Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #299 Maria Homem e o que é ser mãe (ou não querer ser) na modernidade
Transcript
- 0:08Olá, tudo bem? Eu sou Marcelo Abude, seu
- 0:11podcast radiofônico, e estou de volta com mais uma
- 0:15edição das nossas peças raras. E
- 0:19hoje eu estou aqui para compartilhar uma ideia que
- 0:22está nascendo. E eu quero a sua opinião.
- 0:25Você ouveria, você gostaria de
- 0:28ter um conteúdo como este? É
- 0:30o seguinte, eu estou pensando em trazer aqui
- 0:32pequenos depoimentos, algo que fique em até 8 minutos
- 0:39e que sejam grandes pensamentos. Pequenos
- 0:44depoimentos grandes pensamentos, para que a
- 0:47gente reflita sobre vários assuntos na voz de
- 0:51pensadores e pensadoras muito, muito relevantes.
- 0:56Então eu vou começar dividindo
- 0:59com você como seria uma edição, né? E
- 1:02aí a gente teria alguns quadros, por exemplo, o que
- 1:06é? O que é ser mulher e poder
- 1:10escolher sobre ser mãe ou não no século XXI. E
- 1:15aí, neste piloto, digamos assim, eu trago o trecho
- 1:19de uma entrevista que eu fiz com a Maria Ommem, a
- 1:22psicanalista Maria Ommem, e ela fala justamente sobre
- 1:26esse tema. A gente tem uma ousa de, uma
- 1:31permissão de poder dizer não quero ter filho. Ou
- 1:35tenho dúvida, ou não surgiu esse desejo, talvez suja,
- 1:40eu tenho mais medo de me arrepender do que vontade
- 1:43de ter um filho. Eu tenho medo de fazer essa
- 1:46escolha agora com 30, 40, com 50, 60, falar, meu
- 1:49Deus, o que que eu fiz? Eu
- 1:51sou Maria Ommem, trabalho com psicanálise, do aula,
- 1:56palestra, escrevo, estou no reino da palavra. Eu
- 2:00não tenho dúvida de que essa é uma das grandes
- 2:04quebras muito recentes que a gente está vivendo. Isso
- 2:09é uma virada, sobretudo, século XXI. A
- 2:13ousa de você dizer, por exemplo, não estou feliz.
- 2:19Isso é um saco, isso é fonte
- 2:21de angústia, tive depressão pós -parto. É
- 2:25um tabu, dizer isso, mas acho que já foi mais do
- 2:29que hoje. Tanto que a gente tem um
- 2:31movimento, que tem nomes interessantes, né? Childless,
- 2:35childfree, livre de criança ou sem criança. Isso
- 2:39assusta muito. Tanto assusta muito que a gente
- 2:42tem movimento de reação ou contra -reação, que dizem,
- 2:48meu Deus, o mundo está perdido, é destruição das
- 2:50famílias ou destruindo a família brasileira ou a
- 2:54família cristã. Não é essa a questão. Não
- 2:57tem Jesus que resolve isso, que vai mudar o paradigma
- 3:03ultramoderno que é o nosso, que vai simplesmente dar o
- 3:08direito do sujeito individual de escolher o
- 3:12seu destino. Isso é a base que está na
- 3:15discussão de gênero, de maternidade, de trabalho.
- 3:19Então, voltamos ao ponto. Quem
- 3:21sou eu, o que eu desejo, o que eu vou fazer com a
- 3:25minha vida? Bem -vindo, século XXI. Duas
- 3:30finíssimas, porém pesadíssimas camadas
- 3:34ideológicas que cobrem o feminino. Uma
- 3:38é uma demonização e o outro é esse lugar de
- 3:43mártir, do sofrimento. Então,
- 3:46a gente tem ou Eva, pecadora, fonte da tentação,
- 3:51ou todas as santas, as mártires, madre Teresa,
- 3:56aquelas que vão ser o protótipo da abnegação, do
- 4:01sofrimento, da alta dedicação aos filhos, à
- 4:05família, ao seu homem. É toda uma narrativa de
- 4:09sacrifício. Se ela, por acaso, não obedece
- 4:14esse paradigma, ela é, então, culpada de ter
- 4:18prazer, de gozar, de usufruir. Não
- 4:21é que são exatamente dois vels, mas é uma trama.
- 4:25Essa é a trança que vai
- 4:27revestir o feminino, que, em última instância, é não
- 4:31goze. Trabalhe pelo gozo do outro.
- 4:35Basicamente, é isso, né? O
- 4:37problema dessa narrativa, primeiro, que é falso.
- 4:41Segundo, não casa com a outra
- 4:44narrativa, que é a narrativa moderna. De
- 4:47cada um ter direito a sua plena existência, como a
- 4:53gente diz, uma existência plena de direitos. Então,
- 4:57eu quero poder pensar, falar, cantar, andar, fazer
- 5:03sexo, passear, ler, escrever, pintar e bordar.
- 5:08Então, eu não posso viver com ser
- 5:12grudado no meu peito e no meu colo, nem um, nem
- 5:15dois, nem três, ou tempo inteiro. Por
- 5:18mais que a mim, pessoalmente, me dê muito
- 5:21prazer também a relação com os outros, mas também em
- 5:26dizer, ó, agora tá bom. Isso
- 5:29é um conflito diário, uma batalha contínua, porque aí,
- 5:34nós mulheres, a gente sabe muito bem aquele charme
- 5:38sutil, né, que vai te dizer, ah não, mas fica
- 5:42comigo mais um pouco, ah, mas você trabalha demais.
- 5:46Escuto isso do meu filho, que faz
- 5:49uma demanda infinita, como é própria do lugar dele.
- 5:53Aí eu falo, tá bom, tá bom,
- 5:55vem aqui, grudem -me. Vem cá, vem cá, deixa eu fazer
- 5:57sua aula aqui. Não vai fazer comigo, agora vai
- 6:00fazer comigo. Ele sai, mamãe. Então,
- 6:04ele também entende, eu acho que é isso como estratégia.
- 6:08Acho que as pessoas, os filhos,
- 6:11os homens, os empregadores, acho que todo mundo entende
- 6:15que essa grudação, você também está o tempo todo à
- 6:19disposição com o outro preso no outro, também não
- 6:24é interessante. Também não vai te enriquecer muito
- 6:27menos o seu desejo. Então, como achar esse equilíbrio?
- 6:32Essa é a dança do amor, a
- 6:35dança da sedução. Uma luta entre dois eus, duas
- 6:40subjetividades com seus direitos, suas apostas
- 6:45egoicas. Então, tem uma proposta incrível
- 6:49de trabalho no norte. Eu tenho uma incrível proposta
- 6:52de trabalho no sul. E agora, para onde a gente
- 6:56vai? A gente vai, cada um vai na
- 6:58sua, mas então a gente vai reproduzir a vida? Como
- 7:01fica o conceito de família? Como
- 7:03é que a gente vai, então, fazer os filhos e quem vai
- 7:06entrar na lógica da abnegação e do sacrifício?
- 7:11Socialmente, a gente tinha uma solução
- 7:13para isso, porque humanos e desejos eventualmente
- 7:17conflitantes, isso sempre existiu, só que a gente
- 7:21tinha um acordo de base. Eu,
- 7:23o homem, desejo, é a minha seta desejante que manda
- 7:27você mulher a abnega. Você sacrifica, você serve, você
- 7:33sede e você segue. Agora, não. Agora,
- 7:37a mulher fala, não sei se eu estou a fim. Não
- 7:39sei se eu estou a fim de te seguir, de abrir mão da
- 7:41minha carreira. Então, por isso que é muito
- 7:44importante a gente saber a matriz do problema. Para
- 7:50poder, então, buscar fazer esse tipo de reflexão. E
- 7:55aí, abre tudo. Abre o conceito de apaixonamento,
- 7:59de ciúme, de posse, o que seria traição. A
- 8:04traição é a norma social ou a traição é a mim
- 8:07mesmo, é o meu desejo. Eu exerço não a minha
- 8:10sexualidade, o que é família, o que é viver só,
- 8:16o que quer viver e ver acompanhado. Abre
- 8:19uma gama de questionamentos a partir desse grande
- 8:25paradoxo de base. Eu quero a sua opinião. Você
- 8:31gostaria de ouvir outros áudios como este? E
- 8:35se sim, eu vou criar um outro canal com outro nome,
- 8:40uma outra produção de podcast para difundir muitos
- 8:44pensamentos, grandes pensamentos em pequenos
- 8:49momentos, pequenos trechos para que você possa se
- 8:53inspirar na vida e mais do que isso, refletir sobre a
- 8:57nossa sociedade atual. Por exemplo, teria aí nesse
- 9:00conteúdo Itamarveira Junior, o Ailton Krenak, pessoas
- 9:05que ao longo dos últimos 12 anos eu entrevistei e
- 9:09bom, eu abri aqui no Spotify um espaço para você
- 9:15dizer se você quer outros conteúdos como este e aí
- 9:19eu vou criar este canal para a gente compartilhar e
- 9:23no YouTube você pode ir lá nos comentários também e
- 9:26dizer muito legal, gostei, quero mais, tá bom? Muito
- 9:31obrigado pela sua atenção, pela sua audiência e até a
- 9:35próxima. Quando eu volto com mais peças
- 9:38raras para você.