Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #309 Hino da Anistia, por João Marcello Bôscoli
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- 0:00O Aldir, como habitualmente fazíamos, ele vai até a
- 0:05minha casa, eu morava no jardim Botane, e aí então
- 0:09eu mostro o samba e conta essa história para ele.
- 0:13Bom, ele simplesmente pega aquele
- 0:17tema chapoiliano, projeta numa situação do Brasil
- 0:23naquele momento, nós estamos numa ditadura militar no
- 0:28ano de 1978, e então ele começa através do chapoilão
- 0:34contar a realidade brasileira naquele momento.
- 0:38Estamos falando de um momento
- 0:39político que estava quase explodindo tudo. Mestre
- 0:43Sara dos Mares trata de um momento que teve também uma
- 0:47comoção, mas a gente já conheceu a música com
- 0:50distanciamento histórico, e o Bêbado Equilibrista era
- 0:54quase que um rádio ao vivo, contando o que a
- 0:57gente estava vivendo. Então, para quem estava lá, para
- 1:01quem viveu uma reverberação daquela época ali, ganha
- 1:07contornos realistas mais vivos, assim, mais
- 1:13pronunciados. Então, naquele momento ali, elas
- 1:17se tornam o ínone, para acelerar esse movimento do
- 1:23Brasil das exceções para a democracia. Peças
- 1:30raras. Olá, tudo bem? Eu
- 1:34sou Marcelo Abude, estou chegando com nossas peças
- 1:38raras. Este é o segundo episódio sobre
- 1:42o bêbado e a equilibrista. No
- 1:44anterior, você ouve a participação de João Bosco,
- 1:48que conta como nasce a ideia da música no dia de
- 1:52Natal de 1977, quando ele recebe a notícia da morte
- 1:57de Charlie Chaplin. Desta vez, o bate -papo é com o
- 2:01produtor musical João Marcelo Boscoly, que me
- 2:04recebeu para essa conversa nos estúdios da trama em
- 2:08julho de 2023. Acompanhe! Meu nome é João Marcelo
- 2:13Boscoly, eu sou produtor musical. João,
- 2:17nós vamos falar um pouquinho de João Bosco, e
- 2:20também especificamente de o bêbado e a equilibrista.
- 2:23Perfeito. O que representa essa
- 2:25canção? Pensando na fase da sua mãe, da
- 2:29Elis, mais politizada. O quanto que essa música foi
- 2:32importante já na fase mais engajada da Elis Regina
- 2:37como artista? Eu acho que, em primeiro
- 2:44lugar, o sucesso dessa música serviu para fazer
- 2:49com que as pessoas, naquele momento que estavam olhando
- 2:52a carreira da Elis, percebessem que em quase
- 2:56todos os álbuns dela havia algum tipo de manifestação
- 2:59política. As vezes, de uma maneira mais
- 3:02diluída, metafórica, às vezes a abordagem era mais
- 3:08antropológica, como as músicas dela que tratam dos
- 3:14pescadores, das crianças na cidade, mas essa era mais
- 3:18explícita mesmo, porque eu acho que a situação naquele
- 3:21momento era explícita. Então,
- 3:24primeiro, respondendo, acho que a análise que a gente
- 3:27pode fazer naquele instante, se eu fosse um crítico, um
- 3:31acadêmico ou um analista, eu falaria, poxa, não é a
- 3:35primeira, é a mais forte, porque também o momento é
- 3:39agudo. Eu acho que sempre tive para
- 3:42mim que a música é uma reportagem do seu tempo,
- 3:47aquilo que os musicólogos falam da, chamada
- 3:49sociogênese da música, o solo e o momento, o
- 3:53zeitgeist, que gera aquela obra. Eu
- 3:56creio que a Elis tem feito uma leitura racional e
- 4:03também intuitiva de natureza emocional. Então,
- 4:07tem emoções, sentimentos e ideias, mas também um
- 4:11desejo de falar alguma coisa. E
- 4:14aquilo tendo sido escrito pelo Aldir e a canção do
- 4:20João, e eles terem conseguido colocar uma
- 4:24mensagem que poderia ter ficado muito ruim, porque o
- 4:29talento deles conseguiu fazer, que ficasse boa, mas
- 4:33poderia ficar uma coisa panfletária demais, piegas,
- 4:39poderia passar do ponto. É como muitas vezes eu me
- 4:42refiro às canções do amor, ou de amor, fazer uma
- 4:47canção de amor, uma balada, falando de um grande amor.
- 4:53É muito difícil ficar bom,
- 4:56porque você pode esbarrar várias coisas. Então,
- 4:58acho que foi uma leitura e uma interpretação que
- 5:03representavam o desejo dela, o desejo das pessoas da
- 5:08época. Eu tenho uma visão, como uma
- 5:12inclinação iunguiana, de acreditar que o artista
- 5:16capta o inconsciente da sociedade, dos seres humanos
- 5:23todos, traz para dentro, processa isso em algum
- 5:27espaço interno, acrescenta muito de si, certa forma é
- 5:33um autor, aogere, acrescentar algo, e devolve
- 5:38para a sociedade sob a forma de uma obra de arte.
- 5:41Então, acho que é uma música
- 5:42repleta de significados, por vários ângulos ela fica
- 5:46muito bem na nossa observação. Se
- 5:51você esquecer da letra, é uma grande canção. A
- 5:55canção é quando tem a letra. Se
- 5:58você esquecer da letra, é uma grande melodia, uma
- 6:00grande harmonia, uma grande música. E
- 6:03aí, os versos... Nossa, não dá para saber se você
- 6:08tem os versos vestidos de música, ou a música foi
- 6:14vestida de versos. Ficou algo muito, muito misturado
- 6:22ali, você não sabe onde começa o trabalho de um e
- 6:24termina o de outro. Então, tudo muito inspirado. Eles
- 6:27também captaram o espírito da época. Eu
- 6:29acho que ela sentiu isso. É
- 6:32importante a gente lembrar que é um artista já de 33
- 6:34anos, muito nova para os padrões de hoje, as pessoas
- 6:38acham, mas que já estava com quase 20 anos de
- 6:41carreira, ou cerca de 20 anos de carreira, se
- 6:44consideramos as primeiras ida ao Clube do Guri, os
- 6:49prêmios e tal. Então, um momento mágico, eu acho
- 6:52que, da vida dela, da vida do país, e a música
- 6:55permanece. Porque é uma música que a gente
- 6:56também já se cansou de ouvir, entre aspas. Você
- 6:59vai nos lugares, as pessoas tocam muito, né? Seja
- 7:02em caralho que, seja em bares com música ao vivo.
- 7:07E aí, o cantor ou a cantora
- 7:09caía, um monte de gente começa a cantar olá.
- 7:14Realmente é uma força muito grande
- 7:16que essa gravação, que essa composição tem. E,
- 7:19João, o João Bosco, pelo que eu li até no livro
- 7:23sobre a Ilice, foi o segundo compositor mais
- 7:27gravado com ela, né? Quanto que essa música,
- 7:30especificamente em relação a outras que ela gravou do
- 7:33João, tem um peso na carreira da Ilice? Eu
- 7:37acho que quando a Ilice descobriu o João e o
- 7:40Aldir, tem aquele lance, né? A
- 7:42Ilice tinha 27 anos, e eles eram novos também.
- 7:51Então, é tipo você descobriu uma
- 7:53nova mina, você descobriu uma fonte, ali no meio da
- 7:59mata e tal. E ela foi gravando, foi
- 8:01gravando, e aí, claro, você não toma um susto igual
- 8:07duas vezes, né? Você vai convivendo, vai
- 8:10gravando, vai convivendo, vai gravando, vai
- 8:13experimentando e tal. E aí, claro, fica a cada
- 8:17dia, sobretudo como uma pessoa como a Ilice, que
- 8:20vivia buscando novas coisas, novos caminhos, tinha uma
- 8:25agitação na alma, né? Vontade
- 8:32de fazer outras coisas, uma sede por novidades. Eu
- 8:35acho que, com o passar dos anos, você já estabelece
- 8:39uma expectativa, mútua, né? Quem
- 8:44compõe e manda e fala, nossa, o que será que ela
- 8:46vai fazer com essa música? E
- 8:48quem está para receber a música, nossa, será que
- 8:49eles vão mandar aquela? E aí, depois de acertar
- 8:52tantas músicas, eles aparecerem com essa música.
- 8:58Então, trocando em miúdos, se eles
- 8:59tivessem apresentado essa música na manhã do
- 9:03relacionamento deles, tudo bem. Mas
- 9:06já era, já era no período da tarde, né? Então,
- 9:10foi realmente, eu acho que, uma surpresa para ambos,
- 9:13né? E uma música complexa de
- 9:16melodia longa, letra também longa, com pouquíssimas
- 9:20repetições. E foi um sucesso fora do
- 9:24comum, né? Muitas pessoas que estudam, já
- 9:27ouvi isso de vários acadêmicos, de instituições
- 9:29importantes, acadêmicas. Poxa,
- 9:33essa música ajudou a antecipar a abertura. E
- 9:37aí eu falei, olha, eu acho que sim, mas ela é parte
- 9:41do processo, né? A Elise não era um maestro
- 9:45terrestre que chegou e viu uma situação e lançou uma
- 9:48música. Ela fazia parte daquela
- 9:50população que estava profundamente insatisfeita,
- 9:54né? Então, eu acho que ela realmente,
- 9:56o João e o Aldir e ela e os arranjos do César
- 9:59Mariani, tudo, a gravação, eles capturaram o que as
- 10:03pessoas estavam sentindo. Se existe um inconsciente
- 10:06coletivo, naquele instante ele foi lido e foi
- 10:10traduzido. Mas pegando um pouco do que
- 10:12você falou, ela tida como o hino da Anistia. Tem
- 10:16uma história, até, que foi buscado na internet,
- 10:18encontrei essas imagens, são muito emocionantes, né? Da
- 10:20chegada, né? Isso, da chegada do Betinho e a
- 10:23música sendo executada ali no aeroporto. Como
- 10:26é que isso acaba acontecendo e é partir
- 10:29desse momento que você torna o hino da Anistia?
- 10:31Você tem essa... O
- 10:34que eu sei é que já era o hino da Anistia para as
- 10:38pessoas que estavam fazendo, era um hino, um contraponto
- 10:42a tudo aquilo que estava acontecendo, um grito de
- 10:46basta, mais um grito poético, né? Isso
- 10:50é que é possível, né? Para quem estava envolvido, ali,
- 10:56para ela que estava envolvida, desde sempre o
- 10:59endereço era certo. Mas a gente não imagina as
- 11:02consequências e os desdobramentos que aquilo
- 11:05veio a ter. Eu não sei se quando a Elis
- 11:08gravou, ela falou, essa aqui vai ser a música mais
- 11:09tocada do Brasil, vai ser o hino da Anistia. Não,
- 11:11isso aqui, vamos dar uma porrada nos caras lá, vamos
- 11:15fazer alguma coisa, vamos falar, a gente precisa se
- 11:19manifestar. Então, tinha esse desejo, era essa
- 11:24a energia, né? Claro, tinha que ser uma boa
- 11:27música, tinha que ficar tudo bonitinho e tal, mas
- 11:30essa era a missão da música, era fazer uma
- 11:32reportagem daquele instante e colocar para as pessoas
- 11:36tudo aquilo que está colocado nas letras, ou na
- 11:40letra, nas palavras, né? Então,
- 11:44agora, logo depois, muito rapidamente, ela ganhou essa
- 11:47interpretação, essa visão das pessoas. Eu
- 11:52acho que é uma coisa completamente compreensível,
- 11:57não é uma música que você fala, meu Deus, como é que
- 11:59essa música virou hino? Ela falava de outras coisas e
- 12:02deram uma outra interpretação. Então,
- 12:04não, essa era metafórica, claro, essa imagem linda de
- 12:08um beba do trajando luto, né? É
- 12:12belíssima, mas tinha nomes, né? Tinha,
- 12:16enfim, estava tudo escrito ali. Então,
- 12:18muito rapidamente isso aconteceu. Eu
- 12:20lembro que foi realmente uma comoção entre as
- 12:22pessoas, todas que trabalharam nessa música,
- 12:25estavam nesse momento juntos, quando os aviões
- 12:28começaram a pousar, né? E tinha uma emoção muito
- 12:32grande de todo mundo ligado ao Betinho, pela condição
- 12:36dele. Agora, eu tive também uma grande
- 12:39surpresa, uma grande alegria, quando o Betinho,
- 12:43que era o irmão do Enfio, que não tinha o seu nome
- 12:47citado na música, quando virou Betinho, que combatia
- 12:51fome. E aí, fizeram a ligação anos
- 12:56depois. Oh, você saiu o irmão do
- 12:58Enfio. Então, interessante que é uma
- 13:00música que foi gerando insights e possibilidades de
- 13:05ter outras fagulhas no meio do processo, que foi muito
- 13:10interessante, né? Mais uma questão interessante,
- 13:12também, até pensando no antes, né? O
- 13:15Betinho era o irmão do Enfio, e o Enfio tinha
- 13:17colocado a Elis no cemitério dos mortos vivos,
- 13:20em Pasquim, né? Sim, sim. E
- 13:23de repente, é uma forma de entender que você falou,
- 13:27socialmente, a Elis já trazia o engajamento, já
- 13:30trazia tudo, só que ela era tida como alheia pela
- 13:33situação política, até mais ou menos um período da...
- 13:36E eu, quanto que de repente
- 13:39ter o Betinho citado como o irmão do Enfio, na letra
- 13:42que o Audir Blanc coloca ali, tem essa força também
- 13:48de um resgate dessa reportagem histórica e da
- 13:51Elis se colocando nesse momento de uma maneira um
- 13:54pouco mais... Não sei, explista. É,
- 13:59tem muitas coisas, como eu te disse, né? Sempre
- 14:01teve na vida da Elis, nos discos, até os discos onde
- 14:06ela não imaginava diretamente, não tinha essa
- 14:08consciência toda, mas menino das laranjas, arrastão,
- 14:12enfim. E muitas outras canções tratam
- 14:16do Brasil, né? Do Brasil profundo, do Brasil.
- 14:19Com relação ao Pasquim, o
- 14:21Pasquim fez, né, como eram homens, né? Só
- 14:25homens, basicamente, eles fizeram o que os homens
- 14:28sempre fizeram, bateram nas mulheres, né? E
- 14:31não quiseram entender o que estava acontecendo, porque a
- 14:34Elis não foi a única, a Elis trabalhava numa
- 14:36empresa, que era Rede Globo, e acho que quem
- 14:40estudou a história sabe que em determinado momento as
- 14:43pessoas começaram a ficar com medo dizendo, vai lá e
- 14:46faz porque vai dar um problema. O
- 14:47próprio diretor da Globo, Armando Nogueira, falou,
- 14:50Elis, eu não vou me responsabilizar e tal, etc.,
- 14:53e um dia ela chegou lá e foi obrigada a cantar. E
- 14:56eles, na verdade, poderiam ter compreendido, né? Tanto
- 15:00que o Enfield falou, os homens matamos Elis, né?
- 15:05Então eles foram... Ah,
- 15:06o que os homens brasileiros são com as mulheres
- 15:08brasileiras na maior parte das vezes, né? Covards,
- 15:12né? Mas assim, eles têm um ponto.
- 15:15E essa música foi uma grande
- 15:16reconciliação, né? Outro dia eu ouvi um
- 15:20documentarista dizendo que colheu um depoimento, que a
- 15:23Elis teve um caso com o Enfield, que eles namoraram
- 15:26e tal. Eu achei muito engraçado, né?
- 15:29Então acabou servindo como
- 15:32realmente um balsamo ali, né? E...
- 15:38Que bom que o Enfield teve a chance de envida, ter
- 15:43podido também pedir desculpa. Inicialmente
- 15:47ele achou que ele tinha razão, mas depois eu me
- 15:49lembro muito bem do constrangimento, tanto que
- 15:52quando Elis morreu, ele falou essa frase, né? Os
- 15:54homens matamos Elis, né? Mas
- 15:56não é normal, né? É como nos números até hoje
- 15:58você vê o que os homens fazem com as mulheres no
- 16:01Brasil, seja na violência física, seja na violência
- 16:07moral, seja no salário, seja em tudo, né? Então
- 16:12é isso. É mais daquilo que a gente
- 16:15já conhece. Me espanta vindo de pessoas
- 16:17que são inteligentes, que são libertárias e são,
- 16:21enfim, seguem valores humanistas, mas aí a
- 16:26natureza fala mais alto, né? É,
- 16:28antes de ser humanista são homens. São
- 16:30homens. Homens e... É
- 16:33isso aí. Bom, pensando um pouquinho na
- 16:37atualidade dessa música, né? Você
- 16:39falou que até hoje a gente ouve é muito comum, tal.
- 16:42Quando a gente ouve essa música
- 16:43hoje, ela foi feita explistamente, né? Contando,
- 16:46trazendo nomes que, além do Beti ou outras pessoas que
- 16:52são citadas, né? A atualidade dessa música
- 16:55hoje, como é que você vê? O
- 16:57que recado que ela pode trazer? Eu
- 17:00até fico pensando que a gente teve momentos não
- 17:02muito distantes desse tempo em que a gente tá
- 17:06conversando agora, e algumas pessoas saíram do país
- 17:09porque sombrando frções e tudo mais. Quanto
- 17:12que você acha que essa música ainda passa um
- 17:16recado hoje? Acho que essa música pode ser
- 17:18observada de várias maneiras, mas nesse caso eu
- 17:21coloco em dois pontos. Primeiro,
- 17:23como uma música apenas, como uma canção muito bem
- 17:25feita. Claro que quem tem a meidade, eu
- 17:28sou de 70, eu já ouvi essa música 97 mil vezes.
- 17:31É daquelas músicas que vão se
- 17:32desgastando um pouco, e você fica até com um... um
- 17:37cansaço antecipado, né, quando ela começa a tocar.
- 17:41E é quando você fica muito
- 17:42tempo sem ouvir, você escuta novamente, você fala,
- 17:45poxa, realmente é uma música muito bem feita,
- 17:48muito bem resolvida. Por outro lado, quando você
- 17:52olha a música dentro do que ela se propõe, a
- 17:55denunciar, a falar, a tratar, toda vez que ela
- 17:58começa a fazer sentido, é um alarme pra dizer que a
- 18:00gente tá em uma direção estranha. Todo
- 18:03momento que a sociedade tem o bêbio de equilibrista
- 18:05fazendo sentido, é algo que a gente tem que olhar,
- 18:09falar, caramba, o que a gente tá fazendo, que essa
- 18:11música tá ganhando sentido, né? Essa
- 18:13música tem 44 anos, 45 anos daqui a pouco, então
- 18:17eu acho que ela pode funcionar apenas como uma
- 18:19canção e também como um alarme musical, né? Se
- 18:23ela tá fazendo sentido, ou vamos observar o que tá
- 18:26acontecendo na sociedade, né? Ela
- 18:28e algumas outras, mas ela especialmente. Pensando
- 18:31no João Bosco, e acho que automaticamente a gente
- 18:34pensa no João com o áudio, nas posições feitas pra
- 18:37eles, de outras músicas você tem assim em mente,
- 18:41que você considera que são importantes, pra passar
- 18:44alguma mensagem pra que a gente tenha... Pensando
- 18:46em cidadalia, pensando nas questões sociais, tem outras
- 18:51músicas do João Bosco, que eu ouvi que a Elis gravou,
- 18:54que você considera que a gente... Eu
- 18:57acho que Mestre Salad dos Males também trata de um
- 18:59momento histórico interessante, né? O
- 19:02rancho da Aguia Abada, né, que trata dos trabalhadores.
- 19:06Nossa, uma pessoa que sonha com
- 19:08uma Aguia Abada, né? Sonha com uma mulher, uma
- 19:13companheira cuidando dele. Eu
- 19:15acho que, cara, ao dir blanque é um assunto
- 19:20seríssimo, né? Seríssimo. É dos maiores eletristas
- 19:24que podemos encontrar no Brasil, em todos os tempos,
- 19:30né? Então, eu acho que é raro você
- 19:34pensar numa música que não tenha isso, né? Claro,
- 19:37dois pra lá, dois pra cá, trata de algo íntimo, de
- 19:41alguém, com aquele frio, né? Aquele
- 19:45medo, o bandade no calcanhar. Mas
- 19:48também trata do Brasil, né? Você
- 19:50tá falando do whisky com o Garaná, é Brasil demais
- 19:53isso, né? O bandade no calcanhar, quer
- 19:56dizer, você cria, através da letra do Aldeiros, você
- 19:59cria um cenário, assim, e de repente vem um dado
- 20:02real, né? Como se tivesse num sonho e
- 20:05desce uma topada, assim, né? Vem
- 20:08um elemento, sabe? O bandade no calcanhar não
- 20:11tem muito charme, né? E ao mesmo tempo, ali,
- 20:14naquele lugar, ele coloca a canção e a mensagem da
- 20:20canção num outro lugar do ponto de vista de sensação,
- 20:24né? Então, acho que quase tudo do
- 20:26Aldeir tem alguma coisa mais, sempre é uma camada
- 20:30ali mais profunda. Claro, quando você tem altos e
- 20:34baixos dele da sua elicosta, é também o
- 20:36universo íntimo da briga de casal, mas do jeito que é
- 20:39colocado, também poderia ser usado hoje como algo que
- 20:43denuncia violência e tal. Mas
- 20:45especificamente nessa sua pergunta, eu acho que o
- 20:49Rancho da Aguaiabada e Mestre Sala dos Mares,
- 20:52junto com o Bebo da Equilibrista, é algo assim,
- 20:57que traz mensagens fundamentais. Agora,
- 21:00claro, a gente tá falando de um momento político que
- 21:04tava quase explodindo tudo, né? Mestre
- 21:08Sala dos Mares trata de um momento que teve também uma
- 21:11comoção, mas a gente já conheceu a música com
- 21:14distanciamento histórico. E o Bebo da Equilibrista era
- 21:18quase que um rádio ao vivo contando o que a gente
- 21:21tava vivendo. Então, pra quem estava lá, ou pra
- 21:25quem viveu uma reverberação daquela época ali, ganha
- 21:31contornos realistas mais vivos, mais pronunciados. E
- 21:39pensando na melodia, eu li que o João Bosco começou a
- 21:44pensar nessa música sob a morte do Chaplin, e aí tem
- 21:48a citação de Smiley, enquanto que citar uma
- 21:51música do Chaplin nessa melodia e depois a letra
- 21:56que o Altino coloca, quanto que isso casa com todo
- 22:00esse momento, e a melodia o que ela traz de
- 22:03mensagem? Acho que em primeiro lugar tem
- 22:07a função de tocar quem está produzindo a música,
- 22:10quem está criando a música ali. Se
- 22:14você nunca soubesse que essa música foi inspirada
- 22:18no Chaplin, foi logo depois da morte dele e tal, você
- 22:22gostaria igual. Então, nesse caso, eu acho que é
- 22:27irrelevante, né? Pra sensação final que a música
- 22:32causa, porque aí não é sobre o rótulo, não é
- 22:37sobre o Chaplin, é sobre o tipo de valor e o tipo de
- 22:41sentimento, de ideia, de emoção que tem em comum a
- 22:45obra do Chaplin e aquela música inspirada na obra do
- 22:49Chaplin. É como se cada ser humano
- 22:51fosse apenas alguém que carrega e entrega pra
- 22:55próxima geração esse determinado grupo de
- 22:58sentimentos, emoções e também ideias. Então,
- 23:02eu acho que é uma interpretação técnica que
- 23:04depois que tudo passa, você faz e vai juntando os
- 23:09pontos. Pra quem, como você, como eu,
- 23:14nós que trabalhamos com isso, nossa, é verdade,
- 23:18olha isso, e tal, etc. Mas pra quem está ouvindo lá,
- 23:22é irrelevante, né? A relação entre os intervalos
- 23:26das notas, a melodia em si, tudo isso é mais
- 23:29forte, né? Agora, sabendo desse bastidor e
- 23:34quem está ouvindo agora, é claro que encanta, né? Você
- 23:37fala, ah, entendi, então é isso. É
- 23:40muito legal, porque em algum momento, o João citou
- 23:44pro Audir que também, acho que ali era uma pessoa que
- 23:48tinha assistido o Chaplin quando criança, como o
- 23:53Audir, e acho que a partir da conversa, talvez tenha
- 23:56iluminado a cabeça do Audir, ou Audir por si só
- 24:00também era uma pessoa sob um impacto da morte do
- 24:03Chaplin, e quando você está escrevendo, são as
- 24:06inspirações daquele momento ali, o que você está
- 24:10vivendo naquele instante, né? São
- 24:13as inspirações daquele momento, mas tudo se casou
- 24:16muito bem, né? É uma confluência de
- 24:18possibilidades ali, de fatores que, o maravilhoso
- 24:23acaso, um incerto e o súbito juntaram através
- 24:26desse golpe do destino maravilhoso. Para
- 24:30fechar da minha parte, conhecendo no contexto do
- 24:32show Transversal do Tempo, quanto que essa música
- 24:35pesada nesse show e fornava com o repertório em si? Eu
- 24:42acho que essa música, ela foi gravada no álbum
- 24:46seguinte do Transversal do Tempo, né? No
- 24:50Essa Mulher. E o Essa Mulher é um álbum
- 24:54que é muito mais solar e muito mais amplo do ponto
- 25:01de vista emocional, em termos de diversidade, de
- 25:04sentimentos, que o Transversal do Tempo. O
- 25:08Transversal do Tempo era quase que um anti -show,
- 25:12né? Não tinha cenário, as pessoas
- 25:14vestidas como trabalhadores, o cenário era construído,
- 25:22era um Andames fazendo tudo, seria ele de polícia.
- 25:26Então era um show farol fechado,
- 25:30exatamente. Todas essas coisas, né? O
- 25:32passarinho com um proibido cantar, né? Aquela
- 25:35placa de trânsito com o passarinho e proibido, né?
- 25:38Aquele risco transversal ali
- 25:41vermelho. É belíssimo, mas é pesado,
- 25:45porque o momento era pesado, né? Então
- 25:47se fosse uma filmografia, você ia falar, bom, essa é
- 25:50a fase mais pesada da carreira da Ilyse, né? E
- 25:55é porque o momento era assim, né? Era
- 25:57muita dureza, era muito... Tava
- 25:59tudo muito nublado, muito pesado, muito sem esperança,
- 26:05né? Muita preocupação, algum medo.
- 26:10Gera para ter acabado e não
- 26:11acabou, quando é que vai acabar isso e tal. Então
- 26:13eu acho que isso tudo para todos foi uma anti -sala da
- 26:20criação do bebê do equilibrista. Não
- 26:24era o álbum inteiro, essa mulher de 79, como o
- 26:29transversal do tempo, todas as músicas quase uma
- 26:31pancada, né? Tinha momentos, eu em rosa, cai
- 26:36dentro, basta de clamar as inocências, são outros...
- 26:44Ares, né? Exatamente,
- 26:46outros ares. E essa música veio no meio e
- 26:50ela também é curiosa, talvez isso tenha até
- 26:53ajudado na absolvição dela pela censura, que a melodia
- 26:58dela vai te levando, isso vai falando umas coisas
- 27:01super duras e pesadas, um jeito leve, tipo hoje nós
- 27:07vamos todos nos despedir dessa vida, vamos morrer,
- 27:12nossa, o que você está falando? Só
- 27:14que a música da fala ameniza o primeiro impacto
- 27:20do texto, como se fosse uma agulha muito fininha,
- 27:24que atravessa a pele e injeta os medicamentos ali.
- 27:29Então acho que essa beleza que a
- 27:32composição tem, esse lirismo da composição e a prosódia
- 27:36do Aldir, e a poesia toda, né? Tipo
- 27:40falando da estrela fria, o brilho de aroguel e tal.
- 27:46Eu achei curioso, a vida
- 27:48inteira que não tem um proibido, a volta do irmão
- 27:50da Enfio, com tanta gente que partiu. Eu
- 27:53acredito isso, claro, alguma inteligência de quem me
- 27:56levou, choram marias e clarices e tal. E
- 28:00essa parte eu achei curiosa a absolvição pela censura,
- 28:05acho que teve uma habilidade de quem foi lá,
- 28:08etc. Mas creio que a melodia tenha
- 28:13colocado essa mágica, tenha dado essa dispersada e acho
- 28:17que o sensor que estava lá analisando começou a batucar
- 28:20na mesa de trabalho e se deixou levar, porque a
- 28:24melodia realmente é muito bonita, o João Bosco e o
- 28:26Aldir Blanc, que dupla. Agora,
- 28:31deixa com vocês, tem alguma outra memória em relação a
- 28:33essa música, em relação ao João Bosco e a sua
- 28:35sonhinha, alguma coisa que você queira contar? O
- 28:38que me lembro do João Bosco é quando ele foi
- 28:40passar um tempo lá em casa, ele foi mostrar uma
- 28:43música ou um conjunto de músicas, não me lembro
- 28:47exatamente, mas acabou ficando dois dias, né? Não,
- 28:50você não vai embora, você vai ficar aqui e tal, mas
- 28:52eu não tenho roupa, eu vou mandar comprar uma cueca,
- 28:54você vai dormir aí e tal, não vai embora, não. É
- 28:57uma relação com o compositor e com a
- 29:03composição, com aquilo que pode vir, uma relação
- 29:05completamente diferente de tudo que eu conheço. Uma
- 29:10artista como a Elisa precisava de gravar músicas
- 29:14como a gente precisa tomar água em algum momento do
- 29:18dia, ou ir ao banheiro, né? A
- 29:21hora que você realmente quer ir ao banheiro, nada
- 29:24mais importa, você só precisa daquilo. Você
- 29:27para qualquer coisa, você sai de qualquer lugar, você
- 29:29precisa, é fisiológico, né? E
- 29:32creio que pela paixão que ela imprimia era assim, né?
- 29:37Que ela lidava, né? Acaso,
- 29:39né, de ela achar uma música por acidente no
- 29:42final do lado B de uma fita, ou seja, ela ficou
- 29:44ouvindo um lado A inteiro sem nada, um lado B
- 29:49inteiro sem nada. Então isso não é uma pessoa que
- 29:51está a fim de gravar, uma pessoa que precisa gravar,
- 29:53né? Então eu lembro dessa passagem
- 29:56dele em casa e sempre uma figura amorosa com a Elisa
- 30:02e sempre pensando em som e os dois encontraram um
- 30:07jeito próprio de dialogar sobre música e tinham muito
- 30:11respeito intelectual uns pelos outros, né? O
- 30:14Aldeira então não se fala, lembro da Elis, está indo
- 30:17para o teatro e parar na casa do Aldeira para ver
- 30:20se ele estava bem, uma vez a mãe dele também estava
- 30:22doente, ela parou no hospital para rezar com ela
- 30:25lá e tal, e ajudou muito a mãe dela. O
- 30:28próprio Aldeira falou, eu sou ateu, mas alguma coisa
- 30:30aconteceu ali. O Aldeira não é o máximo,
- 30:33né? A gente indo a casa dele. O
- 30:34Aldeira, graças a Deus, não conviso de nem algum droga.
- 30:38O Aldeira era meio nessa
- 30:39praia, né? Eu lembro também da Elisa indo
- 30:41a casa dele e preocupada com o fato dele comer
- 30:43muito pouco e dormir pouco e estar sempre mais
- 30:47gérrimo, né? Eu lembro que a primeira vez
- 30:49que viu o Aldeira me chamou a atenção, assim, a
- 30:50magreza e uma cor meio esverdeada da face dele,
- 30:54assim, né? Então um pouco sol e livro,
- 30:57livro, livro, livro, você entrava na casa dele e
- 30:59cara, era um corredor de livros, assim, é uma
- 31:01loucura. Uma relação sempre que foi
- 31:04muito bacana, assim, entre eles. O
- 31:06César Mariano também trabalhou com o João Bosco
- 31:08em alguns álbuns. Depois da morte da Elisa, eles
- 31:11tocaram juntos e montou. Então
- 31:14era uma relação muito bonita entre atriz e
- 31:18roteirista, entre cantora e compositor, né? E
- 31:22o João, logo depois da morte da Elisa, eu gravei
- 31:24com ele no álbum Comissão de Frente. Foi
- 31:27o meu primeiro trabalho profissional. Ele
- 31:29foi muito generoso, ele falou, poxa. O
- 31:32João está toda hora aí. O João veio no estúdio, desde
- 31:34que eu me entendo por gente, o João está aí no
- 31:35estúdio. Vamos deixar ele gravar. Você
- 31:37está a fim, João, to, to, to. Aí
- 31:38gravei lá, fiz back in vocals e gravei. Toquei
- 31:41percussão, foi para mim mágico. Então
- 31:43eu tenho ele em um lugar especial do meu coração e
- 31:47no panteão da música brasileira, sem dúvida. Você
- 31:50lembra que idade que você tinha quando viu o João
- 31:55com sua mãe a primeira vez, assim? Ah,
- 31:57que eu me lembre, assim, eu tinha 4, 5 anos, assim,
- 32:00eu creio, né? Só via data do primeiro disco
- 32:04que eles gravaram e veio 6 meses antes, né? Eu
- 32:08morava aqui em São Paulo, quando eu me lembro de ter
- 32:10visto a primeira vez, na rua Califórnia, no Brooklyn.
- 32:15Eu me lembro também que eu
- 32:16falava quando eu estava por aí e tal. Já
- 32:20tinha mudado de lá. Onde você morava antes de vir
- 32:22para cá? Ah, eu morava na Califórnia. É
- 32:24mesmo, que legal, ficava quieto, né? Aí,
- 32:27na outra época, eu morava no Brooklyn. Nossa,
- 32:30no Brooklyn, né? Eu ficava quieto, né?
- 32:35Deliciosas lembranças. Ah,
- 32:36criança, não gosta de perder, né? Sente
- 32:39uma oportunidade de contar alguma coisa que encante
- 32:42aos outros, né? É isso aí. Obrigado,
- 32:47é um prazer. E parabéns pelo seu trabalho,
- 32:49porque essa obra toda tem tanta coisa boa do Brasil
- 32:53que nossa, precisa de ser lembrada, de ser reescutada,
- 33:00de ser interpretada. Depois de ouvir João Bosco no
- 33:07primeiro episódio e João Marcelo Bosco lhe neste, no
- 33:11próximo capítulo deste Retrato Cantado, nossa
- 33:14conversa é com o jornalista e pesquisador musical Silvio
- 33:18Essinger. Até lá! Eu
- 33:22fico encantado com o tipo de trabalho que você faz,
- 33:25porque é uma amizade que parece que as pessoas
- 33:30desenvolvem com a música, eu sempre falava isso do
- 33:32Fernando Faro, né? Ele não era cantor, não era
- 33:35músico e, ao mesmo tempo, um dos melhores amigos que
- 33:40a música já teve, né? Então,
- 33:42isso, esse trabalho é muita paixão, muita devoção e eu
- 33:45tenho muito respeito por isso. Obrigado.