Latest / Na Mesa com Well / Jesus Movement: Batalha de Som: Heavy Metal e o Caos Sagrado
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- 0:00Bem-vindo a um na mesa com o el, o podcast para quem ama bons
- 0:03livros, a história real da igreja contemporânea,
- 0:07documentários que expõem a verdade e teologia com
- 0:11profundidade e clareza. E este é o dossiê Jesus
- 0:15movement, o Avivamento hippie. E bom para nossa imersão de
- 0:20hoje. Eu queria propor um cenário
- 0:21mental para quem está nos ouvindo.
- 0:23Imagina que a 1985, as luzes de uma arena lotada simplesmente se
- 0:27apagam? O ar fica denso, sabe muito gelo
- 0:32seco. Uhum o palco todo escuro.
- 0:35Isso e de repente, um feedback de guitarra altíssimo, daqueles
- 0:39que fazem o peito vibrar, rasga o ar, o palco explode num mar de
- 0:43luzes estroboscópicas. Tem os músicos vestindo couro
- 0:47preto, Correntes, aquelas roupas listradas de amarelo e preto, e
- 0:51eles começam a tocar numa altura insana.
- 0:53A bateria soa tipo como artilharia pesada mesmo.
- 0:56O vocalista solta um grito agudo.
- 0:59E aí ele começa a cantar sobre a majestade da Trindade e a
- 1:02salvação da humanidade. Nossa, é um choque total.
- 1:06Pois é, hoje a nossa missão neste dossiê é entrar nesse
- 1:10capítulo que é fascinante e muito barulhento, que chamamos
- 1:14de Batalha de som heavy metal e o cal sagrado.
- 1:19A gente vai usar o artigo do pesquisador shon David Young
- 1:23sobre a música apocalíptica e a influência cristã
- 1:26contracultural. E o nosso objetivo é investigar
- 1:29essa guinada, o momento exato em que o pessoal deixou de lado os
- 1:34violões acústicos das praias e pegou guitarras super
- 1:37distorcidas. É o que transformou o próprio
- 1:40caos musical numa verdadeira ferramenta de subversão
- 1:44espiritual, né? E bom, esse é um contraste
- 1:46visual e sonoro absoluto quando a gente estuda as raízes do
- 1:50Jesus movement lá no final dos anos 60, início dos 70.
- 1:55A estética era quase um bucólica, digamos assim.
- 1:59Violão pé na Areia. Exato.
- 2:02Sentados na praia da Califórnia, aquela Vibe de paz e amor muito
- 2:06suave, eles pegaram a contracultura hippie e adaptaram
- 2:10para uma teologia cristã. Só que quando a gente chega nos
- 2:14anos 80, o tecido social é outro, aquele frescor acústico
- 2:19não tinha mais o mesmo impacto para a nova geração.
- 2:22Perdeu a força? Perdeu a atração?
- 2:24Completamente. A gente entra numa era de guerra
- 2:27cultural intensa, o auge da guerra fria.
- 2:30O campo de Batalha mudou e, por consequência, exigiu um Arsenal
- 2:34estético muito mais tipo agressivo.
- 2:36Certo, vamos desempacotar isso porque, sendo bem sincero, dá um
- 2:41nó na cabeça. Por que consertar o que não
- 2:43estava quebrado? O fogo acústico tinha trazido
- 2:46milhares de jovens para o movimento, porque de repente
- 2:50essa mudança para o barulho, sabe?
- 2:52Não era mais seguro manter a fórmula?
- 2:54Ah, essa é a grande questão sociológica aqui.
- 2:57Não dava pra manter a fórmula, porque, na verdade, o sistema ao
- 3:00redor mudou. Pra entender isso, a gente
- 3:02precisa olhar pra um conceito que o sociólogo JR Howard traz
- 3:07nas pesquisas, que é ACCM separacional.
- 3:10CCM seria? A música cristã contemporânea.
- 3:13Isso a música cristã contemporânea.
- 3:15Ela nasceu dessa revolução lá dos anos 70, só que cresceu
- 3:19muito, virou uma indústria gigante e acabou se
- 3:23institucionalizando. E aí, nos anos 80, ela começou a
- 3:27se fechar numa bolha, num gueto cultural totalmente próprio.
- 3:31Então ela parou de conversar com o mundo lá fora.
- 3:34Totalmente. É como se a indústria musical
- 3:37cristã construísse um fosso gigante ao redor do seu castelo.
- 3:41E puxasse a ponte elevadista, sabe?
- 3:43Criaram um ambiente estéril, seguro, focado só em quem já
- 3:47estava dentro, que eram as famílias conservadoras.
- 3:50Eles queriam evitar, de todo modo, a sujeira e a complexidade
- 3:54da cultura secular real uhum. Entendi uma arte que foca em se
- 3:59separar do que eles consideram o mundo mau.
- 4:02Exatamente por isso o ccm separacional.
- 4:05O problema é que, fazendo isso, a arte perde a relevância
- 4:09crítica. Fica desprovida de força
- 4:11estética, fica previsível e morna.
- 4:14Mas olha só, eu vou ser o advogado do mercado aqui.
- 4:17Essa indústria não estava apenas dando o que o público queria,
- 4:21tipo música segura para tocar o carro sem palavrão.
- 4:25Se a bolha funcionava comercialmente, como o heavy
- 4:28metal vai se encaixar nisso? O metal é a música mais
- 4:32invasiva? Para os jovens dos anos 80, o
- 4:39cristianismo tinha que ser sal e luz, e não apenas um clube
- 4:43fechado. Eles não queriam ficar atrás das
- 4:46muralhas. Eles decidiram criar um ariete
- 4:48sonoro para derrubar esses portões pelo lado de fora.
- 4:52Caramba, e o ariete foi o metal? Foi o metal.
- 4:56E isso nos leva a outro conceito fundamental que precisamos
- 5:00definir, que a socióloga dena Einstein aborda.
- 5:05O conceito de elementos dionisíacos no heavy metal.
- 5:09Dionísio, o Deus grego. Isso mesmo, o Deus do vinho, do
- 5:16êxtase, daquela perda de controle, da catarse coletiva.
- 5:21O metal secular tem essa energia bruta.
- 5:23É o furor rítmico, o caos, o tal do sexo, drogas e rock in roll.
- 5:29Sim, é uma frequência sonora que serve para desestabilizar.
- 5:34Mas aí que está a minha dúvida, como é que você pega a música da
- 5:38perda de controle, o caos absoluto, e usa isso como
- 5:42veículo para a santidade? O que é fascinante aqui é que as
- 5:46bandas pioneiras do heavy metal cristão como striper,
- 5:50especialmente com o álbum soldiers under commond lá de 85
- 5:55e o blood perceberam uma coisa genial.
- 5:58O fervor espiritual e adoração também tem a ver com um tipo de
- 6:03êxtase, de entrega total a algo maior.
- 6:07Ah, entendi, uma catarse, mas voltada para Deus.
- 6:10Exato. Eles absorveram o peso, a alta
- 6:14voltagem. Eles se apropriaram dos
- 6:16elementos dionisíacos para combater a hegemonia da
- 6:20sociedade burguesa e daquela csi m morna.
- 6:23Só que eles não usavam isso para o niilismo.
- 6:26Eles substituíam a mensagem pela urgência da salvação, é uma.
- 6:30Tática de infiltração parece muito a estratégia do cavalo de
- 6:33Troia, né? Porque essas bandas, elas se
- 6:36pareciam exatamente com o perigo secular, a jaqueta de couro, o
- 6:41cabelo eriçado, o volume da guitarra.
- 6:44Eles entravam nos clubes noturnos, tipo na cena de Los
- 6:47Angeles, e o público não percebia que era uma banda
- 6:50cristã até o vocalista abrir a boca.
- 6:53Sim, e eles se recusavam a ficar na bolha.
- 6:56Eles iam direto pro território inimigo, visualmente idênticos,
- 7:00aquilo que os jovens já consumiam.
- 7:02Certo, mas aqui é onde a coisa fica realmente interessante.
- 7:06Para mim, a estética era um cavalo de Troia.
- 7:09Beleza, mas é a estratégia de combate real.
- 7:12A hora que o soldado sai do cavalo, o que acontece no palco?
- 7:15Bom, a conexão acontecia através de uma retórica muito
- 7:20específica. O pesquisador Jason bewens, no
- 7:23material de origem, define isso através da semiótica, como a
- 7:27retórica do caos. O heavy metal por si só sempre
- 7:31lidou com cenários extremos, fim do mundo, monstros, a luz contra
- 7:36as trevas, uma visão de mundo muito binária.
- 7:39Bem contra o mal absoluto. E as bandas cristãs
- 7:43ressignificaram esse palco caótico.
- 7:46Porque, convenhamos, a teologia evangélica, especialmente a
- 7:49escatologia o livro do apocalipse.
- 7:51Nossa, o apocalipse é literalmente o melhor roteiro
- 7:55possível para um disco de heavy metal.
- 7:57Tem dragão, tem cavaleiros do fim do mundo, fogo caindo do
- 8:01céu, Batalha cósmica, não dá para cantar sobre o armagedom
- 8:05tocando um violãozinho de nylon. O tema pede esse barulho, pede o
- 8:09apocalíptico. É perfeito, né?
- 8:11E até bandas do mainstream, da música cristão da época
- 8:14começaram a usar essa retórica de Batalha.
- 8:17O Petra, por exemplo, não era metal extremo, mas lançou o
- 8:20álbum desmins War usando toda uma estética camuflada e
- 8:23militar. O discurso mudou.
- 8:26Deixou de ser cinta, paz e virou.
- 8:28Estamos em guerra. Isso eles proclamavam a
- 8:31soberania de Cristo, usando os mesmos solos estridentes e temas
- 8:35grandiosos que o metal secular usava para exaltar o ocultismo.
- 8:38Tá, mas aí a gente chega no ponto que eu acho mais
- 8:42conflituoso disso tudo. E eu proponho um questionamento
- 8:46aqui para quem acompanha a gente, imagina a cabeça de um
- 8:50adolescente num show desses? O som é agressivo?
- 8:55A atitude é toda punk, toda antissistema, de revolta
- 8:59juvenil. Só que a letra está dizendo,
- 9:02obedeça a seus pais, não faça sexo antes do casamento, vá para
- 9:07a igreja. É um paradoxo enorme, é um.
- 9:09Paradoxo como que esse jovem se sentia rebelde se no fundo ele
- 9:15estava cantando sobre seguir regras rígidas?
- 9:17Essa é a grande sacada genial que a historiadora illen loure
- 9:21traz no texto. Ela cunhou o termo rebeldia da
- 9:24obediência. Se conectarmos isso ao cenário
- 9:27maior daquela época no final do século 20, o mundo secular pós
- 9:31anos 60 já tinha mudado o status quo.
- 9:34Como assim? Quebrar regras Morais já não
- 9:36era. Ser rebelde, transgredir, usar
- 9:39drogas recreativas, ter uma vida libertina.
- 9:43Tudo isso foi absorvido pela sociedade de consumo.
- 9:47O pecado, digamos assim, virou a norma.
- 9:50Era o padrão. Caramba, faz todo sentido se o
- 9:55padrão da sociedade não ter regra moral nenhuma, se o
- 9:58secularismo é um normal? Então a verdadeira contracultura
- 10:02assume uma nova face. A verdadeira rebeldia passa a
- 10:06ser a obediência Extrema e a santidade.
- 10:09Esses jovens usaram a rebeldia do metal, que historicamente
- 10:13ataca a autoridade, mas para subverter a cultura secular
- 10:18Moderna. A revolta deles era se entregar
- 10:21de forma absoluta à autoridade bíblica.
- 10:24É um ataque em 2 frentes. Eles chocavam a igreja
- 10:27tradicional com o barulho e as roupas rasgadas e chocavam o
- 10:31mundo secular com a mensagem de pureza e obediência.
- 10:35Provaram que dava para ser radicalmente antissistema, sem
- 10:38negociar a ortodoxia. Sem ceder em nada na teologia.
- 10:42A santidade virou a atitude mais punk que alguém podia ter.
- 10:47Fantástico e tem um exemplo prático disso nas nossas Fontes,
- 10:51né? Sim, a comunidade giza people
- 10:53USA ou JPUSAO artigo menciona eles bastante, especialmente com
- 10:59a riso roction Band, que o pessoal chamava de hasband.
- 11:03Eles viviam essa rebeldia da obediência na prática de um
- 11:07jeito muito cru. Eu li sobre eles e fiquei
- 11:09impressionado. Não era só uma banda, era uma
- 11:12comuna no meio de Chicago. Uma comunidade intencional, eles
- 11:16abrigavam moradores de rua, lutavam por justiça social de
- 11:20forma superativa na cidade, denunciavam o racismo e a
- 11:24ganância corporativa no meio de um som calcado em blues e hard
- 11:28rock pesadíssimo. E, ainda assim, conservadores na
- 11:31teologia. Estritamente ortodoxos, o som
- 11:34aspero deles refletia a aspereza das ruas de Chicago.
- 11:38Não era marketing da indústria cristã engessada, era a vida
- 11:41real. Então, o que tudo isso significa
- 11:44para nós? Tentando sintetizar essa Batalha
- 11:48de som, eu acho que o que fica claro é que o choque entre
- 11:51teologia e estética pode, sim, gerar expressões muito
- 11:55autênticas e poderosas. A criatividade da igreja tem que
- 11:59continuar desafiando o nosso conforto, sabe?
- 12:02O evangelho tem esse poder irrevogável de pegar qualquer
- 12:06expressão humana. Por mais caótica ou ruidosa que
- 12:09pareça e redimir isso, usar isso para apontar a humanidade caída
- 12:13de volta para o criador. Concordo plenamente e bom, pra
- 12:17não deixar o nosso público acomodado, isso levanta uma
- 12:20questão importante, sabe? Se nos anos 80 e 90, ali no
- 12:24festival cornerstone, o verdadeiro ato de rebeldia era
- 12:28usar o heavy metal para pregar o fim do mundo e a ortodoxia num
- 12:32cenário que era moralmente frouxo?
- 12:35Certo. Qual a estética da rebeldia, da
- 12:38obediência, no nosso século atual, numa era de hiper
- 12:41pluralismo, onde a justiça social é pauta comum de grandes
- 12:46corporações? Qual seria o novo heavy metal
- 12:48capaz de chocar a cultura contemporânea?
- 12:51Sem perder a essência do evangelho, onde está o choque
- 12:55hoje? Uau, olha, essa é uma provocação
- 13:00para deixar todo mundo fritando os neurônios nos próximos dias,
- 13:04é a pergunta de 1000000 de dólares.
- 13:06Fica o desafio de olhar para as novas expressões e não julgar
- 13:10logo de cara pela embalagem barulhenta, né?
- 13:13Muito bom. Que jornada foi essa de hoje?
- 13:15Obrigado a todos que mergulharam com a gente até o próximo
- 13:18episódio do nosso dossiê.