Latest / Na Mesa com Well / Escatologia Ep. 06 | Céu de Fantasmas?
Transcript
- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o el hoje vamos confrontar um erro
- 0:03comum na teologia popular, a ideia de que a Esperança cristã
- 0:08é se tornar um fantasma celestial, analisando o conflito
- 0:12entre a imortalidade grega da alma e a gloriosa doutrina
- 0:16bíblica da ressurreição dos corpos.
- 0:18Né, já começamos com o pé na porta, né?
- 0:22Porque. Na verdade, esse é um choque de
- 0:25realidade logo nos primeiros segundos de análise.
- 0:28Com certeza. E assim, esse é exatamente o
- 0:32peso do material que a gente vai investigar nesse mergulho de
- 0:34hoje, porque quando analisamos os textos sagrados em conjunto
- 0:38com a exegese de estudiosos como o Vitor Vieira, o Luiz saeão e o
- 0:43Ângelo bazo. Hum, fica muito claro que a
- 0:47Esperança bíblica original sofreu tipo um sequestro mesmo.
- 0:51Nossa, um sequestro teológico. Melha muito mais a um desenho
- 0:54animado sabe aquela coisa meio caricata do que a promessa
- 0:59densa, tátil e física que as escrituras realmente apresentam?
- 1:04É, e se a expectativa de quem nos ouve é?
- 1:09Passar a eternidade como um espírito quase transparente,
- 1:13flutuando numa nuvem fofinha enquanto toca a harpa pra
- 1:16sempre. Olha, saiba que isso é um mito.
- 1:20Totalmente. Sabe, pensando nisso, me vem uma
- 1:23analogia muito prática à mente pra ilustrar essa distorção que
- 1:28a gente vive. Manda ver.
- 1:30É tipo assim, Hum, imagina que alguém ganhe uma passagem com
- 1:35tudo pago pra um arquipélago incrível?
- 1:38Um Paraíso Tropical vibrante, cheio de cores, Montanhas,
- 1:43florestas e uma cultura riquíssima.
- 1:47O destino dos sonhos? Isso, mas aí a pessoa embarca e
- 1:51fica convencida de que a viagem inteira consiste em ficar ali,
- 1:55sentada na poltrona do avião pra sempre, só apreciando o serviço
- 2:00de bordo. Nossa, que desperdício.
- 2:02Pois é, a poltrona, nesse caso, é só um meio de transporte, né?
- 2:06É uma fase transitória, mas a pessoa acaba confundindo isso
- 2:11com o destino final. É uma excelente imagem e
- 2:14acreditar numa eternidade. Desencarnada tipo um fantasma é
- 2:19exatamente isso. É perder de vista a
- 2:21grandiosidade da promessa que nos aguarda.
- 2:23Mas a grande dúvida que fica, e que o nosso material responde?
- 2:27É a seguinte, Hum, como foi que o cristianismo engoliu essa
- 2:32ideia de um voo sem fim? Tipo, de onde tiraram que o céu
- 2:36é um lugar pra fantasmas? Bom, e aí que entra a nossa
- 2:40investigação histórica central pra gente entender como chegamos
- 2:43a esse nível de confusão, é preciso sair do texto bíblico
- 2:46por um momento e olhar a pro ambiente cultural onde a igreja
- 2:50primitiva cresceu. Uhum o contexto da época.
- 2:53Exato, porque a raiz desse mal entendido não veio dos profetas
- 2:58hebreus e muito menos dos apóstolos, veio da infiltração
- 3:02da filosofia Greco romana, mais especificamente do pensamento de
- 3:07Platão e, um pouco mais tarde, do gnosticismo.
- 3:10Ah, o famoso gnosticismo. A gente ouve muito falar nisso.
- 3:14Sim. E na visão de mundo grega, havia
- 3:17um dualismo radical. A premissa deles era tipo muito
- 3:21simples de entender. Pra eles, tudo o que é matéria,
- 3:25tudo o que é físico, biológico, o que a gente pode tocar era
- 3:29considerado inferior. Ou até inerentemente mal, né?
- 3:32Uma prisão? Exatamente uma prisão para alma,
- 3:36o corpo era visto como um obstáculo.
- 3:39Em contrapartida, o mundo das ideias, esse Reino espiritual
- 3:43invisível e etéreo, esse sim, era visto como ápice da pureza e
- 3:48da perfeição. Mas Hum, sendo muito Franca
- 3:52aqui, fazendo papel de advogada do diabo.
- 3:54Claro, fica à vontade. Não é difícil entender por que
- 3:57que o cristão médio hoje acaba adotando essa postura aí,
- 4:02ficando confuso, porque é se a gente ler o novo testamento de
- 4:07forma desatenta. A gente tromba com o apóstolo
- 4:10Paulo falando o tempo todo sobre os desejos da carne.
- 4:14É a famosa Batalha contra a carne.
- 4:17Pois é, ele diz explicitamente que a carne milita contra
- 4:20espírito, que as obras da carne são más e que quem vive na carne
- 4:26não pode agradar a Deus, então? Hum, como a gente pode culpar as
- 4:30pessoas por acharem que o corpo físico é o inimigo se a própria
- 4:35bíblia parece usar essa linguagem?
- 4:37Olha, esse é um questionamento excelente, porque toca no núcleo
- 4:40do nosso problema hermenêutico de hoje.
- 4:42A confusão toda, na verdade, acontece por um problema de
- 4:45tradução e de contexto cultural. Ah, tem a ver com o grego
- 4:48original, então? Exato, quando o Paulo usa a
- 4:51palavra grega sarcs. Que a gente geralmente traduz
- 4:55como carne nas nossas bíblias, na grande maioria das vezes, ele
- 5:00não está falando sobre os nossos músculos, ossos e sobre a nossa
- 5:04biologia. Ele não está falando da matéria
- 5:07do corpo. Não, de forma alguma.
- 5:09Ele está usando sax como um termo teológico específico para
- 5:14descrever a natureza humana caída, aquela nossa inclinação
- 5:17natural para rebelião contra Deus.
- 5:19Entendi. E quando o Paulo quer falar do
- 5:21corpo físico biológico mesmo, ele geralmente usa outra palavra
- 5:26grega, que é soma. E o corpo físico.
- 5:29O soma nunca é tratado como lixo no novo testamento, muito pelo
- 5:33contrário. Paulo chega a dizer que o corpo
- 5:36é o templo do Espírito Santo. Nossa, faz todo sentido.
- 5:40Então, o gnosticismo pegou essa confusão linguística e distorceu
- 5:44tudo, ensinando que a salvação era AO espírito finalmente
- 5:48conseguir escapar. Ar dessa prisão nojenta que
- 5:51seria o corpo físico. Que se a gente parar para pensar
- 5:54bem, destrói completamente o alicerce do livro de Gênesis.
- 5:59Totalmente joga Gênesis no lixo. Sim, porque a narrativa da
- 6:03criação Hebraica é o absoluto oposto desse dualismo grego que
- 6:07você explicou quando a gente leu o relato lá no começo.
- 6:11Vemos Deus criando intencionalmente um mundo
- 6:13material. Exato, com as próprias mãos,
- 6:16digamos assim. Eles, culpe a Terra, ele enche
- 6:19os oceanos de água salgada, cria fotossíntese as árvores, a
- 6:24biologia complexa dos animais e, no clímax de tudo, ele cria o
- 6:28ser humano a partir do pó da Terra.
- 6:31É matéria pura. Matéria da mais alta qualidade.
- 6:34E o veredito final dele sobre toda essa materialidade não é de
- 6:38uma mera tolerância. Tipo, Ah, dá para o gasto.
- 6:41É de celebração. Ele olha e diz que tudo é muito
- 6:45bom. O que nos revela que o mundo
- 6:46físico não foi tipo um plano b ou um acidente cósmico que deu
- 6:51errado? A criação material foi o palco
- 6:53intencional que o criador escolheu para expressar a sua
- 6:56Glória e para se relacionar com a humanidade.
- 6:59Um e a filosofia grega ao tentar elevar o espírito, rebaixando a
- 7:03matéria, na verdade ela comete um erro teológico profundo,
- 7:07porque ela ataca de forma direta a bondade inerente da obra do
- 7:10próprio Deus. Eu diria que é uma heresia
- 7:12extremamente sutil, mas. Perigosa.
- 7:16Com certeza. Hum, eu gosto de comparar isso a
- 7:18um crítico de arte, imagina um crítico bem esnobe que entra
- 7:23numa Galeria renomada, para na frente de uma obra prima e
- 7:28começa a elogiar a mente abstrata do pintor?
- 7:31A exalta genialidade dele. Isso ele exalta os conceitos
- 7:36invisíveis que motivaram a pintura, mas ao mesmo tempo, ele
- 7:41expressa um profundo nojo e desprezo pela tela.
- 7:45Sala de algodão pelos pigmentos de tinta óleo e pelos pincéis
- 7:49que o artista escolheu usar. Não faz o menor sentido.
- 7:52Nenhum. Odiar a matéria é um insulto
- 7:55direto ao artista que a moldou com tanto carinho.
- 7:59E se a gente compreende que o universo físico não é um erro
- 8:02para ser descartado no lixo cósmico no final da história,
- 8:06mas sim uma obra de arte que sofreu danos e precisa ser
- 8:09restaurada? Bom, isso muda as regras do
- 8:12jogo. Muda o paradigma inteiro.
- 8:14A própria definição da palavra salvação precisa ser recalibrada
- 8:18na nossa mente. Sem dúvida, a salvação sobre
- 8:21essa ótica bíblica e redentiva. Nunca foi sobre Deus resgatar
- 8:25uma faísca espiritual de dentro de um invólucro biológico
- 8:29condenado. O projeto Divino sempre foi
- 8:32resgatar o ser humano em sua totalidade.
- 8:34E aqui a gente entra na exegese de um dos textos mais
- 8:38monumentais da teologia cristã que as nossas Fontes abordam,
- 8:42que é o capítulo 15 da primeira carta aos Corinthians.
- 8:45Ah, o grande capítulo da ressurreição.
- 8:47Ele mesmo. O apóstolo Paulo estava
- 8:49debatendo justamente com pessoas lá em Corinto que estavam
- 8:53influenciadas por essa ideia grega de que o corpo não
- 8:55importava, e ele crava a doutrina da ressurreição.
- 8:59Ele explica que num evento futuro instantâneo, num abrir e
- 9:03fechar de olhos ao soar da última trombeta.
- 9:06Os mortos não vão ser ejetados como fantasmas para o cosmos.
- 9:11Exatamente, eles vão ressuscitar.
- 9:13O texto detalha uma transformação onde aquilo que é
- 9:16corruptível, ou seja, que está sujeito a doenças,
- 9:19envelhecimento e morte, se revestirá de incorruptibilidade.
- 9:23Sabe, eu confesso que por muito tempo eu mesma repeti aquela
- 9:27frase clássica, tipo, Jesus morreu para salvar a minha alma.
- 9:31É o jargão mais comum as igrejas, né?
- 9:33Pois é, e claro, a gente sabe que a verdade nisso, em termos
- 9:38de um resgate espiritual imediato.
- 9:41Mas diante das análises, por exemplo, do pessoal do Jesus
- 9:44cope e dessas cartas paulinas, essa frase se mostra meio
- 9:48teologicamente míope. Fica incompleta, sim.
- 9:52Porque ele não morreu apenas para salvar Almas, ele morreu
- 9:55para redimir. O ser humano completo.
- 9:58É espírito, alma e corpo. O projeto de Deus para
- 10:02eternidade não é apertar o botão de deletar na humanidade física
- 10:06e criar uma raça de Anjos ou seres de luz a partir do zero.
- 10:10É glorificar o design original e a razão pela qual Deus não nos
- 10:15descarta para criar algo novo do zero é porque ele não abre mão
- 10:18daquilo que ele chamou de muito bom lá no princípio, em Gênesis.
- 10:22Exato. A morte e o pecado não terão a
- 10:25última palavra sobre a criação. Porque, olha, se a morte pudesse
- 10:30destruir permanentemente o corpo físico e deixar apenas o
- 10:34espírito vivo, então a morte teria vencido uma parte da
- 10:37guerra. Né?
- 10:38Nossa, é verdade. Ela é.
- 10:40Teria aniquilado a biologia de Deus.
- 10:42E Deus não perde guerras, então a promessa da ressurreição
- 10:46garante que a Vitória sobre a morte é total.
- 10:49Estendendo se até a última célula da nossa biologia.
- 10:53E para tentar visualizar essa transformação do corruptível
- 10:57para incorruptível, eu gosto de usar a imagem da restauração de
- 11:02um carro. Um carro clássico?
- 11:04Isso um modelo raro, inestimável, mas que foi
- 11:08abandonado no tempo e enferrujou todo.
- 11:11Imagina que um mestre mecânico que por acaso é o engenheiro
- 11:15original daquele carro, acha o. De jeito nenhum.
- 11:22Ele não vai amassar tudo e entregar pro dono um holograma,
- 11:25um desenho bonitinho do carro original, porque isso não seria
- 11:28restauração, seria substituição. Verdade.
- 11:31O que O Mestre faz é trabalhar na matéria.
- 11:34Ele Lixa cada milímetro daquela ferrugem.
- 11:37Aqui, na nossa analogia, representa o pecado, a
- 11:40degradação celular, a nossa corrupção física.
- 11:44E aí ele restaura a lataria, o seu brilho perfeito e instala um
- 11:48motor indestrutível. Um.
- 11:50Motor de potência infinita, representando a Glória.
- 11:53Divina, exato. O carro continua sendo o mesmo
- 11:56carro, sabe? As linhas são as mesmas, o
- 11:58chassi e é o mesmo. Mas agora ele opera numa
- 12:01capacidade que transcende qualquer limite que ele tinha
- 12:04antes. E a precisão fantástica dessa
- 12:07imagem que você trouxe reside justamente na continuidade da
- 12:11identidade, o corpo que cai na Terra, que é sepultado, é o
- 12:16mesmo corpo que se levanta, porém transformado.
- 12:19E a gente não precisa ficar só se baseando em analogias de
- 12:22carros ou especulações teóricas para entender como seria andar
- 12:26por aí com esse motor indestrutível.
- 12:28Não mesmo. A história com h maiúsculo já
- 12:31nos forneceu o protótipo definitivo.
- 12:33A Páscoa? Exato.
- 12:36A ressurreição corporal de Jesus Cristo não é só um evento
- 12:40isolado para demonstrar que ele era poderoso.
- 12:43É o penhor, é a garantia. E é o molde exato do que vai
- 12:46acontecer com a humanidade redimida.
- 12:48E esse é o ponto onde a história se torna tipo incrivelmente
- 12:52gráfica e fascinante, porque se a gente olhar para as evidências
- 12:57nos relatos dos evangelhos, como em Lucas 24, que tá nas nossas
- 13:02Fontes de hoje. Tem muitos detalhes ali.
- 13:04Os autores fazem questão de registrar minúcias que quebram
- 13:08completamente qualquer argumento gnóstico.
- 13:11Porque quando Jesus ressuscita e aparece para os discípulos numa
- 13:15sala fechada, qual é a primeira reação deles?
- 13:18Terror bateu. Desespero.
- 13:21Eles achavam que estavam vendo um fantasma.
- 13:24E qual? É a resposta imediata de Jesus.
- 13:27Ele não senta e oferece um discurso filosófico sobre a
- 13:30imortalidade da alma grega. Ele oferece evidências
- 13:34empíricas, físicas. Palpáveis, né?
- 13:37Isso ele diz algo como um toquem em mim.
- 13:41Um espírito não tem carne e ossos como vocês estão vendo que
- 13:45eu tenho. Ele convida o pessoal a sentir a
- 13:48densidade da matéria dele e ele até manteve as cicatrizes da
- 13:53crucificação. O que prova a continuidade
- 13:55histórica daquele corpo, chassi da sua analogia, continuava lá.
- 13:59E o detalhe mais intrigante pra mim, ele pede comida e ele come
- 14:04um pedaço de peixe assado e favo de mel na frente de todo mundo.
- 14:08É e fantasmas? Até onde a gente sabe, não
- 14:12precisam mastigar peixe nem possuem sistema digestivo.
- 14:15Nem sujam a louça, né? Pois é, e o fato de ele ter
- 14:19comido o peixe ali não foi para associar uma fome biológica
- 14:23desesperada resultante de 3 dias no túmulo.
- 14:25Aquilo foi uma demonstração teológica altamente intencional.
- 14:29O Jesus ressurreto estava provando que o seu sistema
- 14:33biológico glorificado ainda possuía capacidades metabólicas
- 14:38reais. Ainda que ele não fosse mais
- 14:41escravo da necessidade de comer para sobreviver, ele podia comer
- 14:44para desfrutar. Ele estava estabelecendo de
- 14:47forma inegável que o novo corpo é material, porém a genialidade
- 14:53da exegese nos mostra que essa fisicalidade palpável operava no
- 14:58nível superior de leis da física.
- 15:00Olha, é aí que a minha mente dá um nó, é Sério?
- 15:04Como assim? Porque?
- 15:05Ao mesmo tempo em que ele tem um corpo denso o suficiente para
- 15:09mastigar e digerir peixe assado, matéria orgânica pura, ele
- 15:15também aparece subitamente no meio de uma sala que estava com
- 15:19as portas e janelas totalmente trancadas e mais tarde, ele
- 15:23acende fisicamente aos céus, desafiando a gravidade.
- 15:27É o famoso paradoxo. Sim, como a teologia concilia
- 15:32essa densidade física pesada? Com o que parece ser uma
- 15:36capacidade fantasmagórica de atravessar paredes.
- 15:41A resposta para isso está no conceito de corpo glorificado e
- 15:45presta atenção nisso, glorificado não significa um
- 15:48corpo menos físico, tá? Significa um corpo perfeitamente
- 15:52subjugado e animado pelo espírito.
- 15:55Tá, me explica melhor isso? O nosso corpo atual é governado
- 15:59e limitado pelas leis da física corrompida, certo?
- 16:02A gravidade, o cansaço, a inércia.
- 16:05Mas o corpo glorificado domina a física.
- 16:09Ele não se torna menos material, ele se torna mais real do que o
- 16:12nosso ambiente atual. A Glória divina, operando na
- 16:15matéria, permite que aquele corpo transite entre a dimensão
- 16:18física e a dimensão espiritual, com total soberania.
- 16:21Sem que uma dimensão anule a outra.
- 16:23Exatamente, é intersecção perfeita entre o céu e a Terra
- 16:27manifestada na biologia de um único homem.
- 16:29Ele é literalmente o primeiro fruto da nova criação.
- 16:32Caramba. E pensar no impacto emocional e
- 16:35psicológico que isso teve nos primeiros cristãos.
- 16:38Hum. Deve ter sido uma coisa
- 16:40avassaladora. E é fácil entender o porquê.
- 16:43Porque se a gente pensar bem, o maior terror da experiência
- 16:46humana, o nosso inimigo invicto que nos assombra desde sempre, é
- 16:51a morte física. É a decomposição do corpo.
- 16:54É. E se a morte física foi
- 16:56derrotada de forma tão empírica, tão carnal e visível num domingo
- 17:01de manhã, lá em Jerusalém, o terror perde o seu controle.
- 17:05O aguilhão da morte quebra. A Vitória de Cristo invalida
- 17:09totalmente essa ideia de uma eternidade desencarnada.
- 17:13Ela não nos promete que escaparemos do corpo pra sermos
- 17:16felizes. Ela garante que o nosso próprio
- 17:19corpo vai ser libertado da sepultura.
- 17:21A ressurreição não é a fuga da matéria, é o resgate dela.
- 17:25E olha, essa compreensão muda radicalmente a orientação da
- 17:28nossa Esperança, mas, acompanhando o rigor lógico
- 17:31dessa doutrina até o fim, a gente esbarra num desdobramento
- 17:35inevitável. O dilema do espaço.
- 17:37Esse mesmo se o destino final do ser humano é possuir um corpo
- 17:41físico tangível de carne e osso. Que interage com o ambiente e
- 17:46come peixe assado. Esse corpo necessita
- 17:49obrigatoriamente de um habitat que corresponda a essa natureza.
- 17:53É um problema logístico muito claro, porque um corpo físico
- 17:57denso não pode passar a eternidade flutuando no vazio do
- 18:01espaço ou sentado numa nuvem abstrata tocando harpa.
- 18:05Não dá, é contra a física. A física básica nos diz que a
- 18:08matéria requer um ambiente material para existir e operar.
- 18:12É preciso ter chão firme para pisar, ar para respirar, espaço
- 18:17tridimensional onde Deus vai colocar todas essas pessoas
- 18:20ressuscitadas com corpos físicos.
- 18:22É justamente essa necessidade logística e teológica que nos
- 18:27leva ao grandioso clímax da fé cristã, que, infelizmente, é
- 18:30muito negligenciado na teologia popular, a.
- 18:33Redenção do corpo humano exige a Redenção da própria Terra.
- 18:37Uhum o planeta inteiro. Quando a gente analisa os textos
- 18:41proféticos de Isaías, as visões de Ezequiel, especialmente o
- 18:45desfecho lá nos capítulos 21 e 22 do livro de apocalipse, o fim
- 18:50da história não é o que a maioria espera.
- 18:52Qual é o clima que se verdadeiro então?
- 18:54O ápice do Reino de Deus não é sobre a humanidade abandonando
- 18:57este planeta, fugindo para uma dimensão espiritual lá longe,
- 19:01enquanto a Terra explode e é descartada, é exatamente o
- 19:05movimento contrário. É o céu descendo para a Terra.
- 19:09A nova Jerusalém, descendo o texto de apocalipse, diz
- 19:12textualmente que o tabernáculo de Deus está com os homens, é
- 19:17Deus transferindo a sua morada para habitar no meio da
- 19:20humanidade redimida. Num planeta físico purificado.
- 19:24É uma reviravolta completa na expectativa de quem acha que vai
- 19:27morar nas nuvens. E os contornos dessa nova Terra?
- 19:30Hum. Eles são descritos com detalhes
- 19:32muito ricos no nosso material base.
- 19:35Os estudiosos apontam que a visão final do apocalipse.
- 19:38É como uma fusão maravilhosa entre a perfeição do Jardim do
- 19:41Éden e a Glória arquitetônica e cultural do reinado de Davi.
- 19:45Nossa mistura as 2 coisas, sim. Por um lado, a gente tem a
- 19:49restauração edênica, a natureza redimida do caos, a corrupção
- 19:54ambiental acaba. Isaías fala de uma paz tão
- 19:57profunda na criação. Que animais selvagens, tipo o
- 20:01lobo e o cordeiro, vão pastar juntos em paz?
- 20:04Mas, ao mesmo tempo, não é uma volta no tempo onde a gente
- 20:08volta a ser apenas jardineiros nus numa floresta primitiva na.
- 20:12Não, não há um avanço tremendo porque o material profético não
- 20:16descreve um acampamento primitivo, ele descreve uma
- 20:19cidade. A nova Jerusalém tem muros, tem
- 20:22ruas, portões, tem arquitetura de ponta.
- 20:25O que implica, de forma muito direta, que haverá uma
- 20:27continuidade do nosso cotidiano lá, só que otimizado, sem os
- 20:32efeitos devastadores do pecado. Exato.
- 20:34A bíblia aponta para a existência de cultura, de
- 20:37agricultura para produzir aqueles frutos das árvores, de
- 20:40engenharia, de artes, de relacionamentos sociais.
- 20:43É a convergência definitiva entre o natural e o
- 20:47Sobrenatural. Mostrando.
- 20:49Que o trabalho, a criatividade e a cultura humana não são males
- 20:55necessários dessa nossa vida passageira.
- 20:58São elementos intrínsecos ao nosso propósito e eles vão
- 21:02continuar na eternidade, purificados.
- 21:05A matéria do nosso mundo não vai ser aniquilada para sempre, ela
- 21:09vai ser submetida a um fogo purificador que vai remover toda
- 21:13a maldade. Ferrugem, transformando a
- 21:15própria substância do mundo pela Glória de Deus.
- 21:18Sabe, há uma ironia maravilhosa e poética na estrutura da bíblia
- 21:22nisso tudo, o último livro, o apocalipse, que assusta tanta
- 21:26gente e que muitos leem só esperando catástrofes, zumbis e
- 21:31o fim do mundo. É a visão de Hollywood do
- 21:34apocalipse. Pois é, mas na realidade, ele é
- 21:38um retorno massivo, glorioso e ampliado ao primeiro livro,
- 21:42Gênesis. O círculo se fecha de maneira
- 21:44brilhante. A matéria não é destruída, ela é
- 21:47transformada. A árvore da vida que a gente
- 21:50perdeu lá no Éden reaparece florescendo no centro da cidade,
- 21:55na Terra redimida. É o propósito original levado à
- 21:58sua consumação máxima. E essa simetria destrói de vez
- 22:03aquele dualismo que a gente discutiu no início, o
- 22:06distanciamento entre a dimensão do céu como morada de Deus e a
- 22:10dimensão da Terra como morada humana.
- 22:13É simplesmente abolido. Vira uma coisa só.
- 22:16Tudo se torna um único ambiente de vida plena, no entanto, o
- 22:20estudo meticuloso disso tudo não serve apenas para preencher
- 22:24quadros proféticos ou como um exercício de adivinhação.
- 22:27Não é um jogo de conhecimentos gerais da bíblia.
- 22:31De jeito nenhum compreender essa realidade material Futura tem um
- 22:35impacto existencial muito profundo.
- 22:38Em como a gente vive nosso tempo presente?
- 22:40E aqui entra relevância prática de tudo isso pra quem tá
- 22:44escutando a gente agora, vivendo uma terça ou quinta-feira comum
- 22:47de trabalho. Com certeza.
- 22:48Ponta que o nosso destino eterno envolve corpos físicos e uma
- 22:53Terra restaurada governando e interagindo.
- 22:57Isso confere uma dignidade colossal, a materialidade da
- 23:01nossa vida de hoje. Muda a forma como a gente
- 23:03enxerga, absolutamente tudo pensa bem.
- 23:07Se a matéria importa tanto para Deus, a ponto de lhe garantir a
- 23:10ressurreição do nosso corpo e a restauração deste planeta, então
- 23:14o que fazemos com a matéria hoje tem um peso eterno.
- 23:19O nosso corpo não é uma casca descartável para a gente abusar
- 23:22ou desprezar. Ele é a semente do que será
- 23:25ressuscitado. O meio ambiente ao nosso redor
- 23:29não é um palco provisório para a gente destruir sem cerimônia.
- 23:32É o rascunho da nova criação. Nossa, e isso redefine até o
- 23:37valor do nosso trabalho diário. As nossas profissões, a arte que
- 23:43a gente produz, a comida que a gente cozinha, os
- 23:45relacionamentos que cultivamos, a tecnologia que desenvolvemos.
- 23:49Nada disso é perda de tempo no mundo que vai simplesmente
- 23:52evaporar. Exato, nós somos convidados a
- 23:56ser agentes antecipatórios dessa nova criação.
- 24:00Se a matéria, o trabalho farão parte da eternidade, eles devem
- 24:04importar para nós. Agora, o físico é o palco da
- 24:07Redenção. E essa é a verdadeira ênfase
- 24:10pastoral que o estudo do fim dos tempos deve produzir na igreja.
- 24:14O estudo do futuro não é uma curiosidade vazia.
- 24:17Uma trive escatológica é a revelação do coração mal
- 24:20apaixonado de Cristo pelo seu povo e pela sua criação.
- 24:24E isso deve nos fazer crescer em amor, humildade e santidade.
- 24:28Deixando um desejo ardente pela vinda dele e pela restauração de
- 24:32todas as coisas. Exatamente.
- 24:34A escatologia não existe para saciar a nossa curiosidade
- 24:38especulativa, mas para purificar a nossa Esperança e nos manter
- 24:43vigilantes. Independentemente das
- 24:46divergências na cronologia dos últimos dias, a certeza imutável
- 24:50da igreja é a promessa do nosso redentor.
- 24:53Certamente venho em breve. Amém?
- 24:57Ora vem senhor Jesus.