Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #305 Análise de Divertida Mente, por Christian Dunker e Alexandre Coimbra Amaral
Transcript
- 0:01Olá, tudo bem? Por aqui Marcelo Abude com uma
- 0:05edição especialíssima do hashtag Hoje Pode. Hoje
- 0:10a minha dica é para você acompanhar o último episódio
- 0:14produzido pela nossa Peças Raras para o Instituto
- 0:18Claro. Nele eu converso com o
- 0:21psicanalista Christian Dunker e com o psicólogo e
- 0:24terapeuta de casais e família Alexandre Coimbra
- 0:27Amaral. O tema das entrevistas é a
- 0:31oportunidade que o filme divertidamente traz para
- 0:35adultos dialogarem sobre emoções com crianças ou
- 0:38adolescentes. Você pode ouvir o episódio que
- 0:41tem 8 minutos de duração no podcast de Cidadania do
- 0:46Instituto Claro que está disponível no site ou no
- 0:49Spotify. Aqui eu vou compartilhar os
- 0:53bastidores dessa produção e você vai ouvir a entrevista
- 0:57completa com o Christian Dunker que foi feita na
- 0:59casa do professor do Instituto de Psicologia da
- 1:02USP. Para a gravação eu conto com o
- 1:05apoio do Paulo Sene, que é o responsável pelo vídeo
- 1:09que você vai assistir caso esteja acessando esse
- 1:12podcast no YouTube, no YouTube Music ou no
- 1:16Spotify. E na sequência tem o
- 1:19Alexandre Coimbra Amaral do podcast Cartas de um
- 1:23Terapeuta que vai trazer algumas dicas para que
- 1:26adultos utilizem a animação para conversar sobre
- 1:29assuntos complexos de forma simples com crianças e
- 1:33adolescentes. Então vamos lá começando com
- 1:37Christian Dunker. Eu sou Christian Dunker, sou
- 1:41psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da
- 1:44USP. Eu mantenho um programa de
- 1:48YouTube e sou palmenense praticante. Muito
- 1:53bem, vamos falar um pouquinho sobre filmes. Qual
- 1:56que você acha que a importância dos filmes serem
- 1:58utilizados para tratar de assuntos delicados com o
- 2:02público com assuntos difíceis? Utilizar
- 2:04filmes para de repente abrir diálogos que são mais
- 2:07difíceis se não tiverem esses filmes? Qual
- 2:10a importância deles? Ó, essa é uma importância
- 2:12estratégica muito grande e quando você consegue variar
- 2:16o nível, a qualidade e a forma da linguagem pela
- 2:22qual você aborda assuntos sensíveis. Morte,
- 2:25sexualidade, conflitos, angústias. Uma
- 2:28parte do problema psíquico que a gente enfrenta diante
- 2:32de um trauma, diante de um obstáculo maior é porque
- 2:36ele começa a se congelar, o evento psíquico começa a
- 2:40se congelar em torno da linguagem na qual ele foi
- 2:43imediatamente vivido e descrito. Então,
- 2:46em regra, os tratamentos apelam para esse tipo de
- 2:50redescrição ou de mudança de patamar de linguagem ou
- 2:53de discurso, passando, por exemplo, da apreensão verbal
- 2:57e discursiva de um evento para uma apreensão por
- 2:59imagens, uma apreensão pela voz, uma apreensão pela
- 3:03mudança da posição da câmera. O
- 3:06cinema enquanto, no fundo, uma fusão de diferentes
- 3:11linguagens. Você tem a dramaturgia, você tem
- 3:14a música, você tem a literatura, você tem a
- 3:19própria pintura, o cenografia. Ele
- 3:23é excelente justamente porque permite essa
- 3:26hierarquização, mudança de patamar de linguagem e, ao
- 3:35mesmo tempo, uma espécie de convergência entre esses
- 3:39níveis de signos diferentes, o que favorece muito para
- 3:45a função que a gente diria assim, formativa das
- 3:49narrativas para a nossa subjetividade. Nós
- 3:52aprendemos a amar, nós aprendemos a sofrer, nós
- 3:54aprendemos a externalizar e dar destino aos nossos
- 3:58afetos, a partir de narrativas estão aí
- 4:01disponíveis na cultura. Entrando
- 4:02um pouquinho nos filmes especificamente do
- 4:05Divertidamente, um e o dois, a forma como eles
- 4:09abordam temas mais sensíveis, mais difíceis,
- 4:13com leveza pela animação. Você
- 4:16acredita que especificamente esses filmes do
- 4:19Divertidamente eles têm uma função importante ao tratar
- 4:23desses assuntos da saúde mental, da mente humana, de
- 4:28uma forma mais lúdica. Olha,
- 4:31a gente pode analisar comparativamente o volume um
- 4:34e volume dois diversidamente, justamente
- 4:36pensando na evolução histórica dos léxicos e das
- 4:41narrativas de sofrimento que estão aí envolvidos. O
- 4:45primeiro episódio ele fez um grande sucesso justamente
- 4:48porque conseguia alcançar um público adulto e infantil
- 4:52criando assim uma comunicação entre eles, mas
- 4:56produzindo vocabulário sobre os afetos, um vocabulário
- 5:01inserido numa teoria geral da mente. Então
- 5:04você tem zona de controle, você tem os afetos
- 5:07disputando entre si quem é que manda, você tem
- 5:10representações imagísticas, imagéticas para cada um dos
- 5:15afetos, isso tudo vai produzindo efeitos de de
- 5:20reacomodação e de visualização necessários para
- 5:24a gente poder tematizar melhor conflitos,
- 5:29experimentar melhor certas emoções e principalmente
- 5:32perceber como as emoções elas se produzem a partir
- 5:36de afetos e elas são negociadas na forma de
- 5:39sentimentos sociais, ou seja, ninguém é escravo,
- 5:43dependente, passivamente reativo aquilo que está
- 5:45sentindo. Existe uma tramitação psíquica,
- 5:49pode levar outros afetos, pode levar alteração dos
- 5:52afetos em si, no outro pode levar comportamentos,
- 5:56atos. Esse espaço criado pelo primeiro
- 6:01filme foi essencial para toda uma geração. Ocorre
- 6:05que o segundo volume ele acontece nove anos depois
- 6:08do primeiro, portanto o público já passou pela sua
- 6:13adolescência, vamos dizer assim, é um público de
- 6:16jovens adultos, talvez pais que agora estão levando os
- 6:19seus filhos para experimentar aquilo que eles
- 6:22tiveram na sua própria pré -adolescência ou puberdade. E
- 6:26aí a gente nota uma série de dificuldades mesmo da
- 6:32linguagem filmica, em termos de roteiro, ele não
- 6:37conversa tão bem entre adultos e crianças, a
- 6:42linguagem, infantilha, a linguagem do adulto não
- 6:46estão exploradas nas suas diferenças e nas suas
- 6:50aproximações. O segundo ponto, eu diria
- 6:54problemático, é que no volume 1 a gente tinha um
- 7:00conflito que era mais ou menos estrutural, as emoções
- 7:03elas sempre andam juntas, e assim será, assim foi e
- 7:07assim será. No volume 2 a gente já tem a
- 7:11abordagem de uma grande crise, de subjetivação,
- 7:15momento de passagem da infância para vida adulta
- 7:18conhecido como a síndrome normal da adolescência, ou
- 7:22seja, o sujeito fica tomado por paixões, ele fica no
- 7:27estado irracível, ele fica reativo, há todo um
- 7:33trabalho portanto que a gente espera, um
- 7:35enfrentamento dessa travessia, uma imagem muito
- 7:39frequentemente convocada para falar da adolescência. Mas
- 7:43a gente olhando ali na forma como ela é
- 7:46enfrentada, ela aparece do nada, ele aparece sem
- 7:50aviso, ela nada tem que ver com o que veio antes.
- 7:53Isso do ponto de vista subjetivo
- 7:55não ajuda muito a entender essa descontinuidade, que é
- 8:01muito mais a percepção que o adulto tem sobre a
- 8:03adolescência, posterior quando ele vai ter que
- 8:07enfrentar os seus próprios filhos, do que a
- 8:09experiência propriamente do upuber e do pré
- 8:12-adolescente, que sabe muito bem que aqueles efeitos
- 8:16todos estão ocorrendo junto com transformações corporais,
- 8:19nada sobre isso, a não ser o cheiro que a Riley
- 8:23experimenta um dia de manhã é tematizado no filme,
- 8:26ainda que a gente perceba a diferença que ela
- 8:29experimenta na sua corporidade quando ela
- 8:32encontra Valentin Ortiz, que já tem um corpo melhor
- 8:37definido do ponto de vista dos caracteres sexuais
- 8:39secundários. Então a sexualidade, ela irrompe
- 8:44como se ela não tivesse presente antes, seu
- 8:46recalcamento, vamos dizer assim, da sexualidade
- 8:50infantil descrita por frótico, uma anese infantil,
- 8:54e que não faz bem pra gente entender essa
- 8:56história. Daí vem a ideia de que assim
- 9:00como veio do nada, uma hora vai desaparecer e
- 9:03voltar para o nada, não é bem assim. Assim
- 9:06como as angústias, as ansiedades, os temores, o
- 9:11que acontece antes na infância fica muito tomada,
- 9:16por uma representação idílica, de que a infância
- 9:19seria um momento em que as amigas não brigam, em que
- 9:22elas jogam rocker, em que elas são generosas,
- 9:26solidárias, e daí você se torna uma skin egoísta de
- 9:30um dia para o outro sem razão, causa um motivo.
- 9:33Isso, vamos dizer assim, choca um
- 9:36pouco e não ajuda a gente a entender como lidar com
- 9:39o conflito. Ou seja, a lição número 1 é
- 9:42um conflito para ser enfrentado, requer que a
- 9:46gente faça história, arqueologia, entender de
- 9:49onde ele veio, quais são os elementos que o compõem,
- 9:52tudo isso fica então meio suprimido. Um
- 9:56segundo ponto que o volume 2 explora, mas explora de
- 10:01uma maneira muito exícua, muito assim, em momentos
- 10:07muito pontuais, e que é decisivo para a gente
- 10:10entender a subjetividade da adolescência, é que as
- 10:14nossas emoções não são indiferentes às emoções que
- 10:18estão acontecendo, vamos dizer assim, no cérebro dos
- 10:22outros. Ou seja, há uma teoria
- 10:24excessivamente individualista das emoções. No
- 10:28fundo, boa parte do que a gente sente está envolvido
- 10:33determinado pela interpretação que a gente
- 10:35faz do que o outro está vendo na nossa reação, no
- 10:39espelho que é o outro, no espelho de afetos que é o
- 10:42outro. Isso só aparece em dois momentos
- 10:45no filme, num momento em que Riley está indo para o
- 10:48acampamento de Hawking e ela descobre que as amigas
- 10:52ocultaram o fato de que vão mudar de escola. Nesse
- 10:57momento a gente vê as emoções da Riley dialogando
- 11:01com as emoções das amigas. E
- 11:04o segundo momento é quando ela volta do acampamento,
- 11:06os pais perguntam como foi e ela responde com aquele
- 11:08típico, foi ok, e os pais ficam fulos da vida e
- 11:13aparecem as emoções dos pais e como eles ativam o
- 11:17seu próprio, o reagem ao tédio que apareceu na
- 11:21Riley. Mas esse momento crucial que a
- 11:24gente chama de intersubjetivação, ou seja,
- 11:27a relação intra que a gente tem com os próprios
- 11:31afetos, numa relação de espelho e reciprocidade com
- 11:35a intersubjetivação dos afetos, ou seja, a
- 11:38interpretação que a gente tem dos outros e a
- 11:41interpretação que os outros fazem de nós. Então,
- 11:44para entender os circuitos dos afetos, você precisa
- 11:45entender essa dupla circulação e isso aparece
- 11:49só ali em dois momentos. Problema,
- 11:53nesses dois momentos existe uma emoção que está
- 11:58ausente, para quem estuda a teoria clássica das emoções,
- 12:04que vem da teoria das paixões, é um recurso muito
- 12:08frequente que as emoções sejam pensadas aos pares,
- 12:13com alegria, tristeza, medo, raiva, no filme nojo e
- 12:20nojo não tem o parceiro. O parceiro que apareceria lá
- 12:24no texto do Darwin sobre a expressão de emoções em
- 12:27homens e animais e também na psicologia do século XIX
- 12:31e que se desdobrou nos estudos mais recentes como
- 12:35a ECMF, por exemplo, que é um consenso na área, é de
- 12:39que existe uma sexta emoção básica chamada surpresa. E
- 12:44a gente olhando para o filme, a gente percebe que
- 12:46é justamente essa emoção que falta quando ela acorda
- 12:50um dia, sente que tudo mudou, ou seja, surpresa.
- 12:54Essa emoção que ela sente quando
- 12:56as amigas dizem, nós vamos mudar de escola, surpresa.
- 13:00Essa emoção que ela é tomada
- 13:02quando chega equipe de construção, e agora tudo
- 13:05mudou no seu cérebro. Começam
- 13:08a demolir a casa central de operações e alegria
- 13:15pergunta, mas por que isso está acontecendo? E
- 13:17a resposta é Cineca e neoliberal, não nos
- 13:21pergunte, eu só estou obedecendo ordens, isso aqui
- 13:23vai ser implodido, nós vamos fazer uma nova casa
- 13:27de controle e agora são novas as emoções, ansiedade,
- 13:31tédio, inveja, a vergonha que é a melhor representada
- 13:37e a nostalgia que é a pior representada. Então
- 13:42você tem uma mudança de emoções, mas você tem uma
- 13:46perseverança no erro, são cinco de novo e a
- 13:49surpresa, que é o que a gente via estar sentindo
- 13:52quando tudo isso acontece na nossa cabeça talzente,
- 13:56ou seja, o afeto nodal no centro narrativa não é
- 14:01nomeado, assim como aquilo que seria a força motriz
- 14:05que impulsiona a passagem para a adolescência não é
- 14:08nomeado, que é o sexo. O sexo está ausente, como
- 14:11causa motivo, razão das intrigas, das
- 14:16autotransformações, e ele aparece, então como um
- 14:21filme que padece da nossa época, porque é uma época
- 14:25que se preocupa excessivamente com a
- 14:27identidade, com as identificações e que se
- 14:31preocupa muito pouco com a orientação dos nossos
- 14:34desejos. Então por que tudo dá errado
- 14:37para Riley? Porque ela quer entrar no time de
- 14:40hockey, porque ela quer ser reconhecida pela Valentina,
- 14:43porque ela quer se fazer passar por uma adolescência,
- 14:46ou seja, todos os desejos são apresentados como
- 14:49problemáticos, sim, tudo isso que ela quer a partir
- 14:53de agora é só desequilíbrio perda em relação que ela
- 14:56tinha antes, muito ruim, quer dizer, joga todo o
- 15:01peso das emoções e da teoria da mente para quem
- 15:04você é e não o que você quer. Isso
- 15:07dá expresso ali na narrativa em que a gente
- 15:10tem a formação de um cristal, essa cristal é o
- 15:13self. Esse self é uma espécie de
- 15:16essência do ser, essência do ser tem que ver com as
- 15:19memórias que são pacotadas em experiências e lançadas
- 15:23a uma espécie de mar, assim, onde ficam ali
- 15:25flutuando, na forma de que? De
- 15:27convicções. Essa é a parte, vamos dizer
- 15:31assim, ruim do filme, porque ou se mesmo ele não
- 15:37tem que ver com convicções, com crenças, isso é a
- 15:40representação que a gente faz de si, as
- 15:44identificações que a gente tem com valores, com
- 15:47princípios e assim por diante, mas a graça do
- 15:51primeiro volume é que não se repete com tanta
- 15:54eficácia no segundo, é que a forma como a gente se
- 15:57representa não é exatamente igual à forma como a gente
- 16:00é, e isso então foi um pouco desprivelegiado ali no
- 16:04filme quando a ansiedade toma conta, substituir a
- 16:09alegria e a ansiedade tem um par, mas é um par
- 16:13estranho, porque ele não é uma verdadeira oposição, não
- 16:18é uma oposição interna, que é o tédio, o tédio é uma
- 16:21expressão desde o século 18, 19, né, do da Gustia,
- 16:26aqueles que gostam do existencialismo, do Icamí,
- 16:29do Essatra, Kierkegaard e toda essa tradição vão
- 16:33notar que a gente tem ali um duplo desdobramento da
- 16:37angústia, de um lado a angústia na sua versão
- 16:40ativa, orientada para o futuro, que é ansiedade, e
- 16:44no outro a sua versão passiva, ou defensiva,
- 16:46orientada para o passado, que é o tédio, enquanto
- 16:50isso outros sentimentos decisivos, como a culpa,
- 16:54estão ausentes, enquanto isso outras emoções que são
- 17:00para o adolescente, vamos dizer assim, dramaticamente
- 17:03importantes, com uma saudade, com uma capacidade
- 17:07de elaborar o luto, da infância, que não sou mais
- 17:11aquele objeto perfeito, também é o elaborar o luto
- 17:15dos pais que viram seres humanos, vamos dizer assim,
- 17:18senão triviais, subtriviais, na verdade inferiores,
- 17:23porque nos causam vergonha, porque nos lembram que um
- 17:26dia fomos crianças, então o papel da nostalgia é o de
- 17:30uma velha senhora que ababra a porta e é
- 17:33empurrada de volta, caracterizando o nosso
- 17:39recalcamento da historicidade dos afetos, muito ruim,
- 17:44porque na verdade a gente sai dessa enrascada criando
- 17:47uma reversão, enrascada da adolescência, dentro dos
- 17:51afetos a partir da historicização deles, da
- 17:54ideia de que elas permanecem os mesmos, mas
- 17:57modificados, ou seja, não tem exatamente uma ruptura,
- 18:00um corte, sai uma turma entre a outra, mas uma
- 18:04transformação interna, que o filme perdeu a oportunidade
- 18:07de mostrar. Talvez
- 18:36as minhas opiniões aqui estejam sugerindo que é um
- 18:41filme que não deva ser assistido, pelo contrário, é
- 18:44um filme obrigatório, né? Vamos
- 18:46lembrar de sessão da tarde, vale a pena ver de novo,
- 18:49não são os melhores filmes que nos modificam
- 18:52decisivamente. É um filme excelente porque
- 18:57ele propõe um diálogo, porque ele tematiza a
- 19:01dinâmica das emoções, ele coloca em questão uma série
- 19:05de temáticas cruciais, e o fato de ele não resolver,
- 19:10elas não levá -las adiante, não é um demérito, porque
- 19:13isso pode e deve ser feito na conversa posterior ao
- 19:17filme, onde certas incongruências, certos
- 19:22posicionamentos podem ser complementos que o filme
- 19:27exige, né? Às vezes um filme perfeitamente
- 19:30produzido, narrativamente congruente, ele só gera o
- 19:34que? Subordinação e admiração. Olha,
- 19:37que grande filme, o que eu posso fazer me identificar
- 19:40com ele? Às vezes um filme que tem
- 19:42problemas, ele é melhor do ponto de vista, vamos dizer
- 19:46assim, de discussão psíquica, porque ele abre
- 19:48esses problemas, ele divide esses problemas, ele chama
- 19:51aquele que foi ver o filme para a discussão, né? Você
- 19:54tem que pôr de si. Isso é muito melhor do que
- 19:57meramente admirar e tomar ali uma narrativa como
- 20:00padrão ou mestre para se autointerpretar. Nesse
- 20:04filme a ansiedade acaba ganhando um protagonismo,
- 20:08essa transição para a mínima que vai completar 13
- 20:12anos, tudo tal. Na sua prática pínica, quando
- 20:15você lida com essa idade, com essa faixa etária,
- 20:19ansiedade é realmente um ponto que se sobressai
- 20:23diante de outras emoções? Faz
- 20:25sentido esse protagonismo que ela ganha no filme?
- 20:30Faz sentido porque, eu diria,
- 20:36não é a ansiedade, mas é a angústia, né? Que
- 20:39se torna grande protagonista da adolescência. Uma
- 20:44das coisas que a gente poderia assim acrescentar ou
- 20:48ou pensar com o filme é que a angústia tem um
- 20:53espectro de incidências e de aparições muito
- 20:59heterogêneo. Então, uma das dificuldades que os
- 21:03adolescentes têm para enfrentar suas angústias é
- 21:06achar que todas elas são iguais e todas elas
- 21:09aparecem na forma da ansiedade, tal qual foi uma
- 21:12figura ali, uma boca grande, cheia de dentes,
- 21:15querendo mandar. Isso é uma versão da ansiedade,
- 21:19é uma figura da angústia, mas, por exemplo, o desejo
- 21:24de solidão e isolamento é outro. Por
- 21:27exemplo, o desejo frenético de consumir e comprar é
- 21:31outro. O embaraço que aparece em
- 21:35determinados momentos, não a vergonha, aquela sensação de
- 21:40que você está sendo observado, de que os outros
- 21:42estão prestando atenção em você, que você está no
- 21:46centro do mundo. Isso tudo também é uma versão
- 21:50da angústia. Angústia aparece combinada e
- 21:54infiltrada nos nossos sintomas. Então,
- 21:57você tem uma fobia, você tem angústia ali, você tem
- 21:59uma ideia obsessiva, você tem angústia ali, você tem
- 22:02um impedimento, você tem angústia ali. A
- 22:05ideia de que angústia se spraya, ela contamina toda
- 22:09a subjetividade é uma ideia boa, é uma ideia que
- 22:13ilustra bem, ela é pertinente. O
- 22:16que não é tão pertinente é mostrar ela num par de
- 22:20oposições mais simples e mostrar como elas não
- 22:26colaboram entre si. Com exceção dessa figura é
- 22:30notável que é a vergonha. Ela
- 22:33é, talvez, a melhor representação de um afeto
- 22:37decisivo, que é um afeto que vem junto com angústia.
- 22:41Na verdade, a vergonha é esse
- 22:43termômetro de o quanto você está avançando na sua
- 22:48própria verdade, quanto você aguenta sobre sua própria
- 22:51verdade, a sua própria verdade no cheiro do seu
- 22:54corpo, nos seus sentimentos dos tis, dos seus ciúmes,
- 22:58outro que foi abreviado aí na história, na sua raiva,
- 23:02quer dizer, a vergonha, ela tem, de fato, uma função
- 23:05estratégica como tem no filme de conciliar os
- 23:08afetos antigos com os afetos novos. E
- 23:11ela é representada, então, por aquele que veste um
- 23:13casaco, que quando você olha pra vergonha, ela
- 23:17fecha o casaco, só aparece o nariz. Só
- 23:20que daí ela vira de costas e aparece o rego das
- 23:24nádegas, ou seja, é a própria funcionamento da
- 23:28vergonha. Você quer se esconder e ali
- 23:30você se mostra e aparece, o seu traseiro, e você
- 23:34fica com mais vergonha ainda e você quer,
- 23:36literalmente, entrar num buraco. Ela
- 23:41é um afeto decisivo, pena que apareceu sem a culpa
- 23:46que a sua parceira, malevula, um dos nossos
- 23:50maiores reguladores morais é a vergonha. Na
- 23:53verdade, na cena da transformação, quando ela é
- 23:57suspensa no rock e ela vai pensar e ela precisa se
- 24:02desempenhar ali no jogo, mas ao mesmo tempo ela
- 24:05está atraindo as amigas, aquela cena ali, ela é
- 24:08toda desencadeada pela vergonha. Ela
- 24:11sente vergonha de quem ela é, do que ela está fazendo
- 24:14e por que ela está fazendo. E
- 24:16a solução é um pouco assim, voltar para trás,
- 24:20voltar e se reconciliar com as amigas, mas não está
- 24:25muito claro como quem ajudou a vergonha a fazer
- 24:28isso, que foi a nostalgia por um lado e foi a
- 24:31tristeza por outro. E isso aparece bem. Isso
- 24:35aparece bem, a tristeza, ela emerge lá das
- 24:38profundezas da primeira infância e ela vai para a
- 24:44casa de controle. Muitas vezes, a tristeza é sentida
- 24:50pelo adolescente como o caminho da angústia, outra
- 24:54vertente, não vale a pena chamar toda a angústia de
- 24:59ansiedade ou de estresse ou de nervosismo, porque ela é
- 25:04um fio condutor que junta todas as afetos entre si.
- 25:09Não é como o filme quer
- 25:11parecer o cristal encantado, o que é você mesmo na sua
- 25:15essência e que precisa ser preservado junto com os
- 25:17afetos maus. Olha, o filme tem pontos muito
- 25:23interessantes se a gente deslocar o centro de
- 25:28gravidade que ele propõe. Escute
- 25:32as bordas, escute os periféricos. Ali
- 25:35tem imagens realmente muito interessantes, por exemplo,
- 25:40o rio da consciência. Edmond
- 25:43Russel, criador da Firmologia, definia a
- 25:45consciência como um fluxo temporal de significações,
- 25:48com o rio, um rio onde passa o brócolis, o rio
- 25:52onde passa objetos, informes, o rio que tem
- 25:58sinuosidades, que tem um fluir. Essa
- 26:02imagem é perfeita, é muito boa. Pense
- 26:06na ideia de que as emoções são empacotadas, são
- 26:10comprimidas e mandadas para outro lugar. Isso
- 26:13é perfeitamente compatível com a ideia de supressão
- 26:17dos afetos e repressão dos afetos que está presente na
- 26:19psicanálise. Pense na ideia de que existe lá
- 26:23o cristal do self, existe o outro self. Isso
- 26:27fala do que o Inico te chamou de falso self. Pense
- 26:32como o diálogo entre adultos e crianças no filme
- 26:37é problematizado até o fim. Vamos
- 26:40lembrar do que é a diferença, confusão de
- 26:42línguas entre adultos e crianças. Pense
- 26:46nessa imagem sensacional que é o abismo do sarcasmo. O
- 26:51sarcasmo vai comendo pedaços de terra e vai tipondo
- 26:55contra o precipício. Vamos lembrar do que é a arda,
- 26:59a única questão filosófica é salta ou não, estamos
- 27:03todos na beira de um precipício. Então
- 27:05as imagens periféricas são excelentes, elas não
- 27:08conversas a parte. Elas, por exemplo, como as
- 27:17experiências se juntam com memórias formando uma
- 27:22espécie de mar que tem conexões entre si, mais que
- 27:28cada uma é diferente. E como as nossas experiências
- 27:33não são só fotografias ou marcos objetivos do que
- 27:37aconteceu, de que a memória ela cria coisas, a
- 27:41imaginação cria o que não estava lá, que existe todo
- 27:46um funcionamento ativo da vida mental e que ela não
- 27:50é só como um computador que pega impressões e
- 27:53devolve impressões. Isso é fantástico, é uma maneira
- 27:59muito simples, criativa que os produtores do filme
- 28:03conseguiriam encontrar de oferecer esse eléxico, de
- 28:07colocar para as pessoas essas perguntas como você
- 28:11está tratando, está empacotando elas, está pondo
- 28:14elas no armário, está colocando elas atrás de
- 28:17manuais, muito bonitas a imagem, a tristeza por trás
- 28:21dos regulamentos, está deixando que a ansiedade
- 28:25tome conta, essas imagens, essas alegorias, elas são
- 28:31muito possantes, elas tornam o filme realmente uma peça
- 28:35muito criativa e muito interessante para nossa
- 28:38época. Depois de acompanhar o Dunker com
- 28:41uma análise profunda sobre divertidamente 1 e 2, os
- 28:45dois, Alexandre Coimbra Amaral responde, como essas
- 28:48animações podem ser usadas para criar diálogos
- 28:52importantes entre adultos e crianças ou adolescentes?
- 28:56Acompanhe Alexandre Coimbra Amaral.
- 29:02Histórias que comovem crianças e
- 29:05adultos, que têm pontos de enlace com as crianças,
- 29:10então a parte mais divertida, mais da ação, as
- 29:15crianças adoram. E tem essas surpresinhas para
- 29:20os adultos, que têm a ver com o mundo adulto, com as
- 29:23neurosas adultos, o divertidamente, ele oferece
- 29:26isso como um prato cheio porque ele conversa ali
- 29:30sobre o funcionamento da mente, dando uma mostra
- 29:35muito fidedigna da complexidade do nosso
- 29:38funcionamento mental e emocional. E
- 29:42eu acho que ele abre portas, é um desenho que
- 29:45abre portas para o diálogo. Vale
- 29:49começar um diálogo a partir de onde a gente está
- 29:52sentindo. Então um adulto é tomar uma cena
- 29:58que o tocou, que o deixou sensibilizado, que fez com
- 30:03que ele se conectasse com quem ele era, quando era
- 30:05criança ou adolescente, ou que está falando de um
- 30:08funcionamento atual dele, porque nós continuamos ali
- 30:13tendo as emoções trocando de protagonismo na nossa
- 30:17sala de controle interna ao longo da vida inteira.
- 30:20Então vale que o adulto, por
- 30:23exemplo, convoque uma cena para seu mote do início de
- 30:28uma conversa, se uma boa conversa a gente só define
- 30:32a primeira fala, porque todas as outras vão
- 30:36decorrer do impacto que essa fala ou que aquele
- 30:42tema tiver em quem está escutando e depois se for
- 30:44convidado a falar. Então pode ser a partir de uma
- 30:48história que você viveu como memória que o filme
- 30:53te lembrou, pode ser a partir da cena da
- 30:58personagem principal, se perguntando se o filho ou
- 31:04filha se coloca naquele lugar, se sente parecido
- 31:08com ela em alguma coisa. O filme é um desenho
- 31:12divertidamente, ele é uma oportunidade da gente
- 31:17recuperar ou conversas que ficaram perdidas no tempo
- 31:21pela velocidade da vida, pelos afazeres dos adultos,
- 31:28pelos constrangimentos que nós ainda temos de falar
- 31:31sobre as nossas emoções. Então
- 31:33esse filme é um achado, ele é um mantissala para
- 31:38uma boa conversa. Então pegar a partir de um ponto
- 31:41que te tocou e sendo bem coerente com o filme,
- 31:45deixar escorrer a emoção. Então
- 31:47se você tiver que falar do medo, poder assumir os seus
- 31:52medos, se você tiver que falar da tristeza, poder
- 31:54assumir uma tristeza ou contar uma cena em que
- 31:57você foi visitado pela ansiedade, como uma das
- 32:01cenas icônicas desse segundo filme. Então
- 32:04a gente usar essa oportunidade como uma janela
- 32:09para construir uma ponte muito transparente, muito
- 32:11genuína e muito verdadeira com essa criança, com essa
- 32:13sequência do necessário. Perfeito,
- 32:18é isso na verdade, para dar uma essa completada
- 32:21mesmo. Eu não sei se de cabeça, se
- 32:23você tem esse exercício de alguns outros filmes que
- 32:28seguem essa mesma linha do divertidamente, que você
- 32:31também acha que pode sugerir bons diálogos, boas
- 32:35conversas. Mas é isso que eu só vou
- 32:36dizer o nome do filme e o que tipo a temática que
- 32:41poderia suscitar a partir dele. Não
- 32:42sei, isso não está previsto, a gente não
- 32:44conversou. Se você tiver isso já em
- 32:47mente. Tá, eu acho interessante a
- 32:51gente perguntar para os nossos filhos quais são os
- 32:54filmes que estão fazendo a cabeça deles nesse momento.
- 32:58Porque isso fica como um convite
- 33:00para a gente entrar no mundo deles. E
- 33:03assistir com eles, o que está passando ali? Por
- 33:07que aquele filme, aquela série, aquele anime, aquele
- 33:12drama, por que esses elementos da cultura estão
- 33:16fisgando essa pessoa que me é tão íntima, mas talvez
- 33:21me falte disponibilidade, tempo, paciência para entrar
- 33:27um pouco mais no mundo desse meu filho e dessa
- 33:29minha filha. Eu iria pelo filme que ele ou
- 33:33ela sugerir. Os dois entrevistados deste
- 33:37episódio do podcast do Instituto Claro fazem outras
- 33:42análises de divertidamente em seus respectivos canais.
- 33:46Vale conferir o episódio 84 do
- 33:49podcast de Carta de um Terapeuta e o desejo em
- 33:52cena do canal do YouTube de Christian Dunker. Bem,
- 33:57antes de ir, eu ressalto que quando falei sobre o
- 34:00fato de um episódio sobre divertidamente, ser o último
- 34:04que eu e minha produtora peças raras realizamos para
- 34:08o Instituto Claro não é mais a força de expressão.
- 34:11Com essas entrevistas
- 34:13valiosíssimas, eu encerro um ciclo que começou em
- 34:17dezembro de 2011. Foram muitos momentos memoráveis
- 34:22que agora entram para a história. Se
- 34:24quiser relembrar ou maratonar, todos os
- 34:28episódios estão disponíveis no site do Instituto Claro.
- 34:32Basta procurar por podcasts
- 34:34Instituto Claro, educação e podcast Instituto Claro,
- 34:40Cidadania, para acessar todos esses conteúdos que
- 34:45foram produzidos desde dezembro de 2011, quando
- 34:49começamos ainda com o nome de NetEducação. No
- 34:52Spotify você encontra tudo que foi publicado desde
- 34:57novembro de 2018. Por hoje é isso. Até
- 35:01a próxima. Quando eu volto com mais, peças
- 35:05raras para você.