Latest / Elas na Escrita / Escrever sem que ninguém peça
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- 0:00É, oi gente, aqui é a Isabela de Andrade, sejam bem vindos a mais
- 0:04uma temporada do elas na escrita.
- 0:06Esse é o primeiro episódio da temporada nova e eu estou muito
- 0:09feliz que eu vou abrir aqui com 2 autoras maravilhosas.
- 0:11Eu sempre falo para vocês que são mulheres que eu admiro
- 0:14muito, mas é porque eu tenho feito uma escolha realmente
- 0:16muito boa aqui, com pessoas que eu admiro, que eu acompanho e
- 0:19que a gente já bateu um papo juntas lá em Brasília, agora
- 0:21estamos juntas de novo aqui em São Paulo, mas olha que
- 0:24engraçado, não tem ninguém de São Paulo nessa mesa hoje.
- 0:27Sejam bem vindas então. Andressa Marques.
- 0:30Aqui e a Jô Freitas? E antes da gente começar a
- 0:33conversa, eu vou apresentar um pouquinho elas para vocês
- 0:35conhecerem. Quem ainda não conhece, procure
- 0:37saber, mas vai um pouquinho delas aí, a Andressa Marques.
- 0:40Ela nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, e a escritora,
- 0:44professora doutora em literatura pela Universidade de Brasília, e
- 0:47fez parte das primeiras turmas de cotistas do país.
- 0:50A construção de seu romance de estreia foi vencedor do concurso
- 0:53toca literária e publicado pela editora nossa.
- 0:56Seja bem-vinda, Andressa. Obrigada, Isa e Jô.
- 0:59Satisfação. Gente, feliz demais estar com
- 1:01vocês aqui no elas na escrita hoje.
- 1:03Nossa, é demais. E estamos aqui também com a Ju
- 1:05Freitas, que ela é escritora, autora do livro de contos guela
- 1:09seca, sendo finalista do prêmio Jabuti em 2024.
- 1:13Ao longo de sua carreira, ela realizou diversos projetos
- 1:15literários fora do país, como no Equador, Peru, Moçambique e
- 1:19África do Sul. Em 2025, ela fez sua primeira
- 1:22turnê pelo Brasil com arte da palavra pelo Sesc Brasil.
- 1:25É idealizadora do sarau pretas Peri e do sarau Lima e os novos
- 1:29Barretos. É isso mesmo.
- 1:30É que Alegria estar com vocês. Andressa Isa, muito bom estender
- 1:35a nossa conversa que tivemos lá em Brasília para cá para São
- 1:38Paulo. Essa Terra que acolhe a gente,
- 1:39né? Sim, com certeza.
- 1:41Tô muito feliz de estar. Aqui, bom demais.
- 1:43Gente, ó. Eu gosto sempre de fazer uma
- 1:45pergunta para falar a pergunta de aquecimento, mas que ela tem,
- 1:47né? Acaba se relacionando muito com
- 1:49todas as escritoras, porque a gente veio.
- 1:51O que eu mais tenho visto aqui é que as trajetórias são muito
- 1:53diferentes, principalmente porque eu tenho conversado com
- 1:55autores que vem de muitos lugares do país ou que começaram
- 1:58a escrever em diferentes cidades, ou que.
- 2:00Começaram por diferentes espaços, assim através da
- 2:02escrita. Então eu queria perguntar para
- 2:04vocês, como vocês chegaram até a escrita, né?
- 2:06Como a escrita e a literatura chegou até vocês?
- 2:09Que caminho vocês percorreram? Eu sei que geralmente tem uma
- 2:11longa trajetória aí, que se a gente for parar para falar, vai
- 2:13ser a vida inteira, mas se vocês tiverem, então que pensar um
- 2:16pouquinho, como vocês chegaram a esse espaço da escrita e da
- 2:19literatura, me contem um pouquinho, então aí como foi
- 2:22esse trajeto de vocês? Que percurso vocês tomaram?
- 2:25Quem quer começar? Olha.
- 2:29Sempre que me perguntam, me fazem essa pergunta.
- 2:32Eu fico pensando, qual foi o momento, qual foi o instalo
- 2:35assim? Mas EEE, é muito interessante
- 2:38que muitas pessoas fala, Ah, AA escrita me escolheu, EE, eu só
- 2:42sei fazer isso. E eu e eu pensando é, eu insisto
- 2:47em ser escritora. Na verdade, eu queria ter sido
- 2:50mais escolhida para essa escrita, mas eu acho que eu
- 2:53insisto. É na possibilidade de criar
- 2:56imaginário, é em busca da dessa imaginação.
- 3:00Acho que a vida ela é tão ela é tão dura endurecida que as artes
- 3:04pra mim foi esse subterfúgio da realidade.
- 3:08Então, poxa, poderia ser ter qualquer outra profissão, porque
- 3:13eu também sei fazer muitas outras coisas.
- 3:15Mas eu escolhi ser escritora porque isso me trouxe 11111
- 3:21lugar no mundo. Que eu gosto muito de estar, que
- 3:25é de refletir sobre ele no momento em que eu estou
- 3:28presente. E mas são os saraus que me
- 3:32inserem assim concretamente. Descobri em 2009 o que que era
- 3:36esse encontro de pessoas que faziam teatro, dança e poesia,
- 3:40se diziam poeta. E falei assim, poxa, legal isso.
- 3:43E aí fui lá indo mostrando o que eu sabia fazer, com muita
- 3:46insegurança ainda. Mais curiosa para entender o que
- 3:50que era aquele movimento? Eu acho que tem 11 necessidade
- 3:53de ser coletivo, de ser comunidade, de ser bando.
- 3:56E eu acho que eu nunca fui tão nunca fui popular na escola.
- 4:00Eu fui muito sozinha. E aí encontrei na nessa
- 4:05coletividade, no sarau que dizem os umbigos na época, essa
- 4:09maneira de. De existir ainda, mesmo sem
- 4:12saber identidade assim, sabe? Tem um pertencimento tão tão
- 4:17forte da da minha história ou do que é o né?
- 4:22A sociedade no geral, que a literatura, no qual eu também
- 4:26invisto e olhar, ela é crítica e pra mim o sarau usa esse esse
- 4:33chão. O segundo passo é.
- 4:36Poxa, eu preciso sair um pouco da realidade, então é quase uma
- 4:39droguinha aí na vida, só que do lado bom, né?
- 4:43E tiveram outras autoras, já que começaram aqui pelo sarau.
- 4:46E a gente geralmente conversava muito também.
- 4:48Como era até fazer essa transposição, de começar pela
- 4:51oralidade, pela palavra falada, estando ali no palco, em cena,
- 4:54no coletivo, e depois ir pro livro, né?
- 4:56Pra escrita dentro de um livro que talvez é um pouco mais
- 4:59reservado, mas sozinho. E tem 11.
- 5:01Outra forma de ritmo ali de oralidade também tá nas páginas.
- 5:05Como foi pra você fazer essa? Essa transposição e como isso
- 5:08até hoje é, reverbera em você esses 2 espaços?
- 5:13Eu, eu, eu, eu tava tentando definir há um tempo.
- 5:16E eu falei assim, poxa, a poesia é meu lugar de expressão.
- 5:19EAA prosa é o meu lugar de de firmamento.
- 5:24Assim encontrei a minha raiz ali gosto e eu já escrevia.
- 5:28Só que pra recitar em sarau, no qual foi o lugar que me acolheu
- 5:32enquanto corpo, enquanto identidade, em vários, em vários
- 5:37questões, né? E aí é difícil você recitar um
- 5:41conto nesse lugar. Mas eu tinha eu escrevendo o
- 5:43goela seca, por exemplo, é, é, eu tenho ele escrito já há muito
- 5:47tempo assim, muito antes de 2009, porque eu escrevendo
- 5:50gostava muito. Mas a poesia, essa aqui, ela é
- 5:53direta, essa da oralidade que ela vem e se apresenta.
- 5:57Né? Ela, ela, ela tá ali, né?
- 6:00Ela, ela, ela, ela, ela dá é a voz e o ouvido para para as
- 6:05questões. Então foi natural, sim, eu já
- 6:09ainda sou atuante muito nos saraus, que é o meu lugar de
- 6:12expressão mesmo que eu falei assim, poxa, às vezes eu preciso
- 6:15que ser um pouco mais direta, e na prosa, eu, eu posso é criar
- 6:20outra narrativa que não seja. A pessoa Jô mesmo ou ou ou falar
- 6:27sobre essas pautas assim, né? Mas e no ela?
- 6:29Sei que a gente vê muito mesmo ainda dessa oralidade que você
- 6:31traz o sarau, então dá para perceber.
- 6:33E você, Andressa, como é que foi seu percurso de chegada?
- 6:37É essa pergunta assim é. Eu acho legal da gente responder
- 6:41sempre, porque ela sempre faz com que a gente pense um pouco
- 6:45no nosso nosso lugar, né? Nesse, nesse processo de
- 6:51escrita. E aí eu tava.
- 6:52Lembrando esses dias quando eu estava respondendo algo, né, 11
- 6:57entrevista, e aí, como é que eu chego na escrita e tudo?
- 7:01Eu acho que eu sempre escolhi a literatura, é, eu comecei a
- 7:04pensar sobre isso. Eu sempre escolhi a literatura
- 7:06quando é formação de leitora, assim, ainda é criança, já
- 7:12queria estar, ir a uma biblioteca, fazia toda aquela
- 7:16minha meu circuito ali de biblioteca pública e tudo, pegar
- 7:20os livros quando recebi o livro de português.
- 7:23No ensino fundamental, no ensino médio, eu lia os contos antes eu
- 7:25lia, eu ficava ansiosa, Ah, vai chegar aquele dia que a
- 7:28professora valesse daqui. Eu eu gostava, então fui fazer
- 7:32AA graduação, escolhi letras, terminei a graduação em
- 7:36Brasília, todo mundo é concurseiro, é ficar na casa de
- 7:39concurso. Eu falei, Ah, mas eu queria
- 7:40tanto fazer um mestrado, fui fazer um mestrado na literatura,
- 7:43depois passei no concurso, claro, mas assim, né, seguindo a
- 7:46vida profissional e só que quando chegou no doutorado, por
- 7:49exemplo. É, eu pensei em mudar pra
- 7:52história, aí depois não, gente, é a literatura, mas você está
- 7:55sempre retornando, é sempre a literatura, mas o espaço da
- 7:58ficção ainda era uma coisa que de fato eu não imaginava, que eu
- 8:02IA, que eu IA desenvolver, que eu IA conquistar, que eu IA.
- 8:07É, eu acho que tem uma coisa muito a ver com uma coragem
- 8:09também e uma segurança que eu passei muito tempo construindo,
- 8:14né? Então eu demorei, cada um tem
- 8:16seu processo. Eu tinha várias questões e
- 8:19achava assim, não isso aqui. Não era, não era nem uma
- 8:21questão, não era 11 coisa que eu ficava que eu ficasse refletindo
- 8:24e pensando, Ah, vou ser escritora.
- 8:26Mas eu sempre escolhi essa literatura e era uma coisa muito
- 8:30interior nessas arrumações de casa de final de ano.
- 8:33Assim, eu encontrei meus cadernos de anotações e tudo e
- 8:37me surpreendi com uma espécie de um conto, alguma coisa assim de
- 8:422006, que depois entrou no na construção.
- 8:45E eu nem nem vi esse caderno no ar quando eu comecei a escrever
- 8:48o livro. Que era o processo de uma garota
- 8:50alisar um cabelo. E aí isso de alguma forma, entra
- 8:54no livro. Então eu acho que essa minha
- 8:56escolha pela literatura, conscientemente, como uma pessoa
- 8:59que trabalha, que é da área de da literatura, ela sempre se fez
- 9:02presente. E a da ficção?
- 9:05Ela esperou uma maturidade, esperou que eu construísse
- 9:08algumas. É algum Lastro que me permitisse
- 9:12mais, né? E além assim, e daí?
- 9:15Quando eu terminei o doutorado, tinha eu fiz uma pesquisa
- 9:18histórica na área de tem é tanto história quanto crítica
- 9:24literária quanto a educação. Então é uma tese
- 9:28interdisciplinar que eu mergulhei assim na imprensa
- 9:31negra, principalmente Paulista, muito forte.
- 9:35Então eu entrei naqueles jornais e descobri tantas coisas.
- 9:39E fiquei muito inspirada pelas escritoras e os escritores, que
- 9:43eram pessoas assim que publicavam o seu conto ou o seu
- 9:48sua poesia, seu poema no jornal da imprensa negra, sei lá,
- 9:52claro, inaugurada aos 20, então, assim, muito recente, pós
- 9:55abolição. AAA, as Datas, as pessoas
- 9:58falando sobre, né, AI tem 40 anos, a abolição.
- 10:01Eu falei, gente, como sabe? Então essa força coletiva, eu
- 10:04falei, gente, isso é muito grande, isso é muito forte, é
- 10:07triste que a gente não saiba disso, porque isso é é esse
- 10:10Lastro que eu não tinha, né? Se se você olha para trás e você
- 10:13tem referências, você conhece, você sabe onde se guiar é é algo
- 10:19que é invisível, mas te compõe e essas pessoas me inspiraram
- 10:24assim, eu pensei, poxa. Né?
- 10:26A gente pode, as pessoas fazem as coisas.
- 10:29E aí eu falei, vou, vou me inscrever numa oficina de
- 10:31escrita que eu acho que eu gostaria de escrever ficção e
- 10:35tem a ver também com a história familiar.
- 10:36Eu descobri muitas coisas Na Na nessa feitura da tese, é
- 10:41personagens, coisas que eu falava, gente, isso aqui eu
- 10:43queria contar, eu queria contar, mas sem saber muito como.
- 10:46E aí teve uma história que também partiu de uma pesquisa
- 10:49que eu acabei descobrindo a uma parte da história da minha
- 10:53família que eu não conhecia. E a partir dessa descoberta, eu
- 10:57escrevi alguns textos pra apresentar é no em algumas
- 11:03situações assim, públicas, em Brasília.
- 11:05E toda vez que eu falava, as pessoas falavam não.
- 11:08Mas esse texto, né? Tinha uma carga poética, tinha
- 11:09uma coisa diferente assim, era uma, já tinha uma ficção se
- 11:12desenvolvendo e aí coletivamente também, as pessoas que fizeram.
- 11:17É essa pesquisa histórica comigo que foi sobre chamado
- 11:21reintegração de posses, narrativas da presença negra no
- 11:24Distrito Federal, um grupo de historiadores, pesquisadores da
- 11:27Universidade de Brasília, ativistas.
- 11:30Andressa, tem que escrever esse livro.
- 11:31Você escreve um livro, conta essa história aí eu fui.
- 11:34Em bebida também dessa força coletiva, fui fazer as oficinas
- 11:37do Marcelino e aí lá nasceu a construção.
- 11:40AI que demais. E é legal, porque você tem um
- 11:42processo super diferente, que vem da academia, muito do
- 11:44estudo, da pesquisa, da história para ir encontrar nesse espaço e
- 11:48essa coragem, né? Da escrita.
- 11:49E tem um personagem que surge aqui, existe todo episódio, não
- 11:52tem jeito. Um dia eu vou ter que convidar o
- 11:54Marcelino aqui, mesmo sendo elas na escrita, porque.
- 11:57Vem a Marcelina do. Episódio surge o nome dele,
- 11:59gente, é impressionante a quantidade de escritoras que em
- 12:02algum momento fala aí, aí eu passei.
- 12:04Pela oficina do Marcelino, eu mesmo, inclusive, bate Paraíso,
- 12:07veio de lá, é, é, é impressionante.
- 12:09Gente, eu não sei. Aí você que está escutando está
- 12:11procurando uma oficina literária.
- 12:12A gente procura o Marcelino Freire, porque é uma coisa
- 12:14impressionante, né? Ele, ele tira essas histórias da
- 12:17gente, ele ajuda, parece que a gente AA alcançar algum lugar.
- 12:21E eu acho que isso tem muito a ver com esse processo de
- 12:23descoberta que vocês têm falado, porque a gente é por muito
- 12:26tempo, traz essa escrita, essa literatura, num espaço muito
- 12:28interno, muito escondido, né, do Ah, gosto de escrever, mas uma
- 12:32coisa meio minha meio não parece que existe uma coragem de
- 12:35mostrar. E quando você vai pra essa
- 12:37oficina, acho que esse espaço do encontro, do escutar outras
- 12:40pessoas escrevendo, do começar a entender que, nossa, eu li um
- 12:43texto aqui, caramba, todo mundo gostou, será que você vai
- 12:45render? E aí você começa a construir
- 12:47coletivamente, é. Vira literatura, né, que o tempo
- 12:50inteiro? A gente acha que é um pensamento
- 12:52que é alguma coisa, que é um textinho, você fala, caramba,
- 12:56qual é? Quando a gente foi, aprendeu que
- 12:59o que a gente faz não é bom, né? Inclusive as oficinas do
- 13:02Marcelino, 80% são mulheres. É verdade a maioria.
- 13:07Cadê os homens estudando? Bom, poderíamos discorrer aqui
- 13:11várias, várias coisas, né? Homem já se acha autossuficiente
- 13:14para não estudar, dizendo que é muito melhor e que a gente está
- 13:17tomando o lugar dele? Não, a gente só está escrevendo,
- 13:20começando a escrever ainda que ainda tem muito chão, né?
- 13:23É verdade, mas é muito louco isso, saber que há um público
- 13:26muito grande de mulheres querendo aprender.
- 13:29Estudando e que são as que mais leem e as que mais escrevem.
- 13:32Hoje em dia a gente vai dominar esse espaço.
- 13:34A gente fala sobre. Isso as leitoras, né?
- 13:37A. Gente, tem assim.
- 13:38Muito mais leitoras os retratos da leitura do Brasil mostra
- 13:41sempre, né? A gente tem mais leitoras que
- 13:43leitores e essa coisa do dessa busca pela formação também.
- 13:50Eu acho que é 11 característica muito assim das mulheres no
- 13:53mundo, né? A gente não chega e fala assim,
- 13:56é tipo a confiança que. Se é criada na socialização
- 13:59desde a infância, não é uma coisa assim, vai faz, vai para o
- 14:02mundo da rua, vai para o sabe? É uma coisa que a gente precisa
- 14:05construir, se prepara. A nossa geração passou por isso.
- 14:09Acho que a nova geração, a gente tá criando pessoas para que elas
- 14:12não tenham, né? Pessoas, tanto as meninas quanto
- 14:15os meninos não tem esse tipo de coisa, mas essa preparação acho
- 14:18que passa muito. Por esse universo.
- 14:20E aí a gente precisa, né, ver mover aí essas peças, os dominó,
- 14:25porque a gente tem cada vez mais escritoras, né?
- 14:27Precisamos é fazer com que a balança seja é mais equilibrada,
- 14:34né? A despeito da história inteira
- 14:36que a gente tem sempre muito, né?
- 14:38Na história da literatura brasileira, muito mais
- 14:40escritores homens, né, brancos heterossexuais, do que.
- 14:44As mulheres? Exato.
- 14:45Mas agora esse cenário está virando.
- 14:46Isso é muito legal, porque a gente pensava que todas a gente
- 14:49pensava não se diziam Ah, todas as histórias já foram escritas.
- 14:51Não adianta. E, né, olha quantas histórias
- 14:54não foram escritas exatamente porque, quantas pessoas.
- 14:56Estavam escrevendo. Exatamente.
- 14:58E gente, uma coisa que eu tenho gostado muito de conversar,
- 15:01debater aqui e que viram surpresas por aí esse ano.
- 15:04A gente nelas, na escrita, fiquem de olho até sobre
- 15:06território e a gente está aqui. Então, eu conversei no começo,
- 15:08falei que ninguém é de São Paulo.
- 15:10A gente está aqui com escritoras que 2 delas moram em São Paulo
- 15:13hoje, Andressa. Memória em Brasília, mas a gente
- 15:15está aqui com gente do nordeste, do centro Oeste, então eu queria
- 15:18entender para é entender de vocês, e acho que os livros mais
- 15:21atuais de vocês trazem muito isso.
- 15:23Ela c, que é a construção, como que os territórios, os lugares
- 15:26onde vocês viveram, os lugares de partida, de nascimento, as
- 15:29raízes, como que isso influencia e influenciou a escrita de
- 15:32vocês? EE também até a Jô, se quiser
- 15:35trazer que teve a mudança depois, né?
- 15:37De lugar veio para São Paulo, isso também muda.
- 15:39Andressa que tá em Brasília, que às vezes então tá fora desse
- 15:42desse eixo que a gente coloca como esse eixo sem.
- 15:44Central do Rio, São Paulo, Minas.
- 15:46Então, como os territórios de onde vocês partiram e
- 15:48influenciaram a escrita de vocês e os livros que vocês
- 15:51escreveram, os mais atuais? Nossa, eu acho que território
- 15:57compõe completamente. Assim, a construção nasce
- 15:59justamente de pensar o território, pensar.
- 16:04Brasília, uma cidade projetada, que escolheu seus moradores, né?
- 16:10De certa forma, no seu projeto urbanístico oficial.
- 16:14Então, como eu tinha falado para vocês essa essa exposição
- 16:18reintegração de Posse, ela justamente foi para contar a
- 16:21participação da população negra na construção da cidade.
- 16:25Porque na história oficial que a gente tem é é sempre aquela
- 16:28coisa da Isabela, é de lá, sabe que.
- 16:31É a cidade planejada, é Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, todo essa
- 16:37plano piloto, AAO, aviãozinho, uma cidade assim totalmente é
- 16:44organizada e tudo que foi construída por muitas pessoas
- 16:47que queriam morar lá. Então, assim ela teve um projeto
- 16:51urbanístico que separou, né? Então, o que a gente chama de
- 16:54cidades? Se chamava antes, né?
- 16:56Cidades satélites nas regiões administrativas hoje, que são as
- 16:59cidades ao redor do distrito de Brasília, que compõe todo ODF,
- 17:03né? No Distrito Federal e essas
- 17:05famílias, a maioria, muitas famílias negras, é vindas.
- 17:10Muito, muitos, muito, de muitos estados nordestinos, mas também
- 17:15sobretudo de Goiás, em Minas Gerais, que é outra coisa também
- 17:17que ninguém. A gente, né?
- 17:18Na história, vão falar que os candangos eram todos do nordeste
- 17:22e tudo tinha essa presença forte, mas as pessoas iam
- 17:25inclusive andando. Então elas saíam do Goiás de
- 17:28Minas andando para ir para para construção ou pegar uma boleia
- 17:31do caminhão. Essa história é é para a gente
- 17:34recontar o território justamente a partir dessa presença e da,
- 17:38principalmente da. É da nossa.
- 17:45Como que se diz a nossa contribuição pra vida cultural,
- 17:48pra vida social, econômica e tudo da da cidade de Brasília.
- 17:52Então dessa pesquisa toda é que veio essa história familiar?
- 17:57É? Eu quis justamente trazer pra
- 17:59ficção algumas coisas que são muito do Distrito Federal, assim
- 18:03dessa. Essa, sempre essa, esse
- 18:06questionamento, o deslocamento obrigatório que a gente tem da
- 18:09cidade satélite para ir para o plano piloto.
- 18:12Todas as questões da da jovem, da Jordana, que é a protagonista
- 18:16do. Livro, nessa parte mais
- 18:18contemporânea, dela chegar no plano piloto e se sentir
- 18:21totalmente desconfortável diante de uma universidade branca e
- 18:25elitizada. E ela não tem as roupas certas,
- 18:28ela não tem, não tem o laço cultural que aquelas pessoas
- 18:31têm. Então isso é muito presente
- 18:33nessa nessa socialização do Distrito Federal em si.
- 18:37E a questão do deslocamento obrigatório, então tem a questão
- 18:40de ser longe dela, ter que é se deslocar e.
- 18:44Porque colocar para quem não conhece muito Brasília, Distrito
- 18:46Federal? Até interrompendo, porque ela
- 18:48fala desse deslocamento, porque tem esse plano piloto que é
- 18:50muito ali no como se fosse no miolo.
- 18:53E aí AO que seria a periferia, as cidades satélites, elas estão
- 18:56no ao redor assim. Então é muito separado mesmo.
- 18:59Não, não existe essa mistura, esse encontro um pouco mais
- 19:02entrelaçado que tem nas outras cidades.
- 19:03Né? Exatamente.
- 19:04E aí também quis trazer referências culturais, por
- 19:07exemplo, o rap no na Ceilândia. Então, tem a formação desde os
- 19:12bailes de black music, que. Tem alguma coisa que eu faço
- 19:15referência no livro? Como os pais da Jordana
- 19:18participaram disso? A Jordana, tenho 11 memória
- 19:22musical do rap na cidade, é e todas as todas as a parte, assim
- 19:29que a gente conseguiu contar ali, lógico que uma exposição,
- 19:32uma coisa, né, você traz fotos e tudo, mas eu quis trazer algumas
- 19:36referências que demarcassem esse território negro no Distrito
- 19:38Federal para dentro do livro. E aí o território está super
- 19:41presente. É o desconforto, AA inadequação
- 19:46que a protagonista sente nesse deslocamento e até a diferença
- 19:51de como quando ela está na universidade com pessoas que
- 19:56são, né? Pessoas brancas do platô,
- 19:59quando? Ela.
- 20:00Está com os amigos dela, que já são da cidade de sacalistas.
- 20:02A diferença quando ela está na própria, em Taguatinga, vivendo
- 20:06o espaço dela, então, tem camadas de.
- 20:10De segurança que ela sente tudo isso.
- 20:12Eu quis trazer e refletir um pouco.
- 20:14O território. Tava ali sempre.
- 20:16E justamente como esse estranhamento dos lugares faz
- 20:18diferença, né? De uma pessoa que tá ali, sai de
- 20:20um lugar e vai pro outro e se sente estranha.
- 20:23É lembrando uma coisa, eu lembrei que não tem nada a ver
- 20:25com com o livro diretamente, mas tem um pouco a ver.
- 20:27Quando você tava falando, a família do do meu marido é lá da
- 20:30fercal. De Brasília, que é depois de
- 20:32sobradinha na periferia e já assim morava lá muitos anos
- 20:35antes de ser Brasília. E aí ele conta que quando foi
- 20:38ter AA inauguração, aquele pessoal que morava lá era Goiás
- 20:41ainda antigamente, e eles não sabiam que estava sendo
- 20:44construído na capital. Eles não sabiam que estava
- 20:45virando Brasília, tipo, eles moravam em Goiás e o território
- 20:49virou Brasília, eles não estavam nem sabendo.
- 20:51E aí tem umas histórias antigas da família que começavam a
- 20:53passar os aviões que estavam chegando, os aviões para
- 20:55inauguração, e eles achavam que estava tendo uma guerra, porque
- 20:58ninguém avisou para aquelas pessoas que eram ali do, do.
- 21:01Interiorzão tava ali no Goiás e que elas agora moravam em
- 21:04Brasília. Elas eram brasilienses.
- 21:05Tava tendo uma inauguração e elas perdidas.
- 21:07Meu Deus, uma guerra. O que tá acontecendo aqui?
- 21:10Olha só que. Usurpar o território dela e sem
- 21:13avisar, né? Elas não sabiam, de repente elas
- 21:15eram de outra cidade, mas que loucura.
- 21:17É. Foi uma coisa, uma modernização.
- 21:19Assim, a força ali foi uma coisa que realmente mexeu com o Brasil
- 21:23inteiro. Exato.
- 21:25E para você, Ju. Para mim?
- 21:27Tem Na Na cultura africana tem uma palavra que se chama Banzo,
- 21:31né? Que é uma melancolia misturado
- 21:33com uma saudade disso que foi arrancado, né?
- 21:38Dessa história arrancada desses povos negros.
- 21:41E aí eu sempre me pego pensando nisso, que eu sinto algo
- 21:44parecido com Paulo Afonso, que é a Bahia.
- 21:47Que é a Bahia, né? Que é Oo lugar de onde eu venho,
- 21:51porque São Paulo, ele vai dando 11.
- 21:57É uma engessada na gente, que a gente tem que ser muito parecido
- 22:01com tudo para ser aceito, né? Para não passar nenhuma
- 22:05discriminação do sotaque, do jeito da roupa, do pensar, tudo
- 22:09é muito mimado. E aí eu sempre tinha essa
- 22:12dificuldade. 11 falei, por que que saímos de Paulo Afonso?
- 22:16Por que que a gente saiu e sempre criava histórias de
- 22:19possibilidade de vida que eu teria lá.
- 22:20Falei assim, nossa, eu acho que eu seria assim, eu seria assado,
- 22:23e como criava várias histórias, então acho que eu sempre tive
- 22:26muita saudade. Porque eu saí de lá com 5 anos
- 22:29de idade. Muita saudade desse lugar, dessa
- 22:33memória, dessa casa que eu via lá da do do que eu inclusive eu
- 22:37coloquei no livro, né? Ele não é autobiográfico, mas me
- 22:40empresto essa história, sabe? Do cavalinho que meu pai tinha
- 22:45do dessas memórias para para, não para.
- 22:51Talvez afagar um pouco dessa saudade.
- 22:54Então, pra mim, a minha relação com com Paulo Afonso é saudade.
- 22:58E aí eu escrever sobre este território também, porque o ela
- 23:01seca, ele, ele transita, ele tem esse urbano também, mas ele tem
- 23:06muito Oo Sertão, né? Sobretudo, sobretudo Paulo
- 23:11Afonso, a Bahia, né? Que me empresta um pouco desse
- 23:15território? Porque eu acho que é uma
- 23:18maneira, mesmo assim, de dar um beijo lá na nos meus avós, nas
- 23:23minhas avós e voltar para aqui. Conseguir é me reestruturar
- 23:28enquanto pessoa. Tem coisas que não voltam.
- 23:32Tinha um sotaque muito bem acentuado.
- 23:35Eu eu amo todos os sotaques. Eu acho que aquilo traz 111
- 23:41coisa única para as pessoas que eu acho muito bonito isso.
- 23:45E aí vai se apagando de de alguma maneira, palavras que eu
- 23:48ouço e eu falo, vamos permanecer.
- 23:50E quando eu encontro os meus pais, que tem muito é, vai
- 23:54fazendo um carinho assim No No ouvido, de falar assim, AI essa
- 23:59palavra que eu tinha esquecido, nossa, que lindo.
- 24:01Por que que a gente usa tal palavra?
- 24:03Nossa, eu vou desapegando um pouco do que me disseram que é
- 24:07certo falar. Para voltar um pouco as palavras
- 24:12em que eu já falava os meus pais.
- 24:15E aí eu trago isso no livro para para contar um pouco e me
- 24:22assentar nesse nessa Bahia que já é uma invenção, né?
- 24:28Uma vez que eu já não estou lá 100%.
- 24:30Então já é inventado os personagens aqui, a Joana, ela
- 24:34não existe lá. Que as memórias da gente a gente
- 24:37inventa. Exato.
- 24:39Então é, é, é. A gente vai recriando.
- 24:42Para mim é muito importante. Eu não consigo escrever, eu fui
- 24:46escrevendo outros outras coisas. Eu falei assim, puxa, esse, esse
- 24:51negócio me persegue. Eu não consigo escrever sobre de
- 24:53outras maneiras assim, porque sempre aparece, sempre vai
- 24:57aparecer, quase perceptível assim que talvez teria um
- 25:00sotaque. Uma amiga me falou assim, nossa,
- 25:03que eu vejo o super sotaque assim, você não fala?
- 25:05Tem OA personagem tem o sotaque porque tem, é é quase não
- 25:12consigo desapegar. EEE, nem quero.
- 25:15Na verdade é pra mim o território ele é importante pra
- 25:19pra uma existência mesmo. Poxa, eu sou territorialista.
- 25:24Poxa, lá eu aí, aí mudei para zona leste, eu falei, poxa, eu
- 25:27sou maior zona leste assim, defensora da zona leste, sou
- 25:31canceriana, bate uma saudade, mesmo assim, de tempos em tempos
- 25:35eu eu vou sentindo que eu vou perdendo um pouco a poesia.
- 25:38Sabe quando você vai escrevendo, você fala, meu Deus, eu preciso
- 25:41voltar a poesia assim mesmo, me pegar.
- 25:43Falei assim, poxa, vou voltar lá.
- 25:44Manoel de Barros, quais são os poetas?
- 25:47As poetas assim que estão trazendo outra coisa que não
- 25:50seja esse linguajar. Essa essa vivência só
- 25:54endurecida, sabe? Eu não estou dizendo que não
- 25:57seja endurecida. O que eu escrevo ou falar sobre
- 25:59Sertão é é tanto quanto. Mas eu digo me aproximar um
- 26:03pouco do que eu, do que eu sou também, ou do que eu gostaria de
- 26:09ser ou do que é um invento ser. Do que poderia ter sido?
- 26:13Poderia tudo isso, então, de de de vez em quando eu preciso
- 26:18voltar para São Paulo? Para São Paulo sempre.
- 26:21Eu tenho que voltar para São Paulo, mas voltar para Paulo
- 26:23Afonso para escrever e relembrar assim, lá No No pé de árvore de
- 26:29acerola da minha vó, e lembrar daquilo e falar, poxa, sentei um
- 26:34pouquinho, mas agora eu volto. Preciso trabalhar, preciso é é
- 26:37outra coisa assim. Não consigo não morar em São
- 26:40Paulo. São Paulo também acolhe, mas é
- 26:42meu patrão, ele é meu patrão, ele que paga meu salário.
- 26:46Salário não, né? Porque eu não tenho salário, mas
- 26:48é bom dizer salário, né? Mas paga a minha existência,
- 26:52diferente do que é ainda as condições desumanizadas que são,
- 26:59é morar num num território que não tem muitas políticas
- 27:03públicas que não que a cultura é sucateada.
- 27:07Isso. Então lá é um respiro para
- 27:11continuar aqui. Bora?
- 27:12Quando eu perder a poesia, eu volto para Paulo Afonso.
- 27:14Mas a gente tem essas obsessões, né?
- 27:16E acho que, principalmente quando quando você fala isso da
- 27:18saída, isso traz a gente mais para obsessão, às vezes até do
- 27:21lugar baixo Paris, eu fui muito pro cerrado que você fica
- 27:24trazendo cerrado, cerrado, cerrado.
- 27:25Acho que só porque eu tava nessa saudade também de não estar mais
- 27:28lá. E nos próximos livros, vocês
- 27:30acham que vão se manter nesse espaço do território, pensando
- 27:33em Brasília, pensando na Bahia, ou vocês já não estão nessa
- 27:37obsessão, então pensando em outros temas?
- 27:39Nos outros lugares, porque eu acho que a gente conversa muito
- 27:41aqui. Muita, muita gente tem
- 27:43curiosidade do de onde vem o grande tema, né?
- 27:45De onde vem a as ideias dos livros.
- 27:47Eu sei que elas vão se construindo, geralmente não cai
- 27:49assim na nossa cabeça, do Do Nada, mas tenho curiosidade se
- 27:52vocês ainda estão nesse caminho, desses lugares que vocês estão
- 27:56adentraram tanto, mergulharam, pesquisaram ou se vocês estão,
- 27:59não acho que eu resolvi isso aqui e agora eu tô querendo
- 28:03olhar para outros cantos. Como tá aí a próxima construção
- 28:08de vocês? Essa é, eu tô pensando muito
- 28:10sobre isso, por conta de ter iniciado já um processo de
- 28:15pesquisa pra um novo livro, né? Um novo romance.
- 28:19E aí eu fico muito me colocando assim, gente, é, foi muito, foi
- 28:26muito tranquilo assim a questão do território, da construção pra
- 28:32mim. É a reconstrução, né?
- 28:36Criá lo, né? O que eu trouxe de elementos
- 28:39para compor aquela paisagem na cidade da cidade, no romance?
- 28:46Então eu acho que era uma coisa assim, que até o Marcelino, mais
- 28:49uma vez ele na oficina falou para gente, você já tem o você
- 28:53já tem o lugar, você tem o lugar, e é tão importante ter o
- 28:56lugar, né? E parecer assim uma coisa assim,
- 28:59ela tem um lugar, é muito importante você ter o lugar para
- 29:02sua história. E é, eu acho que eu continuo com
- 29:07essa vontade de pensar as lacunas do passado aí no
- 29:12presente, na vida de personagens negros.
- 29:15Assim, tem uma história que eu quero contar, que já nasce do.
- 29:18Tem uma parte no passado também, e só que não é em Brasília, é
- 29:23outro território. Então, assim é reconstruir.
- 29:26Isso me me traz um pouco de daquela insegurança que a gente
- 29:29tava falando no começo. Então essa parte toda de.
- 29:33De tudo que a gente se alimenta antes de escrever a história, é
- 29:36o que eu tô fazendo agora. E é importante porque aí eu
- 29:41consigo trazer alguns elementos, porque a gente é é muito caótico
- 29:46quando a gente tenta explicar o que que a gente tá fazendo.
- 29:48Assim não faz tudo. Esse novo território que você
- 29:52falou que não vai ser Brasília é um território que você tá
- 29:54inventando, assim, trazendo, pesquisando um lugar que você
- 29:58não tem essa vivência é que a gente tem muito isso, desses
- 30:00lugares que a gente tá então em busca da memória, busca cenário.
- 30:03Esse que você tem ainda é um lugar que não é seu?
- 30:05Não é, mas é um lugar do passado.
- 30:07E aí o passado ele te traz algumas elementos também de fuga
- 30:11que você é, consegue, é ele tanto te prende quanto também Te
- 30:16Te Te. Traz uma possibilidade de
- 30:20criação, de imaginação também, mas talvez um pouco livre, né?
- 30:26Do do espaço em si, porque a gente não vai fazer uma
- 30:29cartografia, né? Das ruas e tudo, mas tem essa,
- 30:32essa. Esse ambiente do do personagem,
- 30:35assim que me interessa, assim eu tô tentando.
- 30:40É me autorizar assim e ter mais substância.
- 30:45É interior também na minha mente, desse território, para eu
- 30:50poder começar essa história. Entendo.
- 30:52Muito o que você falou que é muito difícil colocar em
- 30:55palavras, quando você tá nesse processo do entendendo, buscando
- 30:58alguém, te pergunta você falando.
- 31:01Oi, eu dou um puta spoiler ou eu não sei falar dele.
- 31:05Eu tô aqui como o que eu vou dizer sem não contar a história
- 31:08toda? Mas é isso.
- 31:11Eu acho que vai ser possível. Eu vamos lá.
- 31:15Mas essa coisa do passado que me pega, eu acho que eu tive tanta.
- 31:20Tanto flerte com a história na parte da da minha formação
- 31:23acadêmica, que depois que eu escrevi a construção, que eu
- 31:26descobri meu lance com a história, meu lance com a
- 31:29história, justamente querer contá la de uma maneira assim de
- 31:34aquela história, né? Que o pessoal estava
- 31:37compartilhando esses dias de alguns trechos do a fonte da
- 31:41autoestima e narrar o outro da Tony Morrison, que ela fala
- 31:46assim, Ah, se você quer escrever um livro.
- 31:49É, primeiro pensa no livro que você queria ler.
- 31:52Então eu queria ler um pouco desses personagens assim, eu
- 31:55quis ler sobre, eu quis, queria ler sobre esses trabalhadores
- 31:58que foram construir Brasília. Eu gostaria de, mas eu queria
- 32:01ler um livro histórico, eu quero ler.
- 32:03Eu quero imaginar esses personagens em situações assim,
- 32:06que que consigam transpor toda a complexidade que é viver no
- 32:11mundo sendo uma pessoa em tempos diferentes.
- 32:15Então esse é o meu barato, eu quero é.
- 32:18Mais uma vez voltar a história, mas eu entendi que eu vou
- 32:21continuar trazendo. É explorando essa lacuna, esse
- 32:26silêncio, a partir do do confronto.
- 32:28Não confronto, mas ali de 2 de 2 tempos diferentes.
- 32:32Mais ou menos nesse sentido assim.
- 32:34É, mas legal, porque você tinha esse esse lado de talvez ir pra
- 32:38história, história Na Na academia, né?
- 32:39Como a gente está dizendo, estudar.
- 32:41E aí não foi, mas está trazendo isso pra literatura.
- 32:43Então ela continua super presente em você, né?
- 32:45Essa pesquisa, o passado pra transformar em ficção, muito
- 32:48legal também. Acho que é um lugar que eu gosto
- 32:51de, de me ver assim. Legal você e já com as suas
- 32:55obsessões. Olha, minha obsessão é essa
- 32:58personagem aqui, deste livro. Que eu tenho a sensação que eu
- 33:02não o goela seca. Ele foi um livro para me mostrar
- 33:08que eu sempre soube que eu fui escritora, sou escritora.
- 33:15Mas ele validou um pouco assim, sabe?
- 33:18Ainda mais o selinho do Jabuti, acho que.
- 33:21Eu sei, eu sei que é é complexo falar isso, mas esses selinhos,
- 33:24eles trazem esse espaço da validação do Ah, olha só,
- 33:27cheguei nesse lugar, né? Você dá um outro passo para ele.
- 33:30É EE, eu acho que que pra mim pensar assim, poxa, um livro em
- 33:35que me falaram, Jô, você é da poesia, poxa, você tem que
- 33:38publicar suas poesias, vai vender mais?
- 33:41Eu falei assim, mas eu quero fazer o que eu gosto mais, nem o
- 33:44que vai. Eu falei assim, poxa, nem que eu
- 33:46fique com ele, encaixotado lá, eu vou fazer o que eu gosto.
- 33:50Mas ele foi um livro que me mostrou um caminho.
- 33:54O que eu estou escrevendo agora que já vai é o terceiro ano que
- 33:58eu estou escrevendo esse romance é é de fato que eu, de maneira
- 34:03um pouco mais consciente sobre o que eu queria contar.
- 34:07É o que eu estou fazendo agora, né?
- 34:09Eu tenho uma obsessão que essa personagem, né?
- 34:11Esse livro aqui, tem essa a Joana, que passa por todos os
- 34:15contos, poxa, vim começar a escrever o outro.
- 34:19Aí daqui a pouco eu falei assim, poxa, ele tem uma personagem
- 34:21mulher lá? E eu falei, poxa, fui colocando
- 34:24outros nomes. Parece meio, é, é até meio.
- 34:30Estranho quando fala assim, AI, mas ele me tomava, sabe?
- 34:33Não é uma escritora tomada pela não posso fazer outra coisa, mas
- 34:36toda vez que eu colocava outro nome, me dava uma brecada e ela
- 34:40falou assim, Joana, eu falei assim, mas não pode, né?
- 34:41Porque assim, poxa, 2 livros. Joana, né?
- 34:44E eu tinha um nome, e aí ele aconteceu o início do romance,
- 34:48ele aconteceu um texto, um exercício que Marcelino deu, e
- 34:53eu falei assim, poxa, já. Vou escrachar tudo, vou chegar.
- 34:56Qual foi esse? Exercício o meu livro também
- 34:58veio de meu exercício, o Marcelino.
- 35:00Era veneno de um pequeno dia. Ah, esse eu não passei.
- 35:02Deve ser mais atual. O meu era 10 cenas de infância.
- 35:05Ah, boa, boa. Aí aí eu também teve o
- 35:09construção, foi, tá vendo? Vou fazer com o Marcelino.
- 35:13Saiu. E aí eu escrevi o veneno do
- 35:16pequeno dia de uma mulher falando uma porrada de coisa
- 35:20nasceu deste. Texto e aí eu falei assim, este
- 35:25texto aqui queria, queria que fosse, queria.
- 35:28Eu queria um nome, Maria Fulô, porque meu pai falava de uma tal
- 35:32Maria Fulô e Fulô. Era é diferente de flor, né?
- 35:35Aí eu falei assim, vai ter esse nome, era essa obsessão.
- 35:38Só que eu colocava a Maria Fulô e não IA e não sei o quê, e era
- 35:42a Joana. E enfim, aparece, tem lá, e aí
- 35:46eu fui, é. Tentando fazer manobras com que
- 35:51é essa personagem existisse, mas ela não atrapalhasse o próprio
- 35:55enredo. E que vai nascendo, né, né?
- 35:58Não sei. Assim o livro vai começar a.
- 35:59Atrapalhar. Eu não sei onde o livro começa,
- 36:03se é no começo, se vai ficar bom no fim.
- 36:05Não sei o que. Para mim é esse meio que
- 36:07acontece. Esse texto entrou no meio do
- 36:09livro e aí ele foi foi foi se criando corpo a partir dessa,
- 36:15desse único texto. Depois, eu não sabia nem onde
- 36:18que eu encaixava ele e pra mim. Aí vou vou trazer o território,
- 36:22né? Que você a um território
- 36:24fictício eu não cito exatamente, mas se passa num assentamento em
- 36:31que é uma mulher em busca de algo.
- 36:34Eu já tenho o Itamar. O Itamar falou assim, quando eu
- 36:37estou escrevendo, eu não posso contar o que eu estou
- 36:40escrevendo. Aí eu falei assim, poxa, é
- 36:42verdade, né? Talvez traga um azar assim, só
- 36:46bocuda, velho. Aí eu tô me segurando aqui só
- 36:48pra. Não.
- 36:50Contar assim? É aí eu falei assim, poxa, mas é
- 36:54porque na medida que eu conto, eu também vou.
- 36:56Vai lembrando? Eu vou entrando naquilo, eu
- 37:00tenho uma dificuldade de é poxa. Tem uma parte que para mim, eu
- 37:05eu escrevi um período, aí deixei de descansar lá uns 3 meses.
- 37:09Quando eu retornei, eu falei, meu Deus, como que eu escrevi
- 37:12isso? Vou excluir?
- 37:14Alguns amigos tinham lido, eu falei, como que me deixaram,
- 37:17como que deixaram passar isso? Poxa, ruim.
- 37:20Então eu preciso deixar ele descansar um pouco para não
- 37:22ficar. Escreve, apaga, escreve, apaga,
- 37:26mas ainda sem medo de tacar coisas No No lixo mesmo, porque
- 37:31eu acho que tem é quase uma burra, né?
- 37:34Você vai escrevendo, você escreve meio pra nada, aí depois
- 37:37parece que assenta. Aí você fala assim, poxa, aqui
- 37:40tô encontrando um pouco desse lugar do livro que eu gosto.
- 37:43Aí ele dá uma derrapada, aí você fala, poxa, eu não tô no momento
- 37:45bom, porque eu não tô conseguindo.
- 37:48EE pensar nele com o devido cuidado.
- 37:51Então são personagens. Quando a gente está construindo
- 37:54o personagem, poxa, a gente está dizendo para o mundo uma forma
- 37:57de viver, de olhar o mundo, a gente está emprestando, né?
- 38:01O nosso olhar de escritora para o personagem que vai apresentar
- 38:07para o leitor. Todo mundo quer uma pira da tua
- 38:10cabeça. E que isso é a grandiosidade de
- 38:13ser escritor, escritora, né? Você apresenta um mundo
- 38:17diferente, um novo. Então, para mim, eu sempre volto
- 38:21e falo assim, poxa, é, é isso que eu quero chegar nesse
- 38:23personagem, é aqui. O que que eu quero dizer com
- 38:26ele? Sempre tem essas questões, então
- 38:28eu, Ah, então beleza, então eu vou passar alguns meses aqui com
- 38:31esse personagem. Pra mim, ele tá indo pra outro
- 38:34caminho, tá ficando vago demais, que é quando falta poesia.
- 38:38Aí eu volto assim, eu, eu, eu exclui uma grande parte assim,
- 38:43porque a primeira parte do meu livro eu escrevi em São
- 38:45Francisco Xavier, que é a residência literária que eu fiz
- 38:48lá. Aí a segunda parte foi quando eu
- 38:50voltei pra São Paulo. O que a segunda parte pra mim eu
- 38:53falei, sem poesia nenhuma, velho, São Paulo acaba com meu
- 38:56cérebro. São modos diferentes de escrita
- 38:59aí? Voltei agora.
- 39:00Falei assim, não, agora eu vou. Olhei a primeira.
- 39:02A primeira parte dele eu falei assim, gosto disso.
- 39:05Na segunda parte eu falei assim, sem poesia, aí eu fui.
- 39:08Tive que tomar o meu tempo para ler poetas e falar assim, o que
- 39:12que eu quero com cada personagem?
- 39:14Não, assim, não, não, não. Ah, eu vou fazer uma gênese do
- 39:18personagem, não ainda. Ele está embrionário,
- 39:21embrionário, é para, para, para ele ele ser 11.
- 39:30É importante naquela história assim, sabe, não ser
- 39:32coadjuvante, você fala, poxa, então é essa minha obsessão
- 39:36assim, essa Joana que se apresenta lá e eu dei uma quase
- 39:39um jeito nela, que falou assim, pronto, fica aqui, né?
- 39:42Mas eu a minha escrita, ela É Ela, ela é organizada no sentido
- 39:48de eu pego um período e Ah, vou escrever, né?
- 39:51Isso daqui é é Sério também pra mim, sabe brincar, posso brincar
- 39:55no livro, mas também é Sério, né?
- 39:56OOO, mia Couto, e o agualuza falou assim, Ah.
- 40:00Que eles não são trabalhadores da escrita, né?
- 40:04Não levam isso como trabalho. E eu fiquei meio confusa, porque
- 40:09eu falo, poxa, eu levo como um trabalho, me organizo o ano
- 40:11inteiro, para que eu posso escrever, fazer uma residência
- 40:14lá com Marcelino, passar 111 período ali.
- 40:17Isso porque agora isso é possível no momento de vida, mas
- 40:24ela é organizada, ela é pensado, porque senão a gente eu não, não
- 40:27sou escritora. Porque eu tenho outras
- 40:29urgências, que é como todos nós, né?
- 40:32De sobreviver, de trabalhar. Mas a gente precisa.
- 40:36É a escrita que me dá uma. O apoio IA até perguntar, você
- 40:39entrou um pouco no, no seu processo criativo?
- 40:41Até trouxe depois. Eu quero ouvir também da
- 40:43Andressa, a escrita ainda não é esse trabalho principal para
- 40:46vocês. Eu sei que a Andressa tem um CT
- 40:48também, que ainda não é aquele que tem pessoas que já
- 40:50conseguiram, são raras no Brasil.
- 40:52Mas e aí, como é para vocês esse esse processo de escrever e de
- 40:56criar um livro? Conciliando com esses outros
- 40:58trabalhos, por exemplo, a Ju já trouxe um pouco que ela reserva
- 41:01esse período do ano e consegue, vai para uma residência, então
- 41:04tenta, né, separar ali. Algumas pessoas conseguem, sei
- 41:07lá, separar um mês, talvez um mês de férias, alguns dias, um
- 41:09período. Como é para você isso?
- 41:11Andressa, no dia a dia é você é engolida pelo trabalho, não eu.
- 41:16Porque pensando um pouco no meu cotidiano, eu tenho um pouco
- 41:18essa balança que você fica tentando puxar do trabalho.
- 41:20Às vezes trabalho engole demais e você AI, meu Deus, não tá
- 41:23sobrando 11 minuto de tempo ali no dia.
- 41:26Você tem que ficar balanceando. E acho que muita gente se
- 41:28pergunta isso, como é escrever? Conseguir escrever a densidade
- 41:32de um livro, né? Conseguir publicar um livro
- 41:34tendo outros trabalhos, tendo essa outra rotina.
- 41:37É, eu acho que para mim assim, quando eu escrevi a construção.
- 41:44E como eu estou agora, como todos nós, né?
- 41:46Eu trabalhava trabalhando 40 horas semanais e tive que fazer
- 41:50uma balança assim de um cálculo do do do meu cotidiano, que era
- 41:55muito organizadinho assim, é, mas não era organizadinho.
- 42:01Mas nem sempre é nesse horário que eu tenho aqui.
- 42:05Aí consegui escrever. A gente sabe que não é assim,
- 42:07mas eu tinha o meu horário depois do trabalho.
- 42:12Fazia alguma coisa quando eu chegava e começava a escrever e
- 42:14ficava até alta madrugada. Aí acordava então muito
- 42:18cansativo. Foi muito cansativo.
- 42:19Vocês, vocês de escritora e trabalhadora EEE fazendo aquilo
- 42:27totalmente assim. Ninguém pediu.
- 42:32Tem esse momento que você para assim.
- 42:34Caramba, eu medo? A minha família falava assim.
- 42:37Oi final de. Semana ninguém pediu isso é
- 42:42aquele momento. Que vai falar morrendo esse pai
- 42:45e fala AI gente, ninguém pediu sim, a gente fica totalmente
- 42:49doido pra dentro daquela história e aí você fica tão
- 42:52feliz quando você consegue AI fluir e aí nesse dia eu tava,
- 42:57então você acaba é Oo essa primeira experiência, ela é
- 43:01reveladora porque você começa a aprender, né?
- 43:04Sua, sua, seu próprio jeito de de.
- 43:07De conseguir criar mais assim, ter mais fluidez.
- 43:12Então se um dia eu tava muito parada assim, não tava fluindo
- 43:15nada, porque eu tava muito cansada.
- 43:17Eu tomava um sol, IA pra piscina e eu voltava lá, IA pra nossa
- 43:21água mineral, brasiliense. AI, uma delícia.
- 43:23Praia de Brasília com muitas aspas, e aí eu conseguia, então
- 43:28eu consegui encontrar algum espaço em que eu respirava um
- 43:33pouco e eu via que aquilo era importante para eu.
- 43:35Flui sem ninguém pedir. Eu passei 3 meses dormindo super
- 43:40mal, escrevendo, mas agora e aí? Enfim, no meu trabalho é muito
- 43:46atribulado, como de todo mundo. E nesse último ano.
- 43:52Eu passei, né? 2 anos ali eu trabalho sem
- 43:54conseguir fazer outras coisas. Então acho que também tem
- 43:56períodos em que a gente fala assim, é, eu trabalho no
- 44:00Ministério da cultura, na área de livro e leitura, com política
- 44:02cultural para escritores, literatura, democratização do
- 44:06acesso ao livro. Então é, a gente teve muitos
- 44:11desafios ali. E eu falei assim, é isso que eu
- 44:15tô fazendo agora? Então, assim, era isso que eu
- 44:17estava fazendo super e estou ainda dedicada e tudo a gente
- 44:21fazer. A nova é a nossa nova, nosso
- 44:25novo plano nacional do livro, leitura, pnld literário,
- 44:28chegando nas bibliotecas públicas e comunitárias.
- 44:30Então, muito trabalho. E agora, nesse nessa reta do ano
- 44:33passado para cá, eu comecei a me organizar novamente nas noites
- 44:37para o processo de pesquisa que é.
- 44:41Tão importante para mim. E eu tô gostando muito de
- 44:44conseguir seguir essa rotina até o momento em que eu achar assim,
- 44:48que as imagens já estão mais assim, nítidas e que eu tenho
- 44:53uma frase inicial, porque eu lembro muito quando é quando eu
- 44:56escrevi a construção, que é dos exercícios do Marcelino.
- 45:01É, eu escrevi algumas cenas que estavam mais ali na metade, mas
- 45:05não era o começo do livro, então não era o começo, não tinha
- 45:08frase inicial no dia que eu escrevi a primeira frase que.
- 45:11Fez sentido para mim que eu já tinha tentado várias, aquela que
- 45:14fez sentido. Aí o livro desencadeou assim,
- 45:18não é esse momento que eu estou agora, é.
- 45:20Eu tenho plena consciência que eu ainda preciso de mais.
- 45:24É contato com essa, com essas personagens que eu quero é
- 45:28contar nesse novo livro, mas entendendo sempre no meu lugar
- 45:32de trabalhadora que é AAOO cuidar do meu tempo, só meu.
- 45:40Sozinha com os meus pensamentos, me alimenta muito.
- 45:43Então deixar isso passar é muito complicado.
- 45:47E agora? E eu acho que tudo é decisão
- 45:49também e escolha. Então agora eu tô nesse momento
- 45:52e eu tô gostando muito de. Às minhas 3 horas ali da noite
- 45:56que eu fico. A gente mesmo pede porque faz
- 46:00muita falta, né? Mas faz muita falta pra gente.
- 46:03E acho que é interessante vocês colocarem isso, porque muita
- 46:06gente pensa que é muito linear, né, nesse processo sem parar ou
- 46:09sempre tá aqui, sempre escrevendo e não é.
- 46:10Às vezes é isso. Tem períodos que a gente vai
- 46:13conseguir se dedicar mais, tem períodos que.
- 46:15Por algum motivo, a gente vai se dedicar menos e tudo bem, 1 hora
- 46:17vai. E vocês falaram em tempo até de
- 46:19curiosidade, quanto tempo vocês levaram para escrever?
- 46:22Se for pensar no total esses 2 livros, o goela seca é a
- 46:24construção. Tem alguns que são mais rápidos,
- 46:28tem alguns que são mais demorados.
- 46:29Acho que o goela seca de 5 a 7 anos assim.
- 46:32Olha, foi longo. É porque eu já tava.
- 46:35Eu tô chutando ainda, generosa, assim nesse período, assim de
- 46:38lembrança. Porque eu eu sempre escrevi.
- 46:42É, tem contos aqui muito, muito antigos que eu fui reelaborando
- 46:48depois. Uma musiquinha para nos
- 46:51acompanhar nesta gravação. E.
- 46:57Isso é até trouxe isso que tinha alguns que estavam com você
- 46:59desde 2016. Você falou, então é, é um que te
- 47:02acompanha de certa forma. Eu venho do histórico de
- 47:04antologia poética, né? De saraus.
- 47:07E aí pensar em publicar um livro solo demorou pra chegar e aí
- 47:12quando chegou essa possibilidade, eu fui escrevendo
- 47:15alguns novos que eu falei, Ah, acho que falta, que isso cria,
- 47:19né? Lançar esse, esse outro
- 47:23reformulei alguns, mas acho que de 5 a 7 anos aí já me dá medo,
- 47:26porque assim eu estou escrevendo um romance.
- 47:28Agora vai demorar mais tempo. Hoje a gente estava falando
- 47:32antes de começar a gravar do episódio da Andréa do puergo com
- 47:34a Aline bei, que a Andressa comentou.
- 47:36E a Andréa ela traz muito isso, que tem um livro dela, que ela
- 47:39fala que está anos e anos e anos escrevendo e que ainda está na
- 47:42gaveta e está parada. E que ela lá nesse processo,
- 47:44desse livro que não acabava nunca e aí não respiro.
- 47:46Ela veio e escreveu a pediatra muito rápido, num processo muito
- 47:49rápido, rapaz. Escrevi um mês, 2 meses.
- 47:51Foi e voltou para esse processo lento.
- 47:54Então, livros e livros verdade tem um tempo muito diferente.
- 47:57E o seu, Andressa? É verdade, É Ela.
- 48:00Eu também fiquei impressionada quando ela falou do da pediatra,
- 48:03que é tipo coisa de 1 mês, 2 meses, é tipo.
- 48:06Uma vez ela me falou assim, Ah, é um mês, mas eu tenho vergonha
- 48:09de falar, então eu falo um pouquinho mais.
- 48:12Que delícia, pelo amor de Deus, me mande a.
- 48:15Bênção é a construção assim se eu.
- 48:20Conto obviamente com o tempo de pesquisa que eu fiz para
- 48:23exposição, reintegração de Posse.
- 48:25Então nesse momento ali da exposição, eu ainda tava na
- 48:28época do doutorado, foi 2019, eu tava com afastamento para
- 48:33estudos, então eu tava dedicada a tese e aí eu fiz essa
- 48:37pesquisa. Então eu passei assim, acho que
- 48:40uns 6 meses muito envolvida com essa a expografia.
- 48:44Como que a gente IA contar? É.
- 48:47Olhando aquelas fotografias daquelas pessoas negras na
- 48:50construção e tipo, aquilo foi realmente algo que é consolidou
- 48:56em mim essa. Essa história, né?
- 48:58Eu, eu tinha nitidez. As imagens as.
- 49:01Imagens elas. Quando eu falei assim, vou
- 49:04escrever sobre construção, aquilo era muito mentalmente,
- 49:08muito imagético também para mim, então isso facilita quando você
- 49:12quer. Trazer as palavras cor certas,
- 49:16que você acha que são as mais adequadas para você recompor
- 49:19aquilo a partir da sua linguagem, a sua forma.
- 49:22Então foi ali, e aí eu defendi a tese tudo.
- 49:25E quando eu fui fazer a oficina com o Marcelino, a gente
- 49:29começou, acho que tipo, no comecinho do ano, assim em
- 49:31fevereiro. E aí comecei os exercícios.
- 49:33Os exercícios que são tão incríveis, né?
- 49:36Que levam você para pensar de uma forma tão diferente
- 49:39mentalmente. O seu cérebro funciona de uma
- 49:41maneira. Diferente quando você se propõe
- 49:44a pegar 11 palavra ou algo que sabe que você nunca pensou e
- 49:48falou assim, agora você vai escrever 11 imagem, você vai.
- 49:52Eu lembro do exercício, é de tipo coisas desconectadas, assim
- 49:57cada um pegou uma palavra. Eu fiquei com Areia movediça.
- 50:00Nunca vou esquecer porque eu fiquei doida pela Areia, eu?
- 50:02Vi. Livro, não sei o.
- 50:05Que então das listas também, que é o muito legal e que é
- 50:08exatamente isso, os os exercícios de nossa exercícios.
- 50:12Não quer sair os exercícios de escrita.
- 50:14Eles colocam muita gente nesses lugares diferentes de quando a
- 50:16gente tá nesse AI, tá de onde eu parto agora?
- 50:19Quando vem a primeira frase, ele dá um gatilho, né?
- 50:21Exatamente. É um estranhamento e um
- 50:23desconforto muito positivo para quem quem quer escrever ficção.
- 50:28Então, assim, tudo aquilo me deixou super.
- 50:31Um desconforto bom que eu tentava solucionar e encontrar.
- 50:34Mas a minha voz ali é muito louco, porque pode ser qualquer
- 50:38exercício. Ele vai te guiar para o que você
- 50:41quer escrever. Você só não sabia como era o
- 50:43ponto de partida. É isso que a Isa falou, né?
- 50:46Mas banda Areia, movie disso aí você fala o que que tem a ver?
- 50:48Poderia ser chinelo? Você IA associar o teu processo
- 50:52de escrita? É isso que é maravilhoso, né?
- 50:54Que é o cérebro que faz isso, né?
- 50:56E é muito precioso assim, porque justamente me me ajudou a chegar
- 51:00à forma, porque eu pensei muito nesse processo.
- 51:03Areia movie disse que você tá é sendo.
- 51:08Fago citado ou você está sendo submetida por uma matéria
- 51:12diferente? Então esse esquecimento que
- 51:14levava essa personagem para um lugar que ela não afundava, mas
- 51:19ela também não IA para cima, então o.
- 51:21Subsolo da Terra, o. Presente o passado.
- 51:24Ali eu entendi o meu livro, a minha, a minha história.
- 51:28Esse exercício foi muito precioso, porque para mim era
- 51:30uma Areia movediça também. Então tá a história da Jordana.
- 51:33Ali no passado, em que ela não tem aquele Lastro todo de uma
- 51:36família incrível, de uma família com história, de uma família com
- 51:40um passado anterior, é muito que nem eles conheciam assim, né?
- 51:46Já que ela é bisneta de mundial, orixá que herdou um terreiro,
- 51:50que veio muito de muito tempo e tudo então foi meio nesse
- 51:54processo. E aí na oficina inicie depois
- 51:57que eu tive esses exercícios e fiquei ali, é muito.
- 52:02Muito dentro dos meus, da minha cabeça, eu comecei a escrever em
- 52:07julho. Foram 3 meses para terminar a
- 52:09construção, mas entendendo que tem toda uma história, porque
- 52:12trás essa essa fase. Memória que vinha de anos, né?
- 52:16Às vezes as histórias são escritas rápidas, mas elas nos
- 52:19acompanham já da da vida inteira, né?
- 52:21E? Isso, essas imagens assim.
- 52:22E tem 11 livro do um Murakami que ele acho que é o romancista,
- 52:28é. Eu sei que livrar, mas eu não tô
- 52:31lembrando o título também. Que ele fala, né?
- 52:34De da profissão de romancista, como ele escreve.
- 52:36E ele fala de umas gavetas assim, da memória da cabeça
- 52:39dele, várias gavetinhas assim. Acho que quando eu fui escrever
- 52:42a construção, eu IA acessando várias coisas assim, várias que
- 52:46a gente é. Acaba sendo muito observador e
- 52:49não é observador de tipo de tudo, é um detalhe, é uma coisa
- 52:52que você nossa cabeça, uma situação.
- 52:54Então fui pegando essa, essas pinceladas essa.
- 52:58Por exemplo, uma personagem, a mãe da Jordana, ela é uma mulher
- 53:03que tem depressão assim, e aí tem essa.
- 53:06Eu queria tem uma imagem de uma mulher que era era como é que
- 53:11ela era cantineira na minha escola, fazia cantina a.
- 53:16Como é que fala o nome, gente? Merendeira, merendeira, cantina
- 53:19não existe. Falei, nossa, uma nova?
- 53:22Merendeira, trabalhava na cantina e ela era amiga da minha
- 53:25mãe e minha mãe falava assim, ela era uma mulher negra,
- 53:27retinta, e minha mãe falava, é, eu pego o ônibus com ela e ela
- 53:31chora. A viagem inteira que eu era
- 53:33criança, aquilo me tocou tanto, gente, uma mulher que chora a
- 53:35viagem inteira depois do trabalho, 11, tristeza assim e
- 53:40assim a gente também tem muito essa imagem das mulheres negras.
- 53:43Minha família é cheia, minha mãe é todo mundo, mas também tem
- 53:47essa mulher que chora viagem no ônibus o tempo inteiro porque
- 53:49ela tem uma depressão. E aí essa gavetinha de quando eu
- 53:52fui criar a mãe da Jordana, eu queria, aí eu fui e acessei.
- 53:56Então é uma coisa muito invisível de coisas que te
- 53:58tocaram, que também você em algum momento.
- 54:02Não sabemos porque elas ficaram, mas elas ficaram.
- 54:06E aí? Acabou sendo importante também,
- 54:08a gente vai fazer. No fim das contas, não Oo tempo
- 54:12nem interessa tanto, né? Porque às vezes você precisa de
- 54:15mais tempo para se acostumar com aquela história.
- 54:18EEE, aprofundar um pouco mais e às vezes elas já estão aí, né?
- 54:22Poxa, então 3 meses, poxa, eu adoraria em 3 meses, mas eu acho
- 54:27que é muito relativo, né? No trabalho você pode demorar
- 54:31muito tempo e outro. É, sim, era mais de curiosidade,
- 54:37mas é bem isso mesmo, cada livro tem seu tempo, nunca tem jeito.
- 54:40Se vocês pudessem trazer assim é, não tem não, mas livros ou
- 54:44autoras que inspiraram vocês no nesse processo, vocês conseguem
- 54:48lembrar? Eu sei que às vezes no susto, eu
- 54:49não sei se vocês são assim, mas pelo menos eu eu esqueço todos
- 54:52os nomes, parece que eu nunca li um livro em toda minha vida, eu
- 54:55também, então eu acho que vocês vão conseguir lembrar algum.
- 54:58Ela leu de verdade, eu não lembro disso.
- 55:01Porque quando alguém me pergunta, eu não consigo lembrar
- 55:03nenhum. A gente pode ir conversando de
- 55:07outro Temer, depois vocês vão tentando processar esse aí.
- 55:10Vocês sentem que a escrita desses livros mudou vocês de
- 55:13alguma forma como pessoas, mas também enquanto escritoras,
- 55:17porque geralmente assim, esses primeiros livros, esses
- 55:19primeiros lugares vão mudando a gente, né?
- 55:21Então, o. Start assim, mas eu tenho um
- 55:24livro muito assim que eu lembro da Marilene felinto, as mulheres
- 55:28de o papo que eu tava na graduação, e aí minha
- 55:31orientadora, a professora Regina dalgastani.
- 55:34É, me apresentou esse romance que eu não conhecia e aí eu
- 55:36fiquei impressionado porque a Marilene felinto era uma
- 55:39jornalista que eu lia na cara dos amigos na revista antiga,
- 55:42né, gente? Mas eu li sucesso, eu lia e aí
- 55:44eu falava, gente, ela é jornalista, acho que aquela
- 55:46coisa muito assim, ela é jornalista, ela é escritora, ela
- 55:49é negra e ela escreveu o livro com 22 anos e é um livro
- 55:52novinha, novinha, ganhou Jabuti. EE é um livro que tem esse
- 55:57desconforto, a risia é um é marcante.
- 56:01Esse livro eu amo. A rizé, ela é estudante do
- 56:04Mackenzie e ela chega lá e ela é cotista.
- 56:06E ela estuda inglês, e ela fala inglês, e ela tá na literatura e
- 56:10tudo. E ela sempre muito confrontada
- 56:12com aquele universo letrado. E ela tem uma raiva e ela volta
- 56:17pra Recife andando na BR, a margem da da modernidade.
- 56:22Então assim é a rizze ela. É, me marcou tanto assim como
- 56:28leitora e estudante também, né? Informação aquela época que eu
- 56:32tenho muita certeza. Sim, umas certezas que só faz
- 56:37sentido mesmo pra pra mim, mas que a Jordana ela queria ter um
- 56:41pouco da Riza a Riza ela é mais. É a nas no sentido desse
- 56:45incômodo, né? Dessa desse mal estar que ela
- 56:48vivencia e ao mesmo tempo ela transforma aquilo tudo na
- 56:51matéria da vida dela. Ela é muito verborrágica.
- 56:53Ela é brava e tudo e ajudando aquela coisa que é mais insegura
- 56:57e tudo mais. Tem todo desconforto assim.
- 56:59Então eu acho que esse ambiente acadêmico que te exige tanto
- 57:03quando você vem de espaços. Pobres é não letrados, é em que
- 57:07você tem que conquistar tanta coisa para estar ali e as
- 57:10pessoas chegam lá e tudo para elas.
- 57:12Já está dado assim grande parte do caminho e você tem que viver
- 57:15com aquilo e ao mesmo tempo estudar, ser inteligente.
- 57:18EE fazer suas coisas é um é uma coisa muito é grande para
- 57:25pessoas tão jovens. Então a risia, ela inspira um
- 57:29pouco a Jordana. É legal?
- 57:31Olha, lembrei de 3. Que eu falei assim, poxa, esses
- 57:353 é. É muito importante, inclusive o
- 57:38pessoal conhecer que é o escalavra do próprio Marcelino
- 57:41Freire, né? O que ele chama de romance
- 57:44megalítico, em que a gente consegue ver num num livro,
- 57:49gente, como que a gente põe silêncio num livro?
- 57:53Um emudecimento carrancudo assim, sabe, sertanejo?
- 57:57Que o Marcelino, ele faz isso de uma maneira.
- 58:00Muito incrível. Não é à toa que eu gosto de ler
- 58:02tudo que ele faz, escreve. E assim como as oficinas, então
- 58:06o escalavra agora tem um outro infantil que é o transam, do
- 58:10amor, que é da lorrane Fortunato, que é um livro muito
- 58:13bonito, em que conta a história de uma menina que, com vários
- 58:17penteados assim, eu acho que a gente precisa muito cuidar dessa
- 58:21literatura, né? para as infâncias.
- 58:23E o transando amor da lorrane para mim me dá um quentinho no
- 58:27coração de de partilhar assim para as crianças pretinhas de
- 58:31entender esse cabelo crespo e a sua versatilidade e o
- 58:35enaltecimento dessa coroa que é e o das dores que é da Lidiane
- 58:40Maciel, que foi finalista aí do do prêmio Loba.
- 58:44E aí conta, a história é da Maria das dores, é um livro
- 58:48importantíssimo, ela é socióloga, mas ela é romancista,
- 58:52né? E aí o das dores, para mim, ele
- 58:55tem 111 responsabilidade social muito grande.
- 58:58Quando a gente fala nesse processo de drogadição também
- 59:01dessas mulheres que tem a sua história, é um pouco
- 59:04subalternizada, subalternizadas por essa história, é rompida
- 59:10delas e aí acaba indo por esse outro caminho.
- 59:13Então, das dores da Lidiane para mim, poxa, ele é importantíssimo
- 59:19demais ler, então para mim, essas 3 indicações.
- 59:22É uma maravilha, gente bom, que então se inspirou vocês, espero
- 59:26que inspire outros leitores também, notar aí para a gente
- 59:29poder ler, tá acabando o nosso tempo, eu acho.
- 59:32Será que dá tempo da gente ler um trechinho?
- 59:34A gente, o trechinho bem rapidinho, olha, deixaram aqui,
- 59:36então vamos escolher, quer começar?
- 59:38Ju enquanto eu vou pegando aqui o livro da Andressa, dava tempo
- 59:41da gente ler um pouquinho, porque daí a gente conversou
- 59:43tanto, né, para vocês. Conhecerem pelo menos um
- 59:44pedacinho da literatura das 2 posso, pode?
- 59:50Foi daqui que eu vim. Eu não cheguei aqui apenas com
- 59:54os meus pés. Cheguei com a sola rachada de
- 59:57meu avô, com a chinela torada da infância, cada qual com sua
- 1:00:01distância, parteira, a minha avó no riso de caboclo, de meu pai
- 1:00:05nas mãos de Carlo, de minha mãe. Umas feridas abertas.
- 1:00:09Foi e ainda vai. Cheguei aqui pela infância que
- 1:00:12se faz pôr do sol por muito tempo em minha mente, nos
- 1:00:16joelhos de reza de minha mãe e nas mãos grossas de enxada de
- 1:00:19meu pai. Nunca estive sozinho, embora eu
- 1:00:22achasse que sim. Cheguei aqui por causa dos
- 1:00:24traços que tenho também porque são deles nos cuidados quase
- 1:00:28grosseiros de minhas irmãs. Sou o que sou por causa deles e
- 1:00:31por isso não ando só aos dedos que escrevem.
- 1:00:34Ora, acho que foi presente ou vingança de Deus.
- 1:00:37Esse Deus que me custa acreditar, se não for uma mulher
- 1:00:39preta, periférica, mãe, solo, que dança, que é africana.
- 1:00:43Esse Deus chamado deusa, de mãos limpas e sem sangue.
- 1:00:47Esse livro que talvez ninguém da minha família leia, mas vão
- 1:00:50ficar feliz de eu ter escrito as nossas histórias.
- 1:00:53Desejo que você possa contá las. Obrigada, gente.
- 1:01:02As Correntes líquidas foram enchendo o chapadão, agora
- 1:01:04fechado, e houve pouco tempo para pegar o possível dentro dos
- 1:01:08barracos, um maço de cartas enroladas num barbante, uma
- 1:01:12trouxa com as insuficientes mudas de roupa e o documento
- 1:01:16marcado pelos vínculos do manuseio de de mãos que
- 1:01:19trabalham. Ainda era preciso provar que
- 1:01:21existiam incansáveis. Ninguém estava vendo, não
- 1:01:24ninguém queria vê Los. E foi assim que o Lago e sua
- 1:01:27beira do abismo nasceram. Não havia tempo para sofrer o
- 1:01:31desespero da perda, do pouco que se tinha, deu o lugar ao
- 1:01:33instinto que funciona a vida. Esmorecer é pior que morrer,
- 1:01:36porque é mais lento. As pessoas foram atrás das
- 1:01:39tábuas, das lonas, das tintas, das mãos amigas e se juntaram
- 1:01:43próximo a Vila encharcada e as margens do Lago recém nado.
- 1:01:48Havia tanta gente ali como eu me lembro delas depois de tudo que
- 1:01:51aconteceu. Sei que a memória é água com
- 1:01:53sedimentos, a gente deixa a parte mais limpa para cima.
- 1:01:58Em cima para o pesado descer, mas isso leva tempo, então vem
- 1:02:01um pranto estridente de bebê e na superfície da água quase
- 1:02:04límpida, vamos se formando círculos do centro até a borda
- 1:02:07começa devagar como um pranto de pouco ar e depois atinge uma
- 1:02:11rapidez que precipita tudo e lá vem a dor sedimentada se
- 1:02:14misturando, a água quase limpa outra vez eu lembro desses
- 1:02:18homens, mas tem um que eu lembro mais, porque ele teve meu amor,
- 1:02:21meu ódio e depois meu amor de novo.
- 1:02:24Ele fez o bebê chorar com toda a intensidade que seus pulmões
- 1:02:27eram capazes. O instinto fez o alerta da
- 1:02:29mortalidade, da água e do homem que o carregava nos braços.
- 1:02:33Esse bebezinho tinha a cor da pele, do amendoim, aquela fina
- 1:02:37que surge quando a casca mais rígida é irrompida.
- 1:02:40Seus bracinhos, que ainda seriam Fortes, atacavam o ar.
- 1:02:43Eu quis tanto tirá lo dali. Seus 10 dedinhos macios,
- 1:02:47tentavam segurar o que encontravam em sua frente os
- 1:02:50braços de seu pai, transtornado por tudo e por nada.
- 1:02:54Com as pupilas enturmecidas pela ira e anuviadas pelo desgosto,
- 1:02:57ele segurou o bebê no Lago gelado para morrer.
- 1:03:01Como esquecer um minúsculo corpo arroxeado nas mãos do
- 1:03:04sofrimento? Eu não pude.
- 1:03:06E quando esse mesmo homem despecou do alto da obra, tendo
- 1:03:08o crânio esfacelado pelo impacto seco, quase não teve minha
- 1:03:11compaixão, mas eu não pude barrá la como fizeram com as águas que
- 1:03:15inundaram a Vila. Eu lembro dos 2 sedimentos dessa
- 1:03:18água dura. Eu sofri tanto, minha querida,
- 1:03:20não esqueça que eu sofri vendo tudo isso.
- 1:03:23E você sei que você quer contar essa história, eu também te vi
- 1:03:26crescer, olhe, escreva o que for para escrever, maravilha,
- 1:03:32obrigada Andressa gente, obrigada Jô, obrigada Andressa,
- 1:03:35adorei ter vocês aqui para a gente abrir a temporada nova,
- 1:03:38foi uma conversa muito gostosa. Quem tá ouvindo procura então é
- 1:03:41Jô Freitas, Andressa Marques nas redes, procure igual a seca,
- 1:03:45procure a construção para ler, que são ótimos livros e muito
- 1:03:48obrigada por estarem aqui nelas na escrita.
- 1:03:50Obrigada, obrigada pelo convite, estar aqui com.
- 1:03:53Com Andressa com você se encontra de novo, muito bom
- 1:03:57estar com vocês. É isso aí, gente.
- 1:03:59Obrigada pelo convite, Isabela, e parabéns pela iniciativa.
- 1:04:03É é uma oportunidade muito grande a gente ter um espaço em
- 1:04:07que a gente escuta as mulheres falando sobre seus processos de
- 1:04:10escrita. A gente se sente mais
- 1:04:12pertencente a um movimento contemporâneo de pessoas que
- 1:04:16estão aí. Pra escrever suas histórias?
- 1:04:19Obrigada, querida. Fico muito feliz e até a
- 1:04:22próxima, gente. Obrigada.
- 1:04:23Quem ouvir até aqui? Tchau, tchau.