
- 18:19SPEAKER_00: já tinham todos os privilégios,
- 18:20SPEAKER_00: já podiam ter não sei quantas concubinas, já podiam ter um harém, não é?
- 18:27SPEAKER_00: Podiam fazer tudo e mais alguma coisa, só lhes faltava um divertimento.
- 18:31SPEAKER_00: Já tinham acesso a livros,
- 18:33SPEAKER_00: não precisavam de ir trabalhar para pôr comida na mesa,
- 18:36SPEAKER_00: então tinha tudo e mais alguma coisa.
- 18:38SPEAKER_00: O que é que lhes faltava?
- 18:39SPEAKER_00: Começarem a divertir-se um bocadinho com o lado de lá, com o além, certo?
- 18:44SPEAKER_00: Então, na minha visão,
- 18:47SPEAKER_00: estes homens brancos, ricos,
- 18:50SPEAKER_00: só se juntaram nas sociedades secretas e começaram
- 18:53SPEAKER_00: a fazer estas ritualísticas cerimoniais de alta magia, que se chama, não é?
- 18:57SPEAKER_00: Que chamam alguns, porque não tinham mais nada que fazer da vida.
- 19:04SPEAKER_00: E as mulheres,
- 19:05SPEAKER_00: as pobres camponesas que tinham que...
- 19:10SPEAKER_00: lavadeiras, que tinham que se levantar cedo para ir lavar a roupa à mão, não é?
- 19:15SPEAKER_00: E que depois tinham que passar a roupa,
- 19:17SPEAKER_00: tinham que engumar a roupa,
- 19:19SPEAKER_00: tinham que fazer tudo e não sei o quê,
- 19:20SPEAKER_00: tinham que ir para a casa não sei de quem, tinham que trabalhar no dia a dia.
- 19:25SPEAKER_00: Tinham que se desenrascar também com aquilo que tinham, que era o quê?
- 19:28SPEAKER_00: Olhar para a lua,
- 19:30SPEAKER_00: olhar para o sol,
- 19:31SPEAKER_00: olhar para o seu ciclo menstrual, as plantas à sua volta, o que tinham à mão, não é?
- 19:38SPEAKER_00: Para poderem manusear e trabalhar com a parte Espiritual,
- 19:45SPEAKER_00: ou seja,
- 19:46SPEAKER_00: o mundo dos mortos, sem intermediários, que é uma das características também.
- 19:50SPEAKER_00: Então, o nome baixa magia ou alta magia,
- 19:53SPEAKER_00: na verdade,
- 19:54SPEAKER_00: tem muito mais que ver com
- 20:02SPEAKER_00: este preconceito,
- 20:04SPEAKER_00: ou assumirem eu sou melhor do que tu porque eu trabalho com forças assim assado,
- 20:11SPEAKER_00: enquanto que se calhar a bruxa Eu digo bruxa raiz que é aquela bruxa que tem
- 20:16SPEAKER_00: as mãos sujas,
- 20:17SPEAKER_00: aquela bruxa que não precisa de utilizar palavras ou um grupo de palavras
- 20:24SPEAKER_00: para conter um daimon,
- 20:26SPEAKER_00: porque se calhar essa bruxa fala com o daimon,
- 20:28SPEAKER_00: nem sabe que é um daimon e é aquela força que está ali,
- 20:33SPEAKER_00: fala com ele,
- 20:33SPEAKER_00: com a autoridade, porque o que eu sempre digo, o que dá autoridade ou não a...
- 20:42SPEAKER_00: Ao Magista, não é propriamente as ferramentas que utiliza.
- 20:48SPEAKER_00: É autoridade.
- 20:49SPEAKER_00: É uma autoridade que não é dada pelas ferramentas.
- 20:54SPEAKER_00: Está bem entendendo?
- 20:55SPEAKER_00: Até nisto, até nisto, é bem diferente.
- 21:01SPEAKER_00: A Bruxa cria uma autoridade pela sua própria energia,
- 21:05SPEAKER_00: enquanto que um mago cerimonial Cria autoridade através do comando,
- 21:12SPEAKER_00: do domínio, do poder.
- 21:15SPEAKER_00: É algo a que se pensar.
- 21:17SPEAKER_00: Enfim, o caldeirão passa então de objeto cotidiano a algo mágico, um objeto mágico.
- 21:23SPEAKER_00: E a partir deste momento,
- 21:25SPEAKER_00: que atualmente também falamos,
- 21:27SPEAKER_00: de um símbolo que vai representar o útero,
- 21:31SPEAKER_00: a criação,
- 21:33SPEAKER_00: que vai representar algo onde é Criado,
- 21:37SPEAKER_00: onde está a ser criado alguma coisa onde,
- 21:40SPEAKER_00: eu falei logo no início do episódio,
- 21:43SPEAKER_00: nós pegamos em ingredientes,
- 21:46SPEAKER_00: mandamos para lá alguma coisa,
- 21:48SPEAKER_00: fazemos uma mistela e sai dali qualquer coisa comestível.
- 21:52SPEAKER_00: A cozinha é isto, é uma alquimia.
- 21:55SPEAKER_00: Quando nós, e também existe a magia na cozinha, não é?
- 22:00SPEAKER_00: Em que nós pegamos em vários ingredientes,
- 22:03SPEAKER_00: juntamos todos,
- 22:04SPEAKER_00: numa dose aqui,
- 22:05SPEAKER_00: numa dose acolá,
- 22:06SPEAKER_00: e sai alguma coisa para criar ou dar-nos a nossa energia,
- 22:13SPEAKER_00: repor a nossa energia, que é o alimento.
- 22:16SPEAKER_00: Portanto,
- 22:18SPEAKER_00: o útero representa o útero,
- 22:20SPEAKER_00: a criação, mas o caldeirão também é um recipiente e contém.
- 22:29SPEAKER_00: É também um espaço interior, ou seja, o outro também é um espaço interior e não é revelado.
- 22:40SPEAKER_00: É um espaço onde fica, guarda ali a coisa, aquilo e não é revelado.
- 22:48SPEAKER_00: Só é revelado quando se manifesta,
- 22:50SPEAKER_00: ou seja,
- 22:51SPEAKER_00: quando nós estamos,
- 22:52SPEAKER_00: pensem nas panelas,
- 22:53SPEAKER_00: nós vamos cozinhar hoje em dia e Nós só conseguimos ver o alimento
- 22:58SPEAKER_00: quando ele está cozinhado.
- 22:59SPEAKER_00: Portanto,
- 22:59SPEAKER_00: nós conseguimos ver durante a preparação,
- 23:03SPEAKER_00: vamos já falar do próximo ponto,
- 23:05SPEAKER_00: mas nós não conseguimos ver materializado aquilo que nós estávamos ali a preparar.
- 23:13SPEAKER_00: Nós conseguimos ver a preparação, mas não aquilo preparado já, materializado já.
- 23:19SPEAKER_00: E seguindo esta lógica,
- 23:23SPEAKER_00: nós falamos também De transformação,
- 23:26SPEAKER_00: ou seja,
- 23:27SPEAKER_00: o caldeirão também é um lugar de transformação,
- 23:31SPEAKER_00: porque o que entra sofre uma alteração, certo?
- 23:38SPEAKER_00: Daqui falamos da mistura,
- 23:41SPEAKER_00: ou melhor,
- 23:41SPEAKER_00: da mistela,
- 23:42SPEAKER_00: é um lugar de mistura em que os elementos,
- 23:46SPEAKER_00: os ingredientes lá colocados produzem algo novo, certo?
- 23:54SPEAKER_00: Todo este processo de transformação vai precisar de tempo, vai requerer aqui algum tempo.
- 24:00SPEAKER_00: Portanto, não acontece imediatamente.
- 24:04SPEAKER_00: Isto são alguns pontos sobre o caldeirão a refletir.
- 24:09SPEAKER_00: O caldeirão, o útero também.
- 24:11SPEAKER_00: Portanto,
- 24:12SPEAKER_00: eu quando estou aqui a falar de caldeirão,
- 24:14SPEAKER_00: eu estou a associar também ao útero,
- 24:17SPEAKER_00: ao nosso centro de criação, ao nosso centro de força, ao nosso centro de poder.
- 24:23SPEAKER_00: Então, sob esta perspectiva,
- 24:25SPEAKER_00: o caldeirão recebe ingredientes diferentes que juntos,
- 24:32SPEAKER_00: quando nós misturamos,
- 24:33SPEAKER_00: eles vão-se misturar, misturam-se todos e assim transforma-se em algo novo, certo?
- 24:40SPEAKER_00: Portanto,
- 24:42SPEAKER_00: o caldeirão e tudo aquilo que nós fazemos,
- 24:45SPEAKER_00: tudo aquilo que eu me proponho aqui a fazer neste trabalho que ainda está
- 24:51SPEAKER_00: A querer andar, a querer mostrar a engrenagem.
- 24:56SPEAKER_00: O que acontece é isto.
- 24:57SPEAKER_00: A partir do momento que quem chega até aqui,
- 25:02SPEAKER_00: se estiver disposto a ouvir e a permanecer, não vai jamais sair da mesma forma.
- 25:10SPEAKER_00: Porque pelo menos uma reflexão acerca daquilo que nos faz bruxas,
- 25:16SPEAKER_00: ou que não nos faz bruxas, vai levar.
- 25:20SPEAKER_00: Então, isto tudo que nós fazemos aqui, na verdade, é o processo, é o caldeirão.
- 25:28SPEAKER_00: Então, todos vocês estão no caldeirão da bruxa, não é?
- 25:33SPEAKER_00: Que é o meu caldeirão.
- 25:35SPEAKER_00: Onde eu vou colocando aqui alguns ingredientes,
- 25:38SPEAKER_00: vou fazendo aqui umas mistelas,
- 25:40SPEAKER_00: umas misturas, vai-se transformando pelo processo do tempo, não é?
- 25:46SPEAKER_00: Para se transformar em algo novo.
- 25:48SPEAKER_00: Então, também é do meu trabalho esse processo de fazer algo ser desconstruído,
- 26:00SPEAKER_00: deixar de existir para que algo possa existir, algo novo.
- 26:06SPEAKER_00: A desconstrução, a ruir alguma coisa para que algo novo possa ser construído a partir daqui.
- 26:15SPEAKER_00: É um processo.
- 26:18SPEAKER_00: Bom, eu vou...
- 26:20SPEAKER_00: Este foi o nosso tema de hoje, foi o nosso episódio de hoje, no Caldeirão da Bruxa.
- 26:23SPEAKER_00: Espero que ele tenha-te feito refletir alguma coisa.
- 26:26SPEAKER_00: Vou-me ficando por aqui.
- 26:27SPEAKER_00: Eu espero também ver-te no próximo episódio ou em algum outro momento.
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