Latest / Elas na Escrita / #29 Poesia falada e oralidade
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- 0:01É, oi gente, bom dia, boa tarde, boa noite, sejam bem vindos a
- 0:05mais um episódio do elas na escrita dessa nova temporada.
- 0:09Hoje eu tô aqui com 2 autoras maravilhosas que eu tô muito
- 0:12feliz de ter conseguido reunir as 2.
- 0:14E a gente vai partir de um tema que eu gosto muito, primeiro
- 0:17enquanto leitora e depois também enquanto escritora e enquanto
- 0:20pessoa também que consome outros tipos de arte.
- 0:22É de tô aqui com 2 multi artistas que a gente vai falar
- 0:26um pouco da palavra e da sonoridade, do ritmo e ver mais
- 0:29o que que essa. A conversa vai surgir a partir
- 0:31daí e eu estou então com a Luna vitrolira e com a mel Duarte.
- 0:35Eu vou apresentar um pouquinho delas, mas antes sejam bem
- 0:37vindas, meninas, muito feliz de vocês estarem por aqui.
- 0:40Agora eu vou apresentar gente, mas só um pouquinho porque o
- 0:42currículo das 2 é demais. A aluna Victoria.
- 0:47Ela é escritora, cantora, poeta, performer, compositora,
- 0:51pesquisadora, palestrante, apresentadora, educadora e
- 0:55mestre em teoria da literatura. Ela é autora dos livros memória
- 0:59tem águas expressas e aquenda, o amor às vezes é isso e na lista
- 1:03do prêmio Jabuti 2019, que se transformou em um projeto
- 1:06transmídia, com o qual estreou na literatura, na música e no
- 1:09cinema, com livro, disco, filme e homônimos.
- 1:12Ela é também idealizadora do projeto mulheres de repente,
- 1:15através do qual apresenta a mesa de glórias do Sertão do Pajeú,
- 1:19modalidade de poesia de improviso.
- 1:21Metrificada foi jurada de 2 grandes prêmios de literatura
- 1:24nos anos de 2022 e 23, o prêmio oceanos e o Jabuti, na categoria
- 1:29poesia. Ela integra a exposição falares,
- 1:31no Museu da Língua Portuguesa seja bem-vinda, Luna.
- 1:34Muito obrigada. Um boa noite e um bom dia e uma
- 1:37boa vida para todo mundo que está aqui nos acompanhando.
- 1:40Olha que voz deliciosa, gente. E aqui do lado da aluna, eu
- 1:44estou com a mel Duarte, que é uma artista da palavra.
- 1:46Com mais de uma década de carreira, a escritora, poeta e
- 1:49compositora possui 5 livros publicados de poesia, sendo o
- 1:53mais recente deles, colmeia poemas reunidos.
- 1:56Em 2019, ela lançou seu primeiro trabalho musical, o álbum humor
- 1:59masso, entre outras formas de calor, explorando o universo do
- 2:03spoken words e em 2021, foi uma das finalistas do prêmio
- 2:06inspiradoras do instituto Avon e universa UOL.
- 2:10Em 2024, a mel teve seu poema bem-vinda citado na Fuvest com 2
- 2:14questões em literatura. E lançou o commeia AO bonde
- 2:17musicalizou, alguns de seus poemas mais conhecidos.
- 2:20A mel é um compromisso ancestral de manter a palavra em movimento
- 2:23e escreve para ser in silenciável seja bem-vinda.
- 2:26Mel boa, oi gente, que delícia estar aqui com vocês.
- 2:30Bom, gente, vocês viram que eu falei que são 2 autoras, mas
- 2:33elas são poetas, são compositoras, são cantoras, são
- 2:36performers. E acho que isso é o mais legal,
- 2:37porque vocês se encontram muito nesse espaço da palavra que a
- 2:40gente vê ali os livros, de ter o livro escrito.
- 2:43Mas está nesse espaço muito do palco, né?
- 2:45Do corpo da. Então, quando eu falei que esse
- 2:47tema me chama muito, primeiro como leitora, porque eu comecei
- 2:50a perceber que quando eu lia livros, uma das coisas que mais
- 2:53me chamavam atenção era o ritmo, alguém me perguntava, nossa, mas
- 2:56por que que você gostou desse livro?
- 2:57De forma inconsciente, eu tinha muito isso.
- 2:59Ah, não sei. Ele tinha um ritmo bom de
- 3:01leitura, tinha uma coisa gostosa de ler.
- 3:03Eu comecei a perceber que isso era um padrão para mim na
- 3:06leitura e eu comecei a me interessar muito nessa relação
- 3:09com a escrita. Então, pra gente começar, eu
- 3:11queria perguntar pra vocês 21 pouquinho de como começou a
- 3:15relação de vocês com a escrita e como ela se aproximou dessa
- 3:18oralidade, já que vocês também cantam tão em cena, são
- 3:21performers. Como foi esse caminho pra unir
- 3:24um pouco esses 2 universos que parecem diferentes, né?
- 3:27Da página e da palavra, do palco, mas que são tão tão
- 3:31Unidos. AI meu Deus, vai lá, começo
- 3:34então, tá? É acho que assim pra dar um
- 3:38resumo, né? Bem resumido desse lugar, do
- 3:41encontrar a palavra e começar a escrever é, eu comecei a
- 3:45escrever muito nova, com 8 anos, quando eu descobri a poesia
- 3:48através da escola. Eu acho que essa coisa de já ter
- 3:52um ouvido pra palavra, isso já vinha dentro da minha casa,
- 3:55porque os meus pais sempre ouviram muita música.
- 3:57Então uma coisa das palavras, da sonoridade, do ritmo, da rima,
- 4:01já era uma coisa que eu ouvia ali, de uma, de uma certa forma,
- 4:04aquilo já me. Gerava uma curiosidade, quando
- 4:07eu li um poema pela primeira vez, entendi que aquilo era
- 4:10poesia, sabe? Eu falei, Ah, e as coisas
- 4:13fizeram sentido assim. E aí eu entendi, eu consegui
- 4:16compreender mais da música, até porque eu entendi o que era
- 4:18poesia. Eu falei, Ah, então espera aí
- 4:19para existir isso, existe isso daqui também.
- 4:21E aí eu entrei muito nessa viagem literalmente de pensar,
- 4:24poxa, para escrever eu só preciso da minha criatividade,
- 4:27papel e uma caneta, então deixa eu fazer aqui para ver como é
- 4:31que é isso. E a coisa da curiosidade pelas
- 4:34palavras, eu acho que isso foi foi a primeira coisa que me
- 4:36pegou assim. A gente tem um vocabulário
- 4:39gigantesco, extenso, assim, palavras muito diferentes,
- 4:43divertidas. Então a coisa de descobrir novas
- 4:46palavras foi o que me fez ter interesse pela poesia, pela
- 4:49literatura, porque o vocabulário era isso, aumentar o
- 4:53vocabulário. Eu já era uma criança um tanto
- 4:54quanto muito comunicativo, tinha uma necessidade de me comunicar
- 4:59ao extremo, então entender esse universo.
- 5:02É, me fez brilhar os olhos. Mas em nenhum momento eu pensei,
- 5:06eu acho que isso é uma coisa que que permeia todas nós, assim,
- 5:09grande parte das companheiras que eu converso de entender que
- 5:13isso pudesse ser uma profissão. De entender que isso é pudesse
- 5:17ser um caminho, né? Assim, eu acho que a gente não
- 5:21nos apresentam a escrita, a poesia como profissão, né?
- 5:24É um lugar. Muito distante ou para outras
- 5:27pessoas? Né?
- 5:27Com certeza. Assim, na minha cabeça era só
- 5:30coisa de gente morta assim, né? Porque eu cresci lendo poetas
- 5:33mortos. Então eu me perguntava se a
- 5:35poesia era uma coisa assim. Eu achava que era um movimento
- 5:38que havia existido. Num determinado momento, com
- 5:41aqueles autores que a escola me apresentava e era aquilo que não
- 5:44existia, uma poesia contemporânea, porque eu não
- 5:48tinha essas referências, que dirá mulheres, que dirá mulheres
- 5:50negras. Então era tudo muito distante.
- 5:53Eu demorei muito tempo, muito tempo, mesmo assim, pra entender
- 5:57que a nossa palavra tinha uma importância, que eu podia sim
- 6:01ser poeta e muito mais tempo ainda que isso podia ser um
- 6:05trabalho, uma profissão, né? Eu acho que hoje, quando eu vejo
- 6:09as crianças, quando eu vejo pessoas jovens interessadas na
- 6:11palavra, eu já eu quero gritar e falar, isso pode ser uma
- 6:14possibilidade, sim, é não sabe? Não tirem isso é da Juventude,
- 6:19porque a gente sempre quer podar esse lugar, que é um lugar
- 6:23criativo, né? Assim, e ao mesmo tempo que eu
- 6:25percebia que os meus pais viam que eu gostava de escrever, eles
- 6:28não entendiam muito bem também porque que eu gostava, porque a
- 6:31poesia, eu acho que é um chamado que é muito de cada pessoa
- 6:34mesmo, né? É uma coisa que não tem como a
- 6:35gente explicar. E aí pensando nesse processo de
- 6:39depois de me reconhecer como poeta no saraus, né,
- 6:43compartilhando palavra com outras pessoas que eram iguais a
- 6:46mim, que escreviam coisas que faziam sentido para mim, que eu
- 6:49não precisava de um dicionário para entender aquelas palavras,
- 6:52elas já batiam direto. EE, ao mesmo tempo também essa
- 6:55troca, né? Porque a gente escreve nesse
- 6:57processo muito solitário, quase sem contar para ninguém.
- 7:00Eu era uma criança preta, tipo, eu vou contar para quem que eu
- 7:02escrevi poesia? Era uma coisa muito.
- 7:04Distante de todas as pessoas da mesma realidade.
- 7:07O segredo, né, que você guarda ali dentro do quarto?
- 7:10No máximo aquela sua amiguinha sabe a ser melhor amiga que você
- 7:14conta, mostra uma coisa ou outra, mas é algo que é muito
- 7:16guardado. Então, quando a gente descobre
- 7:18um lugar que a gente se sente pertencente e onde a gente pode
- 7:21falar, né? Onde a gente pode trocar, ali
- 7:23minha chavinha muda. E aí eu percebo que assim, poxa,
- 7:26existe esse lugar para mim no mundo, assim como tem para
- 7:29outras pessoas, e eu quero me envolver com isso.
- 7:31E a partir dali, fui criando coletivo, fui.
- 7:34De fato, assim, 3 de cabeça Na Na no movimento dos saraus, até
- 7:38depois conhecer os Slams e aí fazendo esse esse link, né?
- 7:43Com que você perguntou desses trabalhos de ir para outros
- 7:45lugares? O Slam me trouxe muito isso.
- 7:47Assim, eu acho que eu sinto que o saraus me trouxe um lugar de
- 7:50segurança, de olhar para o outro e falar poesia, declamar poesia,
- 7:55tipo o que eu escrevi. Né?
- 7:57Primeiro falando poema de outras pessoas, até ter a segurança de
- 8:00falar o meu próprio poema trouxe essa segurança mais de olhar no
- 8:04olho. E aí o Slam, como gera uma
- 8:05competição, né? A gente já tinha aquela
- 8:07insegurança, mas o sarau prepara um pouco mais a gente.
- 8:09Aí você chega no Slam, você fala, poxa, agora é para valer,
- 8:12as pessoas vão me julgar. Então o Slam me fez correr atrás
- 8:15também de muita coisa assim, de melhorar minha performance, de
- 8:18querer decorar mais os meus textos, de estar mais preparada
- 8:22para o momento que eu tenho que ali falar.
- 8:24E aí eu fui descobrindo um outro universo, que é o universo do
- 8:26spoken Word, que é 11 outro lugar que eu nem sabia que
- 8:30existia assim. Então o Slam abriu é
- 8:34possibilidades pra colocar minha palavra em muitos lugares.
- 8:37E aí a gente vai como artista, testando, se experimentando.
- 8:40Eu acho que isso que é o é o gostou de trabalhar com a
- 8:43palavra? Ela é muito flexível.
- 8:44Então, conforme a gente vai fazendo, a gente vai vendo que
- 8:46ela vai podendo caber em lugares, vão chegar no convite
- 8:48de coisa que a gente nem sabe o que pode fazer, nem a lura, mas
- 8:50a gente fala, faço, tem palavra aí no meio, aí eu faço, pode
- 8:54deixar que eu faço. Aí você vai descobrindo uma gama
- 8:56de lugares que você pode ocupar. E acho que a música veio, veio a
- 9:00partir desse lugar também, assim, de uma paixão antiga que
- 9:03eu já sempre, sempre gostei muito.
- 9:05Mas é isso, até você se sentir seguro para começar a falar o
- 9:07que você pensa que gerar para depois cantar, que gerar para
- 9:10depois você. Se expor num palco, né?
- 9:13E pensar em em musicalidade, banda e tudo isso que são coisas
- 9:16que são completamente diferentes do Slam, que que é uma coisa que
- 9:19traz a gente no palco sozinha, sem acompanhamento musical, sem
- 9:23sem nada. E foi uma das minhas grandes
- 9:25pilhas assim de querer fazer um show musical.
- 9:27Era pra justamente tipo assim, não aguento mais não ter nada,
- 9:29porque o Slam não pode ter nada e eu quero.
- 9:32Quero vivenciar esse universo. Quero apresentar um universo em
- 9:35outras camadas para o meu público.
- 9:37Eu acho que essa viagem que a palavra nos permite é muito
- 9:41legal, muito gostoso. EE não cansa, né?
- 9:43A gente tá sempre se desafiando. Mas que legal que você foi
- 9:46experimentando. Acho que ele por etapas, várias
- 9:48coisas assim que você já tinha, mas foi se permitindo aos
- 9:51pouquinhos. E é muito legal que eu já tinha
- 9:53desde o início esse flerte com a música que você falou.
- 9:55Ah, através da música eu vi o som, mas vi que também era
- 9:57texto. Então acho que isso é.
- 9:59Dá muito para ver no seu trabalho hoje em dia.
- 10:01E com você foi assim também, Luna, eu tava te escutando, mel,
- 10:04e eu fiquei pensando, caramba, que lindo.
- 10:06Isso porque eu venho de um movimento diferente, de um
- 10:09território diferente, mas que em vários lugares a gente se toca
- 10:12também tem muitas semelhanças. Eu sou de Pernambuco, do país
- 10:17Pernambuco, e dentro do meu território é, eu entendo.
- 10:22Que a gente tem ali. Eu sou de Recife, que é a
- 10:25capital, região metropolitana. A gente tem a zona da mata, o
- 10:29agreste, tem os Sertões. E Pernambuco, nesse estado
- 10:32inteiro, tem uma diversidade cultural muito grande.
- 10:35E quando eu começo na poesia, especificamente, eu começo a
- 10:39partir do silenciamento com uma criança que sofreu muito
- 10:42bullying, que não conseguia se comunicar, que não tinha muitas
- 10:46amizades, mas que tinha necessidade de existir.
- 10:49E que encontrou na palavra um caminho para tornar o pensamento
- 10:54e a possibilidade de existência algo real e efetivo.
- 10:57Então, obviamente que fui muito companheira dos meus diários,
- 11:01com as minhas amizades ocultas e espirituais, e escrevendo num
- 11:05diálogo comigo mesma. Mas eu esbarrei nesse processo,
- 11:08numa banda chamada cordel do fogo Encantado, que é do Sertão
- 11:11de Pernambuco, de Arcoverde, que era uma banda que eu não
- 11:14gostava. A minha mãe escutava muito.
- 11:18Mas quando minha mãe me levou ao show que eu vi a visualmente
- 11:23aquela performance, como a poesia existia dentro daquele
- 11:27som, com 9 anos de idade, eu me encantei.
- 11:30E dentro desse lugar de sofrimento, de silenciamento,
- 11:32dos bullyings que eu sofria por ser uma menina negra, gorda, do
- 11:36cabelo pichaim, como diziam na escola, dentro de uma realidade,
- 11:40de um contexto social completamente diferente.
- 11:44Eu escutava o cordel. Isso me fazia criar um Novo
- 11:46Mundo. Eu acho que a palavra me deu a
- 11:48possibilidade da imaginação e da criação de uma outra existência
- 11:53como possibilidade na realidade palpável dessa dimensão que a
- 11:59gente conhece. Então eu comecei a escrever para
- 12:03lidar comigo mesma, para me relacionar comigo mesma.
- 12:07Mas quando eu conheço o cordel e entendo.
- 12:11A poesia num lugar da fala, através da cultura e da poesia
- 12:15popular do meu estado, é um outro lugar de poesia que não é
- 12:19dos cânones mortos. Então meu primeiro contato é com
- 12:22a poesia popular dos poetas de feira, dos poetas da rua, das
- 12:28praças, dos cantadores de viola, das mesas de glosa, com a qual
- 12:32eu trabalho hoje. Dessa poesia que ocupa o vento.
- 12:37E que entende que o corpo e a palavra sonorizada verbalizada é
- 12:41o nosso registro, além de uma sociedade criptocêntrica.
- 12:44E além do livro, somos poetas da voz da palavra.
- 12:48O nosso livro somos nós mesmos. Quando a gente abre a boca, a
- 12:51gente acontece. Então a gente carrega essa essa
- 12:55palavra na mente e entendendo, inclusive, que é muito
- 12:59importante irmos até onde está o público, né?
- 13:03Como Milton Nascimento diz, o artista vai onde o povo tá.
- 13:07E os artistas da palavra me ensinaram isso, que eu só
- 13:10preciso da voz para poder fazer a poesia acontecer.
- 13:13E que é muito importante a missão de levar a palavra aonde
- 13:16talvez o livro não chegue. Então eu fui muito movimentada
- 13:21desde o início pela palavra dita, pela palavra falada.
- 13:25E quando eu fazia o ensino médio, eu estudava próximo do
- 13:29mercado da Madalena, onde os poetas do Sertão do Pajeú faziam
- 13:33recitais. Eu caseava aula.
- 13:36IA para o sarau escutar poesia e foi um processo que eu só
- 13:40consegui entender depois. Como é que a minha poesia se
- 13:44constrói dentro de mim? Porque não foi a partir do
- 13:48exercício da escrita, mas foi a partir do exercício da escuta lá
- 13:52no Sertão do Pajeú, que é 11 território que fica a mais ou
- 13:57menos 6 horas de viagem do Recife.
- 14:00Quando eu fui pela primeira vez, eu vi crianças de 345 anos de
- 14:04idade dizendo poesias, longuíssimas literatura de
- 14:06cordel antes de escrever o próprio nome.
- 14:09E foi ali que eu entendi que a poesia se aprende pelo ouvido,
- 14:13que a métrica, inclusive, se aprende pelo ouvido.
- 14:15Não se aprende contando, não se aprende escrevendo, se aprende
- 14:19ouvindo. Então um processo de compreensão
- 14:21muito corporal, sensorial e menos cerebral, inclusive,
- 14:26então. Foi aí que eu despertei o meu
- 14:29desejo de dizer poesia. Antes de escrever poesia, então
- 14:33também comecei como poeta, declamadora dizendo poesia de
- 14:36outras pessoas. Depois eu descobri que eu tinha
- 14:39muito o que dizer, participando de um cenário muito
- 14:43masculinizado, muito misógino e buscando inclusive referências
- 14:49de outras pessoas que parecessem comigo, então buscando outras
- 14:53poetas. Da minha geração dentro desse
- 14:55território sertanejo, inclusive na cidade do Recife, com quem eu
- 14:59pudesse comungar e compartilhar dessa vivência.
- 15:03E aí eu fui descobrindo Severina branca, lá no Pajeú, mas também
- 15:07Cida Pedrosa, do movimento marginal, ao lado de miró da
- 15:10Muribeca, que são poetas que sempre fizeram da calçada um
- 15:15lugar de expansão da palavra, sempre ocuparam a rua E o mundo.
- 15:20E aí no começo, quando eu. Iniciei o momento de declamar
- 15:24poesia. Me colocaram já para fazer um
- 15:27projeto chamado agente da palavra.
- 15:29Tem uns agente de saúde que bate de porta em porta para deixar a
- 15:32informação, para panfletar, verificar a água quando tá em
- 15:36crise de dengue, essas coisas toda.
- 15:37E tinha um agente da palavra, que éramos nós, que entrávamos
- 15:41na casa das pessoas para dizer poesia.
- 15:43Nossa, que demais isso? E aí eu aprendi a
- 15:46responsabilidade e o peso da palavra muito cedo, porque é uma
- 15:50escolha. O que que você vai dizer dentro
- 15:51da casa de uma? Pessoa, né?
- 15:54Você não pode chegar ali, fazer uma intervenção sem ter a
- 15:58consciência dessa responsabilidade, porque você
- 16:01pode mudar o dia da pessoa para o bem e para o mal.
- 16:04Depois disso, me colocaram pra fazer um escritor na escola e
- 16:08também fiz vivências em colônias penitenciárias.
- 16:12Então isso foi fundamental pra eu também encontrar o meu lugar
- 16:17de escrita, a minha voz poética, o que eu quero dizer, o que eu
- 16:20quero colocar no mundo. Mas sem uma necessidade de
- 16:23livro. Eu queria gravar disco porque eu
- 16:26comecei como poeta da palavra, da voz falada, influenciada pela
- 16:30cantoria de viola. Então, eu queria gravar as
- 16:32poesias em voz. E a cantoria de viola foi muito
- 16:37referência nesse sentido, porque existem muitos discos de
- 16:40cantadoras e cantadores. Depois foi que eu descobri o
- 16:43disco de Manuel Bandeira, o disco de João Cabral de Melo
- 16:45Neto, enfim. E aí comecei esse processo de
- 16:49querer gravar o disco de poesia. Mas aí o livro veio antes,
- 16:51porque o mercado editorial, ele entra na nossa vida e diz assim,
- 16:54você precisa publicar para poder expandir sua palavra e
- 16:58transformar isso em profissão. Então, profissionalizar minha
- 17:01literatura me levou a publicar o livro antes de gravar o disco.
- 17:04Mas aí eu esbarrei nisso assim, não, não era o suficiente
- 17:07publicar o livro. Eu queria mais, porque.
- 17:11Eu, quando eu falo dessa, desse mapa de Pernambuco e falo dessa
- 17:14diversidade territorial da região metropolitana, litoral,
- 17:17agreste, Sertões e zona da mata, eu tô falando de várias, vários
- 17:22territórios que lidam com a voz, como a tecnologia ancestral, a
- 17:26oralidade, como a tecnologia ancestral e a palavra.
- 17:29Ela já tem ritmo e eu fui uma criança.
- 17:34Que teve a oportunidade de ter uma mãe que me influenciou
- 17:38diretamente nisso e me colocou para fazer as oficinas de Nana
- 17:41Vasconcelos, então, acima e além de tudo, eu entendi que a vida é
- 17:45ritmo, pegando seu gancho e que a palavra ela é som, ela é
- 17:50música, ela é ritmo e que o ritmo é o nosso próprio
- 17:53movimento no mundo. E entender o seu ritmo é um
- 17:56processo de autoconhecimento na anáfase a gente entender o ritmo
- 17:59e o silêncio como 2 dimensões potentes de existência.
- 18:04Primeiramente, o silêncio como a forma mais essencial de existir
- 18:09e como a música mais difícil de compor, porque o estar de
- 18:11silêncio é um lugar Divino de alcançar.
- 18:15É dificílimo de você estar em silêncio, sobretudo no mundo de
- 18:18pressa, de tanta informação, de tantos ruídos.
- 18:21Estar em silêncio não é estar calado.
- 18:23O silêncio é um movimento espiritual e de uma potência
- 18:26muito grande, diferente do silenciamento.
- 18:28Então, para mim, que vim do silenciamento, aprender o
- 18:30silêncio foi um outro caminho e depois o ritmo.
- 18:33Como um processo de autoconhecimento.
- 18:37Qual é o movimento da minha fala?
- 18:39Qual é o meu ritmo de viver? Qual é a pulsação do meu
- 18:42coração? Meu ritmo de respirar e levar
- 18:45isso para poesia? Como o som também.
- 18:48E ele fazia a gente entender o som a partir do corpo, a partir
- 18:51da existência. Primeira experiência percursiva.
- 18:55É a gente como o próprio instrumento, o próprio tambor no
- 18:57mundo. E a minha palavra veio disso.
- 19:00Por isso que eu queria gravar o disco.
- 19:01E depois que eu lancei o livro, eu pensei, bom, agora eu quero
- 19:04esse movimento de expansão. Quero o que eu sempre quis.
- 19:06Inicialmente quero gravar o disco.
- 19:08E aí Amaro Freitas, que é meu companheiro também, um grande
- 19:10pianista, entrou nesse universo e a intimidade ajudou muito
- 19:16nisso para poder trazer o meu ritmo para música.
- 19:22E aí aconteceu a quenda que é essa.
- 19:27Esse acontecimento é poderoso para mim, assim de uma
- 19:32realização muito grande, porque a música alcança de outra forma
- 19:38através da vibração mesmo a música com potencialização dessa
- 19:42palavra. E aí é a magia acontecendo.
- 19:46Entender vibração, entender frequência e a partir da
- 19:49intencionalidade, como que a gente quer que a palavra chegue
- 19:52nas pessoas? E aí a relação com oralidade e a
- 19:55palavra e a música vem desse movimento todo, que é complexo e
- 19:59que é longo. Nossa, eu fiquei te ouvindo
- 20:02falar. Minha cabeça até viajou.
- 20:03Eu ficaria aqui, ó, mais 1 hora só ouvindo vocês, gente, eu tô.
- 20:07Viajando muito, porque a Luana trouxe uma coisa que essa coisa
- 20:10da oralidade, né, é? Da mesma forma como você via os
- 20:14poetas, EE matava a aula e tinha essa coisa, né, de vir primeiro
- 20:18para o corpo, para voz. Eu acho que isso faz toda a
- 20:20diferença também para hoje a gente conseguir ter a firmeza
- 20:24para fazer o que a gente faz. Porque fiz parte do poetas
- 20:27ambulantes, que é um coletivo também que tá aí já há 11 anos,
- 20:30que distribui declama poesia dentro dos transportes públicos.
- 20:34E foi assim, uma coisa de rasgar a alma, sim, é você.
- 20:39O seu ego, ele vai embora totalmente.
- 20:42Você trabalha muito isso para você ter essa coragem, essa
- 20:46audácia de entrar o espaço, adentrar o espaço do outro.
- 20:50De fato é isso como uma palavra, como uma poesia, e isso que a
- 20:53aluna falou, de você ter essa sensibilidade.
- 20:55O que eu vou falar aqui? Como eu vou falar isso, né?
- 20:57Essa responsabilidade com as palavras.
- 20:59Eu acho que a gente aprendeu isso muito cedo, antes de.
- 21:03De outras coisas assim, né? Foi o que veio primeiro, que é a
- 21:06vontade de de expressar na palavra.
- 21:09E é isso faz você amadurecer e ter uma sensibilidade muito
- 21:12grande. Quando você vai escrever, quando
- 21:14você vai se apresentar, acho que muda completamente a forma como
- 21:19a gente entende a responsabilidade que a gente tem
- 21:21para lidar com as palavras, porque acho que só quem já teve
- 21:23um retorno ali na hora de você falar uma coisa e a pessoa fica
- 21:26extremamente emocionada. E você?
- 21:28Continuar segurando aquele reggae onde você vê que aquilo
- 21:30pegou aquela pessoa. Hum, talvez hoje não era o dia
- 21:33que talvez. A pessoa ficou com raiva por
- 21:35algum motivo, muitas coisas de alguma.
- 21:37Forma muito e é rápido. E faz a gente entender que a
- 21:40palavra não volta exato. A partir do momento que você
- 21:43disse ela vai, entendeu? É uma flecha que só vai pra
- 21:47frente assim. Então é muito, é muito.
- 21:51É muito delicado mesmo esse esse movimento da palavra, nesse
- 21:54lugar que a gente precisa construir o espaço da escuta.
- 21:58Sim. E esse lugar do ego também me
- 22:01fez entender que a poesia não é necessariamente sobre mim, mas
- 22:05também sobre o outro. Não é somente sobre o que eu
- 22:07quero dizer, mas sobre o que eu entendo que as pessoas podem
- 22:10querer ou precisar ouvir. Então você está ou que elas vão
- 22:13entender, mas assim você está dentro de um espaço onde as
- 22:15pessoas estão corridas no automático, tendo que correr
- 22:20para algum lugar para sobreviver.
- 22:23E a palavra pode ser um lugar de acolhimento, que pode tornar
- 22:27aquele dia mais leve ou pode tornar aquele dia mais pesado.
- 22:30Nossa, exatamente. E eu eu tô achando muito
- 22:33incrível de ouvir vocês, que a gente vê o quanto os caminhos
- 22:36são diferentes, o quanto as trajetórias são diferentes.
- 22:38Eu tenho visto muitas mulheres e cada uma tem esse início da
- 22:41escrita, esse início do processo criativo a partir de um ponto de
- 22:44partida completamente diverso. E eu acho legal que vocês trazem
- 22:47muito isso da oralidade, porque muitas vezes, quando a gente
- 22:50pensa em livro, escritor de livro, como vocês falam, as
- 22:52pessoas esquecem isso. E entra muito nesse lugar da da
- 22:56cabeça, do só refletir. Esquece que a palavra tá no
- 22:58corpo, que a palavra tá no diálogo, que a palavra tá na
- 23:01gente, é o que chega primeiro. Então acho muito importante ter
- 23:04vocês pra lembrar desse ponto. E vocês começaram a chegar no
- 23:07caminho dessa relação com o público, que era uma das
- 23:09perguntas que até queria trazer, de como vocês veem essa poesia
- 23:12que vocês fazem hoje, uma música, a composição ou a
- 23:16performance? Quando vocês conheceram como
- 23:18isso chega no público hoje em dia?
- 23:19Porque às vezes, quando a gente pensa em poesia, muita gente
- 23:22fala, poxa, poesia. Um pouco distante, como a mel
- 23:25falou lá no início, há anos atrás.
- 23:27Parecia coisa de gente morta. Como vocês veem que isso chega
- 23:30hoje? Então, no ou nos leitores ou nos
- 23:32ouvintes ou nos espectadores de vocês, por exemplo, como que
- 23:35chega essa criação de vocês no público de hoje, esse diálogo?
- 23:39Nossa, chega chegando, né, Luana?
- 23:43Eu acho que é que vão ser várias camadas, mas quando a gente
- 23:48chega primeiro fisicamente. Eu acho que já chega de uma
- 23:52outra forma, principalmente quando a gente conversa com o
- 23:54público mais jovem, quando a gente vai falar com meninas, né?
- 23:57Acho que é isso. Quando eu chego em escolas e vou
- 23:59fazer um tipo de apresentação e alguém sabe que eu vou fazer
- 24:01algum tipo de apresentação, é uma comoção, é uma coisa louca
- 24:05assim. E o que eu acho mais legal de
- 24:08ser uma poeta viva e da gente transitar nesses lugares e
- 24:11justamente mostrar essa possibilidade, porque quando eu
- 24:14tava lá atrás eu nem sabia nem que existiam autoras negras.
- 24:17Que dirá sim. Estilosa, tatuada, maluqueira.
- 24:22Ah, com sotaque com black. Eu acho que isso já desconstrói
- 24:26muito do que existe do imaginário.
- 24:30Do que é, do que deve? Ser alguém?
- 24:32É. Já cheguei em lugares falando,
- 24:33nossa, eu tava esperando uma senhorinha pra dar uma oficina,
- 24:36sabe? Você fala, poxa, gente, a gente
- 24:38ainda tá nesse processo de desconstruir esse imaginário do
- 24:41que é ser escritor, poeta? EEE.
- 24:44Fazer parte dos movimentos que a gente fez faz com que a gente
- 24:47tenha essa outra relação de fato, né?
- 24:50Então, o que eu percebo com o público, primeiro que eu não
- 24:53imaginava quando eu comecei a escrever lá atrás, gostando
- 24:57muito de poesia, eu não tinha noção do quanto ela atravessava
- 25:00as pessoas. Acho que a gente só começa a ter
- 25:02essa noção quando a gente começa a compartilhar e aí vem o
- 25:05retorno. Tanto que eu até falo muito para
- 25:07para as mulheres que gostam de escrever, mas tem muito medo AI
- 25:10porque eu acho que tá ruim, porque isso porque aquilo eu
- 25:11falei, se você ficar guardando só para você, você nunca vai ter
- 25:14um termômetro, saber o que melhorar, de saber se tá ruim,
- 25:17de saber, se faz sentido, se faz sentir.
- 25:20Então a gente tem que botar para fora mesmo tanta gente falando
- 25:23tanta coisa ruim, sabe? Assim, pode ter certeza que o
- 25:25que você escreve é muito bom e vai acessar outras pessoas.
- 25:28Então primeiro tirar esse esse medo, né, que a gente tem de
- 25:32compartilhar com outro, porque quando a gente compartilha, a
- 25:34gente entende. Que faz esse sentido.
- 25:36Isso vai alimentando para que a gente continue.
- 25:39Mas é assustador ver o quantas pessoas se de fato se relacionam
- 25:44com o que a gente escreve. Por vezes você escreve em
- 25:46momentos nossa, diversos assim, né?
- 25:49Nem pensando em fato. Ah, eu quero que esse poema
- 25:52atinja tal e tal pessoa. Eu escrevo isso porque eu,
- 25:54indivíduo, tinha uma necessidade muito grande de falar sobre esse
- 25:57assunto. E aí quando a gente joga no
- 25:58mundo, a gente vê o quanto é, capta as pessoas assim e o que
- 26:02me pega muita com a Juventude assim porque.
- 26:05Às vezes eu eu perco. Acho que é dessa noção mesmo,
- 26:08sabe? De de entender o quanto uma
- 26:10molecada mais nova tá prestando atenção no que a gente fala, no
- 26:14que a gente escreve. Eu fico muito feliz de hoje ver
- 26:17que o movimento dos Slams ocupou muito as escolas.
- 26:20E eu acho que esse lugar do ensino fundamental, do ensino
- 26:23médio, é o lugar onde o poeta, sim, tem que ocupar.
- 26:26É onde a gente tem que desmistificar todo esse lugar
- 26:29dessa criação e mostrar que isso é uma possibilidade também, mas
- 26:31principalmente para que esses jovens possam.
- 26:34Senso crítico, discernimento. Sabe assim, que eu sinto que
- 26:38cada vez mais difícil para eles, não só a questão da reflexão,
- 26:41mas de colocar para fora o que eles sentem.
- 26:43A poesia ajuda a organizar o pensamento, né?
- 26:45A trazer isso para fora. Então, quando eles se relacionam
- 26:48com o nosso trabalho, autoras vivas que responde No No
- 26:51Instagram, que tira foto, que sabe assim sou igual a você,
- 26:55isso fica muito mais palpável e daí faz mais sentido para eles.
- 26:58E aí eu entendo que, às vezes, acesso até a nossa música para
- 27:01depois acessar a literatura. Acho que o legal também, de ter
- 27:05trabalhos que permeiam esses 2 lugares é porque a gente vai
- 27:07alcançar públicos de formas diferentes.
- 27:10E isso para mim também é muito interessante.
- 27:12Mas quando eu tenho essas relações com adolescentes e
- 27:15jovens assim, é onde eu fico mais extasiada, porque é onde eu
- 27:19vejo que faz a diferença. Onde eu percebo que a mensagem
- 27:23chega é onde causa uma transformação, sabe?
- 27:26E causa nessa pessoa, tanto fisicamente.
- 27:29Quanto para com as outras pessoas, até da própria família,
- 27:32porque eu recebo mensagem de mães de professoras que falam,
- 27:35meu aluno trouxe seu poema, minha filha botou seu álbum para
- 27:38eu, sabe umas coisas que eu falo gente do.
- 27:40Céu que legal. Que loucura.
- 27:41E aí a coisa vai tomando proporções inimagináveis assim.
- 27:45Esses tempos eu eu virei feira literária no interior da Bahia e
- 27:49Milagres, na Bahia. Assim, assim, um lugar que
- 27:51talvez fisicamente eu não sei se um dia eu vou conseguir chegar
- 27:55até lá, mas o meu nome chegou. EE toda uma turma fez uma
- 27:59homenagem a mim. Eu vendo isso daqui, eu fiquei
- 28:01assim, gente, às vezes a gente fica se perguntando, o que que é
- 28:04Riqueza? Sabe?
- 28:05Assim, porque ser artista independente lá é só a gente
- 28:07sabe das dificuldades pensando monetariamente falando.
- 28:11Mas aí acontecem os atravessamentos que eu falo
- 28:14como, como que eu vou quantificar?
- 28:15Isso não tem como. Não tem como e é isso que faz a
- 28:18gente falar, poxa, apesares de quero continuar me comunicando,
- 28:22porque eu entendo que a comunicação.
- 28:24É uma ferramenta de transformação social muito forte
- 28:28e quanto mais eu vejo que ela faz sentido, mas eu continuo,
- 28:31né, trabalhando a favor dela assim.
- 28:33Então acho que o mais legal é ver as pessoas se identificando,
- 28:36mesmo quando a gente não escreve, pensando diretamente
- 28:39para ela se identificar. Eu acho que isso é muito legal,
- 28:41significa que a palavra é muito atemporal.
- 28:44EE isso não dá para perceber ao longo.
- 28:47Sabe das nossas jornadas assim, de você ir formando públicos com
- 28:49idades diferentes? E isso e fazendo sentido pra
- 28:52todos eles, assim eu falo, poxa. E mesmo que de forma diferente.
- 28:55E eu pergunto de público pra vocês, porque eu vejo que vocês
- 28:582 literalmente chegam muito no público, né?
- 29:01A gente acompanha, acompanha o trabalho de vocês online, no
- 29:04digital e tudo, e a gente vê que vocês chegam nas pessoas que têm
- 29:07esse retorno. Então é inclusive, talvez por
- 29:10essa oralidade, essa presença do corpo, a presença física que
- 29:13vocês dizem é isso facilita o contato com o público.
- 29:16Então hoje em dia que a gente pensa Ah, né, que palavra tá
- 29:18cada vez mais distante, ninguém quer ler, ninguém quer saber.
- 29:21Poesia de texto? Isso chega com uma alternativa e
- 29:24fala, olha aqui, como que ninguém está está querendo
- 29:26ouvir, ninguém está querendo? Outras formas de leitura.
- 29:28São outras formas. De comunicação e de chegar
- 29:30exatamente onde é que eu assino, na no que o Biel falou, porque
- 29:34concordo. EE, são vivências que a gente
- 29:36tem que são parecidas assim, né? Isso me faz pensar muito no
- 29:40Sérgio Vaz. Eu acabei de vir da festival
- 29:42literária, primeira vez que eu atuei como curadora de um evento
- 29:45literário também, além de estar como autora.
- 29:48E pensar curadoria também é pensar nessa comunicação.
- 29:53É pensar também numa programação que faz um trabalho de base, que
- 29:56se comunica com as escolas. E a gente lotou o teatro da
- 30:00UFRGS, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que tem
- 30:02mais de 1000 lugares, com várias escolas para escutar Sérgio Vaz,
- 30:06Jefferson Tenório e cristal. E a cada fala era assim, uma
- 30:11emoção. E você vê os jovens respondendo
- 30:15aquilo, se entregando e admirando.
- 30:17Isso me faz voltar no tempo também e me pensar nesse lugar.
- 30:21Quando eu fui estudante, não tive essas referências e não
- 30:25tive essas pessoas próximas, essas escrituras, escritores não
- 30:28foram na minha escola. Eu não recebi um miró da
- 30:30mourimbeck, embora ele já existisse como poeta, porque não
- 30:33existia um olhar para isso e um reconhecimento para isso.
- 30:36A nossa luta pela oralidade dentro da literatura é muito
- 30:38grande. É, a gente entende que dentro
- 30:41dessa estrutura de mercado, ainda é um lugar muito
- 30:43subalternizado. E todo movimento que a gente faz
- 30:46é de fortalecimento, de reconhecimento.
- 30:48E é uma luta mesmo. Mas porque a gente entende que
- 30:51essa literatura que a gente faz, e da forma como a gente faz um
- 30:54trabalho que é de base, tem em si essa potência, essa potência
- 30:58transformadora. E é por isso que a gente está
- 31:01aqui até hoje, que a gente dorme e acorda.
- 31:04Com muita força e energia para continuar fazendo o que a gente
- 31:07faz, né? Porque as recompensas são essas,
- 31:11são outras. É diferente, mas isso nos
- 31:13alimenta para continuar escrevendo.
- 31:16Vamos chamar isso de missão, vamos chamar isso de várias
- 31:19coisas. E eu eu falo que isso me lembra
- 31:20do Sérgio Vaz, porque ele diz com referência a cooperifa, mas
- 31:24eu expando isso para para todo, para tudo que a gente faz a
- 31:28partir disso que é. A gente tem 11 ação, uma atitude
- 31:34de tirar a poesia do pedestal e aproximar os pés da comunidade.
- 31:38Então a gente tá criando novas referências de literatura e eu
- 31:43vou ser bem ousada aqui nesse momento.
- 31:46Mas como eu sou mestre em teoria da literatura, eu vou usar do
- 31:48meu canudo para tirar essa onda aqui.
- 31:51Agora, a na ciência. Os teóricos falam que a
- 31:55literatura brasileira começa no romantismo.
- 31:58Quando a gente começa a discutir identidade, nacionalismo e o que
- 32:02é o Brasil e tal. Mas a gente tá fazendo uma
- 32:05literatura a partir de lá, muito olhando para o ocidente.
- 32:08Ainda são homens cis brancos pensando a literatura a partir
- 32:11de modelos ocidentais eurocêntricos.
- 32:14E numa perspectiva muito objetificadora, eu digo que a
- 32:17nossa literatura brasileira tá começando agora, quando a gente
- 32:21tem mel Duarte, mirada, Muribeca, Severina branca,
- 32:25mocinha de parceira Luiz Ribeiro e.
- 32:28Na taxa, tantas pessoas diversas reconstruindo essa narrativa
- 32:34sobre o Brasil, sobre nós, sobre a existência, sobre humanidade,
- 32:37sobre poesia, sobre literatura, sobre estética.
- 32:41A gente tá realmente ressignificando e fazendo uma
- 32:45literatura brasileira. Então eu eu quero dizer que para
- 32:50mim, realmente essa literatura brasileira começa dessa forma.
- 32:53Conceição Evaristo trazendo um novo conceito que é a
- 32:56escrevivência. Para dizer que a nossa
- 32:59perspectiva e o que a gente tem para dizer para o mundo é muito
- 33:02importante. É arte, a literatura e é
- 33:06humanidade. E que isso nos forma porque foi
- 33:09essa literatura canônica, branca, elitista, que formou a
- 33:13nossa forma de perceber o mundo e de se perceber também.
- 33:17Porque a gente se olhava no espelho, olhava para televisão,
- 33:20para literatura, para o vestibular.
- 33:22E o que é isso que não se comunica com a gente?
- 33:25E é muito diferente quando a gente vai pra sala de aula
- 33:27levando é vivências, uma literatura, uma estética, uma
- 33:32arte que comunique, que faz com que as pessoas se percebam.
- 33:35Então os jovens se veem na gente.
- 33:37E quando a gente tá ali como poeta, como artista e como
- 33:40profissional, a gente também cria a possibilidade de que
- 33:43essas pessoas acreditem que a arte é possível como profissão.
- 33:46Porque eu também não entendi arte como profissão?
- 33:48Claro que não. Você acha que eu, com 10 anos de
- 33:50idade, 1215, fazendo poesia na rua, eu achava que eu IA viver
- 33:54disso, que seria possível? Não, jamais.
- 33:56Mas quando a gente chega numa escola, a gente diz, é possível
- 33:58ser artista? Isso tem uma importância muito
- 34:01grande e você pode viver disso e a gente também, eu não vou
- 34:05romantizar, precisa encontrar muitas estratégias para fazer
- 34:08disso a profissão. Então eu como também uma boa
- 34:11geminiana, que faço muitas coisas, tenho pelo menos 10
- 34:15profissões, entendi também que existem.
- 34:17Profissionais multipotenciais a dores e a delícias nisso.
- 34:22Mas eu entendi que a palavra e que a poesia é a minha
- 34:25profissão, é o meu, é a minha matriz, é o meu ponto de partida
- 34:28e a partir disso eu posso trabalhar com enes
- 34:31possibilidades, inclusive como educadora.
- 34:34A minha carteira de trabalho tem 6 meses de assinada como
- 34:37professora em sala de aula. Olha só porque eu entendi que eu
- 34:40tava fazendo um desserviço ali, eu seria muito mais aproveitada.
- 34:45Seria muito mais feliz atuando em sala de aula como arte
- 34:49educadora do que de fato treinando para um vestibular.
- 34:52E fico muito feliz da mel Duarte com o trabalho dela ser
- 34:55referência e ser citada nas provas, porque isso faz com que
- 34:59a gente entenda que nosso movimento está de alguma forma
- 35:03afetando as engrenagens desse mercado do sistema e que a gente
- 35:08está conseguindo corromper e ressignificar EE fazer e
- 35:12entender que a literatura que a gente está construindo.
- 35:15Que hoje precisa estar nesses lugares e que a gente tem gerado
- 35:18demanda, porque esse público quer nos ler e se identifica com
- 35:21a gente. E isso move tantas outras
- 35:24engrenagens, que é o que sustenta a gente.
- 35:27No sentido de não desistirmos, né?
- 35:30Porque estar ali se comunicando com o jovem e saber que a gente
- 35:34pode abrir caminhos na mente daquela criança, daquele
- 35:38adolescente, é tão poderoso. Porque o mundo para mim, era
- 35:42muito limitado. Quando eu olho para a família da
- 35:46minha mãe, a família do meu pai, são pessoas que vêm de
- 35:48periferia. No caso da minha mãe, que eu
- 35:51sofri o abandono da paternidade, então eu não tenho muita relação
- 35:53com a família do meu pai, então eu puxo sempre para o lado da
- 35:55minha mãe. Mas é uma família do canavial de
- 35:58cortadoras e cortadores de cana. Então, se não fosse a palavra,
- 36:04talvez eu fosse mais uma cortadora de cana nesse mundo.
- 36:08Então a palavra também me salvou e me trouxe uma outra
- 36:11possibilidade de viver e de existir.
- 36:13E se eu puder multiplicar isso e a minha voz quando eu chegar no
- 36:16islam e poder acordar a voz de outra pessoa, fazendo com que
- 36:19ela também compreenda que ela tem muito a dizer, que a voz, o
- 36:22sentimento dela importa e que a gente gera uma rede a partir
- 36:25disso, que a partir do momento que eu escuto o mel declamar,
- 36:28isso me gera uma emoção tão grande que eu penso, caramba,
- 36:31mel é incrível. E mel falou uma coisa, EE me
- 36:34acordou isso como possibilidade, eu quero dizer também, eu vou lá
- 36:37e digo, eu acordo a voz de de outra pessoa que toma essa
- 36:40coragem também, escreve, vai lá declamar a poesia que vai
- 36:43acordar a voz de outra pessoa. E somos várias vozes existindo
- 36:46no mundo e a voz é uma ciência. Microfone é um poder muito
- 36:49grande e a gente tá tá movimentando espiritualmente,
- 36:53fisicamente, sonoramente em várias frequências.
- 36:57A nossa existência em muitas camadas, eu acho que eu vou,
- 37:00lembrei. Não, mas você falou tantas
- 37:02coisas, mas tantas coisas tão importantes.
- 37:06Eu acho muito legal quando vocês 2 trazem essa vivência na escola
- 37:09e com os jovens, justamente por aquilo que eu tava falando.
- 37:12Quando a gente pensou, já as pessoas não querem ler, as
- 37:14pessoas não querem ouvir, as pessoas não querem ter.
- 37:16Mas o que não quer ser lido, o que não quer ser escutado?
- 37:19Então, quando você traz que hoje está se criando uma literatura
- 37:22brasileira de fato, talvez a gente vai se reproduzindo
- 37:25padrões e. Antigos e padrões que talvez as
- 37:29pessoas, realmente esses jovens, essas pessoas, esse público não
- 37:32não queira mais ler, não queira chegar ou que seja chegando de
- 37:34outra forma. Então, trazer essas novas
- 37:37possibilidades, esses novos caminhos, acho que é o mais
- 37:39importante. E eu tava lembrando de uma coisa
- 37:42bem legal que a mel falou que no início, quando você começou a
- 37:44escrever, você pensava muito nas possibilidades de criar palavras
- 37:48ou palavras diferentes ou trazer um pouco, que era seu.
- 37:50E eu lembro que chegando em São Paulo, eu falei, tava
- 37:53conversando com a gente começar o podcast.
- 37:55A primeira oficina literária que eu fiz foi com Marcelino Freire.
- 37:57E o Marcelino traz muito isso, de da gente ter oralidade e da
- 38:02gente trazer as palavras que são nossas, né?
- 38:04Palavras que são da nossa família, palavras que estavam
- 38:06com a gente. Que isso?
- 38:08Traz a gente pro texto de forma diferente, que eu acho que é o é
- 38:11o que vocês fazem. E queria então entender quando
- 38:13vocês vão escrever hoje em dia, seja pra um poema, seja pra um
- 38:17livro, seja pra uma música, seja pra fazer uma performance numa
- 38:20escola, onde vocês buscam aquela tal da inspiração que as pessoas
- 38:24falam, né? É onde eu me inspiro, né?
- 38:26É onde eu vou buscar. E como vocês pensam nessas
- 38:28palavras, já que a gente tá pensando tanto em ritmo e
- 38:31oralidade? Às vezes, quando a gente tá
- 38:32pensando em escrever prosa, nem todo mundo leva isso tanto tanto
- 38:36à risca de pensar nesse. Ritmo do texto como é para vocês
- 38:40então criar esse texto e essa palavra?
- 38:42Às vezes, no jeito de falar, a aluna a gente ouve, ela já tem o
- 38:45ritmo na fala, assim já, já já vai começar a cantar, fazer uma
- 38:49performance daqui. Então como é essa busca das
- 38:52palavras para vocês do texto, para ele ficar um texto assim,
- 38:55tão bom de ouvir, tão bom de ver, bom de escutar, como é,
- 38:59como vocês que chamam muito minha atenção.
- 39:01É falar de inspiração. É uma parada maluca, né?
- 39:04Assim, porque eu acho que se tem um primeiro lugar onde a gente
- 39:07tem que desmistificar a profissão.
- 39:09Escritora é o lugar da inspiração, porque se for
- 39:12depender dela, aí vocês não põe a isso como sua profissão,
- 39:15porque assim você precisa se alimentar.
- 39:17Essa inspiração que cai do céu, né, que muita gente pensa.
- 39:19Coisa assim que existem esses momentos.
- 39:22Até porque eu acho que nós somos esponjas.
- 39:24EE, eu tenho muito essa coisa assim.
- 39:26Quem escreve tem uma sensibilidade a mais para
- 39:29observar as coisas ao seu redor. E trazer isso através de
- 39:32palavras, né? Tem acho que isso é uma coisa
- 39:35que que que vem do nosso âmago mesmo assim.
- 39:38Mas ao mesmo tempo é preciso se forçar, é preciso.
- 39:41Eu sou uma pessoa que adoro trabalhar com prazos e coisas
- 39:43assim, porque assim enquanto terminar esse daqui, já sei que
- 39:45tem outro e vou, me faço porque é melhor pra organizar a vida e
- 39:50entender que assim se eu preciso entregar esse texto, se eu tenho
- 39:52que escrever sobre esse assunto, então eu vou mergulhar nisso, eu
- 39:55vou me dedicar a isso, nem que seja tanto 20 minutos por dia eu
- 39:59vou começar a. Buscar palavras que que Eu
- 40:02Acredito que vão fazer sentido naquele texto.
- 40:05Mas uma coisa que para mim, assim como exercício, é música
- 40:08instrumental. Quando eu preciso sentar e
- 40:11escrever, isso me ajuda. A porque na minha cabeça é 1000
- 40:13palavras, 1000 mulheres aqui começa ao mesmo tempo.
- 40:15Você fala, pera aí, gente, dou uma silenciada, boto um
- 40:18instrumental e ouvir um instrumental me faz ouvir
- 40:21palavras. Então, por vezes uma linha de
- 40:23sopro, alguma coisa que algum instrumento tocou.
- 40:27Me vem uma palavra, me vem uma frase e aquilo me ajuda a sair
- 40:31de um lugar, às vezes de inércia do como começar?
- 40:33Eu tenho normalmente muita dificuldade de começar eu sei o
- 40:35que eu quero, às vezes eu sei o final, eu sei palavras, mas o
- 40:38começar, qual que vai ser o primeiro verso?
- 40:39Eu tenho muita dificuldade. Então esse tipo de exercício me
- 40:42ajuda e Eu Acredito que por nós vimos desse lugar de fato da
- 40:47oralidade, tudo primeiro é a palavra na boca, então eu
- 40:51escrevo falando voz alta, porque.
- 40:53Primeiro, para mim, precisa caber na minha boca.
- 40:56Não adianta o texto ser muito bonito ou muito bem construído,
- 40:59muito legal. Na hora que eu falar aquilo, não
- 41:02soa bem não, não ter um ritmo, não ser leve.
- 41:05Para mim, falar aí não cabe. Então é escrever falando,
- 41:08falando, escrevendo e entendendo como isso vai cabendo dentro da
- 41:12mensagem que eu quero passar. Esse para mim é um exercício
- 41:15que. Mais facilita e que me ajuda a
- 41:18entender pra onde eu quero ir assim, porque às vezes é isso.
- 41:20Eu pensei numa palavra e escrevi, quando eu vou falar, eu
- 41:23AI meu Deus, acho que ainda não é isso.
- 41:24Talvez a quebra, não seja aqui, porque qual que é o ritmo que eu
- 41:27quero dar, onde eu quero fazer a pausa?
- 41:29Então como pelo menos pra mim assim, né, apresentação eu
- 41:33quero, se eu quero trazer esse poema para a minha fala, então
- 41:36vou dar muita atenção em como eu construo ele falando em voz
- 41:39alta. Isso é uma coisa que me ajuda
- 41:41muito. E qual foi a outra?
- 41:44Coisa que você perguntou? É que a gente vai fazendo
- 41:47conexões, mas Era Eu querer mesmo.
- 41:49Como é esse processo para você? Justamente para colocar a
- 41:51palavra nesse lugar, né? Do ritmo, da oralidade.
- 41:54É legal entender que então tem esse processo ali de costura,
- 41:56né? Não é isso, chegou do céu, ali
- 41:59caiu, foi nossa, pode ser que aconteça, é ótimo.
- 42:01Pode ser que aconteça. Eu sou do teu time, mel.
- 42:07A gente fala de de experiências muito próximas assim.
- 42:09Eu sou do time de que não existe inspiração sem transpiração,
- 42:13então é suado, é? A gente tava agora lembrando
- 42:17Mário Quintana Na Na festpoa, e o Antônio Marinho lembrou a
- 42:22gente de uma fala do Quintana que perguntaram pra Pra Ele.
- 42:26Será fácil escrever? E ele disse, é, é muito fácil
- 42:29escrever. Você senta na máquina de
- 42:31datilografar e corta os pulsos, corta seus pulsos e às vezes é
- 42:39isso. Eu Acredito que criar é sempre
- 42:43uma busca e a gente dorme e acorda nessa busca que é
- 42:46ininterrupta e que é incessante e é o que nos movimenta.
- 42:52Então, na verdade, eu também aprendi com Marcelino Freire.
- 42:56Marcelino foi a pessoa que me conheceu aos 16 anos de idade.
- 42:59Eu tô com 32, então metade da minha vida tendo ele como luz no
- 43:03caminho. Ele é um grande mestre e lá de
- 43:06Sertânia, do Sertão do moxotó, em Pernambuco, e é esse planeta
- 43:10Júpiter é uma pessoa expandida demais.
- 43:13Você olha para Marcelino, você vê que ele é uma expansão.
- 43:16E aí Marcelino sempre disse que a inspiração é essa busca, mas
- 43:21que a gente precisa se arrodear dela.
- 43:23Então inspiração é você estar dentro de um espaço onde você
- 43:27tenha tudo isso ao alcance da sua mão.
- 43:30Então eu tô eu, eu geralmente fico no meu, eu sou muito
- 43:33ritualística para escrever, então é esse meu novo livro, por
- 43:37exemplo, memória, até agora, as espessas.
- 43:39Eu tô lidando com ancestralidade.
- 43:40Eu precisei puxar muito a voz da minha avó, eu tive pouca
- 43:43convivência com ela, minha avó materna, então lembrar da voz
- 43:47dela, lembrar da imagem dela. Do ritmo dela, do jeito que ela
- 43:52andava, do chiado, do chinelo. Então eu acendi minhas velas, eu
- 43:57peguei os objetos da minha avó, eu coloquei ali e eu queria
- 44:01trazer um pouco desse ritmo e eu precisava entender qual é o
- 44:05ritmo da minha ancestralidade, fazer esse movimento aliado com
- 44:09o meu próprio ritmo. Então é um processo de busca,
- 44:11onde eu precisei me cercar dessas inspirações.
- 44:14Eu não podia buscar a minha avó somente contando que ela IA
- 44:17aparecer. Eu precisava ter repertório
- 44:19disso. Então eu tô falando de uma
- 44:21região na zona da mata, por exemplo, entre a Cunha, aí da
- 44:24onde minha família vem, a minha avó foi vendida, foi entregue
- 44:26pra um casal de italianos, só por isso também ela escapou da
- 44:29da vivência ali do e do destino do canavial.
- 44:33Então eu precisei emergir nesse território.
- 44:36O que que tem nesse território, qual é a ligação que eu tenho
- 44:38com ele, é o maracatu rural. Qual é o ritmo do maracatu
- 44:41rural? Tum tum é a poesia improvisada,
- 44:47é a métrica. Então a gente tá o tempo inteiro
- 44:50fazendo muitos laboratórios, porque a vida é essa percepção.
- 44:52A gente tem que ter essa sensibilidade e essa abertura.
- 44:55E a inspiração vem daí da do seu lugar de atenção no mundo, onde
- 45:00a gente quer só ser ouvido e que é que as pessoas prestem atenção
- 45:03na gente. Qual é a atenção que a gente tá
- 45:04doando para as pessoas, para o que a gente tá escutando, para o
- 45:07que a gente tá vivendo, para os territórios?
- 45:10Para que a gente possa fazer algo que não seja somente sobre
- 45:12nós, mas que seja sobre todos, sobre o mundo, sobre essa
- 45:15vivência, sobre esse lugar. Então me cerquei e me cerco
- 45:18muito disso. E eu sou obsessiva com as
- 45:21palavras. Eu desapareço do mundo, eu me
- 45:25tranco. E eu tava escutando muito o que,
- 45:27mestre Anderson Miguel escutando muito Maciel salu, escutando
- 45:31muito Beth de Oxum, escutando muito coco, escutando muito
- 45:34cavalo-marinho. Para me impregnar desse ritmo,
- 45:37para mim impregnar dessa pulsação, para me impregnar
- 45:41desse mar de cana que é diferente do litoral.
- 45:44Onde eu nasci é outro mar, é um outro vento, o som das
- 45:48Queimadas. E fazer uma pesquisa mesmo,
- 45:51entender que a minha família vem de um lugar que é 25 BRL 1 t de
- 45:56cana para você fazer um salário mínimo.
- 45:58Quantas toneladas você tem que cortar?
- 46:02E precisei pisar nesse território, reconhecer minha
- 46:05família. Então é escrever, é viver.
- 46:08Por isso que escrevivência elucidou tanto pra mim o que a
- 46:11gente faz? Porque a nossa escrita, ela
- 46:14passa pelo nosso corpo. Isso me faz lembrar, por
- 46:17exemplo, de katiuscia. É um processo.
- 46:20Que pode ser racional, que pode ser lógico, que pode ser
- 46:23cartesiano, pode ser milimetricamente pensado.
- 46:26Mas para mim, isso vem associado com o corpo aberto.
- 46:29Para mim, que sou de axé, que sou de terreiro, tenho que abrir
- 46:31o corpo também e entender como é que eu evoco essas entidades
- 46:36para me ajudar. Porque se tiver inspiração, quem
- 46:39tem que evocar essa inspiração sou eu.
- 46:40Tenho que puxar para perto, entendeu?
- 46:43Então é todo um movimento que a gente precisa fazer pra que
- 46:46essas vozes que nos habitam, elas se materializem.
- 46:50E teve 1 hora que eu tive muito medo das vozes e das palavras
- 46:53que poderiam vir, porque a gente também tem medo do que a gente
- 46:58evoca, né? Nesse processo de inspiração, de
- 47:01abrir o corpo pra receber. Então eu já tive momentos muito
- 47:06diversos, mas a ideia de cardiografia do saber.
- 47:11Que katiuscia fala muito como a pensadora não ocidental, me
- 47:17elucidou sobre o processo de criação.
- 47:19Porque também é pensar com o coração, é pensar com a emoção,
- 47:22é pensar com a vivência, é pensar com a intuição, é evocar
- 47:26essas energias, é se colocar no lugar de vulnerabilidade, de
- 47:30risco, é viver primeiramente, o que você quer dizer para que
- 47:35seja verdadeiro? Então esse encontro com o ritmo,
- 47:39com a palavra, também tem esse lugar da Ladainha, como o
- 47:41Marcelino fala, a gente tá rezando a nossa poesia o tempo
- 47:45inteiro Pra Ela poder caber na nossa boca, ter esse ritmo.
- 47:48E ela é uma prece, ela é uma reserva e ela é uma alucinação e
- 47:51ela é um delírio, e ela é uma evocação, e ela é essas vozes
- 47:54ancestrais e ela é essa catarse. Quando eu vejo eu todo No No
- 48:02quarto. A rodeada de livros e com tantas
- 48:05entidades, com tantas referências, escutando tantas
- 48:08horas, tem hora que eu acho que eu estou até endoidando, mas é
- 48:11isso. É um processo que ele é lúcido
- 48:13até 7 ponto, né? Podem chamar a gente de doida,
- 48:17então tem esse lugar do racional, mas tem esse lugar do
- 48:19espiritual, tem esse lugar do cardiográfico, do ritual, da
- 48:23portação, do coração, do mas é isso também, ler em voz alta,
- 48:28escrever em voz alta, entendeu que não funciona?
- 48:31E no aquém da meu primeiro livro, tem vários poemas que eu
- 48:33nunca declamei, porque não funciona para declamar, funciona
- 48:37para ler, mas o memória tem agora as expensas.
- 48:40É um poema longo, um único poema, mas que eu fiz ele
- 48:43pensando partes por partes, para que ele funcione também,
- 48:46independentemente um trecho, um poema, um texto ou ele inteiro,
- 48:49enfim, porque a gente é da cena. A gente não pensa só o livro, a
- 48:53gente pensa o livro, a gente pensa o disco, a gente pensa o
- 48:55espetáculo, a gente pensa os vídeos.
- 48:59É muita coisa para pensar. E eu acho muito legal vocês
- 49:02permitirem esse espaço de ter essas essas múltiplas vivências
- 49:06artísticas, porque você estava dizendo 1 hora, Ah, eu sou isso,
- 49:08só aquilo, não sei o que. E teve uma época que muita gente
- 49:11falava, não, você tem que focar aqui.
- 49:12Não somos da geração de especialistas?
- 49:15Exatamente, nós somos muito potenciais.
- 49:17E falava, ou você foca aqui para fazer uma coisa direito ou você
- 49:19não vai fazer nada direito. Eu sou totalmente.
- 49:21Eu discordo muito disso, porque eu acho que é isso que vocês têm
- 49:24mostrado, que a palavra ela vai ocupar esses diferentes espaços
- 49:27e vocês vão permitir que ela vá se.
- 49:29Expandindo, né? A partir de um de um ponto
- 49:31inicial. E eu queria entender com vocês
- 49:33que estão nesse espaço tão diferente.
- 49:35Então como é para transitar por isso, para esse lugar ali do
- 49:38quarto da música, do ritual, que é uma coisa um pouco mais da
- 49:40escrita, mas você e você mesmo, e depois tá no palco, às vezes,
- 49:44como você falou, a mel é, Ah, eu queria inclusive tá ali fazendo
- 49:47um show pra ter gente comigo, ter música, ter banda, ter gente
- 49:50cantando. Como é sair desse espaço que às
- 49:53vezes do arquétipo anterior do escritor, que a gente pensava
- 49:56que era sempre o escritor no seu escritor?
- 49:59No seu sofá, sempre muito solitário para estar nesse
- 50:01espaço da performance. Como vocês conseguem transitar
- 50:04por essas 2 energias tão diferentes às vezes?
- 50:08Ó, eu vou falar por mim. Eu sou uma pessoa muito do
- 50:10coletivo e desde muito cedo eu percebi que o coletivo é o que
- 50:14me movimenta, é o que alimenta o que dá.
- 50:17Áries assim e entendendo que assim também coletivos são.
- 50:21São momentos, né? Por isso, já também comecei, já
- 50:24saí, já começou, já saí porque eu acho que também são cíclicos
- 50:27a entender que momento que você cabe naquilo e o quanto você
- 50:29está fortalecendo aquilo e vice versa e abrindo espaço para
- 50:32outras pessoas, né? É EE.
- 50:35Estar em coletivo sempre foi algo muito.
- 50:38Que me faz brilhar os olhos assim, sabe?
- 50:40Porque a gente vai se alimentando ali também, né?
- 50:42Conforme a gente está trocando com as outras pessoas.
- 50:44Justamente por ter passado um processo muito solitário com
- 50:47essa coisa da literatura, na escrita, de descobrir tudo, foi
- 50:50muito solitário. Demorei muito para começar a
- 50:52encontrar. Outros iguais, outras irmãs
- 50:55nesse processo. Então, quando eu encontrei, eu
- 50:57falei, eu não quero mais soltar, mas ao mesmo tempo, né?
- 51:00Somos pessoas individuais e você tem que fazer os seus trabalhos
- 51:02ali. E chegou um momento da minha
- 51:03vida que eu não aguentava mais fazer trabalho sozinho.
- 51:06Pensa assim, sabe como mel Duarte já me enfia em cada lugar
- 51:09de fazer cada coisa em cada canto do mundo assim.
- 51:12Cada aventura, cada coisa que colocou a gente, que você fala
- 51:16uma coisa de uma amiga minha que.
- 51:19Sala minha, uma amiga minha que falava, eu não aguento mais
- 51:21trabalhar em quintal, não quero mais trabalhar em quintal, em
- 51:23quintal. Porque às vezes eu tinha essa
- 51:26sensação e falava, nossa, gente, é muito doido.
- 51:28Como ao mesmo tempo que a gente vai chegar às vezes numa cidade,
- 51:30vai se apresentar num teatro, numa escola.
- 51:32Mas até esse momento acontecer, você saiu da sua casa, você tá
- 51:34sozinha, você foi pronta. É muita coisa sozinha.
- 51:37E mesmo que você esteja lá, você continua sozinha na frente de
- 51:40todas aquelas pessoas. E chegou a me dar uma coisa
- 51:42assim, eu quero poder fazer mais coisas com mais pessoas, né?
- 51:47Onde mais eu posso crescer, né? Com mais pessoas.
- 51:50E a coisa da música é exatamente esse movimento.
- 51:52Aqui eu consigo trazer outras pessoas pensantes que vão me
- 51:55ajudar a construir outras ideias, outra forma de existir
- 51:59no palco, porque é diferente a. Da performance poética, da
- 52:03performance musical Luna atrás dançarinas, eu vi O Show da
- 52:07Luna, eu vi a Luna com dançarina, eu falei, gente, a
- 52:09Luna paloooza a Lula festival, como que vocês não contratam
- 52:13essa mulher pra fazer esse show maravilhoso?
- 52:15Porque isso é você já se explorando num outro lugar, na
- 52:18dança que eu acho muito legal. Então quando a gente leva o pau,
- 52:21quando você pensa num num figurino, quando você pensa num
- 52:24jogo de luz, né? AI eu vou querer tais pessoas
- 52:27pra minha banda, quero cada um é todo um.
- 52:30Todo um cuidado. Eu sei que não é que nem eu
- 52:32gosto de um conceito, eu amo um conceito.
- 52:33Amo. E desdobrá lo então.
- 52:37Nossa, gente, não me dá vixe ideia assim que é o japá.
- 52:40Pera aí, então a gente vem daqui que vai pra cá e tudo.
- 52:42Pode ser que pra quem assista, pra quem você não faça sentido
- 52:45nenhum, não entendeu nada? Mas pra mim tudo tem que ter um
- 52:47conceito, um começo, meio e fim, sabe?
- 52:50Assim na minha cabeça tem que fazer muito sentido pra eu
- 52:53conseguir entregar para as pessoas e ter essa possibilidade
- 52:56com a música. Foi algo muito gostoso, muito
- 52:59divertido. Ao mesmo tempo que é assustador,
- 53:01porque é outro universo, é, é muito doido, né?
- 53:04Porque são coisas muito diferentes mesmo, porque No No
- 53:07estar sozinha também a gente, a gente dá um jeito, a gente mete
- 53:12um louco, a gente improvisa. Agora, quando você já está com
- 53:15uma banda que você tem ali, um beach rolando, que você tipo
- 53:19assim, se eu errar essa palavra aqui, o andamento já foi, eu
- 53:21tenho que recuperar ela lá na frente, eu não posso.
- 53:23E aí já são muitas outras coisas para você prestar atenção.
- 53:26Mas ao mesmo tempo, isso é muito legal também, porque tá nesse
- 53:29outro desafio, né, de construção, de pensar o que, o
- 53:32que passar para o público. Eu eu lancei o humor massa em
- 53:362019. Ano passado eu lancei o coméia,
- 53:37que são alguns poemas do meu do meu livro mais recente,
- 53:40musicalizados, e agora eu tô fazendo um show que é meio a
- 53:42meio e são algos completamente diferentes.
- 53:45O humor massa é uma energia completamente do amor, da
- 53:48tranquilidade, é jazz, é soul, e o coméia, ele vem lá em cima, é
- 53:53trep, é funk. E aí agora eu estou nessa
- 53:56energia também, de, sabe? Entender como que eu chego numa
- 53:59energia para as pessoas, como que eu vou para outro lugar,
- 54:02como que eu, como que a gente vai fazendo as pessoas sentirem
- 54:04isso também, né? Multiplas personalidades.
- 54:07Múltiplas. E é muito legal a gente se
- 54:09descobrir nesse lugar. Tem certas coisas que a gente só
- 54:11vai entender de fato o quanto a gente é capaz de fazer fazendo
- 54:14exato. E é muito legal.
- 54:17Se ver fazendo, né? EE desabrochar pra outros
- 54:21lugares assim eu acho que ter ter isso que eu falei, né, dessa
- 54:24questão da palavra ser muito flexível põe a gente em desafios
- 54:27que são muito legais e ao mesmo tempo que é a gente precisa ter
- 54:31essas 1000 funções. É porque a gente gosta de se
- 54:33experimentar ousadas, abusadas mesmo, mas porque também a gente
- 54:37precisa, né? Garantir nosso pão de todo mês
- 54:41assim. Então eu percebo muito que eu
- 54:42sou essa pessoa assim, ao mesmo tempo que eu sou muito criativa,
- 54:45eu também. Entendo muito a questão do
- 54:47mercado. Então eu preciso pensar, se hoje
- 54:50o livro físico não está rolando, então amanhã o que é é a música,
- 54:54então é a performance, então é semestre de cerimônia, então é
- 54:56ser apresentadora. Então é entender todos esses
- 54:59lugares onde a gente consegue caber.
- 55:01A nossa arte também tem um lugar de produto, então quais são os
- 55:04produtos que eu tenho? Como é que eu precifico?
- 55:07Como é que é? Inflexível de alguma forma, né?
- 55:09Sem? Conseguir se adaptar é e ter
- 55:11essa adaptabilidade. Que eu amo.
- 55:17E eu acho que isso faz com que a nossa arte também alcance mais
- 55:21pessoas assim, sabe? Então é gostoso se permitir, se
- 55:24desafiar. Acho que quando a gente fica no
- 55:27mesmo lugar, nessa zona de conforto, a gente para de.
- 55:30De emocionar as pessoas, sabe? Assim, e acho que.
- 55:34Se emocionar também, que é essencial pra gente seguir, né?
- 55:37De ter essa vontade. Então quando você começa a se
- 55:39testar e vai entendendo que vai chegando em outros lugares,
- 55:41poxa, nunca pensei em caber aqui, porque eu nem sabia que
- 55:44era possível. Mas agora que eu cheguei aqui,
- 55:45eu vi que que funciona. Então eu vou continuar
- 55:48alimentando esse lugar também, porque tem me feito bem.
- 55:51E eu sinto que é recíproco assim, né?
- 55:53Eu acho que pra gente que é artista.
- 55:54É gostoso em mostrar para o público suas diversas faces.
- 55:58É legal quando as pessoas conseguem ver isso também, ver
- 56:01Oo tamanho da artista que aquela figura pode chegar a ser.
- 56:05Ainda agora ela já é imensa, mas ela ainda pode ser muito mais
- 56:08assim. Eu vejo esse movimento
- 56:09acontecendo com muitas de nós. Muitas de nós se se testando,
- 56:13explorando, e que bom que hoje a gente pode se explorar e que bom
- 56:16que a gente pode se acessar e perguntar e trocar, porque já
- 56:20foi um momento tão solitário, né?
- 56:21É muito bom ver tantas mulheres produzindo coisas incríveis,
- 56:25sabe? Assim, pensando estando na linha
- 56:27de frente, produzindo, escrevendo, filmando, eu fico
- 56:31assim cada vez mais encantada de ver o batalhão de mulheres que a
- 56:34gente tem. Quando a gente quer produzir uma
- 56:35parada, eu falo, eu quero trabalhar com essas mulheres e
- 56:38elas. Elas estão ali, eu posso contar
- 56:41com elas, eu posso pedir uma dica, eu posso pedir pra ler um
- 56:43texto, ver faz aqui, né? 11 comentário crítico ou vem
- 56:46fazer comigo, porque eu não quero fazer sozinho.
- 56:48Acho que hoje a gente ganhou muito nesse aspecto assim de
- 56:51poder se reconhecer e se utilizar.
- 56:54Adoro utilizar os tênis das minhas amigas.
- 56:56E nós somos essencialmente pessoas de comunidade total,
- 57:00ancestralmente fisicamente, intelectualmente, enfim, de de
- 57:06diversas maneiras. A gente, inclusive, vem
- 57:09construindo isso, reconstruindo isso com mais consciência, né?
- 57:14Então eu concordo com tudo que você que você falou mais uma
- 57:16vez, eu assino embaixo e aí eu vou.
- 57:19Eu vou falar de um lugar mais subjetivo.
- 57:21Assim, além de sermos pessoas de comunidade, eu sou geminiana.
- 57:25Com uma pessoa geminiana, eu já diz muita coisa, já diz muita
- 57:28coisa, mas eu gostei de gente, estereótipo.
- 57:30Olha aí, então você vai vai entender como geminiana.
- 57:33Eu sou uma pessoa extremamente sociável e adaptável e um vento
- 57:39espalhado. Tudo isso ao mesmo tempo.
- 57:43Também sou uma pessoa. Essencialmente silenciosa.
- 57:49Eu preciso me relacionar com o silêncio, com esse lugar do
- 57:53íntimo, com esse lugar que é de recarregar as energias e, de
- 57:57certa forma, é até um isolamento.
- 58:00Então eu tenho essas 2 versões. Não que os meninos sejam pessoas
- 58:03inconstantes e sei lá o que dizem das pessoas de gêmeos.
- 58:06Eu discordo de todos esses estereótipos, mas não é que a
- 58:09gente seja 2 faces. Mas é que existem muitas
- 58:13energias que nos atravessam. Somos eu sou uma pessoa que me
- 58:16reconheço como várias, como muitas como múltipla, e me sinto
- 58:20feliz de conseguir trazer essas personas em diferentes contextos
- 58:25e momentos. E todas as minhas personas se
- 58:27realizam fazendo tudo que fazem em lugares diferentes, de formas
- 58:30diferentes, né? Então eu tenho meu momento de
- 58:32isolamento, meu momento de silêncio, de criação individual,
- 58:37onde eu realmente ritualizo e preciso criar uma atmosfera.
- 58:41Com uma conexão que precisa de espaço, EE entender os limites
- 58:46mesmo de até onde o espaço sou eu comigo mesma, com as várias
- 58:51de mim e com a minha espiritualidade e que outros
- 58:54lugares. São esses que eu ocupo, que eu
- 58:56consigo expandir, porque realmente somos pessoas de
- 58:59comunidade, somos pessoas colaboradoras, somos seres
- 59:02humanos. E o ser humano, em essência, ele
- 59:04não era um. Ele não é um ser que sobrevive
- 59:07sozinho, ele é um ser que que constrói a partir das relações,
- 59:10inclusive a nossa comunicação é isso.
- 59:12A nossa linguagem se desenvolve a partir da necessidade de se
- 59:15comunicar com outra pessoa, porque a gente pensa, sente, mas
- 59:18a gente quer expressar. A gente só se expressa quando
- 59:22tem mais alguém para comunicação acontecer.
- 59:24Isso é a base da teoria da comunicação e da linguagem, da
- 59:27filosofia da linguagem. Quando a gente entende sobre
- 59:29emissor, o receptor e todo aquele modelo de transmissão de
- 59:33comunicação. Então a gente só existe se for
- 59:34com outro sendo só a gente. A linguagem ela fica incompleta,
- 59:40né? Como ação?
- 59:41EE, toda EEO falar é agir, né? Acho que é baktinho falar isso.
- 59:46Enfim, falar já é agir. Então, a partir do momento que a
- 59:49gente escreve o que a gente fala, a gente já está agindo do
- 59:51mundo e a gente age em sociedade.
- 59:53Então eu penso muito por esse caminho quando eu saio da
- 59:57palavra elaborada na escrita, desse processo criativo de
- 1:00:01isolamento, da poesia em si. Eu escrevo para dizer, eu
- 1:00:07escrevo para emocionar, eu escrevo com intencionalidade.
- 1:00:10Eu não escrevo para mim. Repito, isso não é sobre.
- 1:00:13Eu posso falar sobre mim em algum lugar porque aquele tema,
- 1:00:17minha travessa, porque é a vivência e é o meu corpo no
- 1:00:19mundo. Mas eu estou escrevendo para que
- 1:00:21as outras pessoas se identifiquem.
- 1:00:22Eu tenho essa intenção muito elucidada na minha cabeça.
- 1:00:26Então, na hora que eu estou dizendo que eu estou fazendo
- 1:00:28pausas, que eu estou usando entonações específicas, eu estou
- 1:00:31querendo acessar as pessoas num lugar em que eu pensei acessar e
- 1:00:35que eu quero mover uma emoção específica.
- 1:00:38Se eu quero fazer a pessoa chorar, se eu quero fazer a
- 1:00:40pessoa rir, eu estou com intencionalidade ali.
- 1:00:43E na hora que eu quero expandir isso, eu preciso de outras
- 1:00:46energias que colaborem comigo para criar essa
- 1:00:48intencionalidade. Então, o aquenda que eu
- 1:00:51transformei em show. Eu trago dançarinas porque é o
- 1:00:55seguinte, eu, eu. Antes de fazer isso, eu fiz uma
- 1:00:58circulação pelo Sesc no da palavra de poesia.
- 1:01:01Dançada com a minha parceira Anne, que tá comigo no aquenda.
- 1:01:05E foi muito bonito experimentar isso de dizer a poesia e ver
- 1:01:09Anne, que é da dança contemporânea, da dança afro,
- 1:01:12trazer as palavras em movimento e gesto.
- 1:01:14Porque também antes de som somos corpo.
- 1:01:17Quer dizer, antes da palavra escrita, nós somos som e somos
- 1:01:21corpo. É o lugar da dança, dessa
- 1:01:23gestualidade e tal. Antes da compreensão lógica, tem
- 1:01:27esse lugar simbólico também. Então, quando eu vi Anne
- 1:01:30dançando e eu senti isso, eu pensei, caramba, quando eu
- 1:01:33gravar o disco, eu não só quero dialogar com o mercado e fazer
- 1:01:37algo pop e musical, como eu quero trazer esse lugar
- 1:01:40simbólico do corpo, para que isso comunique de outra forma e
- 1:01:44fazer com que as pessoas dancem a palavra, que dancem o poema.
- 1:01:50E aí eu tô falando de uma coletividade que é a banda, mas
- 1:01:52que é o público, que é. Como isso chega?
- 1:01:55E isso tem algumas complexidades pelos temas que eu trabalho.
- 1:01:58No acenda, as pessoas querem dançar porque tem o brega funk,
- 1:02:02tem o pop, tem coco, tem maracatu, é um disco que
- 1:02:05atravessa muitos ritmos, que são os ritmos que fazem parte da
- 1:02:08minha construção. Então, assim, eu sou de
- 1:02:11periferia, vai ter o brega funk. Eu sou minha família, vem na
- 1:02:15zona da mata, vai ter maracatu. Então você escuta, você diz, meu
- 1:02:18Deus, que que disco é esse, né? Mas é isso, como é que eu quero
- 1:02:22que o público também se emocione, como é que o corpo vai
- 1:02:25se comportar, quero que as pessoas dancem a palavra, mas ao
- 1:02:28mesmo tempo eu estou falando de violências físicas, verbais,
- 1:02:30psicológicas, estupro, assédio, como é que se dança um assédio?
- 1:02:34Como é que que as pessoas, então algumas pessoas.
- 1:02:37Querem se mexer e elas travam porque estão prestando atenção
- 1:02:40na palavra e tem um constrangimento em dançar, mas
- 1:02:42isso é experimentação também. E as pessoas às vezes estão
- 1:02:46dançando uma letra de funk homofóbica, misógina, mas não
- 1:02:51estão processando a informação. Mas quando eu trago isso a
- 1:02:54partir da literatura, eu estou fazendo isso de uma forma
- 1:02:56elaborada, de modo que as pessoas dizem, eita, está
- 1:03:00experimentando agora em um outro lugar e faz, meu Deus, e agora,
- 1:03:03quem? Complexa.
- 1:03:04Então é isso. Assim, eu acho que fazer arte é
- 1:03:07pensar no coletivo, essencialmente também, porque a
- 1:03:09gente tá fazendo para outras pessoas.
- 1:03:11A gente quer que as pessoas sintam que as pessoas se
- 1:03:13emocionem. Não existe a possibilidade de
- 1:03:16estar num mundo só e poder contar com a percepção, com a
- 1:03:19perspectiva, com a energia, com as potencialidades e das outras
- 1:03:24pessoas para criar algo junto é muito foda.
- 1:03:29Então a gente sai da palavra para uma construção criativa,
- 1:03:32coletiva, que você está lidando com a existência de todas as
- 1:03:34outras pessoas que vão contribuir com aquilo.
- 1:03:36Não é sobre você mais uma vez, é sobre todo mundo.
- 1:03:41Nossa, gente, que demais. Eu vi você.
- 1:03:42Infelizmente eu olhei ali. Já se passou 1 hora.
- 1:03:45Já. Olha só que eu estou amando
- 1:03:47vocês e é e principalmente que hoje, por mais que esteja nesse
- 1:03:50lugar, mais do livro, mais ali, solitário escrevendo é.
- 1:03:54Eu me apaixonei pela palavra e pelo texto através do teatro.
- 1:03:56Sou das artes cênicas, fiz teatro a vida inteira, desde
- 1:03:59criança. Então o meu interesse pela
- 1:04:00leitura veio de ler dramaturgia, como é turma de teatro.
- 1:04:03E aquilo era tão incrível, tão bom, tão gostoso que eu quis
- 1:04:07começar a ler e começar a escrever mais ainda.
- 1:04:09Então acho que foi o mais legal de escutar vocês conversando,
- 1:04:12falando, trazendo essas experiências hoje.
- 1:04:15A gente lembrar que existem muitos caminhos, muitas
- 1:04:17possibilidades e foi incrível mesmo.
- 1:04:19Eu ficaria aqui mais 2 horas ouvindo vocês, gente, muito
- 1:04:22obrigada mesmo. E aí antes da gente encerrar é
- 1:04:25fala, como é que a gente encontra vocês nas redes?
- 1:04:28Onde que a gente busca o trabalho de vocês, que que
- 1:04:30arroba, que a gente pesquisa, vamos divulgar?
- 1:04:32Boa. O meu arroba é mel Duarte,
- 1:04:34poesia. E você acha mel Duarte, poesia
- 1:04:36em todos os lugares. É todas minhas redes sociais e
- 1:04:39tem meu site também, www.melduartepoesia.com.br.
- 1:04:43Por lá eu vim dos meus livros, tem também outros serviços que
- 1:04:46eu faço. Tudo organizadinho.
- 1:04:49Não tem desculpa para me achar, Hein?
- 1:04:50Para me contratar, é isso. Aí eu vou ser bem enxerida,
- 1:04:54porque eu vejo a mel muito pouco e eu queria muito escutar um
- 1:04:59poema da mel junto com essa divulgação das redes.
- 1:05:02Seria incrível. Então, sempre atento para a
- 1:05:04poesia, por favor. Mas que?
- 1:05:10Aí depois eu também digo minhas redes e digo mais uma poesia.
- 1:05:13É curtinho, a gente fecha uma conversa de poesia sem poesia.
- 1:05:18É verdade, né? Mas tem razão.
- 1:05:20E eu IA pedir. Só que eu fui escutando vocês e
- 1:05:22gostando tanto que eu eu olhei ali, Oo reloginho.
- 1:05:25Eu falei, meu Deus, passou 1 hora ainda tinha tanta coisa
- 1:05:28para falar. Mas vou aproveitar então que a
- 1:05:30gente tava falando do da Fuvest de escola e vou ler o bem-vinda
- 1:05:34que é o poema que que caiu é maravilha, poema que eu tenho um
- 1:05:38carinho muito grande também. Ele fala assim.
- 1:05:42Eram faíscas. Suas palavras que me queimavam
- 1:05:44em doses homeopáticas durante todas as noites.
- 1:05:48Foram longos anos, dia após dia, perdendo um pouco mais a minha
- 1:05:52autoestima, abrindo mão das roupas que gostava, dos estudos,
- 1:05:57do trabalho e das amigas, fazendo de tudo para evitar
- 1:06:01brigas. Mas ele sempre dizia que a culpa
- 1:06:04era minha. Até que um dia.
- 1:06:07Me empurrou, me acuou, como se eu pudesse caber em qualquer
- 1:06:11fresta. Encurralada, me mandou ficar
- 1:06:14calada e com medo, obedeci. Eu pedia desculpa toda vez
- 1:06:21depois de falar, como se fosse um defeito de nascença querer me
- 1:06:25colocar. A minha casa se tornou um
- 1:06:27ambiente tão hostil e eu prisioneira das minhas próprias
- 1:06:31ideias acreditando que o amor era isso.
- 1:06:35Esse abismo onde só um fala e o outro ficou misso.
- 1:06:40Precisei tirar forças de lugares sagrados para me afastar e
- 1:06:44reagir e recolher meus pedaços. Meus olhos encheram de mar, eu
- 1:06:49desaguei, decidi não mais calar, denunciei e depois do silêncio
- 1:06:55quebrado, meus pensamentos em guerra cessaram.
- 1:06:58Recuperei o fôlego e ouvi meu coração sendo grato.
- 1:07:02Encontrei em mim um Porto Seguro, entendi que meu corpo é
- 1:07:06meu lar e no caminho até ele, escolho quem anda comigo e quem
- 1:07:11convido para entrar. Hoje, quando olho para dentro,
- 1:07:15vejo uma nova mulher renascendo. Eu celebro sua chegada e
- 1:07:19contemplo essa nova vida. Sem medo, abro a porta de casa e
- 1:07:24com o olhar de quem há tanto tempo esperava, te pego pela mão
- 1:07:29e digo, seja bem-vinda. Ah, você é maravilhosa.
- 1:07:34Meu guarde, te admiro, irmã maravilhosa, bom pra vocês me
- 1:07:38encontrarem, Luna vitrolira, vocês podem ir no Instagram, em
- 1:07:42todas as redes sociais, no Facebook, no TikTok, arroba Luna
- 1:07:46vitro Lira, é isso, e se vocês forem também no YouTube, vocês
- 1:07:50vão achar o meu álbum visual do acunha do amor.
- 1:07:52Às vezes é isso que é o filme e também na plataforma de
- 1:07:55streaming da sua preferência, você pode escutar o álbum
- 1:07:58também. O acunha do amor às vezes é
- 1:08:00isso, eu estou com um novo lance.
- 1:08:01O pensamento que é o memória tem com as espessas, que tá saindo
- 1:08:04pela diadorim, a editora diadorim, que é o meu novo
- 1:08:07trabalho, que vai também se transformar num disco que eu vou
- 1:08:09começar a gravar em breve e que eu vou prensar em vinil.
- 1:08:12E eu estou muito feliz porque teria uma bolacha de poesia,
- 1:08:16recuperando aí uma história da da poesia falada prensada nessa
- 1:08:21bolacha. E quero terminar também aqui com
- 1:08:25um poema do memória tem com as espessas, onde eu digo eco do
- 1:08:29porões do navio. Estão a dar com pau por onde
- 1:08:32quer que eu passe. O mundo me parece meio
- 1:08:34esclarecido. Mercado negro, magia negra,
- 1:08:38buraco negro, ovelha negra, peste negra.
- 1:08:42Mas que negro bonito, da cor do pecado, de traços finos.
- 1:08:47Alguém disse de peito cheio, como se fosse elogio, me
- 1:08:50respeita que eu não sou tuas, nega seu nego safado.
- 1:08:55E se a vista não parece claro, decerto foi denegrido como o
- 1:08:59pente dente fino que não passa na carapinha, no mafuá, na
- 1:09:03piaçava, quando a coisa fica preta, arma branca não mata.
- 1:09:09Cuidado com a lista negra. Inveja branca está liberada.
- 1:09:13Se a galinha for preta, tem macumbeira na área.
- 1:09:16Mas a pomba, a pomba branca exaltada, eu é que sou mulata,
- 1:09:21filha de meia tigela sem era nem beira nasci com os pés na
- 1:09:24cozinha e o samba do Criolo doido nas pernas eu é que sou
- 1:09:29mulata, filha de meia tigela, sem era nem beira nasci com os
- 1:09:33pés na cozinha e o samba do Criolo doido nas pernas eu sou o
- 1:09:38sonho da minha mãe minha mãe é o sonho da minha vó, minha vó pode
- 1:09:42ter. Sido o sonho da minha bisa.
- 1:09:44Minha bisa pode ter sido o sonho da minha tatara, minha tatara.
- 1:09:47É um sonho que não sei como tudo isso que veio antes, mas eu, eu
- 1:09:53sou o sonho da minha mãe. Nossa gente, maravilha.
- 1:09:58E assim a gente encerra esse episódio incrível.
- 1:10:01Obrigada Luna. Obrigada mel, obrigada.
- 1:10:03Adorei ter a presença de vocês aqui de verdade.
- 1:10:08Tchau gente. E até a próxima tchau.
- 1:10:14Gente, foi incrível. É de verdade.
- 1:10:17Eu olhei para o relógio.