Latest / Café com Dungeon / RPG Matrix e RPG Quebra-Cabeça #0059
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- 0:00RPG é criação, mas a impressão que dá é que grande parte das
- 0:04pessoas cria sem ter a mínima ideia do que está fazendo, e que
- 0:09quando fala sobre isso, não faz a mínima ideia do que está
- 0:13falando. Quando a gente cria, as coisas
- 0:16podem vir na força caótica, no relâmpago, no lampejo.
- 0:21Eu acho de verdade que essa centelha criativa existe, seja
- 0:24em RPG, seja em música na cozinha, quando você prepara
- 0:28aquele jantar cheio de restos da geladeira e fica delicioso,
- 0:33apesar de você não saber nada sobre culinária.
- 0:37Então, eu acho que existe essa centelha.
- 0:39Por outro lado, a gente sabe que um raio não cai duas vezes no
- 0:43mesmo lugar. E por melhor que você seja, por
- 0:45mais criativo que você seja, de maneira geral, a gente pretende,
- 0:50de alguma forma, a gente deseja, de alguma forma, dividir a nossa
- 0:53criação. Por mais que exista, sei lá,
- 0:57possa existir alguém que crie somente por criar para si mesmo,
- 1:01para o seu prazer íntimo, e que essa pessoa possa guardar suas
- 1:06criações no seu porão, De modo geral, quando a gente acha que a
- 1:12gente fez alguma coisa muito legal, a gente quer compartilhar
- 1:14isso, a gente quer mostrar para os outros, pelo menos para quem
- 1:17a gente se importa. E eu acho que é possível, se
- 1:21você for músico, por exemplo, você fazer um solo de guitarra
- 1:23perfeito, inesquecível, absolutamente do nada, e não
- 1:30poder dividir com ninguém esse momento.
- 1:32Pode acontecer, você está lá, brincando, ensaiando, arranhando
- 1:37a guitarra, de repente sai uma coisa perfeita dessa.
- 1:40Acredito mesmo que isso pode acontecer.
- 1:43E é possível também que uma jam session de jazz, sei lá, ocorra
- 1:48de uma maneira especial e única. Mas, de certa forma, se a gente
- 1:53entende teoria musical, se a gente manja de guitarra, se a
- 1:57gente entende partitura, se a gente tem algum letramento
- 2:02musical... algumas bases a gente vai conhecer, algumas bases
- 2:06sobre as quais a gente pode improvisar, algumas estruturas
- 2:10que a gente pode seguir. Pode ser que você consiga, de
- 2:13certa forma, provocar esses relâmpagos, esses lampejos.
- 2:18Se você sabe ler música e sabe escrever, sabe passar pro papel
- 2:22o som que você tá ouvindo na sua cabeça, que você tá imaginando,
- 2:26o que seja, você é detentor de uma tecnologia simbólica que te
- 2:30ajuda a construir, compartilhar e debater música com outras
- 2:34pessoas. Não só pra fruição, mas também
- 2:38pra colaboração. Tudo isso num ambiente criativo.
- 2:42Claro, uma jam session de jazz, essa jam session que eu falei,
- 2:47você pode pensar que uma vai ser sempre diferente da outra.
- 2:50Uma sessão acontece, outra acontece e as duas nunca serão
- 2:53absolutamente iguais. Mas a gente pode ver muitas
- 2:57improvisações de qualidade semelhante e até similares entre
- 3:01si, ainda que não idênticas, feitas em cima das mesmas bases,
- 3:05né? E aí a banda pode até fazer
- 3:08vários shows com a mesma peça musical, com o mesmo conceito,
- 3:13para diferentes plateias, ou até gravar um álbum, de certa forma
- 3:18construindo coisas que no momento da execução vão
- 3:22acontecer de forma diferente, mas que tem a mesma proposta, a
- 3:26mesma expressão. Você pode abrir, de repente, o
- 3:30Google Docs e sair escrevendo o melhor romance da década, num
- 3:34fluxo de consciência, numa base da centelha criativa bruta.
- 3:41E eu não vou dizer para você que é impossível você fazer isso,
- 3:44não vou te desestimular. Mas se você estuda literatura,
- 3:47técnicas de escrita, técnicas criativas, se você tem bagagem,
- 3:51se você já experimentou muitas vezes, certamente você não vai
- 3:55ser só familiar com a linguagem criativa que você está usando,
- 4:00mas também você vai conseguir planejar melhor a sua criação,
- 4:02ser mais autoconsciente com o seu processo criativo.
- 4:07E aí isso vai levar você a trabalhar melhor as suas
- 4:10intencionalidades, entendendo melhor a sua forma de expressão.
- 4:14Você acaba dominando melhor a mídia em vez de ser dominado por
- 4:19ela. Entender melhor a mídia, a
- 4:22linguagem, as boas práticas, isso significa não somente
- 4:26entender melhor os caminhos que você quer percorrer, mas também
- 4:30ser capaz de olhar o que você fez e exercer crítica sobre
- 4:34isso. Entender os pontos de melhora,
- 4:37não somente sozinho, mas em conjunto com outras pessoas que
- 4:40também têm esse olhar e reproduzir o que você construiu
- 4:44mais vezes. No RPG, de modo geral, isso diz
- 4:47respeito à experiência de jogo. Você pode passar anos e anos
- 4:52jogando com o mesmo grupo, sem teorizar e sem se aprofundar
- 4:56muito em teoria do RPG, com bastante sucesso.
- 4:59Você pode, no máximo, de repente, consumir aquele
- 5:02material mais rasteiro, mais raso, de dicas soltas de RPG que
- 5:08a galera, às vezes, costuma consumir.
- 5:11Mas me parece claro que quem, de alguma forma, se preocupa em
- 5:16entender o jogo vai saber trabalhar melhor as suas
- 5:18intencionalidades e seus desejos.
- 5:21Além de conseguir entender pontos de melhora e desenvolver
- 5:24uma linguagem comum com seus parceiros de jogatina, que
- 5:27também vão saber se expressar em cima daquilo.
- 5:30Me parece que todo esse ambiente criativo vai ganhar em
- 5:35qualidade. E para isso, a gente precisa de
- 5:39teoria, a gente precisa de olhar.
- 5:42Aqui no Café com Dungeon, eu sou da invencionice.
- 5:46Você já deve saber disso. Às vezes eu invento um termo ou
- 5:50outro porque eu acho que eu preciso para poder me expressar
- 5:53ou para poder expressar um conceito e uma visão que eu não
- 5:56vi em outro lugar. Às vezes eu invento sem
- 5:59necessidade até, porque alguém já inventou aquilo, alguém já
- 6:03trabalhou aquele conceito e batizou de outra forma, e às
- 6:06vezes eu descubro só depois, e tudo bem, né?
- 6:09Mas independente disso, eu acho que existir essa linguagem me
- 6:12ajuda a discutir a respeito e pautar melhor o meu jogo,
- 6:16independente da nomenclatura. Tanto que hoje em dia eu
- 6:20proponho um estilo de jogo old school, que é o que eu tenho
- 6:24gostado mais de trabalhar, né? E esse estilo de Old School que
- 6:28eu proponho, muito específico, ele atingiu um número legal de
- 6:32pessoas que jogam, ou ao menos se inspiram nele para jogar.
- 6:36E a gente vai ver aí que tem mesas abertas e mesas
- 6:39particulares também alcançando um bom número de jogadores
- 6:42experimentando em cima desse conceito, dessa mesma base.
- 6:47E é claro, em cima dessa base, eles vão desenvolver esses
- 6:50estilos pessoais, mas tem um registro sobre o qual a gente
- 6:57vai poder discutir com mais profundidade e clareza.
- 7:00A gente vai ter mais entendimento sobre o que a gente
- 7:02está fazendo. Só que RPG é muito mais do que
- 7:05um estilo ou do que um modelo. Ele passa para muito além do que
- 7:10essas coisas podem entregar para a gente.
- 7:13E por mais que a gente possa propor formas de jogar e
- 7:16esquemas que descrevam como as coisas ocorrem no RPG...
- 7:20O RPG, assim como outros jogos...
- 7:22Eles são extremamente variados...
- 7:24E em muitos pontos... As experiências vão variar
- 7:27também... Em muitos pontos...
- 7:29As experiências vão ser diferentes umas das outras...
- 7:32A ponto de a gente quase... Entender que são jogos
- 7:35diferentes... Mas não são...
- 7:37São RPGs da mesma forma... Isso acontece com jogos...
- 7:41Jogos são tão diferentes entre si...
- 7:44Que às vezes parece que a gente está falando de coisas
- 7:46diferentes... Nesse ponto...
- 7:50A gente precisa que diferentes pessoas contribuam com
- 7:53diferentes leituras, trazendo diferentes olhares, diferentes
- 7:57perspectivas sobre o hobby e sobre tantas facetas diferentes
- 8:02do mesmo hobby. A Rai do Farol do Leocórnio é
- 8:06uma produtora de conteúdo incrível e ela tem leituras
- 8:09muito legais sobre o hobby, sobre o RPG e que passam por
- 8:14caminhos muito diferentes do que eu exploro, mas que às vezes
- 8:17também confluem. Desde o episódio do canal dela
- 8:22em que ela fez uma análise do musical Cats para entender e
- 8:25usar isso como um fio condutor para analisar o relacionamento
- 8:29entre personagens e jogadores, até episódios mais filosóficos e
- 8:34profundos investigando a natureza do RPG enquanto arte, a
- 8:37gente pode ver que a Heidla tem um olhar curioso, investigativo
- 8:40e imaginativo sobre o RPG. E acaba que isso traz leituras
- 8:46que partem de outros referenciais de jogo em
- 8:49comparação aos meus. Aparentemente ela traz lentes
- 8:54diferentes das que eu uso normalmente para analisar o
- 8:57jogo. E que por isso são tão valiosas
- 9:00para mim. Hoje a gente vai conhecer as
- 9:03lentes da RAI a respeito de dois modelos de experiência de RPG.
- 9:07Um voltado a experimentar uma matriz, uma simulação, uma
- 9:12realidade. E outro voltado a construção
- 9:14coletiva de uma experiência de RPG em mesa.
- 9:17Que em momentos se afasta e em outros momentos se aproxima
- 9:22muito do que eu costumo enxergar aqui no Café com Dungeon.
- 9:27Vamos conhecer esses modelos com vocês.
- 9:31O jogo Matrix e o jogo Quebra Cabeça.
- 9:34Não se preocupe em concordar ou não.
- 9:37Se preocupe com a utilidade que esse olhar poderá ter no seu
- 9:41jogo, na sua mesa. Como vai impactar no seu olhar
- 9:46sobre determinados fenômenos. Afinal, RPG é quase sempre uma
- 9:51construção coletiva. É ou não é?
- 9:55Hoje tem café? Tem.
- 9:56Tem? Você quer uva?
- 10:01Não, quero café. Bom dia, amigos do Café com
- 10:10Dungeon. Estamos aqui para mais um
- 10:11episódio do seu podcast matinal favorito, trazendo sempre muito
- 10:16RPG. Meu nome é Rafael Balbi e hoje
- 10:18eu estou bebendo um delicioso café moído na hora, o cheiro
- 10:23impregnando o ambiente da melhor forma possível.
- 10:27É o café Ovelha Negra. Se você quer amanhecer tomando
- 10:29café especial, sem impurezas da indústria... pode ir lá em
- 10:34ovelha.café na internet, no site deles, e usar o cupom CCD, que
- 10:40você consegue beber o café Ovelha Negra, que é o café que
- 10:44eu tomo. É uma manhã perfeita, viu?
- 10:47Amanhecer tomando um café especial, ouvindo um podcast de
- 10:51RPG, não tem nada igual. Então, se você for lá no site
- 10:55usar o cupom CCD, você tem um abatimento, mas se você quiser
- 10:57um desconto ainda maior, a gente tem cupons progressivos pros
- 11:01assinantes do Café com Dungeon. E aí não somente você consegue o
- 11:05desconto com o cupom, mas você também recebe conteúdo extra,
- 11:10participa de sorteios, inclusive sorteio de café especial e
- 11:15também consegue outros cupons de outros parceiros nossos com
- 11:20outros benefícios. Fora isso, participa de um grupo
- 11:23de Telegram muito maneiro, com uma galera muito interessada em
- 11:27falar sobre RPG. Então, chega lá no apoia.se
- 11:31barra Café com Dungeon. Lembrando que o episódio de hoje
- 11:35não vai ter leitura de enquete, porque a gente está no fim do
- 11:38ano, gravamos alguns em sequência.
- 11:41E no ano que vem, quando eu retomar aqui o hábito normal de
- 11:45gravação, A gente dá uma acelerada aí, lendo algumas
- 11:50enquetes. Então não deixem de participar,
- 11:53eu vou deixar a enquete para vocês responderem, mas eu vou
- 11:56fazer a leitura das enquetes somente em janeiro, beleza?
- 12:00Então, beleza, vamos lá para o episódio.
- 12:16Maravilha, eu tô aqui com a Rai do Farol do Leocórnio, que tem
- 12:20um conteúdo incrível de RPG e vai trazer um pouquinho das
- 12:22reflexões dela hoje aqui sobre dois tipos de experiência que a
- 12:28gente pode desenhar a partir do RPG, que a gente pode obviamente
- 12:32experimentar dentro do RPG. Então, bem-vinda, Rai.
- 12:37Muito obrigada, Val, é um prazer estar aqui.
- 12:40Vamos lá, você falou que ia trazer aqui um desenho, uma
- 12:45percepção tua, uma reflexão que você teve a partir de dois
- 12:49modelos de experiência que a gente pode ter no RPG, que eu
- 12:51fiquei muito curioso, porque eu também enxergo dois modelos, tem
- 12:54coisa que a gente vai poder debater mais pra frente, mas
- 12:56vamos começar com você trazendo essa ideia de duas experiências,
- 13:02né, e... Você conseguiria botar isso em
- 13:04linhas gerais pra gente? Pra gente sacar só uma
- 13:08introdução aqui do que você pensou a respeito dessas duas
- 13:11experiências? O que eu pensei foi mais ou
- 13:14menos o seguinte. Quando nós jogamos o RPG, qual é
- 13:19a experiência que nós estamos buscando?
- 13:20E eu acho que muitas vezes como jogadores, como membros dessa
- 13:23comunidade, nos falta uma clareza de entender o que a
- 13:27gente está pedindo daquele momento, daquelas pessoas,
- 13:30daquele lugar. investigando isso, que foi sempre uma área de
- 13:34interesse minha, o primeiro jogo que eu criei não foi um RPG, foi
- 13:37um jogo de cartas que investiga o que é que você gosta em RPG,
- 13:41diga-se de passagem, se chama cartas de navegação.
- 13:46Mas, de forma geral, nessa investigação, o que eu percebi é
- 13:49o seguinte, eu não acho que existam necessariamente apenas
- 13:52dois desenhos, eu acho que é possível que sejam mais, mas a
- 13:56priori eu consegui identificar...
- 13:59A ideia de que as pessoas buscam no RPG ou uma simulação de um
- 14:04outro mundo, de um outro lugar, que é muitas vezes carregada
- 14:09tradicionalmente por uma pessoa que assume esse papel de
- 14:12narrador, mestre, o que você queira chamar, mas que ele
- 14:16basicamente compila e renderiza essa realidade pra você, digamos
- 14:21assim. E os jogadores vivem nessa
- 14:24realidade, então, criada através do nosso imaginário, das nossas
- 14:27palavras e das regras do jogo. Isso é um jeito muito
- 14:31tradicional de se jogar RPG, quando a gente vai, você
- 14:34certamente está a par, quanto mais antigamente a gente vai,
- 14:38muitas vezes há uma exploração de quanto menos regras, essa
- 14:42ideia de que a ficha do personagem não pertencia nem ao
- 14:45jogador, era um material para o mestre manter a renderização
- 14:50dessa realidade dele em ordem, e o jogador podia só, como muitos
- 14:55deles buscam, emergir na fantasia.
- 14:58Então criava-se essa experiência de fluxo que não é, na minha
- 15:02opinião, muito diferente de quando você tá jogando Zelda,
- 15:06honestamente, explorando aquele mundo, sabe, que responde pra
- 15:09você. Se você busca essa experiência e
- 15:13você pergunta pra mim quem é o NPC, quem é o Taverneiro, e eu
- 15:18falo, não sei quem que ele é, fala pra mim quem ele é,
- 15:22descreva ele pra mim. Por mais legal que muitas
- 15:25pessoas considerem esse momento em que eu abro espaço para você
- 15:28criar nesse mundo, se o que você está buscando é a imersão em uma
- 15:31realidade simulada, isso quebra a sua imersão.
- 15:35Mesmo que isso seja divertido, isso cria uma ruptura na
- 15:38experiência que você estava buscando, que era uma
- 15:40experiência de tanto quanto possível.
- 15:42Eu quero ficar completamente rendido à ficção do que está
- 15:46acontecendo. Eu quero me sentir tanto quanto
- 15:48possível neste mundo que nós estamos criando.
- 15:52E essa seria a experiência que eu chamo de Matrix, como
- 15:56referência ao grande filme da década de noventa.
- 15:59Porque existe essa ideia de que, e é uma ideia muito tradicional,
- 16:03cria-se esse outro lugar e nós vamos para lá.
- 16:07E este outro lugar é um lugar completo.
- 16:09Ele tem nuances, complexidades, aleatoriedades.
- 16:12Ele tem um caos que a realidade tem e que é difícil simular.
- 16:16Aleatoriedade é uma das coisas mais difíceis de você conseguir
- 16:20organizar e fazer funcionar com apertar um botão.
- 16:23Então, uma pessoa faz isso e a gente tenta não quebrar.
- 16:30Esse feitiço, a gente atravessa essa liminalidade, como o
- 16:32Huizinga fala, e a gente tenta manter a imersão nesse lugar.
- 16:36Eu já joguei jogos assim, já joguei jogos em que não era
- 16:39permitido tocar no celular, sabe?
- 16:41Tipo, durante o jogo, ou olhar pra algo que não fosse uns pros
- 16:45outros, ou, sabe, pra sua própria ficha.
- 16:47Eles eram experiências incríveis, sabe?
- 16:50Tipo, muitos jogos, é uma experiência que ela é muito
- 16:53resiliente no RPG, porque ela funciona.
- 16:56E o contraponto dela, algo muito mais contemporâneo em termos de
- 17:01como a gente exerce isso atualmente, mas se você for
- 17:04pensar também, anterior ao RPG, é a ideia do quebra-cabeças, é a
- 17:10ideia do... Muitas vezes a gente divide RPG
- 17:13entre jogo e ficção, e eu quero justamente propor essa ideia de
- 17:16matriz e quebra-cabeça. Porque pra muitos jogos
- 17:20contemporâneos, nós estamos tentando reproduzir uma certa
- 17:24sensação. Nós temos um objetivo catártico,
- 17:28específico. Nós queremos nos sentir como
- 17:31pistoleiros no Velho Oeste, por exemplo.
- 17:34E o nosso objetivo conjunto não é renderizar Red Dead Redemption
- 17:41nas nossas cabeças. É ver se todos nós juntos
- 17:44conseguimos, ao final dessa aventura, termos nos sentido
- 17:48como se nós fôssemos pistoleiros no Velho Oeste.
- 17:51Então, é quase a sensação de quebrar um código ou de
- 17:54desvendar um quebra-cabeça, no sentido que, ao longo dessa
- 17:58experiência, ela vai ser mais legítima para todos os
- 18:01envolvidos, se todos os envolvidos forem capazes de
- 18:06puxar e empurrar e fazer com que caiba neles aquela experiência.
- 18:11Então, experiências que são voltadas para esse elemento
- 18:14catártico, para esse elemento de reprodução de algum gênero de
- 18:17filme, de livro, sabe? Em geral, experiências que têm
- 18:21uma outra mídia de RPG como foco, elas têm uma narrativa
- 18:25partilhada. A maioria das pessoas, todo
- 18:28jogador de RPG, sempre ter mestre ou jogador normal, sempre
- 18:32teve algum tipo de impacto, influência na história, senão
- 18:35não seria RPG, né? Se você...
- 18:38Mas na narrativa partilhada, essa...
- 18:43É difícil dizer responsabilidade, mas digamos
- 18:45assim, a responsabilidade e o privilégio de decidir coisas
- 18:48sobre essa realidade consensual em que nós jogamos é partilhado
- 18:52entre todos. Desde o Dogs in the Vineyard, o
- 18:55primeiro jogo, não foi o primeiro, eu acho, mas um dos
- 18:57primeiros jogos do Vincent Baker, que ele introduz a ideia
- 19:02que todo mundo pode piscar pro mestre quando achar que algo não
- 19:06foi legal. E tem aquele efeito do troca.
- 19:09Então eu falo, tem um alçapão na sala e alguém pisca pra mim.
- 19:14E eu falo, tem, não, na verdade, só que vocês não conseguem
- 19:17subir. Então essa ideia de poder
- 19:20intervir na hora, na narrativa, de uma maneira que ela se torna
- 19:24mais interessante pra você. E essa narrativa, sabe, muitas
- 19:29pessoas quando mestram, principalmente, elas falam sobre
- 19:32como é frustrante e difícil você tentar atender as demandas da
- 19:37imaginação de várias outras pessoas simultaneamente e de
- 19:40improviso, muitas vezes, ou mesmo se preparando.
- 19:43A narrativa partilhada, ela responde isso dizendo todos nós
- 19:47vamos ter que pôr as cartas na mesa, sabe?
- 19:48A gente vai jogar com as cartas abertas, todo mundo tem igual
- 19:52poder em denominar quem é o NPC, qual é o nome e aparência dele,
- 19:57entendeu? Isso não pertence a nenhum de
- 20:00nós, isso pertence a todos nós ao mesmo tempo.
- 20:02Então ele é um exercício muito mais grupal.
- 20:05É muito interessante essa diferenciação que você fez,
- 20:08esses dois olhares, né? A gente pode aprofundar um
- 20:13pouquinho em seguida, mas antes eu queria fazer um parênteses
- 20:15aqui e abrir um espacinho para você falar um pouquinho sobre
- 20:20você, para localizar a galera que está te ouvindo aí, fala um
- 20:22pouquinho de você, de repente não somente sobre você, mas como
- 20:27você chegou até essa reflexão. Claro.
- 20:30Qual foi teu caminho? Esse rei é clássico, mano.
- 20:35Hey, eu sou a Rai. E eu sou RPGista há vinte anos,
- 20:43basicamente. E...
- 20:46Foi o meu prazer e honra ter jogado com várias pessoas ao
- 20:49longo da minha vida. Desde que eu comecei, como
- 20:52consequência de ter entrado no Fórum Vale, como muitas pessoas
- 20:55fizeram no início da minha adolescência e começado a falar
- 20:59sobre Senhor dos Anéis, até ser convidado para jogar RPG, até
- 21:03participar de... E desde então eu nunca parei de
- 21:08me envolver com RPG em maior ou menor grau.
- 21:12Eu e as mesmas pessoas com quem eu comecei a jogar na minha
- 21:15adolescência nos encontramos pra jogar toda sexta-feira, que é
- 21:19disponível na nossa vida adulta, sabe?
- 21:22A criança que eu conheci com dois anos está se formando,
- 21:25filha da minha melhor amiga, e nós jogamos RPG desde então até
- 21:28hoje. Mas, por mais incrível que o meu
- 21:31grupo de RPG fosse, eu buscava experiências que eu sabia que
- 21:35eles não iam querer... Porque eu era a mais nova do
- 21:39grupo. E não me entenda de forma
- 21:43errada, eles eram muito dispostos a explorar jogos
- 21:46diferentes e nós jogamos literais dezenas de jogos de RPG
- 21:51numa época em que eles não eram tão fáceis de acessar quanto
- 21:54eles são hoje. A gente tinha livros físicos que
- 21:56a gente tinha que importar ou que a gente pegava emprestado de
- 22:00alguém que tinha. Tanto mais antigos quanto mais
- 22:03recentes. Então sempre houve uma
- 22:07possibilidade de explorar variabilidade de RPG.
- 22:11Em algum momento desse processo eu entendi que eles não jogavam,
- 22:15que nós não jogávamos como todo mundo jogava.
- 22:20Em algum momento alguém olhou pra mim e falou assim, vocês
- 22:22jogam de uma maneira diferente do que eu jogava na minha
- 22:25cidade. Eu falei, como você jogava na
- 22:26sua cidade? A gente interpretava mais.
- 22:31chocada, porque eu achava que a gente sabe, tipo, eu jamais
- 22:34questionei o nível de interpretação da minha mesa até
- 22:36então. Era praticamente a única mesa
- 22:39que eu conhecia. Claro, a gente joga aqui e ali
- 22:42com outras pessoas, mas não o tempo bastante pra você
- 22:46conseguir tirar um costume ou comportamento daquilo.
- 22:50Então, porque eu queria jogar jogos que... que o meu grupo,
- 22:55que a minha matilha como sempre foi o nome informal não queria
- 22:59jogar, porque nós começamos jogando Love Zone e daí ficou
- 23:02porque a gente jogou dois anos a primeira campanha então ela
- 23:05durou bastante tempo como eles não tinham interesse em todos os
- 23:10jogos que eu tinha e no jeito de jogar que eu tinha, eu fui
- 23:14procurar outras pessoas continuei jogando com eles e fui
- 23:19atrás de outras mesas, outros grupos outros jeitos de se jogar
- 23:23E conversando com as pessoas, eu fui percebendo que existiam
- 23:26jeitos de se jogar que eu sequer entendia.
- 23:28Eu não conseguia ver qual era a graça daquela pessoa jogar
- 23:31daquele jeito. E daí eu ficava marretando a
- 23:36cabeça do pobre indivíduo, dizendo, mas por que você, sabe,
- 23:40inquirindo assim? E as pessoas tiveram que ter
- 23:43muita paciência comigo. Algumas delas perderam a
- 23:46paciência comigo em mais de uma ocasião.
- 23:49Ou é a tua, cara? Qual é?
- 23:52Eu já tive amigo meu gritando assim, você para de falar do
- 23:55jeito que é o mestre RPG. Daí eu pensei, nossa, isso não
- 24:00era... Sabe, tipo, justo, aí é que tá,
- 24:02sabe? Eu...
- 24:05É muito difícil você inquirir pra alguém coisas que ela não
- 24:08necessariamente está disposta a responder sobre uma mídia que
- 24:11pra ele é muito instintiva, entendeu?
- 24:15E muitas vezes as pessoas têm dificuldade de expressar coisas
- 24:19que elas sentem sobre o RPG de uma maneira que não pareça...
- 24:25uma regra colocando uma regra sabe tipo a interações sociais e
- 24:30teste de interações sociais tem que ser assim assim sabe tipo é
- 24:34natural para nós que vivemos num mundo que forjado por regras que
- 24:37a gente tem que produzir novas regras que dêem certo mas isso
- 24:41geralmente faz com que cada mesa seja uma sentença né em cada
- 24:45pequeno reino cada um faz o seu jeito E acaba que fica essa
- 24:48coisa de um sentimento de que o outro tá cagando regra, né?
- 24:52E aí é coisa de santa quando a gente debate, às vezes acontece,
- 24:56né? Exato, em vez dessa sensação que
- 24:58nós estamos explorando um tesouro em comum que ainda,
- 25:02sabe, sendo uma mídia nova, ainda há muito que se explorar.
- 25:05Imagina que a guitarra elétrica é um instrumento extremamente
- 25:08novo comparado ao piano, por exemplo, e o RPG também existe
- 25:12muito a ser explorado ainda. Então, conversando com várias
- 25:17pessoas que me diziam, por exemplo, eu não gosto quando o
- 25:21mestre me dá uma opção que depois eu descubro que não era
- 25:25uma opção genuína, ele ia fazer o que ele queria de qualquer
- 25:27jeito. Eu perguntava, mas se isso é
- 25:30invisível pra você, faz diferença na sua experiência?
- 25:33As pessoas diziam, faz. Sabe, ela inquirindo sobre o que
- 25:38ela, assim, por que isso foi legal, por que isso não foi.
- 25:42Porque, obviamente, ninguém traz nada pra uma sessão de RPG que
- 25:45não acha que vai ser legal de alguma forma.
- 25:47Ninguém se sujeita a ser o cara babaca da mesa espontaneamente,
- 25:53entendeu? A gente é o cara babaca sem
- 25:55querer, a maioria das vezes. Sim. foi perguntando sobre isso
- 26:00e ouvindo comentários que as pessoas às vezes até
- 26:03expressavam. Eu não acho que é o mesmo jogo,
- 26:06por exemplo, que eu concordo com elas, frequentemente não é o
- 26:10mesmo jogo, mas é a mesma mídia. Na minha opinião, ela utiliza as
- 26:14mesmas ferramentas para criar, mas ela cria experiências
- 26:17diferentes. E essas duas, eu acho, são dois
- 26:20princípios. Porque, em geral, quando a gente
- 26:22tenta falar sobre, digamos, taxonomia de RPGs, uma tentativa
- 26:26recorrente na nossa comunidade. Então, esse RPG é desse tipo, e
- 26:30esse RPG é um rock melódico gótico.
- 26:33Então, nesse sentido... A maioria deles é muito difícil
- 26:40de você indexar. Porque o livro não é a prática.
- 26:44E a gente não tem a mostragem grande o bastante da prática.
- 26:47E mesmo que a gente tivesse… Em que direito a gente fala pra
- 26:50alguém que tá jogando RPG com o livro na mão que o jeito que ele
- 26:55tá jogando não é certo, entendeu?
- 26:57Sabe, não é assim que… Então, como o RPG só se dá na prática…
- 27:04e como tudo que a gente tem pra avaliar é o livro, e o livro não
- 27:08é cem por cento, sabe? Tipo, a transmissão de
- 27:11conhecimento do livro não é cem por cento.
- 27:13Você não lê um livro de RPG e entende por graça divina
- 27:17exatamente como o autor queria que você fizesse cada centímetro
- 27:20da experiência que ele imaginou. Dependendo de como esse jogo foi
- 27:24formado, ele nem imaginou uma experiência tão precisa assim.
- 27:27Ele imaginou linhas gerais e deixou pra você.
- 27:31Sabe? Muito como uma peça de teatro,
- 27:33existem grandes lacunas. E como essas grandes lacunas são
- 27:37o RPG, o RPG é, no seu core duro, a prática da gente sentar
- 27:42e jogar, né? É muito difícil você dizer, ah,
- 27:47esse jogo é mais isso, esse jogo é X, esse jogo é Y, porque você
- 27:52não observa o jogo, você observa o livro, de forma geral.
- 27:54E o livro não é o jogo. Sim, total.
- 27:58E isso é uma dificuldade mesmo, porque eu também enxergo dessa
- 28:02forma, né? O RPG, ele funciona muito na
- 28:05lacuna, né? O RPG, ele precisa, ele é a
- 28:08lacuna, ele acontece justamente naquele espaço não desenhado
- 28:12ainda, né, então, de certa forma, ele pega, né, essas
- 28:16regras, ele pega, ele vem das dinâmicas ali impressas por
- 28:21mecânicas, etc., etc., mas ele precisa se completar em mesa,
- 28:25ele precisa acontecer em mesa, então é sempre muito difícil a
- 28:29gente trabalhar com ele a partir de categorias que a gente já
- 28:33enxergou e entender que tudo vai acontecer sempre dessa forma,
- 28:37então acho muito interessante porque são discussões ótimas de
- 28:40forma geral e que é isso, de acordo com o que o pessoal vem
- 28:45desenvolvendo muito em teoria de jogos até, é mais fácil a gente
- 28:49utilizar de repente determinadas lentes do que determinada
- 28:54categoria muito sólida, uma coisa que seja muito estanque,
- 28:59que resolva, aquela bala de prata teórica.
- 29:01Não tem muito isso, mas a gente tem lentes que a gente pode
- 29:04utilizar para tentar analisar aquele fenômeno e que, de
- 29:08repente, ela se complementa com outras lentes ou até não encaixa
- 29:12tanto com outras lentes e com outras visões, mas que são
- 29:15igualmente válidas. Agora, uma pergunta sobre esse
- 29:19olhar que você está lançando. A gente tem aí uma ideia de um
- 29:23jogo mais simulado, esse mundo simulado, essa ideia de que a
- 29:27gente vai se jogar naquele mundo meio que idealmente já
- 29:32pré-existente na cabeça daqueles jogadores, ou pelo menos vai se
- 29:35formando conforme a gente renderiza, na palavra que você
- 29:38usou. E a gente tem esse outro que é
- 29:40uma experiência... de uma curadoria ali da mesa, naquele
- 29:45momento ali quando a gente começa a jogar.
- 29:49Você diria que isso seria uma separação que você enxerga em
- 29:54relação à expectativa dos jogadores?
- 29:58Seria mais em relação à mídia? Qual seria o cerne dessa
- 30:04divisão? Seria uma divisão de agenda
- 30:05criativa? Como é que você enxerga isso?
- 30:08Eu acho que, acima de tudo, ela é uma divisão de contrato
- 30:10social. O que nós esperamos um dos
- 30:12outros enquanto a gente estiver fazendo isso?
- 30:16Se você está narrando pra mim e nós estamos em uma matriz,
- 30:20estamos em um mundo simulado. E eu sou uma jogadora, mas a
- 30:25gente não conversou sobre o que a gente tá criando aqui.
- 30:28E eu virar pra você e começar a querer intervir pesadamente na
- 30:32sua história. Falar assim, não, não, eu vou…
- 30:35Eu vou pegar um exemplo que não é meu, mas que eu acho que
- 30:38expressa isso muito bem. Eu vou separar a alma do Strade
- 30:44em duas. O bom e o mal.
- 30:46Fazer um Jack o Hyde aqui e isolar o Hyde.
- 30:50E muitos mestres de stride, dependendo do quão próximos eles
- 30:54estão querendo ficar da aventura original, vão olhar pra essa
- 30:59pessoa e pensar instintivamente. Não.
- 31:02Sabe, isso é uma ruptura na sensação deles, de muitos, dos
- 31:06pactos, do que os outros jogadores podem fazer, do tempo,
- 31:09sabe? Mesmo que existam regras que a
- 31:10gente possa buscar, e que exista, muitas vezes, como
- 31:15advogar mecanicamente em defesa de uma ideia, antes disso vem,
- 31:19na minha concepção, a percepção de alguns membros do grupo que
- 31:23esta ideia... pere o que nós estamos criando aqui, entendeu?
- 31:29Tipo, eu criei, e muitos mestres falam, muitos narradores falam,
- 31:34eu passei horas escrevendo essa história.
- 31:36Como você ousa, sabe, tão casualmente, com tanto, sabe,
- 31:42tipo, desprezo por mim e pelo esforço que eu faço por nós,
- 31:48sabe, por que tanta indiferença a algo que eu fiz pra você?
- 31:52E essa pessoa do outro lado tá tipo, meu Deus do céu, cara,
- 31:55você não pode fazer nada, você não pode falar nada, você não
- 31:58pode sugerir um nome pro MP, sabe?
- 32:00Você tá de mãos amarradas seguindo o teu mestre que te
- 32:06puxa por uma corda pra você seguir pelo caminho que ele
- 32:09quer. Essas pessoas, às vezes, elas só
- 32:11estão tendo contratos, esperando coisas umas das outras
- 32:16diferentes. E por causa disso que eu falo
- 32:18assim, porque em termos de possibilidade de jogo, a gente
- 32:23pode ter jogos que são extremamente mecânicos e
- 32:25extremamente imersivos, porque para certos tipos de pessoas é
- 32:28uma mecânica dura que permite a imersividade, sabe?
- 32:32Tipo, eles fazem com que o jogo seja mais crível a partir
- 32:35daquele momento. E tem pessoas, o contrário, que
- 32:39acham que um jogo extremamente imersivo é um jogo no qual eu
- 32:42não tomo conhecimento que regras existem.
- 32:45Ambas essas experiências conduzem a ideia da Matrix,
- 32:48digamos assim. E a mesma coisa pro
- 32:49quebra-cabeça. Só que mais do que isso, eu vejo
- 32:53o momento... Você já tava jogando em alguma
- 32:57vez a sua vida presencial, ou sei lá, online.
- 33:00E você vê na cara de alguém o momento em que essa quebra de
- 33:03ruptura acontece. Porque a pessoa, ela,
- 33:06subitamente, ela tá cem por cento atenta na sessão, mas não
- 33:10de uma maneira boa. Existe quase que uma nota de
- 33:12discórdia que você olha e você percebe que algo está errado,
- 33:17sabe? Algo está podre no reino da
- 33:19Dinamarca. E às vezes isso é algo muito
- 33:22profundo pra pessoa. Às vezes a gente acha, tipo, ah,
- 33:24meu Deus, é tudo um jogo. Claro que é um jogo, mas é um
- 33:28jogo no qual a gente dedicou horas e um grande espaço da
- 33:31nossa vida. Tudo bem você sentir desconforto
- 33:33com as coisas que acontecem, não, você não tem que engolir
- 33:36quieto as coisas que não caíram bem pra você, sabe?
- 33:39Tipo, ninguém tá te pedindo isso, em momento nenhum, do RPG.
- 33:43E quem tá, tá errado. Entendeu exatamente?
- 33:48Sim. E tudo bem você dar voz a isso,
- 33:50entendeu? Tudo bem você expressar.
- 33:53É interessante, cara. Dentro disso, me parece que tem
- 33:57uma associação bastante forte com essa necessidade de ter esse
- 34:01mundo na matriz, na experiência matriz que você delineia.
- 34:07Me parece que tem ali uma necessidade de a gente ter esse
- 34:09mestre, ter essa figura que é quem cria, quase esse demiurgo.
- 34:13Enquanto na outra, na experiência quebra-cabeça, me
- 34:16parece ser uma coisa mais horizontal, mais alinhada,
- 34:19talvez, com essa ideia de... Não ter, de repente, um mestre,
- 34:26um narrador, uma pessoa que está, de repente, presidindo
- 34:30aquela sessão. Como é que você enxerga o
- 34:34desenho de papéis nesses dois modelos?
- 34:37Tem algum impacto nisso ou é uma coisa que não necessariamente
- 34:40está alinhado a cada modelo? Eu acho que em termos de teoria
- 34:46de jogo a gente pode pensar em necessidades que cada modelo tem
- 34:51e que elas precisam ser atendidas, mas elas não precisam
- 34:54ser atendidas por uma pessoa dedicada, digamos assim.
- 34:57Que é a resposta mais óbvia e que é uma resposta boa, porque
- 35:01bem ou mal, e principalmente quando a gente pensa nos
- 35:04primórdios do RPG, Um narrador, um mestre, um GM, um DM, ele
- 35:11carrega em si um... Ele é um receptório de
- 35:14conhecimento das experiências de todas as vezes que ele olhou na
- 35:17cara de alguém e teve que sentir que a história dele deu errado e
- 35:19pensou, putz, eu vou fazer melhor na próxima vez.
- 35:23E isso acumula muita experiência que torna com que eles sejam...
- 35:27com instrumentos muito bons no que eles fazem.
- 35:29Porque eles fazem isso há muito tempo.
- 35:31Especificamente pra um grupo específico, entendeu?
- 35:33Geralmente todo mestre ou narrador, ele narra bem pra um
- 35:36tipo de pessoa. Ninguém é...
- 35:40Nem o Matt Mercer, nem o Brandon Mulligan, nem ninguém é
- 35:43universalmente aprovado pela comunidade.
- 35:45Não precisa ter medo que você também não vai ser.
- 35:48Sim. Né?
- 35:50Mas não necessariamente você precisa de uma pessoa.
- 35:53Num sistema de Matrix... Digamos assim, você num jogo que
- 35:59segue esse princípio, você precisa de alguma coisa que
- 36:02responda de maneira dura e inequívoca, de preferência de
- 36:07maneira estável e, sabe, não caótica, sobre o mundo.
- 36:12Então eu acho que, por exemplo, pra citar um de cabeça que eu
- 36:15joguei recentemente, Nômades, que é um jogo do Marcelo Collar,
- 36:19que tem um oráculo, um sistema no qual você tira cartas e essas
- 36:23cartas respondem que pode ser jogado solo, que foi a
- 36:27modalidade com a qual eu joguei, e cujo tema está definido.
- 36:33Porque a pira do jogo é não exite e não volte atrás,
- 36:37entendeu? Esse boneco só anda pra frente.
- 36:42E eu tentei, como muito tento quando estou conhecendo jogos,
- 36:45jogar. Não é uma coisa que me agrada,
- 36:47essa impossibilidade de retcon. Digamos assim, eu prefiro jogos
- 36:51mais maleáveis, via de regra. Mas em geral, quando eu leio um
- 36:58jogo a primeira vez, eu tento jogar o mais próximo da
- 37:01instrução do criador do jogo que eu conseguir.
- 37:04Eu vejo, pra tentar entender a ideia que ele tinha na cabeça
- 37:07dele. E o jogo funciona.
- 37:09Ele me deu essa experiência de uma maneira muito sólida de um
- 37:13mundo com o qual eu tinha que lidar porque ele era duro e eu
- 37:18era flexível, digamos assim. Que eu acho que faz parte dessa
- 37:21experiência Matrix. Porque nesse mundo, quando eu
- 37:24consigo afetar ele, é uma vitória.
- 37:27Entendeu? Assim, eu sinto que...
- 37:30E muito doido. A experiência de jogos envolve
- 37:32desafio e recompensa, né? Ele é o mecanismo básico pelo
- 37:35qual a gente joga jogos. Então...
- 37:38Você cria, você afetar o mundo, você ter essa narrativa
- 37:42emergente, que é um termo que a USR traz pra gente, né?
- 37:45Essa ideia de que a gente vai descobrir a história quando a
- 37:47história se formar. Ela existe e ela só precisa de
- 37:54alguém que, sabe, paute esta coisa com que você está
- 37:58interagindo de uma maneira sólida.
- 38:01Em geral, a gente pensa em jogos quebra-cabeça como tendo, por
- 38:04causa da ideia que todos nós vamos contribuir, um modelo
- 38:09partilhado de responsabilidade. Mas para citar Luiz Cláudio
- 38:12Duarte, que também escreve sobre a teoria do RPG, principalmente
- 38:16de um ponto de vista de regras, porque ele é advogado, ele
- 38:21comenta que toda a realidade do RPG, o RPG só existe por
- 38:25consenso. Mesmo que o consenso seja, a
- 38:27gente vai fazer o que fulanito mandar.
- 38:30Mas esse fulanito só ganha esse poder através da nossa
- 38:33concordância que ele tem esse poder.
- 38:34A hora que um de nós falar não, ele imediatamente...
- 38:39Não, ele perdeu esse poder. O grupo tem que parar e
- 38:41reavaliar o que vai acontecer agora.
- 38:45Então, nós sempre temos esse... independente do quão autoritário
- 38:50seja o RPG, sempre é um exercício de consenso grupal.
- 38:54Nada lá existe a não ser por consenso grupal e pode ser
- 38:57praticado, exceto por consenso pelo menos entre duas pessoas,
- 39:00quem está lendo e quem criou o jogo.
- 39:05Mas, ao mesmo tempo, É claro que para muitas experiências que vão
- 39:09criar uma experiência específica, você cria mecanismos
- 39:11através dos quais os jogadores possam intervir com essa
- 39:15narrativa, às vezes sem precisar sentir, tendo um mestre, tendo
- 39:19um narrador. Dungeon World funciona muito
- 39:23bem, na minha opinião, por causa disso.
- 39:25Porque embora ele seja um narrativista, ele ainda atém
- 39:29muito da sensação inicial do que muitas pessoas buscam e entendem
- 39:33como sendo RPG pra ser reconhecível.
- 39:36Ele funciona dentro de um parâmetro que tem essas funções,
- 39:39como você colocou esses papéis. Porque ele é confortável e não
- 39:43tem nada de errado também, sabe? Você querer jogar esse tipo de
- 39:47jogo no qual Um mestre de jogo cria, sabe?
- 39:52Tipo, simula o jogo pra você. É uma experiência incrível.
- 39:55Mas você jogar construindo narrativas e aquele momento em
- 39:58que tudo alinha e tá tudo certo e tá todo mundo na mesma
- 40:02frequência criando a história com grande clareza e empolgação
- 40:06também sempre funciona, sabe? Tipo, são perspectivas
- 40:09diferentes. E elas pedem coisas diferentes
- 40:11de você como jogador quando você estiver lidando.
- 40:15Então, por exemplo... O quão sagrado é o personagem de
- 40:18alguém? É uma pergunta que muitos jogos
- 40:20fazem. Eu posso mexer em coisas do seu
- 40:22background? Se você tem um personagem?
- 40:25Eu posso pegar o seu personagem e interpretar ele por você?
- 40:29O quão separado do jogador o personagem é?
- 40:33Jogadores diferentes, de sistemas diferentes e paradigmas
- 40:37diferentes vão responder isso? de formas diametralmente
- 40:41opostas. Eu já tive pessoas nos
- 40:42comentários me explicando que o personagem é sagrado, tá me
- 40:46entendendo? Que você não pode meter a mão na
- 40:49história do meu personagem, senão eu vou arrancar os seus
- 40:51olhos. E geralmente o que gera isso?
- 40:55É um ambiente no qual essa divisão de o que a gente pode
- 41:00criar dentro do nosso mundo compartilhado, ela é um muro
- 41:04muito firme. Então você vai criar tudo do seu
- 41:07personagem e eu vou criar tudo o resto.
- 41:09Mas daí eu não mexo no seu personagem e você não mexe no
- 41:12resto. A gente tem uma barreira
- 41:13impermeável. É o acordo mais clássico do RPG,
- 41:16né? Se tudo que você tem é o seu
- 41:18personagem, então não mexa nele, né?
- 41:21É isso. Exato, e aquela ficha na sua
- 41:23frente, ela pertence, não só a ficha, mas tudo que aquela ficha
- 41:27representa dentro do nosso universo, o seu passado, o seu
- 41:29futuro, é seu. Então se você criar um NPC, o
- 41:33meu, extremamente rico, com sete páginas de background, a minha
- 41:37função me pede, num modelo Matrix, que eu me familiarize
- 41:41com esse NPC. É imprescindível para a sua
- 41:43experiência criativa. que eu consiga interpretar o Obi-Wan
- 41:47Kenobi no, sabe, tipo, o ataque dos clones, pra que o que você
- 41:51imaginou dê certo. Então eu vou ter que
- 41:53familiarizar com o Obi-Wan Kenobi, com como ele fala, com
- 41:56como ele faz, e reproduzir isso. Mesmo sendo um NPC seu, isso
- 42:02ainda é considerado parte da sua seara do que você pode criar
- 42:05nessa nossa experiência conjunta.
- 42:07Então eu devo aquecer a isso, sabe, acolher isso e integrar
- 42:12isso na minha história. Uhum.
- 42:14Então, frequentemente, com tudo que isso acarreta.
- 42:18Então, existem essas negociações sempre do que eu posso fazer e o
- 42:22que você pode fazer e o que a gente quer fazer.
- 42:27Ih, rapaz, eu tava bebendo aqui com os soldados, com o
- 42:31dinheirinho que aquela elfa lá, Carissa, botou, a herbalista,
- 42:36né? E olha o que eu fiquei sabendo,
- 42:38cara. Já ouviu falar do fantasma do
- 42:41arsenal lá no burro? Ali no burgo tinha uma
- 42:48oficininha ali daquele cara chamado Vagabundo, que era um
- 42:52inventor, né? E parece que ele morreu já há um
- 42:56tempo e a oficina dele foi incorporada na oficina dos
- 43:00soldados ali na rua principal. E ali na casa dele, a alma dele
- 43:05parece que tá presa lá, pô. E parece que a alma dele ainda
- 43:09pode drenar a vida de quem entrar lá no lugar,
- 43:13principalmente se for entrar lá pra tentar mexer naquela
- 43:17estraquitana dele. Então, se tu tiver vontade de ir
- 43:24lá, ó, vai, tu é aventureiro, tu encara esses negócios, mas se
- 43:28você for, vai acompanhado de alguém de muita fé, tá
- 43:33entendendo? Esse e tantos outros são rumores
- 43:39vindos do jogo, do mundo aberto de Biergarten.
- 43:44Se você quiser explorar aventuras como essa, pode entrar
- 43:48inteiramente de graça no nosso grupo.
- 43:51Siga o link lá no descritivo do episódio e jogue Biergarten com
- 43:55a gente. Vamos explorar Biergarten!
- 44:23Cara, dentro disso que você está trazendo, o tempo todo você fala
- 44:27em questão narrativa, narrativa emergente, mas também em
- 44:30simulação. A gente tem aí um jargão no meio
- 44:34do RPG, muito vindo da Forge, o pessoal aí da...
- 44:39Sim, definitivamente. Então a gente tem aí, inclusive,
- 44:43o artigo do Ron Weathers, o GNS and Other Matters of
- 44:48Role-Playing Theory, onde ele coloca algumas coisas
- 44:50interessantes que eu acho que dialogam com o que você está
- 44:53trazendo. Eu queria saber mais ou menos
- 44:56como é que você enxerga esse modelo de três partes que a
- 45:00Forge traz, que é o gamismo, o narrativismo e o simulacionismo,
- 45:06de acordo com a tua visão, né? Porque, claro, você estava
- 45:08falando de um acordo social, do acordo entre os participantes, e
- 45:14o Ron Edwards, quando traz isso, ele traz ali em cima das agendas
- 45:17criativas, né? Como é que você enxerga essa
- 45:22divisão a partir, ou de repente até, ou a partir, ou de repente
- 45:27em conflito até, com essa visão de agendas narrativas em relação
- 45:31a gamismo, nativismo, simulacionismo, etc.
- 45:34Você vê alguma confluência ou discrepância?
- 45:38Eu sinto grande interesse pela GNS, inclusive pela sua
- 45:41predecessora, a GDS, porque era inicialmente Game, Drama and
- 45:46Simulation, e depois virou, inclusive as pessoas que
- 45:50chamavam de GDS estavam, se não me engano, no grupo de discussão
- 45:56de e-mails que veio a gerar muitos dos jogos narrativistas
- 45:59do começo dos anos dois mil, que mudaram muito da nossa
- 46:02perspectiva. Era o Zinete, né?
- 46:05Sim, e eles discutiam. Uma das questões que eles sempre
- 46:07discutiam e se tornou uma questão muito cara ao meu
- 46:10coração é como que a gente faz o RPG ser bom?
- 46:15porque frequentemente não é e tipo, não a maior parte do tempo
- 46:20não é mas a gente gasta muito tempo e muito recurso pra mesmo
- 46:24que uma em cada dez sessões ser horrível não é bom, entendeu?
- 46:29seis horas de horror a cada dez semanas não é legal como que a
- 46:34gente faz pra isso ser bom sempre, pra todo mundo é muito
- 46:39legítimo, acho muito legítima a investigação né cara Sim, e é
- 46:43uma investigação que nos gerou o modelo narrativista.
- 46:46Sabe, a resposta dessas pessoas que perguntavam foi criar jogos
- 46:48nos quais as pessoas podem intervir no jogo.
- 46:51Foi a resposta que eles encontraram.
- 46:53Durante esse encontrar, e antes disso, até precedendo esse
- 46:57encontrar do narrativismo, existiam as discussões da GNS,
- 47:01que separa o RPG em três pilares.
- 47:04Jogo, dependendo na GNS, narrativa e simulação.
- 47:10Existem alguns detalhes interessantes, por exemplo,
- 47:14assim que ambos os modelos foram propostos, eles foram
- 47:17imediatamente rechaçados pelas suas comunidades, de forma
- 47:20geral, sabe? Tipo, nunca houve um momento em
- 47:22que a comunidade da IPJ recebeu uma teoria e falou assim, não,
- 47:26esse é o modelo da célula, claro, vamos acreditar nisso.
- 47:29Então, a gente falou... Até porque modelo é complicado,
- 47:32né? Falar em modelo é difícil, né?
- 47:34É tipo, enfim, é uma coisa que as pessoas já veem falando,
- 47:38epa... E sim, existia muito, oriundo de
- 47:43uma grande influência formadora no RPG, é a ideia de
- 47:46desenvolvimento de sistemas. O RPG e a computação, eles
- 47:50evolvem muito junto ao público em uma época e com produtores
- 47:56que vêm de uma mesma origem, sabe?
- 47:58Então, sabe, o livro mais conhecido do mundo sobre como
- 48:02preparar sistemas, como preparar uma sessão de jogo, é um livro
- 48:05de gestão de equipe, feito por um cara que era gestor de
- 48:09projetos. Então a gente tem muito ainda, a
- 48:13gente carrega, sem perceber, na tradição do RPG, muito desse
- 48:17background. Que livro é esse?
- 48:20Despreparado Nunca. Ah, eu não sabia disso, que esse
- 48:24livro era do gestão, assim. Ele fala no começo, que ele fala
- 48:28que ele trabalha com isso, ele é um gestor de projetos, se eu não
- 48:32me engano. Ah, entendi.
- 48:33E ele fala que ele usou as técnicas dele pra... desenvolver
- 48:37o método dele preparar a sessão e daí ele divide com você mas ao
- 48:40longo do livro ele vai contando para você porque isso é uma
- 48:43técnica de gestão porque para ele é um feat Nora bug que ele
- 48:47consegue te falar sobre essas duas coisas ao mesmo tempo Sim,
- 48:51sim. É, então, é curioso, porque você
- 48:52falou, achei que fosse falar um livro não feito pra RPG, mas que
- 48:56alguém tivesse pescado lá atrás algum livro de gestão mesmo,
- 49:00sabe? Tipo, pegar, sei lá, como alguém
- 49:01falar, ah, eu mestro aqui, a minha principal referência é o
- 49:05Corpus Julius Civilis, sei lá, o cara do direito, sabe?
- 49:08Que isso, velho? Calma aí.
- 49:10Mas, assim, eu entendo esses paralelos.
- 49:13É, eu entendo esses paralelos, eu acho que eles são muito
- 49:16interessantes, mas o Despreparado nunca é um livraço,
- 49:19né? Você tem toda a razão.
- 49:20Sim, a gente tem em português, inclusive.
- 49:22Recomendo pra quem estiver ouvindo.
- 49:24Deixei anotado aqui, vai ficar o link no descritivo do episódio
- 49:28pra galera aí. Mas foi mal, continuando.
- 49:31Não, muito bem-vinda, inclusive. Então, a GNS, ela tem essa
- 49:36questão de tentar ser uma teoria que prega o ar, digamos assim.
- 49:41Então ela tenta pegar uma coisa que é fluída por natureza, a
- 49:44prática do RPG, com base nos livros, no que eles veem das
- 49:48regras, deduzir se um sistema é mais apto a isso ou aquilo.
- 49:54E imediatamente a comunidade contesta, fala assim, um, você
- 49:59não tem como julgar isso baseado no livro, porque as pessoas
- 50:03jogam de jeitos diferentes, você olhar pra um livro de D&D não
- 50:07necessariamente revela pra você o jeito que o Critical Role
- 50:11joga, ou o jeito que você joga em casa, entendeu?
- 50:14Ou ambos, ambos são válidos, sabe?
- 50:16Mas não define uma forma fixa daquilo, não existe jeito certo
- 50:21de se jogar RPG, uma das coisas que aprendemos com isso.
- 50:24E também existem, o segundo elemento é, essas duas
- 50:29vertentes, tanto a primeira quanto a segunda, não tem muita
- 50:31clareza sobre o que a parte de simulação significa.
- 50:34Porque quando a gente fala em simulação, a gente tá quase
- 50:37sempre falando de duas coisas que não são parecidas, mas elas
- 50:40são enfiadas no mesmo buraco. A simulação é um sistema estável
- 50:45no qual o que quer que eu te pergunte se eu posso, como que
- 50:48eu faço, você vai ter uma resposta pra mim de como
- 50:51mecanicamente aquele sistema enxerga aquilo e tudo é
- 50:54possível. Ou isso é uma simulação válida
- 50:57ou uma simulação válida? É a imersão total, sabe?
- 51:02Tipo, é essa matrix realizada na qual eu quase sinto que eu
- 51:05encosto na parede da Dungeon. O que é simulação?
- 51:08Porque essas duas coisas não são a mesma coisa.
- 51:10Sabe, tipo, há um argumento a ser feito que ambas são duas
- 51:13partes de uma mesma moeda. Você cria imersão através de
- 51:16regras estáveis, mas não necessariamente, como nós já
- 51:18falamos. E sempre houve um certo
- 51:21desinteresse por essa parte. Suspeito eu, porque na época
- 51:26LARPs, que na época era um chamado de lives, mas a ideia de
- 51:28você jogar RPG de pé, sabe, tipo, interpretando o seu
- 51:32personagem fisicamente, era mais comum por causa da prática do
- 51:36vampiro no começo dos anos dois mil, tinha muitos bynights, como
- 51:40tem até hoje. Uhum.
- 51:43E a última coisa sobre a GNS é que ela sempre foi acusada de
- 51:47favorecer o narrativismo e de ser um jeito de você chamar os
- 51:51jogos que você não gostava de ruins e dizer que os jogos que
- 51:54você gostava eram bons. Sim.
- 51:58Então, como pilares, eu acho que eu vejo muito valor no fato que
- 52:02a gente começou a investigar do que o RPG era feito, quais eram
- 52:06os seus ingredientes, e ler essas conversas, eu acho, traz
- 52:09muita coisa à toa, à toa, à tona, pra que a gente veja como
- 52:14outras pessoas em outros lugares, tanto no passado como
- 52:16em outros países... viam essa prática e quando elas tentaram
- 52:20descrever isso de maneira profunda e técnica, quais foram
- 52:24os termos aos quais elas recorreram e no que elas
- 52:27discordaram. Eu acho que a GNS é
- 52:29imprescindível para a gente conseguir desenvolver e chegar à
- 52:33nossa concepção atual do que é o RPG sem ela.
- 52:37Não tem como saber o que teria sido se teria sido melhor, mas
- 52:39hoje ela forma pilares de muito como a gente conversa sobre
- 52:42isso. Tinha o Nistro, outra e meia
- 52:44conversa sobre Nistro. O primeiro jogo que eu
- 52:46mencionei, o jogo de cartas, ele é dividido em seis perfis, em
- 52:52três pilares. Não por acaso.
- 52:55Jogo, narrativa, simulação. Porque você tem que começar de
- 52:59algum lugar a investigar isso. E começaram desse.
- 53:03Eu acho que... E até recentemente, sabe?
- 53:06Tem trabalho sendo feito analisando RPG baseado na GNS,
- 53:10semestre passado. Eu sei porque me mostraram.
- 53:16Tendo dito isso, eu acho que ela é uma teoria ultrapassada, que
- 53:19realmente ela fala demais e explora de menos.
- 53:22Ela quer muito olhar para um sistema e determinar o que
- 53:25aquele sistema é, olhando para outros livros e não leva em
- 53:29consideração... Apenas assim, olhando para a
- 53:31própria pessoa, e ela não leva em consideração que o RPG é uma
- 53:33mídia tão... Pede tanto de você,
- 53:36principalmente em termos de tempo e de espaço... mental e
- 53:40imaginário principalmente a prática não só a leitura mais a
- 53:43prática cada um de nós necessariamente só vai ver uma
- 53:47parcela muito pequena do que é o RPG na nossa vida mesmo aqueles
- 53:50como eu e você balde que fazem isso todos os dias nós só vamos
- 53:53ver um pouquinho do que é o RPG né Olha o it.
- 53:56Ai olha o drive-thru sabe olha o que eles vão no Brasil RPG todo
- 54:02Eu fiquei super feliz de participar do Goblin desse ano,
- 54:04porque eu tinha uma desculpa pra ficar, me forçar a tomar
- 54:08consciência de uma parcela da produção nacional, que não é nem
- 54:12a produção nacional inteira. Sim.
- 54:15Então a GNS, o tropeço dela, eu acho, é achar que você consegue
- 54:22tão casualmente prescrever o que é a forma da galinha, pra citar
- 54:27a Clarice, quando tu nem sabe qual é a forma da galinha.
- 54:31Você viu três galinhas na tua vida, você acha que você
- 54:33consegue descrever a forma platônica da galinha e
- 54:37classificar a galinha. Não, então...
- 54:40Nisso eu concordo com ela, tenho uma dívida de gratidão com a
- 54:44GNS, como eu acho que temos a maioria de nós que temos
- 54:46interesse em ficar elucubrando sobre o sexo dos anjos no RPG.
- 54:51Mas é importante ter em mente que ela sempre foi vista como
- 54:55limitada e mais errada do que certa na maior parte do tempo.
- 54:59Sim, é mesmo, né? Agora, eu acho que ela tem essa
- 55:03contribuição que você falou, né? Agora, uma pergunta só para
- 55:07arrematar esse assunto, talvez ou não, né?
- 55:11Mas você traz essa coisa da realidade Matrix, e aí isso me
- 55:16leva muito a essa agenda de simulação, né?
- 55:19Das pessoas jogarem aquilo, né? Buscando esse sentir, buscando
- 55:24essa verossimilhança, esse sentido do real, A imersão, né?
- 55:27A imersão é muito importante pra Matrix.
- 55:30Eu não quero saber que eu tô jogando um jogo o tempo todo.
- 55:33Eu quero ser disso durante grandes períodos de tempo.
- 55:37Eu quero emergir ali e sentir aquilo, né?
- 55:40E tem essa questão da gente também poder enxergar muito uma
- 55:46coisa que você traz da construção narrativa conjunta,
- 55:50né? Que tem alguma identificação
- 55:51também com... essa questão do narrativismo, da agenda de
- 55:56construção de história. De alguma forma, você encara que
- 56:00a simulação, de você viver a simulação, ele conflita em
- 56:04objetivo com o contar de história ou não?
- 56:09Como é que você enxerga essa... Porque é isso, né?
- 56:12Essas agendas, eu acho que uma das coisas que eu acho que
- 56:16funcionam dentro dessas agendas percebidas pelo Ron Edwards,
- 56:20antes dele mesmo, como você falou lá na usinete qualificou
- 56:23tão bem, não é mesmo? elas se evidenciam muito pelo
- 56:27conflito, a gente não consegue enxergar elas de forma geral mas
- 56:31quando a gente vê o conflito por exemplo, o O que você vai fazer
- 56:36agora? Quando o mestre pergunta, e aí,
- 56:37o que você vai fazer? E aí o jogador fala, eu vou
- 56:39fazer o quê? Eu vou fazer de acordo com o que
- 56:41o meu personagem faria, eu vou fazer de acordo com o que é
- 56:43melhor para a história, vou fazer de acordo com o que é mais
- 56:47eficiente. E me parece que, de fato, é
- 56:51possível ter esse ruído, por mais que muitas vezes não
- 56:54aconteça, quando há o conflito, a gente percebe que talvez haja
- 56:58agenda ali. Você consegue enxergar... mais
- 57:02de uma agenda, por exemplo, uma agenda de simulação, uma vontade
- 57:06de simular, impactando nas decisões dos jogadores dentro
- 57:12desse jogo Matrix, ou de repente você joga o jogo estilo Matrix,
- 57:16mas também com uma consciência a respeito de história, uma coisa
- 57:20mais... consciente sobre o que a gente está construindo em
- 57:23conjunto e no jogo quebra-cabeça também, se ali existe essa
- 57:28consciência de que estamos construindo um ambiente
- 57:31simulado, coletivo, etc. Como é que você enxerga
- 57:37principalmente essa coisa da narrativa, construção narrativa
- 57:41e a construção da simulação como repertório?
- 57:45Boa pergunta. Eu acho que eu quero colocar
- 57:49duas peças na mesa para responder isso.
- 57:51A primeira é o seguinte, você já pensou quais são os prazeres do
- 57:56RPG, Bauri? Ah, já.
- 57:59Pelo menos eu tenho aí umas centenas de prazeres no RPG.
- 58:03Sim. E entre eles, eu pensei também,
- 58:08e eu cheguei a priori, a conclusão parcial, todas as
- 58:12conclusões são parciais, porque ainda estamos aprendendo coisas,
- 58:15mas que eu pensei que existem cinco que eu consigo claramente
- 58:19identificar. O jogo, a gente gosta de jogar,
- 58:22né. A gente gosta de fazer um
- 58:24check-match, de fazer a… Sabe, tipo, a gente gosta de ter feito
- 58:27a jogada… A gente gosta até de ver outras pessoas fazendo uma
- 58:30jogada bonita, sabe. Tipo, o jogo, ele tem stakes
- 58:34muito claros, e a gente gosta de jogar.
- 58:38A gente gosta de contar histórias.
- 58:39Você sabe se uma história deu certo ou não, sabe?
- 58:41Você sempre sente se a história afetou você da maneira que era
- 58:45intencional ou se ela não conseguiu isso.
- 58:48E o RPG, ele tem essa grande capacidade de criar histórias
- 58:51que nos impactam diretamente. Porque nós somos...
- 58:53É um público muito restrito. Em geral, o público de uma
- 58:56história de RPG é só aquela mesa, né?
- 58:59Aquela história só existe pra vocês.
- 59:02E nesse sentido, eu acho, inclusive, a despeito de ser
- 59:05muito simples, é uma mídia incrivelmente sofisticada,
- 59:08porque é uma história complexa que gastou muito recurso e muito
- 59:11tempo, que foi feita pra nós, assim, sabe?
- 59:14Tipo, isso não é pra ninguém, isso não é vendado.
- 59:18Existe muito pouco que possa ser feito com isso, a não ser nós
- 59:21lembrarmos e termos contemplado essa história pra maioria das
- 59:24pessoas. Sim, total.
- 59:26É. O jogo, a história, contato
- 59:30social. A RPG precisa de pessoas, mas a
- 59:33coisa fundamental da RPG são outras pessoas.
- 59:35Nem que seja só você e o autor do jogo, são duas pessoas.
- 59:40Nós gostamos de ter coisas. Os primeiros itens da humanidade
- 59:44precedem na nossa classificação como homo sapiens.
- 59:49Itens que eram enterrados com as pessoas, se eu não me engano.
- 59:52Itens pessoais, não ferramentas. Itens pessoais.
- 59:55Então a gente gosta de ter o livro, o dado.
- 59:58Eu passei muito tempo implicando com o livro de RPG na minha
- 1:00:00vida. Mas a gente gosta de ter uma
- 1:00:03coisa física que a gente possa pegar.
- 1:00:04Isso é prazeroso. E muitos RPGistas mantêm a viva
- 1:00:09sua relação com o hobby se tornando colecionadores.
- 1:00:11Porque a prática do RPG exige muito tempo.
- 1:00:17Então, esses prazeres, eu acho, falam muito sobre o que você
- 1:00:20está buscando e eles vão ser uma mistura dentro de cada um de
- 1:00:25nós. Então, isso eu levo em
- 1:00:28consideração, porque você pode, tanto na Matrix, quanto no
- 1:00:32quebra-cabeça, quanto em qualquer outro paradigma que
- 1:00:34venha a ser descoberto, vai ser uma mistura desses elementos, em
- 1:00:38algum nível. O RPG, ele é, pra mim, uma mídia
- 1:00:43composta, que não pode ser dissociada de nenhuma desses
- 1:00:46elementos. Você não consegue tirar o jogo,
- 1:00:47você não consegue tirar a história, você não consegue
- 1:00:50tirar as pessoas, sem isso se tornar uma outra coisa, que já
- 1:00:54não é mais reconhecível, uma experiência diversa.
- 1:00:57Também quero falar sobre a dicotomia de teste.
- 1:01:02Todo teste de RPG pode estar testando você ou o seu
- 1:01:05personagem. E esses testes dão...
- 1:01:08E todo teste de RPG não pode não estar testando nem você nem o
- 1:01:12seu personagem. Uma dessas duas coisas está
- 1:01:14sendo testada. Sempre será, é.
- 1:01:18E o narrativismo, ele testa quase sempre a pessoa.
- 1:01:24Porque, em muitos aspectos, é a sua inteligência narrativa, é o
- 1:01:30seu repertório, é a sua consciência de qual é o beat que
- 1:01:33a história pede agora, que faz sentido, que está sendo
- 1:01:37perguntado pra você quando você está tentando criar um
- 1:01:40quebra-cabeça, digamos assim. Então, se nós estamos tentando
- 1:01:43fazer uma história que se pareça com o Crepúsculo, e você nunca
- 1:01:47leu o Crepúsculo, e você não tem, digamos, não estudou teoria
- 1:01:51narrativa, sabe? Você não tem esse background...
- 1:01:54provavelmente você vai se sentir muito perdido em relação ao que
- 1:01:57o seu personagem deveria fazer agora, dentro do contexto de uma
- 1:02:01história de um gênero que tem um objetivo.
- 1:02:04E essa é uma das questões do narrativismo.
- 1:02:07Você tem que decidir qual é a melhor história e se existe um
- 1:02:11juízo de valor, se você, tipo, eu quero que as pessoas gostem
- 1:02:15da minha história e não desgostem dela, por exemplo.
- 1:02:19Então quem está testando, não tem como testar o seu
- 1:02:21personagem. Tem que ser você.
- 1:02:23Você, o ser humano, vai ter que tomar decisões em relação ao
- 1:02:27final dessa história, a qual é a próxima ação do personagem.
- 1:02:29E essas ações revelam. E não existe isso.
- 1:02:32Tipo, muitos dos jogos narrativistas pós começo dos
- 1:02:36anos dois mil são sobre dar ferramentas pra pessoas que não
- 1:02:40necessariamente têm a prática. Porque contar a história, como
- 1:02:45chutar a bola, é uma coisa que você fica melhor se você faz
- 1:02:48isso continuamente. Sim.
- 1:02:51Pra pessoas que não têm isso e querem jogar esse tipo de jogo,
- 1:02:56como que ela joga? Eu já joguei com diretoras de
- 1:02:59teatro que olhavam pra sua ficha de RPG E olhavam pra gente com
- 1:03:05aquela cara característica do jogador de RPG que paralisou.
- 1:03:09Que ele não sabe, ele não sabe, ele não sabe.
- 1:03:12E você fala pra ele, faz o que você quiser.
- 1:03:14Meu Deus, eu não sei como as pessoas não apanham quando elas
- 1:03:17falam esse tipo de coisa. Porque se a pessoa soubesse o
- 1:03:20que ela quer, ela sabia o que ela ia fazer.
- 1:03:24Isso vem de você estar testando o jogador.
- 1:03:27Se a gente estivesse testando o personagem, era só apertar um
- 1:03:29botão, bem ou mal, sabe? Tipo, ah, eu vou fazer uma
- 1:03:31manobra de combate. Como que eu vou sair dessa?
- 1:03:33Eu vou fazer uma manobra de combate.
- 1:03:35Eu uso o sistema pra isso. E muitos designers mais
- 1:03:39contemporâneos de RPG justamente falam que você testar o jogador
- 1:03:43tem um quezinho de, tipo... em última análise, pelo menos em
- 1:03:48certeza em relação ao resultado, mas você testar o personagem é
- 1:03:52extremamente estável em termos de sistema você sabe o que ele
- 1:03:55vai rolar, você sabe a curva do dado, você sabe você consegue
- 1:03:59controlar muito mais Então, testando o personagem, você
- 1:04:04consegue criar... E por que eu trouxe essas duas
- 1:04:07questões? Porque imersão é uma palavra
- 1:04:10guarda-chuva na qual cabem muitas experiências.
- 1:04:13Imersão é você virar pra mim e me amaldiçoar.
- 1:04:17Abrir a boca, Balbi, sabe? Chamar o nome do meu personagem
- 1:04:21e soltar uma maldição linda que todo mundo vai talvez acordar um
- 1:04:25dia pra você terminar. Isso é simulação?
- 1:04:26Sim. Ou é você ser capaz de fazer
- 1:04:30isso e eu me defender dentro de um sistema no qual a gente não
- 1:04:33tem que parar para sermos cerceados pelas nossas falhas
- 1:04:36como seres humanos, dos nossos personagens continuarem
- 1:04:39interagindo dentro dessa história?
- 1:04:41Então a pergunta que você me fez, será que dentro de um e de
- 1:04:45outro, o que informa as decisões de um jogador quando ele sente
- 1:04:49conflito em relação a não saber o que decidir, o que ele deveria
- 1:04:53escolher, são questões inevitáveis, eu acho, em
- 1:04:55qualquer RPG. Eu não acho que ninguém vem
- 1:04:58jogar RPG por ter um descaso muito grande com o impacto que
- 1:05:02histórias têm. Então eu acho que mesmo o mais
- 1:05:06combeiro safado das pessoas, ele tem um sorriso de satisfação
- 1:05:10quando ele também sabe que a cena que ele vai fazer é muito
- 1:05:14legal, sabe? Vai todo mundo achar incrível
- 1:05:16esse troço. E não só, sabe?
- 1:05:19Quando eu falo isso, eu não estou dizendo que você tem que
- 1:05:21atuar para os outros, mas você também achou a cena legal.
- 1:05:23Por isso que você tá propondo. Você pensou e falou assim… Eu
- 1:05:26reconheço que, pra mim, essa é a cena que vem a seguir.
- 1:05:31E eu vou tentar dividir isso com os outros.
- 1:05:33E, às vezes, você ter esse embasamento mecânico pra fazer
- 1:05:36isso, é muito bom. Porque, nesse momento, você tem
- 1:05:40a autoridade, entre aspas, com as regras, digamos, a
- 1:05:43prerrogativa de fazer a sua cena.
- 1:05:45E se ela tem o apoio mecânico, você tem mais chance de fazer
- 1:05:48ela acontecer do jeito que você imaginou, sem ser afetado por
- 1:05:51outras coisas que estejam fora da mecânica.
- 1:05:54Então a gente sempre negocia isso porque e da mesma forma
- 1:05:57você pode ser o jogador mais voltado para a história do
- 1:06:00mundo. Você vai me dizer que se você
- 1:06:03rolar seis dados e saírem seis seis, você não vai sentir nada.
- 1:06:06Zero. Zero coisas aconteceram na mesa
- 1:06:09nesse momento. Não, né?
- 1:06:11Tipo, a gente sente a empolgação do jogo.
- 1:06:14Sim, total. É aquela coisa, né?
- 1:06:17A diversão, ela passa por caminhos que a gente às vezes
- 1:06:21nem prevê, né? E aí nesse ponto, sei lá, se a
- 1:06:23gente pegar as caquitas, por exemplo, elas adoram uma
- 1:06:25caquita, né? Sim.
- 1:06:27Então às vezes elas vão se divertir o máximo possível,
- 1:06:30tirando o máximo de falhas ali, porque deu merda e agora vai ser
- 1:06:33maneiro. É um arrefecimento mais
- 1:06:36espontâneo, né? É, exatamente.
- 1:06:38Isso é uma beleza do RPG, com certeza.
- 1:06:41E agora, assim, puxando... Eu fiquei muito satisfeito com a
- 1:06:45tua resposta. Muito obrigada.
- 1:06:48Trouxe bastante aí a dúvida que eu tinha quando eu fiz a
- 1:06:51pergunta. E aí eu queria ligar ela com
- 1:06:54outra coisa da GNS, só pra terminar esse capítulo forte.
- 1:06:57Por favor. No capítulo três ali da GNS, né?
- 1:07:03O Ron Edwards, ele traz as... Ele chama de stances, né?
- 1:07:07Que seria posturas, algo assim. Que é a gente, quando joga, a
- 1:07:11gente poderia ter a postura do ator, a do autor e a do diretor,
- 1:07:16né? Me parece que também, em algum
- 1:07:17nível, conflui com o que você traz também.
- 1:07:19Claro que ele traz três papéis, né?
- 1:07:22E eu até acho que diretor e autor muitas vezes se confundem,
- 1:07:25mas eu entendo que São três posturas ali, uma de ator que
- 1:07:30você olha sempre pelo teu personagem, que foi o que você
- 1:07:34trouxe ali, né? Você olha pelo teu personagem,
- 1:07:35então olha tudo relativo ao meu personagem, é meu, é assim que
- 1:07:38eu experiencio o mundo. A gente tem essa coisa do autor
- 1:07:42e do diretor, o autor agindo de acordo com o que o meu
- 1:07:47personagem faz, como ele se sente ali dentro daquele...
- 1:07:51Daquele espaço, né? Você como co-escritor da
- 1:07:53história, né? É o papel do...
- 1:07:55É, exatamente. E o diretor, que é essa coisa
- 1:07:59mais ampla, né? Como se você estivesse vendo de
- 1:08:01fora, ali, né? Você tá vendo o contexto da
- 1:08:05história, você tá vendo a narrativa construída, você tá
- 1:08:08vendo... Enfim, você tá vendo o panorama,
- 1:08:11né? E aí, nesse ponto, seriam mais
- 1:08:13ou menos... Eu não sei se é certo dizer
- 1:08:15dessa forma, mas seriam mais ou menos três modos de emergir, né?
- 1:08:21Me parece que o esquema matriz que você traz, ele dialoga muito
- 1:08:26diretamente com esse nível ator. Enquanto o esquema
- 1:08:30quebra-cabeça, ele vai para o diretor.
- 1:08:33Seria isso, mais ou menos? Você, quando você pensa em
- 1:08:36imersão, você está pensando em observar as coisas pelo olho do
- 1:08:41personagem, quando você fala em matriz.
- 1:08:43E no quebra-cabeça, no caso, minha curiosidade é mais sobre o
- 1:08:45quebra-cabeça. Você vê... um olhar de fora, de
- 1:08:50panorama, assim? Como é que é a tua imaginação
- 1:08:52nesse momento? Como é que você encara isso?
- 1:08:54Eu acho que, respondendo diretamente de forma, primeiro e
- 1:08:58depois eu dou a volta, no quebra-cabeça, você sempre está
- 1:09:03jogando um jogo. Mesmo que o jogo seja, nós vamos
- 1:09:06fazer uma novela mexicana, com todo o choro, o drama e o ranger
- 1:09:09de dentes. Existe essa hiperconsciência da
- 1:09:13estrutura, que é um prazer, que é parte da graça de quando você
- 1:09:17joga esse tipo de jogo. É você usar aquela estrutura pra
- 1:09:20criar aquele resultado. Da mesma maneira que você pinta
- 1:09:24quadros pra pintar quadros pelo prazer, sabe?
- 1:09:27Tipo, de usar tinta e criar formas.
- 1:09:30Eu acho que existe no quebra-cabeça o prazer de você
- 1:09:33usar o jogo e explorar esse jogo realmente, sabe?
- 1:09:38Ele é o sistema no qual as pessoas...
- 1:09:40Ele é o paradigma no qual as pessoas metem a mão no sistema
- 1:09:43com mais vontade, eu acho, porque... a proposta é montar um
- 1:09:49quebra-cabeças brincar com esta coisa pra ver se ela faz o que
- 1:09:53ela diz que faz e se a gente consegue fazer ela fazer o que
- 1:09:56faz, ele se torna muito mais um, eu usei o termo quebra-cabeça
- 1:10:01pra tentar fugir das analogias musicais que são a maldição da
- 1:10:05minha existência mas ele me parece muito mais um instrumento
- 1:10:08musical, sabe, uma coisa complexa, mas é me utilizar
- 1:10:12aquela coisa complexa com alguém que toque violão gosta de usar
- 1:10:16técnicas de violão sabe ele gosta de fazer remer onze slides
- 1:10:19isso é isso não para ele não é uma obrigação isso é um prazer e
- 1:10:23jogar RPG com esse amor pelo sistema pela pela mecânica por
- 1:10:27fazer a mecânica funcionar e ver como ela funciona por brincar
- 1:10:30com o lego é muito e sabe tipo e as outras crianças e todas as
- 1:10:34outras crianças é lindo né porque na minha cabeça eu queria
- 1:10:36imagem do lego mas você e os outros jogadores é fazendo
- 1:10:40aquilo juntos Também cria uma sensação muito incrível.
- 1:10:45O Lucas, meu sócio na Balde Galáctico, minha editora, ele
- 1:10:50gosta de RPG em particular quando ele é o personagem.
- 1:10:54Quando ele sente que a lente do personagem está tão nele que as
- 1:11:00coisas acontecem com ele através do personagem.
- 1:11:04A Paula, do Caquitas, que a gente jogou, que a gente
- 1:11:08mencionou agora, a Paula é muito mais como eu, e ela tem essa
- 1:11:12ideia do quebra-cabeça. Pra ela, o sistema é a coisa que
- 1:11:16é legal, e por isso elas experimentam vários e vários
- 1:11:19sistemas, porque existe essa paixão por brinquedo novo,
- 1:11:24basicamente, por essa tecnologia mental, por essas ideias que
- 1:11:27geram efeitos específicos, toda vez que a gente assistir o
- 1:11:32começo de Up, a gente vai ficar triste.
- 1:11:34Porque é uma história que funciona, sabe?
- 1:11:36Mas mais do que uma história que funciona, existe muito mais lá
- 1:11:40como, sabe, o jeito que os personagens são desenhados, a
- 1:11:42estrutura narrativa. Existe técnica.
- 1:11:45Eu acho que o quebra-cabeças, ele se rejubila na técnica. do
- 1:11:49RPG, em fazer contar histórias através da mídia do RPG uma
- 1:11:55experiência de quebra-cabeça de RPG não poderia ser um filme ela
- 1:11:58não poderia ser um livro, ela só sabe, tipo, jogar Pasión de las
- 1:12:03Pasiones, já que falamos de novela mexicana Não é a mesma
- 1:12:08coisa que assistir novela. A prática de um RPG que é mais
- 1:12:12voltado à alegria do sistema, ele ainda produz, sabe?
- 1:12:15Tipo, às vezes as pessoas acham que esses RPGs são muito
- 1:12:17estéreis. Não é verdade, porque sistema
- 1:12:19não significa número, sabe? Não significa que a gente tá
- 1:12:22necessariamente jogando Baldur's Gate de papel.
- 1:12:24Existem sistemas extremamente sofisticados que não envolvem
- 1:12:28números, são puramente conceituais e inovadores, assim.
- 1:12:34E ainda assim, a sensação desses sistemas de RPG, pra mim, em
- 1:12:37muitos aspectos, eu sei que isso não é o RPG puro, entre aspas,
- 1:12:42no sentido do original, mas eu acho que ele desnuda a
- 1:12:46experiência de uma maneira que é mais efetivo você sentir as
- 1:12:52engrenagens do jogo, faz com que você perceba o RPG em si mais do
- 1:12:58que os frutos, digamos assim, perceba mais a experiência do
- 1:13:01que o resultado, que é Essa contação de história, esse mundo
- 1:13:04criado. Então eu acho que esse foco mais
- 1:13:08ou no que a gente tá criando ou no que a gente tá fazendo.
- 1:13:12E o que é a coisa que nós vamos lembrar depois que essa
- 1:13:15aventura, que essa sessão estiver terminada.
- 1:13:18Uhum. E voltando na ideia da tríplice
- 1:13:22função, né? Eu...
- 1:13:25Demorou até pra eu ter contato com essa teoria do Ron e eu
- 1:13:28tinha pensado em algo similar, só que muito menos elegante.
- 1:13:32Daí teve aquela situação na qual você tem uma ideia que você acha
- 1:13:35muito esperta até ver que a outra pessoa já teve a tua ideia
- 1:13:37há muito tempo antes e muito melhor do que você.
- 1:13:40Mas eu não falava de diretor, eu falava de público.
- 1:13:44Eu acho que é uma... Porque, como eu falei, todo
- 1:13:48mundo sentado na mesa tá vendo você jogar, entendeu?
- 1:13:51E sendo afetado por aquilo, como público.
- 1:13:54A gente se regurgiza de ver as pessoas jogando.
- 1:13:57Incrível, sabe? A gente vai lá no YouTube
- 1:13:59assistir a pessoa jogando de novo e de novo, fazendo a mesma
- 1:14:02cena. É uma performance própria entre
- 1:14:04a gente aqui, né? Jogando.
- 1:14:07Um performando pro outro, né? É, pra citar um dos meus vídeos,
- 1:14:11uma parte de ser RPG é ser ator e a outra parte é ser palatéia.
- 1:14:18Sim, total. Então eu acho que ele tem essa
- 1:14:20perspectiva, no sentido que sim, a gente tem que agir como
- 1:14:25personagem, internalizar o personagem.
- 1:14:27A gente tem que atuar dentro da história, co-escrever essa
- 1:14:30história. A gente tem que jogar esse jogo
- 1:14:32de maneira, sabe, de acordo com as regras.
- 1:14:36E a gente tem que prestar atenção nas outras pessoas que
- 1:14:39estão aqui com a gente fazendo essa mesma coisa nesse mesmo
- 1:14:41lugar. Os nossos companheiros de jogo
- 1:14:43não são e não podem ser acidentais.
- 1:14:46Porque a experiência não se realiza se for assim.
- 1:14:55Mais de mil episódios na primeira temporada.
- 1:14:59Um podcast premiado por suas reflexões sobre o jogo,
- 1:15:03entrevistas e convidados. Em uma nova temporada com muito
- 1:15:07a oferecer à comunidade do RPG. Aventureiros numa busca por mais
- 1:15:17episódios na semana te convidam a fazer parte do grupo de
- 1:15:20Telegram, participar de sorteios e enriquecer seu jogo.
- 1:15:27Esquente a água, moa os grãos e pegue os dados. apoia.se barra
- 1:15:38café com dungeon Contamos com você.
- 1:15:57Passando um pouquinho para essa coisa da experiência em mesa,
- 1:16:01que você falou bastante, de que essa experiência é construída
- 1:16:06pelos participantes. Me parece que a ideia do
- 1:16:08quebra-cabeça coloca mais essa construção coletiva, essa
- 1:16:13curadoria da experiência na mão de todos os participantes,
- 1:16:17enquanto a gente tem ali essa ideia da matriz, me parece ser
- 1:16:20uma coisa que idealmente já vem um pouco pronta, né, seja por um
- 1:16:25mundo de jogo, meio que, sei lá, um cenário ultra detalhado, seja
- 1:16:29um mestre demiúrgulo que tem já muita coisa na sua cabeça, seja
- 1:16:33por um sistema de oráculos ou alguma coisa assim que consiga
- 1:16:38construir de forma consistente essa experiência, mas que
- 1:16:42obviamente para construir de forma sólida essa experiência,
- 1:16:45ele já meio que concebeu essa ideia de mundo de uma forma
- 1:16:48muito sólida e provavelmente experiência.
- 1:16:52Você encara de alguma forma esse jogo quebra cabeça com uma coisa
- 1:16:59mais próxima dessa desse RPG mais artesanal que acontece na
- 1:17:05mesa do que com um produto ou você e aí por consequência o RPG
- 1:17:11Matrix de repente ele dar um produto que vai passar uma
- 1:17:16experiência mais próxima do que o game designer quis, ou que o
- 1:17:19mestre quis, ou você acha que não tem necessariamente a ver
- 1:17:24com isso? Como é que você encara então,
- 1:17:27sumarizando, como é que você encara esses dois modelos de
- 1:17:31acordo com a curadoria da experiência em mesa?
- 1:17:36Eu acho que a pergunta, o quão plástico é o mundo, é sobre a
- 1:17:40qual nós estamos versando nesse momento.
- 1:17:43E sim, essa experiência pronta, ela é o desejo de muitos
- 1:17:47jogadores que participam dessa ideia de imersão, do que é
- 1:17:51imersão pra eles. É o fato que eu vou te perguntar
- 1:17:54o nome desse NPC, do rei, e você vai me responder sem hesitar.
- 1:17:59E se eu tivesse perguntado ontem, o nome seria o mesmo.
- 1:18:03Isso é um... Então sim, essa ideia de que
- 1:18:06você tá... Porque, bem ou mal, RPG nós
- 1:18:09vamos produzir e consumir o que os outros produzirem em termos
- 1:18:13criativos, né? Assim, não tem outra opção.
- 1:18:15Então, independente de existir Barovia ou não, eu não vou ter
- 1:18:19acesso a Barovia e ao Stride, eu vou ter acesso a você, Balbi, me
- 1:18:23falando sobre Barovia e o Stride.
- 1:18:25A minha Baróvia, né? A sua Baróvia, o seu Strade.
- 1:18:29Sim, que vai ser a nossa Baróvia e o nosso Strade quando nós
- 1:18:32jogarmos. Sim.
- 1:18:33Mas... Então, sim, eu concordo com você
- 1:18:37na perspectiva que existem nessa ideia da Matrix a expectativa de
- 1:18:42que esse mundo seja sólido e ele vai ser mais sólido se ele já
- 1:18:46existir de antemão. porque é muito difícil você...
- 1:18:51É muito mais fácil se eu te perguntar qual é a capital de um
- 1:18:55Estado brasileiro do que de um Estado inventado daqui a pouco.
- 1:19:00Então você se referir a algo que já existe em termos de solidez
- 1:19:05estrutural desse universo... criado por você ou por outras
- 1:19:09pessoas, é tão necessário que basicamente todo RPGista do
- 1:19:14mundo tem o seu próprio cenário de alguma coisa, né?
- 1:19:17Assim, é batata, assim, é difícil encontrar quem não
- 1:19:20tenha. O meu mundo.
- 1:19:24Porque no meu cenário, tem dragões.
- 1:19:29A pergunta sempre é, tem dragões?
- 1:19:31Tem armas de fogo? Tem piratas espaciais?
- 1:19:34Não por nada esses cenários tendem a ser variantes do mesmo
- 1:19:37tema. A gente, como comunidade, gosta
- 1:19:45de jogar as coisas em períodos. A gente sempre tem interesse por
- 1:19:49certos temas em determinados períodos.
- 1:19:51E daí muitos jogos vêm nos suprir disso.
- 1:19:54Muitos mestres que têm, sabe, tipo, é fácil a gente tirar sal
- 1:19:56dos mestres que têm cenários todos muito parecidos, mas eles
- 1:19:59estão tentando jogar a mesma coisa.
- 1:20:01Faz sentido que eles sejam meio parecidos, entendeu?
- 1:20:04A experiência platônica que eles estão buscando é a mesma, ou
- 1:20:07muito parecida. E é justamente nisso que eu acho
- 1:20:10que o quebra-cabeça vem para nos propor experiências diferentes.
- 1:20:15Porque a Matrix funciona melhor numa experiência conhecida, por
- 1:20:19incrível que pareça, Porque você sabe o que esperar desse mundo,
- 1:20:23que não é a realidade. Bem ou mal, né, Balbi?
- 1:20:26Não é a realidade. Uma das grandes brigas que eu
- 1:20:27tive com um amigo meu era justamente se dar coisa num jogo
- 1:20:35era algo que poderia acontecer. Então deveria ter acontecido,
- 1:20:40sabe? Tipo, se é possível num mundo
- 1:20:41real, significa que isso deveria acontecer no jogo?
- 1:20:45Ih! E não tendo acesso naquela época
- 1:20:47aos termos que eu tenho hoje, eu estava indignadíssima.
- 1:20:51Porque o que eu queria dizer é que, tipo, a realidade é
- 1:20:55infinitamente caótica e ela existe.
- 1:20:56Eu não posso fazer nada em relação à realidade.
- 1:20:59Neste jogo, nesta história, não faz sentido esse...
- 1:21:03Sabe, tipo... E de tanta coisa, de realidade,
- 1:21:06porque logo isso você está trazendo, né?
- 1:21:08Tipo... É, e é tipo, e obviamente, trago
- 1:21:13isso pra ilustrar uma conversa que certamente foi tida por
- 1:21:15vários pares de RPGistas ao longo da humanidade, porque o
- 1:21:18que nós estamos discutindo nisso é a Matrix e o quebra-cabeça.
- 1:21:21O que eu estou dizendo pra ele é tipo, a gente tá montando o
- 1:21:25quebra-cabeça e você acabou de colocar uma banana em cima da
- 1:21:27mesa. Ele falou assim, existem bananas
- 1:21:30na realidade, eu gosto de bananas, entendeu?
- 1:21:31Sabe, tipo, e nós dois não tínhamos clareza, não tem, sabe,
- 1:21:35tipo, nos faltou naquele momento essa clareza da experiência que
- 1:21:40nós estamos buscando e do contrato.
- 1:21:42E olha que assim, nós dois não entendemos pouco de RPG e por aí
- 1:21:45afora, mostrando que essa dificuldade em encontrar e
- 1:21:49expressar o que você quer é recorrente.
- 1:21:52A Ju, da Torre do Dragão, ela me disse algo genial recentemente,
- 1:21:56que ela foi que... Ela gosta de ter várias sessões
- 1:21:59zero ao longo das campanhas dela.
- 1:22:01Porque nem sempre a pessoa na sessão zero sabe o que ela quer
- 1:22:04daquele jogo. Sim.
- 1:22:06Às vezes nunca jogou RPG, não sabe nem o que te falar.
- 1:22:09Mas ao longo do jogo, ao longo das sessões que nós passamos
- 1:22:12juntos, você vai descobrir o que você quer.
- 1:22:14Você vai saber se você prefere isso, sabe?
- 1:22:16Daí nisso, a sessão zero volta... pra alinhar as
- 1:22:20expectativas das pessoas e eu sei que existe uma resistência
- 1:22:24em relação a essa porque pra muitas pessoas essa abertura pra
- 1:22:29nós discutirmos o elemento jogo de maneira descarada é metajogo,
- 1:22:34é o famoso, sabe, quebra a imersão de várias pessoas,
- 1:22:37enquanto outros jogos se refestelam, na ideia que eu
- 1:22:40espero que você esteja ciente da camada de jogo desse jogo, senão
- 1:22:43você não vai conseguir jogar sim, total Agora, essa questão
- 1:22:48da gente ter isso concretizado, essa tua visão concretizada em
- 1:22:55jogos. Você poderia dizer claramente
- 1:22:57que a simulação matrix seria o D&D clássico, o D&D old school,
- 1:23:01o D&D atual, enfim, Pathfinder, jogos assim.
- 1:23:04E jogos que têm essa matriz, fazendo uso da palavra de outra
- 1:23:10forma, esse registro de jogo. E poderia dar um exemplo que
- 1:23:15você acha clássico, assim, do que seria o jogo quebra-cabeça?
- 1:23:18Seria mais, por exemplo, um Lady Blackbird?
- 1:23:21Seria, de repente, um, sei lá, o Pasión de las Pasiones que você
- 1:23:26citou? Qual seria o exemplo que você
- 1:23:30daria para falar, cara, isso aqui é o registro concreto do
- 1:23:33que eu estou falando? Eu quero pontuar que eu acho
- 1:23:38que, como nós conversamos, são contratos sociais, eu acho que
- 1:23:42mesmo jogos como GURPS, ou os jogos mais inclinados a
- 1:23:46Wargames, que a gente nem falou aqui, eles trazem muito isso
- 1:23:50sim, mas eles também, sabe, tipo, você consegue jogar do
- 1:23:54jeito que você quiser, se você tiver essa clareza de
- 1:23:56perspectiva. Mas eu entendo a sua pergunta,
- 1:23:58certos sistemas são melhores pra uma coisa do que pra outra,
- 1:24:01certos sistemas... Sabe, mago, a ascensão, é um
- 1:24:05sistema que simula magia de uma maneira muito mais imersiva
- 1:24:11dentro desse contexto de Matrix, do que Nihilo, do Ex-Ignorante,
- 1:24:14que tem os mesmos temas de magia espontânea e magia criada, mas
- 1:24:19ele é muito menos técnico, muito menos robusto em termos de
- 1:24:24sistema, então ele cria uma experiência que tem que ser
- 1:24:26muito mais discutida, não é mesmo?
- 1:24:28Eu entendo o que você quer dizer nesse sentido. e o que eu quero
- 1:24:31dar de exemplo é um jogo talvez o jogo de investigação que eu
- 1:24:37acho mais inovador recentemente que se chama Brindlewood Bay
- 1:24:43conheceu já? Eu citei ele aqui recentemente,
- 1:24:46cara. A gente fez um ciclo de três
- 1:24:48episódios aí, falando sobre investigação.
- 1:24:51E citei eles. Inclusive, citei também as
- 1:24:54Caquitas, que amam, né? Falam bastante desse jogo.
- 1:24:57Sim. E Brand Old Bay é revolucionário
- 1:25:00em termos de RPG de investigação, contextualizando
- 1:25:03pra todos que estão ouvindo, porque o RPG de investigação
- 1:25:07sempre foi proposto, ou sempre tendeu a ser proposto, como uma
- 1:25:12investigação de fato. Você tem que descobrir algo que
- 1:25:15já existe. Máscara de nototap, você tem que
- 1:25:16descobrir algo que já existe esperando você entrar pela sala
- 1:25:19e ser descoberto. E Brindlewood bem simula como a
- 1:25:24Agatha Christie criava os seus livros, que era da seguinte
- 1:25:27forma. Ela escrevia o livro inteiro e
- 1:25:28no último capítulo, quando chegava a hora do Poirot ou da
- 1:25:31Miss Marple explicar, ela decidia quem era o criminoso,
- 1:25:35fazia a explicação dela e daí voltava e corrigia o livro dela.
- 1:25:39Por um motivo muito simples. A mesma conclusão que eu tinha
- 1:25:43problema com jogos investigativos.
- 1:25:46Se ela soubesse quem é o criminoso, em toda a frase dela,
- 1:25:49ela ia estar tentando esconder isso de você ou mostrar isso
- 1:25:52para você. Ela não tem como fingir que ela
- 1:25:55não sabe disso enquanto ela está escrevendo o livro.
- 1:25:57Ela sabe. Então, ela achou que seria um
- 1:26:00resultado mais interessante se, como protagonista dela, ela não
- 1:26:05soubesse. Então, realmente, muito do que
- 1:26:07faz ela ser difícil de simular até hoje.
- 1:26:11E olha que escritores profissionais já tentaram.
- 1:26:13Inteligência Artificial já tentou vários livros Vários
- 1:26:18livros copiando o estilo da Agatha Christie foram produzidos
- 1:26:20desde a morte dela. Nenhum foi capaz aos olhos do
- 1:26:25público. E olha que é uma autora que
- 1:26:26ninguém fala, meu Deus, sabe? Tipo Mark Twain, Tolkien.
- 1:26:31Ninguém respeitava a Agatha como escritora.
- 1:26:33E ainda assim, irreprodutível. A gente não consegue.
- 1:26:38Não importa o quão formulaico, quão bobo as pessoas possam
- 1:26:42achar as histórias dela, a gente não consegue.
- 1:26:45E o Brindlewood Bay faz isso de forma que você, quem está
- 1:26:50conduzindo a história, não sabe a resposta, não existe resposta.
- 1:26:54Até o momento em que os jogadores juntaram todas as
- 1:26:57pistas, fazem a explicação do crime e fazem uma rolagem que
- 1:27:02vai depender da explicação que eles deram e como eles atuaram
- 1:27:06no jogo até nesse momento. E daí a gente descobre se a sua
- 1:27:12explicação é verdade ou não. E ela tem esse elemento
- 1:27:15performativo, né? Ela se torna verdade, ela passa
- 1:27:18a ser a realidade a partir do momento que vocês jogadores, e é
- 1:27:21uma coisa feita em grupo, dizem que foi assim que o crime
- 1:27:24aconteceu. essa é uma mecânica inovadora na minha opinião, é um
- 1:27:29jogo que ele é orientado a mecânica ele funciona por causa
- 1:27:33de recolher pistas a mecânica, até fazer a solução a mecânica,
- 1:27:37não tem números ele é orientado a mecânica de uma maneira
- 1:27:39abstrata e conceitual e não matemática e ele é impossível
- 1:27:45você não ter por mais que seja muito imersivo ele é muito
- 1:27:48legal, mas é impossível você não ter ciência o tempo todo que
- 1:27:50você está jogando um jogo e eu acho que é essa camada que
- 1:27:56define o quebra-cabeça, porque a imersão não é apenas diegética,
- 1:28:01ela não é apenas em on. Você está imerso em off também,
- 1:28:04você está focado... Da mesma maneira que, às vezes,
- 1:28:07a gente joga board games e fica muito intenso em cima daquilo
- 1:28:11que está acontecendo, a capacidade do quebra-cabeça é
- 1:28:14fazer você se interessar pelo sistema antes do que pela
- 1:28:19história. E eu acho muito do Matrix, você
- 1:28:23se interessa pelo sistema como um meio.
- 1:28:25A história é o fim, entendeu? A imersão é o fim, digamos
- 1:28:28assim. Se sentir lá é o fim.
- 1:28:29E no quebra-cabeça, jogar o jogo é o fim.
- 1:28:34Jogar bem até, sabe? E são pessoas que você pode ver
- 1:28:38uma característica. Jogadores que gostam mais de
- 1:28:41jogar estilo Matrix. A Renata do Caquitas, eu acho, é
- 1:28:44mais assim, apesar de ser muito talentosa mecanicamente.
- 1:28:49Eles têm dificuldade em usar e descartar os personagens deles e
- 1:28:54serem ruins com os personagens deles.
- 1:28:56Porque os personagens deles parecem pessoas reais pra eles,
- 1:28:59quase assim. Eles sentem empatia pelos
- 1:29:02personagens. Pessoas como eu, mais inclinadas
- 1:29:06ao aspecto quebra-cabeça, Não tem nenhuma empatia.
- 1:29:10O meu personagem, ele é tão importante pra mim quanto uma
- 1:29:13regra, quanto um atributo, sabe? Tipo, ele é mais uma das
- 1:29:15ferramentas do sistema que eu uso a meu bel prazer.
- 1:29:18Ele não é uma lente, ele é um lápis.
- 1:29:22Enquanto muitas outras pessoas não conseguem dissociar o
- 1:29:24personagem de si mesmo. Eu tenho uma grande amiga minha
- 1:29:27que ficou chateadíssima quando o narrador da mesa dela deu um
- 1:29:31personagem antigo dela pra uma jogadora nova jogar.
- 1:29:35O sentimento dela foi um sentimento de traição.
- 1:29:38Era isso. Assim que ela processou o que
- 1:29:40aconteceu, porque aquilo era muito dela pra ser assim, tão
- 1:29:44negligentemente ofertado a outra pessoa.
- 1:29:47Eu não teria o menor problema com isso, por exemplo.
- 1:29:50E ela é uma excelente jogadora. A pessoa que ensinou a Ana
- 1:29:53Schermak do Pausa pra um café a jogar RPG, por exemplo.
- 1:29:57Olha, é isso aí, eu sinto muito isso mesmo, cara.
- 1:30:01De fato, você falhar num jogo que você tá pensando numa
- 1:30:03perspectiva da história, etc., você acaba que encara a sua
- 1:30:08falha como um conflito, né? Como mais um conflito que
- 1:30:11enriquece a história, né? Quando você tá vivenciando ali,
- 1:30:13você fala, eu falhei. Então, você não quer falhar, né?
- 1:30:18Então, são dois, é, total. Agora, assim, uma última
- 1:30:22perguntinha pra você. Eu trabalho aqui no Café
- 1:30:26bastante os conceitos do oil fantasy, que é um estilo de jogo
- 1:30:30que eu construo. E falo bastante aqui, porque tá
- 1:30:34em muito experimento, etc, etc. E um paralelo que eu busquei, e
- 1:30:39aí... reforçando que paralelos são duas jetas que não se
- 1:30:43encontram, mas que a gente consegue entender algumas
- 1:30:47coisas. E eu sei que você é uma pessoa
- 1:30:49que curte a arte, que estuda a arte, etc.
- 1:30:52Eu busquei uma diferenciação dentro desse jogo que foi...
- 1:30:57Deixar de trazer a diegesis, né? Não o sentido diegético que a
- 1:31:01gente usa hoje em dia, que é parte da ficção, mas trazer
- 1:31:04aquele conceito aristotélico, né?
- 1:31:06Aquela coisa de que ele é um relato, né?
- 1:31:11Ele é o épico. Ele é uma narrativa de alguém
- 1:31:16contando alguma coisa. Em contraste a mimesis, né?
- 1:31:22Que seria o vivenciar, que seria o experienciar aquilo.
- 1:31:26Você, assim, o fundamento da Diegesis é a narrativa, a
- 1:31:30construção narrativa em si, o contar da história.
- 1:31:33E o fundamento, e suas técnicas, né?
- 1:31:35E o fundamento da Mimesis seria ali a verossimilhança, ou seja,
- 1:31:39o sentido de que aquilo é verdade, né?
- 1:31:41De que aquilo é real. Você, de alguma forma, enxerga
- 1:31:45paralelos também com esses dois conceitos?
- 1:31:51Cem por cento. Eu concordo com esses paralelos.
- 1:31:54Como eles estão sendo apresentados aqui, como você
- 1:31:57está apresentando eles para mim. Mas eu acho que...
- 1:32:00Mas eu acho que sim. Eu acho que essa ideia de...
- 1:32:05Em última análise, nós somos as mesmas pessoas que...
- 1:32:10Platão era, sabe? Tipo, nós não temos motivo pra
- 1:32:13achar que nós, como humanidade, nos tornamos mais complexos do
- 1:32:16que Platão era. Ou mais sofisticados do que
- 1:32:19Platão era. E a gente fala sobre histórias e
- 1:32:24sobre jogos. São duas coisas que a humanidade
- 1:32:27faz. Nós jogamos jogos e nós contamos
- 1:32:30histórias há muito tempo. Está aí o jogo Real de Ur.
- 1:32:32Está aí a teoria de que nós nos tornamos a humanidade quando
- 1:32:37passamos a concatenar informação em nexos causais.
- 1:32:41Ou seja, histórias. Quando a gente foi capaz de
- 1:32:44contar uma história foi quando a gente começou a ser capaz de
- 1:32:47armazenar grandes quantidades de informação.
- 1:32:49O jogo, muitas vezes, as pessoas teorizam é a vivência, né?
- 1:32:53Ela é a prática, né? A gente fala de Jesus e Mimesis,
- 1:32:56a gente podia falar de teoria e prática, né?
- 1:33:01Ela é... A Mimesis, a prática, ela é mais
- 1:33:05voltada, sabe? Pela experiência, pela
- 1:33:08confirmação da teoria, de uma certa forma.
- 1:33:11Eu acho que o RPG oscila e brinca muito sobre isso.
- 1:33:15A gente propõe e conta uma história, mas contar uma
- 1:33:19história é alimentado pela ideia de que você tem o que falar,
- 1:33:23você tem experiências das coisas, sabe?
- 1:33:25Você tem... Um autor que eu gosto muito,
- 1:33:28chamado Harry Dry, ele fala que AI nunca vai substituir escrita
- 1:33:34de humanos por três motivos. convicção, experiência e bom
- 1:33:40gosto. Ele fala que são três coisas que
- 1:33:42precisam necessariamente de uma perspectiva humana e que você
- 1:33:46não consegue, você consegue simular isso, mas você não
- 1:33:49consegue gerar coisas novas com esses três fatores.
- 1:33:52E ele, sendo alguém que trabalha em publicidade, fala sobre como
- 1:33:56muitas vezes é uma perspectiva nova sobre um determinado
- 1:34:00produto, que é o que faz as pessoas realmente verem aquele
- 1:34:03produto pela primeira vez ou verem ele e entenderem de
- 1:34:07maneira clara. Eu dou essa volta para dizer que
- 1:34:10sim, eu concordo com a ideia de que o quebra-cabeças ele é mais
- 1:34:15diegético no sentido que ele está muito ciente que ele está
- 1:34:19contando uma história da técnica e da arte narrativa que nós
- 1:34:22estamos fazendo juntos. E a Mimese ela é muito mais
- 1:34:25voltada e que a Matrix ela é muito mais voltada a essa ideia
- 1:34:29que Quando você lembrar disso, eu não quero que você lembre que
- 1:34:33nós estamos numa mesa comendo os títulos.
- 1:34:35Eu quero que você lembre de Baróvia.
- 1:34:38Eu quero que você sinta a névoa e o frio, entendeu, na sua cara.
- 1:34:42E são sensações diferentes, ambas válidas, ambas excelentes.
- 1:34:46Eu já tive excelentes experiências em ambos os tipos
- 1:34:49de jogos. Eu tenho certeza que você
- 1:34:50também, imagina. Sim, sim.
- 1:34:54Mas a gente pode ter preferências, entendeu?
- 1:34:56Também você pode. É importante pra mim.
- 1:34:58Por que a gente fica elucubrando sobre o sexo dos anjos e falando
- 1:35:02teoria de RPG? Quanto que vale teoria de RPG?
- 1:35:07Vale pra você saber informar a si mesmo e aos seus pares o que
- 1:35:10é que você quer, o que é que você espera.
- 1:35:13Isso é onde eu queria chegar, cara.
- 1:35:15É que é isso na mesa, né? Tipo, você então enxerga que ter
- 1:35:20consciência sobre esses dois modelos de experiência, né?
- 1:35:26A gente entender um pouco sobre isso, a gente poder... conversar
- 1:35:30sobre isso e alinhar expectativas isso imprime em
- 1:35:33mesmo experiência mais profundo ou talvez pelo menos mais
- 1:35:37alinhada entre os participantes só pra terminar agora de fato
- 1:35:41como é que você vê isso ajudando essa consciência isso sendo
- 1:35:46trabalhado em mesa é uma coisa que é legal a gente ter uma
- 1:35:49autoconsciência ou é melhor deixar fluir como é que você
- 1:35:52entende isso? Eu acho que se você tiver uma
- 1:35:55autoconsciência, você tem a possibilidade de optar, entrar
- 1:35:58naquela experiência e dar pra ela o que ela pede, o que as
- 1:36:02outras pessoas pedem de você. Então, por exemplo, você talvez
- 1:36:07não saiba isso sobre mim, Bob, mas eu sou uma jogadora
- 1:36:10extremamente chata. Como assim?
- 1:36:14Eu dou feedback em tempo real para o narrador do que eu acho
- 1:36:18que ele está fazendo. Ele fala, então vocês abrem a
- 1:36:23porta e tem um dragão. E eu falo, um dragão?
- 1:36:29Eu sou os velhos dos Muppets, eu fico comentando a história que
- 1:36:33eu estou ouvindo como se eu estivesse assistindo Masterchef.
- 1:36:37O mestre faz adjudicações, eu falo, você é um injusto.
- 1:36:41Como você tem coragem? Sabe, tipo, eu sou… o quão
- 1:36:47controlada, sensata e acolhedora eu sou fora, estudando assim, ou
- 1:36:54mestrando e narrando eu sou inclusive muito tranquila eu
- 1:36:57tento falar menos que os meus jogadores quando eu tô narrando,
- 1:36:59é um dos meus focos como jogadora, eu sou uma praga a
- 1:37:03pessoa tem que ter uma certa determinação pra conseguir lidar
- 1:37:06comigo solta, na mesa, causando caos eu posso me comportar se eu
- 1:37:11estiver disposta a isso, se eu estiver em stream por exemplo E
- 1:37:17o que eu muito disso para mim e se você tiver noção dessas
- 1:37:22ideias você consegue fazer escolhas que vão fazer o jogo
- 1:37:25que você está jogando fluir melhor porque eu sei que com
- 1:37:28certos mestres em certas mesas o que é esperado de mim É a
- 1:37:34Matrix, entendeu? É a Mimesis.
- 1:37:36É que eu entro naquela personagem, não expanda pra fora
- 1:37:40daquela personagem. E, sabe, abre os olhos e veja
- 1:37:45através dos olhos dela. Quem quer que ela seja.
- 1:37:48E eu sou capaz de fazer isso. Mesmo sabendo que às vezes isso
- 1:37:52não é o meu jeito favorito de se jogar RPG, mas é um jeito bom.
- 1:37:55E sendo capaz de fazer isso, eu consigo participar de uma mesa
- 1:37:58que tem essa perspectiva. E vice-versa, sabe?
- 1:38:02Tipo, você... é capaz de participar de uma mesa, de
- 1:38:05conhecer um jogo, de estar com seus colegas jogando o Lost, por
- 1:38:09exemplo, que é uma série que você não gosta, que é num
- 1:38:12sistema que simula séries de TV e é super quebra-cabeça e super
- 1:38:17diegético nesse sentido de construir uma narrativa e não
- 1:38:20ser a sua coisa favorita, mas você conseguir esse prazer e
- 1:38:23diversão daquilo e fazer o sistema funcionar.
- 1:38:27Então eu acho que a consciência disso na mesa empoderam os
- 1:38:31jogadores, no sentido de eles poderem aceitar aquilo pelo que
- 1:38:35aquilo é, sabendo que aquilo não é tudo que existe, eles não têm
- 1:38:38que combater em todas as frontes, sabe?
- 1:38:40Porque você não... E eles podem buscar o que eles
- 1:38:44especificamente querem com outras pessoas que querem
- 1:38:47aquilo. Porque muitas vezes...
- 1:38:50Eu e você jogamos RPG muito tempo antes de jogar RPG online,
- 1:38:53isso é uma coisa comum. E eu não sei você, mas eu engoli
- 1:38:57muito sapo nessa vida pra jogar RPG, sabe?
- 1:39:02Era o que tinha na cidade que eu tinha, na época que eu tinha,
- 1:39:05entendeu? Era a opção segura que eu tinha
- 1:39:08pra fazer isso. Então eu aceitava coisas e
- 1:39:10jogava estilos de jogos que eu sabia que não era
- 1:39:14necessariamente tudo que eu queria.
- 1:39:18E sabendo o que eu queria e como falar sobre isso e negociar isso
- 1:39:23com as outras pessoas, a minha chance de conseguir encontrar
- 1:39:26pessoas que quisessem o mesmo e de conseguir me divertir nas
- 1:39:29mesas que não eram exatamente o que eu queria, aumentou.
- 1:39:34Você ganha controle sobre o RPG. Ele deixa de ser algo que
- 1:39:37acontece com você. E você passa a ser um
- 1:39:39participante ativo na sua experiência.
- 1:39:41Você não depende mais dos outros tanto assim.
- 1:39:44E você consegue ser... Os outros conseguem depender de
- 1:39:46você mais. Total.
- 1:39:49Eu ia falar de te dar um canal mais claro de expressão, mas aí
- 1:39:54a gente começa a entrar num tema que é RPG e arte, que eu sei que
- 1:39:57você gosta muito e demoraria mais três horas pra gente
- 1:40:01abordar. Então vamos ficando por aqui.
- 1:40:03Próxima vez. Maravilha.
- 1:40:08Cara, conta aí o que você tem aprontado.
- 1:40:09Eu sei que você tem aprontado um monte de coisa, editora, canal,
- 1:40:12um monte de coisa acontecendo. Conta pra galera, um dia que a
- 1:40:15galera encontra o teu trabalho, as tuas maquinações, as tuas
- 1:40:20elucubrações. Conta aí pra gente.
- 1:40:22Bom, a minha... A Raik fala sobre RPG e arte
- 1:40:26nasceu por causa do Farol do Leocônio, que é o meu canal no
- 1:40:29YouTube. Ele é um canal de ensaios sobre
- 1:40:33RPG e arte, de forma geral, e RPG como mídia.
- 1:40:40Eu estou numa temporada em que eu vou fazer pelo menos dez
- 1:40:43vídeos, então eu estou super feliz.
- 1:40:45Mas eles são vídeos complexos, né?
- 1:40:46Eles são bastante editados e eu faço tudo sozinha.
- 1:40:49Então, eu tô no terceiro episódio.
- 1:40:52E falamos sobre várias coisas no Farol.
- 1:40:54Sobre tipos diferentes de RPG, sobre livros, como você falou.
- 1:40:57Uma das coisas que o Farol faz é pegar livros que não são de RPG
- 1:41:00e falar sobre eles num contexto de RPG. por que esse livro
- 1:41:04funciona como referência de RPG sendo um livro de design sendo
- 1:41:08um livro sobre o próximo que eu vou avaliar é sobre tipo eventos
- 1:41:13inclusive RPG é uma atividade social E, acima de tudo, tem a
- 1:41:19Baldi Galáctica, que é uma estação espacial, também uma
- 1:41:22editora, que foi fundada por mim, pelo Lucas, que busca fazer
- 1:41:27RPG em PT-BR, RPGs diferentes, de uma forma geral.
- 1:41:31Claro que todo RPG é único, diferente e especial, mas a
- 1:41:35gente gosta que os nossos sejam um pouco mais esquisitinhos do
- 1:41:37que a média. Então, o nosso primeiro
- 1:41:39lançamento, agora já pro comecinho de dois mil e vinte e
- 1:41:43cinco, é a Nancy, o RPG de musical, De minha autoria, sim,
- 1:41:49você canta durante o jogo. Criar a sua filha de personagem
- 1:41:53é criar a trilha sonora do seu personagem, por exemplo.
- 1:41:58E ele é um jogo feito para one shot, com preparação zero, muito
- 1:42:04orientado à mecânica. Porém, a coisa que eu mais gosto
- 1:42:08dele, se eu posso falar como designer, é o quão sólida é a
- 1:42:11experiência. Porque eu testei esse jogo em
- 1:42:15Porto Alegre, em Curitiba, em São Paulo, com várias pessoas
- 1:42:18diferentes. E todas as vezes essas pessoas
- 1:42:21dramaticamente diferentes acabaram rendendo a mesma
- 1:42:25experiência. eu via a mesma cena diante de mim.
- 1:42:30Que eram as pessoas cantando, batendo na mesa.
- 1:42:33E sabe, tipo… E eu fiquei… Como designer, isso pra mim foi muito
- 1:42:38legal. Porque uma das questões do RPG é
- 1:42:40a replicabilidade, né. Como que a gente faz algo que
- 1:42:43tem tantas variáveis. Se quer ser coeso de uma mesa
- 1:42:47pra outra. Como que toda mesa de vampiros
- 1:42:48tá jogando vampiros? Todo mundo tá jogando de um
- 1:42:50jeito diferente. Entendeu?
- 1:42:52Então, a Nancy, RPG de musical. Primeiro lançamento da Baldi
- 1:42:56Galáctico. Tem outros dois pro segundo...
- 1:42:58Jogo pro primeiro semestre de dois mil e...
- 1:43:01Eu vou fazer essa frase de novo que eu me enganei.
- 1:43:03É... Tem três jogos que a Baldi vai
- 1:43:07lançar no primeiro semestre de dois mil e vinte e cinco.
- 1:43:10O primeiro é o Anansi, o RPG de musical.
- 1:43:12O segundo é do Rafa Reis, da Távola, que é contemporâneo
- 1:43:18sobre magia. E ele criou uma língua mágica
- 1:43:21própria, Baldi. Olha!
- 1:43:24Com alfabeto e regra. Que foda!
- 1:43:27E sabe como você faz magia nesse sistema?
- 1:43:31Você fala a sua língua, não, você fala, você fala, e tive
- 1:43:35quando, assim, e daí, e se você, jogador, escuta o outro falando,
- 1:43:41você consegue deduzir o que mais ele vai fazer, porque você está
- 1:43:44aprendendo a falar, sabe, você reconhece, então esse aspecto
- 1:43:48de... A gente falou muito sobre
- 1:43:49simulação. O objetivo do Rafa, como game
- 1:43:52designer, é justamente fazer você se sentir como algo.
- 1:43:55E neste jogo, ele se esforçou pra fazer você se sentir como um
- 1:43:58feiticeiro, como alguém que, sabe, não é o seu personagem,
- 1:44:01falando, fazendo gestos mágicos e falando, que é...
- 1:44:06Sei lá, eu nunca vi ninguém jogando D&D usando isso, sabe,
- 1:44:09tipo, cem por cento sério. Nunca.
- 1:44:11Nem nas mesas mais hardcore, assim.
- 1:44:13As pessoas simplesmente compravam ignorar componente
- 1:44:16material, ignorar componente verbal.
- 1:44:18Isso que é uma vida deles, assim.
- 1:44:20Mas não, nesse jogo, você monta a frase e você fala.
- 1:44:25E esse aspecto é muito legal. E o terceiro é um jogo sobre
- 1:44:30pirataria, que eu já vou adiantar aqui, dizendo que é o
- 1:44:33melhor jogo de RPG de pirataria que eu já vi.
- 1:44:36Esse não fui eu que fiz, então eu posso falar.
- 1:44:38É, e eu tô muito ansiosa pra mostrar pra vocês todos esses
- 1:44:41jogos novos. E é isso.
- 1:44:43É isso que eu tenho feito. RPG.
- 1:44:46Muito bom. É falado de RPG.
- 1:44:49Muito bom. Pô, Rai, só posso agradecer.
- 1:44:53E, bom, já já a gente grava de novo, porque eu vou ter mais
- 1:44:56convites pra você, então. Hum.
- 1:44:58Eu que agradeço, Balbi. Muito obrigada.
- 1:45:00Enchi a tua orelha durante um bom tempo.
- 1:45:03Muito obrigada por me ouvir. É um prazer.
- 1:45:05Tamo junto. Então, pessoal, é isso.
- 1:45:07Vamos pro encerramento. Mas antes, eu vou lembrar que eu
- 1:45:11vou deixar duas perguntas pra vocês responderem aí no nosso
- 1:45:17Spotify, né? Então eu vou primeiro perguntar
- 1:45:19pra vocês qual tipo de experiência você prefere em
- 1:45:22relação a essas duas que a Rai trouxe e deixar o espaço pra
- 1:45:26vocês comentarem aí de como você experiencia isso na sua mesa,
- 1:45:30né? Como é que é a tua experiência
- 1:45:31em mesa normalmente se puxa mais pra um ou pra outro?
- 1:45:36Valeu pessoal, concluindo aqui, vou deixar os links no
- 1:45:39descritivo do episódio para o Nomads RPG, citado pela Rai,
- 1:45:43para o trabalho do Luiz Cláudio Duarte, para o material
- 1:45:46Despreparado Nunca, também citado por ela, um link para o
- 1:45:51Harry Dry, também que ela citou. Vou deixar também os links para
- 1:45:56o Farol do Leocórnio e para o Balde Galáctico, que são
- 1:46:00respectivamente o canal de onde a Rai produz conteúdo e a
- 1:46:04editora que ela está lançando, que tem todos esses jogos que
- 1:46:06ela citou no episódio. No mais, lembrar que você pode
- 1:46:10se tornar um assinante e apoiar o Café com Dungeons.
- 1:46:13Se você quiser que a gente volte a ter cinco episódios por
- 1:46:17semana, ajuda a gente. Considere apoiar o projeto e a
- 1:46:20sua expansão lá no apoia.se. Barra Café com Dungeon, agora no
- 1:46:25início do mês é o melhor momento pra você apoiar, porque afinal
- 1:46:28de contas o teu apoio acaba pegando aí o mês inteiro, né?
- 1:46:33Bom, e também... lembrar que você pode deixar sua caixinha de
- 1:46:38Natal para a gente se você gostou especialmente do café de
- 1:46:41hoje manda sua corjeta lá para o nosso pixcafeacondungeon.com a
- 1:46:47gente conta com você se você tem uma empresa ou uma marca e quer
- 1:46:51ter um dia na semana no Café com Dungeon você pode financiar um
- 1:46:53episódio semanal no podcast da última temporada e fazer a
- 1:46:57alegria da massa RPGista consulta a gente lá no e-mail
- 1:47:01cafeacondungeon.com que a gente tem uma proposta especial para
- 1:47:04você Consulta também a gente aí sobre parcerias e anúncios, né?
- 1:47:08A gente trabalha não só com RPG, mas também com outras marcas de
- 1:47:11outros ramos, como por exemplo, cafés, jogos, alimentos,
- 1:47:16tecnologia, mídia, etc. Se você é um produtor de
- 1:47:20conteúdo, game designer independente, acadêmico ou fã e
- 1:47:23quer participar do nosso projeto, conta aí sobre você pra
- 1:47:26gente e fala a respeito de como a gente pode colaborar lá no
- 1:47:29e-mail. No mais, agradecer a galera que
- 1:47:32torna possível essa aventura. Obrigado ao pessoal que apoia
- 1:47:35com nível incentivo, incluindo o Enel e o Josaburo Suzuki.
- 1:47:39Valeu demais ao pessoal do nível de apoio comunidade, incluindo o
- 1:47:43Caio Palmas Fernandes, o Augusto Rickert e o Gustavo Murad.
- 1:47:47Um salve especial para os assinantes do nível RPG Dojo,
- 1:47:50dentre eles o Felipe Skosteg, O Rafael de Lima, o Pedro
- 1:47:55Obliziner, o Marcos Vinícius Ornelas e o Vinícius Caldas.
- 1:47:59Um abraço aos membros do treinamento Oil Fantasy.
- 1:48:02Então, Abílio Júnior, César Machado, Daniel Aydar, Diego
- 1:48:05Seixito, Douglas Baiense, Léo Gasparuto, Marcos Gonçalves,
- 1:48:09Matheus Pequeiro, Rafael Bardal, Bruno Cobb, João Burlamaque e
- 1:48:12Gui Providello. Um imenso agradecimento aos
- 1:48:15membros do Café com Balbi. No caso aqui ao membro Tiago
- 1:48:18Augusto. Vai um zaço, Tiago.
- 1:48:20Obrigado aí pelo apoio desde sempre, cara.
- 1:48:23Então é isso, pessoal. Espero que tenham curtido.
- 1:48:25Até a próxima.