Latest / Elas na Escrita / #25 O espaço da Poesia
Transcript
- 0:00Oi gente, estamos aqui com mais um episódio Elasna
- 0:03escrita, eu sou Tatiana Lazaroto e eu sou Isabela
- 0:06de Andrade. O nosso episódio de hoje é
- 0:10qual é o espaço atual da poesia e para conversar
- 0:13sobre isso a gente está com três poetas maravilhosas
- 0:16que aceitaram o nosso convite Aline Miranda, Marce
- 0:19Snyder e Thais Santana. Bem -vindas, obrigada por estarem
- 0:24aqui e a gente queria falar um pouco de poesia,
- 0:28a gente já estava, cacaricando, cacaricando, mas
- 0:31para começar eu queria que os nossos ouvintes e
- 0:35telespectadores, Chicks, conhecesse um pouco de
- 0:38vocês, então se vocês puderem se apresentar,
- 0:40contar um pouco do trabalho de vocês, na poesia, na
- 0:43escrita, enfim, fiquem à vontade. Quem
- 0:46vê começar. Pode começar? Olá,
- 0:51um bom dia, um prazer estar aqui com vocês hoje,
- 0:54um prazer conhecer vocês. Eu
- 0:56só sou a Thais Santana, sou poeta, sou escritora e
- 1:01atualmente mestranda em história, então o processo
- 1:05da minha escrita atualmente está voltado para o mundo
- 1:09acadêmico, eu estou pesquisando o candomblé, as
- 1:15lideranças femininas nesse candomblé, entendendo as
- 1:19relações de gênero e também de raça nesses espaços, sou
- 1:23uma mulher candomblicista, sou da periferia, venho lá
- 1:27do extremo leste de Guainazes e também atuo na
- 1:30poesia desde muito cedo, de forma profissional, acho que
- 1:36recente, dentro de seis, sete anos, conhecer a
- 1:40poesia mesmo da forma como faço hoje através do eslan,
- 1:45através dos movimentos artísticos de rua, dos
- 1:48movimentos negros, então estar aqui hoje e falar
- 1:53sobre essa traditória vai ser bem importante e ao
- 1:57decorrer da conversa eu dou mais detalhes, trago mais
- 2:01spoilers. Muito obrigada. Vamos,
- 2:08vamos eu. Eu sou a Mar, eu estou me
- 2:12sentindo quase uma outsider aqui da escrita, eu sou a
- 2:18Peuta, esquizonalista e o meu processo com a escrita
- 2:22acho que vem muito dessa criação mais subjetiva
- 2:27mesmo, pois é me acompanhando durante muito
- 2:30tempo como uma forma de sobreviver psiquicamente e
- 2:35com o tempo também de podendo afirmar algum lugar
- 2:38no mundo. Hoje em dia eu tenho um projeto
- 2:42que chama Coração Subversivo, que tem um
- 2:48grupo específico que chama Laboratório dos Sonhos, que
- 2:51a gente trabalha um pouco com escrita também através
- 2:53dos sonhos, mas com fotografia também com
- 2:57criação de modo geral, assim, então eu lancei esse
- 3:01ano o Y, do Grima de Partida pela Claraboya, que
- 3:05é o meu primeiro livro de poemas e agora sigo nessa
- 3:10investigação aí, de onde a criação pode me levar. Um
- 3:14pouco isso, obrigado pelo convite, feliz de estar
- 3:16aqui com vocês. Muito mais. Oi,
- 3:23bom estar aqui com vocês também, nesse lugar que é
- 3:26tão bonito no meio do cidade, com tanta
- 3:29diversidade, tanta informação, a gente chega
- 3:31de repente, depois do carro do rossel, acho que a
- 3:35biblioteca é maravilhosa, porque é muito bom.
- 3:37Lembrando que a gente fica na
- 3:38biblioteca dentro do parque, gente, a gente vem andando
- 3:40pelo parque Vila Lobos, assim, parece que a gente
- 3:42entrou num cantinho separado da cidade. Um
- 3:44sol assim, bem forte, né? 32
- 3:48graus em São Paulo hoje. Então
- 3:50aqui está uma delicinha assim, meu nome é Aline
- 3:53Miranda, eu tenho 39 anos e sou do Rio de Janeiro,
- 3:59então se tiver um chiado aí, mas sou do interior do
- 4:03Rio, mas fiquei 10 anos morando no Rio. Na
- 4:07pandemia, eu me mudei para a Serra, então eu virei
- 4:09uma sapatão do mato, eu acho que eu ia fazer isso
- 4:12com 60 anos, então eu tive dois anos nessa experiência
- 4:15e foi muito bom. E aí em janeiro vim para São
- 4:18Paulo, então estou aqui, tem várias pessoas que eu
- 4:22conheço da poesia que estão morando em São Paulo, já
- 4:24há um tempo, e aí tem os espaços maravilhosos, tem
- 4:27muita vida cultural, muita vida poética, isso me atrai
- 4:31muito na cidade, esses encontros. Mas
- 4:33estamos aí, fazendo as amizades aos poucos somente,
- 4:35percebi que é um pouco mais difícil do que no
- 4:37Rio, sabe? Mas a poesia sempre é vindo
- 4:40portas, então fico muito feliz. Sou
- 4:43poeta, revisora, e falar, sou editora, fui editora,
- 4:47mas também está aí na minha experiência, na minha
- 4:49jornada, depois eu vou contar mais um pouquinho.
- 4:52Agora estou como livreira também,
- 4:54que é uma outra forma de estar com a saúde mental
- 4:57financeira em dia, e estar perto dos livros, então
- 5:00estou muito mais perto das coisas que estão
- 5:02acontecendo, em todas as áreas e percebendo como a
- 5:05poesia dentro desses espaços também é super. Não
- 5:10tem um titaque que tem na minha vida, mas é isso, e
- 5:13a gente vai conversando mais, que ainda estou
- 5:15chegando. Então, aos pouquinhos a gente vai
- 5:17chegando. E para quem está assistindo a
- 5:20gente pelo vídeo, e para quem está só ouvindo, eu
- 5:22vou contar que a gente está acompanhada de vários
- 5:24livros aqui, tanto das nossas convidadas, mas
- 5:27também em referências, e que teve participação também
- 5:31das nossas convidadas. Então,
- 5:34estamos muito bem acompanhadas aqui. Inclusive,
- 5:37estamos com a Coletânia, vou começar fazendo um
- 5:39lurchand, com a Coletânia e imagens de coragem, que a
- 5:42Issa organizamos e lançamos na Flipe recentemente.
- 5:47Também temos poetas que escreveram
- 5:49contos aqui, são contos sobre coragem, pela editora
- 5:53Patoa. E depois a gente vai contar
- 5:55um pouco mais esses livros que estão aqui, porque eles
- 5:57estão aqui, com a relação nossa com eles. E
- 6:01eu acho que para começar, o título desse episódio,
- 6:06qual é o espaço atual da poesia? E
- 6:08a gente sempre fala que essas perguntas não são
- 6:10para serem necessariamente respondidas, mas para serem
- 6:12refletidas, para a gente pensar um pouco sobre elas.
- 6:16E eu queria começar entendendo
- 6:18com vocês qual é o espaço atual da poesia. E
- 6:20eu estou falando, a gente está falando de tudo, tanto
- 6:23de território como de premiações, a gente acabou
- 6:25de falar antes de começar. Eu
- 6:29até estava vendo, hoje de manhã, a gente acabou de
- 6:31passar pelo resultado do Jabuti, essa semana, e o
- 6:36Jabuti, que é a maior premiação literária, nos
- 6:39últimos quatro anos, três livros do ano, que a maior
- 6:42premiação dentro do Jabuti, foram de poesia. E
- 6:46ontem, não, a gente, ontem, a gente... Enfim,
- 6:52alguns dias antes da gravação. Mas
- 6:56aí, na última premiação, a gente teve um autor
- 7:00premiado, que é o Fabrício Corsalelli, e a gente
- 7:03estava conversando um pouco sobre isso também, antes de
- 7:05começar. E aí, eu queria lançar essa
- 7:07pergunta para vocês sobre o espaço atual da poesia,
- 7:10tanto na trajetória de vocês, e como vocês como
- 7:13leitoras de poesia também enxergam. Acho
- 7:16que a gente pode até passar pela tanto
- 7:18visibilidade, quanto à experiência cotidiana, a
- 7:20Tati falou de prêmios, mas em, talvez, um espaço em
- 7:23editora, um espaço nesse dia a dia, como tem sido
- 7:25a cena. A gente tem uma representante
- 7:27do Islã, que eu acho que é o que a gente tem
- 7:29demais, novo e representativo da poesia,
- 7:33mas queria entender também que outros espaços a gente
- 7:36tem. Mas, para o Vinte, a gente
- 7:37podia ver um pouquinho mais... Podemos,
- 7:39podemos, mas pode começar para você. Nossa
- 7:43livreira. Um lado que tem poderoso. Pode
- 7:47ser. Quanto para as prasileiras? Não
- 7:50é tão grande, mas tem um destaque bonito, assim, é
- 7:53separado poesia e poesia brasileira. Poesia
- 7:56está tudo, espremidinha em uma estante, com várias
- 7:59prasileiras, e a poesia brasileira tem duas
- 8:02estantes. Então, esses dias eu peguei
- 8:04para... É uma livraria que, fim de
- 8:07si a gente pode falar os nomes assim, mas em
- 8:09forma... A livraria é ótima, atravessa,
- 8:12que é maravilhosa, só que é que eu trabalho dentro
- 8:14de um shopping. Então, tem esses dois tipos de
- 8:17público, o público que frequenta atravessa, que
- 8:18gosta desse ambiente, e é um ambiente maravilhoso,
- 8:20muito espaço para sentar e apreciar, né? Muita
- 8:25gente passa horas ali, mas também tem esse público de
- 8:27shopping, shopping vilalobos, que é diferente, né? Então,
- 8:32é essa semana, por exemplo, eu até compartilhei com
- 8:35algumas pessoas isso, que eu atendi uma mulher, uma
- 8:39mulher mais velha, tinha 72 anos, uma mulher branca,
- 8:44tem as características delas, se inscrever um
- 8:46livro sobre Paris e tal, foi correspondente de um
- 8:48jornal, a gente estava conversando, ela queria
- 8:50indicação de livros para dar de presente, que agora
- 8:52está perto, não, né? Estamos
- 8:54em dezembro, então tem essa demanda. E
- 8:57aí eu conversando, estava podendo atender com
- 9:00qualidade, eu fiquei lá, por que não poesia ela?
- 9:03Ah, poesia não, é não que ela
- 9:05falou isso. Muita gente, eu falei, não sabe
- 9:08nada da minha vida, como é que é? Então,
- 9:10gente, mas por que, né? Tentando
- 9:14dialogar, a gente conversou um pouco, mas ela falou
- 9:16assim, ah, é porque tem tempo, né, para a gente
- 9:19ler poesia na vida, tem hora que está podendo mais,
- 9:22aberto ou não, eu falei, olha, o que eu mais leio
- 9:25na vida é poesia, então assim, nunca deixei de ler
- 9:28poesia lá, não, mas eu até, aí eu falei, cara,
- 9:31poeta, ela não, até, na minha cabeceira, eu tinha
- 9:34que ver poesia, tem Fernando Pessoa e assim, já
- 9:36tinha. Fernando Pessoa, assim, nada contra,
- 9:40né, mas... Até tem amigos poetas. É
- 9:43isso, assim, tem, ah, tem assim, um, elei poesia, ou
- 9:46Fernando Pessoa, foi, pô, né, nem um drumom, né,
- 9:48pelo menos, não, mas a gente ficou ali conversando,
- 9:52ela ficou falando, enfim, perguntou, é, você devia
- 9:54fazer faculdade de letras, falei, eu já fiz, ela,
- 9:57você devia fazer mestrado, falei, eu já fiz, eu tenho
- 10:0039 anos, devia fazer doutorado, falei, eu quero,
- 10:03para a sua palta, para isso, calma, não, ela
- 10:05tentando... Que vira, depois dos outros.
- 10:07...aposar os poetas, né, você fez letras, eu falei,
- 10:09é, combina com letras, e eu, obrigada, tio. Mas
- 10:14eu fiquei pensando um pouco isso, assim, dessa, fiquei
- 10:17com isso na cabeça, pensando na poesia, e aí
- 10:20depois, estava tendo a premiação, né, do jabutinho,
- 10:23eu falei, não, depois que eu terminar meu frio,
- 10:25depois do trabalho, vou assistir a live. E
- 10:28aí já tinha visto uns spoilers, spoilers, é, num
- 10:32grupo do WhatsApp de livreiros, assim, que
- 10:34falaram assim, ah, vai ter o jabutinho hoje, olha, que
- 10:36legal, então, tudo bem, está nesse grupo do
- 10:38WhatsApp, e de repente, um cara, que eu nem sei quem
- 10:40é, mandou, assim, eu, como se fosse o livro do ano,
- 10:44e era o romance, é, primeiro, né, que chonei,
- 10:46falei, nossa, que ano é hoje. E
- 10:48aí depois, achei que era esse que tinha ganhado,
- 10:50assim, e aí quando eu fui assistir a premiação, falei,
- 10:52não, foi um livro de poesia, que foi o livro do
- 10:54ano mesmo, assim, é o romance, que tem um
- 10:57destaque, então, eu fiquei um pouco chocada, depois de
- 11:01um dia seguinte, comentei com os amigos, aí fui
- 11:03hablar nos stories, que tinha um tempo que eu não
- 11:05falava, assim, no Instagram, meio... enfim,
- 11:08que stories, né, com redes sociais, às vezes, mas aí
- 11:11tiveram umas pessoas que dialogaram comigo, então,
- 11:14uma amiga comentou assim, nossa, eu lei tanta poesia,
- 11:17que eu falei, a poesia é tão plural, né, o espaço
- 11:20da poesia, ele é diverso, assim, eu lembro que eu ia
- 11:22muito nos Landesminas, lá no Rio, conheci muita
- 11:25poeta, e falar uma palavra, muita poeta maravilhosa,
- 11:30assim, gente, que a gente fica acompanhando e vendo,
- 11:32assim, que são atrizes também, era um espaço
- 11:34maravilhoso, frequentava, enfim, é muita coisa que
- 11:38acontece na poesia, e eu até comentei com essa
- 11:40cliente, eu falei assim, olha, mas poesia tem tanta
- 11:44coisa, né, tem poesia que fala de assassinato, tem
- 11:46poesia que fala de amorzinho, tem poesia que é
- 11:49gente mais nova, escrevendo gente mais velha, sei lá,
- 11:52tanta possibilidade, e fiquei meio assim, então,
- 11:55acho que a poesia tá afastada das pessoas, aí
- 11:58vou percebendo que agora, trabalhando, né, sem ser os
- 12:02frilas que eu fazia, né, os projetos, acho que você
- 12:05pega um projeto editorial, fora da bolha é diferente,
- 12:09assim, eu leio poetas, eu vou a... eventos
- 12:13de poetas, tenho amigas poetas, então, pra mim,
- 12:16é... é como ouvir música, né, e
- 12:19tem um livro novo da Zé Leaduncan, que ela fala
- 12:21muito sobre poesia e música, poesia e música,
- 12:24fico, gente, como que é um país desse, que é
- 12:26totalmente musical, invade as rádios, e não ler
- 12:30poesia? Eu fiquei pensando um pouco
- 12:32quando você falou da senhora na livra, que
- 12:33talvez a gente tem... muita gente tem esse afastamento
- 12:35com a poesia, não sei se achar que é mais difícil,
- 12:38achar que não vai entender, que não vai acessar, que
- 12:41não sei qual é a percepção de vocês, parece que às
- 12:43vezes essa sensação desse leitor, que tá vindo ali
- 12:45às vezes de curioso, tá passando no shopping, vai
- 12:48entrar na livraria pra conhecer, a gente já tem
- 12:50um afastamento em relação à livre literatura, né, que é
- 12:52esse espaço que, ai não, talvez esse é mais difícil,
- 12:54fora das nossas bolhas, e vocês acham que com a
- 12:57poesia isso, às vezes, é mais presente, não sei, por
- 13:00uma falta de costume mesmo, de leitura das pessoas,
- 13:04terem um pouco esse afastamento, ainda falando
- 13:06sobre o espaço da poesia, né? Que
- 13:09a gente queria ouvir a opinião de vocês. Eu
- 13:13acho que em algum aspecto a poesia é mais difícil
- 13:15mesmo, né, e não na dificuldade em si, porque
- 13:20tem diversas formas de compor um poema, né, compor
- 13:24música escrita. Eu acho que a poesia talvez
- 13:29seja mais difícil, porque não necessariamente uma
- 13:31coisa significa outra, né? Tem
- 13:34uma poli -semia ali, uma palavra que abre mundos,
- 13:38né, camadas, texturas, que não necessariamente vai
- 13:42ser... Não que um romance não possa
- 13:45ter isso, mas essa parece que é a matéria -prima da
- 13:47poesia, né? Trabalhar com a unidade, palavra e
- 13:51todos os campos que se abrem a partir daí, né? Eu
- 13:56confesso pra vocês que eu me interesso mais, assim,
- 14:00em pensar o espaço da poesia quando eu estou
- 14:02dentro de um vagão de trem, vindo pra cá e tive
- 14:06um pouco essa experiência, né? Que
- 14:08que as pessoas estão lendo, né, de ir fuçando ali? Que
- 14:12que as pessoas estão carregando com elas, né?
- 14:15Porque eu acho que é um gesto
- 14:16que eu faço muito, né? Eu vim com um livro de poesia
- 14:18na bolsa, né? E no vagão apertado, tinha
- 14:23que escolher se eu ia pegar a minha garrafinha de
- 14:25água, ou o livro de poesia, e aí fui medindo
- 14:28ali a sede e falei, bom, acho que eu vou pegar o
- 14:31livro de poesia, então. E eu acho que é uma
- 14:34possibilidade, né, de sair do lugar onde você está, e
- 14:38ao mesmo tempo se aprofundar na experiência
- 14:41que você está vivendo, que primeiro nenhuma garrafa d
- 14:44'água vai dar, e segundo que talvez o romance
- 14:48convide pra outro lugar, né? Então,
- 14:50eu gosto de pensar um pouco isso, assim, menos
- 14:53dentro dos circuitos, e mais quem tem acesso à
- 14:57poesia, né? Quem tem a oportunidade de ler,
- 15:00né? A possibilidade de ter um
- 15:02livro entre as mãos, né? Se
- 15:03isso vai reverberar em prêmio, ou esses circuitos
- 15:08especializados, enfim. Eu acho que tem o seu lugar
- 15:12também, mas a chance das pessoas terem um livro
- 15:15entre as mãos, eu acho que ainda me comove mais em
- 15:18pensar isso, assim, né? E eu gosto muito dessa
- 15:22experiência também de trazer um livro em movimento, em
- 15:26trânsito, porque eu acho que a poesia tem essa
- 15:28questão oracular também, né? De
- 15:30você, é claro que um livro pensado, né? Um
- 15:33livro de poesia pra mim também conta uma história,
- 15:36ele tem uma estrutura pensada, mas ele também,
- 15:39tipo, possibilita abrir em qualquer página e ler
- 15:43aquilo, né? Que às vezes é um poema que
- 15:46te toca mais, um verso que te toca mais. Mas
- 15:48também pensar a poesia fora dos livros, né? Que
- 15:51a gente tá falando muito em livros, mas também tem
- 15:53a poesia que tá sendo feita na internet, também
- 15:55tá sendo feita nos eslanos e nos sarals, né? Eu
- 15:59acho que também esse outro espaço, né? E
- 16:02aí eu venho pensando nesses outros espaços, a poesia
- 16:05até cheia de mais do que o romance, o conto, outras
- 16:09formas de escrita, porque ela tá mais nessa
- 16:11oralidade, nesse cotidiano, então talvez ela transite
- 16:15mais por esses espaços, né, fora do livro. Ela
- 16:17é mais dinâmica nesse sentido, né? Sim,
- 16:20eu acho que se tratando de Brasil, e aí a Thaís
- 16:22historiadora, quando a gente olha as estatísticas de
- 16:28leitura mesmo, né, nós somos a população que menos
- 16:31lê, e isso tem influência direta no contato dessa
- 16:36população com os livros, como a Mar mencionou, quem
- 16:40são as pessoas que estão tendo contato com leitura,
- 16:43quanto custa um livro de poesia hoje na livraria,
- 16:46qual a média de valores. E aí eu posso trazer a minha
- 16:50experiência de uma mulher que vem da periferia que
- 16:54teve acesso à poesia na escola, muito nova, mas é
- 16:59isso, Fernando Pessoa, começando essas leituras e
- 17:04não me identificando tanto, mas me identificando com o
- 17:06processo criativo da escrita, com esse exercício
- 17:12de botar para fora através da poesia. E
- 17:16aí não me vendo nessas vivências, não me vendo
- 17:19nessas leituras, eu meio que dei uma afastada,
- 17:23porque é isso. Eu estou lendo só esses
- 17:26romances que não me cabem, que eu não me enxergo,
- 17:29então talvez não seja por aí. E
- 17:31mais para frente, conhecendo o movimento de Islam,
- 17:34conhecendo poesia de luta, sair desse lugar de que
- 17:39poesia é romantizado, que poesia é Shakespeare. Quando
- 17:43eu comecei a me dizer poeta, as pessoas ficavam
- 17:47que lindos. Que lindo, que bonito, mas eu
- 17:51nem falei do que eu escrevo, escrevo sobre luta,
- 17:53eu escrevo sobre racismo, sobre misoginias, sobre
- 17:57depressão, sobre ansiedade, sobre o espelho que a
- 18:03pessoa onde habita em mim e também nas quebradas é o
- 18:09que eu busco trazer nas poesias. E
- 18:13aí poetizando, eu acho que pensar em lugar da poesia
- 18:16talvez nos leve a pensar em lugar do poeta, onde
- 18:21quem são esses poetas? Eu enquanto uma pessoa, uma
- 18:25mulher preta, eu tenho como referência conceição
- 18:28evaristo, que depois do 70 vem exercendo como a estria
- 18:32sua escrita, tem quarto de despejo com Corulina de
- 18:37Jesus. Então pensar o lugar do poeta,
- 18:41espaço geográfico mesmo, no sentido de essas pessoas
- 18:46terem o livro como arma, e muitas vezes não tem o
- 18:49livro, como essas pessoas vão se dizer, vão se
- 18:53colocar, vão transparar a poesia. Eu
- 18:59ainda não tenho o livro publicado, então o meu
- 19:02ambiente, o meu lugar da poesia está nas redes
- 19:04sociais e está nas ruas. Então
- 19:07acho que são diferentes formas e pensar a poesia
- 19:11também para além do livro, acredito que a poesia está
- 19:14na fotografia, a poesia está no canto, a poesia
- 19:18está nesse céu azul incrível hoje no carrossel
- 19:21que a gente passou. Então eu fico pensando muito no
- 19:26contrário, pensar o espaço do poeta para além do
- 19:30espaço da poesia que ela é erudita, ela é periférica,
- 19:35ela é diversa a todo momento e mutável também,
- 19:39flexível a todo momento. Acho
- 19:40muito legal você trazer isso da gente não se
- 19:42reduzir ao espaço do livro, principalmente esse espaço
- 19:45de circulação mais cotidiano, e eu não sei se
- 19:48aproveitando que a palavra está com você, mas eu
- 19:49queria voltar um pouquinho para o Islã. Acho
- 19:51que quando a gente pensa em movimentos literários e
- 19:54poéticos e de inscritos, a gente diz que a gente tem
- 19:56mais novo e potente ao Islã, se você puder contar
- 19:59um pouquinho para a gente como foi sua chegada lá,
- 20:01como é a experiência, talvez essa experiência
- 20:03inclusive entre o poeta e quem escuta, quem recebe,
- 20:07acho que é muito diferente da experiência de quem vai
- 20:09ler, por exemplo. Muito, muito diferente. Foi
- 20:12uma transição bem significativa. Como
- 20:14eu mencionei, eu comecei a escrever muito nova, então
- 20:17na escola tive a Matera de Literatura, mas antes da
- 20:23escola eu fui uma criança que tinha diários, fui
- 20:26filha única por 14 anos e aí escrevi bastante diário,
- 20:30tinha o hábito da escrita, na escola conheci a
- 20:33literatura e aí é nem, tem que ler os clássicos da
- 20:36literatura, e isso me afastou tanto porque mais
- 20:40uma vez não é a minha vivência, eu não me enxergo
- 20:43nisso, o que esse pessoal está falando aqui. Então
- 20:48me desprendeu um pouco e aí quando eu chego na rua,
- 20:52nos movimentos de Islã, aí eu me enxergo nas falas,
- 20:57nos versos, nas vivências, na minha identificação, mil,
- 21:01onde eu entendo que o áudio não precisa escrever
- 21:06de romance. Afinal, eu não tinha nenhum
- 21:09reportório, não sei se tem hoje também, mas é o
- 21:14momento que eu vejo que a poesia realmente é mutável,
- 21:18eu não escrevo somente sobre um amor, um amor
- 21:22compreendido, como o Fernando Pessoa está lá bem
- 21:25vendido. E aí nesse processo de
- 21:28identificação, eu consegui destravar um skin do poeta
- 21:35de luta, o poeta marginal, o poeta periférico, que até
- 21:40então eu não havia tido contado e não sabia que
- 21:42existia. E o Islã é totalmente essa
- 21:46vivência empírica mesmo do ser, e muitas vezes do ser
- 21:50periférico, do ser preto, do ser mulher, essas
- 21:53minúcias que no Brasil fazem total diferença nos
- 21:57nossos atravessamentos, nas nossas experiências. E
- 22:01no Islã, com a experiência de troca, de comunidade, o
- 22:06Islã para quem não conhece é um movimento de disputas,
- 22:12de poesia, onde a gente se une no marena e aí tem
- 22:17toda essa connotação de disputa a prêmio, e aí
- 22:22rola dinheiro, rola livros, então a gente vai motivado
- 22:27a ganhar. Para ganhar batalha, exato. Mas
- 22:32para além, como você perguntou, para além da
- 22:35batalha em si, é totalmente essa troca de identificação.
- 22:39Então ali no momento onde eu
- 22:41estava ouvindo e me enxergando naquelas falas,
- 22:46foi o momento em que eu despertei para uma nova
- 22:50escrita. Então a partir daquele momento,
- 22:52eu já podia dizer que eu era poeta porque eu não
- 22:55falava, eu escrevi umas coisas, mas não sabia dar
- 22:59nome a essas coisas, porque não era um romance, porque
- 23:02não era nada romantizado mesmo, eram dores, eram
- 23:08lutas, eram questões que eu ainda estava nomeando,
- 23:12passando por um letramento racial. E
- 23:14aí no Islã, falei o Al, eu noto sozinha, realmente
- 23:18tem gente falando sobre o que eu vivo, então é um
- 23:22movimento importantíssimo que une esse estilo de escrita.
- 23:28E até de performance também,
- 23:31acredito que é muito diferente poetizar outras
- 23:36formas de escritos quando a gente está lá no fervo, na
- 23:41disputa e trazendo as nossas experiências reais. É
- 23:45muito vivo. Totalmente, é tali, então não tem
- 23:50muito que decorar o que trazer, o que florear,
- 23:52porque é a nossa vivência. Eu
- 23:55acho interessante isso que você traz, porque muitas
- 23:59mulheres escrevem umas coisinhas, escrevem os
- 24:02diários. Eu falo bastante sobre isso
- 24:06porque nesse coletivo que eu estudei no mestrado,
- 24:16inclusive, uma mulher lê um texto seu em voz alta e
- 24:18muitas chegam em coletivas, como esse que eu estudei e
- 24:21outros, também que eu tive a oportunidade de visitar e
- 24:24dizem que a primeira vez estão lendo um texto seu
- 24:26em voz alta, estão assumindo aquela escrita.
- 24:29Então é claro que no Islã tem
- 24:30essa questão da performance do corpo e isso faz parte
- 24:34da batalha, mas às vezes não será, ou numa roda,
- 24:38essa mulher está lendo o seu texto e isso a
- 24:40encoraja a seguir em frente, porque é a primeira
- 24:43vez que ela mesmo está lendo um texto seu e que
- 24:45às vezes no escrito isso, enfim, se perde. Muitas
- 24:51assumem a coragem de se assumir escritores depois
- 24:53desse processo de se ler, de ler um texto em voz
- 24:56alta. Então achei bem interessante.
- 24:59Fiquei pensando, eu não sou poeta,
- 25:00né? Eu não sou poeta, mas foi um
- 25:02episódio para ouvir muito. É
- 25:05uma das coisas mais presentes aqui nos episódios
- 25:07que a gente tem gravado. Se
- 25:08eu olhei para a Tati na hora, todas as mulheres
- 25:10falam, falam desse momento quando tiveram coragem de
- 25:13falar isso, porque ela trouxe sua escritora, antes
- 25:15era sempre escrever umas coisas, umas coisinhas. Umas
- 25:18coisinhas. E eu fiquei pensando na minha
- 25:20experiência com leitura, além da escola, que trazia
- 25:24isso de uma forma mediada, às vezes não muito, eu fui
- 25:28uma leitora de bibliotecas, então ia muito nas
- 25:30bibliotecas e tal, e não tinha uma mediação, tinha a
- 25:33pobre da bibliotecária lá, mariza um beijo, um beijo,
- 25:36um beijo de ver. Mas ela não mediava minha
- 25:39leitura, então eu buscava os livros e ia buscando.
- 25:41E, gente, eu tive obsessões
- 25:43literárias na minha infância, adolescência. Eu
- 25:45era muito louca pelo Vinícius de Moraes. Muito
- 25:48louca, eu sabia todos os sonetos de cor. E
- 25:52eu fiquei pensando o quanto ter me visto como objeto
- 25:56de um amor, porque como a mulher é retratada nesse
- 26:01sonetos, é um objeto de um amor incompreendido,
- 26:05consumado, enfim, mas ela é esse objeto. E
- 26:08eu não li a Poeta as Mulheres, ou porque não
- 26:10tinha, eu tô falando de uma pequena cidade no
- 26:12interior do sul do Brasil, eu sempre falava quando era
- 26:14criança pequena, lá em São Lourenço, porque era
- 26:17realmente um lugar muito pequeno, uma biblioteca que
- 26:20tinha pouco recurso, mas era o que eu tinha acesso.
- 26:24E o quanto me ver depois,
- 26:25leitora de mulheres, me fez talvez também ter me
- 26:29assumido, que você falou, se identificar com pessoas
- 26:32que estão fazendo, que estão escrevendo. E
- 26:35aí, queria aproveitar e perguntar para vocês sobre
- 26:37as referências, mulheres, poetas que vocês leem, que
- 26:41são importantes para vocês, que vocês trouxeram aqui.
- 26:44Se vocês querem falar um pouco
- 26:45sobre isso. Eu posso seguir para finalizar
- 26:48minha fala e vocês seguem? Eu
- 26:52vou indicar as minhas queridíssimas próximas. Tila
- 26:58Fernandes, poesia, Poeta Marginal, da Alfarra também,
- 27:02que é do Rio de Janeiro, tem Asmín Gabriely, de
- 27:05Osasco, e tem Matriarca também, que é do movimento
- 27:09de Islam, e são as mulheres periféricas que eu
- 27:12mais acompanho. E aí, para além dessas, temos
- 27:17a gigante conceição varista, que já mencionei, que é a
- 27:22mulher que eu venho seguindo a risca, muitas
- 27:24leituras, Nina Rodrigues também, revisitando alguns
- 27:29escritos, e essa é minha contribuição de hoje para
- 27:35vocês. Leiam muito. E
- 27:38mais do que referências, eu queria também entender se
- 27:40vocês, lendo essas mulheres, tiveram esse processo de
- 27:44identificação e de... Influência.
- 27:46É, de influência. Só comentando o que você
- 27:52disse, Tática, achei muito interessante, desse lugar de
- 27:56ser um objeto de amor num poema. E
- 27:59como isso, de alguma forma, parece que vai construindo
- 28:02a subjetividade, das pessoas socializadas com mulheres,
- 28:06em que o lugar do sujeito, ele parece que não está
- 28:10dado de entemão. Você tem que inaugurar esse
- 28:13lugar, onde é você que deseja, onde é você que
- 28:15pode dizer, onde você que vai ter um objeto de amor,
- 28:19né, também. Então, eu lembrei de um livro da
- 28:23Maria Rita Kell, que chama Deslocamentos do Feminino,
- 28:27em que ela... ela tira uma onda, para mim
- 28:30ela tira uma onda. Do Freud, assim, enquanto ele
- 28:33vai descrevendo, né, assim, a pergunta, dá para os
- 28:35canales na época, né, mas essas mulheres, esses seres
- 28:38tão misteriosos, o que será que elas desejam, o que
- 28:41será que elas pensam? E aí ela vai meio que
- 28:44tecendo esse panorama histórico do que estava
- 28:46acontecendo com as mulheres naquele momento, né, que
- 28:48não podiam publicar, escrever. Muitas
- 28:50vezes se relacionavam com homens que eram escritores
- 28:54para poder viver, de alguma forma, em paralelo a esse
- 28:58sonho, né, enfim. Ou trabalhando ali, às vezes,
- 29:02escreviam e tinham também seus livros roubados, né,
- 29:05enfim. É só como me afetou, assim,
- 29:09essa sua fala. A poesia atravessou muito o
- 29:13meu processo formativo, assim, e agora pensando
- 29:16sobre isso, né, também só consigo lembrar das últimas
- 29:18coisas que eu li, porque parece que elas estão tão
- 29:20mais presentes, né. Por isso que eu trouxe o livro
- 29:23da Carolina Bataille para cá, que é o que achei,
- 29:27que é o que a nossa amiga fez, de alguma forma, uma
- 29:29ponte também, né, Tati. Eu acabei... Se
- 29:33você fazer um parêntese, eu mandei uma mensagem para
- 29:35ela, você acha que a Mara Cê está participado do
- 29:37nosso podcast? A Gela, com certeza! Ele
- 29:40está lá! Eu acabei de ler também um
- 29:47livro das minhas companheiras de editora,
- 29:49ali, para a queda do Sclarubóia, né. Lies
- 29:52Romero, Máthria, fiquei muito afetado por esse
- 29:56livro, né, da Ju, também em Judifaria, que talvez
- 30:01isso não tenha sido meu ano, alguma coisa assim.
- 30:06Que eu acho que são, na
- 30:07verdade, assim, as pessoas que... Com
- 30:10quem a gente também vai tramando através da poesia,
- 30:13né. Eu acho que ter publicado
- 30:16também, abriu a possibilidade de conhecer
- 30:18muita gente, muitas outras mulheres e pessoas
- 30:21escritoras, né, que foi abrindo um pouco esse campo
- 30:26afetivo, né. É muito legal ler alguém que
- 30:28você conhece, né. É uma experiência de
- 30:31intimidade muito bonita, né. Você
- 30:33conhece aquela pessoa e de repente você vê ela
- 30:35revelada num livro, né. Eu acho isso lindo. E
- 30:40também, enfim, Ana Martins Marx, a chama maravilhosa,
- 30:43mergulhei nos livros dela nos últimos anos. Enfim,
- 30:51Karola Savedra também, que não é poesia, mas em
- 30:55alguma medida também tem muita poesia, né. Acho
- 30:59que é um tipo de romance que também convoca, né,
- 31:03para esse tipo de coisa. Reli
- 31:05também nos últimos tempos Adriene Ritch, que também
- 31:08afetou de volta, assim, paixões da licência e tudo
- 31:12mais. Enfim, acho que é um pouquinho de
- 31:15como está circulando a coisa por aqui. A
- 31:17gente aproveita, vai anotando aí no bloquinho,
- 31:20de notas, tem várias indicações. Estou
- 31:25aqui ouvindo e pensando em um monte de coisa, né.
- 31:27Pensando em isso da biblioteca, de
- 31:30cidade pequena, ou de escola, como abre para a
- 31:34gente. Para mim foi muito isso, criança
- 31:36tendo contato em biblioteca da escola que eu estudava.
- 31:41E minha mãe é professora de
- 31:43português, então assim, meu pai é muito leitor também,
- 31:45então sempre teve muito livro em casa, né. E
- 31:48eu lembro que eu li, ou estou aquilo, da Cecilia
- 31:51Meirelles. E aí era uma poesia que era
- 31:54isso, era uma mulher, mas eu nem tinha noção, né.
- 31:56Depois eu vi que eu fiquei muito
- 31:57tempo lendo só homens, né. Por
- 31:59isso que quando eu vi. A gente sempre leva esse
- 32:01susto em algum momento. É muito estranho, né. Mas
- 32:04me sinto já até um pouco calejada, assim, de... Tem
- 32:08tanto tempo que eu só leio mulheres, que quando eu vi
- 32:12o prêmio de poesia do Jabuti, eu fiquei assim,
- 32:15cara, será que eu estou precisando ler mais homens?
- 32:18Mas é uma piada, assim. Eu
- 32:20fiquei assim, não, vamos ver, qual é a minha amiga,
- 32:23que é professora, lá em Niterói, ela até falou
- 32:24assim, se você for ler um homem negro, um homem
- 32:27indígena, um homem... Tenta alguma outra diversidade, um
- 32:30homem trans, né. Aí eu falei, não, mas eu
- 32:32estava brincando, tá, amiga. Mas
- 32:35assim, curiosidade, né, vamos ver o que tem aí
- 32:37de... Enfim, mas eu lembro que foi
- 32:41isso, assim, quando eu ler Cecília Meirelles e falasse,
- 32:44nossa, essa poesia aqui, sei lá, tem a ver comigo.
- 32:48E aí, sempre tinha uma frase
- 32:49dela, que chamou motivo, poema, que ela fala, não
- 32:52sou alegre nem sou triste, sou poeta. Eu
- 32:55falei, ai, sou o que eu sou. Mas
- 32:58isso era internamente, né, porque para isso, né, que
- 33:02você falou de se assumir poeta, eu lembro que eu
- 33:05escrevi um texto para o... Eu
- 33:07acho que ainda está lá, do mídio, né, que é um site,
- 33:10do Mulheres que escrevem, que chama, das vezes que
- 33:14sai do armário. E aí, eu me entendi como
- 33:18lésbica, como sapatão, muito antes de me assumir como
- 33:23poeta, assim. Então, é muito doido como que
- 33:25isso é um peso, como se a gente falar assim, como é
- 33:29que eu vou dizer que sou poeta, o que que eu sou?
- 33:32Você tem que se identificar,
- 33:34realmente, você lendo só um monte de caras que falam,
- 33:38né, essa coisa do desejo, eu fiquei, nossa, isso tem
- 33:40muito a ver com o material que eu trouxe aqui, porque
- 33:43eu escrevi poema, com 9 anos, que eu lembro assim,
- 33:47o primeiro poema, e aí fiz um livrinho artesanal quando
- 33:51eu tinha 15 anos, e estava lendo, recentemente, um
- 33:54livro da Angelica... Não, não é da Angelica Frida, é
- 33:57uma peça que eu gosto muito também. Mas
- 33:59da Natalia Borges Polesso, que foi um dia péssimo.
- 34:05Foi um péssimo dia. Foi
- 34:06um péssimo dia. Ela lançou agora, bem
- 34:08recentemente. E ela está contando sobre a
- 34:10infância dela, e aí tem algum momento que ela fala,
- 34:13que ela morava também, em uma cidadezinha do Sul, e
- 34:16com a família, porque se mudou, enfim. Ela
- 34:17vai na biblioteca com o irmão mais novo, e era a
- 34:20coisa que acalmava o irmão, quando ela tinha que ficar
- 34:22cuidando do irmão em casa sozinha. E
- 34:24aí tinha a bibliotecária que fazia uma barreira,
- 34:27mais do que uma mediação. Você
- 34:29tinha que chegar lá e pedir para ler. E
- 34:31aí ela ficava assim, o que é que eu vou pedir? E
- 34:35aí tem, por exemplo, a história da Clarice L
- 34:38'Hospector, que foi uma pessoa que mexeu muito
- 34:40comigo, praticamente, quando era mais nova, depois
- 34:42várias questões, mas foi uma abertura de um
- 34:45portátil, foi a Cecília Merelles, depois a Clarice
- 34:47L 'Hospector, e depois a Ana Cristina César. E
- 34:50aí depois eu fui ampliando, né, meu repertório. Mas
- 34:53a Natalia fala que ela pequenininha chegou, e aí a
- 34:56bibliotecária fala, ah, toma esse livro aqui, que eu
- 34:58não lembro qual era. Mas ela indicava os livros, e
- 35:01aí ela olhou e falou, oh, e aquele ali, Até os Pés,
- 35:04que é a Ana Cristina César, e ela falou, não,
- 35:06não esse não, não é para você, não está na idade,
- 35:09aí, ah, porque é uma poesia, eu não sei se era
- 35:12perigosa, incendiária, mas isso, né, é o lado
- 35:15poético, da Vixonista escrevendo, mas tiver alguns
- 35:19contatos. Há um outro livro lá que eu
- 35:20acho que era de alguma pessoa que escreve, né, que
- 35:23fala inglês como língua materna e não tem muito
- 35:25contato, mas enfim, tinha essa referência, eu falei,
- 35:28gente, como biblioteca, né, isso é muito importante,
- 35:32sempre foi muito presente na minha vida, assim, para
- 35:33a Bienal, encontrar as pessoas. Incentiva
- 35:36de um jeito, eu tive biblioteca de escola também,
- 35:39eles incentivavam o que é competição, e eu era uma
- 35:41criança competitiva, você saía e alguns jornalzinhos
- 35:45da escola, era alguma coisa que aparecia que tivesse
- 35:47pegado mais um dia. Ah, eu tive. E
- 35:49eu ficava afoi, tu falava, vai ser eu, só que eu...
- 35:52Eu tive na cidade, eu acho,
- 35:54bem alto. Eu pegava os livros, só que
- 35:55eu realmente ia ir cedir, não, mas eu tenho que ler,
- 35:57eu estou pegando, então eu vou ler. E
- 35:58a responsável? Eu ficava doida para poder ser
- 36:00aqui, pegou mais livros. Eu sinto que o Instagram faz
- 36:03um pouco isso. Ah, você ainda não leu tal
- 36:07pessoa? Enquanto livros você leu esse ano,
- 36:09aí, a nova competição do vídeo. Ah,
- 36:10é, a nova trend, né? Não vou postar, tá louco? Não,
- 36:14mas é que como eu me mudei esse ano para cá, eu
- 36:16fui trazendo livros aos poucos, aí, vou em evento,
- 36:18compro o livro, compro o livro, contigo conto...
- 36:22Então eu tenho a quantidade. Eu
- 36:24gostei de uma... Eu gostei de uma trend, não
- 36:26sei se é uma trend, se ela lançou isso, mas a
- 36:28Nádia Camussa, que é uma poeta cearense, ela lançou
- 36:32os livros que ela não leu da estante dela, eu achei
- 36:34ótimo. Eu falei, é uma boa
- 36:36estatística para a gente pensar, quanto a gente
- 36:39também, às vezes, consome o livro. Eu
- 36:41gosto muito de falar de biblioteca, falei isso em
- 36:42vários episódios esse temporada, porque a minha
- 36:45primeira relação com os livros não era com a
- 36:46compra, eu não tinha o fetiche do livro na
- 36:49estante, não tinha estante de livros, né? Então
- 36:52é assim, eu emprestava. O meu fetiche era... O
- 36:56meu fetiche era a ficha preenchida, com o meu nome,
- 37:00né? Não era o livro necessariamente
- 37:03meu. Então acho muito interessante que
- 37:07hoje a gente tenha essa questão do Instagram, e
- 37:09assim, ah, eu mesmo, né? O meu cenário, uma estante de
- 37:12livros, e isso é quase como se fosse um... um
- 37:15status, e a gente tem que pensar que o livro vai
- 37:19além disso, de ser um objeto nosso. Eu
- 37:22queria falar uma coisa, me perdoa, mas ontem a Línea
- 37:25mandou um áudio que eu achei muito sensacional.
- 37:28Quase já? De
- 37:29uma posição, mas acho interessante que ela me
- 37:33disse algo assim, nossa, eu tô muito feliz de gravar e
- 37:35tal, porque eu acho que eu sou uma livreira, ou estou
- 37:39uma livreira, e é muito legal ser reconhecida como
- 37:42um poeta, com o meu trabalho na poesia. E
- 37:45aí eu fiquei pensando assim, eu tava no metro
- 37:48também, esperando o metro chegar, e eu fiquei
- 37:51pensando assim, cara, o quanto pra gente, né, pras
- 37:54mulheres, não de uma forma universal, mas o quanto
- 37:57é... Não é só uma afirmação de sou
- 38:00escritora, sou poeta, mas uma afirmação constante, né?
- 38:04Paz, por que? Parece
- 38:04que você deixa de ser em algum momento. Eu
- 38:07conheço mulheres que publicaram livros e falam,
- 38:09ah, mas eu não sou escritora, mas o que tu
- 38:12você precisa, né? Parece que é uma coisa que você
- 38:15perde uma carteirinha, assim, em algum momento, e
- 38:17você tem que lá, né, reafirmar, e aí eu achei
- 38:20muito, muito bonito assim, que você trouxe, tô muito
- 38:23feliz assim, de vocês três estarem aqui, reafirmando
- 38:27esse lugar, independente dos livros, das cenas, das
- 38:30ocupações de território, com a poesia, vocês são, enfim,
- 38:36né, são poetas, são escritoras, quero agradecer
- 38:39mais uma vez, vocês estariam aqui. Muito
- 38:41obrigada. Mas eu muito agradeço mesmo,
- 38:42isso que parece que, além da afirmação, da gente
- 38:44falar do sou escritor, ou sou poeta, tenho esse estou
- 38:46escritor, estou poeta. É reafirmação, né? Eu
- 38:49tava um pouco nisso, a gente já conversava, eu
- 38:52estava alguns anos meio distante, me dedicando mais
- 38:54ao trabalho, aí deixa que eu cheguei em São Paulo,
- 38:56não publiquei nada, eu vou me sentir no tom não
- 38:59escritora, então, a gente tem um pouco isso, essa
- 39:02até é essa reafirmação, porque a gente se cobra
- 39:04muito, né, nem olhares ternos, né, a gente mesmo.
- 39:06E a gente vai ocupando vários
- 39:08papéis, né, como escritora, por exemplo, agora a gente
- 39:10está a videocaster, a gente também é, enfim,
- 39:15Instagrammer, a gente está em vários lugares e não tá
- 39:18só na escrita, né, mas enfim, queria que vocês, se
- 39:22tocar no coração de vocês, falar sobre isso, acho que
- 39:25seria muito legal ouvir -las. Ah,
- 39:28esse ponto me pega bastante, do estou e sou,
- 39:33aliás, já me pegou, corrigindo. Na
- 39:36época da pandemia, parece que já foram há dez anos,
- 39:39né, que parece. Naquele tempo, tão distante que foi
- 39:45ontem, acho que não só eu, mas muita de nós sofremos
- 39:50bloqueios criativos, tô sozinha nessa, não, né.
- 39:55Bloqueios e bloqueios, até por outros
- 39:58fatores pessoais, e eu me lembro de ter ficado, acho
- 40:02que, mais de um ano, sem escrever, sem colocar nada
- 40:06no papel e me pegando, pensando mesmo, sou
- 40:11escritora, o poeta ainda é poeta, sem quando ele não
- 40:14está escrevendo, não está produzindo, mas aí eu acho
- 40:19que pensar a lógica a qual a gente está inserida hoje,
- 40:24principalmente, rede social, onde tudo é produção, onde
- 40:28a poesia que você vai postar, ela tem que ser
- 40:30entregue, o algoritmo tem que entregar esse conteúdo,
- 40:35você tem que ter um número de likes, eu não entro
- 40:38nessas piras, justamente por isso, porque pensar a
- 40:45temporalidade, pensar o estou, o sou, essa
- 40:48dualidade, pra gente é muito cruel, sendo mulheres,
- 40:52principalmente no Brasil. Então,
- 40:57já me peguei bastante com esses pensamentos de se eu
- 41:01não estou produzindo, ou se eu não estou escrevendo,
- 41:03então não posso dizer, ou se eu não tenho livro,
- 41:06isso é muito recorrente também, e não, acho que
- 41:10somos poetas desde criança, desde os 9, que você
- 41:13escreveu sua primeira poesia, ou quando
- 41:15registramos nossos diários, é uma reflexão que a gente
- 41:19tem que fazer e se reafirmar todo dia, porque
- 41:23é isso, os homens podem ter escrito um verso há 15
- 41:26anos atrás, e eles permanecem escritores,
- 41:29permanecem influenciadores, e nós temos que ter,
- 41:33mensalmente, um publicado pra garantir esse nosso
- 41:37lugar, e o nosso lugar já foi conquistado, respiremos,
- 41:41acho que é isso. Quase como se fosse que bater um
- 41:44cartão ali, né? Exato, exato, pra confirmar, e
- 41:49acho que não é bem por aí, já alcançamos.
- 41:52Respiremos. Respiremos. Respiremos.
- 42:00Eu acho que tem muita diferença ser poeta e ser
- 42:03escritora, né? Eu acho que quando a gente...
- 42:08e não que um seja menos
- 42:09importante do outro, mas eu acho que escrever tá
- 42:11falando de um gesto produtivo. Se
- 42:14esse livro é publicado, ou não, isso já são outros
- 42:17500, né? Mas tem uma prática de escrita
- 42:21ali envolvida, né? Mas eu acho que é possível ser
- 42:24poeta e não ser escritora, né? Como
- 42:28eu gosto de pensar que talvez seja um olhar pro
- 42:31mundo, mas não esse olhar que é o olhar do
- 42:34Instagram, né? Que é o olho que vem, né? Eu
- 42:36acho que é um olhar de corpo que vibra mesmo, né?
- 42:39De como você percebe a
- 42:40realidade no entorno, né? E nesse lugar, eu acho que
- 42:43não é possível retirar isso de alguém, né? Não
- 42:46é possível deixar de ser poeta assim uma vez que
- 42:48você foi. Você sente quando você lea
- 42:50Cecília Merelles lá com 7 anos de idade, ou quando
- 42:54você ouve alguma palavra muito misteriosa, quando
- 42:58você é criança e fica anos e anos confabulando o que
- 43:02aquilo significa, né? Eu acho que não dá pra tirar
- 43:06esse lugar da gente. Agora, o lugar de escritora, eu
- 43:08acho que esse, sim, tem que ser batalhado, né? Se
- 43:12assumir nesse lugar, permanecer nesse lugar,
- 43:14dessa inscrição, né? Acho que é isso um pouco que
- 43:17você diz, né? Tá aí a história do...
- 43:21Escrever uma linha e vai ser
- 43:23escritor pra sempre, né? Acho
- 43:24que esse lugar tem que ser batalhado, né? Se
- 43:27você escreve, você é escritora. Sim.
- 43:29Ai, gente, eu tô chorando. Posso
- 43:33seguir mesmo? Escorpião. Mas eu sou água, gente, eu
- 43:35sou um barco a deriva. É, escorpião, peixe, peixe. É,
- 43:39gente. Que óbvio. Peixe,
- 43:40peixe. Muito água. Olha
- 43:41lá, pelo menos lá, a travessa que eu trabalho é
- 43:44cheia de canserianos. Nossa. Eu tenho alguma coisa ali.
- 43:48É difícil. Eu
- 43:49tenho um exemplar em casa, é difícil. É
- 43:52um pouco. Eu intervi algo legal que você
- 43:54trouxe, e aqui talvez vocês puderem reverberar um
- 43:56pouquinho, que você falou um pouco do processo de
- 43:58escrita, que ser escritora também é diferente de ser
- 44:00poeta. E eu também, eu escrevo
- 44:02prosa. Então, por exemplo, eu não sei
- 44:03como são os processos de quem escreve, ou pensa, ou
- 44:06cria poesia. Vocês pediram contar um pouquinho
- 44:08pra gente como essa experiência pra vocês no
- 44:10dia a dia, de onde vem o poema, como essa escrita
- 44:14pra vocês no cotidiano, de onde vem as inspirações,
- 44:19né? Fala a inspiração. Se
- 44:20você quiser responder as duas, Aline. A
- 44:23não teriore essa, me dá. Eu
- 44:24fico ouvindo e pensando as quezas. É
- 44:26que uma coisa vai puxando outra, né? Minha
- 44:28cabeça funcionou muito assim, gente. Fica
- 44:30segurando pra não esquecer, né? Ah,
- 44:32eu acho que no penúltimo episódio já tô assim, já
- 44:35entrei. Eu fico me ruendo aqui dentro
- 44:37de... Pra não ter rompê. Eu
- 44:41fiquei lembrando que, enfim, eu acho que poesia e
- 44:45criança é muito especial, né? E
- 44:47tem muito livro. Eu trabalho muito no setor
- 44:50infantil, porque eu falei, ah, eu adoro. Aí,
- 44:52não sei se isso foi bom ou ruim, porque é um caos
- 44:55assim. Eu tô até... Fica
- 44:58mais eu e um... O Rafa, que é um canceriano.
- 45:01Que a gente fica mais no
- 45:02infantil, porque uma loja é muito grande e muito linda.
- 45:05Então, assim, tem... O
- 45:06chão muda quando chega na parte infantil. A
- 45:08gente tá tentando dar até um nome pro lugar. Meu
- 45:12chef não sabe disso, né? Mas
- 45:15eu chamo de praça encantada, sabe? Eu
- 45:17falo, ah, tem uma parte infantil. Eu
- 45:18falei, tem ali na praça encantada. Porque
- 45:21é um setor imenso. É lindo, assim. E
- 45:24tem umas estantes, assim, que não tinham plaquinha,
- 45:26tipo, infantil, juvenil. Mas tem nichos. E
- 45:30a gente foi vendo o que a gente gosta, né? Outros
- 45:33livreiros que vão lá também, ficam lá. Mas,
- 45:35principalmente, eu e o Rafa. E
- 45:37aí, a gente foi fazendo assim. Eu
- 45:38peguei um postê e te fiz uma plaquinha poesia. E
- 45:41foi botando ali o que tinha de poesia numa
- 45:43estante. Aí todo mundo quer muito coisa
- 45:45de família. Botei um destaque do Berrox, que
- 45:48tem vários livros dela pra criança. Que
- 45:50eu só conheci a um. Aí fui ver ter um monte de
- 45:52família, emoções, porque tem muito, assim. Então,
- 45:56a gente fica vendo, assim, como o contato das crianças
- 45:59e pré -adolescentes, né? O juvenil. Como
- 46:04que eles têm contato com os livros. E
- 46:05ali, um espaço que você pode ficar lendo. Quase
- 46:07uma biblioteca, né? Você lê, rasgo o livro, deixa a
- 46:10gente doida. Mas tem esse contato vivo ali
- 46:13da poesia. Não só da poesia, mas os
- 46:15livros infantis, principalmente, são muito
- 46:17poéticos. Não é mais imagens lindas. O
- 46:19Danacunha, que ganhou o melhor livro infantil, acha
- 46:21ela maravilhosa, assim, porque é encantada. Como
- 46:24que é lindo o trabalho que ela faz? Foi
- 46:26o Dossura. Foi. E é um livro imagem, né?
- 46:29E fala sobre o incentivo da
- 46:32leitura entre mães, educadoras, bibliotecares,
- 46:36professores. É um monte de imagem linda
- 46:38de crianças embaixo de mar, brilhando. Ou
- 46:42na cidade, assim. Estou inventando porque não vi o
- 46:43livro, né? Eu vi um vídeo sobre o livro.
- 46:46Na cidade, a gente já tá
- 46:47aqui. Mas essa poesia sempre me
- 46:50atravessou muito, desde pequena. E
- 46:53essa questão que sempre me pegou muito de me ver como
- 46:56mulher e como uma mulher não hétero na poesia, foi
- 47:02através das músicas que chegavam pra mim. E
- 47:06que mesmo que era tudo muito subentendido, você às
- 47:09vezes tinha que cantar uma música até mesmo para uma
- 47:12relação mulher com heterossexual, você tem
- 47:15que... tinha, não precisa mais, né? Temos
- 47:18aqui. Mas você tinha que pegar uma
- 47:20música e você cantava, como era um homem que tava
- 47:22cantando para uma mulher, aí você ficava, parece eu
- 47:25falando, sabe? Era uma autorização, mas era
- 47:30alguma forma que você conseguia, assim, né? Então,
- 47:33é sempre essa arte poética musical. E
- 47:35aí eu ficava ouvindo a Adriana Calcanhotta, Zelha
- 47:37Dunca, Marina Lima, e elas não diziam as coisas, né?
- 47:41E eu vou ouvindo, agora
- 47:42escuto muito, um podcast, assim, vindo, né, de metrô,
- 47:45trem. E aí eu tava ouvindo uma
- 47:47conversa, assim, que era da Zelha Dunca, com a Bia
- 47:50Ferreira e a Ananda Costa, falando sobre a questão da
- 47:53visibilidade e tal. E como que a Bia Ferreira,
- 47:56que é maravilhosa, né? É uma poeta pulsante, assim,
- 48:00né? Como que ela... na
- 48:02cidade que ela morava também, que era o interior,
- 48:04a família queria que ela fosse pastor, etc. Aí
- 48:07na música ela descobriu alguma coisa, baixava na
- 48:10época, se baixava, assim, MP3, sei lá. E
- 48:14ela foi ouvindo as músicas da Zelha Dunca, assim,
- 48:16depois foi ouvindo de outras pessoas também, ela
- 48:17falou, caramba, eu quero cantar isso. E
- 48:19foi se entendendo, porque às vezes o livro não
- 48:21chega, mas a música chega. E
- 48:24aí você se identifica e vai, assim, como a Islã ou
- 48:26a poesia na escola, né? E, enfim, eu acho que a gente
- 48:31vai criando esses espaços e que quando é criança
- 48:34pequena, adolescente, isso é muito importante. Então,
- 48:37acho que biblioteca e escolas, assim, biblioteca,
- 48:40as públicas e escolas são, talvez, uma chave, assim.
- 48:42Quando eu comentei, quem liga para
- 48:44a poesia depois desse prêmio de Amutiki e a moça
- 48:48que foi lá, né? E o prêmio que eu quero
- 48:50dizer, assim, que foi um livro de poesia que ganhou,
- 48:53e mesmo assim, não é o livro talvez mais falado,
- 48:56sendo que, nossa, mesmo com destaque, então, eu sinto
- 49:00que a poesia tem esse lugar como se fosse as
- 49:03ditas minorias da sociedade, sendo que é a base de
- 49:07tudo, né? Mas, enfim, muita, muita
- 49:11reflexão. Acho muito legal quando você
- 49:13falou dessa imagem da sessão de livros infantis,
- 49:16que acho que a gente tem que trazer isso para a
- 49:17gente em todos os livros, que tem meio que essa, não
- 49:21sei, uma relação mais afetiva, mais solta, mais
- 49:23autorizada de mexer no livro. Você
- 49:25vai na livraria, parte biblioteca infantil, está
- 49:27todo mundo no chão, todo mundo lê junto e pega e
- 49:30não, e vai outro, e vê aqui. Então,
- 49:33acho que até tirar esse espaço, desse objeto, né,
- 49:35que fica ali na estande, pra algo que é ali, pra
- 49:39gente conversar junto e ler junto, escutar junto, acho
- 49:42que traz um espaço bem mais gostoso. É
- 49:44uma imagem que eu gosto bastante. E
- 49:47aí, pensando aí nos processos, então, alguém
- 49:49quer trazer um pouquinho de como é esse processo da
- 49:52poesia de vocês, de onde ela surge no cotidiano, eu
- 49:55acho que é muito diferente da prosa, então, realmente,
- 49:58eu não tenho ideia de como são processos criativos de
- 50:01poetas. Estou me olhando. É
- 50:04isso aí, tem que arriscar. Eu
- 50:05acho que é difícil falar de prosa, gente. Não
- 50:06brinque, não brinque. Eu falei muito em começar. É
- 50:10o balo da minha voz. Calma,
- 50:12desculpe. Não falei um pouco se mandar.
- 50:13É, não, não brinque. Então,
- 50:14tudo bem. Então, posso seguir. Olha,
- 50:18processos, né, pra alguém que escreve há bastante
- 50:20tempo. Eu cresci ouvindo os racionais
- 50:25MCs. Então, o que é Mano Brau quando
- 50:29diz o que diz, quando coloca o que coloca da
- 50:32forma como coloca. Então, eu sempre fui ouvindo os
- 50:36racionais de modo muito poético, não pelo assunto,
- 50:40porque o assunto não é poético, mas a forma como
- 50:44colocou as palavras. E minha avó também ouvia
- 50:48muito Bezerra da Silva, que eu não compreendia na
- 50:52época. Eu falava, nossa, mas isso é
- 50:55um samba. Como que é esse samba que
- 50:58parece os racionais? E crescendo com esse diavã
- 51:03também, né, falando de música e como essas
- 51:08diferentes formas vão atravessando a gente nesse
- 51:11processo criativo. Mas agora, né, reunindo esse
- 51:16repertório e agora tem Bia Ferreira, agora a gente tem
- 51:20mulheres também que estão poetizando bastante. Eu
- 51:26já consigo utilizar desse meio pra me inspirar, né.
- 51:34E eu fico fascinada pelo modo
- 51:34como coloca, como trata o assunto. De
- 51:37javan, todo mundo sabe, não precisa dispensa, né,
- 51:41comentário, dispensa apresentações. Então,
- 51:44o que me cativa bastante é identificar de que maneira
- 51:48as palavras, os versos vão se casando, vão sendo
- 51:51construídos. Eu gosto de imaginar como o
- 51:55escritor chegou naquela dialética, naquela rima. E
- 52:00eu fico fascinada pelo processo dos outros e acaba
- 52:03influenciando totalmente no meu processo. Mas
- 52:07pra além da música e trazendo a vivência
- 52:11empírica, o real, o dia a dia, eu até falei na nossa
- 52:17vivência, na imersão lá no começo do ano, tive uma
- 52:20fala que foi significativa pro grupo, que por muito
- 52:25tempo eu dizia que eu não escrevia sobre amor. E
- 52:29Bizerra da Silva fala sobre isso, né. Eu
- 52:32não tenho como falar daquilo que eu não sei.
- 52:35Então, por ser uma poeta que se
- 52:39achou, que se encontrou, se identificou no movimento de
- 52:41Islã, e o movimento de Islã é um movimento onde
- 52:44os poetas, na maior parte das vezes, estão falando
- 52:47das lutas, estão falando das desigualdades raciais,
- 52:50estão falando dos racismos, das misoginias, das
- 52:53homofobias, como o espaço das minorias parece ser,
- 52:57né. Então, em algum momento, eu achei
- 53:00que era esse o fio condutor, era isso que dava
- 53:04o gas pra escrita. Então, como a gente vê nos
- 53:08noticiários, todo dia, o genocídio da população
- 53:12preta, principalmente, aquilo era o meu gas, aquilo foi
- 53:15o meu gas por muito tempo, pra colocar no papel, pra
- 53:18registrar, pra respirar, pra dar um fôlego, pra entender
- 53:22os sentimentos, pra denunciar, principalmente.
- 53:25Mas chegou o momento que isso
- 53:27foi doecendo, isso foi cansando e poxa, será que
- 53:31é só sobre isso, será que a gente só vive isso? E
- 53:35aí, eu comecei a repensar outras formas de me
- 53:39inspirar, de me cativar, e aí, encontrei o amor não
- 53:45romântico, eu não precisei achar o amor romântico pra
- 53:48conseguir me inspirar dessa maneira. Então,
- 53:51o amor entre as minhas amigas, o amor com os meus
- 53:53pétis, com as plantas, comigo mesma. Então,
- 53:58me encontrar e me enxergar vulnerável nessa
- 54:02possibilidade. Bél Rux vai falar bastante
- 54:05sobre o amor e o amor preto cura e cura mesmo.
- 54:10Então, hoje em dia já é algo
- 54:12mais consciente, já é um processo mais respeitoso, um
- 54:16processo mais fluido, eu sou muito perceptiva, então,
- 54:23e criativa também. Então, o céu azul me chamou muita
- 54:26atenção hoje, a roda gigante, o carro céu.
- 54:30Então, são as minúcias, são os
- 54:33detalhes do cotidiano, que vão me dando algumas luzes,
- 54:37vão sendo acesas aqui dentro. E
- 54:39aí, a poesia nasce e não nasce de um dia pra outro,
- 54:45gente. Não sei como é o processo de
- 54:47escrita de vocês, mas a maioria dos meus escritos
- 54:50não saem de um dia pro outro. Ele
- 54:53vai sendo mastigado, pelo menos aí, durante o mês.
- 54:57Eu vou sentindo, escrevendo, às
- 54:59vezes, eu escrevo dois versos, ver só uma linha,
- 55:01e aí, 3, 5 dias, 15 dias eu retomo. Então,
- 55:07acho que é diário, a gente vai conhecendo e se
- 55:11adaptando ao processo criativo diário. Mas
- 55:14o que me impacta é a vivência, é o cotidiano, é
- 55:18a rua mesmo, é o que me faz escrever. A
- 55:23gente, legal, ouvi isso também do processo mais
- 55:25lento, que, às vezes, a gente pensa muito só num
- 55:26rompante, né? A inspiração e o rompante da
- 55:29poesia. Exato. É legal entender que também
- 55:32é esse processo que vai se formando ali com o tempo,
- 55:35né? Ele vai se concretizando, se
- 55:37fortalecendo dentro de você, antes de encontrar lugar no
- 55:39papel. Total, o poeta é estigmatizado,
- 55:42né? Então, manda uma rima aí agora.
- 55:44Amigo. Então você é poeta, então
- 55:47faz o poema aí agora. Não, pera aí, vai com calma. É
- 55:53aqui demais. Eu já sinto uma diferença,
- 55:59Tais, eu te escutando, né? Porque
- 56:01parece que, dessa pesquisa, dessas referências, né? E
- 56:08até do processo de maturação, né? Eu
- 56:10tenho a sensação de que, para mim, precisa primeiro
- 56:13ter alguma espécie de esvaziamento, até eu
- 56:16conseguir escrever alguma coisa que eu sinta que é
- 56:18realmente minha, assim. Se não parece que fica colado
- 56:21em alguma coisa que eu li ali ao redor, enfim. Então
- 56:27eu fui criando alguns procedimentos, assim, né? Eu
- 56:31tenho uma relação muito forte com o corpo, né? Eu
- 56:34danço, pratico yoga, já faz muitos anos, né? E
- 56:39eu tenho a sensação de que eu preciso primeiro acordar
- 56:41o meu corpo, chamar ele para o jogo, né? Tipo,
- 56:44corpo, estamos aqui para, depois, as mãos serem um
- 56:47instrumento descrita, assim, né? E
- 56:50aí, enquanto eu estava escrevendo Y, fui
- 56:53desenvolvendo um procedimento que era escrever depois de
- 56:56dançar, né? E aí, dançar, assim, é...
- 57:01Primeiro alguma coisa que produzisse
- 57:03alguma espécie de catar, de transe, mesmo que
- 57:06temporário, né? É muito rápido, né? Girar,
- 57:10fazer alguma coisa que provocasse exaustão, né? E
- 57:13aí, a partir disso, sentar para escrever. E
- 57:15aí, daí, entra o processo de maturação. Aí,
- 57:19depois desse escrito muito louco, né? Porque
- 57:21não sei se vocês já fizeram esse experimento. A
- 57:23gente convido vocês a fazer e depois vocês me contam.
- 57:26Sai umas coisas muito loucas
- 57:28ali, né? Que você nem sabe exatamente o
- 57:30que é. E aí, com o tempo aí,
- 57:32sentava para ir lá pedando, né? Isso
- 57:34aqui é interessante, que legal. Nossa,
- 57:36essa imagem, nossa, nunca tinha visto isso aqui antes
- 57:38e tal. Então, para mim, parte muito do
- 57:41corpo, assim, né? Quando eu sinto isso, eu escrevo
- 57:44no caminho, no bloco de notas, o celular, porque é
- 57:48a roda gigante, porque é o carro -cel. No
- 57:51trem, agora eu vi que tinha uma... Todo
- 57:53mundo indo em uma direção e tinha uma placa gigante
- 57:55em cima. Sentido proibido. Aí,
- 57:58eu fiquei, tipo, 15 minutos olhando para o sentido
- 58:01proibido, sentei e escrevi, mas não é isso que vai
- 58:04ser. O sentido proibido tem que
- 58:06ficar maturando lá dentro, envelhecendo, né? Sei
- 58:10lá, se relacionando com outras mil coisas, até
- 58:13aquilo ganhar um verso, talvez ou não, né? Então,
- 58:17não sei, sou mais nesse procedimento aí. Que
- 58:20demais. Vou fazer esse exercício, vou
- 58:23fazer esse exercício e te conto. É
- 58:25muito uma coisa do, escreva bêbado, no caso não bêbado,
- 58:29da bêbado do movimento, e edite sóbrio, né? Você
- 58:33tá ali, não, no caso não é uma edição, mas é uma
- 58:36restruturação, uma reescrita, né? É
- 58:39uma profundamente, gostei muito. Isso
- 58:43de lapidar, de dar um tempo para as coisas se
- 58:45assentarem é bom, assim. A gente deveria usar para
- 58:47outras mensagens que a gente escreve, né? As
- 58:50pessoas, nem falham, eu sou muito impossível. De
- 58:54esperar, né, para ver, faz um rascunho, espera. Mas
- 58:58eu não sei muito, assim, o processo que é pensando,
- 59:01assim, mas escutando, esquecendo de pensar também.
- 59:04Mas tem um pouco disso, assim,
- 59:06eu acho que, quando eu era mais, quando eu era
- 59:09adolescente, eu era dos blogs, né? Então
- 59:11eu escrevia muito em blog, e tem um que ainda existe,
- 59:13às vezes eu vou lá, procurar umas coisas, botava
- 59:16palavras -chaves, então eu clico, porque eu tava
- 59:18apaixonada por tal pessoa, aí tem lá todo o que foi
- 59:21eu. Eu tenho meu blog também, e a
- 59:24gente é blogueira raíza, então. Eu
- 59:25tinha um dos antigas e eu deletei naquela fase que
- 59:28você quer se... Ah, não, eu tentei. Na
- 59:31verdade, eu troquei o nome do meu, o endereço.
- 59:35Então... Não, eu nem sei por qual
- 59:37eu troquei. Não, é que era Tatilás, que é
- 59:40o meu... É, Tatilás é o meu... Você
- 59:42me foi meu codinome, assim, e e -mail e tal. Mas
- 59:45aí eu troquei pra realmente não ser encontrado, mas ele
- 59:48ficou como meu arquivo, assim. Mas
- 59:51às vezes eu volto também, visito. É
- 59:53bom, assim, a gente percebe... O
- 59:54que eu perceba é que, e antes depois, antes depois,
- 59:57não. Antes também teve a época, que
- 1:00:00depois passou para Instagram, e eu percebo que
- 1:00:03eu era muito experimental, às vezes eu fazia umas
- 1:00:05coisas e postava, filmava uma gota vermelha num vaso,
- 1:00:10que era um sangue, né? De menstruação, mas eu botava
- 1:00:13aqui... Hoje em dia eu mais farei isso,
- 1:00:15assim, e tinha umas amigas e minha mãe falava...
- 1:00:16Nossa, ali mesmo. Que
- 1:00:18dito, hein? Eu falava, gente, como era
- 1:00:21mais livre? Porque não tinha família, não
- 1:00:22tinha gente do trabalho. O Instagram virou uma coisa
- 1:00:24meio de publicidade, mas que eu amo. É
- 1:00:26um lugar que me inspira muito, eu vi rádio também,
- 1:00:28me inspira muito. Que vem aquelas músicas de
- 1:00:31surpresa, assim. Aí agora tem três aplicativos
- 1:00:34de rádio que eu fico alternando. E
- 1:00:35quando eu estou no movimento, eu coloco o
- 1:00:37fonezinho para ouvir rádio mesmo, xiado, passa e dá o
- 1:00:41xiadinho. Então são coisas que me inspira.
- 1:00:43Ficar ouvindo podcast também,
- 1:00:44lendo livre, isso. Essa vida do cotidiano, de estar
- 1:00:49em contato com as pessoas, que às vezes é cansativo
- 1:00:51também, mas que tem várias coisinhas que você vê uma
- 1:00:55cena no metrô, no trabalho, você vai... tem
- 1:01:00uma suspensão do cotidiano, assim. E
- 1:01:04as coisas que a gente vai consumindo, se alimentando
- 1:01:07de arte, me alimenta muito. Mas
- 1:01:11eu percebo isso, que quando eu era adolescente ou
- 1:01:14jovem, eu escrevia muito quando eu estava triste,
- 1:01:17por exemplo, sofrendo de amor, ou angustiada, que
- 1:01:20era meio melancólica, assim. E
- 1:01:22hoje em dia eu fico assim, ah, sem tempo, chega. Chega
- 1:01:25de sofrer. Sofri demais. Às
- 1:01:27vezes eu estou tão nessa espiral também de trabalho,
- 1:01:30que aí eu não escrevo tanto, fico me sentindo
- 1:01:32mal. Aí vou no saral, no lançamento
- 1:01:34de livro. E aí volta toda aquela...
- 1:01:38aquele sopro, assim, dá uma
- 1:01:40revigorada. Então fica esses movimentos,
- 1:01:44assim, meio... pode ser uma montanha -ruça, pode
- 1:01:46ser uma roda gigante, um carro -cel, né? Pra
- 1:01:50cima e pra baixo, assim, de emoções e de produção,
- 1:01:54né? De anotar coisas e... Anotar
- 1:01:55coisas e... Depois eu escrevei ou escrevei
- 1:01:57coisas horríveis, depois olhar e falar, nossa, era
- 1:01:59bom. Você emocionar com uma coisa que
- 1:02:01você mesmo escreveu... Aí você diz. Eu
- 1:02:03tenho uma frase que ela pode ser usada em duas
- 1:02:05intonações. Nossa, foi eu que escrevi isso,
- 1:02:09que pode ser o nosso... Foi
- 1:02:10eu que escrevi isso, que incrível! Ou,
- 1:02:12nossa, foi eu que escrevi isso, que bosta, sabe? E
- 1:02:14o horror, eu não sei como eu tive coragem de escrever
- 1:02:17isso. E é, eu me identifiquei muito
- 1:02:19com essa questão da liberdade também, quando ela
- 1:02:21blogueira raiz. Eu tinha muito mais liberdade,
- 1:02:25até respondi uma entrevista esses dias, e eu disse, o
- 1:02:27que você diria para Tatiana, que escrevia, sei
- 1:02:30lá, 20 anos atrás, e falei, eu que tenho que
- 1:02:32aprender com ela, sabe? Porque
- 1:02:34eu escrevia, eu me arriscava em gêneros
- 1:02:36diferentes, eu escrevia poesia ruim, mas escrevia.
- 1:02:39Eu tinha, assim, eu acho que
- 1:02:40muito mais acesso a essa liberdade poética, que hoje
- 1:02:44eu já coloco dentro de uma persona que não me cabe
- 1:02:47mais. Ah, mas não vou fazer isso,
- 1:02:49porque eu já fiz isso, e eu acho que esse tipo de
- 1:02:51coisa vai podando a gente, né? A
- 1:02:53expectativa, a gente falou um pouco disso no episódio,
- 1:02:55a expectativa de quem a gente é, então acaba
- 1:02:58bloqueando a gente para outras possibilidades, que a
- 1:03:00gente fala, não, eu sou só uma pessoa, não vou ficar
- 1:03:02fazendo mais aquelas coisas estranhas, não precisa ter
- 1:03:05nenhuma expectativa sobre mim. Com
- 1:03:07as outras pessoas, né? Porque
- 1:03:09eu lembro que isso do blog era, um monte de gente ia
- 1:03:12lá comentar, e você ia, e as pessoas realmente
- 1:03:14comentavam, elas realmente liam, sei lá, 95 % das
- 1:03:18pessoas liam, e aí eu ficava assim, gente, as
- 1:03:20pessoas comentando, e nossa, que legal essa imagem,
- 1:03:23qualquer coisa que você colocava ali, então tinha
- 1:03:25realmente uma troca, e muito livre, que talvez em
- 1:03:28alguns grupos de oficina descrita, você tenha essa
- 1:03:31liberdade, né, de nós estamos aqui julgando
- 1:03:33ninguém, coloca para fora o que você fez, ou fazer uns
- 1:03:37exercícios desses, né, com outras pessoas e mostrar,
- 1:03:40porque se você às vezes está mostrando o processo,
- 1:03:42né? Não precisa, mas eu também
- 1:03:45tenho muito que aprender, com a minha antiga Lini,
- 1:03:48porque essa experimentação, depois eu fui fazer Zines,
- 1:03:51então, era como se fosse, não sei, é isso, eu vou
- 1:03:55procurar essa entrevista para pensar, mas dá a
- 1:03:58gente revisitar esses textos e ver se nossa, quanta
- 1:04:01potência, quanta liberdade essa experimentação poética,
- 1:04:06né? E eu acho muito bonito, às
- 1:04:07vezes, ler poetas, inclusive, que, por exemplo,
- 1:04:13primeiros livros, assim, que eu falo, cara, tem uma voz
- 1:04:16muito bonita, muito interessante se construindo
- 1:04:19aqui, e acompanhar esse processo, sabe? Porque
- 1:04:23é isso, assim, eu acho que... isso
- 1:04:25também acontece na prosa, né? Tem
- 1:04:27uma amiga que ela fala isso, ela fala, ah, esse
- 1:04:31livro eu senti uma voz literária se construindo, e
- 1:04:35é isso, a gente está construindo, né, uma voz...
- 1:04:37Eu acho interessante, quem tem
- 1:04:39um primeiro livro e fala, nossa, eu tenho uma voz
- 1:04:41autoral, eu falo, nossa, eu não tenho, eu que tenho,
- 1:04:44mas eu não tenho. Eu acho que é um processo de
- 1:04:47muita construção, assim, então, quando eu olho para
- 1:04:49aquela Tatiana, para aquela blogueira que escrevia e
- 1:04:55tal, eu falo, cara, já existia essa voz, mesmo nos
- 1:04:57textos que eu falo, nossa, não acredito que eu tive o
- 1:04:59coragem de publicar isso, eu falo, tinha uma voz
- 1:05:01aqui tentando ser construída, né? Muito
- 1:05:04bonito, fala, Mar. Não, porque eu fiquei pensando
- 1:05:07também que, talvez, o mundo tenha mudado, né, desde a
- 1:05:11época que a gente era adolescente, blogueira e
- 1:05:14hoje, né? Principalmente nesse senso de vigilância,
- 1:05:18né, que a rede social tem, né? O
- 1:05:20tempo inteiro nessa observação de é bom ou
- 1:05:24ruim, né? Interessante ou não é? Pode
- 1:05:27ou não pode falar? A gente vai ou não vai
- 1:05:28seguir, né? E eu acho que aí é um
- 1:05:30desciper de esse tipo de ambiente, né? Que
- 1:05:33é um ambiente, às vezes mais íntimo das oficinas
- 1:05:36criativas, enfim, de escrita ou não, né? Da
- 1:05:43gente poder, ou que era o blog também, né? De
- 1:05:46uma comunidade de pessoas que escreviam, porque todo
- 1:05:48mundo escrevia no blog, né? Cada
- 1:05:51um tinha o seu, você lia do outro, alguém comentava
- 1:05:53o seu, tinha uma comunidade ali, né? Que
- 1:05:56eu acho que esse lugar acolhedor, onde essas ideias
- 1:05:59podem pipocar, né? O budismo tem uma imagem que
- 1:06:03eu acho interessante, que é essa, da gente poder ser
- 1:06:06terra -fértil, para que a semente possa crescer, né?
- 1:06:10das outras pessoas. Então,
- 1:06:11como é que a gente também consegue construir aí, sim,
- 1:06:14esses espaços de poesia, onde novas ideias possam
- 1:06:18surgir, sem a gente ir lá e ser o agente da tesoura,
- 1:06:22né? Ah, isso aqui é ruim. Ah,
- 1:06:24isso aqui não vale a pena, né? E
- 1:06:26isso está no nosso alcance, né? Talvez
- 1:06:28criar espaços como o Djabutih não, né? Mas
- 1:06:31entre nós, né? É criar espaços acolhedores de
- 1:06:35criação. Eu acho que isso tem uma
- 1:06:36potência revolucionária imensa, assim, né? Enfim,
- 1:06:41é, o terapê está falando aqui, né? Nossa,
- 1:06:43eu passaria horas ouvindo essas três sereias. Eu
- 1:06:47quero fazer um grupo com elas, e a gente só pode
- 1:06:49começar por áudio, e ficar ouvindo elas falando. Porque
- 1:06:54é incrível, assim, eu achei... Eu
- 1:06:56acho que a gente não tem uma resposta, mas a gente
- 1:06:58passou por muitas coisas, né? O
- 1:06:59espaço da poesia, o espaço da liberdade, o espaço
- 1:07:02dessa criação, o espaço da identificação, o espaço da
- 1:07:06performance, do tempo, do corpo. E
- 1:07:10acho que temos, né? A gente fala temos quando
- 1:07:13temos um episódio. Passou rapidinho, né? E
- 1:07:16passou muito. E a gente passou mais de uma
- 1:07:17hora. Mas já. Já.
- 1:07:20Que incrível. Muito obrigada, gente. Acho
- 1:07:21que foi um papo muito gostoso. A
- 1:07:23gente transitou por vários espaços. Ainda
- 1:07:25teria muito que falar, a rendir mais alguns
- 1:07:28episódios. A única dica que... Ontem
- 1:07:30eu estava conversando com uma amiga, que eu faço um
- 1:07:33frilo de... Algum jeito social com ela. A
- 1:07:36gente pegou para fazer... Eu
- 1:07:37faço parte de textos, né? A
- 1:07:39criação faz fotografia, um monte de coisa. Que
- 1:07:41ela mora no Rio. Que é um festival de mulheres
- 1:07:44palhaças. Não vão ser quatro dias no
- 1:07:46Rio. E gente de vários lugares,
- 1:07:48alguns países. E é isso. Tem
- 1:07:50apresentações, tem encontros. E
- 1:07:52aí eu conversando com ela, eu falei, mãe, eu vou
- 1:07:53participar de um podcast. Acho
- 1:07:55que o universo ouviu o meu chamado, da que eu estava
- 1:07:57querendo... Você está em contato, né? Me
- 1:08:00reafirmar como poeta, conhecer os outros. E
- 1:08:03ela falou assim, dá uma ideia de ter um festival...
- 1:08:06Foi incrível, que eu falei,
- 1:08:08nossa, amiga, tudo que eu queria era um festival de
- 1:08:10poetas. Nossa, incrível. Incluir
- 1:08:12gente com apresentações, leitores, e oficinas, mesas,
- 1:08:17para você estar convivendo com os outros e podendo
- 1:08:20desmembrar todos esses assuntos. Meu
- 1:08:22cabeça está assim. Tatiana faz esse grupo agora. Eu
- 1:08:26faço. Eu não sei, eu não queria
- 1:08:28falar. Com certeza. E
- 1:08:30antes de a gente despedir, fala onde a gente pode
- 1:08:32encontrar vocês, seus arrombas ou sites, ou
- 1:08:34blogs, não sei onde você se preferir. Telefono,
- 1:08:38piques. Tão lindo. A
- 1:08:40minha pique é tão difícil para dizer. Bom,
- 1:08:44eu estou lá pelo Instagram. It
- 1:08:46está aí Santana, está aí sem H por gente lesa.
- 1:08:50Santana com dois N's. Tudo
- 1:08:52junto. Bom, meu Instagram é Outras
- 1:08:56Bagatelas, que na verdade veio por conta do meu
- 1:08:59blog, que era Bagatelas, e aí um dia essas coisas
- 1:09:02saem, alguém pegou seu nome. Ah,
- 1:09:04que que é o protagonista? Outras
- 1:09:06bagatelas. Quando entrou Instagram, ficou
- 1:09:09assim, Bagatelas é uma música da Calcanhoto. Então,
- 1:09:12essa conexão. Estamos por aí. É
- 1:09:15isso. Não te conheço muito, mas
- 1:09:18Bagatela pareceu uma palavra que eu assustaria você,
- 1:09:21inclusive. Bagatela significa coisa pouca,
- 1:09:25alguma coisa assim. Ah não, talvez pela sonoridade.
- 1:09:29A sonoridade parece coisas. Eu
- 1:09:33estou no Arromba Curação Subversivo. Olha.
- 1:09:36É isso. Ah, e aproveita e fala para a
- 1:09:39gente do site da Declaraboya, onde encontra o
- 1:09:42Y. Sim, verdade. Ali
- 1:09:44também tem o Arromba da Editora Claraboya, o site
- 1:09:47onde é possível comprar o Y. Não
- 1:09:49aproveita, enfim, de ano. Dá
- 1:09:51poesia de presente para seus familiares. Chocar
- 1:09:55a família, né? Tias, tias no Natal. Tem
- 1:09:58um link no vídeo, vamos mostrar. Capalhinha.
- 1:10:02E é isso, gente. E é isso, gente. Obrigada.
- 1:10:04Obrigada a vocês pela presença. É
- 1:10:06demais. Obrigada a quem ouviu com a gente
- 1:10:08até aqui. Espaço sempre aberto para vocês. E
- 1:10:11obrigado por ter em ouvido até aqui. Obrigada.
- 1:10:14Tchau, tchau. Tchau.