Latest / E se...? / E se fôssemos independentes?
Transcript
- Pedro Figueiredo: Olá, bem-vindo aqui a mais episódio do podcast E se...? O meu nome é Pedro Figueiredo. Obrigado a quem vai acompanhando e deixando feedback. Então, para o episódio de ⁓ que, como é ⁓ vai abordar aqui os dois pilares da filosofia e da saúde, vamos tentar abordar esses pilares através de três ⁓ relações e egoísmo. Todos eles já abordados ⁓ episódios anteriores de alguma forma. E hoje aqui ⁓ modo, mais uma vez, ⁓ freestyle, considero que estes três tópicos são realmente impactantes e eles relacionam-se todos os dias, muitas vezes. porque existem N situações tão simples e tão frequentes na nossa vida com que nós conseguimos realmente entender como é eles estão relacionados e... o impacto que eles têm. Então, mudança aqui é, nesta perspectiva, na maioria das vezes quando as pessoas querem mudar algo, e aqui eu vou usar ⁓ exemplo prático como eu quero perder peso, a maioria das pessoas irá, ⁓ tender a ⁓ fazer alguma mudança, ⁓ alguma alteração sua nutrição. comer menos, mudar alimentos, ir a uma consulta, ter ⁓ plano específico, entrar num programa qualquer, etc. O que é se sabe pela experiência? Que dependendo de como estes programas, estes planos, etc. são criados, isto, grande parte das vezes, não dá resultado nenhum ou dá a curto prazo, mas não dá resultado a médio longo prazo. Porquê? Porque a mudança foi... feita acima de tudo apenas ao nível do comportamento. Então eu comia de uma determinada maneira e agora estou a tentar comer de uma maneira diferente. E isto implica uma mudança normalmente de vários hábitos. Hábitos que não têm só a ver com repetição. Tem a ver com tudo aquilo que esses hábitos nos dão. fisicamente, mentalmente, emocionalmente, os nossos recursos de energia também de maneira e por isso tentar, ⁓ de repente, ⁓ só mudando aqui rapidamente e muitas vezes à à bruta, comportamento ⁓ si torna-se desafiante que essa mudança seja sustentável e de longa duração. O que é que se sabe? Que é muito mais fácil. E acontece de uma forma muito mais natural. Eu até posso começar já a tentar mudar alguns comportamentos. Mas, acima de tudo, eu, se calhar, tenho que entender a maneira que o meu cérebro vê a nutrição. Por que é que eu tenho tido estes hábitos? Por que é que eu tenho comido desta maneira? Por que é que é tão difícil, muitas vezes, mudar? Qual é a minha relação com a comida? O que é que eu estou à procura com a comida? O que é ela me dá? Como é que eu penso? Porque a partir do momento ⁓ que eu, se calhar, vejo a comida apenas como ⁓ ponto de encontro entre pessoas e como uma fonte de prazer. Por exemplo, é só ⁓ exemplo. E passo a ver a nutrição como a qualidade da energia que eu ponho no meu corpo para ele estar no... para ele pensar, para ele ter saúde, etc. Quando eu penso que há pessoas que não têm muito e que, se calhar, aquilo que eu como deveria ser apenas aquilo que é o suficiente para mim, o mínimo indispensável e não o máximo dispensável. Portanto, quando eu penso que, de facto, cada coisa que eu coloco dentro do meu corpo, dependendo de onde é que ela vem, como é que foi criada e por aí fora, vai ter impacto ⁓ mim, ela não deixa de, se calhar, também significar algum prazer de vez ⁓ quando, mas não significa, se calhar, dependência. Então, quando eu mudo a minha visão do que é comer, o que é a nutrição, automaticamente o comportamento muda, mas só porque já não faz sentido continuar a ver a comida daquela maneira. Eu mudo o comportamento, mas acima de tudo eu mudo a minha perspetiva. É esta a mudança que eu me refiro, peço desculpa quando estou a dizer abordar este tópico. Egoísmo. Egoísmo já vimos há uns episódios atrás que tem acima de tudo a ver não com ⁓ egoísmo ético, vamos dizer assim, mas com ⁓ egoísmo fisiológico. Porque quando nós, e aqui... Caralhar, eu poderei ser assumir, vamos dizer assim, que é verdade quando se diz que a maioria de nós, para não dizer a todos, quer sentir-se amado, quer sentir-se valorizado, ⁓ ⁓ ⁓ nós queremos sentir isto, nós queremos sentir isto não é de uma perspetiva provavelmente isotérica, espiritual, transcendental. é mais de uma perspectiva fisiológica. Porquê? Porque assim que eu sinto estas coisas, isto significa que eu, alguma forma, consigo integrar-me num grupo. Nem que seja só com mais uma pessoa, ou mais algumas pessoas, ou ⁓ muitas pessoas, ou numa sociedade. Porquê? Então, porque se eu faço parte, eu tenho valor para estas pessoas, então... tudo o é a minha vida vai ser mais fácil. Eu não tenho que andar ⁓ pânico, achar que estou aqui sozinho no mundo, que não serve para nada. tudo isto pode relaxar, a vida é mais fácil e pronto. Isto tem a ver com ⁓ egoísmo que é fisiológico. Eu quero saber da minha sobrevivência, logo eu sei que isso é mais fácil se eu socialmente... tiver este reconhecimento, for, aceite E depois as relações. Por quê? Porque o nosso dia é feito de relações. Estamos sempre entre pessoas muito próximas, pessoas mais ou menos próximas e muito distantes e pessoas que se calhar nem conhecemos, nem vemos, mas estão a fazer coisas que têm impacto. Portanto, relações de vários tipos. e tem impacto na nossa vida. E então aquilo que nós vamos ver é que estes três tópicos tantas vezes têm influência uns nos outros. Na minha prática, enquanto personal trainer, o trabalho para ajudar as pessoas a ter mais saúde, a atingirem os seus objetivos, etc. e trabalho na área há 20 anos. E eu digo 20 anos não para me gabar, mas para dizer que já trabalhei. Não só... tive muitos clientes ao longo dos anos, como trabalhei com muitos colegas ao longo dos anos ⁓ espaços diferentes. E ⁓ espaço não é diferente do outro, as pessoas não são assim tão diferentes umas das outras. E por isso eu posso dizer que tantas vezes a maneira como nós ajudamos as pessoas a melhorar a sua saúde, tem também ⁓ lado de egoísmo. ⁓ lado de eu faço assim... Porque eu sei que vais continuar a treinar comigo, vou continuar a ganhar dinheiro, vou continuar a ter clientes, há uma valorização do meu trabalho, eu sinto-me respeitado, reconhecido, tudo isto. Portanto, eu ajudo, mas porque sei que há ⁓ retorno associado a essa ajuda? Senão, será que ajudava? Será que não ajudava? Fica a questão. Mas esta... Esta noção de que eu dou porque recebo, que também já foi abordado, faz exatamente com que a maneira como nós interagimos com os outros seja, eu diria até muitas vezes, sem termos a noção... de criar dependência. Então eu vou agir como o que sabe. Tu vens treinar porque tens ⁓ compromisso comigo. Portanto eu estarei aqui à tua espera. Se tu precisares da minha ajuda, ok. Se quiseres que eu te ajude na parte da nutrição, ok. Eu dou-te os parabéns. Eu dou-te a energia. ⁓ eu faço-te o reconhecimento aqui no Dou-te ⁓ hi-five, etc. E então, o que é nós estamos a fazer? Nós estamos a dar tudo e a outra pessoa sente-se muito bem, mas sente-se muito bem se tiver isso. Porque aquilo que nós criamos com este sistema foi ⁓ sistema de dependência. Que se a pessoa, por algum motivo, de repente, nós não estamos com ela, ou não nos conseguimos entregar aquilo que temos habituado a pessoa a receber, de repente, o que acontece do outro lado? Eu já não sinto... Tu queres saber, serviço já não é o mesmo, tu não me das a palmadinha nas costas, tu não me das a energia e Portanto, na verdade eu estou a dar porque eu estou a criar aqui uma necessidade ⁓ mim, na minha pessoa, ⁓ meu produto, no meu serviço, etc. E isto é assim na área do PT, isso muitas vezes nós vemos isso até na comunicação. A comunicação é, se eu fosse a si fazia assim e depois já sabe, não fazia isto, não ia por aqui, ia mais por ⁓ Atenção que sabemos que... E este é o discurso do pai que diz ao filho o que é ele deve fazer. Portanto, todo este discurso é de dependência. Queremos ajudar? Não vou dizer que não. Mas queremos ajudar porque temos esse retorno. E isto é assim ⁓ todos os tipos de relações. Relações amorosas, as pessoas criaram relações de dependência. ⁓ tu já não me perguntas como é que eu estou? É que não queres saber. ⁓ tu já não sei o Habituaste-me a isto? Habituaste-me a quê? Eu estou habituado, eu estou habituado, habituado. E agora quando não recebo... Eu sinto-me mal. Por isso, as pessoas estão, vezes, dependentes emocionalmente umas das outras. Mas vamos pensar... Mais uma vez digo, não quero dizer que não queiramos ajudar. Mas vamos pensar qual seria o expoente máximo de ajudarmos alguém. ⁓ filho, marido, uma mulher, ⁓ colega, ⁓ amigo, ⁓ cliente, o que seja. Qual seria o expoente máximo de ajuda? Seria esta pessoa não precisar de nós? Ser autónoma, ter com ela todos os recursos necessários para mudar, para fazer, para agir, para ter os resultados que quer. Não a dependência de mim, do outro. Não, não isso. O expoente máximo é a autonomia da pessoa. Como é que se cria autonomia? É neste sistema que temos ajudado porque sabemos que há ⁓ retorno? ou é através de algo, termos de comunicação, ⁓ termos de interação, que na verdade coloca responsabilidade na pessoa, coloca o orgulho daquilo que é conseguido na pessoa. Não, eu sinto orgulho orgulhoso de ti. Não, não. Tu é que tens de sentir orgulhoso de ti. Não sou eu. Estou aqui se precisares. Dizes-me assim, Pedro, qual é a tua opinião? Eu respondo. Ajude-me a fazer isto. Eu posso ajudar. Mas não numa perspetiva de tu dependeres de mim. Ok? Portanto, provavelmente a nossa comunicação, as nossas interações, tudo isso mudaria. E agora vou dar aqui ⁓ exemplo, porque para tocar exatamente novamente, ou voltando atrás, ao tópico da mudança. mas que espero eu, de alguma forma, conseguir integrar aqui estes três tópicos, que é... Eu não deixei propriamente na minha vida profissional, etc., ser ⁓ bocadinho assim. Mas aquilo que aconteceu foi que há uns tempos atrás, não porque me li num livro, não porque alguém me disse, não. Foi simplesmente eu começar a ter a noção de que eu estava dependente É como se eu fosse o cliente nesta situação. Eu estava dependente de que outras pessoas me fizessem sentir o amado, respeitado, valorizado, reconhecido e por aí fora. Eu estava tão dependente disso que se isso não acontecesse eu sentiria-me frustrado desanimado, triste E é quando eu começo a perceber na minha dependência emocional dos outros, que eu começo ao mesmo tempo a ter noção que eu também crio dependência noutras pessoas, ou até nas mesmas. Portanto, eu não só estou dependente como eu crio dependência, porque na verdade eu também quero sentir que os outros me veem como algo necessário, que também eles estão dependentes de mim para se sentir bem. E é aqui... que eu digo que a mudança acontece não porque eu forço determinado comportamento, mas porque eu, repente, ⁓ com uma quantidade de consciência, de noção, que eu já não consigo voltar atrás e pensar da mesma maneira. E por isso eu não só não quero ser dependente, eu posso aproveitar aquilo que outros me poderão... genuinamente querer dar. Eu não vou negar, eu não vou ser frio, não vou ser distante e isolar-me. Eu só não estou dependente. Quer dizer que se isso não acontecer, está tudo bem. Se acontecer, ótimo. É ⁓ bónus. É ⁓ luxo. Então aqui deste lado, eu também não vou, ou vou, dentro daquilo que eu conseguir, criar ⁓ mínimo de dependência. Quer dizer que eu, puder, comunicar... ajudar de uma forma a que seja a própria pessoa a tomar as suas decisões, a encontrar as suas soluções, a pensar por ela, a explorar, por exemplo, caso do treino, a explorar o corpo da maneira que ela quer, sem eu lhe dizer que está certo ou que está errado, que tem que ser assim ou que tem que ser assim. Se eu conseguir providenciar ⁓ contexto numa determinada relação que faça com que a outra pessoa... tenha realmente os resultados que ela quer, acima de tudo, por causa dela mesmo, ótimo! E eu acho que isto seria o ideal. E é aqui então que eu, porque sei que há ⁓ egoísmo fisiológico que tem impacto nas relações, na dependência, nas expectativas e, muitas vezes então, no sofrimento consequente dessas mesmas relações, então eu mudo... a minha perspectiva sobre como tudo isto deveria funcionar e agora, automaticamente, sem eu forçar muito, eu vejo-me a dar menos palmadinhas nas costas, quando eu vejo que realmente há qualquer coisa de extraordinário, eu posso fazer ⁓ reconhecimento, mas eu quero acima de tudo que seja a pessoa a entender e a ter esse reconhecimento dela própria. Isso é que é... autoconfiança, isso é que poderá ser amor próprio, é que poderá ser autoestima e por aí fora. Não uma estima que é dependente, não ⁓ amor que é dependente Então fica aqui a reflexão sobre, não só a perspetiva que nós temos, sobre o que será ajudar a sério o outro, se estamos realmente a tentar ajudar... O que é seria o resultado ideal? Ou se estamos a tentar ajudar porque sabemos que isto vai nos ajudar a entrar aqui no loop e eu ajudo e ele continua ao meu lado ou continua a treinar comigo ou continua dependendo de alguma coisa e eu... e eu sou necessário. Fica a sugestão de reflexão. Até a próximo episódio e até lá. Cuide de si.