Latest / Devaneios de uma Bruxa Solitária / A roupa da bruxa | Ep07
Transcript
- 0:04SPEAKER_00: Olá a todas as bruxas do meu jardim,
- 0:07SPEAKER_00: sejam bem-vindos ao episódio 7 do podcast de banais de uma bruxa solitária.
- 0:13SPEAKER_00: E o tema de hoje tem a ver com a roupa da bruxa ou aquilo que a bruxa deve
- 0:21SPEAKER_00: ou não deve vestir para ser bruxa.
- 0:26SPEAKER_00: E porquê deste tema?
- 0:28SPEAKER_00: Há uns dias,
- 0:30SPEAKER_00: há uns dias,
- 0:31SPEAKER_00: há algumas semanas, Eu vi,
- 0:34SPEAKER_00: eu tenho visto,
- 0:35SPEAKER_00: até tenho visto isso nos últimos anos,
- 0:38SPEAKER_00: uma estética,
- 0:39SPEAKER_00: uma determinada estética que tem a ver com aquilo que a bruxa ou a pessoa veste e
- 0:48SPEAKER_00: que lhe vai dizer se ela é ou não bruxa,
- 0:51SPEAKER_00: estar ou não encodrado num grupo,
- 0:54SPEAKER_00: pertencer ou não num grupo, para ser considerada bruxa.
- 0:58SPEAKER_00: Então eu tenho visto aqui,
- 1:00SPEAKER_00: na verdade,
- 1:02SPEAKER_00: Três tipos de estéticas,
- 1:03SPEAKER_00: mas eu tive esta ideia ou pensei em falar sobre este tema a partir de
- 1:11SPEAKER_00: uma determinada estética que é a estética medieval.
- 1:15SPEAKER_00: Não sei se vocês já viram que há aí uma estética de um monte de mulheres,
- 1:21SPEAKER_00: principalmente de bruxas,
- 1:23SPEAKER_00: que se vestem com aquelas roupas consideradas medievais,
- 1:29SPEAKER_00: mas não é qualquer roupa medieval.
- 1:31SPEAKER_00: É a roupa, a meu ver, típica de quem era mais camponesa, não é?
- 1:38SPEAKER_00: Portanto,
- 1:38SPEAKER_00: aquelas saias compridas até aos pés,
- 1:40SPEAKER_00: depois tem um corpete que vai por cima de uma outra blusa e faz todo um conjunto,
- 1:46SPEAKER_00: ou faz todo um parecer,
- 1:48SPEAKER_00: esse estilo medieval,
- 1:50SPEAKER_00: romantizando essa época em que as camponesas,
- 1:56SPEAKER_00: a bruxaria em si,
- 2:00SPEAKER_00: ela Afasta-se completamente da alta magia,
- 2:05SPEAKER_00: da magia cerimonial,
- 2:06SPEAKER_00: justamente porque,
- 2:07SPEAKER_00: nessa altura,
- 2:09SPEAKER_00: as mulheres não podiam ser bruxas ou não podiam praticar magia,
- 2:13SPEAKER_00: mas quem estava dentro das sociedades secretas ou quem praticava alta magia ou,
- 2:19SPEAKER_00: melhor dizendo,
- 2:20SPEAKER_00: quem tinha acesso a determinados grupos, livros, etc.,
- 2:25SPEAKER_00: é que poderia praticar magia ou poderia ter acesso ou poderia estar Em grupos
- 2:32SPEAKER_00: que praticavam magia.
- 2:34SPEAKER_00: Então, quem praticava magia dentro da bruxaria,
- 2:39SPEAKER_00: de uma forma mais terrena,
- 2:41SPEAKER_00: seriam as bruxas,
- 2:41SPEAKER_00: as mulheres camponesas,
- 2:43SPEAKER_00: que não tinham esse termo de bruxa, a não ser na Inquisição, claro.
- 2:49SPEAKER_00: Então, as mulheres que tinham alguns saberes,
- 2:52SPEAKER_00: e quero a dizer,
- 2:54SPEAKER_00: que cozinhavam,
- 2:55SPEAKER_00: que juntavam plantas,
- 2:57SPEAKER_00: que sabiam que esta planta fazia bem a isto e aquilo e aquilo,
- 3:00SPEAKER_00: Porque vamos relembrar que nessa altura não existia a medicina tão desenvolvida
- 3:04SPEAKER_00: como hoje.
- 3:05SPEAKER_00: Então, hoje nós temos aqui na nossa casa uma série de medicamentos de pílulas
- 3:10SPEAKER_00: que nós utilizamos para, por exemplo, uma dor de cabeça.
- 3:15SPEAKER_00: Naquela altura não existia isto.
- 3:17SPEAKER_00: Então, o que é que restava?
- 3:18SPEAKER_00: As plantas.
- 3:21SPEAKER_00: Então, era muito comum vermos as mulheres,
- 3:25SPEAKER_00: pelo próprio papel da mulher,
- 3:28SPEAKER_00: e não vamos entrar muito nessa parte,
- 3:30SPEAKER_00: Mas pela constituição da sociedade em si,
- 3:33SPEAKER_00: as mulheres estavam sempre com a barriga no fogão, como eu costumo chamar.
- 3:37SPEAKER_00: Então é muito comum que as mulheres,
- 3:41SPEAKER_00: a única coisa,
- 3:42SPEAKER_00: se elas não tinham acesso a livros XPTO,
- 3:45SPEAKER_00: do autor XPTO,
- 3:46SPEAKER_00: se não tinham acesso a determinados grupos e tal coisa,
- 3:50SPEAKER_00: era muito comum,
- 3:51SPEAKER_00: Vermos mulheres a utilizarem daquilo que estava à sua volta e que as rodeava
- 3:57SPEAKER_00: para fazer a sua própria alquimia, a sua própria magia.
- 4:02SPEAKER_00: Então eu acho curioso trazerem este estilo medieval romantizando,
- 4:11SPEAKER_00: sendo que muitas vezes esta mulher bruxa Precisava de esconder aquilo que ela estava
- 4:17SPEAKER_00: a fazer,
- 4:18SPEAKER_00: porque senão, vocês já sabem o que é que acontecia, lá ia ela, bonitinha, não é?
- 4:22SPEAKER_00: Toda alegre e contente para a fogueira, só que não.
- 4:25SPEAKER_00: Portanto,
- 4:26SPEAKER_00: nós vemos este estilo medieval e foi este estilo medieval
- 4:30SPEAKER_00: que me fez trazer este tema aqui para refletir.
- 4:34SPEAKER_00: Outro, é estético, não é?
- 4:38SPEAKER_00: Outro estético é o preto.
- 4:41SPEAKER_00: A roupa preta, mas não é qualquer estética.
- 4:45SPEAKER_00: Dentro da estética do preto,
- 4:47SPEAKER_00: nós temos a versão gótica punk, sei lá,
- 4:50SPEAKER_00: que não me chamar porque eu não vou muito pelos nomes técnicos,
- 4:53SPEAKER_00: mas vocês imaginam o estilo que eu estou-me a referir.
- 5:01SPEAKER_00: Eu acho que vem muito dos anos 90, depois eu vou falar um bocadinho mais sobre isto,
- 5:09SPEAKER_00: Mas tem essa estética de que todas as bruxas ou todas as pessoas que trabalham
- 5:13SPEAKER_00: com bruxaria ou com magia, seja lá o que for, têm que se vestir de preto.
- 5:17SPEAKER_00: Então já são dois estilos, não é?
- 5:20SPEAKER_00: Todas as bruxas que são bruxas naturais ou bruxas verdes ou bruxas que trabalham com
- 5:24SPEAKER_00: os elementos e tal e tal e tal,
- 5:26SPEAKER_00: trabalham e têm que usar aquela roupa do estilo medieval.
- 5:30SPEAKER_00: Têm que ter a casa sempre a secar as ervinhas todas e têm
- 5:33SPEAKER_00: que ter aquelas coisinhas todas medievais, não é?
- 5:36SPEAKER_00: Ao estilo medieval.
- 5:37SPEAKER_00: E depois temos a estética do preto,
- 5:40SPEAKER_00: em que a bruxa que trabalha com o demónio,
- 5:41SPEAKER_00: com o sertanejo e tal e coisa, então tem que ser vestido preto.
- 5:46SPEAKER_00: E tem que usar determinados elementos também.
- 5:49SPEAKER_00: Ainda há uma outra estética que não está propriamente dentro da bruxaria em si,
- 5:56SPEAKER_00: mas que acomete a espiritualidade de uma forma geral,
- 6:00SPEAKER_00: que é o branco, que nos dizem...
- 6:06SPEAKER_00: Para tu sejas iluminado ou para tu só trabalhares
- 6:09SPEAKER_00: com determinadas energias mais elevadas,
- 6:14SPEAKER_00: tens que usar o branco,
- 6:16SPEAKER_00: porque quem usa branco é iluminado,
- 6:18SPEAKER_00: quem usa branco só trabalha com energias do bem, com anjos e tal e coisa, certo?
- 6:22SPEAKER_00: Portanto,
- 6:23SPEAKER_00: aqui eu sei que o branco não está propriamente dentro desta,
- 6:28SPEAKER_00: da bruxaria em si,
- 6:29SPEAKER_00: ou da temática da bruxaria,
- 6:32SPEAKER_00: mas o branco também É usado como uma forma de,
- 6:38SPEAKER_00: ou melhor,
- 6:39SPEAKER_00: vestir branco,
- 6:40SPEAKER_00: vestir branco, é usado como uma forma de mostrar se tu és ou não espiritualizado.
- 6:47SPEAKER_00: Agora, o ponto aqui comum e que coincide com estas três estéticas,
- 6:54SPEAKER_00: e eu não sei se vocês se lembram de mais alguma estética,
- 6:59SPEAKER_00: alguma cor, algum tipo de De roupa que tem que se vestir.
- 7:06SPEAKER_00: Mas o ponto comum aqui é que
- 7:12SPEAKER_00: o facto de se vestir de determinada forma não significa
- 7:15SPEAKER_00: que a pessoa seja de facto espiritualizada.
- 7:19SPEAKER_00: Não significa que a pessoa de facto pratique bruxaria.
- 7:22SPEAKER_00: E não significa que de facto a pessoa é aquilo que ela prega ser.
- 7:28SPEAKER_00: Certo?
- 7:28SPEAKER_00: É o ponto comum.
- 7:30SPEAKER_00: Então,
- 7:33SPEAKER_00: Eu comecei a perceber ou a refletir sobre esta temática a partir
- 7:39SPEAKER_00: do meu próprio incómodo ao perceber que eu não uso preto
- 7:46SPEAKER_00: ou eu não uso somente preto.
- 7:50SPEAKER_00: Então eu não tenho propriamente as roupas,
- 7:53SPEAKER_00: pensei eu,
- 7:56SPEAKER_00: há uns anos que eu comecei a perceber há uns anos,
- 7:59SPEAKER_00: depois da pandemia,
- 8:01SPEAKER_00: do Covid, Ou seja, depois de 2020, é que eu comecei a perceber isto na roupa preta.
- 8:06SPEAKER_00: E eu não o visto preto.
- 8:07SPEAKER_00: Será que eu sou menos bruxa do que os outros?
- 8:14SPEAKER_00: Mas também não tenho as roupas no estilo medieval, não é?
- 8:20SPEAKER_00: E também eu não sou propriamente a pessoa mais gratiluz para só vestir branco,
- 8:25SPEAKER_00: embora eu tenha roupa branca,
- 8:27SPEAKER_00: sei lá, na altura eu gosto da roupa e compro aquela roupa.
- 8:31SPEAKER_00: Mas eu sou aquela bruxa e eu vi isto há muitos meses,
- 8:35SPEAKER_00: já para isto,
- 8:36SPEAKER_00: deve ter já dois anos talvez,
- 8:39SPEAKER_00: eu vi uma moça no TikTok que dizia que não estava a fazer queixa,
- 8:45SPEAKER_00: mas estava meio que a desabafar que ela não consegue replicar esse estilo
- 8:52SPEAKER_00: de usar preto,
- 8:52SPEAKER_00: ela falou especificamente sobre usar o preto,
- 8:56SPEAKER_00: porque ela gosta de cores e eu identifiquei-me com aquilo.
- 9:01SPEAKER_00: Com o que ela estava,
- 9:01SPEAKER_00: com aquele desabafo,
- 9:03SPEAKER_00: com o que ela estava ali a dizer,
- 9:04SPEAKER_00: eu não sou propriamente a bruxa que veste só preto,
- 9:09SPEAKER_00: eu sou aquela bruxa que veste maioritariamente cores,
- 9:13SPEAKER_00: que gosta de,
- 9:14SPEAKER_00: às vezes eu gosto de andar com as sombras nos olhos,
- 9:17SPEAKER_00: a maquilhagem colorida,
- 9:19SPEAKER_00: gosto de andar com umas unhas coloridas,
- 9:21SPEAKER_00: umas unhas assim neon, cor de rosa neon, um amarelo, um laranja, eu sou essa bruxa.
- 9:29SPEAKER_00: Eu sou a bruxa que gosta de andar ou que gosta até de ter a casa pintada
- 9:34SPEAKER_00: com cada cómodo com a sua cor.
- 9:37SPEAKER_00: Eu sou essa bruxa.
- 9:38SPEAKER_00: Então, vou-vos dar o exemplo.
- 9:40SPEAKER_00: A minha sala está pintada com três cores.
- 9:42SPEAKER_00: Branco, em duas paredes.
- 9:44SPEAKER_00: A cor brigela,
- 9:45SPEAKER_00: que é uma espécie de roxo,
- 9:50SPEAKER_00: mas a prender para o rosa, mas que nem é uma cor nem é outra.
- 9:54SPEAKER_00: E tem amarelo na outra parede.
- 9:57SPEAKER_00: Então, É uma casa que reflete cores e não está toda pintada nem só de branco nem só de preto.
- 10:09SPEAKER_00: Então às vezes nós
- 10:15SPEAKER_00: olhamos para aquilo que os outros fazem ou que mostram e eu acho
- 10:21SPEAKER_00: que já fiz um outro episódio falar não sobre a parte da roupa em si,
- 10:25SPEAKER_00: da estética da roupa, mas sobre a estética
- 10:29SPEAKER_00: Que aparece muito nas redes sociais é que às vezes nós olhamos para essa estética
- 10:35SPEAKER_00: e não nos identificamos com essa estética porque nós não somos assim.
- 10:40SPEAKER_00: Então eu percebi que não correspondia a nenhuma estética para ser
- 10:47SPEAKER_00: ou tipicamente considerada mais bruxesca.
- 10:50SPEAKER_00: Agora, vocês vão ver aqui barulho porque há os meus apontamentos, certo?
- 10:55SPEAKER_00: Que eu ontem parei para refletir sobre esta temática que eu já queria falar há um tempo.
- 11:01SPEAKER_00: Então, se nós olharmos para trás e percebermos onde é que isto vem,
- 11:07SPEAKER_00: porque se,
- 11:08SPEAKER_00: de forma lógica ou mais racional,
- 11:10SPEAKER_00: se nós tirarmos um tempinho para refletirmos sobre a temática,
- 11:14SPEAKER_00: nós vamos perceber que o estilo medieval que está aí tão em voga E que
- 11:21SPEAKER_00: as pessoas adoram as férias medievais e tal coisa.
- 11:25SPEAKER_00: Na verdade,
- 11:26SPEAKER_00: só vem refletir esta romantização e se nós olharmos para trás,
- 11:33SPEAKER_00: eu não acredito que uma bruxa,
- 11:38SPEAKER_00: uma bruxa que tenha vivido de facto na Era Medieval,
- 11:44SPEAKER_00: É muito pouco provável que ela tivesse Grimório,
- 11:47SPEAKER_00: é muito pouco provável que ela tivesse Livro das Sombras,
- 11:50SPEAKER_00: é muito pouco provável que ela tivesse os apetrechos todos para,
- 11:55SPEAKER_00: somente para trabalhar com a bruxaria,
- 11:56SPEAKER_00: porque a bruxaria é esta bruxaria mais quotidiana que eu defendo,
- 12:02SPEAKER_00: essa bruxaria mais, como se diz, raiz, não é?
- 12:06SPEAKER_00: Em que a pessoa vive a bruxaria,
- 12:08SPEAKER_00: portanto não é só no momento de fazer o ritual ou só no momento de Há toda
- 12:16SPEAKER_00: uma sincronicidade que acontece na vida da própria mulher que ela vai juntando,
- 12:24SPEAKER_00: agregando,
- 12:26SPEAKER_00: acrescentando, fundindo, misturando, mesclando a bruxaria na sua própria vida.
- 12:32SPEAKER_00: E está no fazer o chá, está em ter uma horta e colher a planta.
- 12:38SPEAKER_00: Nos nossos dias mais modernos, a maioria provavelmente não vai ter horta.
- 12:42SPEAKER_00: Então nós vamos a uma ervanária,
- 12:44SPEAKER_00: por exemplo,
- 12:45SPEAKER_00: e vamos comprar uma série de ervas para termos em casa,
- 12:49SPEAKER_00: nos nossos frasquinhos, por exemplo.
- 12:53SPEAKER_00: E está mais no dia-a-dia de eu sair,
- 12:55SPEAKER_00: depois de lavar a louça,
- 12:56SPEAKER_00: de arrumar a cozinha,
- 12:57SPEAKER_00: sei lá, à noite, vou olhar para o céu e vou ver, olha, está a lua cheia.
- 13:02SPEAKER_00: E vai haver momentos em que, nesta lua cheia, eu quero fazer um ritual.
- 13:07SPEAKER_00: Então eu vou seguir as fases da lua,
- 13:11SPEAKER_00: De uma forma mais tecnológica e vou perceber que neste dia vai acontecer
- 13:16SPEAKER_00: a lua cheia,
- 13:16SPEAKER_00: que vai estar neste signo assim assim,
- 13:18SPEAKER_00: ou nesta casa assim assim,
- 13:19SPEAKER_00: que vai ter esta conjunção assim assado e vou-vos preparar todo
- 13:23SPEAKER_00: o ritual nesta altura.
- 13:26SPEAKER_00: Então é-nos mais fácil ter estas informações,
- 13:31SPEAKER_00: mas ao mesmo tempo tem muita prática cotidiana, de coisas cotidianas.
- 13:38SPEAKER_00: Eu sei que vai haver chuva ou tempestade na próxima semana,
- 13:42SPEAKER_00: lá vou eu fazer a minha água de tempestade.
- 13:44SPEAKER_00: Eu sei que vai estar,
- 13:46SPEAKER_00: que não vai,
- 13:47SPEAKER_00: aqui no caso onde eu vivo,
- 13:49SPEAKER_00: que essa lua cheia,
- 13:51SPEAKER_00: eu vou conseguir de facto ver a lua cheia porque não está novelado,
- 13:53SPEAKER_00: porque não está a chover, sei lá,
- 13:54SPEAKER_00: porque não está no voeiro e tal,
- 13:56SPEAKER_00: então eu vou colocar,
- 13:58SPEAKER_00: eu quero fazer uma água de lua cheia,
- 14:00SPEAKER_00: então eu vou colocar a água na lua cheia porque eu sei que não vai estar a chover,
- 14:05SPEAKER_00: que não vai estar e que eu não quero apanhar a água da chuva em si.
- 14:09SPEAKER_00: Então há uma série de coisinhas que nós fazemos no cotidiano,
- 14:15SPEAKER_00: nem que seja a forma como se limpa,
- 14:19SPEAKER_00: a forma como se lava a roupa,
- 14:22SPEAKER_00: há muitas coisas que nós fazemos no cotidiano que não estão dependentes e
- 14:26SPEAKER_00: que não é programado,
- 14:30SPEAKER_00: digamos assim,
- 14:30SPEAKER_00: para fazer um ritual assim, assim, assado, porque tem que ser assim, assim, assado.
- 14:35SPEAKER_00: Então, estas coisinhas e esta estética,
- 14:40SPEAKER_00: ou de ter que vestir um estilo mais gótico,
- 14:43SPEAKER_00: porque depois dentro do estilo gótico,
- 14:46SPEAKER_00: ou do estilo vestido preto,
- 14:48SPEAKER_00: há aquele preto mais punk,
- 14:49SPEAKER_00: aquele preto mais ousado,
- 14:52SPEAKER_00: mais ousado no sentido rebelde,
- 14:54SPEAKER_00: desrepetivo,
- 14:56SPEAKER_00: que automaticamente a pessoa olha e já se vê
- 14:59SPEAKER_00: que essa pessoa Não vai muito nas caixinhas ou na forma, nas formas, não
- 15:08SPEAKER_00: Mas também tem aquela estética dentro do preto em que é muito sensual, é muito sensual.
- 15:17SPEAKER_00: É aquela mulher que usa o preto e está conectada com o Dark Feminine, enfim,
- 15:24SPEAKER_00: o meu sotaque é maravilhoso,
- 15:27SPEAKER_00: o inglês é maravilhoso, mas o feminino mais sombrio, não é?
- 15:32SPEAKER_00: Também há essa estética dentro do próprio preto.
- 15:37SPEAKER_00: E de onde é que isto vem?
- 15:39SPEAKER_00: Vocês já sabem,
- 15:39SPEAKER_00: porque nós já tivemos esta conversa num outro episódio de Hollywood,
- 15:44SPEAKER_00: dos filmes,
- 15:45SPEAKER_00: das séries,
- 15:48SPEAKER_00: desse imaginário que ficou e que foi construído a partir,
- 15:54SPEAKER_00: acredito eu,
- 15:55SPEAKER_00: dos anos 90,
- 15:56SPEAKER_00: mas provavelmente deve ter alguma coisa anterior também,
- 15:59SPEAKER_00: mas eu Percebo dos anos 90,
- 16:02SPEAKER_00: que é mais a minha época,
- 16:05SPEAKER_00: e
- 16:07SPEAKER_00: o que nós vemos é essa construção do imaginário bruxesco de uma determinada forma.
- 16:16SPEAKER_00: E já falei também aqui num outro episódio sobre os filmes,
- 16:19SPEAKER_00: por exemplo, agora vai entrar, está muito falado, está muito trend, não é?
- 16:24SPEAKER_00: Está muito viral falar sobre o The Practical Magical, acho que é esse o termo.
- 16:30SPEAKER_00: Eu sou péssima para nomes, mas acho que é esse o nome.
- 16:33SPEAKER_00: O segundo, porque o primeiro é lá dos anos 90.
- 16:36SPEAKER_00: E a estética delas,
- 16:38SPEAKER_00: da Sandra Bullock com a Nicole Kidman,
- 16:42SPEAKER_00: é isso, é uma estética daquela bruxa mais boazinha.
- 16:50SPEAKER_00: É a estética da bruxa que,
- 16:53SPEAKER_00: não sei se vocês têm essa mesma percepção que eu tenho,
- 16:56SPEAKER_00: Mas é a estética daquela bruxa
- 17:01SPEAKER_00: que faz sim os seus rituais,
- 17:04SPEAKER_00: os seus feitiços, mas ela não é a bruxa que tem o nariz comprido.
- 17:11SPEAKER_00: Por exemplo,
- 17:13SPEAKER_00: a bruxa da Branca de Neve,
- 17:14SPEAKER_00: que eu me lembro,
- 17:14SPEAKER_00: a bruxa da Branca de Neve tinha aquele nariz comprido e tinha as verrugas
- 17:20SPEAKER_00: e era verde e era toda descabelada porque sempre, sempre, é engraçado, não é?
- 17:27SPEAKER_00: Antes de começar aqui a fazer o episódio,
- 17:29SPEAKER_00: estava a ver aqui e apareciam dois vídeos,
- 17:31SPEAKER_00: no TikTok também, que falavam justamente sobre o cabelo da bruxa.
- 17:35SPEAKER_00: O cabelo da bruxa.
- 17:36SPEAKER_00: Em praticamente,
- 17:37SPEAKER_00: eu não posso dizer todos,
- 17:38SPEAKER_00: porque eu não assisti todos os filmes de bruxas,
- 17:39SPEAKER_00: mas praticamente todos os filmes ou séries,
- 17:42SPEAKER_00: ou seja o que for,
- 17:43SPEAKER_00: a bruxa,
- 17:44SPEAKER_00: o cabelo da bruxa é sempre selvagem,
- 17:47SPEAKER_00: ou encaracolado,
- 17:49SPEAKER_00: ou frisado,
- 17:50SPEAKER_00: isso tem uma evolução,
- 17:52SPEAKER_00: trouxe uma evolução,
- 17:53SPEAKER_00: claramente,
- 17:54SPEAKER_00: para dar a entender,
- 17:55SPEAKER_00: porque também tem a questão de O cabelo mais encaracolado
- 17:58SPEAKER_00: o cabelo mais crespo é mau,
- 18:01SPEAKER_00: e podemos entrar aqui sobre muitas perspetivas relativamente a isto,
- 18:05SPEAKER_00: e o cabelo liso, domado, domesticado é o cabelo bom, não é?
- 18:10SPEAKER_00: Então isso ficou atrelado também à bruxa,
- 18:14SPEAKER_00: a bruxa que é fora,
- 18:16SPEAKER_00: a bruxa faz coisas que não são supostas estarem a fazer,
- 18:20SPEAKER_00: não é suposto estar,
- 18:21SPEAKER_00: a bruxa não é suposto,
- 18:21SPEAKER_00: não sei se o português ficou bom,
- 18:23SPEAKER_00: mas enfim, não é suposto a bruxa estar a fazer aquilo.
- 18:26SPEAKER_00: Não é suposto aquela mulher estar a fazer aquilo.
- 18:28SPEAKER_00: E por ela estar a fazer uma coisa que não é suposto ela estar a fazer, é bruxa.
- 18:32SPEAKER_00: Então, para se caracterizar esta ideia de aquela mulher é rebelde,
- 18:41SPEAKER_00: aquela mulher sai fora do que é esperado, caracteriza-se também no cabelo.
- 18:47SPEAKER_00: Então, mulheres com o frizz.
- 18:50SPEAKER_00: Então, há tem dias que eu seria a bruxa desloucada,
- 18:53SPEAKER_00: porque eu tenho o cabelo encaracolado, não é?
- 18:56SPEAKER_00: De vez em quando o cabelo tem vida própria e eu parece literalmente que tenho 3
- 19:01SPEAKER_00: ou 4 cabelos em cima.
- 19:03SPEAKER_00: Ele fica muito frisado e muito volumoso.
- 19:08SPEAKER_00: E vocês,
- 19:09SPEAKER_00: aqui dava para nós construirmos outra camada,
- 19:12SPEAKER_00: que não vamos entrar aqui no nosso tema,
- 19:14SPEAKER_00: mas vocês estão a perceber para onde é que eu quero levar isto,
- 19:17SPEAKER_00: onde é que eu quero levar com esta parte,
- 19:19SPEAKER_00: com esta camada que eu não quero entrar,
- 19:21SPEAKER_00: mas que estou-vos a levar para lá, para vocês perceberem.
- 19:25SPEAKER_00: Então é também considerado o cabelo encaraculado,
- 19:28SPEAKER_00: frisado, claro, e o cabelo crespo, o cabelo mau.
- 19:33SPEAKER_00: Tanto é que eu,
- 19:34SPEAKER_00: enquanto uma criança,
- 19:36SPEAKER_00: criança adolescente nos anos 90, o que eu mais ouvia era que o meu cabelo era mau.
- 19:42SPEAKER_00: Porque o meu cabelo não era domado e não existiam produtos
- 19:45SPEAKER_00: para cabelos encaraculados ou crespos como existe agora.
- 19:49SPEAKER_00: Houve ali um boom,
- 19:50SPEAKER_00: acredito que depois de 2016, 2018,
- 19:58SPEAKER_00: acredito que tenha havido ali um boom de produtos para cabelos crespos,
- 20:03SPEAKER_00: encaraculados, cacheados, não é?
- 20:05SPEAKER_00: Enfim.
- 20:06SPEAKER_00: Mas, nos anos 90, tenho-vos a dizer, minhas caras companheiras de caminhada, não é?
- 20:13SPEAKER_00: Que era uma desgraça.
- 20:15SPEAKER_00: Uma desgraça.
- 20:15SPEAKER_00: Eu usava o gel masculino,
- 20:19SPEAKER_00: Na altura para homens espetarem o cabelo,
- 20:25SPEAKER_00: porque aqui em Portugal,
- 20:27SPEAKER_00: pelo menos daquilo que eu me lembro,
- 20:29SPEAKER_00: da minha bolha e daquilo que eu me lembro,
- 20:32SPEAKER_00: era eu a moça, a mulher, a miúda de cabelos encaracolados.
- 20:35SPEAKER_00: Não existia o cabelo cacheado, não existia mais ninguém de cabelo cacheado.
- 20:39SPEAKER_00: Ainda por cima tinha o cabelo castanho a pender para o preto.
- 20:42SPEAKER_00: Portanto, o castanho escuro a pender para o preto.
- 20:46SPEAKER_00: Portanto, Era, saía completamente fora do padrão que estava aqui estipulado.
- 20:53SPEAKER_00: E ainda tinha, eu era rebelde, eu era contra, eu era a do contra.
- 20:59SPEAKER_00: Então,
- 21:02SPEAKER_00: uma estética que foi construída no imaginário das pessoas traz também para
- 21:08SPEAKER_00: a nossa realidade e vocês sabem onde é que eu quero chegar com isto, certo?
- 21:12SPEAKER_00: Pronto.
- 21:13SPEAKER_00: Agora,
- 21:16SPEAKER_00: Olhando aqui para os meus apontamentos,
- 21:18SPEAKER_00: eu já falei aqui da verdadeira época medieval,
- 21:21SPEAKER_00: que é pouquíssimo provável que as nossas antepassadas,
- 21:24SPEAKER_00: as nossas ancestrais,
- 21:27SPEAKER_00: usassem ou se preocupassem com a bruxa,
- 21:29SPEAKER_00: na verdade era só o traje,
- 21:30SPEAKER_00: a roupa que a mulher usava no seu dia-a-dia,
- 21:33SPEAKER_00: camponesa,
- 21:33SPEAKER_00: muito provavelmente,
- 21:34SPEAKER_00: porque como já falamos,
- 21:35SPEAKER_00: era pouquíssimo provável que uma camponesa tivesse acesso aos mesmos livros do que
- 21:43SPEAKER_00: O homem branco rico, não é?
- 21:45SPEAKER_00: Pronto, é pouquíssimo provável.
- 21:47SPEAKER_00: E acho que uma exceção, que pode ter sido ali uma exceção, Blavatsky, não é?
- 21:55SPEAKER_00: Que branca rica, abastada, casou-se muito cedo sim, porque não deixava de ser uma mulher, não é?
- 22:01SPEAKER_00: Mas teve a oportunidade de viajar para o Oriente para trazer,
- 22:05SPEAKER_00: mesmo que muito modificado, a sabedoria do Oriente.
- 22:08SPEAKER_00: Mas enfim, portanto...
- 22:11SPEAKER_00: Nós já sabemos que as nossas ancestrais não tinham e não tinham oportunidade
- 22:17SPEAKER_00: de fazer aquilo que agora parece que é uma regra.
- 22:20SPEAKER_00: Toda a gente tem que vestir esta roupa,
- 22:22SPEAKER_00: toda a gente tem que ter estes equipamentos,
- 22:23SPEAKER_00: toda a gente tem que fazer isto assim e assim,
- 22:25SPEAKER_00: toda a gente tem que não sei o quê e parece que há uma...
- 22:29SPEAKER_00: tanto querem sair do sistema que continuam A replicar essa formatação de que,
- 22:35SPEAKER_00: sendo bruxa, tu tens de ser isto.
- 22:37SPEAKER_00: Sendo desta religião, tens de fazer aquilo.
- 22:39SPEAKER_00: Sendo daquela religião, tens de fazer aquilo.
- 22:41SPEAKER_00: Se adorares ou se fores devota,
- 22:44SPEAKER_00: décate de Lúcifer,
- 22:45SPEAKER_00: de sei lá o quê, tens de fazer isso, cair desta regrinha assim, assim, assim, assim.
- 22:50SPEAKER_00: Porque se for ao contrário, está errado.
- 22:53SPEAKER_00: Não está certo.
- 22:55SPEAKER_00: Portanto, tanto querem fugir do sistema que continuam a cair na armadilha do sistema.
- 22:59SPEAKER_00: E isto não quer dizer que eu não caia também, porque...
- 23:03SPEAKER_00: Um despiro que sumiu muito grande em 2024 foi perceber que mesmo
- 23:08SPEAKER_00: que eu queira esse sistema, nós fazemos parte do sistema.
- 23:12SPEAKER_00: Talvez seja a temática para outro episódio.
- 23:19SPEAKER_00: O que eu tenho aqui nos meus apontamentos,
- 23:20SPEAKER_00: se considerarmos que o preto,
- 23:22SPEAKER_00: ou o preto como estilo da bruxa, vamos voltar aos anos 90, que eu já falei, não é?
- 23:27SPEAKER_00: E é um estilo gótico e que cria esta ideia comercial sobre o que é ser bruxa.
- 23:34SPEAKER_00: Portanto,
- 23:35SPEAKER_00: como tudo,
- 23:36SPEAKER_00: se vocês começarem a ver,
- 23:38SPEAKER_00: isto é uma regra que eu tenho,
- 23:39SPEAKER_00: se eu começo a ver que as coisas estão muito em massa,
- 23:43SPEAKER_00: Recomeço a perceber também que há uma grande industrialização do assunto.
- 23:48SPEAKER_00: O que aconteceu com os cristais?
- 23:50SPEAKER_00: Então, era um cristal aqui na minha zona,
- 23:52SPEAKER_00: era uma casa que tinha,
- 23:54SPEAKER_00: porque essa casa trabalhava com terapias holísticas, com reiki, com...
- 24:00SPEAKER_00: Com runas ou com tarot,
- 24:02SPEAKER_00: mas era a única casa que vendia também essensos ou que vendia cristais e
- 24:08SPEAKER_00: que não era todos os cristais, era um ou outro, porque era difícil.
- 24:12SPEAKER_00: Estavam uns anos, não é?
- 24:14SPEAKER_00: Hoje em dia,
- 24:15SPEAKER_00: até nos hortos,
- 24:17SPEAKER_00: que é o horto,
- 24:18SPEAKER_00: não sei se todos conhecem,
- 24:19SPEAKER_00: mas o horto é um lugar onde se vendem plantas, plantas de interior de casa, não é?
- 24:26SPEAKER_00: Mas também plantas exteriores de jardim, de campo, de terreno, árvores de fruto e tal.
- 24:33SPEAKER_00: Mas aí também se vendem agora cristais,
- 24:35SPEAKER_00: vendem-se Taças tibetanas,
- 24:38SPEAKER_00: vendem-se incensos,
- 24:42SPEAKER_00: vendem-se aqueles candeeiros de sal,
- 24:43SPEAKER_00: do sal dos Himalayas, vendem-se isso tudo até aí.
- 24:47SPEAKER_00: Vende-se no supermercado, ficou tão popularizado a energia, vamos ser todos gratiluz, não é?
- 24:56SPEAKER_00: Porque nós queremos sim trabalhar com energia, mas desde que seja gratiluz, certo?
- 25:00SPEAKER_00: Desde que seja gratiluz.
- 25:01SPEAKER_00: Com os anjos e aliado a Deus e sempre tudo pelo melhor divino,
- 25:07SPEAKER_00: ainda dentro do catolicismo, não é?
- 25:09SPEAKER_00: Pronto.
- 25:11SPEAKER_00: Então, esta é uma das minhas regras.
- 25:14SPEAKER_00: Sempre que há a massa,
- 25:17SPEAKER_00: portanto,
- 25:18SPEAKER_00: a coisa ficou tão...
- 25:20SPEAKER_00: toda a gente sabe,
- 25:20SPEAKER_00: toda a gente já ouviu falar,
- 25:22SPEAKER_00: significa automaticamente que aquilo já virou um comércio,
- 25:26SPEAKER_00: aquilo já virou indústria.
- 25:29SPEAKER_00: Então, a partir do momento que vir a indústria,
- 25:31SPEAKER_00: nós temos que ter,
- 25:32SPEAKER_00: sempre temos que ter filtros,
- 25:33SPEAKER_00: mas a partir do momento em que vir a indústria,
- 25:36SPEAKER_00: nós temos que
- 25:39SPEAKER_00: filtrar muito bem o que é que nós queremos trazer para a nossa vida.
- 25:44SPEAKER_00: E eu estava-me agora aqui a lembrar de uma coisa
- 25:46SPEAKER_00: que eu não tinha aqui nos meus apontamentos, nos meus tópicos.
- 25:51SPEAKER_00: Eu fui, no início de setembro, eu fui a Fátima.
- 25:58SPEAKER_00: A Fátima, eu digo, isto não está em lado nenhum, sou eu que digo, é o Vaticano de Portugal.
- 26:06SPEAKER_00: Embora a Fátima não seja um Estado independente,
- 26:10SPEAKER_00: portanto a Fátima continua a presidência de Portugal,
- 26:12SPEAKER_00: mas é como se fosse o Vaticano de Portugal.
- 26:15SPEAKER_00: E toda a gente vai lá, os católicos, vai tudo para lá.
- 26:19SPEAKER_00: Está enraizado na nossa cultura.
- 26:22SPEAKER_00: Eu fui porque,
- 26:24SPEAKER_00: é o que eu digo,
- 26:25SPEAKER_00: sou mais tolerante com a fé dos outros do que Aquilo que os outros são comigo,
- 26:30SPEAKER_00: com a minha fé.
- 26:31SPEAKER_00: Ou com a minha não-fé, sei lá.
- 26:34SPEAKER_00: Eu fui a Fátima porque o meu digníssimo esposo,
- 26:37SPEAKER_00: ele não é tão praticante, mas ele era praticante.
- 26:42SPEAKER_00: A minha sogra, fanática.
- 26:44SPEAKER_00: A minha sogra é aquela católica, como eu costumo dizer, rato-sacristia.
- 26:49SPEAKER_00: Portanto, ela passa a vida e é tudo muito...
- 26:54SPEAKER_00: Ligado com o catolicismo mesmo,
- 26:56SPEAKER_00: que ela faça uma hipocrisia,
- 26:59SPEAKER_00: faça uma série de coisas contra aquilo que ela própria pergoa.
- 27:06SPEAKER_00: Enfim, fomos a Fátima.
- 27:07SPEAKER_00: Aliás, a minha sora,
- 27:08SPEAKER_00: curioso, não pude ir porque ficou, no dia anterior ficou, tive um imprevisto, não é?
- 27:15SPEAKER_00: Intestinal, digamos assim.
- 27:18SPEAKER_00: Foi eu, o meu digníssimo esposo e a minha riquíssima,
- 27:21SPEAKER_00: lindíssima mãe,
- 27:22SPEAKER_00: minha mãezinha é do coração,
- 27:24SPEAKER_00: só que não, que não venham com a trata de mãe e mãe, tá?
- 27:28SPEAKER_00: É isso.
- 27:32SPEAKER_00: Fomos nós e até em Fátima eu vi,
- 27:37SPEAKER_00: já vi e vi,
- 27:40SPEAKER_00: Cristais a serem vendidos e sal dos Himalaias,
- 27:42SPEAKER_00: não é sal dos Himalaias,
- 27:43SPEAKER_00: é o candeeiro,
- 27:44SPEAKER_00: aquele candeeiro do sal dos Himalaias e blá blá blá,
- 27:47SPEAKER_00: a ser vendido daquelas barraquinhas,
- 27:49SPEAKER_00: quem nunca foi,
- 27:51SPEAKER_00: tem o santuário, não é,
- 27:53SPEAKER_00: que se gastou milhões daquilo, pronto,
- 27:56SPEAKER_00: daquela estrutura e depois Ao sair tem um monte de lojas,
- 28:02SPEAKER_00: lojinhas e lojões que vendem figuras,
- 28:05SPEAKER_00: que vendem essas coisinhas todas que é para os turistas deixarem lá dois,
- 28:09SPEAKER_00: três, quatro, cinco rins, não é?
- 28:11SPEAKER_00: E mais duas córneas, três córneas, enfim.
- 28:15SPEAKER_00: Então, até nessas barraquinhas que estão ao lado do santuário, já vendem.
- 28:22SPEAKER_00: Vendem pedrinhas e vendem colarzinhos de cristal e vendem os colares com os símbolos de Ankh.
- 28:35SPEAKER_00: Vendem uma série de coisinhas dessas.
- 28:38SPEAKER_00: E o mais curioso, isto eu sei que está a sair um bocadinho fora, mas vamos lá.
- 28:43SPEAKER_00: O mais curioso é que eu nunca me tinha apercebido disso,
- 28:47SPEAKER_00: sei lá, não sei porquê, mas apercebi-me desta vez que vendem Em cera, não é?
- 28:53SPEAKER_00: Em cera, isso já faz há muitos anos, mas eu nunca tinha parado para refletir sobre.
- 28:59SPEAKER_00: Vendem em cera, portanto em cera para velas, não é?
- 29:02SPEAKER_00: Não é o formato de vela, mas na mesma cera da vela, as partes do corpo.
- 29:08SPEAKER_00: Portanto, cabeças, têm mamas, têm estômago, têm pernas, têm pés, várias partes do corpo.
- 29:16SPEAKER_00: Aí eu parei para pensar, olha a hipocrisia do católico, olha a hipocrisia.
- 29:22SPEAKER_00: São contra rituais de qualquer natureza, mas eles próprios utilizam, contra voodoo, não é?
- 29:28SPEAKER_00: Voodoo, voodoo, contra os bonequinhos, os puppets, não é?
- 29:31SPEAKER_00: Que eu utilizo, eu faço na minha bruxaria, eu utilizo os bonequinhos.
- 29:36SPEAKER_00: E são contra isso,
- 29:38SPEAKER_00: têm sempre tanto preconceito,
- 29:41SPEAKER_00: que é para não usar outras coisas,
- 29:41SPEAKER_00: mas têm tanta,
- 29:43SPEAKER_00: até para ser intolerância religiosa,
- 29:45SPEAKER_00: e está lá,
- 29:46SPEAKER_00: escancarado para toda a gente ver,
- 29:49SPEAKER_00: em formato de vela,
- 29:50SPEAKER_00: Para se fazer a bruxariazinha,
- 29:53SPEAKER_00: porque não deixa de ser uma bruxariazinha,
- 29:55SPEAKER_00: para aquele órgão específico, para aquela parte do corpo específica.
- 29:58SPEAKER_00: É só a hipocrisia do católico, não é?
- 30:02SPEAKER_00: Enfim, que eu também vi outras hipocrisias, mas outras coisas curiosas.
- 30:07SPEAKER_00: Depois acho que vai ficar à parte, vou fazer um vídeo para o YouTube, não sei.
- 30:12SPEAKER_00: Vou ainda pensar como é que eu vou estruturar isso.
- 30:15SPEAKER_00: Porque achei muito curioso e eu queria partilhar essas minhas revelações da minha idade Fátima.
- 30:21SPEAKER_00: Olha uma bruxinha Fátima, que curiosa.
- 30:23SPEAKER_00: Enfim, portanto,
- 30:27SPEAKER_00: tudo que está,
- 30:28SPEAKER_00: ou que fica,
- 30:29SPEAKER_00: que vocês percebem que está industrializado e está em todo lugar,
- 30:34SPEAKER_00: já precisa de um filtro triplo, quádruplo para trazermos para a nossa realidade.
- 30:44SPEAKER_00: Porque passou a ser, é como a questão da comida vegana.
- 30:50SPEAKER_00: Até há uns anos quase que não existia comida vegana.
- 30:53SPEAKER_00: Então tinha-se inventar receitas, fazer coisas em casa para ser criativo.
- 30:56SPEAKER_00: Hoje em dia todos os supermercados, não todos, mas as superfícies, enfim, têm, as marcas têm.
- 31:06SPEAKER_00: Porquê?
- 31:07SPEAKER_00: Não é que a marca, e se vocês prestem atenção isto é para tudo.
- 31:11SPEAKER_00: Não é que a marca seja vegana ou seja apologista ao veganismo,
- 31:14SPEAKER_00: ou seja apologista a isto ou aquilo.
- 31:16SPEAKER_00: É porque elas veem que há um mercado aqui.
- 31:20SPEAKER_00: Então, se há um mercado,
- 31:22SPEAKER_00: mesmo que eu não seja de acordo ou não concordo com isto,
- 31:26SPEAKER_00: eu vou me voltar e vou produzir para este lado porque tenho os pascáceos,
- 31:31SPEAKER_00: os tansos,
- 31:31SPEAKER_00: os morcões,
- 31:32SPEAKER_00: os borregos,
- 31:33SPEAKER_00: os cromos, que acreditam nisto e que, portanto, dá-me margem para lucro.
- 31:39SPEAKER_00: Então sempre nós temos que ter filtros e mais filtros relativamente àquilo que
- 31:45SPEAKER_00: as marcas produzem e dizem e tal coisa.
- 31:48SPEAKER_00: E eu sempre digo, prestem atenção ao discurso.
- 31:51SPEAKER_00: Ao discurso.
- 31:53SPEAKER_00: As pessoas, as marcas têm o direito de mudar.
- 31:56SPEAKER_00: Mas nós começamos a ver agora que não mudam o pensamento.
- 32:03SPEAKER_00: Elas não mudam o pensamento.
- 32:05SPEAKER_00: Elas só vão adaptando Para terem mais lucro.
- 32:10SPEAKER_00: Ok?
- 32:10SPEAKER_00: Pronto.
- 32:12SPEAKER_00: Então, voltando.
- 32:13SPEAKER_00: O que é que eu tenho aqui que eu já falei um bocadinho?
- 32:17SPEAKER_00: Mais recentemente o branco ficou associado não à bruxa em si,
- 32:21SPEAKER_00: mas a alguém que é iluminado e mais próximo a Deus.
- 32:24SPEAKER_00: Já tinha falado sobre isto.
- 32:28SPEAKER_00: Aquilo que eu não posso e não quero deixar de pontuar É
- 32:35SPEAKER_00: que é agradável aos olhos nós vermos esta estética mais bruxesca,
- 32:39SPEAKER_00: seja aquela bruxa que tem uma série de apetrechos e que depois faz
- 32:45SPEAKER_00: um ambiente meio roxo,
- 32:48SPEAKER_00: meio preto, que se veste de uma determinada forma, seja a estética medieval.
- 32:55SPEAKER_00: É apetecível aos olhos,
- 32:57SPEAKER_00: nós olhamos nas redes sociais,
- 33:01SPEAKER_00: E nós também queremos ter aquela estética,
- 33:03SPEAKER_00: mas talvez, eu falo por mim, claro, e o meu incómodo partiu daqui.
- 33:08SPEAKER_00: Eu olhando para um monte de gente que tem a própria horta,
- 33:11SPEAKER_00: tem os seus animais,
- 33:13SPEAKER_00: tem a sua casa cheia de ervas penduradas a secar,
- 33:16SPEAKER_00: eu olho para a minha realidade e eu não tenho como fazer isso.
- 33:21SPEAKER_00: A minha casa é muito úmida, assim, uma umidade, bastava torcer e pingava do teto água,
- 33:29SPEAKER_00: No inverno, portanto, o inverno aqui é praticamente nove meses.
- 33:35SPEAKER_00: Inverno frio é muito, muito tempo durante o ano.
- 33:40SPEAKER_00: E, portanto, como é que eu sei?
- 33:42SPEAKER_00: Porque eu já fiz, já experimentei.
- 33:45SPEAKER_00: Não tenho como ter plantas a secar dentro de casa.
- 33:49SPEAKER_00: Porque as plantas, elas ficam todas cheias de... não é morjado, mas é...
- 33:57SPEAKER_00: Falta uma palavra em português, por amor da santa da deusa.
- 34:01SPEAKER_00: Mas ficam com aquele amorjado, com aquele mofo.
- 34:04SPEAKER_00: Ou seja, eu não posso utilizar aquilo.
- 34:07SPEAKER_00: Posso defumar, sim, mas será que...
- 34:10SPEAKER_00: Não sei se me faço entender, não é?
- 34:11SPEAKER_00: Enfim, não posso utilizar aquilo para fazer chás,
- 34:14SPEAKER_00: não posso utilizar aquilo para fazer mais nada.
- 34:16SPEAKER_00: Posso defumar, sim, ou não, guardar as suas devidas proporções.
- 34:23SPEAKER_00: Enfim.
- 34:24SPEAKER_00: Portanto, é apetecível e agradável aos olhos.
- 34:27SPEAKER_00: E, eu digo, fez-me comichão, portanto, incomodou-me.
- 34:32SPEAKER_00: Eu comecei a perceber que estava a ter um certo ranço
- 34:37SPEAKER_00: da minha realidade não ser exatamente aquela, não é?
- 34:42SPEAKER_00: De fazer, ter aqueles apetrejos todos, e parei de seguir essas pessoas todas.
- 34:49SPEAKER_00: Embora eu goste de ver E até pode ser o meu sonho de consumo,
- 34:53SPEAKER_00: ter assim, a minha realidade ser essa.
- 34:57SPEAKER_00: Mas não é a minha realidade no momento, nem sei se um dia será, mas pronto.
- 35:01SPEAKER_00: Então, o próprio algoritmo,
- 35:05SPEAKER_00: vocês sabem muito bem como é que funcionam as redes sociais,
- 35:08SPEAKER_00: acaba por recompensar o visual.
- 35:11SPEAKER_00: Qualquer um, não é?
- 35:13SPEAKER_00: Qualquer um.
- 35:15SPEAKER_00: E aí, nós estaremos a criar, isto é uma pergunta em tom de reflexão, não é?
- 35:20SPEAKER_00: Não estaremos nós a criar uma geração que acredita que o ser-se bruxa é sinónimo
- 35:29SPEAKER_00: de ter que comprar ou usar um certo estilo e ter um certo guarda-roupa específico.
- 35:37SPEAKER_00: Então não estaremos aqui a esquecer um pouquinho,
- 35:41SPEAKER_00: já falei isto da parte da estética,
- 35:43SPEAKER_00: de nós apresentarmos uma certa estética nas redes sociais.
- 35:47SPEAKER_00: Não estaremos nós a deixar um bocado,
- 35:52SPEAKER_00: preocuparmos-nos um bocadinho mais com o que é bonitinho para se apresentar
- 35:55SPEAKER_00: no Instagramzinho, no TikTokzinho, não é?
- 35:58SPEAKER_00: E não estamos nos a esquecer da prática.
- 36:01SPEAKER_00: Porque, mais uma vez, eu vou falar dentro da minha experiência.
- 36:05SPEAKER_00: Há coisas que não são assim tão bonitinhas.
- 36:08SPEAKER_00: Há coisas, há rituais muito simples, não é?
- 36:12SPEAKER_00: Nem que seja só acender uma vela e que às vezes não tem nada de extraordinário.
- 36:17SPEAKER_00: Não tem nada de instagramável.
- 36:20SPEAKER_00: Não tem nada de...
- 36:22SPEAKER_00: Sendo que podia ser.
- 36:24SPEAKER_00: Só que é tal questão.
- 36:25SPEAKER_00: Talvez não vá ter tantos olhares como aquela coisa que é todo,
- 36:29SPEAKER_00: aquele cenário todo preparado para as redes sociais.
- 36:32SPEAKER_00: E quando digo cenário,
- 36:33SPEAKER_00: digo também a bruxa que se veste para estar nas redes sociais,
- 36:41SPEAKER_00: para estar de uma determinada estética,
- 36:44SPEAKER_00: tanto de cenário como ela própria,
- 36:47SPEAKER_00: Mostrar, óbvio, aquilo que ela quer, mostrar e apresentar ali.
- 36:52SPEAKER_00: Não estou a dizer que isso está errado,
- 36:54SPEAKER_00: mas é uma reflexão que precisamos de fazer de que será que não estamos
- 36:59SPEAKER_00: a dar mais importância à estética, seja que a estética for em vez da prática?
- 37:08SPEAKER_00: Enfim, então se olharmos com mais frieza...
- 37:13SPEAKER_00: E estou eu a dizer,
- 37:14SPEAKER_00: esse imaginário medieval,
- 37:16SPEAKER_00: porque isso vai bater aqui,
- 37:18SPEAKER_00: vai ao encontro de uma série de narrativas,
- 37:24SPEAKER_00: discursos que nós vemos atualmente, em que o antigamente é que era bom, não é?
- 37:28SPEAKER_00: Vamos replicar,
- 37:29SPEAKER_00: porque se os nossos antepassados chegaram até aqui a fazer isto e aquilo,
- 37:32SPEAKER_00: aquilo, nós também precisamos de fazer.
- 37:33SPEAKER_00: Será?
- 37:34SPEAKER_00: Porque nós não estamos nessa época.
- 37:36SPEAKER_00: Nós já não estamos nessa época.
- 37:39SPEAKER_00: Então, talvez esse...
- 37:41SPEAKER_00: Esse imaginário medieval vem, digo eu, não é?
- 37:44SPEAKER_00: Do romantismo.
- 37:47SPEAKER_00: E do romantismo,
- 37:48SPEAKER_00: e voltando a dizer que é a minha perceção,
- 37:50SPEAKER_00: não quer dizer que isto seja certo ou que esteja escrito em algum lugar,
- 37:55SPEAKER_00: é a minha perceção.
- 37:57SPEAKER_00: Do romantismo exagerado do século XIX e talvez com as ilustrações vitorianas
- 38:04SPEAKER_00: de bruxas, vocês vão ver que houve também aqui uma...
- 38:10SPEAKER_00: Certa sexualização, objetificação da bruxa.
- 38:15SPEAKER_00: Vou-vos dar aqui o exemplo que... Meu, óbvio, eu sempre dou exemplos meus ou que passam por mim.
- 38:23SPEAKER_00: Há uns anos comprei um baralho.
- 38:26SPEAKER_00: Um baralho não foi de baralho cigano, nem Lenormand, nem Tarot, nem nada.
- 38:30SPEAKER_00: Era um baralho de papadilha, para pombagira.
- 38:36SPEAKER_00: E eu não consegui comprar um determinado baralho com um verso que eu gostei muito.
- 38:41SPEAKER_00: Eu adorei aquele verso e fiquei vidrada naquele verso.
- 38:45SPEAKER_00: Eu não consegui comprar esse verso.
- 38:47SPEAKER_00: Entretanto, esse baralho, entretanto, vi um outro numa outra loja online.
- 38:55SPEAKER_00: Eu não gostei tanto, mas comprei e tenho.
- 39:00SPEAKER_00: Mas a tal coisa,
- 39:01SPEAKER_00: e que eu vejo acontecer nas imagens,
- 39:03SPEAKER_00: eu vejo acontecer,
- 39:04SPEAKER_00: é uma sexualização, eu estou dando o exemplo concreto da pomba gira, curioso, não é?
- 39:09SPEAKER_00: Mas pronto, é uma sexualização, como se a pomba gira só fosse sexo.
- 39:18SPEAKER_00: Não sei se vocês têm esta mesma ideia,
- 39:19SPEAKER_00: ou sou eu a ter uma leitura,
- 39:22SPEAKER_00: mas também se tenho uma leitura diferente, olha,
- 39:24SPEAKER_00: foda-se,
- 39:25SPEAKER_00: porque é a minha leitura e o que me importa é a minha própria vivência, enfim.
- 39:29SPEAKER_00: Mas a minha interpretação é que com
- 39:36SPEAKER_00: estas ilustrações,
- 39:39SPEAKER_00: seja de onde for,
- 39:40SPEAKER_00: seja das ilustrações vitorianas de bruxas,
- 39:43SPEAKER_00: relativamente a bruxas,
- 39:44SPEAKER_00: e depois que é trazido ou exemplificado nos filmes e séries
- 39:48SPEAKER_00: e agora nas redes sociais,
- 39:50SPEAKER_00: principalmente vindo de Hollywood,
- 39:52SPEAKER_00: há toda uma sexualização da bruxa da mulher,
- 39:56SPEAKER_00: mas não no sentido de que a mulher é livre.
- 40:00SPEAKER_00: Não nesse sentido,
- 40:00SPEAKER_00: no sentido que até para ela ser bruxa,
- 40:03SPEAKER_00: ela tem que estar de uma determinada forma,
- 40:06SPEAKER_00: vestida como uma determinada forma, para ser agradável ao olhar masculino.
- 40:12SPEAKER_00: Eu não sei se vocês têm esta leitura.
- 40:14SPEAKER_00: Eu tenho esta leitura.
- 40:16SPEAKER_00: Então, e é o que eu digo,
- 40:19SPEAKER_00: sendo mulher,
- 40:21SPEAKER_00: identificando-me como mulher e sendo bruxa ou identificando-me como bruxa,
- 40:27SPEAKER_00: Eu vejo em mim,
- 40:28SPEAKER_00: sendo cíclica também,
- 40:29SPEAKER_00: era isso que eu queria dizer,
- 40:31SPEAKER_00: sendo cíclica e olhando muito para a parte cíclica,
- 40:33SPEAKER_00: para as minhas várias versões, lá está, nós não somos só uma versão.
- 40:38SPEAKER_00: Então, há momentos em que eu vou querer ser toda a gratiluz,
- 40:42SPEAKER_00: que são poucos,
- 40:43SPEAKER_00: mas pronto, enfim, mas há outros momentos em que eu vou querer ser, sei lá, não é?
- 40:49SPEAKER_00: Eu ia dizer que eu...
- 40:50SPEAKER_00: Enfim, mas eu tenho muitas versões e eu hoje...
- 40:57SPEAKER_00: Vai depender muito da nossa conexão com os ciclos da própria natureza,
- 40:59SPEAKER_00: mas também com a nossa própria ciclicidade, da nossa lua interna.
- 41:06SPEAKER_00: Então, faz muita confusão.
- 41:11SPEAKER_00: Nós, lá estás,
- 41:13SPEAKER_00: apesar de estarmos,
- 41:16SPEAKER_00: ou queremos sair da caixinha formatada de religião,
- 41:23SPEAKER_00: eu estou a falar aqui especificamente da católica,
- 41:25SPEAKER_00: Porque é a minha experiência mais concreta,
- 41:29SPEAKER_00: embora tenha passado por outras e tenha visto outras,
- 41:33SPEAKER_00: e que acredito que a maioria também deve ter vivido alguma coisa assim.
- 41:37SPEAKER_00: Mas apesar de nós queremos sair das caixinhas das religiões,
- 41:40SPEAKER_00: nós continuamos a trazer a religião também, essas caixinhas todas.
- 41:43SPEAKER_00: Ou seja, eu sou bruxa certo, mas eu tenho que ser bruxa desta forma.
- 41:47SPEAKER_00: Eu tenho que ser bruxa com esta roupa, com estes apetrechos, fazer isto assim.
- 41:51SPEAKER_00: E esquecemos-nos completamente de todas as versões que nós somos.
- 41:57SPEAKER_00: Então eu tenho apetite muitas vezes para ser um bocadinho,
- 42:01SPEAKER_00: vou dizer, mais devassa, digamos assim, mas eu não quero ser devassa sempre.
- 42:07SPEAKER_00: Eu não quero estar sempre toda maquilhada e toda sensualizar e não quero.
- 42:14SPEAKER_00: Tem momentos para isso.
- 42:17SPEAKER_00: E aquilo que eu percebo é que,
- 42:19SPEAKER_00: e mesmo nas ilustrações,
- 42:20SPEAKER_00: saindo agora um pouco do mundo da Pomba Gira,
- 42:25SPEAKER_00: mas vendo outras ilustrações de bruxas,
- 42:31SPEAKER_00: vai ter sempre
- 42:34SPEAKER_00: as mamas muito voluptuosas, o corpo muito magro, percebam?
- 42:39SPEAKER_00: Muito magro, com a cintura muito marcada, muito...
- 42:44SPEAKER_00: E parece que estamos...
- 42:46SPEAKER_00: A bruxa tem que ser daquela forma, não é?
- 42:50SPEAKER_00: E é curioso que houve aqui um tempo que eu pedi à Iá, à boa e nova Iá, não é?
- 42:56SPEAKER_00: Para fazer aqui uma ilustração de uma bruxa.
- 42:58SPEAKER_00: E é exatamente esse tipo de ilustração que ela me apresenta.
- 43:01SPEAKER_00: Ela não apresenta uma... Porque eu não dei descrição.
- 43:04SPEAKER_00: E eu só disse, olha, preciso que me faças uma... Que crieis uma bruxa num cenário assim, assim.
- 43:11SPEAKER_00: E apresenta-me sempre uma bruxa com o chapéu pontiagudo,
- 43:14SPEAKER_00: de cabelos compridos,
- 43:16SPEAKER_00: mas normalmente é liso, com a silhueta muito marcada, magra, bem marcada.
- 43:24SPEAKER_00: E é isso.
- 43:27SPEAKER_00: É isso que me apresenta.
- 43:29SPEAKER_00: Como se houvesse esse padrão e lá está.
- 43:34SPEAKER_00: Há aqui também uma sexualização,
- 43:37SPEAKER_00: no meu ponto de vista,
- 43:38SPEAKER_00: relativamente ao que é ser bruxa e ao que é expectável do ser bruxa.
- 43:45SPEAKER_00: Certo?
- 43:46SPEAKER_00: Não sei, digo eu, estou eu a viajar muito, a filosofar muito, mas pronto.
- 43:52SPEAKER_00: Então...
- 43:53SPEAKER_00: Pode uma bruxa usar t-shirts coloridas, ser vaidosa ou usar o estilo, por exemplo, dos anos 80.
- 44:01SPEAKER_00: Para quem não sabe,
- 44:02SPEAKER_00: o estilo dos anos 80 era cor misturado com cor e só cor e cor que não tinha nada
- 44:06SPEAKER_00: a ver uma coisa com a outra, mas tinha tudo a ver uma coisa com a outra.
- 44:08SPEAKER_00: Uma estética lindíssima.
- 44:10SPEAKER_00: Mas pode a bruxa usar ou não?
- 44:17SPEAKER_00: Eu, sendo bruxa e que adoro cores,
- 44:21SPEAKER_00: Eu diria que sim,
- 44:23SPEAKER_00: porque lá está,
- 44:24SPEAKER_00: se nós queremos sair do sistema,
- 44:26SPEAKER_00: se nós não queremos estar nas amarras da religião e vamos encaixar-nos na caixinha
- 44:33SPEAKER_00: da bruxa tem que ser assim,
- 44:35SPEAKER_00: tem que vestir isto,
- 44:35SPEAKER_00: tem que ter esta potência e fazer assim,
- 44:37SPEAKER_00: nós estamos a entrar no patriarcado e nessa padronização do que é ser bruxa, certo?
- 44:48SPEAKER_00: Ou estará errada.
- 44:49SPEAKER_00: Então, como eu digo,
- 44:51SPEAKER_00: Se for para ter uma indumentária obrigatória,
- 44:53SPEAKER_00: primeiro,
- 44:54SPEAKER_00: já basta no trabalho,
- 44:55SPEAKER_00: porque temos que ter fardas, temos que ter esta roupa assim e tal e coisa.
- 45:00SPEAKER_00: E segundo, também,
- 45:02SPEAKER_00: mais vale irmos ou integrarmos numa religião,
- 45:06SPEAKER_00: para sermos conservadoras e temos que ir a esta roupa assim,
- 45:09SPEAKER_00: porque não queremos mostrar os pulsos, não queremos mostrar os joelhos, enfim.
- 45:16SPEAKER_00: Então, mais vale estarmos numa religião.
- 45:18SPEAKER_00: Portanto, para mim, A bruxa é livre ou procura ser livre de qualquer dogma.
- 45:26SPEAKER_00: E com isto finalizamos o podcast de hoje, o episódio de hoje.
- 45:29SPEAKER_00: Eu espero que vocês também me acompanhem nos comentários para eu não ficar aqui
- 45:34SPEAKER_00: a falar sozinha, não é?
- 45:36SPEAKER_00: Beijinhos e até ao próximo.
- 45:38SPEAKER_00: Beijinhos e abraços de muita luz, de grande luz.
- 45:42SPEAKER_00: Até ao próximo episódio.