Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #295 Série Luz (Netflix): entrevista com o diretor Thiago Teitelroit
Transcript
- 0:01Hoje pode com Marcelo Abude. Olá,
- 0:06tudo bem? Olha só, estou aqui de volta,
- 0:09Marcelo Abude, seu podcaster, para falar hoje
- 0:12de outras dicas de podcasts legais para você conferir.
- 0:17E nesta edição eu destaco uma
- 0:19produção da minha produtora, da Peças Raras, para um
- 0:23instituto claro. Eu já estou lá desde 2011
- 0:26produzindo os podcasts e começaram como net educação
- 0:29e hoje você encontra por exemplo no Spotify como
- 0:33Instituto Claro, mas também pode buscar no Google
- 0:37podcast instituto claro. Aí você coloca se você quer
- 0:40ouvir podcasts de educação ou cidadania. Então
- 0:43coloca lá no Google podcast instituto claro cidadania ou
- 0:47podcast instituto claro educação e você vai
- 0:51conferir todos os episódios produzidos desde 2011 sobre
- 0:56essas temáticas que eu tenho feito por lá. Tem
- 0:59muita coisa legal, mas hoje eu falo especificamente de
- 1:03um dos episódios recentes que entrou no ar agora em
- 1:06março em cidadania e que fala sobre a primeira série
- 1:11Infanto Juvenil da Netflix que é uma produção da
- 1:15floresta e se chama Luz. Eu
- 1:18não sei se você já chegou a esse conteúdo lá no
- 1:21Netflix, mas Luz é essa primeira série Infanto
- 1:24Juvenil ou novela infantil do Netflix que foi
- 1:27produzida pela floresta, tem 20 episódios a primeira
- 1:31temporada e todos eles já estão disponíveis na
- 1:35plataforma. A estreia aconteceu em 7 de
- 1:38fevereiro. Na trama de Luz, justamente a
- 1:42personagem Luz é uma menina que é feita pela Mariana
- 1:46Santos. Ela é orfan e por isso foi
- 1:49criada desde bebê por uma comunidade indígena que é a
- 1:53Caigang. Por isso ela cresce em contato
- 1:56com esses saberes e valores indígenas. Quando
- 1:59ela completa 9 anos, ela ouve uma conversa e
- 2:02descobre que na verdade é adotada. Então,
- 2:07ela resolve fugir da aldeia e passa a buscar a sua
- 2:11verdadeira origem. Ela vai parar em um internato
- 2:14e nessa escola acaba tendo uma troca de culturas em
- 2:19que ela vai passar muito dos valores indígenas para
- 2:23a garotada da escola. Então essa é a premissa que está
- 2:27por trás dessa primeira série infantil, Infanto
- 2:30Juvenil da Netflix. E eu conversei com o diretor
- 2:34de produção, o diretor geral de Luz Thiago
- 2:38Teiterroa. Eu conversei com ele para o
- 2:41Instituto Claro. Convido você a conferir o episódio,
- 2:45tem 8 minutos, está muito bonito, muito gostoso, com
- 2:48uma sonoridade, com trechos da série, com a trilha
- 2:51sonora original. Então vale muito conferir lá no
- 2:54Instituto Claro, no podcast. Esse
- 2:57episódio tem 8 minutos. E aqui eu vou deixar você
- 3:01com a entrevista completa. O
- 3:02papo que eu tive com o Thiago Teiterroa, para que
- 3:05gerasse justamente o podcast de 8 minutos, lá do
- 3:09Instituto Claro. É isso que você confere a
- 3:11partir de agora, neste episódio sobre a série Luz
- 3:16da Netflix. Bem, meu nome é Thiago
- 3:18Teiterroa, eu sou diretor criativo da parte ficção da
- 3:22Procedura Floresta e também cuido de projetos
- 3:24internacionais. No caso da série Luz, eu fui
- 3:27diretor geral e showrunner dessa série. Queria
- 3:32fazer uma pergunta um pouco mais aberta para a gente
- 3:34começar a entrar nessa história. Na
- 3:38sua experiência pessoal, primeiro assim, a sua
- 3:41experiência com esse tema, com a cultura, com os
- 3:44saberes indígenas, como era antes da série e como
- 3:48passou a ser depois que você dirigiu uma série como
- 3:50essa. O quanto você teve que
- 3:53estudar, tomar contato com esses assuntos e o que
- 3:57mudou na sua percepção sobre isso. Sua
- 4:00experiência pessoal, primeiro, por favor. A
- 4:02minha experiência pessoal com a temática indígena vem
- 4:05de coisa que era muito criança, vem muito antes. A
- 4:09minha mãe é uma videoeducadora e meu
- 4:12padrasto, que causou com a minha mãe quando era muito
- 4:15pequenso, eu tenho uns três anos, era antropólogo e
- 4:18depois migrou para a parte do audiovisual também.
- 4:21Quando antropólogo, ele passou, ele
- 4:24foi para o Xingu e ficou junto com um parceiro, um
- 4:30quase um ano no Xingu, fazendo um intercâmbio
- 4:35cultural, justamente levando câmeras de vídeo da época,
- 4:38que você estava falando dos anos 80, tá gente? Câmeras
- 4:41de vídeo da época para a comunidade indígena, para
- 4:45justamente poderem ter essa troca de... Enfim,
- 4:49e aí com isso, dar um gap aqui, um jump, eu lembro
- 4:52muito a memória que eu tenho da ECO 92, foi um
- 4:56evento gigante, sediado no Rio de Janeiro, mas para
- 5:01promover o interior discutir sobre o futuro, sobre a
- 5:04sustabilidade, numa época, nem se usava esse tipo de
- 5:06tema ainda. E aí eu me lembro de ter um
- 5:09criança, eu deveria ter um de 9, 10 anos, eu lembro
- 5:12de eu criança em casa, na casa da minha mãe, e a
- 5:15minha mãe e meu padrasto receberam em casa algumas
- 5:19lideranças indígenas. E aí eu tenho... Engaçado,
- 5:23eu tenho alguns flechas, eu lembro de acordar de manhã,
- 5:25sair do quarto, chegar na sala e ter quatro
- 5:27indígenas, é uns homens grandes, porque agora que
- 5:30crianças sentadas no sofá, assim, com elementos, né,
- 5:36tinha dois deles, eu acho que usavam o cocar o tempo
- 5:39inteiro, outros não. Enfim, e eu fiquei com aquela
- 5:44memória, era... Não era... Agora
- 5:47exatamente, eu não me lembro se qual era, mas eu
- 5:49achava sempre engraçado, porque eles falavam uma
- 5:52língua diferente, estavam ali, mas isso foi... Isso
- 5:56marcou, assim, um tempo por causa disso, porque eu
- 5:58fiquei vivendo em casa, num apartamento no Rio de
- 6:01Janeiro, com quatro membros da liderança indígena do
- 6:04Xingu, durante, acho que, mais duas semanas. Mas
- 6:08enfim, mas aí acho que é a primeira memória que eu
- 6:11tenho, assim, disso, dessa temática. E
- 6:14aí depois, óbvio que eu acho que como brasileiro,
- 6:18como o universo indígena, ele está entrojetado na
- 6:22nossa... Tanto na nossa cultura, nas
- 6:26pequenas coisas, como no dia a dia, enfim, de
- 6:29alguma forma, né, talvez a gente não dê muita atenção
- 6:31a isso. Mas agora dando um salto para
- 6:35hoje, para agora, quando eu fui ver esse projeto,
- 6:39quando eu fui entrar nesse projeto, quando eu fui
- 6:42estudar sobre ele, e aí foi, obviamente, me
- 6:45familiarizar com a cultura Caigan, que é uma cultura
- 6:47bem característica, né, é o terceiro maior grupo
- 6:51indígena do Brasil, mas é muito pouco falado, e ele
- 6:56pega ali uma área que vai do sul até o sudeste. E
- 7:00foi muito interessante, porque é diferente do que
- 7:02a gente tem, do que eu tinha, pelo menos, de
- 7:05conhecimento mínimo sobre culturas do centro -oeste,
- 7:10norte do Brasil, esse povo e essa cultura está mais
- 7:15misturada a nossa do que eu imaginava. Assim,
- 7:18nas pesquisas eu fui entendendo coisas do tipo
- 7:21até, assim, a casa Caipira, né, que a gente tem uma
- 7:24coisa, são deles. As vezes a gente está muito
- 7:28preso em estereótipos, quando a gente pensa em
- 7:30povo indígena, a gente pensa logo na oca, naquela
- 7:33oca, mas que não é, que não faz parte da
- 7:37arquitetura e nem da cultura do Caigan. Então
- 7:41quando você vai ver as formações arquitetônicas
- 7:45deles, as casas, o jeito, a distribuição, cara, é uma
- 7:48casa Caipira, que se populariza a partir deles.
- 7:54E isso, e aí por aí vai um
- 7:56caminho sem volta, porque quando você vai entendendo
- 7:58desde as tramas das roupas ao tipo de cor, o que é
- 8:03sagrado da cor, como é que a gente usa, como é que
- 8:05isso foi se difundindo. E eu queria só, assim, você
- 8:11falou da sua experiência na infância, por essa
- 8:13influência do seu pai e tudo tal, e agora, depois
- 8:17de ter dirigido a série, a partir de todo esse
- 8:19contato, tudo, o que mudou, assim, em você, sobre essa
- 8:24questão da cultura e do saberes indígenas? Eu
- 8:28acho que esse conhecimento nunca é demais. E
- 8:30ainda mais quando a gente está falando de você poder
- 8:33ter conhecimento sobre outros povos, sobre outros
- 8:38comportamentos, sobre outras culturas, isso é só matéria
- 8:42para a gente, para nos tornar os melhores seres
- 8:45humanos. E eu acho que eu considero
- 8:48que é essencial para um exercício de empatia para
- 8:53todos, porque assim, acho que quando, eu ouvo, enfim,
- 8:56eu não sei o que a maioria quer, mas eu acho
- 8:59que o que eu desejo, óbvio que eu vou sempre desejar
- 9:02que a gente consiga construir, para a gente
- 9:06construir uma sociedade mais inclusiva, mais igualitária.
- 9:11E para isso a gente tem que
- 9:13ter conhecimento, para isso a gente tem que ter
- 9:14exercício de empatia, para isso a gente tem que ter,
- 9:17a gente tem que ser educado desde sempre, para
- 9:21a gente ter respeito e sobre as diferenças e
- 9:26entender, gente, que para a gente continuar existindo a
- 9:33gente precisa que esse mundo seja plural, sabe?
- 9:36Então, perfeito. E
- 9:39vamos aproveitar justamente esse aspecto. Aí
- 9:41você dirige uma série que é feita para crianças, para
- 9:44adolescentes, me corrija, né, se tiver algum aspecto
- 9:48nesse sentido, mas justamente pegando esse
- 9:51público e levando esse conhecimento, esses saberes
- 9:55por meio de uma história de ficção, tudo. O
- 9:58quanto que você acha que é importante transmitir essa
- 10:01cultura e os saberes indígenas para o público
- 10:03infantil e juvenil especificamente? Para
- 10:06as crianças, é fundamental, eu acho que é assim, é
- 10:08fundamental a gente estimular o diálogo e o
- 10:12conhecimento sobre questões indígenas, assim, é,
- 10:15primeiramente para promover uma desconstrução de
- 10:17estereótipos, acho que isso é o mais importante. É,
- 10:21combater preconceitos, além de combater invisibilidade
- 10:24desses povos e é uma oportunidade para as
- 10:28crianças, né, para esse público infantil e juvenil,
- 10:31mas para os futuros adultos já terem acesso ou
- 10:37exercício de empatia para com esses povos, sem contar
- 10:41da importância para o próprio povo, para o
- 10:43próprio povo indígena. A criança indígena também se
- 10:47ver representada, é essencial para estimular a
- 10:51autoestima, para poder ter acesso também a diferentes
- 10:57perspectivas, sabe assim, acho que tudo isso para
- 11:00ampliar, tudo isso assim, eu digo, na verdade tudo
- 11:05isso para ser capaz de que a gente possa promover uma
- 11:09visão mais justa e mais por a hora da nossa
- 11:12sociedade, acho que é isso. Mas
- 11:14se você quiser tratar de outros objetivos que você
- 11:18acredita que essa série tenha, além dessa questão
- 11:21da empatia, dos saberes e conhecimentos que são
- 11:25transmitidos e tal, se tiverem outros objetivos que
- 11:28você veja, visualize para a série, por favor, Nick. Eu
- 11:32acho que o objetivo maior da série é sempre entreter,
- 11:38mas se a gente consegue entreter e educar ao mesmo
- 11:42tempo, aí é maravilhoso. Então
- 11:45a gente consegue, além de entreter, fomentar
- 11:49diversidade, perfeito, acho que o objetivo, claro,
- 11:54sempre é entreter, mas se a gente, junto com isso a
- 11:58Reboque, venha essa possibilidade de você
- 12:02abraçar causas ou idealizar um futuro mais interessante,
- 12:10sabe, é sempre válido. Então
- 12:13eu acho que a série tem várias coisas entremeadas
- 12:17aí, ela se propõe, obviamente, a um
- 12:20entretenimento onde toda a família possa assistir
- 12:22junto, a onde a criança se sensibiliza, se emocione, se
- 12:26senta representada, aonde o adulto junto a essa criança
- 12:29possa aproveitar e também se divertir. Então
- 12:33assim, a ideia original dessa série, da criação
- 12:37dessa série, é um produto de entretenimento que possa
- 12:41juntar toda a família. E juntar toda a família no
- 12:44sentido, no lado emocional, de poder assistir uma
- 12:47história, parece emocionar -se como ver com ela e
- 12:49também proporcionar o diálogo. Então
- 12:52assim, e tudo isso a gente atrai temáticas que
- 12:55conversam com uma brasilidade importante,
- 12:59atemporal e também mais príncipe de contemporânea,
- 13:02que traz essa oportunidade de educação, de informação,
- 13:08de desconstrução de estereótipo e de diálogo,
- 13:11que é o mais importante. Nós,
- 13:13o que a gente quer? Que criadores e pessoas do
- 13:18audiovisual querem dialogar? É
- 13:21a base do nosso ofício. Perfeito.
- 13:25E como é que esses saberes, essa cultura
- 13:28indígenas, são apresentados na narrativa? Como
- 13:31é que eles estão compostos dentro de uma história que
- 13:34também tem uma escola, enfim, que tem outros
- 13:35elementos que aproximam essa história de uma maneira
- 13:39mais universal? Como é que especificamente os
- 13:41saberes e a cultura indígena estão permeando
- 13:44essa narrativa? Os saberes e a cultura
- 13:48indígena, eles éclotem na série, assim, sem
- 13:51panfretagem, eles aparecem naturalmente, tanto nas
- 13:55relações afetivas quanto no lugar, nos pequenos
- 14:03detalhes, quando você vai no Fazer do Dia a Dia,
- 14:06quando vai fazer o artesanato, quando tem um
- 14:11diálogo de conforto para a personagem, aquele saberes e
- 14:16aquela cultura apresentada, confortando conflitos
- 14:21internos, externos da própria personagem. Luz,
- 14:25que é nossa protagonista. A forma como ela vê o mundo
- 14:29a partir da cultura indígena influencia um olhar
- 14:33mais de cosmovisão, um olhar mais empático para as
- 14:38outras crianças que estão a mercer de uma outra
- 14:42perspectiva, de uma outra linha de pensamento
- 14:46cosmopolita. Então, a cultura vem desse lugar,
- 14:52no lugar da conexão, no lugar do comparativo, dá
- 14:55uma exclusão, mais do comparativo que conforta,
- 14:59que traz uma nova possibilidade, que traz um
- 15:05novo olhar a uma dificuldade, sabe? Assim.
- 15:09E tem algumas cenas que você destacaria para que a
- 15:14gente entre mais em contato com essa cultura? Deixe
- 15:18-me lembrar que muitas cenas da avó, da Gá com a luz,
- 15:23são muito pautadas nisso, são muito pautadas na
- 15:27afirmação, na afirmação dos preceitos, dos ensinamentos
- 15:33e da cultura. A cultura indígena tem uma
- 15:37coisa muito interessante, que é algo que eu uso
- 15:39para a vida, que é o não subestimar a criança. Acho
- 15:45que povos acidentais e de uma cultura mais cosmopolita
- 15:51contemporânea, às vezes estão num lugar, criam
- 15:55caixas, criam espaços diferenciados para a
- 16:00criança. E acaba sendo um pouco
- 16:03fússil, eu sei que meu pai é complexo. E
- 16:08o indígena, na verdade, o povo que adota a
- 16:12cosmovisão, tem outra maneira de lidar com a
- 16:15criança. Então, isso de não subestimar a
- 16:19criança, de não subestimar o potencial, a inteligência,
- 16:24o lugar daquela criança. Isso
- 16:25foi muito contagiante, isso acho que fica na série nas
- 16:28entrelinhas, na relação da Gá, de confiar a Gá
- 16:33descobre que a menina sabe onde está, mas ela tem um
- 16:37outro tipo de intervenção, ela não intervém, ela
- 16:39deixa, obviamente, ela faz o que ela pode para
- 16:43proteger de longe, mas respeita a jornada daquela
- 16:48criança, sabe? Para mim, isso é muito
- 16:51importante, assim, mas em coisas mais específicas, até
- 16:56quando ela vai, quando ela cria a conexão com o Joca,
- 16:59que vira o parceiro dela, esse lugar que dá cultura,
- 17:06que diz que o mundo é dividido em dois tipos,
- 17:10dois tipos de pessoas, as pessoas que são mais de
- 17:14ação, que são mais guerreiros, e pessoas que
- 17:17são mais introspectivas, que são mais da estratégia, do
- 17:20pensamento. E isso, na série, conforta as
- 17:26crianças, porque as crianças se sentem parte de alguma
- 17:30coisa maior, se sentem parte de uma microcomunidade
- 17:34ali. Eu tenho para mim que são
- 17:37detalhes, sabe? E acho que perguntenhas, as
- 17:43cenas de Gá com a luz, até no próprio sonho,
- 17:46quando a Gá vem em sonho dizer, é óbvio que está
- 17:49dentro de você, respeita isso, né, valida o que
- 17:52está dentro de você, cenas da própria luz com o Joca
- 17:57e com outras crianças, quando todo mundo se pinta,
- 18:01aí se dividem em dois grupos, o grupo do Kamei,
- 18:04o grupo dos Kairuz, são alguns exemplos, eu acho.
- 18:10Mas isso vem muito no discurso,
- 18:13isso vem muito no discurso da personagem Luz, sabe?
- 18:16Quando ela confronta ou quando ela
- 18:18calenta, acho que aparece sempre, o André foi muito
- 18:23esperto, muito inteligente, o André, enfim, o André, o
- 18:27nosso roteirista -chefe, um cara, é um talento
- 18:31inacreditável, assim. Eu acho que ele conseguiu
- 18:34fazer isso na forma muito natural, e isso aparece o
- 18:37tempo inteiro nas palavras, de forma orgânica, sabe?
- 18:41Então, já que aparece muito nas
- 18:43atitudes da luz, quem é a luz? Vamos
- 18:44apresentar essa personagem para quem ainda não viu a
- 18:48série, e para quem de repente quer conhecer um
- 18:50pouco mais de como ela foi imaginada. Luz
- 18:53é uma menina de 9 anos, ela simboliza a interseção
- 18:57entre alguns universos, ela é uma menina não indígena,
- 19:02que descende de um filho ou de um fazendeiro, com
- 19:09uma mulher classe média -média, não posso dar muito
- 19:12spoiler sobre ela, você vê que a série já está lá,
- 19:15porque também uma das coisas da série é descobrir
- 19:16quem é a mãe dela. E ela foi adotada por uma
- 19:21comunidade indígena Kai Gang, e ela cresce ali até
- 19:28os seus universais de 9 anos, porque ela descobre
- 19:30informações sobre o seu passado, e resolve, seguindo
- 19:35uma jornada de alto descobrimento, e de entender
- 19:39mais sobre as suas origens. E
- 19:41é uma menina superaventureira, uma menina
- 19:43superforta, uma menina que carrega com ela signos,
- 19:48muito interessantes e que valem a pena que dá gosto
- 19:52da gente acompanhar e assistir assim. E
- 19:54eu acho que tem uma coisa interessante, que ela sai
- 19:57de repente de um espaço onde ela tem uma liberdade,
- 20:00como criança, tudo vai cair no internato, esse choque
- 20:04de culturas, de repente, o quanto elas acabam se
- 20:06entrelaçando. Como que a luz acaba
- 20:10transmitindo esse conhecimento que ela obteve
- 20:13até os 9 anos de idade para outras crianças não
- 20:15indígenas na série? Tem essa troca também a partir
- 20:20do ambiente escolar, tudo? Mas
- 20:23acho que mais do que isso, a personagem é um farol,
- 20:27ela realmente faz jus ao seu próprio nome, Luz. E
- 20:32quando ela chega no internato e aquelas crianças
- 20:35estão ali em um lugar, embora tenha um tutor, que
- 20:39é o professor Marcos, que tem uma relação superafetiva
- 20:42junto com aquele grupo, mas é um grupo que está,
- 20:47enfim, pensam, são crianças que estão longe das suas
- 20:49famílias, que passam a maior parte da vida e do
- 20:52tempo naquele lugar. Então, eu acho que ela contamina
- 20:58da melhor forma possível, ela contamina dando
- 21:01esperança e motivação para cada criança daquela, nas
- 21:05pequenas coisas, seja na autoestima da Lia, seja no
- 21:11desenvolvimento social da NIC, seja no desejo do
- 21:18joca, de pertencimento. Na própria Sabina, na
- 21:27desconstrução da Sabina, de ser um estereótipo do que
- 21:31o mundo adulto espera dela, ela poder ser criança,
- 21:35então ela vai contaminando, ela vai transformando, vamos
- 21:39dizer assim, ela vai transformando criança a
- 21:41criança. Eu queria pegar um pouquinho
- 21:43do aspecto da participação da própria comunidade
- 21:47indígena, pelo que eu li, se me corriga se eu
- 21:50estiver errado, houve a participação de 40 indígenas
- 21:53da itinia caingang, nas gravações. O
- 21:58que essa participação, especificamente desse povo
- 22:03indígena, acrescenta na série e se eles tiveram
- 22:07também algum tipo de, na hora que estava gravando,
- 22:11olha, isso não é bem assim que a gente pensa, tiveram
- 22:14alguma interferência na hora da produção em si. Os
- 22:19caigang tiveram total, total participação e interferência,
- 22:22era impossível contar essa história sem a participação
- 22:25deles, sem um afau do povo caigang. E
- 22:29eles estão junto com a gente, desde antes de
- 22:33qualquer coisa, a gente tinha na verdade, na parte
- 22:38de roteiro, de construção dessa ideia, antes mesmo do
- 22:41pré roteiro, a participação da Fernanda Caigang, perdão,
- 22:48a participação da Lúcia Fernanda, da participação da
- 22:53Lúcia Fernanda Caigang, junto com André Rodrigues,
- 22:57roteirista, na concepção do projeto, na concepção do
- 23:01novo argumento que foi que originou depois dos
- 23:03roteiros, ela estava também em todos esses processos na
- 23:07consultoria de roteiro e também dando acesso às
- 23:18outras lideranças caigang. Esse
- 23:21projeto, para começar, foi feito uma grande consultoria
- 23:26pública com liderança de caigang do país inteiro, o
- 23:30número exato, mas era para casa de mais de 100
- 23:33pessoas que se reuniram, que se juntaram, que
- 23:35trocaram ideias sobre essa história, que foram
- 23:38apresentadas a essa história e que deram aval para a
- 23:42gente, deram aval para todo o projeto e colaboraram
- 23:46trocando suas experiências, trocando, cedendo a gente,
- 23:51não só informação, como sons, como musicalidade, e
- 23:57esse processo foi ao longo de tudo, depois quando
- 24:00voltando às outras equipes, na construção da nossa
- 24:02cidade cenográfica, da posição da nossa aldeia
- 24:06cenográfica, vieram as pessoas de lá, junto com a
- 24:09Mari Falvo, que era a sua editora de arte, e amarguei
- 24:11Penaque, e fizeram junto, estavam ali desde o detalhe
- 24:15de como é que usa, onde é que bota as flores, como é
- 24:19que fica, na parte de figurino, mesma coisa. A
- 24:21Melina teve uma consultoria constante de todas, todas
- 24:25as roupas usadas na série. Indígenas
- 24:28são do povo caigang. Então, aqui a gente que a Melina
- 24:31foi atrás, conversou, pegou, trouxe marquinhos, marcos de
- 24:36sol, o nosso caracterizador, sempre teve alguém junto
- 24:39com ele, passou por um curso junto com os
- 24:42indígenas para aprender como era, para cada pintura,
- 24:45cada marca, aonde era, como era, para a porção, o
- 24:49tamanho. Então eles foram com a gente
- 24:51ativamente o tempo inteiro. Quando
- 24:53a gente faz a gente número de 40, porque na verdade,
- 24:55depois nas gravações de fato, estavam 40 pessoas
- 24:59caigang, nos set de filmagem ali, como uma
- 25:01figuração, como uma participação para construir
- 25:04essa comunidade. Então, não tem um figurante
- 25:09fazendo passar por um indígena caigang. Não,
- 25:11eram todos caigang ali. A gente ficamos há algum
- 25:15tempo, semanas, com o Orquishop, deles ensinando
- 25:18para a gente, e depois, antes de gravar, foi ao
- 25:21contrário. A gente que ensinou para eles
- 25:22como é que grava, porque aí você vai gravar até
- 25:24aqui, alguém vai falar, corta, aí você tem que
- 25:26parar mais ou menos aonde você está e depois
- 25:28continuar. E, enfim, foi um trabalho
- 25:31realmente, assim, foi um encontro extraordinário,
- 25:35troca, foi um intercâmbio cultural latente em todos
- 25:38os processos. Muito é isso, é no embrião
- 25:44liderado pela Fernanda Caigang. Depois
- 25:48a gente teve mais uma consultora de linguística,
- 25:51uma mulher caigang também, que trocou com um elenco
- 25:56toda a parte de língua, de fala, de tudo. Depois
- 26:00teve uma outra pessoa que veio com o artesanato, que
- 26:02ensinou como fazia, além de uma antropóloga. Então,
- 26:07a gente está falando de quatro pessoas, uma
- 26:10consultoria aí de quatro pessoas constantes nesse
- 26:12projeto. Perfeito. Já pegando um pouquinho do
- 26:15que você falou anteriormente, agora, saindo
- 26:18até um pouco da série, mas falando da etnia caigang,
- 26:22você disse que foi um pouco de um saber diferente
- 26:27daquele da sua infância, por ser um povo indígena
- 26:31que está localizado mais ao sul, sul, sul, dest, tal.
- 26:34O que caracteriza essa etnia
- 26:36caigang que a gente deve conhecer e se encantar por
- 26:40isso? Eu acho que a relação
- 26:44sustentável, a relação bem sucedida que eles têm com
- 26:48o entorno, com meio ambiente, com meio ambiente,
- 26:51e quando a gente pensa isso, não é naquele
- 26:53estereótipo de subsistência, sabe? Não,
- 26:55as pessoas têm televisão, as pessoas têm celular, as
- 26:57pessoas têm tudo, as pessoas têm carros, as
- 26:59pessoas têm moto. Mas mesmo assim, é como a
- 27:06convivência, o cuidado, o olhar para o grupo, o
- 27:10olhar para a natureza em volta, o cuidado com todo
- 27:14um ecossistema que vai além deles. É
- 27:19muito impressionante. E mais do que isso, saber
- 27:22eles, eu fui quando eu fui, a gente foi na... Eu
- 27:25passei, eu fui numa comunidade lá no Paraná, de
- 27:28Apucaná, eu vou falar certas insinuaves, gente,
- 27:31que eu não vou errar insinuaves, não. Eu
- 27:33fui na comunidade do Paraná de Apucarinha, a Pucarinha
- 27:39é uma terra indígena lá. E eu fiquei muito
- 27:44impressionado, assim, desde as partes de alimentação,
- 27:48tinha uma bromélia, que é uma coisa deles, que eles
- 27:51fizeram para a gente comer, que é calma, tipo um
- 27:55calmante natural, ao menos um tempo muito saboroso, e
- 27:58cheia de nutrientes, e coisas que deixam você
- 28:01saceado, sempre que você precisar comer muito. Assim,
- 28:05acho que tem tanto a oferecer, sabe? Acho
- 28:07que desde um lugar, desde um lugar, sobre como lidar
- 28:16com o meio, o que está em comum da sua volta, há
- 28:20coisas que a gente está desconhecido, posso até
- 28:23arriscar aqui, até um lugar, um outro olhar sobre
- 28:26a medicina, um outro olhar sobre a comunicação social.
- 28:35Perfeito, bom, Thiago, para mim, está
- 28:37excelente. Não sei se tem alguma coisa
- 28:39que você pensou em falar, que a gente não tratou
- 28:41aqui, que você acha importante. O
- 28:44nome importante também, que antes da Lúcia Fernanda
- 28:49Caigang, estar com a gente, estar com a Andrea
- 28:52Rodrigues, acompanhar todo o processo, antes dela também
- 28:55teve o Daniel Munduruku, que é até na discussão de
- 29:00qual etnia seria interessante ser retratada
- 29:04nesse projeto. Então, até isso também teve uma
- 29:06participação de uma liderança, enfim, Daniel,
- 29:09vilhante, uma super -liderança indígena, até no
- 29:14ponto de partida dessa ideia. Você
- 29:18vai até lá, pega essa criança e traz para mim o
- 29:22SBP. Ele tirou a vida do meu único
- 29:25filho. Some com o SBP para sempre.
- 29:33Preciso da sua ajuda. O
- 29:35nome dela é Luz. Você será forte e corajosa. E
- 29:40terá muito valor. O avô dela descobriu tudo.
- 29:44Vocês mentiram? Nunca
- 29:46o falaram do meu avô. Não! Você fala isso? Preciso!
- 29:50Você sempre fala que nós somos da guarda animal e
- 29:53um neon vagabundo. E ele sempre mostra o melhor
- 29:56caminho para a gente, curiosinha. É
- 29:58que é um internato. É uma escola onde as crianças
- 30:01moram. Qual é seu nome? Joca.
- 30:03Eu vou confiar em você. Tenho
- 30:05um lixo, é só um escola. Perfeito
- 30:07para se escolher. Vamos você ver ter conta para a
- 30:09gente quem é e como chegou aqui. Merde
- 30:13alguma coisa? Isso não tem pra ser, não. Vou
- 30:16chegar, vou chegar. A gente vai se achar. Pra
- 30:22que rada, gente? Vocês estão salvando a minha
- 30:25vida. Pode confiar. Ele
- 30:30é o professor Marcos, biologia. Que
- 30:32ele é como se fosse nosso pai. Sou
- 30:36camé. A gente não fica sentada
- 30:38esperando as coisas acontecerem. A
- 30:39gente vai atrás para as coisas daram certo. Nunca
- 30:43se sabe quando a escola vai precisar de um super
- 30:46-herói. Quando tiver tudo escuro, olha
- 30:49para essa luz aqui dentro. Ela
- 30:51vai te guiar para o melhor caminho.