Latest / Rádio Livre com Nonato Lima / Programa Rádio Livre - 27 de novembro de 2024
Transcript
- 0:00A Universitária FM apresenta Rádio Livre, conversando nas
- 0:05ondas do rádio. Sete horas e vinte e oito
- 0:11minutos. A gente tá no ar pra se informar
- 0:23Saber o que é que há pra se ajudar A gente tá no ar pra se
- 0:27comunicar A gente tá no ar pra se divertir Pra falar e ouvir,
- 0:33pra dançar e rir Pra ficar feliz, pra ser livre Rádio Livre
- 0:35Rádio Livre Legenda Adriana Zanotto
- 1:10Os destaques do Rádio Livre desta quarta-feira, vinte e sete
- 1:14de novembro de dois mil e vinte e quatro.
- 1:18Investigações da PolÃcia Federal mostram que golpistas receberam
- 1:22informações da delação premiada e sigilosa de Mauro Cid, que o
- 1:27general Heleno elaborava diretrizes estratégicas para o
- 1:30golpe e até um plano de fuga do ex-presidente Messias para
- 1:34evitar a prisão. Temos entrevista hoje no
- 1:38programa com a professora Marley de Nascimento, falando sobre as
- 1:43lutas do povo negro e as conquistas históricas.
- 1:45E temos também a entrevista, como ocorre toda quarta-feira,
- 1:50com o sociólogo Pedro Vitor Mendes, falando sobre a luta
- 1:54antirracista. Rádio Livre Rádio Livre Rádio
- 2:04Livre, apresentação Nonato Lima. Bom dia, estamos começando ao
- 2:11vivo na Universidade FM mais um Rádio Livre.
- 2:14Esse programa também, ele é reproduzido depois no podcast
- 2:18Rádio Livre com Nonato Lima. A gente agradece a sua audiência
- 2:21agora, ao vivo e também no podcast Rádio Livre com Nonato
- 2:26Lima. Relatório da PolÃcia Federal
- 2:32sobre tentativa de golpe mostra que os investigados obtiveram
- 2:35informações sobre o acordo de delação premiada de Mauro Cid, a
- 2:40delação que estava em sigilo. Mauro Cid é o ex-ajudante de
- 2:44ordens de Jair Bolsonaro. Para a PolÃcia Federal, as
- 2:48provas reforçam que os indiciados tentaram, de
- 2:52diferentes formas, obstruir as investigações.
- 2:56Embora o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de
- 2:59Moraes, tenha retirado o sigilo do relatório da PolÃcia Federal
- 3:03ontem, ele manteve o sigilo no caso da delação premiada de
- 3:08Mauro Cid. Uma decisão do ministro no ano
- 3:11passado também proibia Mauro Cid de fazer contato com o
- 3:15ex-presidente, com a ex-primeira-dama, Michele
- 3:19Bolsonaro, e com investigados nos inquéritos sobre o golpe
- 3:23criminal. que acabou indo até o oito de janeiro de dois mil e
- 3:27vinte e três, o processo de golpe, né?
- 3:29As mensagens obtidas pela PolÃcia Federal mostram que
- 3:32houve preocupação com o teor da delação premiada e com uma
- 3:38possÃvel menção de Mauro Cid aos generais Braga Neto e Augusto
- 3:43Heleno. As mensagens foram identificadas
- 3:46em documentos apreendidos na sede do Partido Liberal, na mesa
- 3:51do Coronel Peregrino, Flávio Botelho Peregrino, assessor de
- 3:55Braga Neto. O conteúdo indica se tratar de
- 3:59respostas dadas por Mauro Cid a questionamentos feitos por
- 4:03alguém, possivelmente do grupo investigado, que aparenta
- 4:08preocupação sobre temas identificados pela PolÃcia
- 4:12Federal relacionados à tentativa de golpe de Estado, diz um
- 4:16trecho do relatório da PolÃcia Federal.
- 4:18A primeira pergunta feita na troca de mensagens é...
- 4:21Teor das reuniões, o que foi delatado.
- 4:25Resposta é dada em primeira pessoa, mas coincide por eu.
- 4:30Pois bem, a resposta em primeira pessoa diz que a informação pode
- 4:34ter sido repassada ou por Mauro CÃrio ou por alguém indicado por
- 4:38ele. Segundo a PF, a resposta é nada.
- 4:41Eu não entrava nas reuniões. Eu quem?
- 4:44Só colocava o pessoal para dentro.
- 4:46à a resposta que está lá no documento apreendido.
- 4:50A segunda pergunta é sobre a minuta do artigo um, quatro,
- 4:53dois. Se existia algum documento
- 4:56fÃsico. A resposta mostra uma
- 4:58preocupação com o alcance das investigações da PolÃcia
- 5:01Federal. A pessoa que responde lá, em
- 5:03primeira pessoa, diz, eles sabem de coisas que não estavam em
- 5:07lugar nenhum, e-mail, celular, etc., E a terceira pergunta se
- 5:12refere especificamente a Felipe Martins, ex-assessor
- 5:17internacional do ex-presidente Messias.
- 5:20Resposta, sabem dele por outros meios.
- 5:25Ou seja, as investigações estavam avançando e eles estavam
- 5:27apreensivos, segundo esses dados do relatório.
- 5:32Um documento manuscrito apreendido pela PolÃcia Federal
- 5:36também fala o seguinte, Lula não sobe a rampa.
- 5:41O documento foi apreendido na sede do Partido Liberal e propõe
- 5:45ações para interromper o processo de transição de
- 5:48governo, mobilização de juristas e formadores de opinião pública.
- 5:54O relatório encerra o texto dizendo Lula não sobe a rampa,
- 5:58segundo a PolÃcia Federal, em uma clara alusão ao impedimento
- 6:02de que o vencedor das eleições assumisse a presidência da
- 6:05República. A informação está no relatório
- 6:08da PolÃcia Federal, que indicia trinta e sete acusados.
- 6:11O sigilo foi derrubado ontem pelo ministro Alexandre de
- 6:15Moraes, relator do inquérito do golpe.
- 6:18O material apreendido na mesa do assessor do general Walter Braga
- 6:24Neto, coronel peregrino, faz um esboço de ações planejadas para
- 6:29a denominada Operação um quatro dois.
- 6:32O nome dado ao documento faz alusão ao artigo um, quatro,
- 6:35dois da Constituição que trata das Forças Armadas para
- 6:39regulamentar e não para dar golpe.
- 6:42Segundo a PolÃcia Federal, essa é a operação. era uma alusão ao
- 6:50processo todinho de golpe que estava em curso.
- 6:57Segundo a PolÃcia Federal, a ideia era não permitir a posse
- 7:01do eleito e manter o então presidente derrotado, aà então
- 7:09como ditador pós-golpe. Segundo a PolÃcia Federal,
- 7:13outros tópicos do documento trazem siglas e jarragões
- 7:16próprios do militarismo, como CGPOL, Centro de Gravidade
- 7:22PolÃtica, com a descrição de medidas autoritárias que
- 7:26demonstram a intenção dos investigados em executar um
- 7:30golpe de Estado para manter o então presidente Messias no
- 7:33poder, diz o relatório da PolÃcia Federal.
- 7:38Olha o que está no texto lá. Temos como anulação das
- 7:42eleições, prorrogação dos mandatos, substituição de todo o
- 7:47TSE, Tribunal Superior Eleitoral, preparação de novas
- 7:51eleições, foram encontrados no documento apreendido na sede do
- 7:55Partido Liberal, presidido por Valdemar Costa Neto e é o
- 7:58partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.
- 8:04Já o general Heleno tinha umas anotações lá, segundo a PolÃcia
- 8:07Federal. Ele anotava... diretrizes
- 8:14estratégicas de como trabalhar contra as urnas eletrônicas,
- 8:19desacreditar o processo eleitoral e, claro, subverter o
- 8:25processo eleitoral e atentar contra o regime democrático, diz
- 8:30o relatório da PolÃcia Federal. Outra alegação apontada pela
- 8:37PolÃcia Federal é que esse general, Heleno, ocuparia a
- 8:40chefia de gabinete institucional de gestão de crise, formado por
- 8:45militares, para iniciar os trabalhos em dois mil e
- 8:48dezesseis, após o golpe com prisão ou assassinato de Lula e
- 8:54Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes e a consumação do
- 8:58golpe de Estado, porque o projeto era dia quinze, né?
- 9:03Então aconteceu o seguinte, houve a antecipação da
- 9:07diplomação, que a gente sabe, né?
- 9:09Provavelmente o Serviço de Inteligência informou ao TSE do
- 9:13que estava acontecendo e a diplomação foi antecipada para o
- 9:18dia doze de dezembro, né? E o que aconteceu?
- 9:22Ainda assim, os golpistas foram tentar fazer sabe o quê?
- 9:26Invadir a sede da PolÃcia Federal em BrasÃlia.
- 9:29Fizeram um quebra-quebra em BrasÃlia.
- 9:33Ficou ônibus pendurado num viaduto lá, tocando fogo, etc,
- 9:37etc. O negócio era muito grave.
- 9:40Se você desconfia de tudo isso, ah, mas o locutor está
- 9:43inventando, o relatório da PolÃcia Federal foi publicado.
- 9:47Você acessa, depois se quiser eu posso passar o endereço, tudo.
- 9:50Aà você lê, são oitocentas e poucas páginas, é pouco.
- 9:52Em dois ou três dias você consegue ler tudinho.
- 9:54Está lá tudo, eu só peguei aqui partes.
- 9:59E é muito bom que tenha sido publicado, porque a boataria, as
- 10:04fake news, as marmotas contra as informações, a desinformação...
- 10:09Se apaga logo, vem aà um relatório à investigação
- 10:14técnica, com documento, com prova, com gravação, com
- 10:17filmagem, com depoimento, com tudo Sete e trinta e oito
- 10:50Vamos então agora à entrevista que nós anunciamos.
- 10:54Essa entrevista ia ser veiculada na quarta-feira passada, mas aÃ
- 10:57foi feriado aqui, não foi possÃvel a veiculação, e nós
- 11:01trouxemos para a quarta-feira hoje, que é um dia em que a
- 11:04gente trata da questão da luta antirracista.
- 11:08A entrevista é com a professora Marley de Nascimento, falando
- 11:11sobre as lutas do povo negro e as conquistas históricas.
- 11:22Rádio Livre Entrevista E começamos o programa de hoje
- 11:26conversando com a professora Marley de Nascimento.
- 11:29Mas antes, fazemos questão de trazer a apresentação dela por
- 11:33ela mesma. Então, sou Marley de Nascimento,
- 11:37sou mulher preta, quilombola, da comunidade quilombola de Alto
- 11:41Alegre, que fica situada no municÃpio de Horizonte, a
- 11:45aproximadamente quarenta quilômetros de Fortaleza.
- 11:49Hoje eu sou professora da rede pública de Fortaleza, mas eu
- 11:53também sou mãe, eu sou filha de raizeira, filha de neta de
- 11:58parteira, de benzedeira, sou filha de agricultores, sou mãe
- 12:05dos afro-indÃgenas Arthur, Juan e Raul.
- 12:09E hoje eu exerço um papel de liderança também na minha
- 12:13comunidade, onde a gente vem pautando e lutando por polÃticas
- 12:19de ações afirmativas, mas também pela polÃtica do bem viver.
- 12:24Hoje eu faço parte da CERQUICE, que é a coordenação das
- 12:32comunidades quilombolas rurais do estado do Ceará.
- 12:36Hoje eu faço parte também de uma comissão técnica, que é a
- 12:41CADARA, representando a CONAC, que é a Coordenadoria Nacional
- 12:47dos Quilombos, das Comunidades Quilombolas Rurais do Brasil.
- 12:52E a CADARA hoje é uma comissão técnica que atua diretamente na
- 13:02educação étnico-racial, pensando nessas polÃticas da educação
- 13:07étnico-racial. E também hoje nós somos o
- 13:13primeiro nome que é destinado para representar os quilombos do
- 13:22Brasil nessa comissão. Anteriormente nunca havia
- 13:27existido nenhum quilombola, nenhuma quilombola
- 13:30representando. o movimento quilombola dentro da cadara e
- 13:35hoje nós estamos aà nessa empreitada que é um papel muito
- 13:39importante discutir a educação escolar quilombola dentro desses
- 13:43espaços. Então hoje nós estamos aÃ
- 13:47tentando pautar a educação contextualizada e diferenciada
- 13:52nesses espaços. à Marleide, o que significa para
- 13:56você o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o dia de
- 14:00novembro, que este ano, inclusive, passou a ser feriado
- 14:03nacional? Então, para mim, pensar esse dia
- 14:09nacional de zumbi e da consciência negra, que é o dia
- 14:13de novembro, é de extrema importância, sobretudo porque
- 14:17agora é feriado nacional e E isso faz com que as nossas lutas
- 14:24não sejam em vão. Faz com que a gente possa se ver
- 14:29dentro dessa data ainda mais, que é muito significativa.
- 14:34E não apenas lembrar de zumbi enquanto aquela figura que
- 14:38morreu nessa data. Mas lembrar que a partir da
- 14:42memória de Zumbi, do nosso ancestral, a gente consegue
- 14:47continuar, dar continuidade a essa luta dentro dos espaços que
- 14:52a gente ocupa. Sejam nos terreiros, sejam nos
- 14:55quilombos, sejam nas aldeias. E pensar que hoje nós somos mais
- 15:01de cinquenta por cento da população preta ou parda e que
- 15:06essa data, ela significa pra gente a simbologia do existir.
- 15:14Eu existo, eu estou aqui e eu preciso me ver.
- 15:18Então, essa data é uma data muito significativa, sobretudo
- 15:23para nós, povo negro, povo quilombola, porque é trazer Ã
- 15:28memória as lutas e a resistência do nosso ancestral.
- 15:35E também pensar nas lutas diárias que nós vivemos, porque
- 15:39embora a abolição da escravatura tenha acontecido, mas a gente
- 15:46sabe que essa falsa abolição ainda permeia as nossas vidas
- 15:51pretas, seja no nosso modo de viver, seja até mesmo na
- 15:57garantia dos nossos direitos. Então, quando essa data se torna
- 16:01um feriado nacional... à também mostrando que nós
- 16:07precisamos continuar. Nós precisamos continuar
- 16:10garantindo que o direito desse povo, ele não vai mais ser
- 16:15negado. Ã saber que...
- 16:18A partir dessas lutas, porque eu sou uma, mas eu não sou só, e o
- 16:24dia vinte de novembro me mostra isso, que eu, mulher negra,
- 16:28posso estar em qualquer lugar, eu vou continuar sendo essa
- 16:31mulher negra, e que vou continuar sendo apontada
- 16:34enquanto essa mulher negra. Então, pensar no vinte de
- 16:37novembro enquanto um feriado nacional, eu me olhar e dizer...
- 16:43A luta dos meus ancestrais valeu a pena e eu preciso continuar
- 16:48essa luta, porque assim como eu existo hoje, porque eles lutaram
- 16:54para que eu existisse, eu preciso continuar para garantir
- 16:57que os meus, que as minhas netas também possam existir e possam
- 17:03resistir dentro desse significado, dentro dessa data,
- 17:07dentro dessa resistência que para a gente tem...
- 17:11Não apenas uma história de um dia, mas a história de uma
- 17:15eternidade, de uma ancestralidade que nos rege.
- 17:20O reconhecimento das comunidades quilombolas tem garantido
- 17:23respeito e ampliação de direitos, a começar pela moradia
- 17:26e condições de vida? O reconhecimento das comunidades
- 17:30quilombolas precisa avançar. Hoje, depois de muitos anos,
- 17:41mais de trezentos anos que nós estamos aqui, à que o censo do
- 17:47IBGE nos demarca enquanto sujeitos existentes, porque até
- 17:52então nós não estávamos dentro do censo.
- 17:54Somente em dois mil e vinte e dois é que sai o primeiro censo
- 17:57quilombola. Então, esse reconhecimento é de
- 18:02extrema importância e relevância. para ampliação dos
- 18:06nossos direitos, para garantia desses direitos.
- 18:10E quando a gente pensa nessas comunidades quilombolas, a todo
- 18:13instante nós somos invisibilizados.
- 18:16Aqui no estado do Ceará nós temos mais de cem comunidades
- 18:20quilombolas. Dentre delas, oitenta e sete
- 18:22delas são reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares.
- 18:27Muitas delas ainda estão esperando...
- 18:30O reconhecimento ainda, o certificado de reconhecimento.
- 18:36Dentre essas cem comunidades, nós só temos hoje, atualmente,
- 18:41duas que são tituladas, que receberam o tÃtulo da terra esse
- 18:45ano de dois mil e vinte e quatro.
- 18:47Então, quando a gente fala nesse reconhecimento, nós precisamos
- 18:51também trazer essa marca histórica de que não adianta só
- 18:57nos ver, não adianta apenas nos reconhecer enquanto existentes,
- 19:02mas o Estado precisa garantir, respeitar a nossa
- 19:08individualidade, respeitar a nossa especificidade, ampliar o
- 19:13nosso direito de ser, nosso direito de existir, e reconhecer
- 19:18as nossas especificidades, sobretudo quando a gente fala na
- 19:22moradia e na condição de vida desses sujeitos.
- 19:26Quando a gente pensa nessa condição de vida, nós temos as
- 19:31nossas especificidades, que talvez o que para as grandes
- 19:34cidades, para as grandes metrópoles pode ser...
- 19:39Então uma qualidade de vida para nós sujeitos especÃficos, para
- 19:44nós que somos de comunidades tradicionais, não represente o
- 19:49nosso bem viver. Então o nosso bem viver está
- 19:51ligado à terra, está ligado ao território.
- 19:55Está ligado a quem a minha avó é, a quem o meu tio é, o que o
- 19:58meu tio faz. Então, há uma coletividade.
- 20:03Quando eu penso nessa condição de vida, eu penso no bem viver
- 20:08no sentido de coletivo, no sentido de coletividade.
- 20:11Então, eu não posso dizer que o Estado está nos reconhecendo,
- 20:16está garantindo o nosso direito. Quando existem no meu Estado,
- 20:20por exemplo, quando existe em todo o Brasil...
- 20:26Todo dia assassinatos de lideranças quilombolas por briga
- 20:29por terra, sendo que a terra para nós não é um sÃmbolo apenas
- 20:34de garantia de existência, mas é também a simbologia...
- 20:41Do nosso ser, é do nosso sagrado, a terra para nós ela é
- 20:47sagrada, entende? Então, quando eu falo nessa
- 20:52ampliação de direitos, eu estou falando sobretudo dessa garantia
- 20:56mesmo de existir a partir do meu território.
- 21:01Eu não posso pensar na educação, na saúde, se eu não pensar
- 21:06sobretudo no território, porque é nesse território sagrado que
- 21:12eu consigo ver a saúde da minha população, a saúde dos
- 21:17quilombolas. à nesse território sagrado que
- 21:20eu consigo ver a raizeira trabalhando, que eu consigo ver
- 21:24o agricultor plantando e eu comendo sem o agrotóxico.
- 21:28Meus filhos comendo e sabendo de onde vem o alimento que ele está
- 21:33comendo. Ã a partir disso que eu ensino
- 21:37para as minhas crianças sobre... O território sagrado que eles
- 21:44vivem é fazer com que as nossas crianças entendam que lá no ABC
- 21:49que elas vivem diariamente dentro da escola convencional,
- 21:53onde eles trazem o H de hipopótamo, dentro do meu
- 21:57território esse H representa a horta que está no quintal da
- 22:01casa dela. Entende?
- 22:03Então quando eu falo... Desculpa a emoção.
- 22:08Mas quando eu falo do meu território...
- 22:15Eu falo também da minha ancestralidade.
- 22:19Eu falo também das pessoas que tombaram na luta para garantir
- 22:24que eu estivesse aqui hoje. Que tombaram na luta para
- 22:30garantir que aquele pedaço de terra pudesse hoje ser chamado
- 22:34de quilombo. O que você acha que precisa
- 22:36melhorar nas condições e nas ações governamentais para que a
- 22:41luta do povo quilombola possa avançar em temas como o combate
- 22:45ao racismo, por exemplo. Eu acho que a gente tem
- 22:48conseguido caminhar, pensando em governo, em relação a... a
- 22:54polÃtica de ação afirmativa, a gente tem conseguido caminhar
- 22:58bastante, até porque antes a gente não conseguia ver esses
- 23:02sujeitos em espaço de poder e hoje a gente já consegue ver,
- 23:05mas eu acho que a gente precisa pensar na reconstrução da
- 23:09reparação histórica. à pensar que esse sujeito vai
- 23:13entrar na universidade, mas eu preciso lembrar como é que esse
- 23:17sujeito vai permanecer nessa universidade. é pensar que o
- 23:22concurso público precisa ter uma especificidade quilombola,
- 23:25indÃgena, negra, porque a gente precisa colocar mais sujeitos
- 23:31nesses espaços, porque é uma lacuna muito grande.
- 23:35Quando a gente pensa em direito paritário, igualitário, a gente
- 23:39vê uma lacuna gigante. Que até um dia desse a gente não
- 23:45tinha direito nem de estudar, entende?
- 23:48E nós precisamos pensar sobre isso.
- 23:51E quem constrói essa polÃtica tem que ser nós, é nós por nós.
- 23:58Então, a polÃtica precisa ser construÃda através das nossas
- 24:02mãos, porque nós sabemos o que a gente quer.
- 24:04A população preta sabe o que ela quer.
- 24:07Então, sobretudo, as ações governamentais precisam estar
- 24:12pautadas na entrada e permanência desses sujeitos,
- 24:17também no espaço de poder. E, como eu disse anteriormente,
- 24:21não dá para falar de direito sem não falar em território.
- 24:27Então, nós precisamos garantir que os territórios sejam
- 24:32titulados. Nós precisamos titularizar as
- 24:35nossas terras, porque se a gente não titulariza, qualquer pessoa
- 24:40pode chegar e dizer que é dono. do nosso território, que para a
- 24:44gente é um território sagrado. Então, uma das lutas, a luta
- 24:49maior do nosso povo é pela garantia do nosso território.
- 24:53Então, titulação já, não dá para esperar mais.
- 24:59Nós já esperamos muito. Como é que nós vamos viver...
- 25:06sem a titularização dos nossos territórios, sem perceber tudo o
- 25:13que vem acontecendo hoje no Brasil.
- 25:15Quando a gente olha para a mãe Bernadette, que teve sua vida
- 25:19ceifada por conta de terra, e a gente não precisa de muito, a
- 25:25gente só quer o que é nosso por direito.
- 25:28Então, o que precisa melhorar nas ações governamentais é,
- 25:34sobretudo, A luta mesmo, assim, é a garantia de existir.
- 25:42Nós só queremos existir. Eu até vou ser muito sincera com
- 25:46você, né? A gente tem cansado de falar de
- 25:51combate ao racismo quando as pessoas só nos veem em novembro.
- 25:57Eu estou cansada de ser chamada nas escolas para dar palestra,
- 26:03no mês de novembro, nas universidades, quando é em
- 26:08julho, no julho das pretas. Nós precisamos garantir que
- 26:15essas ações não sejam ações pontuais, mas ações
- 26:21desenvolvidas pela branquitude para compreender qual o mal que
- 26:26foi causado a partir deles para nós, enquanto população negra.
- 26:37Sete horas e cinquenta e três minutos.
- 26:39Eu vou fazer uma correção aqui. Eu li uma informação sobre o
- 26:42relatório da PolÃcia Federal e eu dei uma data errada, né?
- 26:46O projeto de golpe era previsto para o dia quinze de dezembro de
- 26:49dois mil e vinte e dois. E dia dezesseis era quando os
- 26:54golpistas iam tentar implementar a ditadura.
- 26:57Essa é a correção, eu falei uma outra data, mas era de
- 27:00dezesseis. E aà a diplomação dos eleitos
- 27:03ocorreu dia doze. Ainda assim, o que os golpistas
- 27:07fizeram? Tentaram invadir a sede da
- 27:09PolÃcia Federal e fizeram aquele quebra-quebra, o primeiro grande
- 27:12quebra-quebra dos golpistas em BrasÃlia, que foi exatamente dia
- 27:16doze de dezembro de dois mil e vinte e dois.
- 27:18O segundo foi a execução do golpe do oito de janeiro, que
- 27:21felizmente não conseguiu implementar o processo
- 27:25ditatorial. Agora vamos à entrevista com o
- 27:32sociólogo Pedro Vitor Mendes. Agora chegou a hora da nossa
- 27:40entrevista semanal com o sociólogo, com doutorado em
- 27:44sociologia, pesquisador, para falar sobre o tema racismo.
- 27:48à o radialista e sociólogo Pedro Vitor chegando aqui.
- 27:51Bom dia, Pedro. Bom dia, professor.
- 27:53Bom dia a todos os ouvintes. Ã sempre um prazer estar aqui
- 27:55conversando sobre um tema tão importante.
- 27:59Ã Pedro, este ano, o vinte de novembro, virou feriado
- 28:03nacional. Dia Nacional da Consciência
- 28:06Negra e dia de reverenciar a memória e a luta de zumbi como
- 28:11grande lÃder brasileiro do povo negro.
- 28:14Qual o significado dessa data? Ela pode contribuir para a luta
- 28:18antirracista? Com certeza, professor, com
- 28:21certeza, porque você encontra nas narrativas sobre a história
- 28:29negra brasileira muito uma visão que retrata o africano ou o seu
- 28:38descendente como uma vÃtima. Ã apenas como vÃtima e como se
- 28:45eles tivessem tolerado aquela situação, sabe?
- 28:49Como se não tivesse acontecido um levante, como se as pessoas
- 28:55não se indignassem, como se as pessoas, de alguma forma,
- 28:59aceitassem aquele cotidiano de torturas, de violações, de
- 29:05exploração desmedida, né? Então...
- 29:10Quando a gente celebra zumbi, a gente celebra um lado da
- 29:14história que, infelizmente, é pouquÃssimo contato.
- 29:18E não é pouquÃssimo contado por conta de que aconteceu pouco.
- 29:24Ah, porque Palmares foi um dos poucos.
- 29:26Não! Quilombo é o que existia nesse
- 29:30Brasil. O tempo todo as pessoas que
- 29:33estavam submetidas a uma situação de escravidão, as
- 29:37pessoas escravizadas, o tempo todo elas fugiam.
- 29:41Inclusive você tem até a constituição de uma raça de cão
- 29:45brasileira, por exemplo, que foi selecionada com a finalidade de
- 29:49farejar e de tentar impedir as pessoas escravizadas de fugirem,
- 29:53que é o fila brasileiro. Tanto era a preocupação dos
- 29:58proprietários de pessoas escravizadas de impedir que elas
- 30:01fugissem e de intimidar, né? Porque o fila brasileiro não tem
- 30:04um tamanho pequeno, né? Então, existia essa preocupação
- 30:07de intimidar. E essa intimidação, ela
- 30:10acontecia de diversas formas. Não só em forma de castigo, mas
- 30:13em forma de perversidade. Quando você tinha alguma pessoa
- 30:19escravizada que... que agride algum proprietário ou alguma
- 30:26pessoa que, dentro da convenção, não deveria ser agredida, essa
- 30:31pessoa era morta das maneiras mais perversas possÃveis.
- 30:34E é importante a gente destacar a liberdade dentro da história
- 30:40dos afro-brasileiros, a liberdade dentro da população
- 30:43negra brasileira, porque a população negra resistiu fugiu e
- 30:48não só constituiu vida, constituiu cidades.
- 30:54Nós celebramos Palmares não porque foi um raro caso de
- 30:59quilombo que existiu no Brasil, muito pelo contrário, era um
- 31:01fenômeno social a existência de quilombos.
- 31:03Existiam aos milhares aqui no Brasil.
- 31:06Mas Palmares era uma cidade tão grande, mas tão grande e
- 31:10irrelevante, que ela exercia impacto na economia das cidades
- 31:16que eram dominadas por europeus ou descendentes de europeus do
- 31:20entorno. Essas cidades, muitas vezes,
- 31:22dependiam do comércio com Palmares.
- 31:25Então, tudo isso foi muito importante.
- 31:28Destacar Zumbi é destacar, antes de mais nada, a história que,
- 31:33infelizmente, não é... tão conhecida, que a gente deveria
- 31:39conhecer, uma história tão conhecida por todos nós
- 31:42brasileiros sobre a resistência da população negra à escravidão.
- 31:47Agora, Pedro, de vez em quando alguém diz, mas para que falar
- 31:50da escravidão se ela acabou lá no século XIX?
- 31:54Por que falar de racismo se o Brasil é uma república
- 32:00democrática sem racismo? Por que falar do sofrimento do
- 32:04povo negro se não tem mais a senzala?
- 32:07O que você diria para essas pessoas?
- 32:10Eu diria que você é muito difÃcil, e tem cálculos nesse
- 32:18sentido, de você possibilitar uma democracia, ou seja, que as
- 32:24pessoas negras e brancas tenham acesso a bens materiais e
- 32:28imateriais de maneira igualitária.
- 32:33Se você... Pega uma pessoa, por exemplo,
- 32:38que gozava de liberdade, podia ser dona das próprias coisas que
- 32:43ela conquistava, e coloca de repente ao mesmo pé de igualdade
- 32:48as pessoas que acabaram de ser libertadas e são possuidoras
- 32:51apenas da própria roupa do corpo.
- 32:54Essa desigualdade foi sendo reproduzida nas gerações
- 32:59vindouras. E mesmo que a população negra
- 33:05brasileira acaba muitas vezes se encontrando com famÃlias brancas
- 33:13e gerando descendentes mestiços, os mestiços brancos têm mais
- 33:18facilidade que os mestiços negros.
- 33:20Ou seja, o estigma permanece e é reproduzido em nossa sociedade.
- 33:26Então, assim, o que... à importante a gente destacar
- 33:31sobre a lembrança da escravidão, é que os ecos dela ainda se
- 33:36fazem sentir na reprodução do racismo, na desumanização que
- 33:42existe nas mÃdias e nas redes sociais sobre as pessoas negras,
- 33:49o fato das pessoas se importarem muito mais... com pessoas da
- 33:54pele branca e de cabelos loiros, do que pessoas negras, pessoas
- 33:59amorenadas. Isso no nÃvel nacional e,
- 34:02infelizmente, a gente vê isso até no nÃvel internacional.
- 34:05Nós, brasileiros, imaginemos agora se quarenta e sete mil,
- 34:10não estou fazendo nem proporção em relação à população, se
- 34:14quarenta e sete mil estadunidenses morressem num
- 34:17atentado à bomba. Imagina a comoção que seria,
- 34:21todo mundo chorando, todo mundo se importando com a população
- 34:25dos Estados Unidos que morreu, etc.
- 34:28E aà você pega esse dado agora de quarenta e sete mil
- 34:31palestinos mortos pelo bombardeio de Israel, pelo
- 34:36bombardeio de Israel sobre a faixa de Gaza. as pessoas
- 34:40parecem que, infelizmente, fosse há um sentimento de quase
- 34:44naturalização, de como se fossem números e não pessoas ali.
- 34:50Isso é um reflexo. A gente sente isso na maneira
- 34:56como a gente lida com o valor da vida das pessoas.
- 34:58Então é muito importante sim entender que depois da
- 35:03libertação dos escravizados não foi feita nenhuma concessão, não
- 35:07foi feita nenhuma compensação para aquelas pessoas que foram
- 35:11sistematicamente roubadas, torturadas, que foram violadas,
- 35:17não houve nenhuma compensação. Muito pelo contrário, o Estado
- 35:21brasileiro pagou muitos dos proprietários de escravizados
- 35:24para compensar a perda que eles tiveram em relação aos
- 35:27escravizados. Pedro, agora, essa situação toda
- 35:32que você descreveu, ela poderia significar necessidade imediata,
- 35:38urgente, de polÃticas públicas efetivas, de enfrentamento em
- 35:43todos os nÃveis, porque nós temos, de fato, algumas
- 35:46mudanças, por exemplo, no acesso ao emprego, com cotas, cotas
- 35:50para acesso às universidades e algumas outras iniciativas
- 35:54importantes, relevantes, conquistadas pela luta do povo
- 35:57negro. Mas isso poderia mudar?
- 36:00Depois de tantos séculos de injustiça, poderia haver uma
- 36:04mudança de rumo nessas polÃticas?
- 36:07Com certeza que nós devemos sempre pensar como podemos
- 36:13adotar polÃticas públicas que possam ser cada vez mais
- 36:17inclusivas racialmente. Com certeza.
- 36:20E isso até em nÃvel de mercado. Por exemplo, refletir porque
- 36:25algumas empresas só têm pessoas brancas.
- 36:29Por que algumas empresas insistem em ser racialmente
- 36:33excludentes? à uma coincidência que metade da
- 36:36população brasileira seja negra e algumas empresas só empreguem
- 36:39pessoas brancas? Infelizmente não é e temos que
- 36:42denunciar isso. Ok, sociólogo Pedro Vitor
- 36:45Mendes, muito obrigado pela sua participação e até a próxima
- 36:49quarta-feira. Obrigado, professor.
- 36:51Obrigado pela oportunidade e até a próxima quarta.
- 36:56Chegamos ao final do Rádio Livre.
- 36:57Bom dia e um abraço. Obrigado pela companhia.
- 36:59Amanhã a gente se encontra novamente às sete e meia ao vivo
- 37:01na Universitária FM e você encontra o podcast Rádio Livre
- 37:05com Nonato Lima nas principais plataformas de podcast.
- 37:08Um abraço. A Universitária FM apresentou
- 37:14Rádio Livre.