Latest / E se...? / E se a solidão fosse apenas o sintoma?
Transcript
- Pedro Figueiredo: Olá, bem-vindo aqui a mais episódio do podcast de E se...? O meu nome é Pedro Figueiredo. O tópico de hoje é solidão. É uma palavra que vamos ouvindo com cada vez mais frequência. ⁓ de ser ⁓ mundo que está cada vez mais ligado, como se costuma dizer, a verdade é que nós sabemos, porque está estudado, que cada vez mais pessoas a sentir-se solitárias e as consequências disso a nível... mental, a nível de taxas de suicídio, tem vindo a aumentar e portanto porque é ⁓ problema, porque está relacionado com a nossa saúde, vale a pena pensar, refletir, filosofar ⁓ pouco acerca disso. Começo mais uma vez e nunca hei de se calhar de me cansar de voltar a batalhar sobre esta questão que para mim é primordial, que é a biologia. Nós temos ⁓ cérebro, como já foi referido ⁓ vários episódios anteriores, que é o nosso maestro para gerir todo o nosso organismo, entre vários órgãos que nós temos, entre vários sistemas. Tudo isto tem que estar a funcionar minimamente ⁓ equilíbrio para nós podermos dizer que estamos bem, que estamos com saúde. E o nosso cérebro faz isso acima de tudo tentando... gerir a energia que é necessária para essas diferentes ações, esses diferentes mecanismos que os nossos sistemas implicam. E então, como é que ele faz isto? Acima de tudo, a estratégia mais básica que ele tem é tentar antecipar o que irá acontecer. Porque uma vez sabendo ou minimamente sabendo aquilo que irá acontecer, sabe o que é que é necessário fazer e por isso gere de uma forma melhor os seus recursos, a sua energia. Nós percebemos que, se calhar, a situação de uma forma geral, que implica sempre, ou irá implicar sempre, o maior gasto energético é a situação ou as situações desconhecidas, quando nós não temos a certeza, quando nós desconhecemos por completo algo, porque não sabemos, porque nunca fizemos, nunca ouvimos falar, nunca vimos. Então, aí sim... Nós vamos gastar muita energia, neste caso, como é óbvio, principalmente, estamos a da energia requerida a nível mental, porque qualquer esforço físico também requer energia e qualquer coisa que os nossos órgãos estejam a ⁓ requer energia. Portanto, há de facto aqui uma série de fontes de gasto energético... E portanto temos mesmo que ter ⁓ cérebro a funcionar de uma forma muito eficiente para gerir todo esse gasto. De uma forma geral nós podemos inclusive tentar ver as coisas da seguinte maneira. O cérebro vai sempre procurar prazer e atenção que prazer muitas vezes nós estamos habituados a associar se calhar simplesmente a comer açúcar ou isso mas não. Ele obtém prazer nem que seja porque sabe e já domina algo, porque vai fazer algo que gosta, por qualquer coisa. Portanto, há muitas fontes de prazer, mas normalmente todas elas estão associadas ao facto de o cérebro já ter experienciado isso, já saber para o que é que vai e por isso está tudo bem. Ao mesmo tempo, ele vai sempre procurar evitar a dor. Lá está a dor do que ele ainda não sabe. daquilo que pode causar realmente dor física, da dor de ter que pensar ⁓ algo que é complexo, de ir para algo desconhecido. De uma forma ou uma forma temos estas duas categorias pelas quais o cérebro se rege, vai querer sempre mais prazer e sempre menos dor, para não dizer, nunca se ele pudesse escolher provavelmente. Então entrando aqui a sério no nosso tópico de hoje que é a solidão e colocando já aqui a nossa hipótese que é e se a solidão for apenas ⁓ sintoma? Porque estamos habituados a ouvir falar dela como ⁓ problema. A solidão leva a isto, mas a solidão provavelmente já acontece por causa de algo, porque a solidão acaba por ser ⁓ comportamento. Eu isolar-me, eu sentir-me sozinho é uma consequência de algo. Portanto, talvez seja apenas sintoma. Não temos que propriamente pensar no sintoma. Queremos aliviar-lo, mas temos que ir direto ao cerne da questão. E isto é como qualquer outro comportamento, porque nós já percebemos que os nossos resultados derivam dos nossos comportamentos e os nossos comportamentos derivam das nossas decisões que derivam dos nossos pensamentos. Logo, a solidão vai se encaixar aqui neste processo, neste flow, que é já aqui o resultado. A solidão depois leva a qualquer coisa, mas ela é o comportamento. derivado de uma decisão nossa que é isolarmos. De uma forma pode parecer não intencional, mas nós decidimos isolarmos ou sentirmos-nos assim porque temos ⁓ ou vários pensamentos que originam este comportamento. Também acho que é interessante, na verdade, ainda de irmos ao cerne da questão de perceber o porquê de nós sentirmos solidão, ao mesmo tempo não é entender, é observar como é que nós normalmente o fazemos, porque nós fazemos isto constantemente e umas vezes até achamos que não estamos a fazer isto com essa intenção, mas provavelmente é esse o caso. Então nós vamos sempre recorrer, por exemplo, a ver televisão, a ver séries, como se costuma dizer, tentar não pensar ⁓ nada. Nós vamos recorrer aos outros, às pessoas, preferência ⁓ momentos que estamos com elas de lazer, de divertimento. Uns recorrem ao exercício, outros recorrem, vamos dizer, a medicamentos ou drogas. Outros podem recorrer à tentativa de dormir para não estar acordado e não ter que pensar. Outros vão às compras. aqui nós temos, de facto, uma panóplia de opções para fugir da sensação da solidão e podermos estar distraídos com tantas outras fontes externas que vão fazer o quê? Vão exatamente obrigar o cérebro a concentrar-se nelas e, porque está concentrado nessas outras fontes, já não vai ter a capacidade de estar a pensar para si e a sentir a solidão. E atenção que nenhum destes comportamentos que acabei de referir, verdade, por si só é uma coisa má, não tem mal ⁓ ver televisão, ⁓ estar com as pessoas e por aí fora ir às compras, nada disso. Só se torna menos benéfico quando, na verdade, nós começamos, inicialmente, provavelmente até sem ter essa noção, a depender deles para conseguir fugir da sensação da solidão. quando isso se torna de tal forma ⁓ hábito que, última análise, pode se tornar uma adição. E eu nem tenho, calhar, a noção que eu dependo dos outros para não estar a sentir solidão. Nem tenho essa noção e simplesmente acho que, se calhar, sou uma pessoa mais social etc. Talvez sim, talvez não, fica aqui a colocação de mais uma hipótese. Vamos então entrar aqui ⁓ bocadinho mais a fundo na solidão e pensar que tal como estamos agora aqui a filosofar e a refletir sobre isso já houve na história muitas pessoas conhecidas, até filósofos, que já, como é óbvio, pensaram nisto. Porquê? Porque isto é algo ⁓ não sei se estou certo ou não como é óbvio, arrisco-me a dizer então que talvez 100 % das pessoas... já tenham sentido isto, nem que seja minimamente e nem que seja só uma vez na vida. E, portanto, como é normal, como é natural, também houve filósofos a filosofarem e a pensarem a sério sobre isso. E a maioria deles que pensaram mais a fundo, na verdade, colocaram a hipótese ou acreditaram que, na verdade, a solidão não é uma coisa má. Na verdade é uma condição autêntica. Na verdade só quando estamos ou conseguimos estar sozinhos é que realmente conseguimos ter a sensação de liberdade precisamente por não estarmos dependentes das fontes externas de que é a única hipótese que nós temos para estar a conversar mais seriamente, mais profundamente connosco mesmos sobre quem somos, sobre o queremos sobre as nossas ideias, nosso futuro, seja o que for. Essa é única hipótese. E, portanto, a lógica é que, de facto, é uma condição necessária mais do que ⁓ problema. Mas, se para algumas pessoas é ⁓ problema e para outras, aparentemente, é uma condição necessária, isto tem apenas aqui uma questão de perspectiva, que é... Eu, se calhar, dou por mim a não querer estar a sentir solidão. Porquê? Porque isto acaba por ser ⁓ processo não intencional e do outro lado é intencional. Como eu entendo que esse é o mecanismo para eu conseguir qualquer coisa, então eu predisponho-me a ele. Se daqui eu penso que isto é ⁓ problema, então eu vou evitá-lo. Portanto, uma questão de perspectiva e de maneira como eu penso sobre o que é a solidão, vai fazer com que eu ou a procure, ou evite. Mas, mais uma vez, tal como disse atrás, no início, uma coisa é o que os filósofos dizem, outra coisa é aquilo que a nossa biologia diz e, então, dependendo da minha perspectiva ou daquilo que eu penso sobre a solidão, realmente eu tenho ⁓ desafio que é combater a minha biologia e entender que, se calhar, o meu cérebro diz evita isto e, se calhar, o caminho não é esse. Porque o nosso cérebro tem a capacidade de imaginar, porque ele não funciona só ao curto prazo, ele consegue... Ele tem outras capacidades e uma delas é imaginar, é criar aquilo a que nós chamamos de ego, em momentos ⁓ que as tais fontes externas desaparecem por algum motivo, porque de repente eu não estou com pessoas, não tenho acesso à internet, à televisão, à comida, sei lá, estou numa situação... nem que seja momentânea, transitória, que essas fontes não existem, o que é que acontece? A conversa, a tal conversa que os filósofos dizem que só acontece quando estamos realmente sozinhos, essa conversa começa. E então o que interessa, na verdade, é a conversa, porque dependendo da qualidade da mesma, então eu posso aceitar ter essa conversa comigo, eu posso até... Para além de aceitar gostar de ter essa conversa, independentemente do que ela for, ou eu realmente posso querer evitá-la ao máximo, porque cada vez que eu inicio a conversa, a conversa não é do meu agrado. Porquê? Precisamente porque, primeiro, não estamos habituados a ter esse tipo de conversas connosco porque sempre evitámos. Então, não há o hábito... Eu evito, continuo a evitar e repito este padrão, etc. Por outro lado, porque na verdade nós fomos-nos habituando a que conceitos como o respeito, a validação, o reconhecimento, a confiança, o amor, a empatia, até mesmo quase a definição de nós mesmos... Portanto, a identidade, a nossa identidade, tudo isto está muito dependente do que? Da opinião dos outros ou daquilo que eu penso que é a opinião dos outros. E esta dependência é de tal ordem que quando então eu não tenho essas referências o que sobra? Ou é nada e eu se calhar nem sei quem sou, o que quero, o que é que valorizo ou pelo menos... Se não for nada, não é nada muito interessante. E é aí que começa aquela conversa de se calhar eu não sou bom suficiente, se calhar eu não sou amado, se calhar eu não gosto de mim, se calhar eu não sou capaz. Porquê? Precisamente porque eu tenho estado sempre dependente daquilo que eu penso que é a opinião dos outros. E este tornou-se aquilo que é o meu default mode. Este é o meu pensamento mais normal. cada vez que as fontes cessam e eu estou a conversar comigo. Por isso, não é uma coisa muito boa, é dor, é sofrimento, eu vou evitar, nunca mais quero estar sozinho, sentir solidão e correr o risco de passar por isto outra vez. Mas tal como nós temos a noção, isto está provado, de que para aprender, para melhorar, para crescer, para conquistar, para mudar coisas realmente importantes, é preciso nós sairmos da nossa típica zona de conforto. Então também aqui é exatamente a mesma coisa. E está mais do que provado que é possível pensar de maneira diferente é possível vir a fazer diferente, é possível vir a ser diferente. Implica a sair da zona de conforto e, literalmente, situação de solidão, nos afastarmos, de estarmos sozinhos e de termos esta conversa de forma intencional, isto é, literalmente, como ⁓ treino que custa no momento mas que os benefícios e os resultados que advêm daqui são brutais. E por isso nada como treinar. E pode ser treino que dure cinco minutos no início e que depois vá aumentando e que vá sendo cada vez mais frequente até eu realmente tornar também hábito. O estar sozinho, o falar comigo mesmo, ⁓ o sobre questões que realmente interessam para a qualidade da minha vida. e para a minha saúde. Portanto, à sugestão de nós, apesar da ideia que até se tem de que nós seres humanos somos animais sociais e dependemos uns dos outros, Pedro, acredito seriamente que nós dependemos uns dos outros para sobreviver principalmente a nível físico. Porquê? Porque o acesso à comida, às coisas, à roupa, aos bens essenciais, tudo isso... é muito mais fácil porque existem várias pessoas a contribuir para isso. Portanto, eu acredito que se eu vivesse completamente isolado isso seria muito mais desafiante. Portanto, na minha perspetiva, mas é só minha, eu acredito nisto. Agora, fica a questão de será que... que o dizer que somos animais sociais é só isso ou não é isso? E na verdade aquilo que nós nos referimos quando usamos essa expressão é porque nós dependemos socialmente para viver dos outros e aquilo que estamos a ver é que essa dependência do que os outros pensam, ou que nós pensamos que os outros pensam tem vindo a criar, então, uma dependência que não é positiva. quer dizer sermos animais sociais. Talvez a sobrevivência mais física dependa uns dos outros e seja mais fácil, ⁓ mas calhar talvez seja possível o cérebro e com eles os nossos pensamentos e os pensamentos que temos sobre nós, sobre as coisas, sobre como é que as coisas funcionam o que queremos, o que valorizamos, o que é que é importante para nós. Talvez isso possa não ser tão dependente dos outros. E talvez seja, na verdade, ⁓ esse o verdadeiro da palavra indivíduo, porque muitas vezes nós não pensamos o que é que quer dizer ⁓ indivíduo e pensamos só, está ali ⁓ indivíduo e está ali outro. Mas indivíduo quer dizer que é indivisível. Quer dizer que é ⁓ só por inteiro. Quer dizer que não está tão dependente da opinião externa. Quer dizer que ele tem a noção do que é e do que inclui. Fica a sugestão para... filosofar e refletir ⁓ bocadinho mais sobre esta questão e até, quem sabe, expor-se a ela. Porque como já, também numa vertente mais filosófica, já o estoicismo defendia exatamente a predisposição que se deveria ter para isolar-se de forma intencional, pensar a sério, nomeadamente pensar. muitas vezes quase ⁓ antecipação às dificuldades, aos desafios, precisamente para estar preparado. Mas também nesta vertente de entender que eu não posso depender tanto ou só, exclusivamente, daquilo que é a opinião dos outros para ter a noção daquilo que sou, de quem sou e por aí fora. Fica a sugestão, até ⁓ próximo episódio e até lá, cuide de si.