Latest / Na Mesa com Well / John Owen: Vida, Teologia e Legado | Os Puritanos
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- 0:00Bem-vindo ao na mesa com well na série os puritanos, investigamos
- 0:04homens, mulheres e herdeiros de uma tradição que marcou
- 0:08profundamente a história da igreja.
- 0:10Sem a Geografia e sem espantalhos.
- 0:12Hoje a nossa mesa investiga a história de John Owen, teólogo,
- 0:16pastor, acadêmico e uma das vozes mais densas do puritanismo
- 0:20inglês. Mas uma vida não cabe numa frase
- 0:22de efeito, por trás das obras que atravessaram séculos,
- 0:26existem conflitos. Perdas, decisões difíceis,
- 0:29pontos cegos e frutos que precisam ser examinados.
- 0:33Neste dossiê, vamos percorrer sua história por inteiro e
- 0:35perguntar, o que permanece de pé quando John Owen deixa de ser
- 0:39apenas um nome na estante e volta a ser um ser humano dentro
- 0:42de seu próprio tempo? Ajuste o fone na sua correria e
- 0:45prepare para ser marcado por essa história.
- 0:48É para a gente começar a entender de verdade quem foi
- 0:52esse cara? A gente precisa olhar para
- 0:54imensa quantidade de Fontes que temos aqui na mesa, né?
- 0:57Tem as biografias, os tratados teológicos gigantescos, os
- 1:01registros históricos da guerra civil.
- 1:03Inglesa. Muita coisa mesmo.
- 1:06E a nossa missão nessa investigação de hoje é extrair a
- 1:10essência dele. O Owen era chamado
- 1:13frequentemente de o calvino da Inglaterra, sabe?
- 1:16O que já é um título de um peso absurdo, diga se de passagem.
- 1:19Exato, um peso enorme, só que o detalhe principal e o que a
- 1:23gente quer focar aqui. É que a teologia monumental dele
- 1:27não foi criada numa bolha, não foi numa torre de marfim, onde
- 1:30tudo era perfeito e intocável. Foi totalmente o oposto disso,
- 1:35né? Totalmente, Ela Foi forjada no
- 1:38fogo, no meio da guerra, no meio de tensões políticas pesadas e
- 1:43de um luto pessoal que assim é de uma profundidade que chega a
- 1:46ser difícil de processar. É o cérebro dele, operava meio
- 1:50que como um supercomputador. Mas ele passou a vida inteira
- 1:53assistindo. O próprio mundo desmorona,
- 1:55queimar até virar cinzas. E essa história de extremos
- 1:59começa lá, no ano de 1616, numa vilãzinha chamada stadhampton,
- 2:02em oxfordshire. Isso ele nasceu ali, num lar
- 2:07tipicamente puritano, o pai dele já era pastor.
- 2:10E o que os documentos mostram desde cedo é que a capacidade de
- 2:14aprendizado do OEM era fora de qualquer curva normal.
- 2:17Absurda eu tava lendo os registros de admissão acadêmica.
- 2:21E eu fiquei meio chocado. Ele entra no Queen College, na
- 2:24universidade de Oxford, aos 12 anos. 12 anos.
- 2:28É, é um nível de precocidade raríssimo.
- 2:30E não parou aí. Aos 16 anos, ele tirou o
- 2:33bacharelado em letras e aos 19 já tinha o mestrado.
- 2:37Com 19 anos, eu acho que eu mal sabia o que eu IA fazer da vida
- 2:40e o cara já era mestre em Oxford.
- 2:43E o que realmente impressiona a gente que estuda as Fontes dessa
- 2:47época não é nem só o título prematuro, sabe?
- 2:50É a mecânica por trás disso. Os relatos mostram que ele
- 2:53adotou uma rotina implacável, ele chegava a estudar de 18 a 20
- 2:58horas por dia. Então, sobravam tipo 4 horas
- 3:01para dormir no máximo. 4 horas de sono o resto do tempo, ele
- 3:05estava devorando grego, latim, hebraico e mergulhando na
- 3:09metafísica de Aristóteles e na teologia de Tomás de Aquino.
- 3:12Cara, essa rotina lembra demais a vida de um fundador de startup
- 3:16de tecnologia de hoje em dia? É aquele estereótipo do
- 3:19executivo do vale do Silício obcecado por hackear o próprio
- 3:23corpo, sabe? Nossa sim, o bio hacking da
- 3:26época. Exato, o cara reduz o sono ao
- 3:29mínimo tolerável biologicamente, só para conseguir absorver e
- 3:32processar mais dados. Era uma máquina intelectual
- 3:35operando ali no limite vermelho do giro do motor.
- 3:38Uma analogia muito boa. Mas o ponto que a gente precisa
- 3:42observar é que toda essa capacidade absurda de processar
- 3:45dados e toda essa fluência em línguas antigas não foi
- 3:48suficiente para resolver o, digamos assim, o bug interno da
- 3:52alma dele. Faltava algo fundamental ali e
- 3:56não demorou para essa estrutura toda de bolha acadêmica perfeita
- 4:00entrar em colapso, né? Entrou no colapso total porque o
- 4:03mundo exterior invadiu as portas da universidade ali por volta de
- 4:071636. A política religiosa da
- 4:10Inglaterra ferveu. O arcebispo William lode assumiu
- 4:14como chanceler de Oxford. E o lounge não era exatamente fã
- 4:17da turma do Owen. Nem um pouco ele começou a impor
- 4:21uns estatutos novos que eram extremamente opressivos para os
- 4:24puritanos. Eram regras muito anti
- 4:26calvinistas, com um viés fortemente herminiano, e o Owen,
- 4:30por pura convicção teológica, recusou se curvar essas novas
- 4:33regras. Pera aí, antes da gente falar da
- 4:36consequência da recusa. Para quem está acompanhando a
- 4:38nossa análise explica rapidamente qual era o cerne
- 4:42dessa briga do arminianismo contra o calvinismo que travou a
- 4:45universidade, qual era a divergência prática ali.
- 4:48Claro, é importante a gente relatar isso de forma neutra,
- 4:51focando no que as Fontes apontam sobre o debate da época.
- 4:54De forma bem resumida, os arminianos enfatizavam muito o
- 4:57livre arbítrio humano. Eles diziam que a salvação
- 5:00dependia da escolha do homem em aceitar a graça divina e que
- 5:04essa graça poderia ser resistida.
- 5:06Tá, e o Owen batia de frente com isso?
- 5:09Batia muito forte. O Owen e os calvinistas viam a
- 5:12soberania de Deus como ponto central pra eles.
- 5:15A vontade humana era corrompida demais pra escolher Deus por
- 5:19conta própria. Então a salvação era uma obra
- 5:21totalmente garantida e executada por Deus, e a imposição dessas
- 5:26liturgias e visões herminianas pelo lowdi foi vista pelos
- 5:29puritanos quase como uma volta ao catolicismo Romano.
- 5:32Então, pro Owen, assinar aqueles novos estatutos não era só
- 5:35perder um debate acadêmico, era trair a própria consciência.
- 5:39Exatamente. Ele preferiu bater o pé e a
- 5:42consequência disso foi imediata e dura.
- 5:45Em 1637, ele foi literalmente forçado a sair de Oxford.
- 5:48Ele teve que abandonar o lugar, que era o habitat natural dele
- 5:51desde os 12 anos de idade. Ele perde o chão completamente e
- 5:56a gente tem que botar na mesa que a desgraça não veio sozinha.
- 6:01Ao se aliar depois com o parlamento na guerra civil
- 6:03inglesa, que já estava ali estourando contra a coroa, ele
- 6:06acabou perdendo também uma herança gigantesca de um tio
- 6:09dele. Um tio que era monarquista e não
- 6:11perdoou a escolha política do ou ainda.
- 6:13Pois é. Ou seja, em questão de pouco
- 6:16tempo, ele perdeu a casa acadêmica dele, perdeu o status,
- 6:19perdeu o dinheiro e perdeu o futuro financeiro garantido.
- 6:22Ele foi parar em Londres, numa crise, numa crise existencial e
- 6:26de dúvidas fortíssima ali na região de charterhouseard.
- 6:30Ele estava melancólico, afundado em incerteza sobre a própria fé.
- 6:35O cara dominava todas as línguas bíblicas, debatia a filosofia
- 6:39grega, mas não tinha certeza da própria salvação.
- 6:42E aí que acontece a grande ironia histórica dessa
- 6:46narrativa. Essa parte é fascinante.
- 6:48O que rolou em 1642? Então, em 1642, ele estava
- 6:52buscando alguma paz espiritual e foi com o primo, a igreja de
- 6:56Saint Mary aldermanberry. O plano deles era ouvir o Edmund
- 7:01calame. Que era tipo o pastor
- 7:03celebridade de Londres naquela época, certo?
- 7:05Isso mesmo, era o orador que todo mundo queria ouvir, um cara
- 7:09famoso por sermões muito bem elaborados, só que chega na hora
- 7:12do culto e o calame não aparece. Nossa, imagina a frustração?
- 7:16O cara vai buscar a resposta da vida dele.
- 7:19E o pregador? Falta.
- 7:20O primo dele até tentou convencer ele a ir embora,
- 7:23procurar outra igreja famosa por perto, mas o oen decidiu ficar.
- 7:27E aí sobe no púlpito um pregador substituto, um homem que as
- 7:31Fontes simplesmente não registraram o nome, um
- 7:33desconhecido completo. E esse cara anônimo prega?
- 7:37Ele prega um sermão muito simples sobre o evangelho de
- 7:41Mateus, capítulo 8, versículo 26, que diz, por que temeis
- 7:45homens de pouca fé? E incrivelmente é ali que a
- 7:50ficha cai. Esse sermão comum resolveu a
- 7:53crise de anos de John Owen para o resto da vida dele.
- 7:57É de uma beleza paradoxal muito forte.
- 7:59Quer dizer, a mente mais brilhante da Inglaterra, o cara
- 8:03que lia Aristóteles no café da manhã.
- 8:05Ele não foi curado pelas suas horas de estudo e nem pela
- 8:08eloquência do maior orador da nação.
- 8:10É, não. Ele encontrou pais através de um
- 8:13cara que a história engoliu. É é muito louco isso porque
- 8:16mostra na prática a própria teologia da graça que o Owen
- 8:20defendia. A resposta veio de fora para
- 8:22dentro, sem depender do mérito intelectual dele.
- 8:25E essa paz espiritual que ele acha em 1642 não leva ele pra um
- 8:28mosteiro pra ficar meditando em silêncio, né?
- 8:30A virada de chave ali catapulto é ele direto pro centro do poder
- 8:34teológico e político da Inglaterra.
- 8:37Com certeza ele publica logo depois um livro chamado uma
- 8:41exibição do arminianismo, onde ele sistematiza a defesa da
- 8:45ortodoxia reformada, e o livro fez tanto barulho que caiu nas
- 8:49mãos do Oliver cromuel. Que na época era o líder militar
- 8:53ascendente e que logo viraria a figura mais poderosa do país.
- 8:56Isso o Chrome. Ou vê o valor intelectual do
- 9:00Owen e faz dele capelão militar? O Owen passa a acompanhar as
- 9:04tropas nas campanhas sangrentas na Irlanda e na Escócia.
- 9:07Ele não tava mais no conforto das bibliotecas, ele tava nos
- 9:10acampamentos militares. E aí a gente chega num marca, o
- 9:13histórico muito, mas muito pesado.
- 9:16No final de janeiro de 1649, as forças do parlamento derrotam as
- 9:19forças reais e o rei Carlos primeiro é executado.
- 9:22A cabeça do monarca rola na Inglaterra.
- 9:27Um choque brutal pra Europa inteira, né?
- 9:30A crença no direito Divino dos reis foi decepada ali junto.
- 9:34Sim, e no dia seguinte, essa execução, quem o parlamento
- 9:38chama para pregar o John nowen? Pra quem tá ouvindo hoje, uma
- 9:42mudança de governo parece algo rotineiro.
- 9:45A gente volta e troca. Mas ali, matar o rei era o
- 9:49equivalente a, sei lá, dizer que o céu IA cair.
- 9:52A tensão no ar devia ser indescritível.
- 9:55A tensão era palpável e é muito interessante olhar para as
- 9:59Fontes e ver como ele lidou com isso, porque ele subiu naquele
- 10:03púlpito, diante das mesmas pessoas que ordenaram a morte do
- 10:06rei horas antes, e ele manteve uma neutralidade política
- 10:09absoluta. É, ele não usou o momento para
- 10:12virar um líder partidário e celebrar o regicídio.
- 10:15De jeito nenhum. O sermão dele focou estritamente
- 10:19nas responsabilidades do povo diante de Deus.
- 10:22Ele chamou todo mundo ao arrependimento, lembrando que a
- 10:25justiça divina pairava acima de quem quer que estivesse com o
- 10:28poder secular nas mãos. E mesmo mantendo essa postura
- 10:31meio distante do partidarismo, a ascensão dele no protetorado do
- 10:35cromwell foi meteórica. Põe meteórica nisso.
- 10:39Porque em 1651 o cronwell nomeia ele simplesmente como Theon da
- 10:42christchurch, que é o cargo mais importante do maior colégio de
- 10:46Oxford. E não para por aí, em 1652, ele
- 10:51vira o vice chanceler da universidade inteira.
- 10:54Mas aí que tá a grande pergunta dessa fase, como é que alguém
- 10:57que foi expulso dessa mesma Oxford por não se conformar,
- 11:01como ele age quando de repente ele se torna o homem mais
- 11:04poderoso dessa universidade, ele vira um tirano puritano?
- 11:08Essa é a primeira desconfiança que a gente tem ao analisar a
- 11:10história, né? A gente espera uma vingança, o
- 11:13cara chega com a caneta na mão e o apoio do líder militar que
- 11:16acabou de executar o rei? Mas a gestão dele é apontada
- 11:19pelos historiadores como um exemplo de tolerância para a
- 11:22época. Ele não saiu cortando cabeças
- 11:24acadêmicas. Não.
- 11:26Ele tinha poder para retaliar todos os anglicanos que apoiaram
- 11:29a expulsão dele. Mas ele não fez isso.
- 11:31Ele até permitia que clérigos anglicanos continuassem se
- 11:34reunindo ali em cerimônias privadas perto da universidade.
- 11:38O foco do oen foi totalmente voltado a restaurar o rigor
- 11:40acadêmico que a guerra tinha destruído.
- 11:42E do ponto de vista do método, como ele montou esse currículo?
- 11:46Porque ele era puritano raiz, né?
- 11:48A bíblia acima de tudo. Sim, o princípio da sola
- 11:52escritura era a base inegociável, mas o oen foi
- 11:55brilhante porque ele não jogou fora a história do pensamento
- 11:58ocidental. Ele combinou essa autoridade
- 12:01bíblica com a lógica da escolástica medieval.
- 12:04Aquela mesma estrutura de pensamento do Thomas de Aquino.
- 12:07Exatamente o método escolástico de categorizar, definir e
- 12:12dividir os assuntos com uma precisão muito técnica.
- 12:15Ele pegou essas ferramentas e somou com a teologia patrística
- 12:18as leituras de Agostinho e dos pais da igreja.
- 12:21Ou seja, ele usava a precisão lógica dos filósofos medievais
- 12:25para explicar a fundo como as verdades bíblicas funcionavam.
- 12:30Ele não era aquele estereótipo do fanático anti intelectual,
- 12:33muito pelo contrário, a influência dele era tão
- 12:36respeitada que ele foi peça chave na redação da declaração
- 12:39de savoi. Que foi o documento que
- 12:41estabeleceu o padrão do congregacionalismo inglês.
- 12:44É muito trabalho administrativo e mesmo afogado em burocracia
- 12:49universitária e política de estado, o cran produziu suas
- 12:52obras mais densas, livros como a morte da morte, na morte de
- 12:56Cristo e a motificação do pecado.
- 12:59A morte da morte é um dos tratados mais profundos já
- 13:03escrito sobre a expiação particular.
- 13:05Ele argumenta, linha por linha, que o sacrifício de Cristo não
- 13:08foi só um potencial genérico de salvação, mas sim uma compra
- 13:11efetiva e garantida para um povo específico.
- 13:14E a mecânica da justificação que ele destrincha também é uma
- 13:17coisa formidável. Quando a gente lê os textos dele
- 13:20sobre justificação, ele resolve um problema lógico muito Sério,
- 13:24porque, na nossa condição humana, o problema diante da lei
- 13:27divina é duplo. Nós somos criminosos que
- 13:30ativamente quebram a lei, mas também somos devedores passivos
- 13:33que falharam em ter uma vida de obediência perfeita.
- 13:36Isso são 2 deficiências e o perdão puro e simples só resolve
- 13:41uma delas. O sacrifício passivo de Cristo
- 13:43apaga a culpa. Eles eram a nossa dívida
- 13:46criminal com o universo, tirando a condenação do inferno.
- 13:49Mas como o Owen explico muito bem, ser perdoado não é o mesmo
- 13:53que ser justo. É o perdão, não te dá o
- 13:55passaporte pro céu só tirar algema, né?
- 13:58A gente pode usar a analogia da conta bancária para ficar mais
- 14:01claro, imagina que alguém tenha uma dívida de bilhões com um
- 14:04banco muito rigoroso? Uma dívida impagável.
- 14:06Impagável. E por pura graça, o gerente do
- 14:09banco decide zerar essa dívida. Acabou.
- 14:11Ninguém vai preso. A ficha tá limpa, mas aí a
- 14:13pessoa vai checar o saldo e tá lá, zero.
- 14:16O saldo zero não permite que essa pessoa compre a mansão do
- 14:19dono do banco. Falta o crédito positivo.
- 14:22Essa analogia ilustra exatamente o que o Owen chamava de dupla
- 14:26imputação, nós imputamos, ou seja, passamos a nossa culpa
- 14:30para Cristo na Cruz, mas, em troca, não recebemos só o
- 14:34perdão, a obediência ativa de Cristo, os 33 anos vivendo uma
- 14:38vida de moralidade impecável. Esse saldo infinito de justiça é
- 14:43depositado na conta do cristão. É isso que dá o direito legal, a
- 14:47herança de Deus. É um sistema perfeitamente
- 14:50blindado. Mas tem uma armadilha
- 14:52comportamental aí que ele próprio previu, não tem.
- 14:55Se a salvação e o crédito estão totalmente garantidos.
- 14:59A reação óbvia do ser humano é pensar, tô com ingresso vip na
- 15:02mão, vou Viver A Vida do jeito que eu quiser e tá tudo certo.
- 15:06Ah, o famoso antinomianismo, o descaso com a vida prática.
- 15:11E é aí que entra o peso brutal da obra, a mortificação do
- 15:14pecado. Porque, para ele, a justificação
- 15:17era uma obra pronta, mas a santificação era uma guerra.
- 15:21E uma guerra violenta? Sim, a frase que marca esse
- 15:24livro resume tudo, esteja matando o pecado ou o pecado
- 15:27estará matando você. É, ele não aceitava aquela ideia
- 15:31de santificação passiva, de só sentar, orar e esperar o desejo
- 15:35ruim sumir. E como é que na prática de Owen
- 15:38se mata o pecado? Porque muitas vezes a religião
- 15:41foca só em proibir comportamento externo, né?
- 15:43Apenas ditar regras. E ele sabia que isso era inútil.
- 15:47Cortar o galho não resolve se a raiz continua debaixo da Terra.
- 15:51O método que as obras dele apontam é o de matar o pecado de
- 15:55fome. O Owen defendia que você não
- 15:57para de pecar só por força de vontade ou porque tem medo das
- 16:01regras. Você precisa substituir os seus
- 16:03afetos. Uma troca de apetites?
- 16:06Exato. Você cultiva um amor tão
- 16:08profundo pela comunhão com a Trindade que as tentações
- 16:11antigas começam a perder o gosto?
- 16:13É algo interno. Você preenche o coração com algo
- 16:16muito superior. Nossa, é muito denso e prático
- 16:20ao mesmo tempo. Mas enquanto ele escrevia isso,
- 16:24o castelo político ao redor dele começou a rachar de novo e ruiu
- 16:28rápido. Em 1658, o Oliver kromel morre.
- 16:30Em 1660, acontece a restauração da monarquia inglesa, com o
- 16:35Ricardo segundo voltando ao poder.
- 16:36E aí vem 1662. O ano da grande injeção, o
- 16:45parlamento passa o ato de uniformidade.
- 16:47Exigindo que todos os pastores se submetam novamente ao livro
- 16:50de oração comum, aos ritos anglicanos estritos, e o Owen,
- 16:54claro, se recusou. Ele não IA ceder aquilo que ele
- 16:57já tinha lutado contra na Juventude, né?
- 16:59De jeito nenhum. O resultado foi que milhares de
- 17:02ministros foram ejetados de seus cargos.
- 17:05Owen perde a posição em Oxford, perde o poder político e passa
- 17:09de um conselheiro nacional a um dissidente clandestino.
- 17:13Um não conformista que podia ser preso a qualquer momento por
- 17:16liderar cultos proibidos. O cara volta a ser um pária.
- 17:20Só que a análise da vida dele toma um contorno muito mais
- 17:23Sombrio agora, porque a gente lê as biografias e percebe que as
- 17:28perdas políticas não foram nem de longe, a maior dor da vida
- 17:30dele. E aqui a gente precisa entrar
- 17:33num terreno muito delicado. Ele foi casado com a Mary.
- 17:36Sim, a primeira esposa dele. E os registros indicam que eles
- 17:40tiveram 11 filhos, só que 10. Desses filhos morreram ainda na
- 17:44infância. E olha, dependendo da fonte
- 17:47histórica, há pesquisadores que afirmam que absolutamente todos
- 17:51os 11 filhos morreram prematoriamente.
- 17:53O John lawen terminou a vida sem herdeiros vivos.
- 17:56Olha, a gente precisa adotar um posicionamento muito claro aqui
- 17:59para quem tá acompanhando a investigação.
- 18:01Não dá para romantizar isso de forma alguma.
- 18:03A gente vê às vezes umas narrativas tentando pintar esses
- 18:07teólogos antigos como super-heróis de cera, dizendo
- 18:10que ele sofreu isso. Dobrou o joelho, orou meia hora
- 18:14e voltou para o escritório para escrever feliz.
- 18:16É como se fosse uma fórmula mágica, né?
- 18:18A teologia sustentou tudo e ele nem derrubou uma lágrima.
- 18:22Isso é quase um insulto. A dor humana que ele passou,
- 18:26perdeu um filho já inverte a ordem natural do universo em
- 18:29Terra, 10 ou 11 crianças. É uma aprovação psicológica que
- 18:33beira a tortura contínua. Foi uma dor silenciosa e
- 18:36esmagadora que caminhou com ele todos os dias.
- 18:39E viver esse luto doméstico, repetitivo, enquanto você lidera
- 18:43uma igreja clandestina em Londres, cuidando de famílias
- 18:46pobres e ex oficiais que perderam tudo sob o medo da
- 18:49prisão, o cenário dele era de Terra arrasada.
- 18:53Mas o curioso é que no meio dessa tempestade apareceram umas
- 18:57portas de saída brilhantes Pra Ele, certo?
- 18:59Sim, convites muito atraentes do Novo Mundo.
- 19:03Ele recebeu cartas pra liderar igrejas fortíssimas lá em
- 19:06Boston, nas colônias Americanas. E até mesmo um convite oficial
- 19:10para atravessar o oceano e assumir a presidência da
- 19:12universidade de Harvard. Harvard, ele poderia
- 19:15simplesmente ter feito as malas, escapado da perseguição na
- 19:19Inglaterra e voltado a ter poder e conforto acadêmico numa Terra
- 19:23Nova. Ele tinha a chance de ser a
- 19:25maior autoridade do outro lado do oceano, mas ele recusou todos
- 19:29os convites. O que mostra muito sobre as
- 19:32convicções do cara. Ele sentiu que não podia
- 19:34abandonar as congregações perseguidas e os amigos que
- 19:37estavam sofrendo na Inglaterra com ele, ele preferiu o risco.
- 19:41Exato. E foi ali, na clandestinidade,
- 19:44liderando essa pequena igreja e lidando com seus próprios lutos,
- 19:48que ele continua escrevendo até o fim.
- 19:51Ele morreu em 1683, deixando um legado de 24 volumes densos e
- 19:55sendo reconhecido mais tarde como o príncipe dos puritanos.
- 20:02E conhecer essa história inteira muda tudo na forma como a gente
- 20:05lê os livros dele, né? Quando você pega uma obra
- 20:07complexa como comunhão com Deus, a gente entende que aquilo não é
- 20:11um manual clínico escrito por um intelectual que estava entediado
- 20:14no ar-condicionado. De jeito nenhum.
- 20:17É o coração de um homem que perdeu dinheiro, perdeu a
- 20:19cadeira de vice chanceler, perdeu 10 filhos pra morte e
- 20:24descobriu ali, no chão do poço, que o relacionamento com a
- 20:27Trindade era o único solo firme que existia.
- 20:30Ele submeteu a própria teologia ao teste de estresse mais
- 20:33absurdo da vida real. E ela se sustentou, o que deixa
- 20:36para nós um pensamento provocativo muito forte para
- 20:39fechar esse dossiê. Hoje em dia a gente tende a
- 20:42pensar que a gente precisa do ambiente perfeito para produzir
- 20:45algo de valor. Ah, a gente quer aquela paz
- 20:47intocável, o conforto, estabilidade financeira, o
- 20:51escritório com iluminação ideal para só então criar profundidade
- 20:56espiritual ou intelectual. Mas a história de John Owen vira
- 20:59isso de ponta cabeça. Ela nos provoca a perguntar se a
- 21:03resiliência de caráter real e a profundidade de pensamento
- 21:06muitas vezes só ganham vida quando as estruturas ao nosso
- 21:09redor estão ruindo. O conforto, pelo visto,
- 21:13raramente escreve histórias que sobrevivem a 3 séculos.
- 21:16É o atrito, é o que forja a resistência.
- 21:18Com certeza, John Owen pertence ao mundo diferente do nosso, mas
- 21:23as perguntas levantadas por sua vida ainda nos alcançam.
- 21:27Sua história contém convicções que atravessaram séculos, frutos
- 21:30que continuam alimentando a igreja e aspectos que precisam
- 21:34ser examinados com honestidade. Os puritanos não foram Santos de
- 21:38vitrine, foram seres humanos tentando viver diante de Deus em
- 21:41uma era de conflitos. E justamente por isso vale a
- 21:45pena conhecê Los por inteiro. Que possamos aprender sem
- 21:48romantizar, criticar sem anacronismo e investigar antes
- 21:52de julgar. Este foi mais um dossiê da série
- 21:56os puritanos. Aqui no na mesa com o well, se
- 21:59você curte o nosso conteúdo, segue na plataforma em que está
- 22:01ouvindo, manda para um amigo, se inscreve no canal, ativa as
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