Latest / Elas na Escrita / #30 Aline Bei e Andrea Del Fuego - Viver a escrita
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- 0:00Estou tendo que cortar todo nesse episódio, então é, oi
- 0:05gente, bom dia, boa tarde, boa noite.
- 0:07A gente tá aqui com mais o episódio delas na escrita e hoje
- 0:10eu tô aqui com 2 das minhas escritoras contemporâneas
- 0:13preferidas. Não vou mentir, tô me achando
- 0:16muito chique. Eu tô olhando aqui pra Aline bei
- 0:18e pra Andréa del fuego e eu fiquei pensando muito em como
- 0:21chamar esse episódio. Eu acho que a gente vai falar um
- 0:23pouco hoje da escrita como forma de estar no mundo.
- 0:27É, eu acho que as 2 dispensam Apresentações, mas para quem
- 0:30quer conhecer um pouquinho mais, antes da gente começar cada
- 0:32episódio a gente apresenta um pouquinho.
- 0:34Então vou contar para vocês um pouquinho quem é Aline bei e
- 0:36quem é André del foego? É a Aline bei.
- 0:39Ela é escritora, formada em letras pela PUC São Paulo, em
- 0:42artes cênicas pelo teatro escola celie.
- 0:44Helena é autora de 3 romances OP OPA, 3 romances, o peso do
- 0:49pássaro morto, pequena coreografia do adeus e o mais
- 0:52recente, uma delicada coleção de ausências que vai ser lançada
- 0:55agora em 2025. Independente quando vocês
- 0:57tiverem ouvido o episódio, ele já foi lançado.
- 0:59Inclusive, todos estão publicados pela companhia das
- 1:01letras. Agora, em uma espécie de
- 1:03trilogia involuntária, o peso do pássaro morto recebeu o prêmio
- 1:07São Paulo de literatura e o prêmio toca enquanto pequena
- 1:10coreografia da Deus foi finalista do prêmio Jabuti.
- 1:13Tô aqui também com o André del fego, que é escritora e mestre
- 1:15em filosofia. É autora de diversos livros,
- 1:17passando pelos romances, contos, livros infantis e juvenis.
- 1:21Ela é autora do romance us Malaquias, vencedor do prêmio
- 1:24José Saramago, publicado em diferentes países.
- 1:26Eu nem vou falar quantos aqui, porque são muitos.
- 1:29A gente pode falar um pouquinho disso na conversa.
- 1:31E autora também das miniaturas, publicado em outros países além
- 1:34do Brasil. Em 2022, a autora publicou o seu
- 1:37mais recente romance, a pediatra, livro que tem recebido
- 1:40boas críticas ao longo dos anos e parte de um mote inusitado,
- 1:43que eu gostei bastante, né? Que é uma personagem central.
- 1:45Ela é médica pediatra e não gosta de crianças.
- 1:48Inclusive essa questão da medicina está muito presente aí
- 1:50nos livros da Andréia. A gente pode conversar um
- 1:52pouquinho sobre isso também, sejam bem vindas a vocês 2 estou
- 1:55muito feliz de ter esse encontro.
- 1:56Acho que vocês têm uma energia que de alguma forma converge,
- 2:00combinam muito, então bem vindas a elas na escrita.
- 2:02Obrigada Isa, muito feliz de estar aqui com você.
- 2:06De ângulo. Não é, gente?
- 2:10E pensando muito em vocês 2, eu tava contando um pouco aqui pra
- 2:12Aline que nessa temporada, antes de pensar em cada episódio, eu
- 2:16tenho pensado muito nessas duplas que combinam.
- 2:18E eu fiquei pensando muito em vocês, porque eu acho que vocês
- 2:20de alguma forma combinam numa energia de como estar no mundo
- 2:24através da escrita. Por isso eu fiquei pensando
- 2:26muito nesse episódio, dessa escrita como parte do cotidiano
- 2:29e parte dessa autora que tá ali vivencia essa escrita e como
- 2:33experiência. Mas vocês tem caminho.
- 2:35Muito diferentes também. Eu acho isso muito legal.
- 2:38Por exemplo, lendo vocês 2, eu já li bastante da Andréa, eu li
- 2:41por exemplo, romance, já da Andréa pediatra e li os
- 2:44Malaquias, ele também. O juvenil recentemente que você
- 2:47relançou, fez questão de ler também, e li os 2 livros da
- 2:50Aline e tô lendo agora, o mais recente dela.
- 2:53E o que eu vejo é uma diferença, às vezes até no projeto de
- 2:56escrita, por exemplo, a Aline parece que foi criando um
- 2:59projeto de escrita ali, muito conectado nesses 3 livros.
- 3:03Não sei se isso foi pensado ou se foi.
- 3:05Acontecendo. E a Andréia tem um projeto que
- 3:07me parece muito diverso, né? É passando pelo infantil, pelo
- 3:10juvenil, pelo romance, pelos contos.
- 3:13Eu queria perguntar para vocês 2, enquanto escritoras, como
- 3:16vocês pensam nesse projeto de escrita, se isso foi
- 3:19conscientemente pensado, como conectar esses livros ou como
- 3:23experimentar coisas novas, ou se isso foi se colocando para
- 3:26vocês? AA cada escrita, a cada romance,
- 3:29a cada novo projeto. Por favor, amada.
- 3:35AI, gente, que delícia, viu? É, tô aqui me embalando aqui, ó,
- 3:39nessa academia aqui, pra falar sobre a coisa que eu mais adoro
- 3:44e estar com escritoras e com pessoas que pensam também sobre
- 3:48isso. É, teve um momento.
- 3:51No primeiro momento, os 3 contos, é os livros de contos.
- 3:55Então eles se chamam minto enquanto posso nego tudo e
- 3:58engano seu que eu também percebi uma trilogia involuntária lá
- 4:02atrás. Porque aquilo foi acontecendo e
- 4:05eles convergem. Eles tem uma linguagem parecida.
- 4:09Tem lá uma pesquisa de dos contos muito Breves.
- 4:12Eu fui uma leitora muito apaixonada por, enfim, textos.
- 4:19É Breves Dalton Trevisan, que esse ano faz 100 anos de seu
- 4:22nascimento e que tá tendo toda sua, sua, sua, sua, sua obra
- 4:26reeditada agora nesse momento pela todavia, é é um cara que
- 4:31que que. Que mostrou ali AO corte a faca
- 4:37AAA esse texto. Esse texto em é, em pequena
- 4:42extensão, como algo como um retalho, como uma fotografia de
- 4:48impasse. Uma e atualmente estou chamando
- 4:52isso de ficção súbita. Estou dizendo isso porque um
- 4:55desses desses textos, um desses livros, o nego tudo, foi uma
- 4:58edição confidencial de 107 exemplares.
- 5:02Da editora fina flor, da da Cristina, da Cris Lisboa, que
- 5:06era editora e escritora e era editora época e era um livro
- 5:10artesanal, assim, pra enfim, 107 exemplares, eu sabia exatamente
- 5:15sei onde está cada exemplar. Olha só, e?
- 5:18E foi esse que, pensando em reedição dos meus contos, que
- 5:22são muitos, muitos outros é maiores publicados em antologias
- 5:27e uma novelinha que ganhou um prêmio 2008 da do Ministério da
- 5:30educação. Chamado literatura para todos.
- 5:35Quando eu olhei para tudo assim, uma produção de mais de 20 anos,
- 5:39né? A editora olhou para o nego
- 5:41tudo, eu falei, não é isso aqui. Ela achou que aquilo tinha uma.
- 5:45Eu fiquei pensando muito nisso, porque eu não olhava para
- 5:47aquilo, como se aquilo eu não enxergava mais naquele texto
- 5:50escrito com 30 anos, eu tenho 50, só que a minha editora tem
- 5:5330, e daí ela isso aqui me diz, eu falei, uau, né?
- 5:58Então eu passei agora os últimos meses.
- 6:01É atualizando, não sei como dizer.
- 6:05Acho que não é essa palavra. Eu estou entendendo ainda um
- 6:06pouco o que é isso, mas revisitando colocando inéditos,
- 6:10inéditos, que tem uma embocadura parecida, inéditos, que vão para
- 6:14um outro lugar. E, enfim, é, estou estava
- 6:19mexendo com esse arquivo agora há pouco, então por isso que eu
- 6:21estou. Nossa, deve ser muito bom mexer
- 6:24com uma escrita de tanto tempo atrás.
- 6:26É quase encontrar uma outra versão, uma escrita.
- 6:29Com libido torando, sabe, era uma outra, eu tenho uma libido
- 6:33outra agora não, aquela também é, mas tinha uma outra ali,
- 6:37tinha uma urgência, então tudo é muito violento mesmo falando de
- 6:41amor, sabe? É uma coisa da e 30 anos é um
- 6:45lugar mesmo. Eu nunca vou esquecer de uma
- 6:47amiga a escrita olivana Arruda leite, que dizer assim, bom, 30
- 6:50anos é o seguinte. Desse ponto, dá para você
- 6:53começar tudo de novo e ser muito boa naquilo que você vai
- 6:57começar. É diferente de recomeçar os 40
- 6:59ou 5030 anos. É ali, ou vai ou vai para qual
- 7:06lado que você vai, né? E eu tinha e era escrito nesse
- 7:10nesse lugar assim, muito trêmulo, sabe?
- 7:14E foi muito legal revisitar. Você fez uma pergunta, eu fui
- 7:17para outro. Lugar, eu adorei esse lugar,
- 7:19justamente quando a gente vai conversando, porque acho que é o
- 7:22que tá mais presente com você agora, né?
- 7:23E isso é muito legal porque, por exemplo, não sei como é para
- 7:26vocês, acho que da Aline os livros são mais recentes, mas eu
- 7:29tenho um livro que eu escrevi há uns anos atrás que eu, gente, eu
- 7:32leio, eu falo, quem é essa pessoa, pelo amor de Deus?
- 7:35Então eu não sei se isso bateu em você, já até tá essa escrita
- 7:38que que parece para mim, parece isso desconectada com quem eu
- 7:42sou, mas ao mesmo tempo eu falava, não, ela faz parte dessa
- 7:45escritora, dessa. Isabela, que tá aqui hoje em
- 7:47dia, né? Se não fosse aquele primeiro
- 7:48livrinho, eu não estaria aqui. Então deve ser muito maluco
- 7:51revisitar esses textos para trazer hoje em dia, mas ao mesmo
- 7:53tempo você se encontra com outro lado seu enquanto escritora, né?
- 7:57Não, EE. Você fica muito estrangeira do
- 7:59próprio trabalho. Então, tem textos ali que eu sou
- 8:01uma leitora, eu sou uma leitora, uma pessoa que tem 20 anos a
- 8:05mais do que aquela e que lê assim, sou leitora.
- 8:09EE é incrível. Isso tem a ver com acho que você
- 8:13tá perguntando, que é que você diz que você nos vê assim, que
- 8:17eu acho lindo, de uma entrega absoluta escrita e a literatura.
- 8:21Eu enxergo isso na Aline também. Eu admiro isso.
- 8:23Incrível que a Aline. Ela cultua o processo e eu faço
- 8:28exatamente a mesma coisa e acho isso assim o equivalente.
- 8:33Equivalente a nada, não tem equivalente ao processo de
- 8:36escrita, porque depois, quando a Aline tá aqui com o livro dela,
- 8:39tá lançando seu terceiro romance, eu tô aqui, vou
- 8:42publicar outra vez, relançar um trabalho, escrevendo um novo.
- 8:47Mas quando ele tá com a capa, quando ele já tá um objeto, ele
- 8:51já não é mais o processo, né? É uma outra coisa.
- 8:55É uma conversa com o mundo, com o livro, que também é poético,
- 8:58que também é. Um escândalo, uma coisa
- 9:03estrondosa, mas não é o processo de escritas.
- 9:06Completamente apaixonada por isso.
- 9:07EE depois vieram os textos, todos muito diferentes um do
- 9:10outro, só pra fechar, né? Porque então nos os contos lá
- 9:14atrás, eles tinham uma ligação, mas eu encontro nos contos.
- 9:19É o que me fez escrever Malaquias e encontrei também.
- 9:24Tem um conto de um pediatra vampiro.
- 9:26Olha só, então ele já estava por ali, né ele?
- 9:29Pegava enquanto a mãe ficava esperando na antsala ele pegava.
- 9:33Para. Fazer exame de sangue, ele já
- 9:34pegava umas ampolinhas para ele, já estava ali.
- 9:37O próprio pediatra e outras esquisitices também.
- 9:41Olha só que. Beleza, eu aqui pensando um
- 9:44pouco nisso que a Andréa tá falando, pensando tanto nisso
- 9:47que ela tá falando. Eu tive essa experiência com o
- 9:49pássaro agora, né? Porque ele tem 8 anos, ele vai
- 9:51fazer 8 anos em setembro, e ele foi um livro que eu escrevi
- 9:55dentro de uma oficina, é fiquei muitos anos sem reler, porque eu
- 10:00não sou motora que releu, o próprio trabalho eu tenho.
- 10:02É, como a Andréa falou, uma obsessão pelo processo, e o meu
- 10:06processo é muito longo, muito concentrado.
- 10:08E depois que eu termino, também eu tenho uma vontade de sair.
- 10:12É EE, de certa forma, isolar. Sabe o que eu sou e o que o
- 10:17livro se tornou, que é sempre muito aquém do que eu desejava
- 10:20que ele se tornasse. Por outro lado, é um objeto
- 10:23vivo? É, é uma grande, é um grande
- 10:26tecido, cheio de da sua própria, do seu próprio temperamento, e
- 10:31não adianta muito você tentar fazer com que ele se transforme.
- 10:34Então acho que a saída, a escapatória, o lugar onde eu
- 10:38fico. Desassossegada iniciando um novo
- 10:40processo, né? Mas há também um espaço de limbo
- 10:43entre essas coisas, que é um espaço de tentar encontrar, né?
- 10:47Qual é a próxima obsessão que, de certa forma, é a mesma sempre
- 10:51para mim. Então, quando eu retomei AO
- 10:53pássaro, agora para publicar pela companhia, eu tive a chance
- 10:57de mexer no texto e eu recusei essa chance, porque também eu
- 11:01acho que é tentar deixar o trabalho melhor.
- 11:06É uma violência imensa com o tempo que ele tem, com as
- 11:09escolhas que ele fez, porque a potência, as as irregularidades,
- 11:13os desvios fazem parte também da força daquele trabalho naquele
- 11:17tempo. Então eu respeito eu, eu eu
- 11:19entendi que o livro é um objeto à parte de mim.
- 11:22Eu acho muito bonito quem retrabalha o texto, a Lygia
- 11:24Fagundes Telles, fazia muito isso, né?
- 11:26É escrevia e reescrevi e reescrevi infinitamente.
- 11:29O texto é nosso, a gente faz o que a gente quiser com ele.
- 11:32Mas eu fico com essa impressão mesmo de que eu não saberia
- 11:34mais, não tanto pelo assunto, porque como a gente tá
- 11:38conversando aqui, os meus 3 primeiros livros, eu não sei o
- 11:40que será daqui 10 anos, mas eu tenho a impressão que eu sou 11.
- 11:44Autora muito cíclica é, e eu? Eu sou alguém que vem do teatro.
- 11:48Então isso me tira o medo da repetição, porque eu sei que a
- 11:51repetição não existe. Então cada vez que parece que a
- 11:54gente tá voltando pro mesmo ponto, a gente não está no mesmo
- 11:57ponto. E por esse ciclo a gente vai
- 12:00encontrando uma certa diferença, né?
- 12:02Então meu modo de encontrar a diferença é escavando por baixo
- 12:05e não numa espécie de caminhada que se faz é pra uma diversidade
- 12:08de assuntos. Eu não sou uma escritora que vai
- 12:11falar de tantas coisas, eu sei tudo que eu não posso, eu não
- 12:14sei falar. Eu tenho um corte muito
- 12:16profundo, é em relação às coisas que eu não consigo, não sei e as
- 12:20coisas que eu sei, o meu pequeníssimo universo.
- 12:23São muito minhas, é. Então eu acho que a partir dessa
- 12:26investigação que eu posso vir a encontrar alguma universalidade
- 12:29nesse jogo é que eu vou fazendo, né?
- 12:32É, não me incomoda, eu acho que é possível, tudo, tudo pode ser
- 12:34interessante para o leitor e para leitora, mas eu preciso é
- 12:38fazer os pactos com meu processo, né?
- 12:40Da maneira como a minha escrita, eu sinto que ela ganha mais, é
- 12:43fertilidade, eu preciso escutar a escrita, a escrita, eu acho,
- 12:46como a vida também é um tecido inteligente.
- 12:48Que também tem seus próprios temperamentos.
- 12:51E muito mais do que impor o que a gente gostaria de se
- 12:53transformar é ouvir o que essa escrita pode transformar a nós
- 12:56dentro desse processo. É, eu acho que tem sido assim
- 13:00até aqui. Legal e eu acho legal que você
- 13:02fala muito assim do livro. Depois de publicado, ele vira
- 13:04quase recenteidade à parte, e isso fica muito claro.
- 13:07Acho que até quando você chama os livros quase como pessoas, é
- 13:11sempre a pequena, o pássaro, a delicada.
- 13:14Eles viram essa, essa pessoa à parte, assim mesmo.
- 13:17Quando você fala, chama os livros assim, e a gente acaba
- 13:20chamando os livros assim também. E acho muito legal quando vocês
- 13:23falam das obsessões, porque a gente fica pensando um pouco
- 13:26nisso, né? O autor, Ah, é, ao longo da vida
- 13:27a gente vai servirar e vai virar e vai virar do avesso.
- 13:30Mas acaba que parece que a gente tem sempre a mesma obsessão, né?
- 13:33Eu comecei a escrever recentemente uma coisa e aí eu
- 13:35falei, caramba, vou pro mesmo lugar de novo, mesmo lugar
- 13:38físico, mesmo espaço. Eu falei, Ah, não tem jeito,
- 13:41esse lugar me puxa e eu queria entender se vocês tentam essas
- 13:44obsessões, a Aline tava falando e quais são essas obsessões que
- 13:48vocês têm e como vocês trazem ela pra escrita dentro dos
- 13:52processos. Vocês falaram muito de
- 13:53processos. Vocês são apaixonados pelo
- 13:55processo criativo, né? Que são 2 momentos muito
- 13:57diferentes, o processo e a publicação.
- 14:00Quais são as obsessões de vocês e como que são os processos de 2
- 14:04escritoras assim tão, tão presentes, tão Fortes?
- 14:08Eu comecei AA perceber que o processo é antes do processo,
- 14:14antes de saber o que vou escrever antes.
- 14:17Assim eu tenho a sensação da ideia, sem saber qual é a ideia.
- 14:22E aí eu tenho começado AA me cercar de coisas antes mesmo é
- 14:25uma coisa muito material. Assim é uma coisa antes de se
- 14:27sentar à mesa, né? E eu tenho um livro que eu
- 14:32escrevi ele por por 10 anos. Cheguei a entregar o livro e
- 14:34peguei de volta. Passo pra cá, você.
- 14:37Entregou e peguei de volta, peguei de.
- 14:38Volta, eu destruí aquele livro, eu sei o que eu fiz com ele,
- 14:42assim eu retalhei, né? Enfim.
- 14:46E eu pensei, é muito esse compromisso também, entende com
- 14:49uma integridade de o fato dele ser aquém daquilo que eu
- 14:55imaginei. Mas ele tá numa distância que eu
- 14:58mal posso. Enxergar.
- 15:00E tem uma contradição nisso, porque eu acho que o escritor
- 15:03não é impossível o escritor ser eleitor do próprio trabalho.
- 15:06A gente está num ponto cego para enxergar, né?
- 15:10E mas, de fato, nunca tive uma relação tão intensa com um
- 15:13processo como esse. Coloquei ele na gaveta outra vez
- 15:17para começar um novo. E durante esse mesmo trabalho,
- 15:20foi quando eu parei para escrever a pediatra.
- 15:24EE, foi um trabalho, é um. É um trabalho que me angustiava
- 15:27tanto gente assim. Angústia, veja bem, angústia de
- 15:30criação não é ninguém, morreu ninguém não é?
- 15:34Era, mas era uma. É o tema.
- 15:39Me me encurralava demais, acho que.
- 15:41Essa obsessão um pouco que a gente tava falando, né?
- 15:44É EEE, eu tava tão encurralada. Que quando eu falei não, não,
- 15:49não, não, para, para, para, para, abriu um outro Word.
- 15:51E eu já fiz isso várias outras vezes.
- 15:53Os Malaquias foi escrito durante o cansaço de um outro livro que
- 15:57foi infanto juvenil, sociedade de caveira de cristal, que foi
- 16:00relançada agora pelo selo escalat da companhia das letras.
- 16:04E aí a pediatra, eu comecei a fazer pesquisa do primeiro
- 16:07parágrafo porque eu acho que o primeiro parágrafo, ele é o
- 16:10software que se instala, porque daí você vai pela ordem interna
- 16:15das coisas, um texto que começa com.
- 16:17Mas hã? E aí você vai tentar responder
- 16:20as questões que você mesma colocou, que você instala ali.
- 16:23E fiquei alguns meses nos mesmos parágrafos e escrevi em 1 mês,
- 16:28uma coisa represada, 11 jogo. Uma coisa é, é saindo daquela
- 16:36métrica. O tema me deu uma métrica.
- 16:40Sabe que eu testei por diversas formas, esse livro que tá numa
- 16:43gaveta, eu fiz ele em primeira pessoa, em terceira pessoa,
- 16:45depois eu pensei, eu vou tirar o realismo mágico daqui, e falei,
- 16:48mas o que que é o realismo mágico no meu trabalho?
- 16:51Fui lá, olhei, bom, as metáforas, aí lança chamas, as
- 16:54metáforas. Pensei também, prosa poética,
- 16:58tchau, prosa poética. Fui fazendo exercícios, né?
- 17:01E fiquei 10 anos sem publicar, e isso assim eu sinto de verdade
- 17:07assim um. Fico feliz de ter dado dignidade
- 17:11ao processo, entende? Uma dignidade assim pra, pra e
- 17:17quando é, passo pra um outro. E durante esse processo, por
- 17:22exemplo, vou só te contar uma coisa dessa, coisa de preparar o
- 17:25ambiente fora ainda do texto. Eu tava com muita, muita dúvida
- 17:28de um personagem sobre quem ele era.
- 17:32Eu dava voz a ele assim, mas ele, quem é você?
- 17:36É, tem alguma coisa muito, muito, tem muitas arestas aqui e
- 17:42eu não tive dificuldade de fazer os outros livros, mas esse assim
- 17:46me exigiu muito. Fui ao pai de Santo que eu já
- 17:49frequentava, minha mãe me levava, eu sou eu, eu frequento
- 17:53religiões como leio livros, entende?
- 17:55Não sou alguém que tá numa igreja, nada disso assim, mas ok
- 18:00no pai de Santo. E aí perguntei pro pro pro pro
- 18:03pro pai Joaquim, que era entidade.
- 18:06Eu expliquei que eu estava escrevendo um livro, que tinha
- 18:09uma personagem e tal. Eu queria saber quem era A
- 18:12Entidade entendeu que aquilo não era um falecido, um parente que
- 18:15morreu não era. E falou como um personagem e fez
- 18:19um ponto riscado do personagem cota.
- 18:23Estou fazendo filosofia, mestrado, vou fazer aula de
- 18:25linguística e sou apresentado ao quadrado semiótico que eu falei,
- 18:30isso aqui é o ponto riscado, que é a coisa da da, da enfim, da
- 18:34concepção. E da produção de de, de de
- 18:36sentido, né? Da geração de sentido, né?
- 18:39É, ou a gente pode falar de muitas formas, mas eu vou
- 18:44colocar uma palavra aqui que podia estar no ponto riscado e
- 18:48no quadrado, semiótico, a pulsação, a respiração.
- 18:52AA lufada, sabe? AAA do texto EE aí?
- 18:58Isso eu acho sensacional. Então, por exemplo, agora eu
- 19:02estou me rodeando para o próximo processo, estou procurando
- 19:04coisas, achei já. Então, porque eu estava
- 19:08escrevendo o roteiro, não podia escrever caminho 40 minutos por
- 19:12dia. E comecei a gravar áudios sobre
- 19:14o que é o livro misturado com voz.
- 19:16E eu fazendo a voz de uma personagem, depois fazendo a voz
- 19:19de outra, depois uma outra gravação corrigindo a voz
- 19:22anterior e depois a outra dizendo não.
- 19:24Acho que no capítulo 2 eu acho que não é esse cara aqui.
- 19:29E aí eu transcrevi tudo, tem lá 50 páginas.
- 19:32Eu bati o olho, eu falei, e se isso e se foi isso aqui, tudo
- 19:36junto. Aí eu falei, não, não, não vai
- 19:37dar pra ser tudo junto. Vou entender o que é isso.
- 19:40Mas misturado a uma pesquisa de campo, que eu de fato nunca
- 19:44havia feito, que a pediatra não fiz pesquisa de campo, eu não
- 19:47fui a maternidade, que é ir a uma emissora de televisão e
- 19:51acompanhar as gravações. Pra ver como cada processo é um
- 19:54processo, né? Também é.
- 19:55Como as pessoas quietinhas no lugar, ouvindo como as pessoas
- 19:58respiram? Num suíte, sabe?
- 20:02Então assim, completamente apaixonada, eu acho.
- 20:05Acho uma imersão absurda e recolhendo leituras que possam.
- 20:12E aí eu fico naquelas leituras, não leio nada mais ao redor.
- 20:15Eu fico naquele ambiente daquelas leituras.
- 20:19Então tem esses rituais, né? Criando uma espécie de película,
- 20:24né? Em cima do do interesse uma algo
- 20:26que vai entrando no. Aquecendo é porque eu também
- 20:30acredito que a escrita ela, a Andreia falou, né?
- 20:33O processo anterior ao processo, a escrita é um acontecimento que
- 20:37se dá em muitos tempos e em muitas ações diferentes.
- 20:41Eu costumo chamar a escrita, não é só o momento onde a gente
- 20:45realmente transcreve, né? Alguma emoção, algum
- 20:48pressentimento, a gente usa linguagem, a escrita, para mim,
- 20:51ela é um estado e esse estado todo ele precisa ser respeitado
- 20:54nas suas fases e ciclos. Eu acho que para.
- 20:57Pra pra eu me aproximar de alguma coisa é eu preciso
- 21:00lentamente ir me educando para aquilo.
- 21:03É encontrando as memórias que são compatíveis com aquele
- 21:06processo, os livros que vão me ajudar a encontrar linguagem
- 21:10desse trabalho, os filmes que de certa forma vão trazer imagens
- 21:14para os meus sonhos, as músicas que vão mostrar a respiração do
- 21:18que eu quero fazer. E tudo isso vai se misturando de
- 21:21uma forma muito orgânica dentro de mim, até que de repente isso
- 21:24assenta. E quando eu começo a escrever,
- 21:26eu estou muito aquecida. De todas essas coisas que eu
- 21:29engoli. E aí eu vou fazendo as minhas
- 21:31versões, que duram muitos anos. Mas é profundamente prazeroso
- 21:35descobrir. É o que tem me assombrado,
- 21:37porque é sem nome, pelo menos para mim.
- 21:39E depois que você termina o processo, não é que você
- 21:42resolveu? Muito pelo contrário, me parece
- 21:44que a coisa ficou ainda mais profunda, mais grave.
- 21:47E eu gosto da palavra obsessão, uso nas minhas oficinas porque
- 21:50eu acho que a obsessão, ela tem uma força de te envolver.
- 21:54Nos poros dela, EEE você. Eu sinto que a escrita, quando
- 21:58ela realmente acontece, é quando a gente sai da frente da
- 22:01escrita, quando a gente para de querer certas coisas, né?
- 22:04Que nem quando a gente tava conversando aqui é no início,
- 22:07sem gravar, que você falou, bom, agora é uma terceira pessoa, é
- 22:09mais fácil. Foi o que foi possível, foi uma
- 22:12escolha do texto. Então, se fosse uma escolha de
- 22:14fora, para mim não seria orgânica, se é alguma coisa que
- 22:17eu impus no jogo. Mas quando a obsessão vem, ela
- 22:21impõe as suas regras a você e aí você precisa é, enfim, tentar
- 22:25dar conta dessas novas demandas que vão surgir.
- 22:28É quando eu comecei a pensar em publicar.
- 22:32Que foi na oficina do Marcelino. Antes eu escrevia muito,
- 22:34publicava na internet, mas eu imaginava que publicaria mais
- 22:37madura, porque eu achava que isso IA me salvar de alguma
- 22:41coisa. Tinha essa impressão de que o
- 22:42processo era linear e que a gente evoluindo e evoluindo até
- 22:46chegar no momento onde a escrita seria.
- 22:48Como eu imagino que eu que eu gostaria que ela fosse a minha
- 22:50escrita, é. Mas ali na oficina do Marcelino
- 22:53eu desmontei isso muito rapidamente e eu comecei a olhar
- 22:55para os textos curtos que eu tava escrevendo até aquele
- 22:57momento. Eram quase 10 anos de produção
- 22:59de textos mais curtos. Lendo e relendo esses trabalhos
- 23:03com essa distância maravilhosa que a gente precisa ter do nosso
- 23:05próprio texto, a único. A única chance que a gente tem
- 23:08de ser minimamente um leitor de nós é com essa distância, porque
- 23:12ler quando a gente tá trabalhando é a coisa é muito
- 23:14próxima, a gente não vê nada. O que a gente vê é o desejo do
- 23:18que a gente quer que aconteça, né?
- 23:19Mas vê pouco texto em si, a gente tá muito conectado com
- 23:22aquilo, então olhar com essa distância foi importante.
- 23:24Eu fui encontrando meus símbolos.
- 23:26Que não são exatamente o nome da minha obsessão.
- 23:28Minha obsessão não tem nome, ela é 11 bicho noturno, úmido, que
- 23:32fica num porão, que é esse lugar que eu chamo não tem nome, mas
- 23:35eu tenho alguns símbolos que me ajudam nesse caminho, nessa
- 23:38travessia, e o pássaro, por exemplo, é um deles, o pássaro
- 23:41Canário, não grandes aves, mas pequenas aves, é o cão também, o
- 23:46cachorro, né, como um objeto 111, símbolo, não, um cachorro
- 23:50não no mundo, né, animal, mas como um símbolo dentro da
- 23:53narrativa do que é do México e selvagem, simultaneamente.
- 23:57Esse limiar, né? Que o animal tem é a perda, que
- 24:00é um verbo que é muito recorrente no meu trabalho e não
- 24:03só no assunto das minhas personagens que enfrentam essas
- 24:06faltas, mas também na minha própria forma, que é uma forma
- 24:10fragmentada. Mas esse fragmento é esse
- 24:13silêncio, essa ruptura que eu comecei a entender que a minha
- 24:16forma e o meu conteúdo estavam é de uma maneira tão conectados
- 24:19que eu não conseguia mais separar, né?
- 24:21Ela Foi se fortalecendo na sua fragmentação.
- 24:24Então o pássaro é ele tem uma fragmentação inicial, a pequena
- 24:28também, mas é um pouco menos. E esse livro agora delicado, a
- 24:31coleção de ausências, eu encontrei um fôlego de frase que
- 24:35até a mim é. Houve um estranhamento porque eu
- 24:38sempre imaginei que a minha frase se interrompia e de
- 24:41repente a minha frase começou a ganhar um fôlego e eu fui
- 24:44tentando vencê la com pontuações, feri la com
- 24:48pontuações, mas ela IA avançando com uma.
- 24:51Uma beleza mesmo. 111 força que eu não conhecia.
- 24:55E aí quando eu parei de feri la, o livro aconteceu.
- 24:58Então tem muito, muito aprendizado, né?
- 25:00Em todo esse processo, tem um mistério aí também que é super
- 25:03difícil de colocar em palavras. E tem esse lado do mistério que
- 25:07acho que até o que que vocês trazem desse pensar, né?
- 25:10Escrito o quanto? É difícil a gente tentar
- 25:12explicar. E eu vi que vocês 2 se cercam
- 25:14muito então, né, com esse processo criativo tão longo, por
- 25:17anos. Mas uma curiosidade que eu
- 25:18tenho. É esses processos de escrita que
- 25:21me parecem para vocês. Às vezes estão esse, se colocar
- 25:24num espaço, talvez se fechar, está num lugar mais só seu, para
- 25:28poder pensar e entrar nesses lugares.
- 25:29Como é para vocês hoje que vocês 2 são autoras muito presentes
- 25:34num movimento, num fluxo muito intenso que a gente tem hoje em
- 25:36dia? Que assim eu vejo muito vocês em
- 25:38bate-papo, em evento, em podcast, debatendo o livro e as
- 25:42pessoas então debatem muitos livros de vocês e perguntam
- 25:46muito sobre eles. E eu queria entender como é, já
- 25:50que tem um pouco esse estranhamento de quando se
- 25:52escreve, de não saber tanto explicar e vocês são muito
- 25:55colocadas nesse lugar do não vamos pensar, vamos refletir
- 25:58sobre isso. Como que isso afeta o processo
- 26:00de escrita de vocês? Afeta de alguma forma ou ou
- 26:03vocês conseguem separar esse lado de não?
- 26:05Agora a gente vai conversar, vai refletir sobre os livros e
- 26:08depois eu vou me fechar, vou me colocar No No meu cantinho, ali,
- 26:11eu e eu mesma, para poder escrever.
- 26:13Como vocês conseguem dividir esse lado da escritora mais
- 26:16interna com essa escritora que tá tão presente no mundo?
- 26:21Boa pergunta, é uma elasticidade adquirida, uma elasticidade
- 26:28adquirida? É porque a conversa sobre AAA
- 26:33Aline dá oficinas, eu dou oficinas também.
- 26:36EEE. Isso é um exercício da da
- 26:42nomeação, do que tá acontecendo no processo, não só seu, que
- 26:46também eu acho que ele é cego para gente, mas do alheio.
- 26:50Assim, a coisa acontecendo na sua frente.
- 26:52Assim, um processo, um exercício que é o mesmo comum.
- 26:56Para repertórios distintos e os textos serem completamente
- 27:00singulares, o que para mim é uma pesquisa de campo.
- 27:03Ao mesmo tempo. Assim, as oficinas, para mim, é
- 27:05um ato literário. Você percebe a singularidade
- 27:10ali? É impressionante.
- 27:12Eu fico sempre impressionada com o surgimento dos textos ali, na
- 27:15sua, no seu tremor, na sua, no seu início, na sua inauguração,
- 27:20sabe? As pessoas se inauguram
- 27:21escrevendo. Você vê isso principalmente para
- 27:24quem não havia ainda Descoberto exatamente o estado de escrita,
- 27:31porque é um estado que você, que eu acho que significa
- 27:35fisicamente uma concentração sustentada por muito tempo e
- 27:39longamente retomada. Existe 11 lugar cerebral.
- 27:45Mesmo assim, é uma coisa física de você sustentar aquela
- 27:48concentração. Tem pessoas que acham, por
- 27:50exemplo, que tá com bloqueio criativo, mas na verdade ela
- 27:53bloqueia. Quando dá um vaziozão assim, tem
- 27:56um vento vazio, assim bufo, mas a mas a concentração não é hora
- 28:00de você se desligar daquilo, é de manter, porque ali que a
- 28:04coisa vai vir, as compotas abriram, entende o vento é
- 28:08porque ela tá aberta, sabe? Um vento vazio pra lembrar.
- 28:13Nossa. Mas muito legal essa imagem
- 28:17mesmo não ter medo desse vazio, né?
- 28:19Não, não. E vazio parece uma coisa parada,
- 28:22o vazio, porque ao mesmo tempo é um vazio e é uma multidão tão
- 28:27embolada, sabe? É que eu acho isso.
- 28:31Eu acho que isso torna o ato de escrita uma droga pesadíssima,
- 28:35um vício, porque é aquele barato outra vez e você se acostuma com
- 28:40isso. Assim, não é que se acostuma,
- 28:42ele fica um pouco mais acessível, né?
- 28:44É, então acho que existe. Não há nenhuma definição sobre
- 28:48literatura, que dirá sobre como se faz um livro, como se
- 28:52escreve, se faz literatura. Cada um vai descobrir o seu
- 28:54próprio. Cada decisão atrai uma técnica,
- 28:58a decisão ela atrai a técnica, então você nem tá se dando
- 29:03conta, você decidiu OX, aquilo vai começa por um diálogo,
- 29:08decidiu OY aquilo começa em primeira pessoa, ela a técnica
- 29:12vem. Então, assim, o recurso da
- 29:14língua, ela está embicada ali, né?
- 29:17São as 2 coisas ao mesmo tempo, né?
- 29:19A vontade de algo, não sabemos o qual que é aí da escrita e você
- 29:23não é não é um assobio, né? Não é, não é uma dança, né?
- 29:27Você vai trabalhar com a língua e aí aquilo que quer ser dito
- 29:31vai pressionar a língua para chegar na linguagem, qual você
- 29:38também. Não tem esse controle.
- 29:41Você falou do cachorro doméstico e selvagem?
- 29:47Exatamente que eu me imagino. E, por exemplo, quando eu estou,
- 29:51eu sei que eu estou nesse lugar um pouco cego.
- 29:58Até se procuro o lugar do ponto cego mesmo assim pra pra
- 30:01escrever quando eu percebo que eu tenho hesitações, mas sem
- 30:07perder a concentração, né? EE aí eu penso, bom, entrei,
- 30:13entrei, entrei no fio da meada. Eu já reconheço estado
- 30:17psicológico assim, um estado mental que me dá sinal de que eu
- 30:21entrei no livro. Isso é lindo.
- 30:23Isso assim é, é sei lá como uma corrida, tem um corpo, tem um
- 30:29corpo aqui. Né?
- 30:31Outro dia eu brinquei com perguntei para você, né?
- 30:33Eu falei, é, você já reparou em que posição você escreveu cada
- 30:36livro? Porque a pediatra eu escrevi com
- 30:39peito na tela, assim é ele. É só uma posição de corpo,
- 30:43literalmente assim é. Os Malaquias era uma coisa, mas
- 30:48era uma coisa. E a enunciação que não se trata
- 30:51do Narrador. O enunciador é pressuposto pelo
- 30:54livro, né? Que seria o enunciador.
- 30:57Quem? O histórico biológico.
- 31:00A linguística tenta entender isso também.
- 31:03Imagine a gente. A linguística não chegou lá.
- 31:05Imagina. É quem somos.
- 31:07Quem somos nós? E quem sou eu para falar se a
- 31:10linguística xô ou não? Oi, linguistas, tudo bem?
- 31:13Está tudo bem. É só uma escritora que leu um
- 31:15pouquinho de linguística, só só. Mas eu me perdi, eu fui para
- 31:24coisa da linguística. A gente nossa, até eu estou
- 31:27tentando lembrar. Aqui é por onde a gente chegou
- 31:29nesse ponto, a gente foi abrindo várias janelas, abrimos muitas,
- 31:32porque. Foram muitas janelas.
- 31:33Agora, o caminho de volta tem que ser o.
- 31:35Corpo da escrita. Em que corpo?
- 31:37Que estado o teu corpo está perto, o peito perto da tela,
- 31:40né? Aí?
- 31:41Lembrei, a gente começou um pouco por conta até desse espaço
- 31:43mais interior e esse espaço tão externo também que vocês ocupam
- 31:46do movimento e tudo. Não lembrei, lembrei porque essa
- 31:50enfrentar a língua pra pra chegar na linguagem, né?
- 31:54Do próprio livro. E eu acho que isso tem.
- 31:56Sensações físicas, mas é isso, acho que enfim.
- 32:00Mas tem. Tem mesmo você falando assim, eu
- 32:02comecei a pensar um pouco nisso, que eu acho que quando a gente
- 32:06descobre pela primeira vez, você falou isso das oficinas, eu
- 32:09também passei pela oficina do marcelini.
- 32:11Talvez por mais que eu tivesse, é escrevendo em outras fases da
- 32:15vida. Já acho que foi a primeira vez
- 32:16que realmente me deu essa sensação de.
- 32:19Esse susto, quase como se eu encontrasse esse estado e que
- 32:22hoje, quando eu encontro esse estado de novo, eu entendo que,
- 32:25nossa, espera aí, alguma coisa chegou.
- 32:28Talvez a gente entrou nesse espaço da escrita, né?
- 32:31É quase um pouco no corpo mesmo, quase não.
- 32:33Ele é no corpo, né? Existe 11, sensação física, uma
- 32:36experiência física. É que eu não quero falar, a
- 32:39gente está. Viajando hoje a gente está
- 32:41super. Filosófica, a fotografia que eu
- 32:43acho que tem a ver com essa ideia, por exemplo, da
- 32:45enunciação, de como você entra no texto, que é isso que eu
- 32:47tenho reparado, como eu entro, como é o embarco, né?
- 32:52E a fotografia, ela dá é, ela te dá visão, né?
- 32:58Te dá um ângulo. Então, por exemplo, você vai
- 33:00escrever sobre guerra? Eu adoro o site americano Magno.
- 33:05Que tem Magno photos, que tem uma coleção dos clássicos da
- 33:10fotografia aos contemporâneos. Você procura por temas.
- 33:13Vai escrever sobre guerra, guerra, uó?
- 33:14Aí vem dos clássicos lá os franceses lá de trás, ao
- 33:20venezuelano aqui, o ano, o ano passado, e você coleta.
- 33:25Todo olhar dele. Eu pego assim, umas 1520 fotos
- 33:28de cada artista. Assim, escolho uma delas, sim,
- 33:31enquanto um retrata uma visão aérea da guerra, outro do ponto
- 33:34de vista da Granada, o outro está debaixo de um caminhão, tem
- 33:38um outro que não está exatamente no lugar, mas está na casa da
- 33:42mãe de um soldado que foi embora e olha a foto, tudo isso te te,
- 33:47te da. Perspectiva, né?
- 33:49Da perspectiva da da imagem partindo ali para dentro do
- 33:52livro, né? É, é, é que.
- 33:54Também uma perspectiva. Conectiva que também é, que
- 33:57também é decisão, que também é julgamento, que também é
- 33:59técnica. Legal isso me lembrou de uma
- 34:01coisa, uma história abrir uma outra janela, que eu lembro do
- 34:04meu livro quando eu publiquei pela diadorinho lá no ano
- 34:07passado. Não foi fim de 2023, o baixo
- 34:10Paraíso. E eu lembro que eles me pediram
- 34:12uma pasta para referências de para fazer a capa, né?
- 34:15E aí eu fui pesquisando muito fotos da fazenda do meu avô,
- 34:18porque eu IA muito para esse espaço da fazenda do meu avô.
- 34:20E aí eu misturei a fazenda do meu avô, que era em Minas
- 34:22Gerais. Com algumas imagens de Goiás, da
- 34:24Chapada dos veadeiros e tudo. E era só uma pasta de
- 34:27referências. E quando vê é, eles me trouxeram
- 34:30a capa com uma foto minha que eu tinha mandado, que Era Eu na
- 34:34fazenda do meu avô. Eu não tinha falado, eu tinha só
- 34:36jogado lá dentro e eu não, meu Deus, não era para colocar eu na
- 34:40capa, não queria eu na capa. Veio parecer autobiográfico e
- 34:43nem sei se a pessoa que escolheu sabia que Era Eu.
- 34:46Aí eu fiquei um pouco nessa luta, não queria, não queria,
- 34:48não queria, e depois eu aceitei. Olhando essa imagem, as pessoas
- 34:51pegaram ali sem saber. Aquela foto estava eu em cima de
- 34:54um cavalo, tinha um cavalo no livro e logo atrás estava a
- 34:57janela, e era a janela de um quarto, que era o quarto de
- 35:00objetos de montaria da fazenda do meu avô, que foi de onde
- 35:02partiu o livro todo. O livro todo partiu de uma
- 35:04oficina que era dessa frase, quarto de objetos, de montaria.
- 35:07Eu acho que eu até falei pra Andreia um dia que ele IA se
- 35:09chamar quarto de montaria e a pessoa que foi fazer a capa
- 35:12entrou nisso. Pegando a foto, sem saber que
- 35:15era uma foto com a janela do quarto de montaria ali atrás.
- 35:17Aí eu até aceitei. Falei, AI, não tem que alguma
- 35:20coisa existe? Tem.
- 35:22Uma escuta do livro. Sim, alguma coisa ali ela
- 35:24encontrou. Achei isso muito curioso, você
- 35:26falar das imagens. Eu lembrei que.
- 35:28Bonito, bom, assim. A minha relação com o
- 35:29deslocamento, ela é muito positiva, porque eu é antes não
- 35:33viajava, viajava muito pouco e sempre quis viajar muito.
- 35:37É, olhava para as viagens como alguma coisa.
- 35:40É que me lembrava um pouco a leitura também e que eu queria
- 35:43experimentar. Então, a literatura começou a me
- 35:46levar para para conhecer mais o Brasil e até outros países.
- 35:49Isso foi maravilhoso. Eu gosto muito de falar em
- 35:52público, eu adoro conversar. Eu sou uma pessoa bem tímida,
- 35:56mas quando a gente tem uma conversa com um ponto a uma
- 36:00espécie de centro, é, eu adoro. Assim, desmembrar é desdobrar
- 36:05possibilidades a respeito de um determinado assunto.
- 36:07E como eu fui atriz, eu acho que esses momentos são momentos que
- 36:11a minha atriz, que não foi para lugar nenhum, continua em quem
- 36:14eu sou. Adora, se diverte, eu faço ela
- 36:17feliz, me faço feliz mutuamente nesses espaços.
- 36:20Então as experiências tem sido muito boas e eu também sou muito
- 36:23protetora das minhas horas de criação, então escrevo pelas
- 36:26manhãs e tento proteger essas manhãs, especialmente quando o
- 36:29livro vai avançando no seu processo e chegando já é no seu
- 36:33momento quase de publicação. Eu saio pouquíssimo, fico essas
- 36:36horas e muitas horas trabalhando o livro, mas Eu Acredito também
- 36:39que essas saídas, como meu trabalho é literatura, hoje eu
- 36:42vivo da minha escrita, elas me fazem muito bem.
- 36:45Porque de outra forma eu ficaria.
- 36:47É muito isolada, é no meu próprio ofício, né?
- 36:50No fazer mesmo, na feitura do texto.
- 36:52E eu acho que é se deslocar. É uma oportunidade também para
- 36:56que a nossa escrita seja atravessada pelo acaso, pelo
- 36:59outro. É por possibilidades que não
- 37:01viriam se eu ficasse apenas na minha, na minha existência.
- 37:03E o que a minha existência me dá.
- 37:05Eu acho que os cadernos também. Não sei se Andréa gosta, mas é
- 37:0811 recurso lindo para quem se desloca bastante.
- 37:11É não que a minha escrita é do caderno, ela tem qualquer
- 37:14comprometimento com uma escrita um pouco mais, é arrumada em si
- 37:18mesma, é uma escrita de anotação de fagulha e por isso, por essa
- 37:23Liberdade, eu acho caderno delicioso, então você vê alguma
- 37:25coisa já tentar, né? Agarrar aquilo é em uma frase
- 37:29com a tua letra, e eu acho que a letra também é uma coisa muito
- 37:32bonita da gente pensar, porque é AA coisa mais próxima da voz,
- 37:37né? Ela é alguma coisa que a gente
- 37:38não domina, ela tem 111 própria. O próprio humor.
- 37:42Tem dia que a minha letra tá muito mais fechada.
- 37:44Eu mesma não me entendo. Tem dia que a minha letra tá
- 37:46mais aberta, mais jovem. Engraçado, você fala isso que eu
- 37:49acho minha letra péssima. Ah, é a minha letra é super
- 37:52infantil. A minha tem dias e dias e às
- 37:55vezes ela quer guardar o que eu escrevi.
- 37:56Às vezes ela abre mais. Eu estou.
- 37:57Olhando aqui, nossa letra é muito bonita, a letra é de
- 38:00escritora. Redonda, aqui redonda, eu?
- 38:02Acho bonita. Mas ela tem seus dias.
- 38:04É que aqui ela está um pouco. Esse caderno é muito bonito.
- 38:06Então ele impõe, é um. Caderno é um capricho.
- 38:08Sabe o? Caderno impõe, impõe.
- 38:10Vem nesse caderno. Eu lembro que uma época eu fiz,
- 38:13eu fiz o clipe há uns, há uns anos e eu tive, achei eles
- 38:16manioto como uma das professoras, o clipe.
- 38:17E ela falava do cara, não é? Tem muito tempo que ela veja,
- 38:21sei. E foi quando mesmo uma das
- 38:22minhas professoras. O clipe e ela trazia muito uma
- 38:25ideia de caderno como Jardim. Ela fala da gente colocar essas
- 38:29coisas no caderno e você falou disso, né?
- 38:31De não ter um compromisso e mais tarde a gente vai colher alguma
- 38:34coisa ali. Isso deu muito certo para mim.
- 38:36Uma coisa que eu uso muito hoje, de jogar essas anotações, essas
- 38:39ideias. E algum dia eu vou voltar nesse
- 38:41caderno, vai vir muita coisa dali, você.
- 38:43Sabe que eu sinto que para mim, eu não sou muito de voltar ao
- 38:46que eu escrevi e tentar encontrar lá alguma coisa para o
- 38:48meu próximo livro? É como se o exercício da escrita
- 38:51por si só já colocasse uma camada de subjetividade no meu
- 38:55corpo e isso vai encontrar se infiltrar no meu texto mais à
- 39:00frente. Eu não preciso voltar.
- 39:02O caderno grava você. Não usa?
- 39:03Por exemplo, literalmente pegou o caderno e transcreveu para
- 39:06mim. Ele é um gesto, é efêmero tanto
- 39:09quanto uma peça de teatro, por exemplo, não volta.
- 39:12Costuma ser assim, mas eu guardo.
- 39:13Eu tenho guardado eles todos. Não sei se daqui a alguns anos
- 39:16eu vou encontrar alguma coisa lá.
- 39:18Como são cadernos para você? André, de curiosidade e queria
- 39:21até entender, você falou de escrever em todas as manhãs, até
- 39:23puxando um pouquinho disso, eu acho legal.
- 39:25A gente vê que então tem um pouco esse lado também do tem
- 39:28essa parte criativa, essa parte do inexplicável, do não
- 39:30nomeável, mas tem uma parte que é criar uma rotina centavo.
- 39:34Por exemplo, você coloca ali de manhã o que, quantas horas por
- 39:37dia você dedica? Eu não.
- 39:38Eu não fecho em horas assim porque eu tenho meu tempo pra
- 39:41mim, né? Na, na minha.
- 39:42Escrita no geral. Mas eu gosto de amanhã no
- 39:44sentido de que é da do momento que eu acordo até antes de
- 39:47almoçar, que é um estado de corpo diferente depois do
- 39:51almoço. Assim começa a minha digestão
- 39:53depois do almoço, porque a comida é mais leve.
- 39:55O meu corpo, ele, ele ainda é um pouco sonho, tem um dever da
- 39:59cama, tem um estado da manhã que me interessa.
- 40:01Eu acho que a escrita, essas horas da borda do limiar são
- 40:04muito boas, é de madrugada, é que eu sou uma pessoa que eu
- 40:07tenho muito sono, se eu não tivesse tanto sono à noite, eu
- 40:09escreveria de madrugada, mas tem escritores, né, que tem sono,
- 40:13que gostam da noite, então acho um bom momento, amanhã é bom
- 40:15para mim, final da tarde é esse lusco fusco, esse momento, né,
- 40:1956 horas, onde tem alguma coisa de perigo, né, dessa transição
- 40:23de uma coisa para outra é, são horas.
- 40:25Mais excelentes pra escrita. Legal.
- 40:27Como é pra você, André? Eu também.
- 40:28Meu sonho era ser a escritora das madrugadas.
- 40:30Eu não consigo. Eu durmo.
- 40:31Bom, há 14 anos é caótico desde que eu tive filho, porque a
- 40:37rotina mudou por completo. Então eu, por exemplo, fazia
- 40:42auto residências literárias, como me me isolar num sítio de
- 40:48um de um amigo no sul da Ilhabela.
- 40:53Num num Chalé que ele cria galinhas, ele tem.
- 40:57Ele cria galinhas, como se criasse quadros, sabe?
- 41:01Como arte assim, as galinhas tem nomes, ele faz os casamentos.
- 41:06É o Galeno da ilha, um beijo Galeno da ilha.
- 41:11E então eu ouvi, AE é no sul da ilha de Ilhabela, quando você
- 41:15vai para o mar ali. Quando você passa das pedras e
- 41:18você entra no mar e você boia, você boia no abismo, você olha
- 41:22para baixo, tem 30 m de altura e você boia naquilo.
- 41:26Eu não consigo ficar. Não conseguia ficar uns 5
- 41:27segundos assim, me dava uma vertigem.
- 41:29Só que eu tava segura pela física, né?
- 41:33Só que meu cérebro não, não, não se acostumou com isso, mas tudo
- 41:36isso, tudo isso faz desse lugar o lugar perfeito e barulho de
- 41:41mar revolto, com o galo cantando.
- 41:44Que demais. Inacreditável.
- 41:46Então eu IA falar, ficava um mês, um mês escrevendo 10 horas,
- 41:51meu marido fazendo confu nas pedras vivo, sabe?
- 41:55A pessoa tava vivendo e eu num num, sabe, eu, eu estava no mar,
- 42:01eu estava no sol, eu estava nas águas, eu estava nos galos, eu
- 42:06estava só que ali sentadinha. Foi quando eu resolvi os
- 42:11Malaquias, o primeiro romance. E lá escrevi um infantojuvenil,
- 42:15depois escrevi, terminei um outro e tal, tal, tal.
- 42:18Nessa mesma auto residência. Nessa auto residência, e fiz
- 42:22várias vezes isso, várias vezes. E o livro sociedade da caverna
- 42:26de cristal eu escrevi inteiro num caderninho, não façam isso.
- 42:30Olha só, porque passar do caderno para o computador é uma
- 42:34coisa. É uma coisa, não é um áudio que
- 42:36hoje em dia bruf passada a voz, essa voz, letra, a voz.
- 42:42Para aquilo ali foi assim, torturante, mas.
- 42:47Mas aí o meu meu tempo era o tempo inteiro, sabe?
- 42:51Assim eu devia até de vez em quando dava as pausas
- 42:54necessárias. Mas eu me lembro de me levantar,
- 42:57zonza ainda atrás de comida. Não façam isso também.
- 43:01Mas era um. Uma vez difícil.
- 43:04Assim, eu tava me alimentando com aquilo assim.
- 43:09É, e depois, com a gestação, fui mãe mais velha, fui aos fiquei
- 43:13grávida aos 36, tive com quase 37 anos.
- 43:15E aí a rotina mudou completamente.
- 43:17Quando eu fui revisar as miniaturas, eu acordava às 5 da
- 43:20manhã e IA para o computador para a padaria, esperava padaria
- 43:23abrir, entrava lá e ficava lá 1 hora e 62, que era o tempo do
- 43:29meu filho acordar para voltar para casa e amamentar.
- 43:30E aí foi mudando, então cada ciclo da infância, agora
- 43:34adolescência. Eu vou, eu vou dançando para
- 43:41encontrar, sabe ali o que me salva é que esse lugar, essa
- 43:47concentração, eu já estou muito treinada com ela, então eu abro
- 43:52o computador aqui, eu engreno, sabe?
- 43:55Não preciso. Fazer, eu entro na coisa e eu e
- 43:59eu faço bloqueio sonoro. O bloqueio sonoro pra mim é
- 44:02muito importante. Daí eu escolho algumas músicas
- 44:05que eu acho, eu sempre gosto de música clássica, porque ela tem
- 44:09um cômodo dentro de um cômodo, uma cúpula.
- 44:11Ela tem um subsolo simultâneo, ela vai crescendo e aquilo vai
- 44:15me dando, vai abrindo, assim, sabe a personagem, os lugares, é
- 44:23escravins que eu acho assim, que é o que eu estou, é o que eu
- 44:27estou. Estou isolada nele, como o tema
- 44:30é muito. Pop, então eu penso em entrar no
- 44:35livro de uma forma completamente, de outro tempo.
- 44:39É um outro tempo que escreve sobre uma coisa do tempo, sabe?
- 44:42E aí uma forma de gerar isso, produzir isso, é fazer um
- 44:47ambiente sonoro, um ambiente sonoro.
- 44:48Me, me, me. E conduz bastante, mas acho que
- 44:51ajuda. Muito, são refúgios que a gente
- 44:53vai criando, né? O angeline tava perguntando, eu
- 44:55cheguei essa baforida correndo do trabalho, aí você consegue
- 44:58escrever, é difícil, a gente vai tentando inventar esse tempo, na
- 45:02esse tempo, na rotina, então acho que por isso é até
- 45:04importante a gente pensar quase nesse treino da concentração
- 45:07mesmo, né? Você vai ter que fazer funcionar
- 45:08No No tempo que você tiver, então você vai treinando essa
- 45:11concentração e a gente falando muito, a gente tá falando muito
- 45:14aqui de vocês, mais desse processo, acho que até mais
- 45:16recente da escrita ou quando vocês já estavam publicando e
- 45:19tudo. Como vocês acham que vocês
- 45:21encontraram esse essa escrita na vida de vocês?
- 45:24Como foi um pouco esse start do eu escrevo, ou eu quero
- 45:28escrever, ou eu tô começando, ou isso aqui tá virando alguma
- 45:30coisa. Como isso começou para vocês, já
- 45:33que hoje vocês vivem de alguma forma, totalmente da escrita?
- 45:37É, seja, tem oficina, tem livro, tem palestra, tem evento, mas
- 45:42como isso começou para vocês? Vocês conseguem lembrar desse
- 45:45ponto de partida? Consigo.
- 45:48Eu tenho, eu tive. É.
- 45:51Foi um momento muito claro, assim o que aconteceu, porque eu
- 45:54sempre fui leitora, sempre me interessei pelos livros.
- 45:57Isso, de certa forma, não me autorizou a escrever, pelo
- 46:01contrário. É eu, eu nasci em 87, né?
- 46:06Então os escritores, quando eu comecei a ler e era adolescente
- 46:09também, os escritores não circulavam.
- 46:11É pela nossa sociedade, como hoje acontece, também pela nossa
- 46:15cultura, porque a gente tem as redes sociais, então os
- 46:17escritores tem perfis e a gente consegue dar um Google, a gente
- 46:20está lendo alguém, a gente vai ver onde a pessoa mora, né?
- 46:22Vai saber sobre ela. Antes não era assim tão claro,
- 46:25então acho que era um nome só na capa e esse nome não era humano.
- 46:29E fico me lembrando sempre do que a Clarice fala, falou
- 46:32naquele podcast, né? Maravilhoso é que saiu na 451,
- 46:35acho que ano passado uma entrevista que ela deu no
- 46:38Instituto Moreira Salles e ela diz muito diferente daquela
- 46:41entrevista dela na cultura, que ela está um pouco mais sisuda,
- 46:43né? Ela pede Coca-Cola, ela dá
- 46:45risada, é muito legal, mas ela disse que não sabia que livro
- 46:47era feito por pessoas. Ela achou que livro era como
- 46:50árvore, né? E quando ela descobriu que que
- 46:52era, ela disse, eu também quero. Então tem alguma coisa nesse
- 46:55sentido assim, essa descoberta de que era alguém e alguém como
- 46:58eu, alguém que podia ser uma pessoa próxima de mim, foi uma
- 47:01descoberta lenta para mim. Eu comecei no teatro, é o teatro
- 47:05me deu a em relação à palavra, não digo a literatura, mas a
- 47:08palavra, um estado de apropriação.
- 47:11Eu acho que isso já mudou completamente a minha relação
- 47:14com a linguagem, porque o ator, ele precisa, você sabe que você
- 47:16vem no teatro também é precisa entrar em contato com aquilo de
- 47:20uma forma sem escrúpulos, no sentido de que você não pode, AI
- 47:24é tão. Bonito, Ah, isso é tão bem
- 47:26escrito isso tudo. Não dá para entrar em cena de
- 47:28luvas, né? Você precisa entrar de entrar
- 47:30mesmo, aquele universo. E isso tudo me deu esse, essa,
- 47:33essa simbiose com a palavra. E aí era muito difícil fazer
- 47:37teatro. Eu entrei muito jovem, comecei a
- 47:40estudar muito nova, tinha uma dificuldade familiar, e aí de
- 47:43repente eu fui fazer letras por uma sugestão até do meu pai para
- 47:47me tornar professora. De literatura.
- 47:50E quando eu entrei na faculdade de letras, eu é conheci poetas,
- 47:54pessoas jovens é que estavam na minha sala e que escreviam e de
- 47:57uma forma muito solta é escreviam sem arrogância
- 48:00nenhuma. Não era?
- 48:01Ah, eu escrevo. As pessoas escreviam e comiam
- 48:03pastel e faziam aula de pedagogia, IA para aula de
- 48:05linguística e tiravam notas boas, tiravam notas ruins e eram
- 48:08pessoas. E aquilo foi me dando uma.
- 48:13Alguma coisa começou a acontecer comigo?
- 48:15EE eu logo comecei a escrever também num gesto de imitação.
- 48:19É de desejo de querer aquilo também para mim.
- 48:21Eu acho que num momento onde o teatro tinha saído da minha vida
- 48:24e eu me percebia artista, porque sem criar, eu me sentia
- 48:28absolutamente morta. É a escrita, ela veio ao meu
- 48:32Socorro como um gesto como a gente tá dizendo aqui, com a sua
- 48:35simplicidade e a sua o seu modo secreto de ser.
- 48:38Ninguém sabe exatamente o que é um escrito, o que que um
- 48:41escrito, uma pessoa que tá escrevendo.
- 48:42Não necessariamente você está escrevendo ficção, ela pode
- 48:45estar só notando alguma coisa, ela, o que é um escritor, como
- 48:48definir como, né, registrar um escritor no espaço, como ter
- 48:51certeza que aquela pessoa é um escritor e como eu estava em
- 48:53fuga, né? Eu precisava desse segredo, a
- 48:56escrita entrou como como essa possibilidade, eu nunca mais
- 48:59parei, comecei a escrever e logo descobri que era um lugar muito
- 49:03importante para mim, um lugar que eu não podia mais deixar é
- 49:06ir embora, como eu deixei o teatro aí, de certa forma?
- 49:09Então foi dessa, foi dessa maneira, nossa.
- 49:11Eu me identifico tanto com isso. E você falando, acho que até
- 49:15fico pensando se isso me coloca no lugar de proximidade ainda
- 49:17maior com o seu texto. Eu também sou do teatro, fiz
- 49:19chato desde criança. Na verdade, fui meu primeiro
- 49:21lugar de proximidade. Fiz teatro a vida inteira,
- 49:23cheguei a fazer artes cênicas da universidade e tive essa fase de
- 49:27um afastamento por algum motivo e me agarrei a literatura.
- 49:31Acho que eu ouvi você falando, acho que me levou muito para
- 49:33esse lugar de acho que não tem dessa fase da descoberta legal
- 49:37para você, Andreia. Olha, eu não tive livros em
- 49:41casa, nem leitores, né? Então isso não era 1111 paisagem
- 49:48e eu escrevi antes de ler. Então uma professora muito
- 49:54celiaico, nunca vou me esquecer do nome dela.
- 49:57Ela para dizer que o exercício que a gente IA fazer de redação
- 50:00para dizer o que era ficção, ela falou, é mentira, é uma mentira,
- 50:03porque não aconteceu e nem vai acontecer.
- 50:05O que está aqui é mentira, eles vão mentir.
- 50:09É muito complicado, né? Falar assim sobre um processo,
- 50:11não sei, né. Se ela pensava em processo de
- 50:13escrita, foi um jeito ela dizer para aquelas crianças, como é
- 50:16que você faz redação, é mentir, me apaixonei imediatamente por
- 50:20aquilo e aí eu fazia versões de redação, uma cheia de palavrão,
- 50:24outra com não sei o que, eu levava 3 versões de redação e
- 50:28ela me chamava assim, Ah, pode ler a sua, quando eu lia
- 50:30palavrão, todo mundo com a com a com a CLA, e daí ela assim,
- 50:33olha, não pode, não é assim, daí começam as regras, patatá.
- 50:38Até o dia que eu o que me apaixonei por um tonto, óbvio.
- 50:44Sempre, né? Claro, nem aí para mim o tonto.
- 50:48E não era tonto porque não tava nem aí para mim.
- 50:51Ele era de saída. Tonto, mas enfim, apaixonada.
- 50:55É uma pessoa que esteve aqui na quinta série.
- 50:57Quantos anos eu tinha gente assim?
- 50:59Uns 11 e tal, uns. 11. E aí eu escrevia sem saber que
- 51:04estava escrevendo. Eu acho que escrever foi um
- 51:06jeito de chorar sem ser vista. Sabe?
- 51:10Ninguém IA desconfiar que eu tava chorando, no caso em casa,
- 51:14porque é um apartamento pequeno, dividindo o quarto com os meus
- 51:19irmãos, todos pequenos. Ninguém IA entender nada, sabe?
- 51:23Então, e aí então era, Ah, uma coisa intensa, aquilo IA para o
- 51:28papel, porque isso, mas isso veio antes, é com a professora,
- 51:31diz. Olha, pode mentir, EEEE,
- 51:33escrever foi tão foi tão, foi tão fluido.
- 51:36Mentir ali assim vai embora. É que daí depois colocar emoções
- 51:42ou não mentir e dizer as verdades.
- 51:44Só que eu já começava por conta do texto, já tinha, já tinha
- 51:47percebido que dava para fazer coisas.
- 51:50Então eu me lembro perfeitamente de eu escrever e de repente dar
- 51:53uma parada assim e me tocar que eu não gostava mais do menino,
- 51:58mas que ele me servia para escrever, como, sabe?
- 52:01Mas aí eu continuei, e aí eu tinha essa coisa com a escrita e
- 52:04eu lembro. Minha mãe, assim, não tinha
- 52:07telefone. Telefone é uma coisa muito cara,
- 52:10nem minha, minha família, os irmãos e a mãe dela.
- 52:13Minha avó em Minas também não tinha telefone, então era por
- 52:16carta, falou, Ah, ela gosta de escrever, escreve carta, e lá
- 52:20pela Santos eu comecei a inventar umas coisas, entendeu
- 52:22umas cartas, mentiras, não, não, não, não deu muito, não, foi
- 52:26muito legal assim. Eu lembro que ela falou, Ah,
- 52:28não, não precisa escrever mais e tal, e aí assim, eu tenho
- 52:32certeza absoluta de que eu escreveria em qualquer profissão
- 52:34que eu tivesse. Em qualquer destino, em qualquer
- 52:37estrada que eu desembocasse, a escrita estaria estaria ali fico
- 52:43e nunca parei desde lá é tanto que eu depois eu fui juntando
- 52:48textos, eu trabalhava, fiz um colégio técnico de publicidade,
- 52:51fui trabalhar numa produtora de comerciais é que produziu os
- 52:56filmes para publicidade e escrevendo, escrevendo,
- 52:59escrevendo, escrevendo, até que um dia levei para um editor.
- 53:04O Ricardo Franca Cruz, que era o editor da rádio 89 FM, é, não
- 53:10havia internet. Revista era um acontecimento,
- 53:13banca de jornal era um acontecimento.
- 53:15E aí ele falou, olha, se você escrevesse aqui e respondesse
- 53:18dúvidas sexuais dos leitores da revista, não sou sexóloga nem
- 53:24psicóloga. Era como se fosse uma
- 53:25personagem. E na hora?
- 53:27E isso foi o primeiro texto publicado.
- 53:29Foi daí que surgiu meu pseudônimo que ele falou, André
- 53:31Fátima dos Santos não dá. Nossa, quando eu descobri isso
- 53:35pesquisando sobre você, confesso que eu conheci André por muitos,
- 53:38por muito tempo. E eu eu sabia que não era o seu
- 53:41nome original e eu não sabia porquê.
- 53:43Nunca tinha perguntado, nunca tinha pesquisado.
- 53:44Um tempo atrás eu fui pesquisar, eu falei, gente, mentira, que
- 53:47legal. Eu gostei muito da da da origem.
- 53:50Do seu nome, mas aí só para. Finalizando aqui e tal assim, só
- 53:54para ter noção de que assim eu nunca tive planos de escrita,
- 53:59simplesmente foi assim. Eu não inventaria um pseudônimo
- 54:04para ser escritora, aí essa circunstância pediu.
- 54:07Daí eu pensei, Ah, o primeiro livro, porque eu recebia muitas
- 54:10cartas e eu gravava coisas também, umas pílulas na rádio.
- 54:15Então eu falei, bom, o primeiro livro.
- 54:17Eu vou colocar como o André deu frango.
- 54:19De repente as pessoas que me leem na revista podem procurar o
- 54:22livro. E aí foi me distraindo, sabe?
- 54:25Sim, aí o livro sai depois do outro.
- 54:27Quando eu percebi, tinha ali que os 3 livros, os livros de conto
- 54:30tem a mesma cor, todos são vermelhos e todos tem
- 54:33referenciamento. Enquanto posso, que tem relação
- 54:36com a escrita, nego tudo, engano, seus erros da linguagem,
- 54:40pá, pá, pá, pá. E chegamos até aqui e penso,
- 54:46enfim. Os planos não, não estão no
- 54:49Horizonte também não é exatamente um plano, tem uma
- 54:52espontaneidade EE. É isso que uma coisa que eu, que
- 54:56eu que eu que me encanta muito em você é que eu vejo assim, que
- 55:00você também respeita isso demais é esse.
- 55:07Independe da da da do vento, social, histórico, sabe AO
- 55:13processo, está ali a escrita, está ali essa proteção desse,
- 55:16desse, desse, desse lugar de um de um compromisso inalinável com
- 55:22a escrita. Isso é verdade?
- 55:24Acho que isso fica é muito visível mesmo.
- 55:26É na Aline e na Andreia também. Muito visível em vocês.
- 55:29Chamam muita atenção e a gente conversando tanto.
- 55:32Vocês acham que vocês já encontraram uma voz de vocês na
- 55:35escrita? Existe essa voz.
- 55:37Ela está em constante desenvolvimento e descoberta.
- 55:41Misericórdia. Bom, meus livros poderiam ter um
- 55:48pseudônimo para cada livro, né? Então, assim, são vozes da minha
- 55:51cabeça, literalmente o meme vozes.
- 55:56São vozes da minha cabeça, exatamente.
- 55:59Eu trabalhei no centro espírita, né, por 5 anos, né?
- 56:02E eu adoro, não e eu adoro comparar, falou assim, Ah,
- 56:06recebe espírito. Não, é completamente diferente.
- 56:09Eu trabalhava e total mão na mesinha recebendo bom, e eu acho
- 56:16que Oo trabalho de escrita, você recebe espírito, mas o seu é o
- 56:20seu que você recebe e. Estou enrolando aqui para dizer
- 56:25que não tenho voz própria. Colação linda, uma enrolação
- 56:30para dizer não sei. O que acontece.
- 56:33Eu não sei, é. Mas acho que é um pouco isso,
- 56:37né? Mas tem uma coisa que que
- 56:39permeia quando agora, quando eu fui olhar para os Mini contos e
- 56:43olhar para os contos, eu percebi.
- 56:45Todas as iscas, jogadas assim. Eu joguei iscas assim, sabe?
- 56:49E os romances? E cada um tá ligado a uma isca
- 56:52jogada. É muito legal assim.
- 56:54Foi legal perceber isso. E tem, na verdade, um tema que
- 56:58liga todos os contos e todos os livros, que eu acho que é o
- 57:01trabalho. O trabalho.
- 57:05O trabalho tá lá assim, o trabalho como?
- 57:08A revelação, assim, o lugar onde, se, onde as coisas são
- 57:13reveladas, assim, as íntimas e as do âmbito privado e o âmbito
- 57:17coletivo também. Mas isso olhando para trás, né?
- 57:21É porque eu acho que é um pouco esse, esse esse mistério, por
- 57:24isso que eu acho engraçado. Eu comecei mais como jornalista,
- 57:27depois como escritora, e eu confesso que eu acho engraçado.
- 57:29Hoje, quando eu faço podcast, escrevo, eu faço entrevista,
- 57:32porque eu pergunto algumas coisas que eu sei que eu quando
- 57:34sou perguntada, eu não sei responder.
- 57:36Então eu fico nesse nesse dilema também.
- 57:38Mas eu gosto de perguntar mesmo assim, para ver como é que vocês
- 57:41vão escapar. É, eu não sei.
- 57:45Eu. Eu acho que a voz é curioso
- 57:47porque meus textos, as leituras contam muito que tem uma algo
- 57:50muito meu lá, né? E é nesse novo que eu tenho
- 57:54recebido já algumas leituras por conta de um clube pré lançamento
- 57:58que a gente tá fazendo. Então as leituras.
- 57:59Leia, mulheres, né leia? Mulheres e a companhia das
- 58:02letras é tá chegando leitura e é um livro diferente de tudo que
- 58:07eu já fiz, mas de toda forma, ele é muito meu.
- 58:10E isso as leitoras estão me contando, sabe?
- 58:13De certa forma, eu já sabia. Então eu acho que a nossa voz na
- 58:16é claro que há uma presença na folha.
- 58:18E essa presença ela está em constante metamorfose.
- 58:21Ela não pode ser uma presença pesada ao ponto de não é
- 58:25seporosa para que a história, os personagens que estão naquela
- 58:29naquele universo possam respirar também com tranquilidade.
- 58:33Mas tem uma presença, né? E essa presença se faz por uma
- 58:36escolha estética temática. É por uma espécie de tom que não
- 58:41é alguma coisa que a gente consegue domar que é a nossa, a
- 58:44nossa própria envergadura, mesmo em direção ao mundo, em direção
- 58:48as coisas que nos interessam. É uma intensidade, né?
- 58:5111 lente e Ela E Eu sinto que a minha está é, e ela vem de uma,
- 58:57de um lugar de Fronteira, que é o teatro, a poesia e a prosa.
- 59:02É a prosa, a minha. Também tem 11 flerte imenso com
- 59:05a oralidade, com a contação de história, por eu não ter uma
- 59:08formação intelectual, por também não ter livros na minha casa.
- 59:11E eu acho que a gente escreve com a nossa infância, mesmo quem
- 59:14não escreve sobre infância diretamente.
- 59:17Eu acho que todo artista, de certa forma, se alimenta desse
- 59:20início. É, e o modo como ele aceitou
- 59:24certas descobertas que se deram é para ele naquele momento.
- 59:28Então, com a minha infância, minha infância foi 11, infância
- 59:30extremamente solitária, de muita observação.
- 59:33Então é de muita presença. Eu acho que as crianças têm uma
- 59:36presença muito bonita e muito corajosa, né?
- 59:38Em direção ao mundo EE de silêncios também, né?
- 59:42E eu também sofri cortes profundos na minha vida em
- 59:46vários momentos. Eu acho que esses cortes vão
- 59:48atravessando também as minhas frases, as minhas histórias, e
- 59:51tudo isso vai moldando uma espécie de universo particular
- 59:54que está em constante mutação, como eu disse.
- 59:57Então, acho que se a gente cristalizar, a gente vai sufocar
- 1:00:00uma coisa que precisa continuar em movimento.
- 1:00:03E acho muito legal essa esse olhar para a infância, né?
- 1:00:06Que é essa fase da dos primeiros olhares, onde a gente descobre
- 1:00:09tudo. Eu queria saber se eu posso
- 1:00:10continuar perguntando, mas o cronometro está escondido?
- 1:00:13Eu não faço a menor ideia de quanto tempo a gente está
- 1:00:14conversando aqui. Ah, então olha aí eu eu senti É
- 1:00:19Ela. Tá com o relógio interno?
- 1:00:21Eu queria que a gente tava perguntando aqui, mas eu senti
- 1:00:23que eu acho que tava dando 1 hora, acho que pra gente
- 1:00:26finalizando essa conversa tão gostosa, eu queria conversar
- 1:00:28aqui, mais uma horinha com vocês, me conta um pouquinho.
- 1:00:31Então ali, só pra gente encerrar nesses próximos projetos de
- 1:00:34vocês, a Aline vai lançar, talvez quando vocês estiverem
- 1:00:37escutando, já vai ter lançado um novo livro dela.
- 1:00:40Andreia, não sei se vai resgatar aquele livro de 10 anos na
- 1:00:42gaveta. O que que tá para vocês aí?
- 1:00:44Dos projetos mais recentes, podem contar um pouquinho.
- 1:00:46Para mim, só para a gente encerrar, deve.
- 1:00:48Entrar em pré venda em agosto, o nego tudo, nego tudo, ficções,
- 1:00:53súbitas é uma ideia dessa nomeação.
- 1:00:57Veio da Ana Maria shua, que é uma escritora Argentina que deu
- 1:01:01vários nomes para os Mini contos e um deles, ficção súbita.
- 1:01:06Um dos contos que ela deu é relâmpagos.
- 1:01:09E ficção súbita. Eu acho que para mim, isso é uma
- 1:01:11definição da literatura, ficção súbita, e penso nisso também,
- 1:01:15que também esses, esses, essa narrativa curta, elas são
- 1:01:19retalhos, elas são só tá até lá, numa certa introdução que eu
- 1:01:24escrevi lá, elas são uma espécie de binóculo, uma fotografia de
- 1:01:28impasse. Retalhos são, sabe?
- 1:01:35É pedaços de vida, né? Sim, você não sabe a
- 1:01:41anterioridade, não tem o que vem depois, mas é um como se você
- 1:01:44roubasse de alguns lugares, algumas coisas, e é essa e esse
- 1:01:49nome. Nego tudo.
- 1:01:52Ele, muitos dos textos são em primeira pessoa e tem 111 carga.
- 1:02:00É o livro, enfim, acabei de fechar ele assim.
- 1:02:04É sobre relações familiares e sobre os amores também.
- 1:02:08Mas já estou doido pra ler. Olha aí, em agosto, vem aí.
- 1:02:12Agosto chegando, né? Muito bonito todos esses nomes
- 1:02:15dos seus títulos. Eu se apaixonei e eu estou agora
- 1:02:17encucada em fazer títulos em primeira pessoa.
- 1:02:20O próximo romance já é um primeira pessoa que.
- 1:02:23Lindo romei. Isso eu gostei da da ideia fica.
- 1:02:26Bom mesmo é saboroso, né? Títulos eu adoro títulos, sou
- 1:02:30apaixonada por títulos e capas. Bom, eu estou lançando meu
- 1:02:33terceiro livro, como a gente já está conversando aqui, né?
- 1:02:35Chamar uma delicada coleção de ausências e no processo de
- 1:02:38escrita da. Complicada?
- 1:02:39Especialmente. Eu percebi que eu estava
- 1:02:40trabalhando com uma tríade que se inicia com um pássaro,
- 1:02:44continua na pequena e de certa forma, eu não posso dizer se
- 1:02:48encerra porque eu não sou alguém que consegue lidar muito bem com
- 1:02:52fins. De toda forma, eu senti que
- 1:02:55tinha uma luz se apagando nas minhas costas quando eu terminei
- 1:02:59a delicada e eu percebi mesmo que esses 3 se visitavam e se
- 1:03:02alimentavam e se devoravam em si.
- 1:03:05Mesmos. E aí decidir por essa trilogia,
- 1:03:08né? Involuntária a delicada, ela
- 1:03:10conta, a cuida, né? De um presente de 3 mulheres,
- 1:03:14diferente dos meus livros também, que tem cuidado de
- 1:03:16passados em memórias e rememorações.
- 1:03:19É um livro que cuida do tempo presente.
- 1:03:22É, e por se passar em atos presentes, eu consegui.
- 1:03:27Eu tentei a trabalhar uma espécie de Opacidade, porque eu
- 1:03:30acho que quando a gente tá vivendo a nossa vida, no
- 1:03:32segundo, no instante mesmo que a coisa acontece, há uma cegueira
- 1:03:36muito grande, nada ainda tem borda.
- 1:03:39E depois, quando a gente vai lembrar disso, escrever sobre
- 1:03:42isso é ou falar sobre isso para alguém, a gente começa a colocar
- 1:03:47algum limite no que aconteceu, uma espécie de compreensão.
- 1:03:51Isso vai se. Transformando, mas no tempo em
- 1:03:53que vive, tudo escapa, é e tudo não é e tudo é.
- 1:03:57É uma grande possibilidade. Então trabalhar esse tempo foi
- 1:04:00muito interessante. É trabalhar uma terceira pessoa
- 1:04:03que a gente já conversou aqui também.
- 1:04:04Eu acho que fortaleceu a minha investigação.
- 1:04:07São 3 vozes que nasceram com uma força grande.
- 1:04:10É se impondo numa espécie de protagonismo.
- 1:04:13Então já dissolvi um pouco essa ideia de ter uma protagonista
- 1:04:16nesse livro, por são 3 vozes de 3 mulheres e uma grande ausência
- 1:04:19no livro também, que é marcada por uma voz, né?
- 1:04:22Que essa ausência é uma voz. E essas 3 mulheres também, elas
- 1:04:26se misturam muito. São várias gerações numa mesma
- 1:04:29família, uma bisavó, uma avó, uma neta, e essa mãe que não
- 1:04:33está aí está, né? É nessa.
- 1:04:35Nessa elaboração, enfim, é um livro que eu estou louca para
- 1:04:38conversar com as pessoas sobre ele.
- 1:04:40Eu comecei a ler já vou contar para vocês, sou doido para
- 1:04:43seguir e terminar logo, para gente poder conversar mais
- 1:04:45ainda. Depois de eu ter lido gente,
- 1:04:48queria conversar mais umas 2 horas aqui.
- 1:04:49Eu adoro ouvir vocês, mas a gente vai encerrar esse episódio
- 1:04:53onde a gente encontra vocês nas redes.
- 1:04:55Para quem quiser procurar, dei um arroba.
- 1:04:58No Instagram, arroba André del fuego, ei.
- 1:05:01A Roma Aline pega Maria da faça gente.
- 1:05:05Obrigada de verdade. Fiquei muito feliz de ter vocês
- 1:05:07aqui nelas na escrita. Foi muito bom, obrigada.
- 1:05:10Adorei o papo, gente. Obrigada para quem ouvi até aqui
- 1:05:12e até a próxima. Tchau.
- 1:05:18Ah, olha só, eu queria realmente conversar mais um Monte de
- 1:05:20pergunta. Eu não falei que tem um Monte
- 1:05:21que fica, mas eu?