Latest / TIC, Educação e Web / IA nas escolas e os professores exaustos
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- 0:00OK, vamos lá, descodificar isto. Imaginemos o seguinte cenário,
- 0:04neste exato momento, é muito provável que um aluno esteja a
- 0:07chegar ao seu exame de condução a pilotar, sei lá, um carro
- 0:10voador de última geração. Completamente à vontade com os
- 0:13comandos todos. Exato, a dominar a anti
- 0:15gravidade e tudo, enquanto o instrutor que o vai avaliar está
- 0:19no banco do lado a soar em Bica, a tentar perceber como é que se
- 0:22engata a primeira mudança numa velha caixa manual.
- 0:24É uma imagem que ilustra perfeitamente o que se passa, o
- 0:28que é fascinante aqui. É que historicamente, a escola
- 0:33foi sempre aguardiando a tecnologia, não é?
- 0:35Pois entrava tudo pela porta. Da frente, nem mais.
- 0:38O retroprojetor, o primeiro computador do laboratório, os
- 0:41quadros interativos, tudo isso entrava na escola de forma
- 0:44planeada, com um manual de instruções e um propósito
- 0:47pedagógico claro. Só que agora a história é outra.
- 0:49O objetivo da nossa exploração aprofundada de hoje não é
- 0:52debater se isto de inteligência artificial nas escolas é o
- 0:55apocalipse ou uma utopia maravilhosa.
- 0:58A nossa missão é analisar uma inversão de papéis brutal.
- 1:01Uma subversão da hierarquia do conhecimento.
- 1:04Exatamente onde a tecnologia está a entrar nas salas de aula
- 1:08pela janela contrabandeada nos bolsos dos alunos, e temos muito
- 1:11material de base para sustentar isto.
- 1:14Sim, o material é vastíssimo e muito revelador.
- 1:17Temos um artigo central excelente publicado na secção
- 1:19tic, educação e web e depois complementamos isto com a
- 1:24estratégia digital de Portugal de dezembro de 2025.
- 1:27A iniciativa IAE, do de maio do mesmo ano, e a academia
- 1:31professores do futuro. E ainda as visões críticas do
- 1:35observador da rádio Renascença e aquele artigo muito contundente
- 1:40do jornal espanhol la vanguardia se cruzarmos tudo isto, a imagem
- 1:44que obtemos é no mínimo preocupante.
- 1:47Os dados chocam mesmo. Vamos olhar para Espanha, que no
- 1:50artigo é usada como espelho para a realidade de Portugal. 75% dos
- 1:55jovens entre os 16 e os 24 anos usam agentes de ya regularmente.
- 2:00O que já de si é o número avassalador.
- 2:02Mas espera, o que esmaga a concorrência europeia é o uso no
- 2:05ensino secundário, 35% dos alunos na península ibérica já
- 2:10usam AIA para fazer trabalhos escolares.
- 2:12E convém comparar isso com o resto da Europa para percebermos
- 2:15a escala. Pois em França estamos a falar
- 2:18de apenas 14%, na Itália, 25%. Ou seja, há aqui uma adoção
- 2:24voraz por parte dos alunos ibéricos, o que nos obriga a
- 2:27olhar imediatamente para o outro lado da sala, para os
- 2:30professores. Aí que entra a minha grande
- 2:32dúvida, porque é muito fácil de cair naquela narrativa
- 2:35preguiçosa, quer dizer, dizer que os professores são teimosos,
- 2:39que têm uma aversão ideológica à tecnologia?
- 2:42O típico no meu tempo, o papel é que era bom.
- 2:45Exato, mas os professores ficaram para trás por simples
- 2:49teimosia. É isso que os dados mostram.
- 2:51Não de todo essa ideia da teimosia é um mito.
- 2:54Os dados mostram nos uma realidade demográfica
- 2:57completamente diferente. Há uma fratura geracional muito
- 3:01nítida aqui. Que tipo de fratura?
- 3:0360% dos professores com menos de 30 anos já utilizam ferramentas
- 3:08de IA na sobre preparação de aulas, 60%.
- 3:11Uau, isso é imenso. É imenso.
- 3:13O grande problema surge quando percebemos que a larga maioria
- 3:16da classe docente em Portugal não tem, de facto, menos de 30
- 3:19anos. E no grupo acima dessa idade, a
- 3:22taxa de utilização cai a pique para apenas 27%.
- 3:25Certo, mas se não é resistência ideológica, qual é a verdadeira
- 3:29causa para essa queda? A verdadeira causa, segundo as
- 3:32Fontes que analisamos, é uma mistura de desorientação
- 3:36formativa com uma exaustão profissional profunda.
- 3:39Cansaço puro e duro. Portanto, a exaustão porque
- 3:42repara? Usar estas ferramentas não é
- 3:44como ligar uma máquina de calcular.
- 3:46Existe tempo e curva de aprendizagem?
- 3:48Pois a tal engenharia de prontos, muita gente pensa que é
- 3:51só dizer ao computador, faz me um plano de aula sobre o 25 de
- 3:54abril e a magia acontece. E o que sai é um resultado
- 3:57genérico, desinteressante e que pedagogicamente não serve para
- 4:00nada. Exatamente para extrair valor
- 4:03real, o professor tem de programar com linguagem natural,
- 4:06tem de definir o contexto, o nível dos alunos, os objetivos e
- 4:10ter ar com a máquina. E isso exige um tempo que eles
- 4:13não têm. Esse é o ponto central.
- 4:15Esse espaço mental não existe para um docente que gere turmas
- 4:19de 28 alunos, reuniões, direções de turma e burocracia
- 4:24interminável se lhes tiram o oxigénio da agenda.
- 4:27O cérebro humano não inova, preserva energia.
- 4:30Mantém o que já se sabe que funciona.
- 4:32Certo? Mesmo que o método esteja a
- 4:34ficar obsoleto, faça o que o aluno faz em casa.
- 4:37E aqui é que a coisa fica mesmo interessante, porque o governo
- 4:40não está alhado disto. Temos a tal agenda nacional para
- 4:43a inteligência artificial, lançada em dezembro de 2025, com
- 4:47investimento de 350000000 de euros para o bienio de 2025
- 4:522026. É muito dinheiro.
- 4:54Sim, e o ministro Fernando Alexandre avisou logo que as
- 4:57escolas têm de se adaptar. Vimos nascer coisas como AIIDO,
- 5:01criada em maio de 2025 pela FCTEFCN.
- 5:04Que é focada no ensino superior, não é?
- 5:06Exato, para criar ambientes seguros e depois?
- 5:11Em novembro, avançaram com a academia professores do futuro
- 5:14para formação. À primeira vista, parece que o
- 5:17governo resolveu o assunto, certo.
- 5:19Temos milhões, plataformas e formação.
- 5:22Pois se ligarmos isto ao Panorama geral e olharmos de
- 5:26forma mais crítica, percebemos que é uma ilusão.
- 5:30O documento da UGT espanhola que os nossos sindicatos partilham
- 5:34na íntegra em termos de preocupações, desmonta isso.
- 5:37Como assim? Despejar milhões em plataformas?
- 5:40Não resolve a estrutura exigir que um professor exausto vá
- 5:44aprender e há sem lhe reduzir a carga letiva ou o rácio de
- 5:48alunos é uma falácia completa. Então, o que isto tudo
- 5:52significa? Que o governo está a tentar
- 5:55curar uma fratura exposta na pedagogia com um penso rápido
- 5:59tecnológico, em vez de contratar mais médicos ou, neste caso,
- 6:03mais professores. Exatamente essa leitura.
- 6:06O investimento financeiro tem de ser acompanhado de condições
- 6:11reais de trabalho e de tempo para reflexão pedagógica.
- 6:15Sem isso, as plataformas são apenas montras vazias.
- 6:19Estou a ver. E isso leva nos a outro erro
- 6:21crasso que é denunciado nas Fontes, a forma como se trata a
- 6:24educação, como se fosse um bloco homogéneo.
- 6:26Achar que a inteligência artificial afeta o miúdo da
- 6:29primária da mesma forma que afeta o universitário.
- 6:33Nem mais a pedagogia não tem tamanho único.
- 6:36Se olharmos para o ensino superior, a mudança é dramática
- 6:39e urgente. O modelo tradicional de exame
- 6:41está completamente morto. E tem de estar passar 2 horas
- 6:45numa sala a vomitar conhecimento memorizado num papel, deixou de
- 6:49fazer qualquer sentido, porque o.
- 6:50Telemóvel no bolso do aluno, faz isso em 5 segundos.
- 6:53Certo? Portanto, no ensino superior, o
- 6:57foco tem de passar para a autonomia, para Apresentações
- 7:01orais, para a defesa de portfólios, para a síntese
- 7:04crítica. Tarefas onde o aluno tem de
- 7:07provar que o raciocínio é dele, defendendo argumentos sob
- 7:11pressão perante um júri AIA não consegue transpirar numa cadeira
- 7:15a defender uma tese ética, não é?
- 7:17Exatamente. A avaliação tem de ser pro
- 7:20pessoal e dialética. No ensino superior, os alunos já
- 7:24têm as bases cognitivas para usar a tecnologia como um
- 7:27parceiro de debate. Mas depois o contraste é brutal
- 7:31quando recuamos para os mais novos para o primeiro ciclo, por
- 7:34exemplo. Dar um agente de IAA, uma
- 7:37criança de 7 anos, é como dar um GPSA.
- 7:40Quem ainda não aprendeu a andar? É uma analogia muito forte e
- 7:44muito verdadeira. Porque o GPS diz te o caminho
- 7:47mais curto, mas se não tiveres músculo nas pernas, ficas no
- 7:50mesmo sítio. Que introduzir estes agentes
- 7:52digitais tão cedo é amputar uma parte essencial da experiência
- 7:57humana? Uau, amputar a experiência
- 7:59humana. Isso é pesado.
- 8:01Mas é real, porque as crianças nestas idades precisam de
- 8:05aprender a ser pessoas primeiro. O processo de aprendizagem não é
- 8:09apenas a transferência de dados para a cabeça.
- 8:11É sensorial, é tátil e, acima de tudo, é relacional.
- 8:15A tal literacia relacional e analógica, que tem de anteceder.
- 8:18A digital. Exato, envolve lidar com a
- 8:21frustração no Recreio, sentir o peso e a textura de um livro,
- 8:24interagir com um professor de carne e osso que demonstra
- 8:27empatia verdadeira. Claro, porque um grande modelo
- 8:30de linguagem pode dizer muito bem, fizeste um ótimo trabalho a
- 8:33uma criança, mas não sente orgulho absolutamente nenhum.
- 8:36É só estatística. É uma sequência matemática
- 8:40programada para agradar o olhar de um adulto que se importa
- 8:43genuinamente com o sucesso daquela criança.
- 8:46É insubstituível. O desenvolvimento emocional tem
- 8:49de acontecer num ambiente exclusivamente analógico para
- 8:52que as fundações humanas fiquem sólidas.
- 8:55E isso é fundamental para quem nos está a ouvir, quer sejam
- 8:58pais, professores ou apenas pessoas que tentam navegar nesta
- 9:02economia digital. Mas para não ficarmos apenas
- 9:04pela teoria, as Fontes dão nos uma sugestão de atividade
- 9:07prática fantástica para os ciclos intermédios.
- 9:10Para o segundo e terceiro ciclo, certo?
- 9:11A fase de transição, sim. Porque não podemos simplesmente
- 9:14proibir os telemóveis e fingir que a tecnologia não existe na
- 9:18vida de um adolescente. Portanto, o que eles sugerem é
- 9:21uma aula, digamos, de história, onde se pede aos alunos que
- 9:24resolvam um problema primeiro, sem qualquer IA.
- 9:28Apenas com papel, livros e debate entre eles.
- 9:30E isso era Romano a fazer o esforço.
- 9:32Exato, o trabalho de ginásio intelectual e depois na segunda
- 9:36fase, os alunos pegam nesse mesmo pedido e colocam No No
- 9:40motor de a generativa e comparam os 2 resultados.
- 9:44Isso levanta uma questão importantíssima, que é o treino
- 9:47da meta, cognição, o pensar sobre o pensar.
- 9:51Ao colocar os textos de lado a lado, eles percebem o que mudou,
- 9:55o que a máquina perdeu ou ignorou.
- 9:57E começam a detetar as tais alucinações da IA.
- 10:01Que é um conceito técnico crucial.
- 10:03Eles reparam que a máquina escreve um texto lindíssimo e
- 10:06super polido, mas que às vezes inventa factos como a confiança
- 10:10assustadora? Pois é.
- 10:11E percebem que a máquina é muito rápida, mas não tem o ângulo
- 10:14original que eles discutiram no grupo.
- 10:16Falta lhe sei lá a alma, o atrito humano.
- 10:19Esse simples exercício é brilhante porque desenvolve o
- 10:23pensamento crítico e a literacia digital de forma empírica.
- 10:27Eles ganham anticorpos contra a aceitação cega de informação bem
- 10:31formatada e isto. Traz nos à grande lição que
- 10:33podemos retirar de tudo o que analisamos hoje no mundo, onde a
- 10:37informação factual é praticamente gratuita e gerada
- 10:40num segundo, a capacidade de discernimento e o pensamento
- 10:43crítico tornaram se o derradeiro artigo de luxo.
- 10:46A sabedoria passa a ser escassa e muito valiosa.
- 10:50Nem mais a chave do futuro não são os algoritmos, são as
- 10:53qualidades intrinsecamente humanas.
- 10:55E, por arrasto, os professores ganham um papel ainda mais
- 10:58elevado. Sim, deixam de ser os meros
- 11:01transmissores da matéria. E passam a ser curadores do
- 11:03caráter, do raciocínio moral daquelas crianças e jovens.
- 11:06É quase uma elevação da profissão AIAI exige um piloto
- 11:10com valores muito firmes para não.
- 11:12Causar estragos, absolutamente. Mas, para terminarmos, há uma
- 11:16provocação final que estas Fontes nos deixam e que eu acho
- 11:18que devemos colocar a quem nos acompanha.
- 11:20Vamos a isso? Nós temos falado da IA como uma
- 11:23ferramenta de texto e cintos estatística, mas a tecnologia
- 11:27está a avançar de forma exponencial.
- 11:29Sim, a cada mês que passa as capacidades duplicam.
- 11:32Pois então, se AIA chegar a um ponto que não parece estar assim
- 11:36tão distante, em que consegue não apenas reduzir um texto.
- 11:40Mas também simular empatia com uma perfeição assustadora.
- 11:43Lendo as nossas pressões faciais, o tom de vozes.
- 11:47Exatamente uma máquina que debata, connosco, que faça
- 11:50síntese crítica e nos estimule de forma completamente
- 11:54indistinguível de um ser humano extremamente sábio e paciente.
- 11:57Se chegarmos a isso, qual passará a ser a verdadeira e
- 12:01única função do ensino presencial no futuro?
- 12:04É uma questão que mexe com a própria definição de escola.
- 12:07Será a escola de amanhã o último santuário exclusivamente humano
- 12:11e analógico da nossa sociedade? É algo que deixamos no ar para
- 12:14reflexão. Continuem a explorar este tema e
- 12:17a fazer perguntas difíceis. Nós encontramo nos na próxima
- 12:20exploração aprofundada.