Latest / Elas na Escrita / #41 O que a gente carrega quando escreve?
Transcript
- 0:00É, oi, oi gente, sejam bem vindos a mais um episódio delas
- 0:03na escrita. Hoje eu tô aqui com mais 2
- 0:06autoras incríveis, como sempre falo pra vocês que eu convido.
- 0:09São mulheres maravilhosas que eu admiro muito, e hoje o episódio
- 0:12vai ser com a Maria Helena moran e a Lilia guerra.
- 0:14Sejam bem vindas, meninas, tô muito feliz de ter vocês por
- 0:17aqui. Podem podem falar, eu vi que a
- 0:20Lilia deu aquele soprinho, sabe? Vou.
- 0:22Falar muito obrigada pelo convite e que é um prazer.
- 0:25Maravilha. É sempre lindo falar com você e
- 0:27conhecer a Lilian. Sim.
- 0:29E aí vocês sabem que antes de começar, eu tenho aqui uma breve
- 0:31Mini Bea de cada uma que eu vou apresentar.
- 0:33Gente, se achou que faltou alguma coisa, me avisa a Lilian
- 0:36guerra. Ela nasceu em São Paulo, é
- 0:38autora de pirifobia, rua do larguinho e amor avenida além do
- 0:42céu para os bastardos, entre outros livros.
- 0:44Ela trabalha como auxiliar de enfermagem na capital Paulista.
- 0:48Temos também a Maria Helena moran, que nasceu na Venezuela,
- 0:51em maracaibo, e atua como escritora e roteirista.
- 0:54Estudou comunicação social na universidade de lisúlia e
- 0:57roteiro cinematográfico na ictv de Cuba.
- 1:00É mestre e doutor em escrita criativa pela pela PUC.
- 1:03Como voltar a quando? Ela ganhou o prêmio cafeg room
- 1:05em 2022, e ele agora foi publicado também no Brasil.
- 1:08Traduzido. Sejam bem vindas, obrigada.
- 1:12Novamente agradeço. A gente tem feito aqui os
- 1:15episódios gente em duplas, né? Vocês que estão ouvindo já estão
- 1:18acostumados, e eu sempre penso nas duplas e escritoras que se
- 1:21aproximam de alguma forma. E antes de entrar, eu estava até
- 1:24conversando um pouquinho ali com a Lilian no ALF, e a gente é eu
- 1:27contando um pouquinho para ela, no como eu pensei nessa dupla?
- 1:30Porque às vezes eu eu convido autores que às vezes já são
- 1:32amigas da vida inteira. Tem umas que já fizeram algum
- 1:35curso juntas assim, umas que já se conhecem desde criancinha.
- 1:38A Marília e a Lilian estão. Conectando, se conhecendo aqui
- 1:41no episódio, mas eu achei que vocês 2 se conectavam muito a
- 1:45partir de um tema que eu tenho gostado bastante aqui no podcast
- 1:47e que ele tem Aparecido aqui de forma meio insistente até então.
- 1:52Até comecei a pensar um pouco mais, me aprofundar mais nesse
- 1:54tema que é o território dentro da escrita, né?
- 1:57O território dentro desses processos de escrita.
- 1:59E tanto a Maria quanto a lília, elas trazem o território para
- 2:03dentro desses processos de escrita, de narrativa, mas de
- 2:05formas diferentes. É conhecendo livros, trabalhos
- 2:09delas. Eu vi que a Lilia tem um olhar
- 2:11muito focado ali na periferia, trazendo a periferia pro centro.
- 2:15A periferia como um personagem, um lugar mesmo de onde se parte
- 2:18a narrativa, né? É um é protagonista também, além
- 2:22do cenário dos livros. E a Maria, ela traz também o
- 2:25território, como esse lugar de deslocamento, né?
- 2:27Traz ali a Venezuela, traz outros países, então vem essa
- 2:30questão da migração, do atravessamento.
- 2:32Então acho que vocês, duras, trazem o território dentro da
- 2:34escrita, mas de forma muito diferente.
- 2:36Então acho que vai dar uma conexão legal aí para a gente
- 2:38poder conversar um pouquinho. Mas antes da gente entrar na
- 2:41questão do dos territórios, tem uma pergunta que eu sempre faço
- 2:44aqui no podcast que eu já tava soprando antes de gravar, eu vou
- 2:47contar e eu sempre pergunto um pouquinho pra entender as
- 2:50trajetórias que a gente tem, trajetórias muito diversas.
- 2:53Eu tenho achado isso muito. Legal aqui que quando eu
- 2:55pergunto para as autoras como a escrita literária, como a
- 2:57escrita chegou até a vida de vocês?
- 2:59Eu tenho escutado assim trajetórias muito diferentes e
- 3:02eu acho isso muito legal para quem escuta também, para ver que
- 3:05ser escritora não é a partir de um mesmo lugar, não é estar no
- 3:08mesmo ponto de partida, não é ter uma trajetória muito
- 3:11específica. São trajetórias muito diversas
- 3:13que eu tenho conhecido aqui, e eu queria então saber um
- 3:15pouquinho como é a trajetória de vocês até chegar na escrita,
- 3:18como estão hoje? Quem quer começar?
- 3:23Pode ser? LM bom, eu comecei na escrita,
- 3:28fazendo pesquisa, pesquisa espontânea dentro da minha casa,
- 3:33com objetos que eu tinha em casa, elementos que eu tinha em
- 3:35casa e, sobretudo, com informações que eu não tinha em
- 3:39casa, coisas que eu queria saber sobre a minha família.
- 3:42É lacunas vazios, espaços vazios, né?
- 3:48Principalmente em documentos, né?
- 3:49Analisando os documentos e vendo, querendo saber dos
- 3:52familiares, de nomes e aí perguntando, né?
- 3:57Principalmente para minha avó. É, eu sempre fiquei muito com a
- 4:01minha avó. Minha mãe trabalhava é fora e
- 4:05ficava. Fora por muitos dias assim e a
- 4:08minha vó também, mas ela podia me levar, então ela Era Ela, mas
- 4:11que cuidava de mim. E aí essa pesquisa começou
- 4:13conversando com ela, né? Isso na infância, mas eu não
- 4:16sabia que isso IA se transformar em um documento impresso, né?
- 4:21E aí a informação que eu mais queria saber era sobre meu pai,
- 4:26sobre a história dos meus pais, da minha mãe e tal.
- 4:28EE, eu fui ter contato com essas informações assim adolescente,
- 4:31já com 1516 anos. E para minha surpresa, minha mãe
- 4:35tinha muita coisa guardada para quando ela resolvesse conversar
- 4:38comigo sobre esse assunto. Foi um assunto que ela deixou
- 4:40para para mais tarde assim, né? Mas ela não veio quando ela
- 4:44quando ela decidiu falar, ela não veio, é sozinha.
- 4:47Ela veio com uma caixa de cartas, documentos, né?
- 4:51Fotos não tinha, era uma coisa assim, que imagens eu não tinha,
- 4:55mas tinha muitas cartas. É tudo que ela pôde guardar da
- 4:59época em que eu nasci. Assim ela, ela trouxe.
- 5:02E aí começou assim, sabe? Com conversas e a proposta de
- 5:05registrar essas conversas, registrar essas informações.
- 5:09EE aí eu não tinha a menor ideia de que, né, isso IA virar um
- 5:13livro. Mas aí conversando com ela é e
- 5:16sabendo da vontade que ela tinha de tornar algumas informações
- 5:19públicas, coisas que ela não teve oportunidade de de falar e
- 5:22de elucidar, e ela gostaria que algumas pessoas soubessem, eu
- 5:26pensei. A gente transformar isso num
- 5:28livro e mas como, né? Não tinha nenhuma informação.
- 5:32Como você disse, eu sou uma profissional de saúde, eu sou da
- 5:36área da enfermagem e tal, mas sempre gostei muito de ler, até
- 5:39incentivada mesmo pela minha mãe.
- 5:41Então eu tinha os livros como objetos de companhia e assim eu
- 5:46comecei a escrever. O primeiro livro foi publicado
- 5:48em 2014. Acho que um processo deve ter
- 5:51levado uns 34 anos de com as minhas pesquisas ali.
- 5:56É e se chama amor, avenida. E aí foi publicado.
- 6:00Foram publicados poucos exemplares, quase de que de
- 6:02forma assim, né? Independente.
- 6:06E eu achei que tinha encerrado a minha carreira literária com
- 6:09aquele registro. Mas aí eu descobri que escrever
- 6:13fazia muita falta, que era a coisa que eu mais gostava de
- 6:16fazer já. Tinha pegado um.
- 6:17Vídeo e já tinha é já tinha ali aquele hábito e depois eu
- 6:21comecei a frequentar a oficina de escrita literária.
- 6:25E aí, e aí? Escrever mais livremente assim,
- 6:27sem aquela questão, né? Das das respostas e da das
- 6:31perguntas que eu tinha. EE aí veio pirifobia, com
- 6:34histórias mais curtas, crônicas e tal.
- 6:37Oo início se deu assim. Que legal.
- 6:40É uma inicial para ver como é bem inusitado e se foi dessa
- 6:43vontade, então, de compartilhar com essas histórias que você
- 6:45tinha em casa, histórias que tinha na família e a como que eu
- 6:48vou registrar isso, né? Deixar levar isso para frente.
- 6:52Nossa. Para você, Maria.
- 6:53Como foi seu percurso? Eu acho que foi um percurso de
- 6:57começar pelas bordas, né? Eu sempre tive muitos livros em
- 7:03casa, meus pais tinha muitos livros.
- 7:04Meu pai até roubava livros no mercado assim.
- 7:08EE, para mim o livro sempre foi um.
- 7:10Achei muito lindo você falar que é o meu objetor da companhia,
- 7:13porque era isso, né? Tipo, uma das minhas
- 7:15brincadeiras favoritas era pegar a biblioteca e dizer que eu era
- 7:19livreira, sei lá, ou ou enfim, fazer que era uma livraria, uma
- 7:23biblioteca, reorganizar tudo conforme o critério do dia, sei
- 7:27lá e sempre deixaram eu fazer muito isso e muitas das das
- 7:31brincadeiras passavam por. Por inventar histórias, por
- 7:35imaginar, sei lá, criaturas, coisa.
- 7:37Então eu acho que essa, essa, esse gusanito da escrita sempre
- 7:41teve assim me rondando. Só que eu acho que sei lá,
- 7:46talvez por gostar de sempre de de ler e tal, acho que eu
- 7:50colocava a literatura e principalmente as pessoas que
- 7:52escrevia num num patamar assim, meio inercansável, né?
- 7:57E aí eu, quando eu fui estudar alguma coisa, eu pensei, Ah,
- 8:01jornalismo. E aí depois no jornalismo.
- 8:03Rápido, entendi que que meu jeito de de entender a realidade
- 8:07passava mais pela ficção do que pela pela coisa documental.
- 8:11Mas aí eu fui para o cinema, aí roteiro que já era escrita, mas
- 8:15ainda não era a palavra, assim como o centro, EEO, fim de tudo,
- 8:21né? E foi só aqui no Brasil.
- 8:24Acho que eu fui muito engraçado que eu meio que me alfabetizei
- 8:28em português e em e assumir a escrita literária ao mesmo
- 8:32tempo, né? E quanto tempo você mora aqui no
- 8:34Brasil mesmo? Eu moro aqui desde 2012 e foi só
- 8:41numa oficina literária que o meu companheiro Rafa falou, Ah, acho
- 8:44que você devia fazer essa oficina para aprimorar o
- 8:47português. E eu fui lá.
- 8:49As primeiras coisas que eu escrevi foram para para me
- 8:51postular para essa oficina, que era oficina do Assis Brasil, e
- 8:55eu entrei. E aí foi um caminho assim, volta
- 8:58meio que depois que você começa, você gosta e entra naquilo e vê
- 9:01o. Enfim, o poder transformador que
- 9:04a palavra tem em você mesmo é é meio que caminho sem.
- 9:07Volta, né? É difícil de largar, é?
- 9:09E aí, bom, aqui estamos, né? Legal, gente.
- 9:12E agora a gente passeando um pouquinho.
- 9:14Então, para essa temática dos territórios, o livro de vocês
- 9:17tem bastante isso, como eu tava dizendo no início, a Lilia, que
- 9:20traz esse olhar muito atento para a periferia, traz essas
- 9:23histórias então que estão No No dia a dia, né?
- 9:26Talvez esse, assim como sua personagem, você também decide
- 9:29observar o dia a dia, captar essas histórias na rotina.
- 9:33É a Maria também. Não sei se trouxe um pouco dessa
- 9:35observação da rotina, tanto histórica, né, quanto da rotina
- 9:39cotidiana. Como foi para vocês escrever
- 9:41esses livros a partir desse? Esses territórios onde vocês ou
- 9:44viveram frequentaram, trabalharam esses territórios
- 9:47onde vocês caminham, onde vocês enxergavam as pessoas.
- 9:51O quanto esse território, esses espaços de trânsito de vocês
- 9:54influenciou e trouxe uma perspectiva diferente pra
- 9:57escrita de vocês? Eles foram muito importantes ou
- 10:00eles chegaram na escrita e depois vocês entenderam que ele
- 10:03tava ali? Então, o primeiro livro se chama
- 10:07amor avenida, o segundo, pirifobia, o terceiro rua do
- 10:11larguinho. E não foi nada assim planejado,
- 10:15né? Nada planejado, mas é amor.
- 10:19Avenida se baseia em acontecimentos, é que que que
- 10:25que foram em uma determinada avenida, que inclusive é nesse
- 10:28bairro onde a gente está conversando agora, né?
- 10:31E que me traz muitas, muitas memórias.
- 10:34Que é a Vila Mariana? Que é a Vila Mariana?
- 10:36Isso que é a Vila Mariana. Muitas coisas aconteceram aqui
- 10:39nesse bairro. É numa avenida chamada Lins de
- 10:42Vasconcelos, que é aqui perto. E aí eu fiquei muito assim
- 10:47fissurada nessa questão do lugar.
- 10:49Mas não, não, não foi assim premeditado que com com
- 10:53pirifobia e rua do larguinho isso IA acontecer.
- 10:55Mas é, eu acho que pelo deslocamento, eu morei aqui
- 10:59nesse bairro até os 10 anos. E depois me mudei para o lugar
- 11:03que eu moro até hoje, que é um lugar periférico, é na zona
- 11:07leste aqui de São Paulo, chamado cidades Tiradentes, EE.
- 11:10Assim, o deslocamento me chamou muita atenção.
- 11:14Eu tinha 10 anos, né? E aí eu saí de um lugar onde é,
- 11:18as coisas estavam prontas, né? É?
- 11:22E fui para um lugar que estava em construção.
- 11:25Então eu comecei a prestar muita atenção e observar muito aquele
- 11:28lugar nascendo, né? Eu saí daqui onde tudo já
- 11:31existia, né? Desde que eu comecei a
- 11:34transitar, as coisas já existiam e fui para um lugar onde as
- 11:37coisas estavam acontecendo e tudo era muito comemorado, né?
- 11:41Quando eu cheguei no meu bairro, não tinha padaria, por exemplo,
- 11:44e aí a gente tinha que esperar um senhor passar com a kombi do
- 11:47pão. E aí às vezes ele vinha, às
- 11:50vezes ele não vinha, como era velha, quebrava.
- 11:52E aí a gente ficava sem pão. E tudo isso começou a me a
- 11:55chamar muito a minha atenção, né?
- 11:57Então, quando abria um mercado, quando tinha um novo comércio,
- 12:00quando a escola sofria alguma modificação, chegava um novo
- 12:03equipamento de saúde. Então pra gente era tudo muito
- 12:06comemorado. Acho que daí começou o meu
- 12:09assim, essa, essa minha, esse meu contato com o espaço e com a
- 12:13modificação do espaço ao meu redor.
- 12:15EE, aí o deslocamento pela cidade, né?
- 12:18Porque eu passei a ter que transitar muito pela cidade para
- 12:21estudar, para trabalhar, para fazer as coisas.
- 12:24EE, comecei a observar as as mudanças que aconteciam, né,
- 12:28durante esse deslocamento, né, no transporte público mesmo, nos
- 12:32equipamentos que eu frequentava, públicos ou né?
- 12:35EE, comecei AA fazer. Reflexões sobre essas
- 12:39diferenças. Então, acho que não.
- 12:41Não teve como não isso não refletir naquilo que eu escrevo,
- 12:44né? Como você disse, eu me dei conta
- 12:47de que o território e o ambiente, o lugar, a cidade, às
- 12:50vezes eram os personagens protagonistas, né?
- 12:53E as pessoas transitavam ali e viviam as coisas a partir das
- 12:57mudanças e daquilo que os lugares ofereciam para elas.
- 13:02É EE seguir, né? Tem o céu para os bastardos
- 13:04também tem o pessoal lá de fim do mundo, né?
- 13:07É eu. Eu comecei a falar sobre o
- 13:10deslocamento, sobre o trânsito, sobretudo na perspectiva do
- 13:14transporte, né? E de como as pessoas fazem pra
- 13:17pra se deslocar dentro da cidade.
- 13:19E aí, com esse deslocamento cada vez maior também, você vai
- 13:22enxergando várias cidades dentro da mesma cidade.
- 13:24Né, dentro da mesma? E eu comecei a perceber que o
- 13:26morador periférico ele conhece o centro.
- 13:30Mas o morador central, ele não vai transitar pelo local
- 13:33periférico porque não é um lugar de passagem.
- 13:35A gente precisa às vezes sempre, né, sair para trabalhar.
- 13:39Não é todo mundo que consegue, a minoria consegue, né?
- 13:42Trabalhar em em lugares próximos, porque, afinal de
- 13:46contas, o lugar não estava preparado para receber a
- 13:48população em em vários âmbitos. Então o morador central, né ele?
- 13:54Circula em algumas áreas de interesse e tal.
- 13:57Mas é, ele não vai para periferia, né?
- 13:59Então eu tô falando de um lugar que muita gente não conhece, né?
- 14:03Enquanto os moradores periféricos precisam se deslocar
- 14:06porque as coisas se centralizam, determinadas coisas centralizam
- 14:10às vezes, né? Nos lugares tem os circuitos,
- 14:12né? EE, aí eu comecei a levar a as
- 14:18os lugares para. Para aquilo que eu escrevo, né?
- 14:21Eu queria e era muito. E eu sempre gostei muito de ver,
- 14:25de de de encontrar na literatura lugares que eu conheço, né?
- 14:28Eu sou uma grande leitora de João Antônio assim.
- 14:30E aí quando ele falava de São Paulo e especificava as ruas, eu
- 14:35falava, eu vou nessa rua, vou lá conhecer.
- 14:38E é legal como esse deslocamento, as mudanças acabam
- 14:41mexendo com a gente a ponto de querer escrever.
- 14:43Por exemplo, estava te contando um pouco mais cedo que eu sou de
- 14:45Brasília. Desde que eu mudei para São
- 14:46Paulo, eu fiquei super obcecado em escrever sobre o cerrado,
- 14:49sobre o centro Oeste, meu Deus nem ligava antes, nem sabia que
- 14:52era do do centro Oeste, aí depois mudei para São Paulo, não
- 14:55é isso? E aí virou ali também um ponto
- 14:57de partida, uma obsessão que acho que isso da mudança, né, da
- 15:00gente se deslocar dos lugares onde a gente é nascer, onde a
- 15:04gente vivia, mexe com a gente e muda a perspectiva, como você
- 15:07falou. Você com 10 anos, começou a
- 15:09observar essas mudanças de forma muito intensa.
- 15:12E para você, Maria, esse é porque você também se deslocou,
- 15:15e se deslocou também de de um deslocamento grande, então isso
- 15:18também interferiu na sua escrita ou influenciou?
- 15:21Absolutamente isso que você acabou de falar sobre, como
- 15:25quando você fica longe, aí essa, esse, esse território, essa
- 15:29identidade, te chama de um jeito que antes você não achava que
- 15:33que tivesse esse poder. Uma coisa que eu tenho vivido
- 15:36assim 100%, eu nunca imaginei que eu fosse ficar tão
- 15:41obcecadamente, querendo trabalhar e escrever e pensar
- 15:44sobre. É a minha cidade, querer falar
- 15:48sobre as ruas da minha cidade e nomear lugares e que as pessoas
- 15:51consigam se reconhecer naquilo. Eu assim nunca, nunca tinha sido
- 15:5611 traço literário que eu. Você você falou do João Antônio,
- 16:01você reconhecia esse e gostava? Eu, eu não tinha isso.
- 16:04Eu vim descobrir que que isso era 11 coisa que me chamava
- 16:07atenção e que me deu vontade de fazer depois de estar longe.
- 16:11É, eu acho que eu tenho com território 111, coisa que se
- 16:16configurou até como obsessão. É, eu tenho um Monte de de
- 16:22histórias até fora da literatura pensando assim, até sei lá, um
- 16:26curtinha. É EE, vários contos e coisas que
- 16:29tem a ver com pessoas ocupando espaços que não lhe
- 16:33corresponderia. Sabe que alguém seja estado,
- 16:37seja pessoa, seja alguma instituição.
- 16:39Diz que não corresponde esse lugar para essa pessoa.
- 16:43É, tenho muitos. Eu acho que se eu quiser juntar
- 16:45um livro de contos, esse esse é um tema possível?
- 16:49É. Acho que isso tem a ver um pouco
- 16:52com eu ter me mudado muito, desde desde criança e como
- 16:55adolescente assim as mudanças cada vez iam sendo mais.
- 16:59É maiores, né? Tipo, no começo é de um bairro
- 17:02para o outro que já foi um impacto enorme.
- 17:04Eu me mudei para ficar mais perto da família EE, bom, isso
- 17:08modificou a minha rotina de um jeito muito interessante, na
- 17:11verdade, porque fiquei morando perto de de vários primos, era
- 17:15tudo uma algazarra, sempre é, mas depois a gente mudou de
- 17:19cidade. Aí eu passei a ser eu sempre era
- 17:22meio que é é chamada pelo pelo gentilício, né?
- 17:26Gentilício uma palavra em espanhol, nem me lembro.
- 17:28Como você disse isso em português?
- 17:29Gentilício. Eu era chamada quando mudei de
- 17:33maracaibo para ponto frio, aí depois eu mudei para, aí fui
- 17:40para, voltei para maracaiba. Depois fui para Cuba, depois de
- 17:43Cuba. Vim para cá, então, assim, cada
- 17:45vez as distâncias iam sendo maiores e a e a mudança muito
- 17:49mais radical, né? E isso tá No No primeiro livro,
- 17:56no continente de dentro tem uma pessoa que se desloca, que vai
- 17:58para um território e entra totalmente clandestinamente, né?
- 18:04É e fica muito mais evidente em envolver aquando voltar a quando
- 18:09em português, que aí passa por 4 países diferentes e é é parte da
- 18:15trama. É um movimento, um deslocamento
- 18:16migratório, né? É.
- 18:19E essa, essa questão assim, da da Fronteira, do que pode, do
- 18:23que não pode, do que muda, do que não muda, das expectativas
- 18:27sobre quem você é. Onde você tá no momento, o que
- 18:32você carrega, o que você deixa para trás?
- 18:34É esse território do íntimo, né? Como?
- 18:37Como as Fronteiras do mapa, se se se imprimem no próprio corpo,
- 18:42né? E nosso, no nosso psiquismo
- 18:45também, né? São coisas que, para mim assim,
- 18:47são uma fonte meio inesgotável de de material de escrita, né?
- 18:53E eu acho que eu vou seguir trabalhando por outras vias, mas
- 18:56tenho certeza que isso vai seguir aparecendo, né?
- 18:58Até o corpo como território, né? É, não vira, vira essa obsessão,
- 19:02como você falou mesmo justamente por você ter essa sensação, né,
- 19:05de estou num lugar que talvez não pertenço, aquele lugar ou
- 19:09não pertencia. E muda as memórias, muda as
- 19:11pessoas do do convívio, muda as pessoas que estão ao redor.
- 19:14E a Lilia estava até falando disso, do, por exemplo, dos
- 19:17habitantes aqui da cidade. Quem está na periferia vem ao
- 19:20centro e tem que vir de alguma maioria, às vezes esquentar o
- 19:22centro, não conhece. Esses lugares, essas cidades que
- 19:25estão chamadas de periferia, que estariam mais distantes do que é
- 19:28colocado como esse centro, e aí, então, são histórias que acabam
- 19:32não sendo conhecidas, né? São histórias que estão ali
- 19:34escondidas de alguma maneira, histórias que estão
- 19:37invisibilizadas ou silenciadas. E aí é, o que que você acha que
- 19:41muda, Lilian, quando você traz essas histórias e como você ir
- 19:44encontrando essas histórias no dia a dia?
- 19:46Por exemplo, você anda muito, falou que anda muito de
- 19:49transporte público ou andava nesses deslocamentos grandes.
- 19:51Você pescava a história, às vezes no.
- 19:53No ônibus, no metrô, pesca. Essas histórias no dia a dia.
- 19:57É para dar essa brincada ali com quem está na rotina e quem vai
- 20:01estar Na Na sua ficção. Eu acho que eu comecei é
- 20:05escrevendo crônicas, né? Até tem crônicas para colorir.
- 20:10A cidade é que é um dos dos livros que eu que eu escrevi,
- 20:15porque eu ficava muito brava, né?
- 20:16Com esses, com com as coisas que eu descobria durante esse
- 20:19trânsito pela cidade e saindo de um lugar.
- 20:23É preparado, digamos assim, e indo para e aí eu fazia
- 20:27descobertas. Às vezes eu eu falava, puxa, por
- 20:29que que eu eu tava lá no centro e eu tava, é num ônibus vazio
- 20:34grande, né? Um ônibus confortável e um
- 20:37ônibus vazio em que? E aí, quando eu chego num lugar
- 20:40mais populoso, mais habitado, onde mais pessoas utilizam o
- 20:43transporte público, eu me deparo com um micro ônibus despreparado
- 20:46para receber essas pessoas. Eram informações assim que que
- 20:50eu buscava e às vezes é observando.
- 20:53Eu descobri aqui. Por exemplo, na minha, no meu
- 20:56bairro, existem ruas em que não dá para transitar um ônibus.
- 21:01Precisaria de um ônibus articulado para comportar todas
- 21:03aquelas pessoas, mas da maneira que o que o lugar começou a
- 21:08crescer e as pessoas começaram a fazer as ocupações.
- 21:13De repente, eu eu observava e falava, é ainda que a gente
- 21:15tivesse uma linha de ônibus aqui com articulado, ele não IA
- 21:18conseguir transitar por essa rua.
- 21:20Então foram descobertas que eu fui fazendo através das
- 21:23observações, né, antes de de repente falar, Ah, puxa, porque
- 21:26que a gente não, não, não, não pede, não solicita que seja
- 21:32revisto, né? O ônibus que passa nessa rua eu
- 21:35olhava e falava, é, a rua precisava mudar, né?
- 21:37Essa avenia, então é uma coisa mais difícil de fazer.
- 21:40E aí falando em obsessões, eu comecei a ficar obcecada por
- 21:43esses por esses temáticas, né? Por exemplo, eu sempre digo que
- 21:48a estação de trem que eu mais utilizo, que é a mais próxima da
- 21:51minha casa, é uma estação super, super populosa e utilizada.
- 21:56E ela não tem Acessibilidade, porque ela é uma estação que não
- 21:59tem escada Rolante e não tem elevador.
- 22:03Acessibilidade que a que a que a companhia oferece é uma rampa.
- 22:09Que é uma rampa gigantesca, precisa ser um atleta pra pra
- 22:12conseguir subir. E eu comecei a observar as
- 22:15pessoas, né, por aquela rampa, os cadeirantes, as pessoas que
- 22:18transportam, crianças que conduzem idosos, volumes, né?
- 22:22E mesmo as pessoas que livremente caminham, é uma rampa
- 22:26difícil de de, de de de vencer. E se tornou uma obsessão falar
- 22:32sobre isso. Normalmente o assunto acaba
- 22:35gerando em torno disso. E eu comecei a falar disso nas
- 22:39crônicas, né? Mas as crônicas são muito assim,
- 22:42a minha voz ali falando, né? É a sua voz enxergando a.
- 22:46Minha voz enxergando e falando, e aí eu e eu fiz uma
- 22:49experiência, eu pensei, será que a voz de um personagem é
- 22:53consegue conversar melhor com as pessoas, com leitores, do que,
- 22:56de repente, a minha própria voz? E aí foi quando é.
- 23:00Eu fiz essa experiência mais pontualmente com a personagem
- 23:03chamada sanarinha, que começou no livro rua do larguinho,
- 23:05falando sobre essas questões de locomoção e de transporte.
- 23:10E aí eu e aí eu descobri que a voz dela era uma voz potente.
- 23:13Eu falei, Ah, eu acho que. E aí é importei a sanarinha de
- 23:19rua do de rua do larguinho para o para os bastardos.
- 23:22Para que ela ela IA, ela IA viver outros conflitos, outras
- 23:26questões. Mas sempre tocando muito nessa
- 23:28temática. Então, acho que são experiências
- 23:31que a gente começa a fazer. Não é com os personagens vendo,
- 23:34é dentro dos perfis que eles têm aquilo que eles conseguem
- 23:38comunicar melhor, não é? Legal que você traz também essas
- 23:41experiências com diferentes vozes, narrativas, diferentes
- 23:44linguagens que às vezes a gente acha também que já nasce tudo
- 23:46muito pronto, né? Ah, vou escrever de tal forma,
- 23:48não experimentar na crônica, depois, Ah, vou trazer um
- 23:51personagem, então vai também descobrindo o caminho, né?
- 23:54Enquanto você escreve. E Maria Helena, uma curiosidade
- 23:57de seus personagens, assim como você, fizeram deslocamentos
- 24:00muito grande, como eu falei, passaram por perdas e
- 24:02reconstruções. Mas como você trouxe isso para a
- 24:05forma de narrar, de pensar desses personagens que
- 24:08deslocaram? É por espaços grandes como você
- 24:11e de que forma você foi trabalhando o ritmo, talvez na
- 24:14escrita, você que tem 2 línguas, eu fico pensando se o ritmo é
- 24:17uma questão difícil, o ritmo dentro da narrativa, pensar ali
- 24:21a escrita em espanhol, em português, isso dá muita
- 24:23diferença quando a gente pensa na.
- 24:26Eu acho que tem AA, mas tem a facilidade ou a, enfim, uma
- 24:32vantagem que é uma certa familiaridade na nas línguas,
- 24:36né? A gente também é é, é a gente
- 24:38que fala velozmente, né? E eu acho que isso isso ajuda, é
- 24:43o ritmo. Acho que é uma das coisas que eu
- 24:46mais penso e mais trabalho no, no e principalmente em em voltar
- 24:52a quando que é. Enfim, eu eu trabalhei com 5
- 24:56forças narrativas, né? E cada uma delas vai por um
- 25:01caminho, tem um, tem um estilo, tem um.
- 25:03Talvez o ritmo mais acelerado seja o da protagonista, que é a
- 25:08Nina. É.
- 25:10Mas para mim, assim, o que pauta o que, o que eu sempre procuro
- 25:14com com a construção do ritmo tem a ver com o estado mental
- 25:21dessa personagem. O que que por que que Nina vai
- 25:24ser narrada dessa forma? Porque eu quero, sei lá, ela é,
- 25:29eu quero entrar no Turbilhão que tá passando essa mulher, eu
- 25:32quero assim, essa sensação de atropelamento constante em que
- 25:36ela tá, eu quero que isso esteja na frase, eu quero que isso
- 25:39esteja no na falta de pontuação, eu na falta não é sucesso, sabe?
- 25:44É. Então eu eu vou sempre muito
- 25:47pautada por isso, né? E.
- 25:50E eu tento fazer isso com todas as as personagens, né?
- 25:55É o tema do da passagem de uma língua para outra.
- 25:59É obviamente, sempre, sempre tem coisas que se perdem.
- 26:03E tem algumas questões, particularmente nesse livro de
- 26:07identidade, que se perderam e que, de novo caiu no a gente cai
- 26:11no assunto do território, né? Eu optei por contar, por narrar
- 26:15todo o livro do jeito que se fala.
- 26:18Em maracai, porque o espanhol não é um dialeto nem nada, mas é
- 26:22um jeito de falar. A gente fala com voz, a gente
- 26:25não fala de tu, por exemplo, e não é um você.
- 26:28O parecido com o Rio platense, por exemplo, nem com o centro
- 26:32americano é outra coisa. Aí eu pensei, porque que eu não
- 26:35vou falar como eu falo, sabe como minha família sabe?
- 26:39Aí comecei a pensar, bom, isso aqui.
- 26:42Óbvio que já tinha pessoas que tinham escrito mais ou menos
- 26:45desse jeito, trazendo um pouco desse desse você, mas acho que
- 26:48ninguém assim ou pelo menos nenhum romance que eu tivesse
- 26:52lido, sabe? Aí eu pensei, não é agora eu vou
- 26:56assumir esses riscos. Vamos.
- 26:58E foi muito importante porque isso trouxe uma musicalidade
- 27:02muito singular e isso foi um dos desafios.
- 27:06Falando do ritmo na hora de traduzir para o português, aí
- 27:09eu, eu. Perdi isso, EEA, singularidade
- 27:13que isso traz. Então acabei tendo que recorrer
- 27:16AA outras formas, né? Mas eu sinto que, é claro,
- 27:19sempre, sempre se perdeu uma, se perdeu algo de mim, sabe?
- 27:24Algo das personagens ali, mas tentei trazer pra, pra frase,
- 27:29pra enfim. Acho que outros outros traços
- 27:33identitários se mantiveram, por exemplo.
- 27:36E aí eu acho que eu tentei dar uma.
- 27:38É uma trabalhada mais forte nisso, tipo humor, sabe?
- 27:42EE você. Fica curiosa para ler em
- 27:45espanhol também para poder ver. É, é assim?
- 27:48É, é outro. Se você ler, por exemplo, é
- 27:52alguma coisa do Buenos Aires ou algo assim, você vai.
- 27:56Não é nada que você não vai conseguir.
- 27:59Tipo, se você ler espanhol, você consegue, entendeu?
- 28:01Mas é uma peculiaridade. Legal, né?
- 28:05E pensando nesses livros, nos mais recentes de vocês, é, mas
- 28:09antes queria saber até da da lília.
- 28:11AA gente estava falando do ritmo aqui, para Maria Helena, do
- 28:13vocabulário, você pensa nisso quando você vai escrever seus
- 28:16livros, já que a gente está falando muito de território, num
- 28:18vocabulário que vai ter de cada lugar, no vocabulário de cada
- 28:21pessoa, em como aqueles personagens vão falar.
- 28:24Você pensa nessa questão do ritmo, da palavra antes de
- 28:27escrever? Ah, eu penso.
- 28:29Eu até procuro ouvir a voz dos personagens, né?
- 28:33Sentir como fica na voz deles. Como a Maria falou, né?
- 28:36De observar é esteticamente, eu acho fisicamente, né?
- 28:40O que acontece em um céu para os bastardos eu tinha essa esse
- 28:45desejo de registrar um as mudanças é as características
- 28:51físicas possíveis mudanças que pudessem ocorrer com as
- 28:54personagens durante OOO conflito que elas estavam vivendo.
- 28:58Por exemplo, elas passam por 11 questão de de um crime cometido
- 29:02ali, né? Sanarinha com filho, a irmã dela
- 29:05com esse filho que também é afetivo, e eu procurava pensar
- 29:08nelas, mudando, né, perdendo peso, né?
- 29:12O rosto, o semblante, o que que estava acontecendo é falta de
- 29:17cuidado com a saúde. Nesses momentos elas não estavam
- 29:20é pensando nessas coisas, alimentação também, então isso
- 29:25também me interessava, assim como a voz.
- 29:27Delas me interessa, né? Deles, dos das personagens, me
- 29:30interessa, né? Como é que como é que elas falam
- 29:32isso? E é uma coisa que eu comecei a
- 29:33prestar atenção depois, né? É em em em observar uma frase e
- 29:39falar, será que eu estou falando essa voz é minha ou será que
- 29:42realmente é de sanarinha, né? Realmente é de Valdo, mira
- 29:46realmente é do Tiago, realmente é de um.
- 29:48De um de um personagem que eu tô trabalhando ali.
- 29:50Então isso me me me me interessa muito, tentar ouvir a voz deles,
- 29:56né? Saber de de de coisas que que
- 29:59eles repetem, né? Algumas palavras que eles.
- 30:02A minha avó, ela é. Eu digo que ela era uma
- 30:04colecionadora de palavras. Quando ela ouviu uma palavra que
- 30:06ela gostava e às vezes ela não sabia do que se tratava, ela
- 30:09procurava saber e aí absorvia aquilo para o vocabulário dela e
- 30:13ficava tentando utilizar aquela palavra por muitos, muitos dias
- 30:17assim, né? Tem 11 coisa.
- 30:18Coisa nova, né? Uma coisa que eu descobri e aí
- 30:22eu tento passar isso para os personagens também.
- 30:24Tem coisas que elas gostam de falar, né?
- 30:26Algumas é. E aí eu procuro repetir durante
- 30:30ali a trajetória delas, no que elas estão passando.
- 30:34E aí voltando para o para o João Antônio, coincidentemente
- 30:37lembrando novamente dele, eu tenho uma edição de 1/01/1
- 30:42compilado da de tudo que ele escreveu, que vem com uma
- 30:45réplica de uma caderneta que ele utilizava.
- 30:48Quando ele saía para, porque ele escrevia muito, né?
- 30:51Sobre sobre os os, os bairros que nem se falava, acho que não
- 30:56é nem se falava periférico, né? Ele escrevia muito sobre as
- 30:59distâncias, mas não era, é. Não sei se era exatamente a
- 31:03realidade dele, né? Ele morou em alguns lugares
- 31:06assim, mas não sei se se ele IA para para conviver ali com as
- 31:11pessoas. Então ele IA anotando as coisas
- 31:14que ele. Achava palavras que ele achava
- 31:16diferentes. E aí eles AAA editora fez uma
- 31:19réplica dessa caderneta, né? E aí eu fiquei pensando que eu
- 31:22nem precisava disso, porque é ouvindo e observando e guardando
- 31:27e gravando na memória as coisas e procurando saber o que elas, o
- 31:30que elas querem dizer, né? Eu eu vou e ainda faço isso,
- 31:34ainda aplico isso nas histórias. Pra mim é bem importante,
- 31:37inclusive AAA descoberta de que as palavras não estão erradas, o
- 31:42modo de falar das pessoas não está errado.
- 31:45Né, que é uma coisa que que nos é apresentada muito quando a
- 31:47gente vai pra escola, né? E aí você começa a comparar o
- 31:50jeito que as pessoas ao seu redor falam e o que a escola te
- 31:53apresenta. E no primeiro momento, né, a
- 31:57gente acha que tava tudo errado. EE depois é a descoberta e o e o
- 32:01encantamento e a saudade, né? Coisas que você deixa de ouvir
- 32:05no decorrer da vida, né? Palavras que você deixa de
- 32:08ouvir. É sotaques, né?
- 32:11Uma vizinha, uma amiga, uma pessoa que você lembra ali, EEA.
- 32:15Saudade também faz com que a gente vá buscar essas coisas,
- 32:18né? Eu sou muito disso.
- 32:19Quando eu escuto alguém falando alguma coisa que me traz uma
- 32:23lembrança, eu falo, nossa, quanto tempo eu não ouvia isso?
- 32:25Anoto. Que legal.
- 32:27Ah, eu preciso preciso deixar isso registrado.
- 32:29Quase um. É um caderninho do dia a dia,
- 32:31né? O pessoal que ilustra tem os
- 32:34Sketch books, faz a gente tem os desenhos da da cidade.
- 32:38A gente fala não de palavras. O caderninho do dia a dia é o.
- 32:41Tava lembrando aqui o meu pai, que nem a tua avó era
- 32:44colecionador de palavras. Meu pai era também jogador de
- 32:47escravo. Sabe aquele aquele jogo de
- 32:49Tabuleiro? EE, eu tenho os livros dele, né?
- 32:53É alguns. E é uma delícia assim eu tomo eu
- 32:56que salvando esses livros. Eu perdi meu pai em 2015.
- 32:59E aí eu tenho os livros assim, como sabe um amuleto que tá me
- 33:04esperando? Porque aí eu abro os livros e tá
- 33:06tudo riscado, sabe? Qualquer palavra que ele não
- 33:09conhecia, o que ele tivesse gostado, o que ele achava boa
- 33:12para para jogar, tá tudo ali, marcadinho para mesmo um
- 33:16tesourinho que tá ali me esperando.
- 33:19EE, essa coisa, né? Da das palavras familiares, das
- 33:23palavras que estavam supostamente erradas.
- 33:26E essa vontade de recuperar essas palavras.
- 33:28Uma coisa que eu vivo muito profundamente e acho que parte
- 33:33do do vocabulário em si, parte da dificuldade que as pessoas
- 33:36têm como envolver aquando em espanhol, passa por por esse
- 33:41esse glossário. Sabe que não é um glossário da
- 33:44Venezuela ou de maracaibo. Um glossário do meu maracaibo.
- 33:48Minha maracávã Castro da cidade, né?
- 33:50EE, eu acho isso assim, eu. Adoro trazer isso palavras que
- 33:55por algum motivo só falam na sua família, né?
- 33:57Vocês estavam falando. Eu lembrei que vira e mexe eu
- 34:00falava assim, Ah, eu tenho cabelo anelado.
- 34:02E aí as pessoas ficam, como assim o cabelo anelado?
- 34:05Então, e por algum motivo, a minha mãe em casa chamava pra
- 34:07falar o cabelo anelado é o cabelão do lado quando tá nem
- 34:10liso nem cacheado. E a gente a vida inteira falou
- 34:12anelado, e aí às vezes eu comecei a falar aqui em São
- 34:14Paulo, não, o cabelo é anelado, as pessoas falam o quê?
- 34:17Aí depois eu fui entender, Ah, ninguém fala anelado, olha, as
- 34:19pessoas só falam ondulado, nem. É só seguir o samba que alguém
- 34:22começa. É exatamente e.
- 34:25E importante dizer que a minha avó, ela não era alfabetizada.
- 34:30Né? Então assim para ela, ela ainda
- 34:32tinha é que fazer o registro das palavras de né, com uma
- 34:36tecnologia ali que ela mesmo desenvolvia, porque ela não lia,
- 34:40né? Mas ela ouvia e prestava muita
- 34:42atenção. EE, aí eu não posso deixar de
- 34:44falar da música, né? Porque ela ouvia música o tempo
- 34:47todo e rádio, né, o tempo inteiro e muito samba.
- 34:51EEE aí Eu e Ela adotava, né também essas palavras que ela
- 34:55ouvia nas músicas. EE, eu e eu digo sempre que.
- 34:59Quando eu aprendi a ler, ela aprendeu a ler um pouco também,
- 35:02porque legal as coisas que ela queria saber.
- 35:05Ela não dava muito braço a torcer, né, para não me dar
- 35:08muita moral assim de casa. Mas ela falava que que exercita,
- 35:13vai exercitar que que tá escrito aí, né?
- 35:15Então ela dizia que era para eu fazer exercício, mas na verdade
- 35:18ela também tava. Ela tinha muitos discos, né?
- 35:21E assim como a Maria guardou os os livros.
- 35:24Que eram do pai dela. Eu guardei muitos dos discos dos
- 35:26que eu pude, né? Que eram da minha avó, e aí ela
- 35:29utilizava essa tecnologia ali também.
- 35:31Ela não sabia de que ela botava a música, que ela gostava mais,
- 35:34mas ela pedia para alguém ler a primeira vez e aí ela marcava de
- 35:38alguma maneira e aí ela não precisava perguntar de novo.
- 35:42Então são maneiras, né, de desenvolver como diz, né,
- 35:46tecnologias ancestrais e a música trazia muito para ela,
- 35:51né? De.
- 35:52De vocabulário e de de coisas novas, assim que ela que ela
- 35:56adotava e começava a utilizar. Não é muito legal que eu tô
- 35:59vendo no relato de vocês 2, esse, essa construção das
- 36:01histórias, vem muito dessa rotina, desse buscar coisas em
- 36:05casa, um caderninho, às vezes uma fotografia, uma memória, é
- 36:08uma palavra que vocês ouviam da família, né?
- 36:10Alguém que vocês ouviam. E às vezes as pessoas pensam
- 36:13muito, AI meu Deus, pra escrever um livro, começar uma história,
- 36:16de onde vai vir a grande inspiração, né?
- 36:17De onde vai vir aquela grande ideia?
- 36:19E às vezes, essas ideias, elas estão ali no dia a dia.
- 36:22Podia, né? Saber olhar com mais atenção e
- 36:24pescando isso e até por esse caminho.
- 36:27Eu queria saber um pouquinho mais como é o processo criativo.
- 36:30O processo criativo, né? Mas como é realmente a
- 36:32construção de um livro para vocês?
- 36:34E pensando que a gente tem uma rotina, às vezes de trabalho, a
- 36:37gente está ali, é no dia a dia, convivendo com horas escassas e
- 36:40o tempo que vai se construindo. Como vocês constroem o livro
- 36:44naquele momento do talvez começar uma ideia, um incômodo,
- 36:47até eu escrever, começa pela paisagem, começa pelo
- 36:50personagem, começa pelo título. Como é esse processo para vocês?
- 36:56Eu acho que assim, né? A ideia pode vir de qualquer
- 37:00lugar, mas acho que eu sempre começo pela personagem, não sei
- 37:05como que é, que tipo de personagem, quem é essa pessoa,
- 37:09se eu consigo, já veio 11 ideia, um conceito, uma vontade de de
- 37:13explorar algum assunto, normalmente algum incômodo que
- 37:16nem você falou. E, enfim, a gente decide encarar
- 37:19esse incômodo pela via da da escrita, né?
- 37:22É aí eu começo a pensar que que tipo de personagem, que tipo de
- 37:26pessoa, pra quem isso seria aqui uma grande questão.
- 37:30E aí eu começo a interrogar um pouco essa essa personagem, né?
- 37:34E aí, e aí vou quando eu vejo tá ganhando umas carninhas e ossos
- 37:38e músculo EE enfim, começo AA encher ela com questões do
- 37:43cotidiano, né? Trazer ela AA realidade.
- 37:48Acho que eu começo por aí e. Claro, também tem os vícios de
- 37:53roteirista que passam por um pouco por isso, né?
- 37:56Por. Fazer escaleta?
- 37:58Fazer escaleta, fazer toda uma programação, um planejamento, é,
- 38:03mas eu passo muito tempo fazendo anotações aleatórias, pegando
- 38:08referência, pegando coisa, pegando sei lá, frases, pedaços
- 38:12de música, filme, qualquer coisa que eu sinta que que eu não sei,
- 38:16que tem um ímã com aquela, com aquela história que eu tô
- 38:19criando, com aquele mundo. Com aquela configuração de
- 38:22personagens, isso vai pro pro caderninho e fica ali.
- 38:26E eu assim, os 2 livros tiveram processos bem diferentes.
- 38:32O continente de dentro teve muito mais planejamento, muito
- 38:37mais tempo assim de de planejar e escrever. eSIM, eSIM, eSIM,
- 38:42antes de sentar para escrever. Os 2 são uma coisa parecida, que
- 38:45é quando eu sentei para escrever, foi tipo.
- 38:48Um tempo assim, muito imersivo. EE, assim, poucas versões,
- 38:52porque era um trabalho muito imersivo e era assim, era meio
- 38:55que várias versões. Só que acontecendo é dentro
- 38:58desse mesmo período, né? E mas o processo de voltar a
- 39:04quando já foi um processo muito mais catártico.
- 39:06Assim, eu eu tinha 11 certo planejamento, 11 fio condutor e,
- 39:13claro, eu precisava estar. Mais ou menos planejado porque
- 39:16tava brincando com 55 vozes narrativas, que aí tipo tá
- 39:21agora, agora acontece a coisa através de quem que eu vou
- 39:23mostrar e porquê e como isso mexe no ritmo e mexe nas
- 39:27informações que são dadas. E enfim, era era um quebra
- 39:31cabeça, era um quebra cabeça bem complicadinho, mas ao mesmo
- 39:35tempo essa parte é mais divertida, né?
- 39:37Essa não sei para mim, esse esse começar a mexer nas traumas.
- 39:40EEE gerar esses. Essas misturas, né?
- 39:45Como uma coisa vai é incidindo sobre a outra.
- 39:49EE, as potencialidades de cada de cada mudança, né?
- 39:52Tipo, você tirar esse pedacinho daqui, voltar para cá ou contra
- 39:55tal coisa pelo olhar do fulano e não do olhar pelo olhar da
- 39:59fulana. Assim, é, é muito divertido,
- 40:02acho que é das coisas mais interessantes do trabalho, é,
- 40:06mas também foi um processo muito catártico assim, eu tinha essa
- 40:09essa para chegar nisso. Eu tive muita Liberdade assim,
- 40:13muito de começar a escrever e vamos ver onde isso vai me
- 40:15levar. E eu fui assim, descobrindo um
- 40:18Monte de de situações que eu não tinha planejado, por exemplo,
- 40:22questões de contexto histórico. É, não sei, tem uma tem 11
- 40:27grande, pequeno, 11. Grande capítulo sobre a que
- 40:31aconteceu durante o funeral do traves.
- 40:34Eu não tinha planejado contar isso no funeral do traves.
- 40:37Mas ele estava escrevendo e falei assim, AI deu vontade,
- 40:41comecei, vamos explorar isso. EE através de quem eu vou contar
- 40:45isso, através da Nina, que é uma mulher tal não sei o que,
- 40:48através do do Camilo, que é o pai que tá ali.
- 40:51Super é, enfim, revolucionário, não sei o que com os amigos e
- 40:55super é na tragédia da morte, não sei o que.
- 40:59E se eu contar isso outra vez da Elisa, que uma menina de 12 anos
- 41:03sabe que que quem vai mudar? E aí?
- 41:05Acabei ficando com com a Elisa porque eu achei que rendia muito
- 41:09mais esse olhar infantil sobre aquilo do que o olhar adulto,
- 41:12que já é o olhar mais conhecido, né?
- 41:14Para nós, para o leitor. Tem esse lugar de brincar também
- 41:17ali, né? Tem te explorando pra você ir,
- 41:20Lira o acesso, super organizada, metódica, você também vai que
- 41:23vai. AI é uma delícia ouvir sobre o
- 41:25processo grande. As pessoas eu adoro.
- 41:28A. Troca e me reconhecendo em
- 41:32tantas coisas que a Maria fala, né?
- 41:33Desmonta daqui é toma cuidado pra não perder isso.
- 41:37Eu não sou uma pessoa organizada pra.
- 41:40Pra pra escrever. É claro que narrativas mais
- 41:43longas a gente parte de um princípio daquilo que você quer
- 41:45contar no, né? Como?
- 41:47Como um tema central ali, como um núcleo, senão a gente vai, EE
- 41:51se perde, mas as coisas vão acontecendo espontaneamente.
- 41:56Mas para as narrativas mais curtas, eu acho que varia muito.
- 42:00Uma história que eu sempre conto é que.
- 42:04Nos nos ateliês de escrita criativa são propostos muitos
- 42:08exercícios, né? Assim, muitas provocações e às
- 42:11vezes parecem coisas tão é até pueris, né?
- 42:15Eu me lembro de exercícios como Ah, o personagem hoje vai é, tá
- 42:21tá passeando pela cidade, chove, e aí no primeiro momento você
- 42:24fala, Ah, que bobagem, que bobagem, mas aí quando você se.
- 42:27Pega desenvolvendo aquilo, outras coisas vão acontecendo.
- 42:31Saem livros desses. Livros inclusive.
- 42:33É isso que eu eu IA dizer isso eu é eu, eu tinha.
- 42:37Eu digo que eu eu tinha uma amiga no trabalho que assim dia
- 42:42cigarros com com fósforo. Né, na era dos isqueiros, né?
- 42:46Algumas coisas assim eu ficava pensando, nossa, mas que viagem,
- 42:50por que beleza, me parece tão me parece tão mais trabalhoso,
- 42:53inclusive ela guardava os palitos riscados dentro da
- 42:56caixa. Já acontece a história centenas
- 42:58de vezes, mas é porque foi realmente isso que aconteceu e o
- 43:02que eu queria, o que eu queria EE eu fiquei com aquilo, eu
- 43:05falava nossa, deve dar 11 super trabalho ela achar Oo palito que
- 43:08não tá arriscado ainda aí dentro, né?
- 43:10O que que tá acontecendo? Que ainda faz isso com ela, faz.
- 43:12Isso, né daí? Enfim, e aí eu queria falar
- 43:17dessa caixa de fósforo, mas eu IA começar a contar uma
- 43:20história, né? Era Uma Vez uma caixa de fósforo
- 43:22frustrada porque não era utilizada corretamente.
- 43:25Enfim, não fazia muito sentido, né?
- 43:29E aí eu comecei AAA pensar em né, como é que eu poderia
- 43:34introduzir esse assunto, né, que para mim era 1111 questão, né,
- 43:39todo plantão eu IA e ficava, deixa eu ver se hoje ela tava,
- 43:41ela tava lá com a caixa de voz. E aí, por causa da caixa de
- 43:45fósforo, eu escrevi muita coisa. Nasceram personagens assim, uma
- 43:50favela inteira, as crianças, os cachorros, os vizinhos e tal,
- 43:55histórias de amor e conflitos. Tudo porque eu precisava falar
- 43:59dessa caixa de fósforo. Eu precisava, né?
- 44:02E talvez o leitor nem, nem nem preste atenção, porque é uma
- 44:06única vez que a caixa de fósforo aparece no livro, né?
- 44:09Em pirifobia ali, num conto mais longo.
- 44:12E aí eu consegui, né? É finalmente inserir ali,
- 44:16introduzir a caixa de fósforo mais uma única vez e muita.
- 44:20Coisa. E os leitores, nem se nem.
- 44:26Conta de? Todo o processo construtivo que
- 44:30aconteceu através daquela caixa aí são essas questões, né, cada
- 44:34coisa. É parte de um princípio, né?
- 44:36Alguma coisa que te pegou ali, você fala, nossa, eu preciso
- 44:40escrever sobre isso. Olha os incômodos.
- 44:42E tem vezes, porque você até larga depois o aquilo que foi o
- 44:45seu início. Eu nem lembro mais, né?
- 44:47Preciso voltar naquilo realmente.
- 44:50Então, esses recortes que a Maria fala, né?
- 44:52Eu tenho que tomar muito cuidado porque eu não não sou
- 44:54organizada, né? Eu geralmente eu tenho um
- 44:56arquivo. Eu acho que isso é recorrente,
- 44:58né? Aquele arquivo com. 500 versões,
- 45:01né? Versão não sei o que lá e aí eu
- 45:03abro ali uma página em branco só pra ir guardando sim, eu vou
- 45:07ali, abro uma página normalmente eu eu deixo uma página em branco
- 45:10ali pra ficar colando as coisas que eu que eu recorto e aí às
- 45:14vezes o computador atualiza e não salva aquilo e as minhas
- 45:17coisas se perderam e eu fico desesperada ali atrás mas é
- 45:22mudar, né? E dói muito às vezes também, né,
- 45:25quando você se dá conta de que alguma coisa que você construiu
- 45:29o é. Não, não vai se concretizar.
- 45:31E aí você precisa mudar, e é, e é, e é uma coisa importante e
- 45:35mudar de voz, né? Falar Ah, não é desculpa, mas
- 45:38não é mais você que vai entender isso.
- 45:40Agora eu vou ter que transferir ali para o para, para para o
- 45:44outro ali. EE experimentar mudar essas
- 45:47vozes, mas são exercícios sempre muito assim, importantes, né?
- 45:52Muito importantes. Então é oficina de escrita, é um
- 45:54negócio muito legal. Eu comecei a fazer também quando
- 45:57eu mudei para São Paulo, que eu já falei várias vezes assim, pra
- 45:59pressa, né? Oficina do Marcelino Freire
- 46:01sempre tem alguém que já fez com ele e tem exercícios, que é
- 46:04impressionante. Saiu em livros ali, meu livro
- 46:06saiu de uma oficina do Marcelino Freire, vira O Mestre, senta uma
- 46:08escritora aqui que fala meu livro também saiu de um
- 46:10exercício, o. Maior respeito pelos exercícios
- 46:13da escrita. É impressionante como sai coisa
- 46:15dali. E vocês, pensando assim, no os
- 46:18os livros de vocês que os mais recentes que vocês têm escrito
- 46:21trazem personagens que têm um contexto social forte ali, de
- 46:23alguma maneira, como vocês pensam na construção desses
- 46:26personagens? É, não sei se na hora de
- 46:28construir vocês pensam, talvez de não cair em algum
- 46:30estereótipo, fugir de algum estereótipo, pensar essa voz
- 46:33narrativa para contar a história pessoal dele, mas também contar
- 46:37o contexto onde ele está inserido.
- 46:39Vocês pensam nesse nessa dupla de coisas juntas e como é para
- 46:42vocês? Porque eu sei que a gente não
- 46:43consegue. Às vezes um personagem não vai
- 46:45representar um todo, né? Não vai representar uma pessoa
- 46:48todo, um contexto. Mas vocês pensam um pouco nisso,
- 46:51esse particular do personagem e universo onde ele está inserido
- 46:55na hora de escrever. Penso super EE voltar a quando
- 46:59foi um acho que é o maior desafio do do livro era era
- 47:04esse, né? Porque justamente assim, se a
- 47:05gente for pensar conceitualmente, o livro para
- 47:07mim é é uma história que busca contar como a história, com Ah
- 47:15maiúscula, e o autoritarismo nacional da Venezuela das
- 47:20últimas décadas. Como isso incide sobre a
- 47:23história íntima? Dessas personagens.
- 47:27Então, assim, esse esse jogo entre entre o contexto histórico
- 47:32político é EOE como a como cada uma das personagens vivem.
- 47:38Isso era assim, essa, essa, essas Fronteiras eram muito
- 47:44importantes para mim, mas era justamente o meu assunto, né?
- 47:48EEO que eu fiz foi pensar nessa, nessa família a gente tem.
- 47:54É Nina que que viaja, né? É a é a pessoa que faz AA grande
- 47:58viagem da Venezuela pro pro Brasil deixa na Venezuela a
- 48:02filha com a mãe dela que tá deprimida tem o luto recente
- 48:06pelo pelo avô da família, marido da da mãe é pai da Nina, avó da
- 48:12da menina. É e tem e esse esse avonarha
- 48:17desde um além, né um certo além. É e tem também AA quinta
- 48:22personagem, que é Camilo, que é o pai da menina, que aproveita
- 48:25essa viagem da da Nina pra se reaproximar da menina, mas
- 48:31assim, da pior forma possível, né?
- 48:32Ele quer recuperar a Nina, só que daquele jeito tosco e super
- 48:37machista de enfim, vamos ser os 3 de novo, porque eu quero,
- 48:41sabe? Então ele, ele aproveita o pior
- 48:43momento assim, a maior vulnerabilidade possível pra
- 48:46fazer isso. E.
- 48:49E então o que eu tentei fazer foi com com com esse grupo de
- 48:52personagens. Acho que eu criei primeiro eles
- 48:56e depois pensei, tá, como cada um, cada um deles viveria o que
- 49:01tá esse contexto, né? Então, por exemplo, Oo avô, eu
- 49:07pensei nele, tá, uma pessoa que que morreu, morreu antes e que
- 49:11isso tudo acontecesse. E ele acreditava muito No No
- 49:14processo revolucionário. É como que ele vive sendo sendo
- 49:20morto. É essa catástrofe toda, né?
- 49:23Então, no caso dele, ele é pra mim, a assim AA impotência, a
- 49:28sensação de impotência sobre ver os teus sofrendo, levado ao
- 49:33extremo máximo, porque impotência total, porque não tem
- 49:36como incidir sobre a realidade de jeito nenhum.
- 49:38No No livro, até que eu dou um jeito de que ele faça alguma
- 49:42coisa, né? É aí tem AA, vó.
- 49:47Aí ela está lá para mim. Eu pensei, bom, ela é a
- 49:49personagem que está lá na Venezuela, no olho do furacão,
- 49:52vivendo tudo. Ela está deprimida pela perda do
- 49:54marido e pela enfim, pela pelos diversos lutos que está vivendo
- 49:58ali. Para mim, ela se tornou a voz da
- 50:03Venezuela do momento, sabe? Tipo ela, e por isso ela é a
- 50:06única que fala em primeira pessoa, porque ela é a
- 50:09testemunha direta do que está acontecendo.
- 50:12Aí tem a Nina, que então é a que faz a viagem.
- 50:16É aí eu pensei, bom, ela vai carregar.
- 50:19Talvez. O meu credo particular com
- 50:22relação a isso tudo é, eu tinha muito interesse em falar sobre o
- 50:26desencantamento, sabe? Sobre sobre ter apostado é ter
- 50:32talvez apoiado mais coisas das que precisavam ou enfim, ter
- 50:36perdido um pouco o limite, até quando era era uma coisa boa e
- 50:40quando a promessa começou a se tornar outra coisa.
- 50:44É então assim, essa era minha maior vontade com a Nina.
- 50:47Então o que eu fiz foi trazer, colocar ela nesse lugar.
- 50:50Vamos contar o desse encantamento, vamos contar o que
- 50:53que a gente faz com esse fracasso que a gente ajuda a
- 50:56construir. E aí tem o Camilo, que aí já é
- 51:01outra, outra, outro perfil dentro desse jogo todo, que é o
- 51:05jovem revolucionário rebelde, não sei o que, que se tornou um
- 51:08burocrata do do estado e que não termina de assumir seu lugar.
- 51:13Nisso tudo é e que tem esse jeito golpista de agir em tudo,
- 51:17né? É, e tem uma menina que então
- 51:21para mim ela É Ela é meio que o futuro sequestrado é EE, esse
- 51:27olhar que que me permite por um lado, essa essa essa coisa de
- 51:32questionar tudo, né, tipo, porque isso porque aquilo e o
- 51:34que que é ser revolucionário? O que que é a ditadura, o que
- 51:37que é a democracia, o que que é isso?
- 51:38O que que é aquilo, né? É que eu acho que ela é uma era
- 51:42uma das vozes que eu mais gostava de trabalhar, porque
- 51:45achava que com ela era uma ferramenta para desmontar
- 51:48coisas, sabe? Esse esse olhar, então, assim, é
- 51:51um caleidoscópio justamente para tentar dar conta desse grupo de
- 51:56de desse grupo familiar, que sendo todo mundo apoiador da
- 52:01revolução em um em um primeiro momento.
- 52:03De repente, se vê com esse fracasso no colo, tendo
- 52:06participado da construção desse fracasso, e o que fazer frente a
- 52:09isso? Então, cada um carregando esse
- 52:12olhar e assim como? Cada um com seu com seu
- 52:14conflito, né? Assim como cada um, como cada um
- 52:17vive esse conflito nacional do sujeito, um sujeito íntimo,
- 52:20sabe, com as ferramentas que cada um tem.
- 52:23Então acho que assim, sem sem querer fazer panfleto de nenhum
- 52:28deles, sabe? Todos, todos estão errados, tudo
- 52:30fazem coisa certa, coisa errada. Ninguém.
- 52:33Ninguém tem razão ali nessa. E era isso que eu queria fazer,
- 52:37né? Trabalhar com essa complexidade,
- 52:39porque imagina tocar um tema desses?
- 52:41EEE partir por uma partir para uma para uma visão totalmente
- 52:45estereotipada ou. Exato, é tipo, é contradizer Oo
- 52:49próprio conceito do que eu queria fazer, né?
- 52:52É legal. Eu gosto de de observar esse
- 52:54lado, porque exatamente o personagem ele não consegue
- 52:56representar, né? Totalmente ali onde ele tá
- 52:58vivendo. Mas o particular é muito
- 53:00universal, né? A gente olhando pra uma família,
- 53:02olhando pra uma mulher, olhando pra uma pessoa, o olhar dela diz
- 53:05muito pra gente do que tá acontecendo ali ao redor, né?
- 53:08Como foi pra você, Lilian, pensar um pouco nisso, no olhar
- 53:11dessas suas protagonistas, no que elas representavam também
- 53:13ali do momento que elas estavam vivendo.
- 53:17EEE ouvindo a Maria eu penso em como como falar, né?
- 53:23Da intimidade e como falar do que se passa dentro, né?
- 53:26De de cada um deles e da das das coisas que que que eles
- 53:29realmente sentem e vivem. Como transmitir isso, né?
- 53:33De uma forma verossímil, assim, né?
- 53:35Sobretudo quando eu comecei a trabalhar com com personagens,
- 53:39centralizando personagens que sempre que nunca estiveram no
- 53:42centro, né? Ali, trabalhadoras domésticas
- 53:45que sempre são. Sempre, na maioria das vezes e
- 53:48nas histórias com as quais eu tinha experiência, elas estavam
- 53:52ali sempre no momento de trabalho, né?
- 53:54De serviço, de servir serviçais ali.
- 53:58E eu comecei a trazer outras questões dessas pessoas, não só
- 54:01das trabalhadoras domésticas, mas como de outros profissionais
- 54:04subalternizados de que eles tinham vida além desse âmbito
- 54:09ali, de serviço, EEO, que que acontecia.
- 54:13Né? Durante o deslocamento, nos seus
- 54:15momentos de folga, né? Eram coisas que eu não
- 54:18encontrava muitas vezes Na Na Na literatura que eu consumia, né?
- 54:22Eu via esses personagens que me interessavam muito ali, como
- 54:25personagens secundários. E aí quando eles começaram a
- 54:27protagonizar as histórias que eu criava, para mim era muito
- 54:31divertido porque pareciam inverossíveis para outras
- 54:33pessoas, né? É quando você compartilha, né,
- 54:37informações que não são comuns a muita gente, como para mim.
- 54:40Às vezes eu me surpreendo com coisas que eu desconheço.
- 54:43Né? É informações ali que as
- 54:45histórias trazem e que eu desconheço e que para mim, eu
- 54:47falo, puxa, isso me surpreendeu. Essas experiências dos
- 54:51personagens em outros âmbitos da vida também começaram a
- 54:54surpreender determinadas pessoas e até a trazer questionamentos
- 54:58de que puxa, mas é assim mesmo que isso acontece?
- 55:01É assim, é assim mesmo, isso acontece.
- 55:03Mas esse personagem falaria mesmo isso?
- 55:06E ali aquele preconceito da né, de de de achar que porque é um
- 55:10personagem periférico, ele tinha que vir com uma linguagem
- 55:12totalmente. É diferente do que do que
- 55:15determinadas pessoas esperam e aguardam, né?
- 55:18E aí eu trago de volta a minha avó, que era uma pessoa que não
- 55:21era alfabetizada, que era uma trabalhadora doméstica e que
- 55:23tinha um vocabulário, né? Riquíssimo.
- 55:26E isso começou a aparecer em verossímil para muitas pessoas,
- 55:29eu trazer uma personagem que é uma trabalhadora doméstica, que
- 55:32gostava de literatura, por exemplo, que visitava a
- 55:34biblioteca. Ah, mas puxa, que recurso tão,
- 55:39digamos assim? Né?
- 55:41Confortável para trazer alguma coisa, não?
- 55:43A minha mãe é uma sempre, né, agora aposentada, mas era uma
- 55:46trabalhadora doméstica que lia muito e me estimulava a ler e
- 55:50frequentava a biblioteca e que para as pessoas.
- 55:53E como é como apresentar essa essa essa realidade para as
- 55:56pessoas, né? Isso começou, eu comecei a
- 55:58perceber, né, questionamentos a respeito desses perfis, né?
- 56:05Mas para mim era muito natural ele para mim, não, não, não, não
- 56:09me dava trabalho algum. Ao contrário, né?
- 56:11É quando eu comecei a percorrer esses ambientes e trazer as
- 56:14experiências dos personagens ali nas suas vidas mesmo, né?
- 56:17Então é, eu já ouvi, por exemplo, as pessoas falarem Ah,
- 56:21eu quando ele. Quando fui ler perifobia, fiquei
- 56:23meio assim porque achei que IA encontrar sangue, tiro,
- 56:27violência. Só também porque não a cidade, a
- 56:30cidade inteira, né, falando de São Paulo, ou é como a Maria,
- 56:33disse ela. Em algum momento quis pontuar
- 56:35muitos lugares, né? Sentiu saudade?
- 56:38Talvez por estar distante. Eu, ao contrário, às vezes eu
- 56:41quero deixar aberto, porque eu imagino que outras pessoas
- 56:44também é fim do mundo, por exemplo, pode ser em qualquer
- 56:47lugar. Né?
- 56:48Todos os lugares tem os seus fins de mundo, todos os lugares
- 56:51tem as suas periferias. E aí eu quis deixar aberto para
- 56:53realmente as pessoas conseguirem se localizar e falar, puxa, eu
- 56:57conheço o fim de mundo, eu sei onde é, né?
- 56:59Eu já passei por lá ou eu já vivi ali.
- 57:02Então essas começaram a ser experiências que eu tinha que
- 57:06desenvolver ali quando eu quando eu construí o texto, né?
- 57:10EE, contar com essa. A percepção das pessoas é muito
- 57:15interessante. Também esses personagens que não
- 57:16está mais reduzido a funções, né?
- 57:18Mas as vidas que ele estavam estavam vivendo ali, nos seus
- 57:20cotidianos. É, eu fiquei de de novo, né?
- 57:23Assim, pegando emprestado aqui o termo obcecado por uma
- 57:26personagem que era uma trabalhadora doméstica numa casa
- 57:29chinesa e comecei a gostar muito dela e eu tinha poucas
- 57:33informações sobre ela, né? Eu ficava esperando, né, que que
- 57:36ela vai fazer agora? Não, não É Ela que vai viver
- 57:39nenhuma cena interessante. E aí?
- 57:42Eu comecei a construir cenas Pra Ela, né?
- 57:44Na minha cabeça, pensando, é, ela morava numa casa senhorial,
- 57:49ela não tinha uma casa própria, né?
- 57:51Ela, ela morava com a família ali, vendo grandes casas
- 57:54chinesas antigas, e tinham ali os setores dos empregados e tal,
- 57:58né? Mas aí eu comecei a imaginar o
- 58:00que que acontecia depois que encerrava o expediente, né?
- 58:03Muito legal a gente conhecer o processo criativo de vocês um
- 58:06pouco mais a fundo e como ele tem seus encontros, né?
- 58:09Várias linhas ali que a gente foi costurando juntas e a gente
- 58:11já tá, olha, se encaminhando pro fim, olha como passa rápido o
- 58:14tempo antes da gente encerrar. Eu gosto sempre também de
- 58:17perguntar se vocês querem deixar dicas assim de leituras.
- 58:21É coisas que vocês estavam lendo, livros ou autores autoras
- 58:24que influenciaram vocês de alguma forma.
- 58:27É nos livros que vocês escreveram ou que vocês ainda
- 58:29vão escrever, que que vocês deixariam aí de indicação
- 58:31literária pra quem tá ouvindo? Ah, então eu eu já faz algum
- 58:40tempo que eu as interrupções estão assim, né?
- 58:42Começa a ler uma coisa para porque precisa ler a outra tal.
- 58:45Quer saber? EE mas assim eu não terminei
- 58:48ainda. Então eu digo que eu estou lendo
- 58:50o tempo da infância, que é da França azegar, né?
- 58:53Eu li cartas a uma negra e gostei muito da escrita dela e
- 58:55aí estou ali na luta para terminar tempo da infância, mas
- 58:59assim eu leio. Eu digo que a literatura
- 59:03infantil, a minha literatura da infância, ali o começo sempre me
- 59:09me traz coisas muito boas. Então assim, eu sou muito
- 59:12interessada em literatura infantil, falando de forma
- 59:15geral, né? Daquilo que me interessa e
- 59:17daquilo que me afeta. Os autores lá do começo, né?
- 59:20Eu gosto muito de ler crônicas, então eu vou em busca, né, de
- 59:24livros de crônicas e tal, e querendo sempre ouvir mais a voz
- 59:28das mulheres, né? E tentando ler o que as mulheres
- 59:32estão escrevendo e mulheres contemporâneas também, com as
- 59:36quais a gente pode conversar. EE ouvir também sobre o processo
- 59:40criativo, tenho feito isso. É.
- 59:44Mas assim, inegavelmente, o que me é, o que acho que me fez
- 59:49acreditar que eu poderia escrever, claro, é, foi.
- 59:53Um quarto de despejo foi Carolina Maria de Jesus ali, com
- 59:56o seu relato forte, que eu digo, ainda bem, eu li ainda
- 59:59adolescente. E aí quando eu pensei em
- 1:00:01escrever, eu sempre me lembrava dela e falava, puxa, eu me
- 1:00:05lembro que Carolina fez isso e aí fui imitá la, né?
- 1:00:08É muito importante a gente ter alguém para imitar e assim,
- 1:00:12agora é, é isso, né? Eu tô tentando é ler.
- 1:00:16Sempre mais e mais mulheres, né? E ouvir o que elas têm a dizer,
- 1:00:19até porque as personagens que eu construo são é EE que vivem os
- 1:00:24os conflitos assim mais evidentes nas nas histórias.
- 1:00:27São mulheres, né? Que estiveram sempre ao meu
- 1:00:29redor, que me educaram, que me que que cuidaram de mim ali na
- 1:00:35minha aldeia. Então eu tô tentando ouvir mais
- 1:00:38e mais vozes de mulheres pra. Até para continuar entendendo,
- 1:00:42porque a pesquisa que eu comecei não terminou na verdade, né?
- 1:00:46Eu tinha dado ela por encerrada ali.
- 1:00:47Mas a verdade é que é que é uma pesquisa que acho que vai.
- 1:00:51Vai acontecer sempre. Maravilha.
- 1:00:56E você, Maria, quer deixar aí, então?
- 1:00:59Acho que de de autores autoras que que me marcaram assim, que
- 1:01:05que fizeram parte daquele primeiro deslumbramento.
- 1:01:09É diferente, né, Lili? Eu tenho mais aquela aquela
- 1:01:14lacuna de mulheres naquela primeira fase, sabe?
- 1:01:17Aí eu eu li muito os clássicos, né?
- 1:01:20Garcia Marques, cortaza. Mas também li muita coisa
- 1:01:24venezuelana que tinha. Acho que era o que mais tinha
- 1:01:27assim na minha casa, sabe? Estranhamente, meu pai, de
- 1:01:30alguma forma, tinha muita coisa contemporânea e aí eu IA pegando
- 1:01:3311 outra coisa. Tem um contista, tem vários
- 1:01:38contistas que agora eu relembro assim, que que realmente tiveram
- 1:01:43um impacto muito forte. Acho que o maior deles chama
- 1:01:45Jose Rafael, pouca Terra é, acho que eu sempre falo dele, EEA,
- 1:01:52partir dali tem. Tem também a Teresa de lapar,
- 1:01:56que é que é uma autora muito importante e já depois acho que
- 1:01:59Na Na, na vida assim, mais adulta talvez.
- 1:02:06Autores que que eu lembro assim até hoje do impacto de de ler
- 1:02:10assim na hora? É, acho que a quundeira teve uma
- 1:02:14fase quando era muito forte, é meio obsessiva assim.
- 1:02:18EE bolainho que é bom a minha camiseta já, né?
- 1:02:22É, já conto com isso e só que depois acho que é engraçado, né?
- 1:02:30Ficar olhando assim a nossa história como leitoras.
- 1:02:34Porque tem tem fases tão, tão diferentes, né?
- 1:02:37Aí depois assim, acho que já aqui eu comecei AA olhar muito
- 1:02:41mais para as mulheres, tanto brasileiras quanto é Latino,
- 1:02:46Americanas. Mas também, por exemplo, acho
- 1:02:49que a grande descoberta para mim da da última década, talvez é
- 1:02:54seja Toni Morrison. Eu lembro de ter lido a amada e
- 1:02:58aquilo, ter me dado uma explosão na cabeça assim, muito.
- 1:03:03Muito forte. EE, claro, tem, por exemplo,
- 1:03:06inclusive as conexões dela com folkner com um livro, por
- 1:03:09exemplo, como enquanto agonizo, que eu amo de paixão.
- 1:03:14E depois disso acho que teve aquela fase que eu não saía.
- 1:03:19Acho que é a fase atual que é ler as Latino Americanas
- 1:03:23contemporâneas, né? Então, agora, por exemplo, eu
- 1:03:25estou lendo el boy mal, o bom mal acho que que é a tradução,
- 1:03:29né? Aqui.
- 1:03:30De Samantha shuebling, que acabou de ganhar um prêmio
- 1:03:32importantíssimo com esse livro Na Na Espanha e que eu estou
- 1:03:36achando incrível assim. Eu eu gosto muito dela, acho que
- 1:03:40das das contemporâneas, ela é talvez a que mais me me impacta.
- 1:03:45Se ela esse trabalho sobre o AI, sobre essa, essas coisas
- 1:03:50estranhas, esse esse mal que está que está dentro de casa.
- 1:03:54EE, até que ponto é mal e sabe essa?
- 1:03:58Esses pontos de de noite dentro de nós, assim, isso me impacta
- 1:04:04muito dela. EE acho que outra que também
- 1:04:08tenha gostado muito é a Mônica huhead, principalmente ela como
- 1:04:11contista. Acho muito, muito interessante
- 1:04:14o. É, tem vários contos assim, nem
- 1:04:19nem precisa escolher a. Maravilha, a gente então já tem
- 1:04:22várias dicas de leitura aí para gente acrescentar na nossa lista
- 1:04:25infinita de de livros. Desejados que somem das dívidas.
- 1:04:30Eu só queria. Era mais tempo para poder ler
- 1:04:32esses livros. E gente, adorei conversar com
- 1:04:34vocês de verdade. Muito gostoso ouvir vocês
- 1:04:36contarem um pouco mais desses livros.
- 1:04:39É contarem um pouco dos processos de vocês e de todas
- 1:04:41essas histórias que se conectam muito tanto com memória, com o
- 1:04:44espaço. Acho que eu tenho gostado muito
- 1:04:45de observar, mas isso na nos processos de escrita.
- 1:04:48Então super obrigada por participarem do do elas na
- 1:04:51escrita ficaram muitos escritas na mesma frase, conta do
- 1:04:54podcast. Adorei receber vocês aqui de
- 1:04:57verdade. Obrigada, eu adorei.
- 1:04:59Ouvindo Maria aqui um tempão, e você?
- 1:05:02Aí eu queria fazer uma pergunta a mais pra pra Lili.
- 1:05:06É como assim, para além dessa coisa de de ter acesso AA um
- 1:05:12universo tão específico de histórias, né?
- 1:05:15Vindo da da área da saúde, você vê alguma relação entre o
- 1:05:19trabalho na área da saúde com o trabalho da escrita?
- 1:05:23Você consegue fazer algum paralelo?
- 1:05:25Ah, eu consigo, eu consigo sim, porque é na saúde, a base, a
- 1:05:31observação e a escuta, né? Você precisa observar, você
- 1:05:33precisa rapidamente captar ali que os seus olhos conseguem.
- 1:05:37Te Te Te contar que pode ser, né?
- 1:05:39O caminho EE ouvir é muito importante.
- 1:05:42É claro que existem setores em que você não tem essa
- 1:05:45possibilidade, né? Questões emergenciais, questões
- 1:05:48urgentes em que você não consegue ouvir.
- 1:05:50Mas quando você consegue ouvir, é aí que você, né?
- 1:05:54Se encaminha pra uma, né? Pra, pra.
- 1:05:59Pra pra um auxílio mais eficaz, né?
- 1:06:01Daquilo que a pessoa procura e busca.
- 1:06:03Então a observação e a escuta, que são fundamentais para quem
- 1:06:07escreve e também na saúde, são elementos importantíssimos e que
- 1:06:11eu desenvolvo e que eu. E que eu EEE assim.
- 1:06:15Importante dizer que quando eu fui pra pro pro âmbito da saúde,
- 1:06:19era 11 tempo mais ou menos em que eu tinha resolvido começar a
- 1:06:21escrever. E aí eu cheguei na no curso de
- 1:06:24enfermagem e descobri que tinha uma matéria chamada anotação de
- 1:06:28enfermagem. Eu descobri que existia uma
- 1:06:30linguagem que a gente precisava se entender.
- 1:06:33Né? Então, determinadas coisas, a
- 1:06:34gente IA começar a falar uma espécie de um dialeto ali,
- 1:06:37porque senão já pensou, é. É muito importante para mim.
- 1:06:40Por exemplo, Maria ficou o dia inteiro com determinada paciente
- 1:06:43e eu vou assumir ali na noite. Eu preciso entender o que
- 1:06:46aconteceu. Né, e se a gente?
- 1:06:48Não começar a falar coisas que são comuns para nós, como é que
- 1:06:51vai? Então, assim, eu comecei a fazer
- 1:06:53os exercícios assim, de forma conjunta, sabe?
- 1:06:56EE não é só isso, né? Tudo que me perguntam muito se
- 1:07:01Ah É muito atravessada pelas coisas que você é, as
- 1:07:05experiências que você tem no âmbito da saúde, é claro.
- 1:07:08Mas eu eu sempre digo que o ambiente é o que mais me
- 1:07:11atravessa, né? Às vezes eu sou mais atravessada
- 1:07:15pelo que acontece no caminho até o meu trabalho do que
- 1:07:17propriamente do que acontece no trabalho.
- 1:07:20Quase sempre assim, mas eu diria que o que eu mais absorvo mesmo
- 1:07:24é das 2 coisas ali que une é a observação e a escuta.
- 1:07:29Olha só que legal, eles são fundamentais para escrita.
- 1:07:32Terminamos com essa gente, olha aí para levar.
- 1:07:35Obrigada, viu, gente? De verdade, obrigada.
- 1:07:37Quem escutou a gente até aqui? Foi um episódio muito gostoso e
- 1:07:41até o próximo episódio, tchau, tchau, tchau.