Latest / Rádio Livre com Nonato Lima / Programa Rádio Livre - 13 de novembro de 2024
Transcript
- 0:00A Universitária FM apresenta Rádio Livre, conversando nas
- 0:05ondas do rádio. Sete horas e trinta e três
- 0:11minutos. A gente tá no ar pra se informar
- 0:24Saber o que é que há pra se ajudar A gente tá no ar pra se
- 0:27comunicar A gente tá no ar pra se divertir Pra falar e ouvir,
- 0:32pra dançar e rir Pra ficar feliz, pra ser livre Rádio Livre
- 0:35Rádio Livre Legenda Adriana Zanotto
- 1:21Os destaques do Rádio Livre desta quarta-feira, treze de
- 1:24novembro de dois mil e vinte e quatro.
- 1:29A Câmara dos Deputados amplia autorização para uso de cães de
- 1:32assistência em transporte público.
- 1:36Ministro Flávio Dino mantém suspensão de emendas
- 1:39parlamentares que estão fora da lei.
- 1:45Segurança Pública e Racismo. Este é o tema de hoje para a
- 1:49entrevista com o sociólogo e radialista Pedro Vitor Mendes no
- 1:53Rádio Livre. Rádio Livre.
- 2:00Rádio Livre. Rádio Livre.
- 2:01Apresentação Nonato Lima. Bom dia, estamos começando Rádio
- 2:07Livre aqui na Universidade FM, cento e sete vÃrgula nove ao
- 2:11vivo. Você também nos acompanha no
- 2:13podcast Rádio Livre com Nonato Lima.
- 2:20A inclusão do Ministério da Defesa no pacote de corte de
- 2:22gastos será definida hoje, em reunião entre o ministro José
- 2:28Múcio, oficiais e técnicos da equipe econômica, Isso é
- 2:33informação confirmada pelo Ministério da Fazenda.
- 2:35O encontro vai ser pela manhã no Ministério da Defesa.
- 2:38O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia informado que
- 2:43essa decisão tinha sido tomada pelo presidente Lula, que também
- 2:46é a defesa desta vez, porque das outras vezes entrou a educação,
- 2:49saúde, assistência social, haja corte.
- 2:53E o Ministério da Defesa foi preservado.
- 2:55Desta vez... O corte chegou ao Ministério da
- 2:58Defesa também. Afinal de contas, é um
- 3:00ministério, faz parte do mesmo governo.
- 3:03E aÃ, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dário
- 3:08Durigan, deverá representar o ministro da Fazenda nessa
- 3:11reunião. Segundo a Fazenda, a reunião
- 3:13terá caráter técnico para as duas pastas discutirem o desafio
- 3:18e o desenho das medidas antes do envio do texto final. ao Palácio
- 3:24do Planalto. O Ministério manda para o
- 3:25Palácio, que por sua vez manda para o Congresso Nacional.
- 3:29A inclusão do Ministério da Defesa na revisão do orçamento,
- 3:34revisão obrigatória do orçamento, foi determinação do
- 3:38presidente Lula para fechar o pacote.
- 3:41Que é o pacote de corte, né? à o orçamento depois do
- 3:45arcabouço fiscal e antes com o teto de gasto que foi furado e
- 3:50rasgado pelo governo anterior. o orçamento federal é engessado,
- 3:55completamente fechado. E agora a luta é para ver onde
- 4:00cortar mais. Ontem o ministro Haddad se
- 4:06reuniu com ministros da área social para discutir alterações,
- 4:11por exemplo, no saque aniversário do Fundo de Garantia
- 4:14do Tempo de Serviço e concessão de crédito consignado privado
- 4:18através do E-Social. Na noite de segunda-feira, a DAD
- 4:22informou que as reuniões sobre corte de gastos não estavam
- 4:33concluÃdas ainda. E as medidas para cortes seriam
- 4:39fechadas nesses dias. De novo, cortes no orçamento.
- 4:46E não se fala em corte nos benefÃcios fiscais de mais de
- 4:49RMB. A renúncia fiscal chamada
- 4:51subsÃdio, isenção de imposto, benefÃcios para os que não
- 4:58precisam tanto, ricos. E a dÃvida interna continua
- 5:02intocável. Aqui se resolveria o problema do
- 5:05déficit e do arcabouço rapidinho.
- 5:09Olha, vinte por cento dos juros da dÃvida interna em um ano
- 5:17Equilibraria o orçamento. Vinte por cento.
- 5:20Mas não se mexe em... Nem se fala.
- 5:22O governo não pode nem falar em dÃvida interna.
- 5:25Quem fala é o Fábio Sobral aqui no Rádio Livre.
- 5:29à aqui fora, lá dentro do governo.
- 5:31A dÃvida é algo sagrado. Se existe uma coisa sagrada no
- 5:34Brasil é a dÃvida interna. Por quê?
- 5:38Porque quem é que empresta dinheiro ao governo?
- 5:42Quem é que tem bilhões lá dentro dessa dÃvida interna?
- 5:47Agora, se mexer com rico, aà o negócio complica.
- 5:51Você viu, semana passada, o projeto era...
- 5:56Quem tem uma fortuna acima de dez milhões ia pagar meio por
- 6:00cento. Meio por cento.
- 6:04Resultado? Não pode.
- 6:07Oxente, o que você tem contra bilionários?
- 6:12Dez milhões era o mÃnimo. Acima de dez milhões...
- 6:15Mas nós estamos falando de muitos bilionários.
- 6:19à gente que tem mais de dez bilhões.
- 6:23Não pode mexer. Pode mexer no Bolsa FamÃlia,
- 6:26pode mexer no salário mÃnimo, pode cortar salário, demitir
- 6:31trabalhadores. Tudo isso está na regra.
- 6:36Rico, dÃvida pública interna, juros, tudo sagrado.
- 6:44Saúde, educação, assistência social sobrevivem a duras penas.
- 6:48São orçamentos muito sacrificados.
- 6:51De novo, vai ter corte, né? Isso já foi definido.
- 6:55Ora, para ter chegado no Ministério da Defesa, que dentro
- 6:57do orçamento federal é algo quase que intocável, pois é,
- 7:01para chegar no Ministério da Defesa o negócio está mais feio
- 7:03do que se imagina. Vamos esperar para ver o que vem
- 7:07de lá. Isso não é capricho do governo,
- 7:10não. à a estrutura que foi montada é
- 7:13para isso. Sete e quarenta.
- 7:22A Câmara dos Deputados aprovou ontem um projeto que amplia a
- 7:27autorização para que pessoas com deficiência empreguem cães em
- 7:31meios de transporte e ambientes de uso coletivo, privados e
- 7:34públicos. O projeto sofreu alterações e
- 7:36por isso precisará passar por nova análise do Senado Federal.
- 7:40A proposta garante às pessoas com qualquer deficiência, não
- 7:43somente visual, o direito de estarem acompanhadas de cão de
- 7:47serviço, não somente público. o cão guia.
- 7:50O cão de serviço é um animal treinado para realizar tarefas
- 7:53que aumentam a funcionalidade e a autonomia e o bem-estar das
- 7:57pessoas que precisam desse auxÃlio.
- 8:01Foram estipuladas seis outras categorias de cães de
- 8:03assistência com permissão. E aà agora vai para o Senado
- 8:08Federal tomar a decisão final e de lá vai sair a definição de
- 8:13quais os tipos vão ser aprovados.
- 8:26O ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, decidiu
- 8:29ontem manter a suspensão do pagamento de emendas
- 8:33parlamentares para organizações não governamentais, emendas que
- 8:37estão fora da lei. A decisão foi tomada pelo
- 8:41ministro após receber um relatório. onde a Controladoria
- 8:46Geral da União aponta diversas irregularidades nos repasses de
- 8:51recursos de emendas ao orçamento da União no perÃodo de dois mil
- 8:54e vinte a dois mil e vinte e quatro.
- 8:57Conforme o levantamento que foi solicitado pelo próprio ministro
- 9:00Flávio Dino, há direcionamento de emendas para uma organização
- 9:04especÃfica ausência de chamamento público ou concurso
- 9:09de projetos, ausência de capacidade operacional para
- 9:13execução das atividades, ou seja, receber a grana, mas nem
- 9:15estava preparado para executar o orçamento público, ausência de
- 9:20transparência na aplicação do dinheiro público, além de outras
- 9:25irregularidades. Observe, é a organização não
- 9:28governamental que ia receber o dinheiro governamental, Mas fora
- 9:34das regras governamentais de aplicação do dinheiro.
- 9:38Por isso o Flávio Dino foi lá e para, não paga.
- 9:41Enquanto não botar dentro da lei, não autoriza.
- 9:44Era isso que estava faltando. Espera-se que continue assim.
- 9:49Que haja uma decisão de não deixar ninguém brincar com
- 9:54dinheiro público. Nosso dinheiro.
- 10:14O CEDRA lança dados sobre o ingresso da população negra no
- 10:18ensino superior. Em dois mil e dez, a parcela de
- 10:21estudantes negros no ensino superior era de dez vÃrgula sete
- 10:24por cento. Ou seja, mais ou menos um em
- 10:27cada dez estudantes era negro. Brancos eram dezenove vÃrgula
- 10:35oito. Isso em dois mil e dez.
- 10:37Era mais ou menos dois em cada...
- 10:40Em cada dez. Em dois mil e dezenove, a
- 10:43quantidade de negros ainda era menor do que a de brancos.
- 10:48Os brancos correspondiam a quarenta e dois e meio por
- 10:51cento. Negros, trinta e oito, vÃrgula
- 10:54dois por cento. Mas já havia uma mudança
- 10:57significativa aÃ. Os dados são do Centro de
- 11:01Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, que teve
- 11:05como referência o Censo da Educação Superior, elaborado e
- 11:08divulgado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e
- 11:11Pesquisas Educacionais AnÃsio Teixeira Inep.
- 11:14O centro vai disponibilizar dados a partir da próxima semana
- 11:21Próxima terça-feira os dados completos dessa pesquisa.
- 11:24Um dos pontos cruciais para dimensionar o impacto do racismo
- 11:28e das desigualdades decorrentes do racismo, como a que cria
- 11:32abismos na educação, é obter dados que permitam saber o
- 11:35perfil dos estudantes. Por isso, conforme esse estudo,
- 11:39uma das ferramentas mais importantes para tornar os
- 11:42levantamentos completos é a declaração de cor e raça do
- 11:46estudante. Na educação, o quadro é esse.
- 11:50Vêm dados novos semana que vem. E na segurança pública?
- 11:55Qual é a situação? Esse é o tema da nossa
- 11:57entrevista agora com o sociólogo e radialista Pedro Vitor Mendes.
- 12:08Um estudo publicado chamado Pele e Alvo, Mortes que Revelam um
- 12:12Padrão... mostra que em dois mil e vinte e três, quatro mil e
- 12:18vinte e cinco pessoas foram mortas por policiais em
- 12:22operações policiais. Em três mil cento e sessenta e
- 12:26nove casos, foram disponibilizados os dados de
- 12:29raça e cor. Dois mil setecentos e oitenta e
- 12:33dois assassinatos eram vÃtimas negras, pessoas negras.
- 12:39Isso significa oitenta e sete vÃrgula oito por cento.
- 12:42Esse é o nosso tema de hoje para conversar com o sociólogo
- 12:46radialista Pedro Vitor Mendes. Bom dia, Pedro.
- 12:49Bom dia, professor. Bom dia a todos os ouvintes.
- 12:52Professor, eu acho que não há outra palavra para poder
- 12:58descrever um dado como esse como um escândalo.
- 13:02Eu não encontro outra palavra para poder se referir a esse
- 13:07fato. tão criminoso e tão escancarado do... tão
- 13:12escancarador do racismo brasileiro como esse.
- 13:16Isso, em qualquer outro lugar do mundo, seria um escândalo... sob
- 13:22o ponto de vista que demonstraria para o mundo quão
- 13:25racista aquela sociedade é. Ora, se fosse uma caixa indiana,
- 13:31e se, na verdade, a maioria das pessoas dessa caixa fossem as
- 13:34vÃtimas fatais da polÃcia... Ia ser um escândalo.
- 13:39Se esse fosse um dado dos Estados Unidos, todo mundo ia
- 13:42apontar, dizer, olha como os Estados Unidos é racista.
- 13:46Mas no Brasil, parece que, eu não sei se por uma decisão
- 13:51editorial de algumas empresas de notÃcia, não é que não é
- 13:59noticiado, mas não repercute. um fenômeno desse, isso não é visto
- 14:04como algo escandaloso, isso não choca as pessoas.
- 14:08à como se o noticiário naturalizasse e os próprios
- 14:12governos tratam a questão como números, né?
- 14:16Como se, inclusive, um processo até de naturalização, porque,
- 14:20olha, se uma coisa não te choca, você trata aquilo como natural,
- 14:24como se fosse uma coisa do dia a dia, e isso não é.
- 14:27Ora, se temos praticamente metade da população negra e
- 14:32metade da população branca, o ideal é que não houvessem mortos
- 14:37pela polÃcia, que a nossa polÃcia fosse tão eficiente que
- 14:39conseguisse controlar e combater o crime sem baixas.
- 14:44Mas não é o que acontece. De qualquer forma...
- 14:48O que se espera é que metade dessas vÃtimas fossem brancas e
- 14:53metade fossem negras, como é na população brasileira.
- 14:56Noventa por cento das vÃtimas fatais das ações policiais são
- 15:01negras. Isso aÃ, Pedro, são os números
- 15:04nacionais. Porque quando você vai olhar, os
- 15:06dados se referem a nove estados. Você vai olhar aqui e vai
- 15:10encontrar números maiores, por exemplo, na Bahia.
- 15:14Sim. Não é mera coincidência, né?
- 15:16Não é. E assim, eu acho que isso, caro
- 15:21ouvinte, escancara o quanto o racismo no Brasil tem um caráter
- 15:26estrutural. Porque os policiais, eu espero
- 15:31que eles não recebam uma instrução de, olha, se for
- 15:35negro, preferencialmente você mata.
- 15:38Eu acho que seria um outro escândalo.
- 15:40Eu espero que se isso viesse à tona fosse um outro escândalo.
- 15:44Mas eu imagino que não seja isso que aconteça.
- 15:47E aÃ, mas você tem uma prática. Você tem uma visão de que, se é
- 15:55um corpo negro, ele é mais passÃvel de ser eliminado.
- 16:00Essa naturalização da população negra como vÃtima de ações
- 16:04policiais, ela é um reflexo do racismo estrutural.
- 16:11Uma visão naturalizada de que o corpo negro, a vida das pessoas
- 16:15negras, vale menos. Pedro, você já falou disso aqui,
- 16:18mas vamos lembrar de novo, como é que funciona o racismo
- 16:21estrutural? Só para a gente entender melhor.
- 16:24à quando estruturalmente numa sociedade você tem um fenômeno
- 16:31racista se reproduzindo em suas diversas instâncias. de uma
- 16:35forma que muitas vezes não é nem consciente, não vou dizer que
- 16:40não é intencional, porque em muitos casos é, mas não é nem
- 16:44mesmo consciente por parte dos indivÃduos que reproduzem aquele
- 16:48racismo, a reprodução dele, a persistência dele e a manutenção
- 16:55daquela estrutura que recai sobre pessoas negras, que exclui
- 17:01pessoas negras do acesso a bens materiais e imateriais.
- 17:07Enquanto que, por outro lado, reserva esses bens materiais e
- 17:11imateriais prioritariamente para pessoas brancas.
- 17:15Isso, caro ouvinte, a despeito da classe social, porque há
- 17:18dados que provam que a ascensão social, ou seja, que a pessoa
- 17:25conseguir sair de uma classe mais baixa e ir para uma classe
- 17:28mais alta... está vinculado muitas vezes à raça daquela
- 17:31pessoa, como aquela pessoa é reconhecida pela população.
- 17:36Se aquela pessoa se reconhece e é reconhecida como branca, mesmo
- 17:40sendo pobre, ela tem mais chances de subir pouco a pouco
- 17:44para classe média baixa, depois classe média, do que uma pessoa
- 17:48negra. Isso é um reflexo de como o
- 17:54racismo se reproduz na nossa sociedade.
- 17:58Claro, temos um sistema capitalista, temos um sistema
- 18:02elitista que está sempre ali tentando prejudicar as pessoas
- 18:07pobres, mas além disso... Também temos um sistema racista
- 18:12que recai sobre, e é mais perverso sobre as pessoas negras
- 18:17pobres, e que mesmo a pessoa sendo rica, ela continua...
- 18:21sofrendo racismo. Quantos e quantos casos de
- 18:24personalidades negras, famosas, ricas, com muito dinheiro, nós
- 18:28não vemos de situações de racismo que essas pessoas
- 18:32vivenciam. De estar dirigindo um carro
- 18:35super caro e a polÃcia parar achando que aquele carro foi
- 18:39roubado ou que aquele homem negro que está dirigindo o carro
- 18:42é o motorista do carro. Isso é muito frequente, isso é
- 18:46muito comum. Então, independente da classe
- 18:49social, a estrutura racista, ela recai sobre toda a população
- 18:53negra brasileira. Agora, eu vi uma informação de
- 18:57que essa visão de quem é a pessoa que vai ser abordada ou
- 19:03que vai ser até morta, passaria pela própria formação policial.
- 19:10Eu não tenho elementos para identificar aqui claramente, mas
- 19:14vi uma especialista dizendo que, olha, a aparência é ensinada e
- 19:21fortalece o preconceito em relação a jovens, negros.
- 19:27Ela até falou assim, se ele está de bermuda, chinelo e é preto,
- 19:32Então ele tende a ser considerado alguém que não é um
- 19:37cidadão comum, normal, com direitos, etc.
- 19:42Eu também já ouvi relatos de cursos de formação, mas não vou
- 19:48ser responsável aqui e trazer como se fosse um dado objetivo,
- 19:52porque de fato pode... Eu não tenho esses dados
- 19:57objetivamente, sabe, professor? Então, realmente eu não posso
- 20:00chegar e dizer, olha, isso de fato é ensinado.
- 20:03Eu já ouvi falar... Eu já conversei com pessoas que
- 20:06participaram de grupos de formação e parece que esse
- 20:11processo, quando acontece, é um processo um tanto informal.
- 20:16Mas é aà onde o racismo também se reproduz.
- 20:18à justamente quando as coisas não estão formalizadas, é aÃ
- 20:23onde ele ocupa o espaço. Por exemplo, o que é uma coisa
- 20:25mais racista do que boa aparência no Brasil?
- 20:28Quando você diz que tem uma vaga, tradicionalmente, com boa
- 20:32aparência, as pessoas já sabem que aquela vaga é para a pessoa
- 20:34branca. Ã uma forma.
- 20:36Ah, mas não estou sendo racista, não estou falando de cor.
- 20:39Mas para bom entendedor, boa palavra baixa.
- 20:44à porque as pessoas negras não têm boa aparência?
- 20:46Não. à porque vivemos num sistema
- 20:48racista que a estética é eurocentrada.
- 20:52Quero dizer... Quando falamos de beleza, nós
- 20:56somos influenciados por esse sistema racista a ver os traços
- 21:00europeus, cabelo loiro, olhos claros, como um traço de beleza.
- 21:07Tem vários relatos de, por exemplo, alemães que vêm aqui
- 21:11para o Brasil e ficam muito felizes porque é o único lugar
- 21:13do mundo que eles são vistos como bonitos.
- 21:17Isso é sério, né? Então assim, não é que ele seja
- 21:19bonito, ele tem olhos claros. E a gente, por essa perspectiva
- 21:25de beleza eurocentrada, tende a achar uma pessoa com esses
- 21:30traços, branca, loira, olhos claros, imediatamente como uma
- 21:34pessoa bonita. Certo, agora esses números que a
- 21:37gente falou aqui de... praticamente noventa, porque na
- 21:42Bahia são noventa e quatro vÃrgula seis por cento, né?
- 21:45De assassinados em operações ou abordagens policiais negros.
- 21:51Aqui no caso do Ceará, oitenta e oito vÃrgula sete, que é
- 21:54significativo, né? à um número muito alto ainda.
- 21:58Mas houve, foi publicado na imprensa uma explicação que a
- 22:01Secretaria da Segurança Pública e o governo estão investindo em
- 22:05formação, etc., etc., Esse aspecto seria um ponto
- 22:15fundamental? Poderia se começar a mudar por
- 22:18aà pela própria formação? Ou há algo mais nas polÃticas de
- 22:22segurança pública que a formação não alcança?
- 22:25Eu acho que boa parte da formação, como eu falei, ela
- 22:30reproduz o racismo de uma maneira naturalizada.
- 22:35Por exemplo, vou aqui dar um exemplo.
- 22:38Por exemplo, você vê o cidadão pai de famÃlia, você não vai
- 22:41abordar ele de um jeito, você vai abordar de um jeito mais
- 22:43tranquilo. Agora, quando é o marginal, você
- 22:46vai lá e aborda do jeito que marginal tem que ser abordado.
- 22:49Que corpos são esses que a gente está falando, que aparecem de
- 22:52maneira implÃcita, por exemplo, numa fala como essa?
- 22:57Qual a cor da pele desses corpos, que são naturalizados?
- 23:03Qual a cor da pele quando a pessoa fala o pai de famÃlia
- 23:07cidadão? Infelizmente, já existe uma
- 23:11visão que liga o pai de famÃlia, cidadão, não sei o quê, com uma
- 23:17pessoa de pele branca e o dito, entre aspas, marginal, com uma
- 23:21pessoa de pele negra. Não se sabe nem mesmo os
- 23:25antecedentes dessa pessoa, já há uma diferença no tratamento.
- 23:30E isso, infelizmente, ganha eco até na própria maneira como a
- 23:35polÃcia age em diferentes locais da cidade.
- 23:39Não por coincidência, professor. Num lugar em que haja uma
- 23:43maioria de pessoas brancas, a polÃcia vai... agir de uma
- 23:48forma, e no lugar onde a maioria das pessoas é negra, ela vai
- 23:51agir de outra. Por isso que a gente vê tantas
- 23:53crianças negras, de quatro, oito anos de idade, vÃtimas de bala
- 23:59perdida. Por que a gente não vê tantas
- 24:01crianças brancas no Brasil, vÃtimas de bala perdida?
- 24:04Porque a polÃcia não entra atirando nesses lugares de
- 24:07maioria branca. Eles não moram na favela, não
- 24:09moram de um modo geral, né? E quando se trata de favela,
- 24:15você vê uma ação policial que se permite ser irresponsável, de
- 24:20atirar a esmo. Quando que, por exemplo, num
- 24:23lugar onde a maioria das pessoas presentes é branca, A polÃcia
- 24:29não faz isso, ela tem cuidado. Agora, para encerrar, eu vou
- 24:34trazer o caso de São Paulo. Recentemente, uma criança foi
- 24:37assassinada pela polÃcia. Isso foi, inclusive, admitido,
- 24:41que de fato foi bala originária de arma de polÃcia.
- 24:47E a polÃcia foi para o velório, foi fazer revista na entrada do
- 24:54cemitério. Isso foi denunciado pela própria
- 24:58ouvidoria da polÃcia do estado de São Paulo.
- 25:01E, por último, no mesmo momento em que a criança foi
- 25:06assassinada, em que houve uma operação policial violenta
- 25:09contra pobres e pretos, o governador de São Paulo fez uma
- 25:12homenagem à polÃcia. Sequer se referiu ao crime.
- 25:18Porque, infelizmente, parece que para a boa parte das pessoas não
- 25:21choca. O que me dói é imaginar que se
- 25:25fosse uma criança de outra cor de pele, com traços mais
- 25:30europeus, ou habitasse uma região mais central de São
- 25:35Paulo, eu fico imaginando a comoção nacional.
- 25:41Eu fico imaginando... Eu lembro uma vez uma capa da
- 25:45Veja de uns vinte anos atrás, em que uma criança tinha morrido
- 25:53por conta de enchentes. E foi uma grande comoção
- 25:57nacional. E era uma criança, como essa
- 26:01criança que foi baleada, mas era uma criança loira.
- 26:05E eu não sou contra a comoção quando se perde uma criança,
- 26:09independente da cor. Mas o que eu questiono é por que
- 26:13quando... se trata de uma criança loira, há uma comoção
- 26:17nacional, e quando se trata de uma criança negra, de uma
- 26:21criança que mora na favela, essa comoção é tão fraca.
- 26:27Ela não ganha tanta repercussão. Sr. e Sr.
- 26:30Pedro Vitor Mendes, muito obrigado pela sua contribuição e
- 26:33até a próxima quarta. Eu que agradeço, professor,
- 26:35agradeço a todos os ouvintes. Até o nosso próximo encontro.
- 26:41Chegamos ao final do Rádio Livre.
- 26:43Bom dia e um abraço. Obrigado pela companhia.
- 26:44Amanhã a gente se encontra aqui novamente, Fernando Torres e eu,
- 26:48com mais um Rádio Livre. Você nos acompanha no podcast
- 26:51Rádio Livre com Nonato Lima e a gente agradece.
- 26:56A Universitária FM apresentou Rádio Livre.