Latest / Na Mesa com Well / Hamas, Ideologia e 7 de Outubro | Série: Oriente Médio
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- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o el, o espaço para quem busca
- 0:02profundidade e historicidade de forma acessível na correria do
- 0:06dia a dia. No primeiro dossiê desta série,
- 0:08nós acompanhamos o 7/10/2023 no calor imediato dos
- 0:10acontecimentos, as cercas rompidas, comunidades invadidas,
- 0:11mais de 1200 vidas ceifadas e centenas de pessoas arrastadas
- 0:17pros túneis de Gaza. Mas, superado o choque da
- 0:20notícia, uma pergunta estrutural permaneceu.
- 0:27Quem é a organização que planejou e comandou esse ataque?
- 0:31De onde veio o Hamas? O que dizem palavra por palavra,
- 0:35os seus documentos fundacionais como uma rede assistencial e
- 0:38religiosa se transformou no governo soberano de fato de
- 0:41Gaza? E por que decidiu cruzar uma
- 0:43Fronteira que deflagraria uma devastação sem precedentes?
- 0:47Hoje nós não julgamos um povo inteiro como se fosse uma
- 0:50milícia armada. Nós investigamos uma organização
- 0:53específica, seus fundadores, suas mutações discursivas.
- 0:58Suas contradições ideológicas, suas alianças regionais e as
- 1:01consequências brutais de seus atos.
- 1:04Onde houver crimes documentados, chamaremos de crimes.
- 1:07Onde houver propaganda, dissecaremos a propaganda.
- 1:11Este é o dossiê Hamas, a organização por trás do 7 de
- 1:15outubro. É começar com esse peso.
- 1:17É necessário. É uma introdução pesada, sem
- 1:20dúvida nenhuma. Mas sabe o que mais me
- 1:23impressiona ao mergulhar na pilha de documento de hoje?
- 1:26Não é só o registro da violência em si, né?
- 1:28A engrenagem? Engrenagem burocrática.
- 1:31Né, exatamente como uma organização que começou tipo,
- 1:35construindo creches e clínicas médicas lá nos anos 80,
- 1:39conseguiu montar um esquema de financiamento intercontinental
- 1:42Pra Ele, que é uma verdadeira Fortaleza militar debaixo da
- 1:45Terra. Bom, ok, vamos desempacotar
- 1:48isso, porque não é pouca coisa na nossa frente.
- 1:51Aqui a gente tem uma Montanha de Fontes, né?
- 1:53Os estatutos históricos do grupo, temos relatórios forenses
- 1:57bem recentes da Human rights Watch e da anistia
- 1:59Internacional, análises estáticas do combate em
- 2:03terrorismo center e também aquela pesquisa histórica
- 2:06brilhante do Jeffrey hearth. Estou bem curiosa para saber
- 2:09como a gente junta tudo isso. Então, se a gente conectar todas
- 2:13essas Fontes ao cenário maior, olha, a primeira Barreira que a
- 2:16gente precisa quebrar é a complexidade da própria
- 2:19estrutura da organização na nossa era de sobrecarga de
- 2:23informação. É muito, muito fácil cair no
- 2:26erro de rotular o grupo de uma forma simplista, sabe?
- 2:29Com certeza, o pessoal costuma colocar tudo na mesma caixa.
- 2:33Pois é entender. O Hamas exige dissecar uma
- 2:37máquina que tem basicamente 3 motores.
- 2:40A gente precisa isolar o que opera como braço político, o que
- 2:43funciona como uma imensa rede de assistência social e o que atua
- 2:47estritamente como milícia armada.
- 2:49E separar as coisas, né? Sim.
- 2:51E, claro, ao olhar para o conflito recente, o desafio mais
- 2:55crítico para nós hoje é saber separar o que é evidência
- 2:58forense irrefutável do que é simplesmente comunicado oficial
- 3:02de propaganda. É pra fazer essa separação e
- 3:04entender quem de fato apertou o gatilho em 2023.
- 3:07A gente precisa olhar para o código fonte da coisa toda.
- 3:09O ano de 1987. O início de tudo?
- 3:15Bem, no Turbilhão da primeira intifada, quando a liderança
- 3:18secular do OLP estava dominando as manchetes, dominando as ruas
- 3:21com preocupação. O Hamas nasce oficialmente aí,
- 3:25né? Mas as Fontes mostram que a
- 3:27semente já estava lá bem antes. Estava sim o Hamas, que pra quem
- 3:32não sabe, é um acrônimo em árabe pra movimento de resistência
- 3:35islâmica. Ele não caiu de paraquedas ali.
- 3:37Em 87, ele nasceu como braço palestino da irmandade
- 3:41muçulmana. Entendi.
- 3:43Durante os anos 70 e 80, figuras centrais como o Sheik artmed e
- 3:47assim e o Mark Monde alzahar, eles lideravam uma rede chamada
- 3:52muchama ao islamia e o foco deles era 100% o trabalho de
- 3:57base. Trabalho comunitário mesmo.
- 3:59Total. Eles construíam escolas, centros
- 4:02comunitários, hospitais, fundaram a universidade islâmica
- 4:05em Gaza. O objetivo claro deles era a
- 4:08islamização gradual da sociedade.
- 4:10E eles faziam isso através da Caridade e da educação.
- 4:13Nossa, é como se uma grande ONG de bairro, de repente decidisse
- 4:18que precisa formar um exército próprio?
- 4:20É uma analogia muito boa. Porque parece muito contra.
- 4:22Intuitivo, né? O que?
- 4:24Assim, qual foi O Mecanismo que transformou assistencialistas em
- 4:27insurgentes armados da noite para o dia?
- 4:29Porque tem que ter virado uma chave aí.
- 4:31A chave foi puro instinto de sobrevivência política frente a
- 4:35pressão das ruas. Pensa bem no cenário.
- 4:38Em 87, a primeira intifada explode, a população Palestina
- 4:42inteira entra em revolta. Todo mundo na rua.
- 4:45Exato. E quem liderava esse movimento
- 4:47nas ruas eram facções nacionalistas e seculares, como
- 4:50a própria OLP, que você citou. O Sheik assim, percebeu o
- 4:54cenário muito rápido. Se o grupo dele continuasse
- 4:57apenas distribuindo sopa e construindo clínicas enquanto os
- 5:01jovens estavam lá, sabe, enfrentando os tanques, eles
- 5:04seriam engolidos pela história. Iam ficar para trás?
- 5:08Iam perder a relevância total. Então, para não perder o
- 5:11monopólio da influência moral e o apoio popular que eles
- 5:14construíram com as ONGs, eles precisaram abraçar a insurgência
- 5:17armada formalmente, o novo slogan refletia essa guinada com
- 5:21uma clareza bem brutal. Qual era o slogan?
- 5:25Eles diziam, o Alcorão é a nossa Constituição e a jihad é o nosso
- 5:29caminho. Nossa, o Alcorão como
- 5:32Constituição. Isso nos joga direto para os
- 5:35documentos fundacionais, né? Que mostram exatamente qual é a
- 5:38visão de mundo que eles planejavam impor.
- 5:40As cartas de intenção deles. E lendo o pacto de 1988, que é
- 5:44meio que a certidão de nascimento ideológica deles, o
- 5:46nível de inflexibilidade é chocante.
- 5:48E eu fiquei bem impressionada. Sim, é uma leitura pesada.
- 5:54O pacto de 1988 não deixa espaço para nenhuma ambiguidade
- 5:55diplomática. O documento define a Palestina
- 5:58inteira como um território wacf. Wacf.
- 6:03Como assim? Na jurisprudência islâmica, waqf
- 6:06significa uma doação sagrada, sabe?
- 6:09Uma Terra inalienável consagrada às gerações muçulmanas até o fim
- 6:13dos tempos, ou seja, ao definir o território dessa forma, o
- 6:18conflito deixa de ser uma disputa política por Fronteiras
- 6:21ou por um estado secular. Virá algo Divino?
- 6:24Torna se o embate teológico. É por isso que o artigo 13 do
- 6:27documento rejeita abertamente qualquer conferência de pais.
- 6:31Porque negociar uma única polegada de uma Terra sagrada
- 6:35seria visto como uma heresia religiosa inaceitável.
- 6:39Caramba, e o documento traz uma visão quase escatológica, certo?
- 6:43Perfeito. A palavra é essa.
- 6:45O documento traz uma visão escatológica, ou seja, uma
- 6:48crença absoluta no fim dos tempos.
- 6:51A destruição de Israel ali não é vista apenas como um objetivo
- 6:55militar estratégico. É um destino?
- 6:57É visto como um evento cósmico divinamente, ordenado e
- 7:01totalmente necessário para Redenção final.
- 7:04A paz é literalmente tratada no texto original como abre aspas,
- 7:08uma perda de tempo. E aqui entrou um detalhe
- 7:12fascinante que a análise do Jeffrey hearth traz nas nossas
- 7:15Fontes. O documento mistura essa
- 7:17escatologia religiosa com as teorias da conspiração mais
- 7:20antigas e sombrias lá da Europa, não é?
- 7:22É uma fusão assustadora. O artigo 22 do pacto é
- 7:25basicamente um catálogo de antissemitismo conspiratório
- 7:28europeu importado direto para o Oriente médio.
- 7:31Bizarro. O texto cita abertamente os
- 7:33protocolos dos sábios de Sião, que nós sabemos hoje que é uma
- 7:36falsificação histórica russa, uma farsa completa.
- 7:39E o pacto culpa os judeus pela revolução francesa, pelo
- 7:42comunismo, por orquestrarem a primeira e a Segunda Guerra
- 7:46Mundial. Eles colocam a culpa de tudo
- 7:48neles. Até por controlarem a liga das
- 7:50nações, o objetivo declarado ali nunca foi uma convivência de 2
- 7:54estados, mas a aniquilação, completa.
- 7:57Entendi, mas aí a gente avança a fita.
- 8:00Quase 30 anos. Chegamos a 2017.
- 8:03O Hamas organiza um evento enorme em Doha, no Catar.
- 8:07E lança um novo documento de princípios gerais.
- 8:10A famosa atualização de 2017. Isso e lendo esse texto mais
- 8:14recente, a linguagem é outra. Eles dizem que a luta não é
- 8:18contra o judaísmo, mas contra o projeto sionista, e aceitam a
- 8:21ideia de um estado palestino nas Fronteiras de 1967.
- 8:23O que me faz perguntar e eu tenho certeza aqui, quem tá
- 8:27ouvindo também vai pensar nisso. Espera aí, esse documento foi
- 8:29aceito internacionalmente. Muita gente tentou aceitar, viu?
- 8:35Porque se eu sou uma diplomata lendo isso, a minha primeira
- 8:38pergunta seria, ok, mas vocês rasgaram o documento anterior,
- 8:42de 1988, e a resposta é, não é o equivalente geopolítico de
- 8:46prometer algo mantendo os dedos cruzados atrás das costas, não
- 8:49é? Foi uma mudança real ou só
- 8:51limparam a vitrine? O que é fascinante aqui é a
- 8:56ginástica tática, sabe? Muitos analistas desatentos na
- 9:00época compraram a ideia de que o grupo tinha se moderado.
- 9:04Mas os historiadores focados em Oriente médio apontam o óbvio.
- 9:08O elefante na sala. Exato.
- 9:10O Hamas nunca revogou formalmente a carta de 1988.
- 9:13Os líderes chegaram a dizer na imprensa que o documento antigo
- 9:15era só tipo um artefato histórico, mas não anularam
- 9:18juridicamente. É conveniente demais?
- 9:24A lógica por trás disso é pragmatismo puro e simples.
- 9:28A carta de 2017 foi um baita esforço de relações públicas
- 9:31para o Hamas poder sentar em mesas de negociação
- 9:34internacionais e se apresentar como uma alternativa viável à
- 9:37autoridade Palestina. Uma cara mais limpa, procedente,
- 9:41vê? Exato.
- 9:42Mas ao não revogar o pacto de 88, eles mandavam um recado
- 9:47interno crucial, a base radical continuava amparada pelo texto
- 9:52sagrado antigo. E o objetivo de longo prazo de
- 9:55substituição completa de Israel permanecia de pé.
- 9:59E essa busca incessante para se vender como a verdadeira
- 10:02autoridade política nos leva ao momento em que a retórica
- 10:05finalmente vira governo soberano.
- 10:07Em 2006, o Hamas vence as eleições legislativas
- 10:11palestinas. Um Marco histórico e bem
- 10:13conturbado. Total.
- 10:14Eles capitalizaram muito em cima da ineficiência e da corrupção.
- 10:17Crônica do Fatah, né? Que era o partido da autoridade
- 10:20Palestina. Mas.
- 10:22Como é que uma Vitória eleitoral nas urnas se transforma, apenas
- 10:26um ano depois, na tomada violenta da faixa de Gaza?
- 10:29A Escalada foi muito rápida. Muito como a política virou uma
- 10:33guerra civil nesse nível tão rápido?
- 10:36Olha, a mecânica dessa tomada de poder é brutal de se estudar.
- 10:40O governo de união que se formou depois das eleições era
- 10:43completamente disfuncional. O Hamas tinha uma vantagem
- 10:46enorme que era possuir uma ala militar altamente disciplinada e
- 10:50motivada. Que já atuava ali, paralelamente
- 10:52às forças de segurança oficiais. Eles tinham o próprio exército
- 10:56nas sombras. Sim.
- 10:57E em junho de 2007, eles usaram essa milícia para superarem
- 11:01poder de fogo. As forças leais ao Fatah.
- 11:04Foi uma semana de combates urbanos absurdamente intensos.
- 11:08Prédios governamentais foram cercados.
- 11:10Uma zona de guerra? Uma guerra civil declarada,
- 11:13oficiais do Fatah foram executados sumariamente nas ruas
- 11:17e há relatos de alguns literalmente atirados do alto de
- 11:19prédios em Gaza. O resultado logístico dessa
- 11:22brutalidade foi a expulsão total da autoridade Palestina do
- 11:26território. E aí, Gaza muda de mãos.
- 11:28Sim, a partir de 2007, a Palestina sofre uma fratura
- 11:32exposta que segue até os dias de hoje, o Fatah administrando
- 11:36enclaves na Cisjordânia, e o Hamas exercendo Controle
- 11:40Absoluto, tanto militar quanto civil, sobre Gaza.
- 11:43O que nos leva a questão do milhão de dólares, ou melhor,
- 11:46das dezenas de milhões de dólares, né?
- 11:48Porque governar um território tão denso exige uma máquina
- 11:51financeira gigantesca, e aqui entra a Aliança mais bizarra de
- 11:55todas nas nossas Fontes. Essa parte confunde muita gente
- 11:59que começa a estudar geopolítica.
- 12:01Pra quem acompanha minimamente o Oriente médio, a parceria entre
- 12:04o Hamas e o Irã soa como água e óleo.
- 12:06O Hamas é radicalmente sunita. O Irã é uma teocracia xiita.
- 12:11Sunitas e xiitas têm guerras por procuração sangrentas, como no
- 12:14Iêmen e na Síria. Eles se matam.
- 12:15Nessas regiões perfeitamente colocado.
- 12:18O fato de o Iran bancal Hamas prova que o ódio a Israel
- 12:21conseguiu superar uma rivalidade sectária de séculos.
- 12:24Como é que essa logística de repasse de dinheiro funcionava
- 12:27na prática? A máxima de que o inimigo do meu
- 12:30inimigo é meu amigo nunca foi tão bem financiada na história
- 12:34recente. Nunca.
- 12:36Apesar do abismo teológico que você mencionou, o objetivo
- 12:39estratégico de cercar Israel uniu as 2 forças, o Irã passou a
- 12:44operar tudo isso através da força kurtis.
- 12:47O que é a força kuds exatamente? Pra dar um contexto, a força
- 12:51kuds é o braço de elite da guarda revolucionária islâmica
- 12:55do Irã. Eles são responsáveis
- 12:57exclusivamente por operações não convencionais e inteligência
- 13:00militar no exterior. Os cabeças das operações
- 13:04externas. Isso e eles não forneciam apenas
- 13:07maletas de dinheiro debaixo dos panos, eles transferiam
- 13:10tecnologia balística pesada. Eles enviavam projetos de
- 13:14mísseis detalhados para serem fabricados localmente lá dentro
- 13:18de casa e davam treinamento militar de ponta.
- 13:21E as Fontes detalham uma engenharia financeira absurda
- 13:24para fazer o dinheiro cruzar o Globo sem acionar os alertas dos
- 13:27Estados Unidos, né? Aquele esquema petróleo por
- 13:29terror. Sim, a sofisticação da lavagem
- 13:32de dinheiro é de cair o queixo de qualquer analista.
- 13:35Documentos do Tesouro dos Estados Unidos mapearam O
- 13:38Mecanismo inteiro. O Irã, que já sofria as sanções
- 13:41internacionais severas, exportava barris de petróleo
- 13:45para o regime do Bashar al Assad na Síria.
- 13:47Para camuflar os navios e os pagamentos bilionários, eles
- 13:51frequentemente usavam empresas fantasmas e bancos russos como
- 13:55pontes intermediárias para despistar.
- 13:57Caramba, uma verdadeira teia. Uma teia quando o petróleo
- 14:01chegava à Síria, o governo sírio repassava os valores em dinheiro
- 14:05vivo, em espécie mesmo. Para os oficiais da guarda
- 14:08revolucionária iraniana lá no levante, aí esse dinheiro era
- 14:12fisicamente contrabandeado para financiar tanto o Hezbollah no
- 14:15Líbano quanto o Hamas em Gaza. Literalmente carregando
- 14:18dinheiro. Milhões de dólares circulando
- 14:21totalmente fora do sistema financeiro tradicional
- 14:24irrastreáveis. Isso explica perfeitamente de
- 14:27onde vinha o orçamento para sustentar o que veio a seguir,
- 14:30porque com o controle territorial que a gente falou.
- 14:33E agora, com o cofre abastecido, a liderança em Gaza iniciou um
- 14:36projeto de infraestrutura que criou uma dicotomia surreal.
- 14:40É uma estrutura urbana que lembra muito, sabe o
- 14:42funcionamento de um conglomerado corporativo enorme, só que sem
- 14:46qualquer regulamentação. É ética ou moral?
- 14:48Como assim? É como um conglomerado onde o
- 14:51departamento de relações públicas governa a cidade acima
- 14:54da Terra. Lá em cima, eles estão pagando
- 14:56um funcionalismo público, recolhendo lixo, emitindo
- 15:00carteiras de identidade, tudo normal.
- 15:01A parte civil? Isso a parte civil, enquanto
- 15:04isso, uma subsidiária militar totalmente autônoma, atuando no
- 15:08subsolo, sugando grande parte dos investimentos internacionais
- 15:11para construir uma máquina de guerra gigantesca longe dos
- 15:14olhos de todo mundo. Bom, a gente está falando da
- 15:16infame rede de túneis e lendo as Fontes.
- 15:20Não eram trincheirinhas primitivas, né?
- 15:22Era engenharia civil de altíssima complexidade.
- 15:25Engenharia de ponta sob a direção da ala militar que era
- 15:29comandada pelo Iara sinhua, o Hamas desviou de forma bem
- 15:34sistemática materiais de construção civil.
- 15:37Materiais que deveriam ir para população.
- 15:39Exato, cimento e aço que entravam em Gaza teoricamente
- 15:43ali para reconstrução de escolas e hospitais financiados pela
- 15:47ONU. Eram redirecionados diretamente
- 15:49para o subsolo. Eles construíram centenas de
- 15:52quilômetros de galerias profundas.
- 15:54Uma cidade inteira lá embaixo. Esses túneis possuíam fiação
- 15:58elétrica completa, sistemas de ventilação para não sufocar,
- 16:02linhas de comunicação com fibra ótica, blindadas contra a
- 16:06interceptação de espionagem e até galpões inteiros para
- 16:09montagem de mísseis. Meu Deus?
- 16:11E o detalhe mais tático? A cidade abaixo da Terra foi
- 16:15arquitetada propositalmente abaixo de áreas residenciais
- 16:18super densas. Eles usavam o tecido urbano
- 16:20civil, onde as pessoas moravam, como um verdadeiro escudo
- 16:24geométrico contra bombardeios preventivos de Israel.
- 16:27Pera aí, então. Com o Controle Absoluto de Gaza
- 16:30e uma infraestrutura subterrânea multibilionária bancada pelo
- 16:33Irã, tudo aponta para o clímax inevitável disso tudo.
- 16:36Eles estavam ali testando o sistema de defesa, mapeando o
- 16:39tempo de resposta das patrulhas fronteiriças israelenses.
- 16:43Estudando o inimigo de perto. Até que as peças todas se
- 16:46alinharam para o fatídico dia 7/10/2023, a manhã que quebrou
- 16:51aquele status quo regional de forma definitiva.
- 16:54Pois é, os relatórios de inteligência que nós temos agora
- 16:57detalham que a operação não foi, em hipótese alguma, um surto de
- 17:01violência espontâneo de uma revolta popular.
- 17:04Não foi um acidente. Foi o ápice de anos e anos de
- 17:08simulações, semanas antes do ataque, centenas de combatentes
- 17:12do Hamas. E também da jihad islâmica.
- 17:14Receberam um treinamento tático super avançado diretamente lá no
- 17:18Irã. Nossa, tudo sob a supervisão
- 17:20daqueles oficiais da força kutz que mencionamos.
- 17:23Há até registros de inteligência indicando reuniões cruciais em
- 17:27Beirute, no Líbano, poucos dias antes do dia 7, onde a liderança
- 17:31do chamado eixo da resistência teria afinado todos os detalhes
- 17:35finais e recebido o sinal verde. E então, ao amanhecer.
- 17:39A operação, que o grupo chamou de inundação de awaxa, realmente
- 17:43acontece uma infiltração simultânea por Terra, mar e ar.
- 17:47A propaganda oficial, liberada pelo Hamas logo depois nos
- 17:50canais de comunicação, descrevia a operação para o mundo árabe
- 17:53como uma ação militar legítima contra infraestruturas de
- 17:57ocupação. A narrativa oficial deles, né?
- 18:00Exato, mas quando o espelho da propaganda encontra a parede
- 18:04dura dos relatórios forenses independentes que temos hoje em
- 18:07mãos, a história desmorona. O que é a Human rights Watch e a
- 18:10anistia Internacional efetivamente documentaram depois
- 18:14que a poeira baixou? Olha, isso levanta uma questão
- 18:16muito essencial sobre o que é a verdade na era da guerra de
- 18:20narrativas, a investigação forense dessas ONGs, que foi
- 18:24consolidada ali em julho de 2024, não se baseou apenas em
- 18:28testemunhos que poderiam, por Ventura, ser acusados de
- 18:32parcialidade por algum dos lados.
- 18:34Eles foram atrás das provas físicas.
- 18:36A perícia foi 100% fundamentada em provas materiais
- 18:39indiscutíveis, triangulação de geolocalização de satélite,
- 18:43balística de cenas de crime e, ironicamente, o material bruto
- 18:47gravado pelas câmeras corporais. As go pros que os próprios caras
- 18:50usavam. As go pros exatamente que os
- 18:53próprios combatentes palestinos usavam penduradas no peito para
- 18:56transmitir os ataques ao vivo nas redes sociais.
- 18:59Então, no fim, a própria tecnologia de propaganda que
- 19:02eles pensaram em usar virou a principal prova forense de
- 19:05acusação contra eles mesmos. Sem dúvida nenhuma passou um
- 19:08pano em cima disso. Ficou impossível.
- 19:11Os relatórios atestam com muita firmeza que as mortes civis não
- 19:15foram, entre aspas, danos colaterais gerados por uma troca
- 19:19de tiros militar caótica. Foi intencional?
- 19:22Houve uma caçada metódica de civis totalmente desarmados.
- 19:26Pessoas foram executadas a queima roupa dentro de abrigos
- 19:29residenciais nos keybotsin, famílias inteiras foram
- 19:32incendiadas dentro das próprias casas e centenas de jovens foram
- 19:37fuzilados enquanto tentavam fugir correndo pelo deserto
- 19:41naquele festival de música nova. Um horror absoluto.
- 19:44As organizações de direitos humanos, que costumam ser super
- 19:47cautelosas com os termos que usam, são taxativas nessas
- 19:51conclusões. Direcionar ataques
- 19:53intencionalmente a civis, sem nenhuma justificativa de
- 19:56vantagem militar imediata, não é resistência, configura, pela lei
- 20:00Internacional, crimes contra a humanidade.
- 20:03Isso sem falar na tomada absurda de reféns, né?
- 20:06Foram 251 pessoas capturadas e a gente tá falando de crianças de
- 20:11colo, até idosos, doentes, todos levados pra dentro daquela
- 20:15estrutura profunda de Tuna esqui.
- 20:17Descrevemos agora há pouco. Arrastados, pros subterrâneos.
- 20:20Sim. E algumas dessas pessoas, de
- 20:22dezenas de nacionalidades diferentes, diga se de passagem,
- 20:26ficaram confinadas nesses buracos por mais de 800 dias.
- 20:30A convenção de Genebra é claríssima quanto a isso.
- 20:33Usar civis como moeda de troca não é tática de resistência, é
- 20:37uma violação grave do direito Internacional.
- 20:39Não tem meio termo aí. Não tem e a ironia trágica de
- 20:43tudo isso é o descompasso bizarro entre o objetivo tático
- 20:47que eles venderam e a consequência real na prática.
- 20:50Como assim? A narrativa interna do Hamas
- 20:53prometia aos palestinos que essa operação gigantesca iria abalar
- 20:57o moral de Israel de forma irreparável e assim, iniciar de
- 21:01vez a libertação do território palestino.
- 21:03Mas se a? Gente, olhar para o rescaldo
- 21:08hoje, o efeito reverso foi devastador em escalas que eles
- 21:12talvez não tenham calculado o direito a ofensiva militar de
- 21:15retaliação, que veio em resposta obliterou a faixa de Gaza.
- 21:19Destruição total. A guerra urbana pesada e
- 21:22prolongada que se seguiu transformou quarteirões
- 21:24residenciais inteiros em pó e destroçou justamente a rede
- 21:28civil e infraestrutural que o próprio Hamas governava e
- 21:32precisava para manter a sua legitimidade.
- 21:34Eles perderam o próprio território que controlavam.
- 21:37E, mais do que isso, essa estratégia que foi tão
- 21:39meticulosamente arquitetada pela liderança do Hamas, resultou em
- 21:43algo histórico e sem volta, a decapitação sistemática da sua
- 21:47própria cúpula política e militar.
- 21:50E a história nos mostra que grupos insurgentes raramente ou
- 21:53quase nunca se recuperam com a mesma face depois de perderem
- 21:57suas principais lideranças desse jeito.
- 22:00E ao olhar para todo esse arco longo, sabe desde os jovens
- 22:03idealistas construindo clínicas com a irmandade muçulmana lá nos
- 22:06anos 80, até uma cúpula militar completamente isolada em túneis,
- 22:10enquanto a superfície onde seu povo vive queima, nós
- 22:14inevitavelmente caímos em dilemas Morais muito severos.
- 22:18O que nos traz e traz você, nosso especialista de hoje para
- 22:21aquela provocação obrigatória do programa que o pessoal já
- 22:24conhece? E a provocação de hoje é
- 22:27justamente sobre o custo final dessa dualidade operacional que
- 22:30a gente discutiu tanto aqui. Olhando para toda essa história
- 22:33documentada friamente, a reflexão que nós deixamos para
- 22:37quem nos escuta é quando uma organização ergue sua estrutura
- 22:41sobre o assistencialismo social, mas a consolida através do
- 22:44terror e da destruição. Quem paga o preço mais alto pela
- 22:48escolha de seus dirigentes? Nossa é uma reflexão vital e que
- 22:52me remete muito ao pensamento do historiador Jeffrey hearthy nas
- 22:55nossas Fontes. Ele argumenta de uma forma bem
- 22:58lúcida que nós, como comunidade Internacional, vivemos hoje.
- 23:01A segunda era da subestimação é. Um conceito muito forte.
- 23:05Muito forte, porque pensa bem nos anos 1930, quando ameaças
- 23:09totalitárias e discursos documentados de ódio extremo
- 23:12contra os judeus foram publicados aos 4 ventos.
- 23:16Grande parte da diplomacia global tratou aquilo só como
- 23:18Bravata política, ninguém levou a literalidade das palavras a
- 23:22Sério até que os fornos estivessem acesos de verdade.
- 23:25A história se repete. Pois é, em 1988, quando o Hamas
- 23:28publicou seu pacto cheio de delírios escatológicos, exigindo
- 23:30com todas as letras aniquilação de um país, o mundo novamente
- 23:35encolheu. Os ombros acharam que aquela
- 23:37moderação diplomática de 2017 apagaria os instintos originais
- 23:40da fundação. E a pergunta que fica é.
- 23:46O que acontece com a história humana quando a gente decide
- 23:49repetidas vezes tratar manifestos de extermínio apenas
- 23:52como uma retórica exagerada? A história ensina que o preço do
- 23:56cinismo, sempre, sem nenhuma exceção, é cobrado em sangue.
- 24:00Com certeza é uma lição dolorosa demais de se ignorar.
- 24:04Nós investigamos o Hamas hoje não para transformar milhões de
- 24:07civis palestinos em cúmplices de decisões das quais nunca
- 24:11participaram. Também não investigamos para
- 24:13fingir que a dor e os nós deste conflito começaram subitamente
- 24:17em 7 de outubro, ignorando décadas de ocupação,
- 24:20deslocamento e vidas interrompidas.
- 24:22E com absoluta certeza, não fizemos este mergulho para
- 24:26aceitar qualquer justificativa para o assassinato frio de
- 24:29inocentes. Percorremos os registros de um
- 24:31movimento gestado na primeira intifada em 1987.
- 24:33Lemos os apelos escatológicos de seu pacto de 1988.
- 24:39Comparamos a linguagem diplomática de 2017 com as
- 24:42ordens operacionais nos túneis de Gaza e checamos as evidências
- 24:46forenses independentes frente aos comunicados de propaganda.
- 24:49História não é sobre escolher um slogan confortável pra defender.
- 24:53História é sobre sustentar a verdade dos fatos com todo o seu
- 24:57peso moral e documental. Este foi o dossiê Oriente médio.
- 25:01Aquino na mesa com o well profundidade e historicidade no
- 25:05seu corre diário até o nosso próximo dossiê.