Latest / TIC, Educação e Web / IA nas escolas portuguesas além do código
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- 0:00Imaginem bem este desespero uma professora do primeiro ciclo, já
- 0:04de noite na sua secretária, a tentar copiar linhas e linhas de
- 0:08um código de programação informático?
- 0:10Completamente indecifrável para ela, imagino.
- 0:12Exato, um código absolutamente indecifrável e ela pega naquilo
- 0:16tudo e tenta colar onde? Num documento do Microsoft Word
- 0:20o terror de qualquer informático.
- 0:23E claro, ela fica a olhar para o ecrã e não percebe porque é que
- 0:25a aplicação não ganha vida ali mesmo, no meio daquela folha
- 0:28branca digital. Tenta outra vez, fica frustrada
- 0:31e nada funciona. E não funciona porque, quer
- 0:34dizer, ninguém lhe explicou a diferença avissal que existe
- 0:37entre o formato rico de um documento de Word e um simples
- 0:40ficheiro de texto limpo, tipo um bloco de.
- 0:42Notas, exatamente, que é no fundo o ambiente básico
- 0:45necessário para aquele código web poder correr.
- 0:47É pá, mas é uma imagem hilariante e ao mesmo tempo,
- 0:50profundamente comovedora, não é? É sim, senhora.
- 0:53Demonstra uma coragem imensa. Esta professora não é
- 0:57programadora de todo. Mas está ali nas trincheiras, a
- 1:00tentar construir uma ferramenta interativa do zero para os seus
- 1:04miúdos de 7 anos. E é exatamente por isso que a
- 1:07nossa análise detalhada de hoje foge daquela imagem fria, sabes
- 1:10aquela visão asséptica e puramente corporativa que
- 1:13normalmente associamos a silagron Valley à inteligência
- 1:15artificial? Sem dúvida, o que temos em mãos
- 1:18no programa de hoje é algo muito mais real.
- 1:20É um. Registo extraordinário de uma
- 1:22sessão de formação de professores portugueses.
- 1:24O tema era IAE, ética, desafios e oportunidades.
- 1:29E atenção para quem nos ouve, não são teóricos fechados num
- 1:31gabinete a debitar futurologia. Não, nada disso.
- 1:34São educadores reais nas escolas do nosso país, pessoas a lidar
- 1:39com a falta de recursos, com o barulho constante das salas de
- 1:42aula. E a tentarem fazer a
- 1:43inteligência artificial funcionar na prática, com todos
- 1:47os solavancos que isso implica. O que torna esta partilha tão
- 1:51vital é precisamente a crueza do processo.
- 1:54Vemos o deslumbramento com a tecnologia, claro.
- 1:57Mas também vemos as falhas informáticas e as dores de
- 2:00cabeça. OK, vamos lá desembrulhar isto.
- 2:03O nosso objetivo hoje é mapear as formas mais inovadoras, como
- 2:06estas ferramentas estão a ser usadas e, claro, perceber as
- 2:09dores de crescimento, não é? E desvendar o que esta revolução
- 2:12silenciosa significa para quem se senta hoje nas carteiras.
- 2:16Ora bem, em vez de começarmos com a matemática ou a física.
- 2:20Eu quero puxar o fio pelo lado mais íntimo e humano de todos os
- 2:24relatados nas Fontes. Estou curiosa.
- 2:25O fim do conceito de tamanho único na educação especial?
- 2:29Há um ponto de partida perfeito, porque muitas vezes a tecnologia
- 2:34é acusada de desumanizar o ensino de isolar as crianças
- 2:38atrás de um ecrã. Fala se muito nisso, mas o
- 2:40relato deste primeiro projeto virou esse preconceito
- 2:43completamente do avesso. Estamos a falar de usar
- 2:46inteligência artificial para criar pontos de comunicação.
- 2:49Pontos para crianças que, de outra forma, estariam fechadas
- 2:52no seu próprio mundo. Especificamente, estamos a falar
- 2:55de crianças de 6 e 7 anos no espectro do autismo, que são não
- 2:59verbais, e o que estas professoras fizeram?
- 3:02Foi brutal. Elas utilizaram uma ferramenta
- 3:04de IA chamada Kimi, não foi? Isso usaram o Kimi para desenhar
- 3:08uma agenda digital interativa para quem nos acompanha tentar
- 3:12visualizar. É um ecrã altamente visual onde
- 3:15a criança pode tocar para perceber a estrutura do seu dia.
- 3:18Clica e vê que agora é a hora do almoço.
- 3:21Depois clica e percebe que vem o Recreio.
- 3:24A seguir é o apoio especializado.
- 3:26Exato, e nós sabemos bem que a previsibilidade é uma âncora
- 3:29absoluta para crianças no espetro dá lhes uma segurança
- 3:32enorme. O que é fascinante aqui é como a
- 3:34tecnologia serviu de motor para uma intervenção pedagógica e
- 3:39percirúrgica. E as professoras não se ficaram
- 3:42pela agenda. Não o que mais inventaram?
- 3:44Elas pegaram no clássico o método das 28 palavras é um
- 3:48método de literacia muito focado na associação visual e na
- 3:52divisão silábica, e usaram outro modelo de linguagem, o cloud,
- 3:56para o adaptar de forma Extrema. Espera adaptar como?
- 4:00Porque porquê usar AIA para isso?
- 4:02Porque crianças não verbais com este perfil têm frequentemente
- 4:05dificuldade com obstrações estás a ver?
- 4:07Se lhes mostrarmos um desenho animado de um sapato, um desenho
- 4:10simples, elas podem não fazer a ligação ao objeto real que têm
- 4:13no pé. Ah, faz todo o sentido, então
- 4:15AIA entrou aí para resolver esse problema da abstração.
- 4:18Precisamente, o modelo de linguagem foi instruído para
- 4:22gerar e organizar exercícios de correspondência e cartões de
- 4:26divisão silábica. Mas utilizando exclusivamente
- 4:29imagens fotográficas reais. A fotografia de um sapato
- 4:32verdadeiro da uva da maçã. Exato, e a máquina não o fez só
- 4:36para uma aulinha isolada de 45 minutos.
- 4:39Gerou toda a planificação e estruturação de material com
- 4:43grelhas e tudo para 14 semanas seguidas.
- 4:46Incrível. E qual foi Oo impacto?
- 4:48Real disso, porque no papel soa muito bem, mas e na prática?
- 4:52O relato menciona que uma destas crianças, que vivia
- 4:55completamente fechada na sua concha não verbal, já começou a
- 4:59verbalizar as primeiras sílabas através destes cartões, é?
- 5:02Pá, isso arrepia me. É como se AAIA fosse um alfaiate
- 5:06digital no ensino tradicional. O sistema dá te uma roupa de
- 5:10tamanho único. Pois e se a roupa não te servir?
- 5:13O problema é teu. Ficas para trás.
- 5:15É a realidade triste. Mas aqui não, aqui a professora
- 5:18consegue figurativamente, tirar as medidas exatas à estrutura
- 5:23cerebral e cognitiva daquela criança e criar um fato feito
- 5:27rigorosamente à medida. E repara no tempo que isto
- 5:30liberta a carga de trabalho invisível do professor.
- 5:34Desaparece quase por Encanto. Nem quero imaginar as horas que
- 5:37isto demorava antes. Quantas madrugadas seriam
- 5:39precisas para procurar dezenas de fotografias reais de sapatos
- 5:43e maçãs, recrutar tudo, formatar grelhas de avaliação, organizar
- 5:48as sílabas num ficheiro? E planear 14 semanas disso.
- 5:52É dar o estouro facilmente. A máquina assume essa formatação
- 5:55morosa e mecânica e assim o professor volta a ter largura de
- 5:58banda mental para fazer aquilo que realmente interessa.
- 6:01Sentar se ao lado do miotro não é olhar nos olhos, fazer a
- 6:05mediação humana, o reforço positivo.
- 6:07Exatamente o que me leva a pensar numa coisa importante,
- 6:10diz. O que me obriga a fazer.
- 6:12Te aqui uma provocação, se a máquina consegue adaptar
- 6:16materiais de forma tão Imaculada para as necessidades educativas
- 6:20especiais? Com este grau de personalização
- 6:22absurdo, sim. O que é que nos impede de
- 6:24estender isto à turma inteira, aos 30 miúdos de uma sala, quer
- 6:29tenham dificuldades ou sejam sobredotados?
- 6:32Absolutamente nada. Na verdade, essa é a grande
- 6:34fissura no sistema atual, quando a personalização em massa se
- 6:37torna tão acessível e barata. O modelo tradicional da sala de
- 6:41aula colapsa. Aquela ideia da escola desenhada
- 6:44como uma linha de montagem industrial.
- 6:46Onde todos consomem a mesma matéria ao mesmo ritmo.
- 6:50Independentemente de estarem a perceber ou não, só que para que
- 6:53isso aconteça, os professores estão a ter de dar um Salto
- 6:55mortal. Como assim?
- 6:56Estão a deixar de ser meros utilizadores de manuais de
- 6:59editoras e estão a transformar se em engenheiros de software.
- 7:04E é aqui que a coisa fica realmente interessante.
- 7:07Ah, já sei para onde vais o famoso Vibe coding.
- 7:10Exatamente. Os educadores portugueses estão
- 7:12a abraçar esta técnica com um nome fantástico.
- 7:15No fundo é programar, não com linhas de código complexo.
- 7:19Mas conversando em linguagem natural, com coisas como o
- 7:21ChatGPT. É o exemplo daquele projeto
- 7:24interdisciplinar do oitavo ano, certo?
- 7:26Sim, onde professores de ciências naturais, físico,
- 7:29química, história e filosofia se juntaram para falar de
- 7:32sustentabilidade com as turmas. O normal até um ano ou 2 seriam
- 7:37irem ao Google pesquisar por um simulador genérico sobre o clima
- 7:41e usavam aquilo, mesmo que não fosse bem o que queriam.
- 7:44Pois mas eles não fizeram isso, fizeram Vibe coding.
- 7:48Para construir simuladores próprios do zero.
- 7:51Num deles, os alunos movem variáveis de poluição e veem o
- 7:56impacto direto na acidificação costeira.
- 7:58Noutro, inserem alimentos e o sistema calcula a pegada de
- 8:02carbono, tudo criado por docentes que nunca escreveram
- 8:06uma linha de código na vida. E é aí que regressamos àquela
- 8:09história maravilhosa com que abrimos o programa a da.
- 8:11Professor do primeiro ciclo e do Microsoft Word.
- 8:13Essa mesma a tentar colar HTML no Word.
- 8:17Para fazer uma aplicação sobre cores primárias, o Word formata
- 8:21o texto todo coloca códigos ocultos e claro que o navegador
- 8:24depois não consegue ler aquilo como uma página web.
- 8:27Uma Valente dor de cabeça. Mas, perante estes percalços, eu
- 8:30tenho de colocar o dedo na ferida.
- 8:33Há aqui um lado negro. Não será isto uma ineficiência
- 8:35brutal? Ineficiência, como assim?
- 8:38Fazer um professor de história passar 15 horas a discutir com
- 8:42um bote a lidar com erros informáticos, aplicações que
- 8:45bloqueiam. Não faria muito mais sentido a
- 8:47escola simplesmente comprar uma licença de um software educativo
- 8:50já feito, testado e poluído por profissionais?
- 8:54Compreendo a tua objeção, mas discordo frontalmente a Sério.
- 8:58Mas o tempo que se perde? A eficiência não pode ser o
- 9:01único critério na educação. Aquela frustração técnica,
- 9:05aquelas 15 horas a bater com a cabeça nas paredes para perceber
- 9:08o que é um ficheiro de textos simples são de uma Riqueza
- 9:10formativa incalculável. Riqueza formativa para o
- 9:13professor, queres dizer? Primeiro.
- 9:15Quebra o monopólio das editoras, o professor ganhou a autonomia
- 9:19que nunca teve para criar os seus recursos, segundo permite a
- 9:22hiperlocalização. O que queres dizer com a
- 9:25hiperlocalização neste contexto? Imagina que o professor de
- 9:28ciências? Quer que o simulador de poluição
- 9:31costeira use os dados exatos da ria de Aveiro ou da Costa de
- 9:35peniche? Porque é lá que a escola fica,
- 9:38aí há faz isso num instante. Pois e um software comercial
- 9:41genérico, comprado num pacote, nunca fará.
- 9:44Exato, e terceiro, e talvez mais importante, ao debater com a
- 9:48máquina e tentar resolver os erros, o professor está a
- 9:52absorver o raciocínio computacional.
- 9:54Aprende a pensar de forma lógica, passo a passo.
- 9:57Para tentar explicar à máquina onde é que ela falhou na geração
- 10:01do código. Precisamente, e um professor que
- 10:03domina essa lógica está infinitamente mais bem preparado
- 10:07para guiar os seus alunos no século 21, muito mais do que um
- 10:11que apenas clica no play de um CD ROM ou de um site já feito.
- 10:14Percebo perfeitamente o teu ponto e esse ganho de autonomia
- 10:18vai desaguar num território onde, eu confesso, achava que a
- 10:21máquina não tinha lugar nenhum. Deixa me adivinhar.
- 10:24Falamos de literacia, de programação, de química, tudo,
- 10:29coisas muito analíticas. Estás a pensar no projeto das
- 10:32Humanidades? Sim, há um projeto do sétimo ano
- 10:36que atira a inteligência artificial diretamente para o
- 10:39domínio mais íntimo e sensível da alma humana, que é a
- 10:42disciplina de poesia. Esse é, sem dúvida, o momento de
- 10:46maior abalo sísmico em todos os relatos destas Fontes.
- 10:50Mexe com a nossa própria identidade.
- 10:52Toda a aula de sétimo ano foi estruturada à volta de uma
- 10:55questão central e profundamente filosófica, a questão era, será
- 11:00a capacidade de sonhar exclusivamente humana?
- 11:02Uma pergunta pesada para miúdos de 12 anos e para explorar isto
- 11:07as professoras utilizaram a plataforma School IE criaram um
- 11:12tutor interativo. E nota, o objetivo não era que
- 11:15AIA escrevesse os poemas pelos alunos, era que os ajudasse a
- 11:19analisar poemas. Servindo de parceiro de debate e
- 11:22de reflexão. Mas o impacto brutal não foi a
- 11:24análise literária em si, foi a reação moral dos miúdos perante
- 11:29a ferramenta. É isso que me fascina, há um
- 11:31relato de um aluno de 12 anos que se aproxima da professora e
- 11:35diz abertamente que está com vergonha.
- 11:38Com vergonha de quê, exatamente? Vergonha de apresentar um poema
- 11:41gerado pelo ChatGPT à turma, ele rejeitou o facilitismo porque
- 11:46sentiu uma necessidade vital. De escrever algo que fosse, do
- 11:50início ao fim, 100% dele. E não foi caso único.
- 11:53Houve também uma aluna que, ao debater música gerada por IA na
- 11:57aula, comentou que os pais dela, em casa, não conseguiam
- 12:00distinguir a música sintética da real.
- 12:02Mas ela sim, não é. Ela percebia que faltava ali
- 12:05qualquer coisa na melodia. A minha intuição diz, me que
- 12:08usar AIA para escrever poesia é como usar uma máquina de
- 12:11calcular para escrever uma carta de amor.
- 12:13Essa analogia excelente. A matemática da coisa está lá,
- 12:17mas falta a emoção. Exato, a estrutura bate certo,
- 12:20não há erros ortográficos, a rima é impecável, mas falta lhe
- 12:23o batimento cardíaco, falta lhe a vulnerabilidade.
- 12:26Se ligarmos isto ao Panorama geral, percebemos que o medo
- 12:30inicial que todos tínhamos pode estar a ser subvertido.
- 12:34O medo de que o chatche Pitty IA criar uma geração inteira de
- 12:37miúdos, preguiçosos e copistas. Sim, esse mesmo aquele miúdo de
- 12:4112 anos ao sentir vergonha da fraude sintética.
- 12:45Está a provar que a inteligência artificial, de uma forma
- 12:48paradoxal, lhes está a ensinar o valor da autenticidade.
- 12:52É um efeito de ricoché. O facto de ser tão fácil copiar
- 12:56faz com que o trabalho humano passe a ter um valor especial.
- 12:59Completamente AIA não está ali para substituir o pequeno poeta,
- 13:03está a funcionar como um espelho socrático na sala de aula.
- 13:06Um espelho socrático, como assim?
- 13:08Faz lhes perguntas. Perfeitos, mas emocionalmente
- 13:11ocos em 5 segundos. Lança uma pergunta silenciosa ao
- 13:15aluno. Seria algo como, se eu, uma
- 13:18folha de cálculo glorificada consigo cuspir isto num
- 13:21instante, o que é que tu tens a acrescentar isso?
- 13:24O que é que tu, um ser humano, convivências reais medos,
- 13:27paixões e falhas, tens a acrescentar à página em branco?
- 13:31As professoras daquele agrupamento não estavam apenas a
- 13:33dar matéria de português. Estavam a facilitar uma crise
- 13:36existencial guiada. Não é sobre a natureza da
- 13:38autoria, isso é pensamento crítico no seu estado mais puro.
- 13:42E a ironia de ser a máquina a forçar nos a definir o que nos
- 13:45faz humanos é simplesmente deliciosa.
- 13:48Mas olha, se a poesia nos leva para a abstração filosófica, o
- 13:51relato seguinte puxa nos para a Terra da forma mais literal e
- 13:54pragmática possível. Já sei do que vais.
- 13:56Valar. Eu confesso que, para quem nos
- 13:59ouve, eu tive de ler esta secção 2 vezes na fonte para acreditar.
- 14:03AIA mudou a arquitetura e o espaço físico de uma escola em
- 14:07Portugal. Refere se ao caso incrível da
- 14:10escola básica um Sá de Miranda. Sim, é o exemplo perfeito de
- 14:14como AIA pode resolver burocracia pesada e problemas de
- 14:17cimento e tijolo. Vamos contextualizar a Malta que
- 14:20nos está a ouvir. A escola tinha um problema
- 14:22crónico. Queria me muito criar uma
- 14:23biblioteca, um cantinho de leitura.
- 14:25Vá, mas a única área disponível era um curador central de
- 14:28passagem. 55. M² de calo absoluto.
- 14:32Calo e frio era um local ruidoso.
- 14:35Cheio de Correntes de ar, onde ficavam os cabidos?
- 14:37Chovia lá fora e os miúdos entravam molhados e havia
- 14:40trânsito constante de turmas. Um ambiente terrível para a
- 14:44concentração. O.
- 14:45Que é que a professora fez? Abriu o Germany da Google e o
- 14:49Planner 5 d? E inseriu em texto puro
- 14:52conversacional todas as restrições físicas daquele
- 14:55espaço, disse algo como, tenho um corredor com estas medidas,
- 15:00portas nas extremidades, Correntes de ar constantes e
- 15:03muito eco. Como é que eu transformo isto
- 15:06numa biblioteca escolar acolhedora?
- 15:08E a máquina respondeu com uma precisão cirúrgica.
- 15:11E atenção, não foi com respostas genéricas do tipo, ponham umas
- 15:15almofadas e uns tapetes. Celpudos não, nada de dicas de
- 15:19revista de coração. AEA devolveu um plano de
- 15:22otimização espacial a Sério. Sugeriu a colocação e inclinação
- 15:26exata do mobiliário, explicou que as estantes deviam ser
- 15:29colocadas num determinado eixo para quebrar a corrente de ar
- 15:33física que atravessava o corredor.
- 15:35E não se ficou por aí. Sugeriu também a instalação de
- 15:38painéis acústicos específicos nas paredes para absorver as
- 15:41frequências do ruído do Recreio. E pegou nos 73 livros que a
- 15:46escola tinha conseguido angariar e fez o resto do trabalho.
- 15:49Fez a catalogação temática, não foi?
- 15:52Estruturou um índice. E gerou logo o planeamento anual
- 15:55de atividades lúdicas e pedagógicas com base nesses
- 15:57mesmos 73 livros. Então, o que é que isto tudo
- 16:00significa? A minha cabeça fica a andar à
- 16:02roda com isto. É impressionante.
- 16:05Nós pensamos sempre nos modelos de linguagem, como cérebros de
- 16:08texto fechados em servidores algures na América.
- 16:11Como é que uma ferramenta destas consegue resolver o problema do
- 16:14frio e da acústica num corredor do primeiro ciclo em Portugal?
- 16:17Consegue, porque a sua verdadeira força é a síntese
- 16:20cruzada. Acredito que é aí que aí há,
- 16:24brilha. Sim, de cruzada, explica lá.
- 16:26Isso para nós percebermos melhor.
- 16:27O modelo não compreende o que é o frio, obviamente não sente,
- 16:32mas cruzou instantaneamente 3 bases de dados de conhecimentos
- 16:36que habitualmente não comunicam numa escola.
- 16:38E quais foram? A arquitetura de interiores, a
- 16:41engenharia acústica básica e a biblioteconomia infantil.
- 16:45Pois conhecimentos que estão em silos separados.
- 16:48Numa situação normal e burocrática, a diretora da
- 16:51escola teria de pedir favores a um arquiteto amigo, falar com um
- 16:55engenheiro acústico e contratar uma bibliotecária, tudo
- 16:58processos que levam meses ou até anos no sistema público.
- 17:02Ao colocar os constrangimentos na máquina, a professora
- 17:05contornou o estrangulamento logístico hiperlocal foi
- 17:08tecnologia a compensar em tempo real.
- 17:11A falta de recursos. É a emancipação da escola
- 17:14pública através da IA. Mas repara com todo este poder
- 17:18enorme a inundar as escolas. Desde a reestruturação física de
- 17:21corredores à correção de poemas, entra a inevitável questão das
- 17:26regras, como é que governamos isto?
- 17:28Porque estamos num autêntico velho Oeste tecnológico, não é?
- 17:32Completamente, e o relato destes professores mostra o quão
- 17:35difícil é criar e impor essas regras.
- 17:38Começa logo pelas atitudes individuais de cada um.
- 17:41A professora de inglês, que é citada neste relato, personifica
- 17:44a jornada que muitos docentes estão a fazer neste momento.
- 17:47Ela admite que no início, era uma cética e estava bastante
- 17:51irritada com aquilo tudo. Claro, ficava furiosa ao ver os
- 17:54miúdos a pegar no telemóvel às escondidas para arranjar
- 17:57traduções automáticas ou a entregar redações feitas pelos 7
- 18:00GPT em casa sem qualquer esforço.
- 18:02E o instinto natural de qualquer professor ali seria proibir o
- 18:06uso dos telemóveis e da IA. Ponto Final.
- 18:08Mas ela virou o jogo de forma brilhante.
- 18:11Pegou na mesma tecnologia que a irritava profundamente e
- 18:15construiu o Alex. O Alex?
- 18:17Sim, o Alex é um tutor virtual de inglês, parametrizado
- 18:21especificamente Por Ela para as aulas dela.
- 18:24O que o torna genial é que ele não corrige simplesmente o texto
- 18:28do aluno dizendo, isto está errado.
- 18:30A frase certa é esta. Ah, ele faz mais do que uma
- 18:33correção ortográfica básica. Muito mais.
- 18:36Se o aluno falha na conjugação de um verbo, o elex corrige a
- 18:40frase sim, mas a seguir explica linguisticamente, porque é que
- 18:44aquela regra se aplica ali força o aluno a compreender o erro que
- 18:48cometeu. Ou seja, ela passou de polícia
- 18:50da cópia a entusiasta pedagógica e a nível mais macro de escola
- 18:54inteira. Temos a ação do grupo 10.
- 18:57O grupo 10 percebeu que casos isolados, por muito bons que
- 19:00sejam, não chegam. Eles sentaram se para escrever
- 19:03um rascunho de regulamento interno de utilização de a para
- 19:06todo o agrupamento. E a abordagem deles foi muito,
- 19:09muito ponderada. Antes de imporem regras de cima
- 19:12para baixo, decidiram ouvir a comunidade.
- 19:14Criaram inquéritos para toda a gente, pais, os próprios
- 19:17professores e os alunos do quinto ao nono ano queriam
- 19:21mapear qual era a real utilização, que já estava a ser
- 19:24feita na sombra em casa. E tiveram uma sacada genial.
- 19:28Para garantir que os miúdos não mentiam nesses inquéritos porque
- 19:31eles sabiam perfeitamente que se perguntassem diretamente, usas o
- 19:34ChatGPT para fazer os trabalhos de casa.
- 19:36Os alunos iam todos dizer que não.
- 19:38Por medo de levarem um raspanete ou de terem um processo
- 19:41disciplinar. Exato, então criaram um vídeo de
- 19:44animação muito apelativo e direto a garantir o anonimato
- 19:47absoluto das respostas dos alunos, a explicar que os dados
- 19:50não serviriam para penalizar ninguém, mas sim para a escola
- 19:53saber como os ajudar. A mensagem era muito clara.
- 19:57O objetivo não é proibir às cegas, é orientar e integrar a
- 20:01ferramenta. Mas aqui deixa me calçar os
- 20:04sapatos de Advogado do Diabo por 1 minuto.
- 20:06Força, venha de lá esse pushback.
- 20:08Por muito dialogante que seja a direção da escola, por muito bem
- 20:11redigido, que esteja o papel do conselho pedagógico, com essas
- 20:14regras, não estaremos nós simplesmente a jogar às
- 20:17escondidas um jogo do gato e do rato?
- 20:19Aonde quer chegar? Será que um regulamento guardado
- 20:22numa gaveta vai mesmo travar a mão de um adolescente que?
- 20:25A 5 minutos do toque de entrada para a aula, precisa
- 20:28desesperadamente de entregar um trabalho de 2 páginas sobre a
- 20:30revolução francesa. Isto levanta uma questão
- 20:33importante, que é a história das proibições tecnológicas na
- 20:36educação. A verdade é que a proibição
- 20:39frontal nunca, mas nunca funcionou.
- 20:42Falhou sempre? Falhou redondamente com o
- 20:44aparecimento das calculadoras científicas nos anos 80, falhou
- 20:48com o acesso ao Wikipédia, que era o grande demónio das cópias
- 20:52e está a falhar agora com os telemóveis nas escolas.
- 20:55A menos que a regra seja acompanhada de muita pedagogia.
- 20:58E então, qual é o segredo aqui? O segredo desta estratégia do
- 21:01grupo 10 não é o documento burocrático em si, é a
- 21:04transparência brutal que ele instaura no dia a dia.
- 21:08Ao trazer a inteligência artificial para o centro da
- 21:10mesa, às claras, o professor retira o fator.
- 21:13Tabu desmistifica o poder da ferramenta, é isso?
- 21:16Exatamente o mistério desaparece se o professor de história
- 21:20chegar à aula e disser. Malta, hoje vamos pedir ao
- 21:23ChatGPT que nos faça um resumo da redução francesa e a vossa
- 21:27tarefa de avaliação é encontrar e corrigir as 3 alucinações e
- 21:31erros factuais que a máquina inevitavelmente vai gerar.
- 21:35A dinâmica inverte, se por completo.
- 21:36Que domina a máquina muito melhor do que eles, o apelo
- 21:39romântico da batota esvazia se ali mesmo.
- 21:42Brilhante é trazer o Sol para o meio da sala de aula, que, como
- 21:45dizem, é sempre o melhor dos desinfetantes.
- 21:48É para que exploração estonteante nós fizemos.
- 21:51Hoje há um material partilhado por estes educadores
- 21:53portugueses. Foi uma verdadeira viagem.
- 21:55E pensar que começamos com agendas fotográficas altamente
- 21:58personalizadas, que permitiram a crianças não verbais no espectro
- 22:02do autismo. Expressarem as suas primeiras
- 22:04sílabas. Passando depois por professoras,
- 22:06do primeiro ciclo a desbravar caminho às chegas no emaranhado
- 22:10do código informático, numa prova de dedicação super
- 22:13comovente. Sem esquecer a forma como um
- 22:16tutor sintético forçou um miúdo de 12 anos a refletir sobre o
- 22:20peso emocional da poesia. E sobre o valor inegociável da
- 22:24autoria humana até. Chegarmos a ver modelos
- 22:27probabilísticos de texto a atuarem como autênticos
- 22:30designers de interiores. Para resolver problemas de
- 22:33acústico e Correntes de ar numa biblioteca de escola primária,
- 22:37culminando no esforço de uma escola inteira para reescrever
- 22:40as regras de convivência com a tecnologia.
- 22:42É um espectro incrivelmente largo e mostra nos uma revolução
- 22:46que, honestamente, já não está no Horizonte.
- 22:49Já entrou pela porta da escola, a dentro?
- 22:52E para quem nos ouve e acompanhou esta análise até
- 22:54aqui, julgo que a grande conclusão a extrair destas
- 22:57histórias das trincheiras é muito, muito nítida.
- 23:00A inteligência artificial não apareceu para empurrar o
- 23:03professor para fora da sala. Nem para o substituir por um
- 23:06robô que debita matéria. O que vemos aqui é a tecnologia
- 23:09a atuar como um amplificador brutal da vocação docente, desde
- 23:13que exista coragem para lidar com a curva de aprendizagem.
- 23:16E, claro, muita paciência para as falhas e bloqueios
- 23:19informáticos. Aí há assuma formatação
- 23:22invisível e liberta o humano para a empatia, permite que o
- 23:26professor seja finalmente mais educador e menos burocrata das
- 23:30grelhas. É uma visão bastante otimista.
- 23:32É otimista? Sim.
- 23:34Mas antes de irmos, deixo um pensamento provocador para quem
- 23:37está lá em casa continuar a refletir.
- 23:39Falamos extensamente sobre a capacidade da inteligência
- 23:42artificial de se transformar num alfaiate.
- 23:45Perfeito. O tal fato, à medida da cognição
- 23:47de cada um. Exato.
- 23:48Se de facto caminhamos para o ensino onde os conteúdos, a
- 23:52velocidade de ensino e o grau de complexidade se ajustam
- 23:55cirurgicamente aos vítimos e bloqueios individuais de cada
- 23:58criança, será que a instituição secular do exame estandardizado
- 24:02tem os dias contados? Essa é uma pergunta gigante.
- 24:07Pensem nisto, faz algum sentido continuarmos a avaliar um país
- 24:11inteiro rigorosamente à mesma hora?
- 24:14Com a exata mesma folha de prova se a escola do futuro vai ser
- 24:18radicalmente personalizada para a mente de cada indivíduo.
- 24:21A própria ideia de que todos têm de aprender e despejar a mesma
- 24:25coisa ao mesmo tempo. Será que não se vai tornar
- 24:27completamente obsoleta já na próxima década?
- 24:30Essa é a verdadeira bomba relógio no meio de tudo isto que
- 24:32debatemos hoje, se passarmos a vida inteira a lutar contra o
- 24:36tamanho único, quando a tecnologia finalmente nos
- 24:38entrega a tesoura para cortar um fato a medida para todos.
- 24:42O sistema de exames nacionais arrisca se aparecer uma relíquia
- 24:45medieval. Uma relíquia que já não mede o
- 24:47potencial de ninguém. Uma provocação fantástica para
- 24:50deixar quem nos ouve a pensar, a debater, ao jantar com a família
- 24:54ou até, quem sabe, a perguntar ao seu próprio bote de serviço
- 24:58no telemóvel, o enorme obrigado por nos acompanharem a mais esta
- 25:02exploração temática. Obrigada por estarem desse lado.
- 25:05Educação está viva, está a mexer se rápido e nós prometemos
- 25:08continuar aqui para desembrulhar tudo o que vier a seguir.
- 25:11Até à próxima.