Latest / Chá de coragem, com Elisama Santos. / Ep. 51 - NATAL É SÓ AMOR. SERÁ? Chá de Coragem com Elisama Santos
Transcript
- 0:00Natal é época de celebração, encontro, aceitação das
- 0:05diferenças, Felicidade, família. Será?
- 0:10Será que é assim para todo mundo?
- 0:13E quem vai passar esse dia com amargo da desidealização da
- 0:18família na boca? Aceita o chá de coragem.
- 0:34Oi elisama. Começo dizendo que me identifico
- 0:37muito com você. Sou também uma mulher negra
- 0:40Ariana, e movida pela raiva. Te ouvir muitas vezes é me ouvir
- 0:45e acessar coisas que não que conheço e nem acessei ainda em
- 0:49mim mesmo. Te levo quase toda semana para
- 0:52minha análise. Obrigada pelo seu trabalho.
- 0:55Desde que me tornei mãe, tenho vivido um lento processo de
- 0:59desidalização desromantização dos meus pais, eles
- 1:03individualmente e o casamento deles também.
- 1:07Porém, estou em uma fase que isso está gritando em mim.
- 1:10Me sinto vivendo um luto por tudo que sempre acreditei,
- 1:14sempre acreditei ser e estou tentando encontrar uma nova
- 1:17maneira de me relacionar com eles.
- 1:19Mas por enquanto eu quero distância.
- 1:22Não vou entrar em detalhes na minha vida porque eu não quero
- 1:24optar com especificamente sobre mim, mas adoraria te ouvir falar
- 1:28sobre essas questões. Obrigada.
- 1:31Eu escolhi esse e-mail no dia de hoje porque amanhã é Natal, né?
- 1:36A véspera de Natal. E a gente vê essa convocação de
- 1:41união, de família, de proximidade, de se juntar com
- 1:45seus pais, com seus avós, com seus tios, de fazer amigo
- 1:50secreto. E às vezes parece tudo tão
- 1:55distante da nossa realidade. Tudo tão falso às vezes, né?
- 2:00E eu sei que muita gente passa essa data sentindo uma dor da
- 2:07desirealização da família, de não viver isso que se espera
- 2:12viver. Eu nunca gostei muito de Natal
- 2:15além de família evangélica, então.
- 2:17Não tínhamos dentro de casa essa coisa de árvore de Natal.
- 2:21Nunca foi muito na nossa nossa família pequena assim, né?
- 2:25Na minha família nuclear. E a gente nunca foi juntar com
- 2:29tios, com primos. Então essa ideia de Natal, ela
- 2:32já não fazia sentido pra mim quando eu era criança, porque
- 2:35tinha uma dissonância lógica clara com que eu vivia e eu
- 2:41achava estranho. Gente que passa o ano todo
- 2:44falando mal um do outro, que passa o ano todo, obrigado, que
- 2:47esse estressa de diversas formas.
- 2:49Chegar no final de ano e se unir e falar, AI meu Deus do céu, a
- 2:51Coisa Mais Linda da minha vida. Te amo, te amo, te amo e parecer
- 2:55que tá tudo muito bem. Eu achava muito estranho.
- 2:57O que me fez mudar a opinião sobre o Natal foi a chegada dos
- 3:00meus filhos, porque aí eu quis criar a tradição pra eles, eu
- 3:05quis criar com eles uma. 11. Rotina, uma história.
- 3:11Quis criar, quis criar com eles memórias, e aí eu comecei a me
- 3:15admirar com o Natal, olhar as luzes de Natal, achar tudo
- 3:19lindo, mas ainda assim, o Natal, ele tem um significado diferente
- 3:23para mim. Eu estou criando na minha
- 3:26história o que eu penso sobre o Natal, se eu gosto, se eu não
- 3:30gosto, o que eu gosto e o que eu não gosto.
- 3:32E aí o primeiro ponto dessa nossa conversa inteira aqui é.
- 3:38Perceber que a sociedade te impõe uma ideia do que é cada
- 3:43época festiva e a que eu tô trazendo no Natal.
- 3:45Mas tem várias outras que é uma ideia bem limitadinha, sabe?
- 3:51É uma ideia que tá muito definidinha de como cada um e
- 3:55cada uma de nós tem que viver aquela experiência.
- 4:00E quando você foge um pouquinho dessa regra, parece que o erro
- 4:04tá em você. E eu trago aqui o exemplo que eu
- 4:07normalmente eu dou de uma calça jeans de uma calça.
- 4:11Não existe a calça que ela é mágica, que ela vai caber
- 4:16igualmente em todo mundo, simplesmente não existe, é uma
- 4:21fantasia. Quando eu era adolescente,
- 4:23adolescente é, acho que era adolescente.
- 4:25Eu assisti um filme numa calça jeans que eram 4 amigas.
- 4:27Eu não sei se você já assistiu esse filme, eu não lembro o nome
- 4:30dele e que era uma calça que dava em todo mundo.
- 4:33E elas tinham corpos completamente diferentes e elas
- 4:35viviam experiências é marcando cada um usava, descobriram que a
- 4:39calça, ela cabia em todas, e aí cada uma passava um período com
- 4:44a calça e obviamente, as experiências de cada um eram
- 4:46diferentes, mas a calça tinham. Era o ponto que ligava todo
- 4:49mundo, o Natal, o Dia das Crianças, o Dia dos Namorados, o
- 4:54dia das manjas dos pais, o dia que você quiser trazer para sua
- 4:56cabeça. Agora não é essa calça, diz
- 4:58amor, não tem essa calça mágica. Que vai caber perfeitamente em
- 5:03você, em mim. Ela precisa ser feita sob
- 5:07medida. Ela precisa levar em
- 5:09consideração a tua história. Ela precisa precisa levar em
- 5:11consideração os teus anseios, os teus medos, as tuas dores, o teu
- 5:17contexto, a tua realidade. Eu sempre falo de contexto aqui,
- 5:21porque olhar para tua história assim, olhar para tudo que está
- 5:24ao arredor da tua história é muito violento com você.
- 5:27Veja, eu não sou a pessoa que eu IA falar, Ah, você é a vítima da
- 5:30tua história, você não tem ingerência nenhuma sobre o que
- 5:33te acontece, não é isso? Mas tem são 2 extremos que a
- 5:36gente está agora, sabe de pensar, Ah, não, eu não tenho
- 5:39nenhuma Liberdade de nada ou não, a responsabilidade é toda
- 5:42sua amor, se você quiser, você vai ser feliz.
- 5:44Eu estou falando do lugar que a gente está aqui, no meio desse
- 5:47caminho. Eu não consigo decidir tudo que
- 5:50vai ser da minha vida, mas eu também não vou ficar parada
- 5:54nesse lugar de. Que merda.
- 5:56As coisas foram diferentes para mim.
- 5:57Que droga, eu odeio isso. Então assim, olha ao teu redor a
- 6:03construção do que foi o Natal para você, sem comparar com o
- 6:09que ele deveria ser pensa, o que foi o Natal na tua história?
- 6:14E aí quando a gente olha o que foi o Natal Na Na nossa
- 6:17história, o que foi, o que significa família na nossa
- 6:20história, a gente consegue olhar e pensar.
- 6:22Porque eu não eu não vou viver essa fantasia que dizem que
- 6:25deveria ser. E eu não vou me martirizar
- 6:29porque eu não vou viver essa fantasia.
- 6:31Eu assisti A Entrevista da Ah É da vaiola Davis com a Oprah e A
- 6:40Entrevista muito linda. E aí a vaiola falou algo que me
- 6:43marcou, porque eu lembro de de ter essa sensação algumas vezes,
- 6:49ela, conta ela. Ter vindo a realidade financeira
- 6:52muito, muito, muito mais difícil que a minha.
- 6:54E ela conta que ela IA para escola às vezes e que eles
- 6:57usavam a roupa várias vezes e não tinha lugar para fazer xixi
- 7:00direito ou na casa e era muito frio.
- 7:02Às vezes ela fazia xixi na roupa e eles fediam eles e os irmãos,
- 7:08e todo mundo criticava. E que tem algo ali que que doía
- 7:12muito nela, que ela tinha vergonha da ausência de
- 7:15condições dela, sabe? Ela tinha vergonha.
- 7:19De não ter uma roupa limpa. Ela tinha vergonha de não saber
- 7:22que ela fedia, ela tinha vergonha.
- 7:24As pessoas falavam como se ela tivesse que saber que aquilo era
- 7:27errado ou que ela tivesse ela fosse a responsável pelas
- 7:30condições que ela tinha. Assim, eu estou estudando inglês
- 7:35agora, eu não sou fluente em inglês, eu eu não sei várias
- 7:40coisas, eu não fiz vários cursos, eu não vim de uma
- 7:42condição financeira que AI vou estudar em Portugal, na Espanha,
- 7:44na França, não sei, não é a minha realidade.
- 7:48E em alguns ciclos, em alguns círculos, era quase uma vergonha
- 7:52para mim abrir a boca e falar, eu não fiz isso, mas cara, eu já
- 7:56nem condição financeira para isso.
- 7:57Não era a minha história. Eu vou ter vergonha da minha
- 7:59história? Eu vou ter vergonha de mim?
- 8:02Eu vou ter vergonha do que eu vivi, que eu não escolhi.
- 8:07Eu não escolhi nascer na família que eu nasci, no interior do
- 8:10Sertão baiano. E se eu tivesse escolhido?
- 8:14É assim, se a gente pudesse escolher escolher de novo, eu
- 8:16tinha. Eu tenho uma história que eu
- 8:17morro, que eu amo, mas assim eu não vou ter vergonha disso.
- 8:22E a sociedade faz com que a gente tenha vergonha de não ter
- 8:25a família perfeita do Natal. E aí, olha que louco, você tem a
- 8:28tristeza, sua tristeza de não ter aquela expectativa que que
- 8:33te disseram que é o perfeito, te disseram que é o ideal, disseram
- 8:37que é como você deveria vender a data e vem uma vergonha por
- 8:43você. Não tem isso aí.
- 8:45Então você tem a tristeza, o seu luto e a vergonha que é que você
- 8:49acha que você deveria ser? Você não tem nem coragem de
- 8:51falar com as outras pessoas. A gente olha essa situação
- 8:55quando a gente fala da nossa família de origem.
- 8:58E essa época do ano é uma época que traz com muita força.
- 9:01E aí a época que tá todo mundo falando que tá feliz, a gente
- 9:04fica triste e você pensa, poxa, é Natal.
- 9:10Eu tenho filhos. Se você tem filhos, eu queria
- 9:12que eles conhecessem a avó, eles.
- 9:13Não que eles fossem para casa da avó, que eles ganhassem O
- 9:16Presente da avó, que tivessem meus irmãos, minhas irmãs e as
- 9:19tias, todo mundo falando um amigo secreto.
- 9:21Isso não vai acontecer porque te disseram que tinha que ser
- 9:24assim. E o meu convite para você nesse
- 9:28instante é que você olhe para você e pense, o que pode
- 9:37significar essa data para você a partir de hoje?
- 9:40Sabe que tradições você pode criar para você a partir de
- 9:45hoje? O que fazem sentido com a tua
- 9:47história, que fazem sentido, com que você acredita, que respeitam
- 9:51quem você é, que tradições podem vir, que são só suas?
- 9:58Que que escolhas hoje vão fazer? Com que essa data que não se
- 10:05encaixa para você? Da expectativa, porque a pessoa
- 10:10me mandou, me mandou a carta, é que eu estou falando muito
- 10:12genérico. Eu não estou nem respondendo a
- 10:13carta em si, dizendo o que ela está de idealizando os pais.
- 10:17Eu já falei em outros episódios aqui sobre o quanto a gente,
- 10:21quando criança, olha para os nossos pais com esse olhar de
- 10:26que eles tem toda razão. Eles são esses adultos que sabem
- 10:29tudo. E aí depois, com o tempo, a
- 10:33gente vai tirando nossos pais do trono.
- 10:36À medida que a gente cresce, a gente precisa tirar elas no
- 10:39trono para a gente dar conta da vida.
- 10:41Se você acha que para ser você ser adulto, para você funcionar
- 10:45bem nessa sociedade, você tem que ser super e perfeito e
- 10:49perfeita como seu pai e sua mãe, você não vai dar conta da vida
- 10:52porque você não é perfeita e perfeita.
- 10:54Saber que eles são imperfeitos e que ainda assim eles vivem e
- 10:57estão aqui criando a história deles, faz a gente pensar, OK,
- 11:00sou imperfeita e vou criar minha história também.
- 11:03Eu estou aqui falando de erros que.
- 11:08Não é que eles sejam previsíveis, mas que são mais
- 11:11comuns. Eu não estou falando dos
- 11:12absurdos, tá, gente? Estou falando do erro humano.
- 11:14É importante a gente desidealizar os pais.
- 11:18Só que a gente vive um luto. A gente vive o luto da história,
- 11:24porque a gente começa a recontar a história e olhar e pensar,
- 11:26nossa, aquele dia, talvez a culpa não tenha sido minha,
- 11:28daquele grito, daquele choro, daquela situação nossa, talvez.
- 11:34Eu não tivesse o poder de fazer diferente do que foi feito.
- 11:38Porque, ó, deixa eu tentar explicar de uma forma
- 11:42compreensível, em regra, em regra, quando algo acontece,
- 11:50tipo assim, Ah, o papai e a mamãe gritam, o papai e a mamãe
- 11:54batem em você. São pessoas que são.
- 11:57Tem comportamento que você, enquanto criancinha, você nem
- 11:59entende aquele comportamento. Mas você se responsabilizar pelo
- 12:05comportamento, te dar a ilusão de que você pode controlar esse
- 12:09comportamento, entende? Porque se você pensa, ele gritou
- 12:14porque eu fiz isso. Se eu não fizer isso, ele não
- 12:18vai gritar. Então eu tenho algum controle
- 12:22sobre o que acontece aqui, a minha atitude, ela realmente tem
- 12:27interferência no que acontece aqui.
- 12:29É uma conclusão que a gente vai tirando enquanto criança para se
- 12:31defender. Porque se você toma consciência
- 12:35do nível de desamparo que você está, que aquele ser humano, ele
- 12:39tem uma vida, ele pode surtar por outros motivos, que não tem
- 12:41nada a ver com você e que isso é completamente inconstante, sem
- 12:45garantias. Você está uma surtada.
- 12:47Então, perceber e falar, se eu me comportar, o comportamento
- 12:51dele vai ser diferente. Faz com que a gente acredite que
- 12:56tem alguma gerência, algum poder sobre o que acontece com a
- 12:59gente. Isso é reforçado pelos adultos
- 13:03ao nosso redor. Em regra, eles realmente falam,
- 13:06eu fiz isso porque você, o responsável, a responsável pelo
- 13:10meu comportamento, foi você, você me fez agir assim, você
- 13:14está querendo. Quando eu era criança, falava
- 13:16muito, você está querendo apanhar, né?
- 13:17Você, você está querendo isso? Não é que eu vou fazer isso.
- 13:22É o seu comportamento está me fazendo fazer eu adulto que não
- 13:26tenho nenhuma responsabilidade pelas minhas atitudes, não tenho
- 13:28nenhum outro controle. Depende do que você criança se
- 13:30controle, entendeu? E aí a gente pequenininho, a
- 13:33gente acreditou nesse negócio, a gente acreditou que não era a
- 13:37vida dos nossos pais, que estava acontecendo um Monte de coisa e
- 13:40que podia estar determinando os comportamentos deles ou que o
- 13:44comportamento deles era um pacote de inúmeras atitudes e
- 13:48contextos. Não, a gente acreditou que a
- 13:51culpa era minha. O erro era meu.
- 13:54E como eles crescem ou quando a gente cresce, a gente começa a
- 13:58olhar para trás, começa a perceber que então, não faz
- 14:03sentido, não fui eu, não aquele dia não, olha só, não fui eu e
- 14:09você começa a tirar essa responsabilidade dos seus
- 14:12ombros, parte de nós, porque muitos de nós não chega nesse
- 14:16momento e continua idealizando papai e mamãe, até onde IA
- 14:18morrer. Mas quem des idealiza.
- 14:21A gente começa a perceber esses humanos como humanos e os erros
- 14:27e os comportamentos. Como era isso?
- 14:28Não era meu, era seu. Você é responsável pelo que você
- 14:32fez, você escolheu hoje, assim comigo, você escolheu tomar essa
- 14:36atitude, não fui eu a responsável.
- 14:37Processo de atitude. Quando a gente toma essa
- 14:41consciência, quando a gente alcança esse lugar de perceber
- 14:45isso, a gente vive um luto, porque uma memória.
- 14:52Não é o que aconteceu com a gente.
- 14:55Presta atenção, uma memória, é como a gente guardou o que
- 14:59aconteceu com a gente e as nossas memórias mudam o tempo
- 15:05inteiro. Você já reparou?
- 15:07Cada vez que você visita uma memória, você é uma outra
- 15:11pessoa. Eu hoje não sou a mesma de
- 15:15amanhã e depois de amanhã, de daqui a um ano, de daqui a 10
- 15:18anos. Muitas histórias na minha vida.
- 15:21Eu vou olhar para trás e vou contar de uma forma diferente,
- 15:24porque eu concluí coisas diferentes sobre essa história.
- 15:27O que aconteceu em si já foi, não está guardado em nenhum
- 15:33lugar. Não sei que tenha sido gravado.
- 15:35O que fica é como a gente sentiu o que aconteceu, como a gente
- 15:39interpretou o que aconteceu e como a gente segue interpretando
- 15:42o que aconteceu. Então, a memória ela vai
- 15:45mudando. A gente vai recontando a
- 15:47história de diversas formas diferentes.
- 15:50Enquanto a gente é criança, em regra, a gente conta a história
- 15:53que papai e mamãe contaram para gente.
- 15:56À medida que a gente cresce, a gente vai interpretando, olhando
- 15:59para o passado e pensando, não, pera aí, com as informações que
- 16:02hoje eu tenho, essa história não aconteceu bem assim.
- 16:05E aí você conta uma outra coisa dessa história, entendeu?
- 16:09Você acrescenta o ponto, você tira um ponto, enfim, algo nessa
- 16:13história muda. Porque você, que está olhando
- 16:16para essa história hoje, é uma outra pessoa.
- 16:20Qual que é a grande dificuldade? Quando a gente começa essa
- 16:23desidalização dos pais, é a gente acreditar que eles
- 16:28deveriam ser quem a gente espera que ele seja.
- 16:32Eu falei no comecinho da nossa conversa que desconsiderar o teu
- 16:36contexto é também ser violento com você.
- 16:39Desconsiderar o contexto do adulto é também ser violento com
- 16:42ele. Não estou dizendo aqui que você
- 16:44tem que ser super empático com papai, mamãe, violentos com
- 16:46você, não é isso? Mas assim, aquele ser humano,
- 16:50ele tinha história dele, não é sobre mim o que aconteceu, mas
- 16:54eu também não vou olhar para ele e falar, é a pior pessoa do
- 16:56universo, é a história dele, é com ele ou ela ver uma história
- 17:00dele. E aí o Natal voltando para a
- 17:04época do ano, ele faz a gente abrir AA caixinha desses grupos,
- 17:11né? A caixinha das memórias.
- 17:13Porque a coisa da família e da união e da paz e do perdão, até
- 17:19em todos os lugares você não consegue muito fugir disso.
- 17:23E você fica ali olhando pra essas relações e pensando, mas
- 17:27deve ser diferente, essa dor, ela nunca desaparece de verdade.
- 17:32As dores na nossa vida, elas encontram um lugarzinho pra
- 17:36ficar. A coisa tá tá bem?
- 17:38Quando a gente encontra um lugarzinho pra deixar essa dor.
- 17:41É um lugarzinho que ela está ali, não está mais no centro,
- 17:43não está mais governando tudo, mas ela está ali em mesmo Rio
- 17:48tem 111, momento da personagem da Rita, que ela fala da dor e a
- 17:52Rita rompeu com a mãe, com a família inteira no Natal.
- 17:56É uma cena linda no capítulo. Acho que no sexto capítulo, no
- 18:00quarto capítulo, eu nem sei. A Rita rompeu com a família
- 18:03inteira e aí chega um momento que ela fala que o tempo passou.
- 18:08E que a dor de interrompido com a família, de ter vivido um
- 18:11luto, com uma família viva, como se tivesse perdido todo mundo
- 18:14num acente de carro, mas tá todo mundo vivo.
- 18:17Era uma dor que já não ocupava o centro.
- 18:20Ela ficava numa gavetinha dentro desse armário enorme de coisas
- 18:24da cabeça dela ali volta e 61 lembrança, uma época alguma
- 18:29coisa tirava, abria a gaveta, joga gaveta, dor no chão.
- 18:31Ela tentava se esparramar um pouquinho, se sente um pouquinho
- 18:34essa dor. Consegue se organizar, às vezes
- 18:37com alguém com apoio, e essa dor volta para o cantinho dela.
- 18:41Essa dor, ela vai voltar, ela não vai desaparecer.
- 18:45Mas no momento que a gente está desidealizando, ela parece
- 18:48enorme, sabe? Ela parece gigante.
- 18:51Ela parece tomar todos os espaços no momento em que a
- 18:54gente percebe e que a gente dá espaço ao rancor, a mágoa, ao
- 19:00desamparar, tudo que a criancinha não pode viver porque
- 19:04ela dependia de papai e mãe. Porque para presta atenção, nós
- 19:09dependemos dos adultos que cuidaram da gente para
- 19:11sobreviver. E aí vários sentimentos em
- 19:14relação a esses adultos, eles ficam escondidinhos, sabe?
- 19:19A vida fala, ó, o cérebro da gente faz, não fica quietinho, a
- 19:21mente faz, fica quietinho. Aí não pensa nisso não, porque
- 19:24você não dá conta de pensar nisso não, gata, você depender
- 19:26desse povo. Então assim, fica quieto,
- 19:28respira e acha que é com você. E aí quando a gente começa a
- 19:32desenterrar, às vezes a gente tem contato com essas sensações
- 19:35e esses sentimentos pela primeira vez de adulto.
- 19:39E aí essa dor ela vem gigante, ela vem gritando, ela vem
- 19:44tomando muitos espaços, vem olhando pra esses adultos e
- 19:48pensando, meu Deus do céu, como eles foram capazes de fazer isso
- 19:52comigo? Como eles foram capazes?
- 19:54E eu não estou falando que você não tem que viver essa dor, eu
- 19:58estou te dizendo que. Vai chegar o momento em que você
- 20:03vai conseguir pegar essa dor inteirinha e arrumar um
- 20:08lugarzinho para ela, que volta e meia vai ser desdobrado,
- 20:13espalhado pela sua vida de novo, mas de outras formas.
- 20:17E com o tempo você vai aprendendo a manejar essa dor,
- 20:21sabe? Você vai percebendo, Ah, quando
- 20:23ela se espalha, eu faço assim, e aí ela volta para o lugar dela.
- 20:28É um aprendizado. É um exercício essa dor de
- 20:33perceber que a gente não teve a família ideal é eu nesse nesse
- 20:39meu tempo, né? Trabalhando com pessoas.
- 20:41Eu já ouvi histórias gente terríveis de famílias.
- 20:48Meu Deus sabe que você olha e pensa mais como como essa pessoa
- 20:55era pai de alguém, como essa pessoa era mãe de alguém como
- 20:56essa criança. Sobreviveu e está aqui adulta
- 20:59conversando comigo. Hoje existem situações que a
- 21:01gente tem um choque, sabe que são assustadoras e a pessoa, ela
- 21:07vai levar um tempo até dar nome para isso.
- 21:11E às vezes, o que é assustador para mim nem é para você.
- 21:14Às vezes você vai passar uma vida, se tomar, se dar, se dar
- 21:17conta disso. E é muito difícil, né?
- 21:19Porque às vezes você se dar conta do seu irmão, sua irmã,
- 21:21não se dão e você vira pessoa ruim que não se deu conta.
- 21:25Quantos de nós aprendemos a contar das surras, dos castigos,
- 21:29dos absurdos que ouvia rindo, rindo, como se fosse uma piada?
- 21:36Nossa, minha mãe me falou isso, a minha mãe falava aquilo.
- 21:39A minha mãe. Um dia eu eu lembro de um
- 21:42conhecido que a mãe foi buscando uma festa uma vez e a mãe fez
- 21:50ele voltar andando até em casa, ela dirigindo atrás dele.
- 21:55E ele na frente, andando no frio, chovendo até a porta de
- 21:58casa. E quando entrou em casa, quando
- 22:01chegou em casa, ela entrou e não deixou ela entrar.
- 22:04E aí depois de um tempo que ela deixou de entrar, mas assim,
- 22:07surra em todas as coisas. Eu não vou julgar essa mulher
- 22:10porque ela fez isso, porque ela não fez.
- 22:11Eu não sei história dela, eu não sei nada.
- 22:14O que eu sei é que é essa pessoa que viveu essa experiência.
- 22:17O filho contava rindo muito, contava.
- 22:22Como se ele não tivesse vivido essa história.
- 22:26Ele contava essa história de olhando essa história de longe.
- 22:29E é como a maioria de nós, aprende a olhar as nossas dores.
- 22:33A gente conta olhando de longe, a gente conta rindo.
- 22:40E várias vezes a mãe contava rindo dessa história, porque ela
- 22:44também não conseguia tomar contato com o quanto aquilo era
- 22:48dolorido para ela também, entende?
- 22:51E aí, depois de anos olhando essa dor de longe, contando essa
- 22:54história de de uma forma desconectada, quando a gente
- 22:58olha e fala, pera aí, isso doeu, isso dói, caramba, isso dói.
- 23:07A gente acha que não vai dar conta de olhar essa dor inteira,
- 23:12sabe? Mas a gente vai dar, sabe porque
- 23:15isso a gente vai dar? Porque você, enquanto criança,
- 23:19você deu conta. De viver essa dor com bem menos
- 23:23recurso do que você tinha. Você tem hoje ainda, dependendo
- 23:29dos seus pais. E você está aqui.
- 23:32Se você deu conta de encarar, de viver aquela experiência e de
- 23:39encontrar o recurso, nem que seja o recurso que tenha sido
- 23:41esse, de olhar de forma distante para chegar aqui, se também vai
- 23:45dar conta de não ser a dor, de não mergulhar firmemente na dor.
- 23:52Entendeu? Eu não sei como vai ser o seu
- 23:54dia amanhã. Eu não sei com quem você vai
- 23:58passar amanhã. Mas eu te convido a pensar no
- 24:06que que você quer fazer amanhã, em vez de simplesmente fingir
- 24:11que a data não existe porque a gente se fingir que a data não
- 24:13existe porque criou a tua rotina.
- 24:19Sei lá, assistir um filme legal e comi uma pipoca sozinha e
- 24:26ouvir música e dançar uma música que você ama muito.
- 24:29Não sei encontrar aquela outra amiga que também não vai estar
- 24:32com ninguém se juntar com a família de coração.
- 24:35Família que você ama, seus amigos não sei, eu não sei o que
- 24:39vai ser, mas se permita criar a tua rotina, se permita juntar o
- 24:46teu clube onde gente que não está se encaixando.
- 24:50E que já aceitou que não se encaixa porque, ó de contar um
- 24:52segredo, chega perto. Quem não se encaixa tem de um
- 24:55Monte, entendeu? Na galera, a maioria se encaixa
- 24:59nessa idealização toda, de família e de tudo, não, algumas
- 25:03são neutras, não está tudo bem, faz parte da vida, do nosso
- 25:10crescimento, do nosso amadurecimento, a gente olhar
- 25:13para nossa história com outros olhos e recontar a nossa
- 25:15história. E descobrir o que que a gente
- 25:18vai fazer a partir de agora, sabe?
- 25:20Dando sentido pra gente. É triste, é um luto, é olhar
- 25:26todas as memórias e nossa, mexer no baú que a gente queria
- 25:29acorrentar e deixar embaixo da cama para sempre.
- 25:33Mas não dá. Isso vai dar conta, porque hoje
- 25:36você está só mexendo no baú. Um dia você viveu tudo que
- 25:40estava naquele baú e você está aqui, está bom?
- 25:43É isso, meu amor. Se faz sentido pra você, faz
- 25:47sentido pra aquela amiga, aquele amigo manda, manda ó, já pedi um
- 25:51negócio pra você se você ouvir até o final deixa um
- 25:54coraçãozinho nos comentários, sabe?
- 25:57Deixa um negocinho assim pode ser um coração, não precisa
- 26:00falar nada que aí eu penso assim, olha, ela dá coração,
- 26:03coração comigo. A gente se junta e o algoritmo
- 26:07entende que meu conteúdo é legal, aí ele passa pra mais
- 26:10gente, entendeu? Aí a gente ajuda mais gente,
- 26:12puxa, ó só. Que negócio bonito.
- 26:15Presente de Natal que você pode me dar, está bom?
- 26:17Um beijo e até o próximo episódio.