Latest / E se...? / E se o corpo souber mais do que o cérebro?
Transcript
- Pedro Figueiredo: Olá, bem-vindo aqui a mais episódio do podcast E se...? O meu nome é Pedro Figueiredo. Então, já há algum tempo que eu não publico nenhum episódio. A verdade é que são várias e diferentes razões para isso ter acontecido. Mas, nesse período, acabou por acontecer uma reflexão da minha parte com uma conclusão para mim importante e que, se calhar, pode acrescentar valor, que foi a seguinte. Dentro de tantas coisas que no nosso dia a dia nós acabamos por... ter que as fazer, porque existe qualquer tipo de pressão social, familiar, profissional, financeira, para as fazermos, também é interessante se nós pudermos ter mais coisas no nosso dia que, de facto, nós vamos fazê-las quando queremos, quando estamos inspirados ou motivados para as fazer, sem qualquer tipo de pressão. E o intuito deste podcast e se... que junto aos pilares de saúde e filosofia, sempre teve o propósito de ser ⁓ novo desafio para mim, uma brincadeira literalmente, uma maneira de incentivar o pensamento de não ficarmos simplesmente no mesmo sítio e por isso aparecer agora quando realmente eu me apetece fazer e estou motivado e inspirado para o fazer. Então o episódio de hoje vai exatamente misturar ⁓ bocadinho estes dois pilares que eu acabei de dizer, saúde e filosofia, mas claramente está muito mais dentro do pilar da saúde. Aqui há uns tempos eu resolvi ver uma série na Netflix, na altura escolhia simplesmente porque me pareceu que seria uma coisa leve, sem ter que pensar muito, sem muitos episódios, para não criar dependência. E então nesta série quando começa, à volta de uma mulher, que já está na casa dos 40, 50, onde ⁓ diferentes situações, ⁓ diferentes áreas da sua vida, fosse familiar, profissional, social, ela tem momentos ⁓ que o corpo lhe começa a dar sinais alertas de que algo não está bem e por isso ela começa a sentir taquicárdias, tonturas, desmaios, sem que ela pudesse entender logo, imediatamente, o porquê. Ou seja, o corpo disse-lhe algo antes do seu cérebro conseguir, vamos usar a palavra, conscientemente, ter a noção do que é se estava a passar. E a verdade é que eu vejo isto a acontecer cada vez com mais frequência à minha volta, amigos, familiares, clientes, que, ⁓ determinadas situações, umas c... Se calhar mais fáceis de identificar outras, nem por isso. Mas... Vários episódios de pessoas a ter aquilo que podemos chamar de ataques de pânico, ataques de ansiedade, sem que naquele preciso momento estivesse a acontecer alguma coisa de mal ou que a pessoa estivesse a pensar ⁓ algum problema. Não! De repente o corpo dá ⁓ sinal gigantesco de alerta... e a pessoa não se sente bem sem ter a mínima ideia de que aquilo vai acontecer. Portanto, claramente este é ⁓ ponto importante. Estamos a falar de saúde e se pudermos compreender ⁓ bocadinho mais estes processos, o que é se passa, melhor. Se pudermos realmente controlar ⁓ pouco mais isto, melhor. Então, aqui há ⁓ tempo atrás, ⁓ determinado filósofo disse que Eu Penso logo existo. Mas passados alguns anos também outros filósofos, ou entendidos, ou médicos, ou investigadores, inclusive há livro com esse título que é O erro de Descartes. Porque Penso logo existe era uma premissa que na altura determinadas pessoas concebiam que dizia que o cérebro é o centro, é de lá que tudo é criado. O cérebro habita ⁓ corpo e por isso depois vai utilizar esse corpo para aquilo que ele precisa e é do cérebro que a realidade se constrói. A verdade é que a investigação, ciência tem vindo cada vez mais a provar e vai dando passos largos nessa ⁓ aprovar aquilo que outros filósofos também, da altura e de outras já diziam que Essa ideia, não estando 100 % errada, está pelo menos, se calhar, 50 % incompleta. Porquê? Porque nós sabemos hoje ⁓ dia que existe uma comunicação bidirecional entre o nosso cérebro e todo o resto do corpo. Ainda que nós, muitas vezes por uma questão de separar as coisas por caixinhas e categorias para facilitar os processos de raciocínio, o façamos. A verdade é que dizer que existe o meu lado físico e mental e espiritual, na verdade, verdade, se calhar, nem deveríamos separar nada disto. Porque mental é físico, espiritual provavelmente é muito físico ou muito mais físico do que se possa pensar. Portanto, ainda assim nós vamos dizendo que uma coisa é o cérebro, outra coisa é o resto. Mas cérebro é corpo. Portanto, é apenas mais uma parte do corpo. Só que tem uma capacidade de se percecionar como algo à parte. Mas, portanto, nós tendo a ciência a comprovar que existe comunicação bidirecional, ou seja, que tanto o cérebro diz às diferentes partes do corpo o que é elas devem fazer para se organizarem e podermos estar bem ou minimamente equilibrados. Também essas diferentes partes do corpo têm meios de comunicação para dizer ao cérebro olha, isto não está tão bem, agora precisamos de fazer isto, agora há aqui esta necessidade, para ali aquele bocadinho para eu poder trabalhar agora. Portanto isto está constantemente a acontecer, ⁓ esta comunicação. Só dar ⁓ exemplo, porque daqui há uns tempos para cá... também se veio a perceber melhor o seu funcionamento e quase que entrou na moda falar do nervo vago. o nervo vago é ⁓ nervo que vai desde o tronco cerebral até o intestino. e que 80 % das suas fibras comunicam debaixo para cima do intestino para o cérebro. 80%. Portanto, aquilo que hoje nós temos a certeza e diferentes órgãos, principalmente nesta fase, intestino, coração e a parte ligada à respiração, como os pulmões, nós sabemos, temos a certeza, de que existe A comunicação que existe do órgão para o cérebro é real e tem muito impacto. Mas nós continuamos a assumir, mesmo que vamos perceber isto ⁓ bocadinho melhor, continuamos a assumir que o cérebro é que manda e que o corpo apenas serve para o resto, para produzirmos aquilo que o cérebro quer fazer. Mas é aqui que nasce exatamente a noção de outro sentido, que na verdade isto já foi ⁓ bocadinho abordado, ou pelo menos tocado num outro episódio, se não me engano, porque nós sempre aprendemos na escola que temos cinco sentidos. E esses sentidos servem para nós de alguma forma captarmos a informação do exterior para nós, para podermos navegar exatamente nesse contexto, ambiente, de uma forma... mais eficaz. Mas a verdade é que, para além desses cinco sentidos, existem mais sentidos e ⁓ deles chama-se interoceção. Ou seja, a capacidade exatamente, neste caso, do nosso cérebro e muitas das vezes de uma forma ⁓ que é, mais uma vez também não gosto deste palavra, mas inconsciente, portanto, não está sobre o nosso nível de atenção, mas... A verdade é que essa informação está a chegar a ele e essa capacidade de receber essa informação é interoceção. Muitas vezes nós damos realmente conta e eu sinto coração mais acelerado. Eu sinto ⁓ estômago a fazer qualquer coisa e a dar-me sinais. Eu sinto os meus intestinos a funcionar melhor ou pior. ⁓ posso sentir até diferenças na minha respiração. Mas tantas outras coisas nós não conseguimos sentir de forma intencional. Mas, interoceção é tudo isto, é todo este sentido que nós, ⁓ ter essa informação de baixo para cima para podermos, depois, também última análise, ⁓ o que quer que seja para estarmos bem. No entanto, nesta mesma interoceção, tal como ná alguns sentidos ou nos sentidos exteriores, isto depende muito de interpretação. Isto é muito subjetivo, isto é de pessoa para pessoa. Mesmo nos sentidos nós sabemos que a visão não é igual para todas as pessoas. A capacidade de visão não é igual, umas pessoas são daltónicas, outras não, umas ouvem melhores, outras piores. dependendo das experiências que já tiveram, calhar uns têm o olfato mais apurado do que outras, portanto, diferentes capacidades nos diferentes sentidos. Então, aqui no que diz respeito à Interocceção é perceber que, de vez quando, por mais que eu sinta o meu coração a bater mais rápido, a interpretação que eu faço disso pode estar certa ou errada. Ou seja, está mais rápido? Está até porque? Porque dá para medir. Eu ponho ⁓ cardiofreqüencimetro e vejo que o meu coração está com mais batimentos por minuto. Mas porquê que está com mais batimentos por minuto? Se calhar eu posso chegar à conclusão que estou ansioso para alguma razão. Mas se calhar não estou. Se calhar é só algum processo do meu corpo neste momento. Eu nem dei conta, mas só o facto de até da temperatura ter mudado... eu estou com ⁓ batimento mais acelerado, ou ter feito ⁓ esforço que nem me apercebi e o meu coração acelerou. Portanto, muitas vezes a interpretação que nós fazemos da informação que é captada pode realmente ser favorável ao estar mais correta, mas outras tantas vezes estar incorreta. Mas porque interpretamos de uma determinada maneira, as consequências que depois seguem daí também são outras. e, nomeadamente, podem ser menos positivas. Veja-se então também exemplos no nosso dia a dia, claros exemplos, ⁓ como esta comunicação é realmente bidirecional. Por exemplo, relação entre postura e estado emocional. Postura vamos entender não como algo que é o que é certo e o que é errado, mas como uma dinâmica entre as diferentes... posições do nosso esqueleto e as diferentes tensões musculares que acontecem para cada posição. Portanto, eu, se estou, por exemplo, mais triste, porque aconteceu alguma coisa ou interpretar alguma coisa dessa forma, de repente a minha postura muda-se para algo mais fechado, mais fletido, mais encurvado. Se calhar a seguir o tempo está bom, está sol, estou animado, se calhar vou ter ⁓ à praia, vou fazer qualquer coisa que me dá prazer e de repente já estou a fazer extensão da minha coluna, já estou a abrir mais o peito, a projetar os ombros para trás, aliás tenho os ombros mais longe das orelhas porque estou mais relaxado na zona dos trapézios e dos músculos da zona cervical, o que seja. de repente a minha postura é outra. Até maneira como eu comunico pode mudar. Eu posso me tornar mais... começar a gesticular mais. Mas se por exemplo, se calhar se tiver deprimido ou frustrado ou ansioso com alguma coisa, se calhar eu mexo menos. Eu restringe os meus movimentos. Eu estou mais tenso, estou mais contraído. Portanto, aquilo que se passa a nível emocional tem consequências na postura. Mas também acontece o contrário. A verdade é que se eu intencionalmente mudar a minha postura e criar movimento e esticar os braços, esticar, fletir os braços para cima, estender a minha coluna, levantar o queixo, respirar de uma forma mais expansiva, também tem impacto no meu estado emocional. A mesma coisa acontece quando nós estamos a falar. exatamente do nosso sistema nervoso e da respiração. Se por algum motivo eu estou mais estressado, de repente tenho a pressão para entregar qualquer coisa e tenho que fazer, tenho ⁓ timing qualquer... Estou estressado e de repente o que acontece? A minha respiração começa a acelerar, fica mais curta, portanto, eu estou... ⁓ estressado? Eu disse estressado, poderia ter dito outra coisa qualquer. Qualquer coisa que altera o meu ritmo respiratório. Mas... Também eu posso parar e intencionalmente alterar a minha respiração. E concentrar-me bocadinho, inspirar normalmente pelas duas narinas e a seguir soltar o ar bem devagar, mais devagar, com o mínimo de esforço possível. ⁓ o ar, faço essa expiração prolongada. Quando sentir vontade de voltar a trazer ar para dentro de mim, volto inspirar normalmente sem exagerar. e volto-me a focar numa expiração mais prolongada e, de repente, o facto de eu ter mexido voluntariamente na minha respiração altera esse meu estado stressante ou stressado. Portanto, comunicação funciona. Eu tanto tenho algo a dizer ao meu cérebro, como o meu cérebro a seguir pode dizer algo e pode ter impacto ⁓ muitos destes... Sistemas, vamos dizer assim. Mas, exatamente, e por tantos episódios que já passaram, fomos abordando aqui qual é que é realmente a função ou a missão do cérebro, que é gerir bem a nossa energia, organizar todos estes sistemas que nós temos dentro de nós. E ele faz isso, acima de tudo, antecipando o que é que vai acontecer, antecipando os recursos que vão ser necessários para lidar com aquilo que ele acha. que vai acontecer, acha, porque às vezes, literalmente, só acha, não sabe. Portanto, como ele passa a vida nesta antecipação, nós vemos o cérebro, muitas vezes, a conseguir criar no nosso corpo mecanismos que, na verdade, se não fosse o cérebro a criar, eles nem estariam lá, nomeadamente, dor. nomeadamente tensão muscular. Só por uma antecipação literalmente subjetiva daquilo que pode vir a acontecer. Então ele contrai-se e prepara-se. Ou a seguir exatamente, eu por ⁓ episódio antigo ⁓ que eu me alejei no ombro ou na zona lombar, eu lembro-me dessa dor, eu agora parece que vou passar pela mesma situação, o cérebro cria essa antecipação e de repente ele consegue... produzir a sensação de dor que já teve no passado, mesmo que no momento não esteja a acontecer nada para que isso pudesse ser produzido. Portanto, veja-se o impacto que esta comunicação de baixo para cima e de cima para baixo tem no nosso dia a dia. E quando nós andamos no nosso, exatamente, dia a dia... constantemente acelerados, constantemente stressados, ⁓ que não há tempo para fazer uma pausa, para sequer olhar para esses sinais, estar atento e dizer, menos, pelo menos eu consigo entender o que está a acontecer. Se calhar ainda não sei porque é que está a acontecer, mas ao menos eu tenho a noção, eu trabalho a minha interoceção. Eu digo, batimento cardíaco, mais rápido, vez ⁓ quando... Na maioria das vezes, a maioria das pessoas nem tem sequer a noção disso até que chega a ⁓ extremo e lá está o ataque de ansiedade, o cai para o lado, o desmaia. Só aí é que nós tomamos real consciência do que é se calhar já tem vindo a acontecer ou já está a acontecer há muito tempo. Por isso, muitas vezes, facto, ainda ao nosso cérebro, se ao seja a parte mais consciente, mais de decisão, Entendo o que está a acontecer, já o nosso corpo está a dar-nos sinais de que algo não está bem. Como isto tem impacto na nossa saúde e sabendo que nós podemos realmente ter algum impacto e algum controlo nisto, não só é interessante então perceber que isto acontece e porquê que acontece, ok? Eu entendo agora, existe facto, está provado, comunicação baixa para cima. de cima para baixo, não é só do cérebro para o resto do corpo, talvez seja relativamente simples começar só por estar mais atento. E se nós tivéssemos momentos, e não é preciso momentos muito longos, se calhar ⁓ alguns segundos, num minuto, dois minutos, eu consigo ⁓ determinadas alturas, ou até mesmo quase de uma forma... a premeditada, intencional, dizer que de x ⁓ x tempo eu vou fazer esta pausa de ⁓ minuto ou dois para parar e para observar. Fazer literalmente uma espécie de body scan que vai-me dizer o que é que eu sinto. Aliás, o que é que está a acontecer? Porque a palavra sentido já mete aqui subjectividade. O que é que está a acontecer? Estou cansado, dói-me isto, o coração está a bater mais rápido, os meus intestinos estão a dizer que há qualquer coisa que não está bem, terá sido algo que eu comi há ⁓ bocado, ou eu é stress, exemplo. Portanto, vamos chamar, micropausas de observação, o mais objetiva possível. para depois, como é óbvio, ter que passar para a parte subjetiva de análise e tentar entender então, por que é será que isto está a acontecer? Aconteceu alguma coisa há alguns segundos atrás? Há alguns minutos, há algumas horas atrás? Tem sido esta semana que eu estou perante ⁓ contexto diferente? Isto já se arrasta, é uma situação que na verdade já se arrasta há meses e que está sempre aqui no ram ram no meu cérebro. e isto está-se a tornar ⁓ hábito, estas taquicárdias, estas sensações de ansiedade, de respirações curtas. Parece que estou sempre cansado. Portanto, vamos procurar fazer uma análise do que é que pode estar por trás, para depois também, não só tentar ir diretamente à causa e trabalhar isso, sejam aspectos realmente de padrões mentais. precisam de ser trabalhados através de várias disciplinas, psicoterapia, coaching, seja o que for. Ou também eu posso optar por diferentes estratégias superpráticas neste momento para conseguir para já, pelo menos, reequilibrar o meu sistema. Lá está. E das maneiras mais fáceis, só o facto de observarmos o corpo já faz isso. Mas, a seguir, se eu quiser ainda concentrar-me ⁓ bocadinho mais na minha respiração e respirar com mais calma, melhor. Se eu souber que há coisas que normalmente me trazem ⁓ estado mais de tranquilidade, mais sereno, de certeza que isso vai ser bom. E pode ser ir apanhar solo, ir ao exterior, pode ser ouvir uma música, pode ser ouvir alguma coisa para rir que me descontraia, pode ser falar com alguém, pode ser desenhar, escrever. o chamado journaling, escrever aquilo que se vai sentindo, tantas... tantas ferramentas práticas, rápidas e sem custo nem de dinheiro, nem de tempo, nem de energia, que trazem resultados brutais no momento, só mesmo se nós não quisermos é que não as aplicamos e só mesmo quando não quisermos estar bem é que nós não estamos. Portanto, há sempre de facto opção para nós podermos estar melhores e, como eu disse no início, isto é uma questão de saúde, mas também uma questão filosófica, porque, como nós sabemos, a filosofia acaba por ser o questionar ou fazer questões que realmente são importantes, que têm impacto na nossa maneira, literalmente, de ver a vida e de ver as coisas. É a nossa perspetiva. E se eu desenvolvo uma perspetiva ⁓ que, facto, eu sinto que eu tenho controle, também tenho algum controle sobre o que se passa no meu corpo. quando eu digo corpo, desde o cérebro até aos pés. Se eu consigo ter cada vez mais essa perspetiva, se eu utilizo o conhecimento que existe, que vem das ciências sobre como é que tudo isto funciona, então eu vou cada vez mais, de facto, assumir aqui ⁓ papel de responsabilidade sobre o meu estado, ⁓ vez de achar que é sempre consequências de outros ou de outras coisas, e vou estar sempre, ou muito mais vezes, melhor. Portanto, fica a sugestão para as tais micro-pausas, para os tais momentos de observação, consequentemente, de análise mais subjetiva e também de implementação de estratégias... fáceis e rápidas para nos reequilibrarmos. Até próximo episódio e até lá, cuide de si.