Latest / Rádio Livre com Nonato Lima / Programa Rádio Livre - 16 de outubro de 2024
Transcript
- 0:00A Universitária FM apresenta Rádio Livre, conversando nas
- 0:05ondas do rádio. Sete horas e trinta e cinco
- 0:11minutos. A gente tá no ar pra se informar
- 0:24Saber o que é que há pra se ajudar A gente tá no ar pra se
- 0:27comunicar A gente tá no ar pra se divertir Pra falar e ouvir,
- 0:32pra dançar e rir Pra ficar feliz, pra ser livre Rádio Livre
- 0:35Rádio Livre Os destaques do Rádio Livre
- 1:13desta quarta-feira, dezesseis de outubro de dois mil e vinte e
- 1:16quatro. O Ministério da Educação vai
- 1:23abrir um milhão e duzentos e cinquenta mil vagas em curso de
- 1:28educação inclusiva. O Tribunal de Contas afirma que
- 1:33o Brasil perdeu para sonegação dezesseis bilhões em impostos de
- 1:38mineração. no programa Rádio Livre, jornalista, professor e
- 1:45escritor Ãtalo Gurgel. O tema é a contribuição da Rádio
- 1:50Universitária FM e dele, com certeza, para a divulgação
- 1:55cientÃfica. Também vamos entrevistar o
- 1:58sociólogo e radialista Pedro Vitor Mendes.
- 2:01Ele vai falar sobre racismo e a luta anti-racismo.
- 2:05Rádio Livre Rádio Livre Rádio Livre, apresentação Nonato Lima.
- 2:18Bom dia a você que nos acompanha aqui ao vivo da sete meia, oito
- 2:23e meia com o programa Rádio Livre.
- 2:26Nossos cumprimentos também a você que nos acompanha no
- 2:29podcast Rádio Livre com Nonato Lima.
- 2:32Aà você ouve no horário da sua conveniência, na plataforma da
- 2:36sua preferência e a gente agradece a sua audiência.
- 2:43As entrevistas de hoje fazem parte de uma programação
- 2:46especial do Rádio Livre esta semana, que é uma semana
- 2:50comemorativa do aniversário de quarenta e três anos da Rádio
- 2:54Universitária FM. O Senado aprovou ontem o projeto
- 3:05de lei número seis mil cento e vinte, de dois mil e dezenove,
- 3:10que cria o Inventário Nacional de Substâncias QuÃmicas.
- 3:14O objetivo é minimizar os impactos de produtos nocivos Ã
- 3:18saúde da população e ao meio ambiente.
- 3:21O texto aprovado, que segue para a sanção presidencial,
- 3:25estabelece regras para avaliação e controle de risco de produtos
- 3:29quÃmicos utilizados no Brasil, e define critérios para a
- 3:32fabricação, importação e uso desses produtos.
- 3:37O inventário será elaborado pelo Comitê Técnico de Avaliação de
- 3:40Substâncias QuÃmicas e pelo Comitê Deliberativo de
- 3:45Substâncias QuÃmicas, formados por especialistas com
- 3:49conhecimento em meio ambiente, saúde, comércio e metrologia.
- 3:53Eles vão realizar a avaliação de risco dessas substâncias.
- 3:57Os fabricantes e os importadores de produtos quÃmicos deverão
- 4:02prestar as informações necessárias para a formulação do
- 4:05inventário, sob pena de pagamento de multas e até Rm.
- 4:11A lei não se aplica a substâncias radioativas ou
- 4:15destinadas à defesa nacional, nem a produtos sujeitos a
- 4:19controle por legislação especÃfica, como alimentos,
- 4:22medicamentos, agrotóxicos, cosméticos, fertilizantes e
- 4:26produtos de uso veterinário. Portanto, o que já está
- 4:29regulamentado, continua regulamentado.
- 4:31Essa é uma ampliação para determinadas substâncias.
- 4:35O relator da matéria, o senador Fabiano Contarato, do PT do
- 4:39EspÃrito Santo, Ele falou, já existe no Brasil uma regulação
- 4:43para algumas substâncias quÃmicas especÃficas, como
- 4:47pesticidas e fármacos, mas muitos produtos quÃmicos não são
- 4:51objeto de uma regulação estruturada.
- 4:59O Ministério da Educação vai abrir um milhão e duzentos e
- 5:05cinquenta mil vagas para curso de educação especial na
- 5:10perspectiva da educação inclusiva para a formação de
- 5:14professores. A partir da próxima
- 5:16segunda-feira, os docentes interessados poderão fazer a
- 5:19inscrição para as primeiras duzentas e cinquenta mil vagas
- 5:24diretamente nos sites das cinquenta instituições de ensino
- 5:28superior já disponÃveis. cadastradas, que já aderiram a
- 5:32esse projeto. A lista das entidades ainda será
- 5:35divulgada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
- 5:38NÃvel Superior, CAPES, que é a fundação que faz parte do
- 5:42Ministério da Educação. O curso vai ser online e voltado
- 5:47para educadores que atuam em sala de aula de educação básica
- 5:52e que engloba educação infantil, ensino fundamental de nove anos
- 5:58até o ensino médio para aprimoramento do trabalho
- 6:03pedagógico nas escolas nessa perspectiva da educação
- 6:08inclusiva. Ao final do curso...
- 6:11O objetivo é que esses educadores desenvolvam trabalhos
- 6:16pedagógicos para melhoria da educação especial, na
- 6:20perspectiva inclusiva, para atender necessidades
- 6:23educacionais especiais de alunos com deficiência, transtornos
- 6:27globais de desenvolvimento e altas habilidades de
- 6:31superdotação. O censo escolar de dois mil e
- 6:34vinte e três apontou um milhão e meio de alunos da educação
- 6:38especial que estavam matriculados em classes comuns
- 6:42na educação básica da rede pública.
- 6:44E a ideia é fortalecer o lugar onde esses alunos estão, para
- 6:51que eles tenham condições de permanecer incluÃdos.
- 6:55Não é aquele projeto do passado da exclusão, não.
- 6:59à a inclusão mesmo. Daà a necessidade de
- 7:03aperfeiçoamento. Mas lógico que o aperfeiçoamento
- 7:06é uma parte do processo. Aperfeiçoamento dos professores
- 7:10é uma parte do processo. Uma série de outras questões
- 7:13estão envolvidas nessa questão aà da garantia de inclusão nas
- 7:21escolas de um modo geral. Tanto escolas públicas quanto
- 7:24escolas privadas. Não é só nas escolas públicas.
- 7:27De qualquer maneira, a formação é um dos passos importantes.
- 7:36Sete horas e quarenta e um minutos.
- 7:46Vamos conversar agora com o radialista, sociólogo,
- 7:52companheiro da Rádio Universitária FM, Pedro Vitor
- 7:55Mendes. Bom dia, Pedro.
- 7:56Bom dia, professor. Bom dia a todos os ouvintes.
- 7:59Ã sempre um prazer poder conversar aqui com todo mundo
- 8:02sobre assuntos tão importantes. Pedro, a temática que eu trago
- 8:05hoje, o tema, na verdade, que eu trago hoje para a nossa conversa
- 8:09aqui sobre a luta antirracista foi dada por um ouvinte.
- 8:14Ele ligou e disse, olha... Não existia, até um certo tempo,
- 8:19essa história de branco e preto. E agora se fala combate ao
- 8:24racismo, branco, negro, preto. O que você tem a me dizer sobre
- 8:30isso? O que tem de fundamento
- 8:33histórico, sociológico nisso? E o que de fato não se sustenta?
- 8:38A pergunta do ouvinte é curiosa, porque eu não sei a idade do
- 8:44nosso ouvinte que fez essa pergunta, mas eu posso supor que
- 8:50talvez ele esteja fazendo uma referência indireta, professor,
- 8:56ao censo de mil novecentos e setenta. que durante a ditadura
- 9:00militar no Brasil, foi um dos poucos censos em que o Brasil
- 9:05não perguntou a raça-cor no censo.
- 9:09A gente não tem dados raciais sobre a autodeclaração da
- 9:14população brasileira, sobre a definição racial da população
- 9:19brasileira, melhor dizer, durante esse perÃodo.
- 9:23Isso aconteceu muito porque, veja bem, quando isso aconteceu
- 9:27no século XX, também em mil novecentos, mil novecentos e
- 9:33vinte, onde existia uma grande influência dos militares na
- 9:38polÃtica, né? Mil novecentos, a república
- 9:41havia pouco tempo, havia surgido no paÃs, né?
- 9:44Isso sob influência dos militares, na ideia de que vamos
- 9:50acabar com essas divisões, essas divisões não fazem o paÃs
- 9:58prosperar. Em mil novecentos e setenta,
- 10:01eles tinham uma visão parecida com isso.
- 10:03Por isso que não se perguntou. Talvez o ouvinte esteja fazendo
- 10:08referência a isso. Porque, caro ouvinte, eu posso
- 10:10te dizer, pelo menos na América Latina, o Brasil é o paÃs com a
- 10:15maior tradição censitária com dados referentes à raça cor.
- 10:21Certo. Agora, em que os governos se
- 10:24beneficiariam negando essa possibilidade de saber, afinal
- 10:31de contas, o que as pessoas manifestam sobre a sua condição
- 10:36racial? Bom, quando você consegue apagar
- 10:41os dados raciais da população, você apaga, num paÃs como o
- 10:46Brasil, os dados sobre o racismo.
- 10:49Porque no Brasil, através dos números, você...
- 10:54Claro, cada um tem sua vivência, né?
- 10:56O ouvinte pode ter vivido situações em que nunca foi dito
- 11:03de maneira clara Olha, eu não sei também a cor do ouvinte, mas
- 11:07olha, isso está acontecendo porque você é negro.
- 11:10Ou então, não, não vamos para ali não, porque ali tem uma
- 11:14negrada. Não, ele pode nunca ter ouvido
- 11:16isso, pode acontecer. Mas, independente da vivência do
- 11:20ouvinte, nós temos os dados estatÃsticos que comprovam a
- 11:23existência de um sistema racista no Brasil.
- 11:27E o que os dados nos indicam? Que existe, sim, uma maneira
- 11:31como o racismo opera, como o racismo impede a ascensão social
- 11:37das pessoas negras E impulsiona das pessoas brancas.
- 11:43De maneira que se você é branco e pobre, você tem muito mais
- 11:47chance de ascender socialmente no Brasil do que uma pessoa
- 11:50pobre e preta. Esses dados, eles são
- 11:55estatÃsticos. Eles comprovam que existe o
- 11:59racismo no Brasil e que a população negra é excluÃda do
- 12:04acesso de bens materiais e imateriais produzidos pela
- 12:07sociedade brasileira. Se você chega e deixa isso...
- 12:11muito bem nÃtido para a população, a população negra
- 12:16pode se revoltar, pode começar a fazer exigências de polÃticas
- 12:22que levem a raça em consideração, para que haja aÃ
- 12:26uma ação afirmativa, etc. Que era tudo que boa parte dos
- 12:30militares naquela época não queria.
- 12:32Eu estou pensando aqui nas lutas quilombolas, né?
- 12:35Foi exatamente no momento em que eles retomaram com mais força a
- 12:41mobilização que eles passaram a conseguir que os processos
- 12:46andassem, que houvesse o reconhecimento.
- 12:48Então, esse reconhecimento da condição racial é um fator
- 12:54mobilizador? Certamente, porque o professor
- 12:59não é esquecendo que um problema existe e que ele naturalmente
- 13:04deixa de existir. Os quilombolas, eles já sabiam
- 13:08que não é esquecendo que a alta concentração de terra no nosso
- 13:11paÃs, ela existe, que ela vai gradualmente sendo
- 13:15democratizada, o acesso à terra. Não é assim que acontece.
- 13:19à com a mobilização das pessoas, a definição de um problema, o
- 13:27reconhecimento desse problema e aà o enfrentamento desse
- 13:30problema. Então, se você... diz que
- 13:36antigamente não existia essa coisa de branco e negro e etc, e
- 13:42hoje é que existe, você está incomodado com o fato de que
- 13:46agora você tem dados estatÃsticos comprovando que
- 13:50isso existe e você está munindo os prejudicados, no caso a
- 13:56população negra, de material para poder reivindicar, para
- 14:00dizer, olha, a gente está cansado de ser excluÃdo do
- 14:03acesso aos bens materiais e imateriais dessa sociedade.
- 14:07Certo, então não se trata de um, digamos assim, de uma polÃtica
- 14:10de confronto entre as pessoas, não é?
- 14:12Não, de maneira alguma. Muitas lideranças do movimento
- 14:16negro até brincam dizendo que, olha, a sorte dos brancos
- 14:20brasileiros é que nós queremos apenas justiça, nós não queremos
- 14:25vingança. Porque, olha, se a população
- 14:28negra quisesse vingança, meu amigo, o tanto de...
- 14:33Eu não vou entrar em detalhes, mas nós não estudamos... da
- 14:38maneira como deverÃamos, o grau de brutalidade a que essas
- 14:43populações foram submetidas durante o processo de
- 14:46escravização criminoso aqui do Brasil.
- 14:48Nós não estudamos devidamente para ter noção do que era feito.
- 14:52Muito pelo contrário, acho que algumas peças audiovisuais fazem
- 14:57a... Algumas peças audiovisuais, elas
- 15:02chegam até a romantizar um pouco essa relação de que era uma
- 15:07coisa só mesmo, um desrespeito. O negócio era muito mais
- 15:12violento. Agora, a superação disso.
- 15:16Hoje, então, nós estamos aqui exatamente tratando disso porque
- 15:19alguma coisa mudou. na sociedade brasileira.
- 15:23Há algum tempo essa discussão aqui não aconteceria.
- 15:26Isso quer dizer que a temática antirracista tem, de fato, uma
- 15:32agenda própria, uma possibilidade concreta de
- 15:35circulação, para além dos atos racistas, que antes não eram
- 15:40considerados atos racistas. Qual é a possibilidade, então,
- 15:45de a sociedade brasileira reconhecer que essa...
- 15:50O questionamento do nosso amigo que ligou no programa passado.
- 15:56Que não é só uma questão de fazer de conta, que não existe.
- 16:01ou de que existia no passado, ou se trata de uma invenção, porque
- 16:08tem gente que acha que é uma invenção, não é assim?
- 16:10Não tinha esse problema aÃ, chegou um cara dizendo, olha,
- 16:13existe racismo, daà para frente, ou então, inventaram as cotas
- 16:18raciais e aà complicou. à muito curioso porque o debate
- 16:25sobre a questão racial, antes... a proposta mais consolidada de
- 16:32reserva de vagas nas universidades, ele ainda era
- 16:39muito concentrado em alguns lugares, no movimento negro, ele
- 16:44era muito centrado no movimento hip-hop, ele tinha uma certa
- 16:47abertura também no movimento hip-hop.
- 16:50E aà você tem... uma polÃtica pública que é ofertada, que
- 16:56reconhece o problema e diz vamos agir para diminuir a falta de
- 17:05representatividade que existe na população cientÃfica do nosso
- 17:09paÃs. Vamos dar à população cientÃfica
- 17:13brasileira a cara do povo, tanto de brancos como de negros.
- 17:19Com essa polÃtica, quando você tem uma polÃtica que beneficia,
- 17:22no caso... Aà virou uma polêmica.
- 17:25Aà a poeira subiu. Porque aà todo mundo começou
- 17:29a... Não, mas veja bem...
- 17:31Então houve pessoas que negaram o racismo, pessoas que disseram
- 17:35que não era tão grave, pessoas dizendo que vai causar aqui um
- 17:40apartheid racial que nem na Ãfrica do Sul.
- 17:43Então, assim, houve uma série... Aconteceu uma série de...
- 17:49argumentos, vários argumentos que foram levantados para poder
- 17:53discredenciar as bases do argumento que defendia a reserva
- 17:58de vagas no ensino superior para pessoas negras, mas que o
- 18:03empÃrico não se confirmou. No empÃrico, esses argumentos
- 18:11não tiveram a sua validade confirmada.
- 18:14Então, assim, é muito interessante porque à muito
- 18:19importante que estudos sobre o racismo no Brasil sejam feitos e
- 18:25esses estudos possam contar com a verdadeira fortaleza que o
- 18:31Brasil tem diante de outros paÃses da América Latina, que é
- 18:35uma larga tradição de senso sobre a questão, sobre a
- 18:43população e sobre a definição de raça-cor da sua própria
- 18:47população. Isso é muito importante se você
- 18:50compara o Brasil com a América Latina.
- 18:52Colômbia, por exemplo, vou trazer agora isso porque foi até
- 18:56tema da minha dissertação de mestrado.
- 18:59Colômbia tinha um verdadeiro vazio censitário nesse sentido.
- 19:03Ela não tinha uma tradição de coleta de dados da população
- 19:06negra. No final das contas, as
- 19:08polÃticas voltadas à população negra colombiana foram polÃticas
- 19:15que puderam contar apenas com estudos muito mais da linha
- 19:18antropológica, que trabalhavam em estudos de caso especÃfico,
- 19:23do que estudos que... fundamentavam uma análise mais
- 19:26sistêmica do racismo na Colômbia.
- 19:28Olha, o racismo é estrutural, está aqui.
- 19:30à isso que está acontecendo. Porque os dados censitários não
- 19:33existiam sobre a população negra.
- 19:35Então, as polÃticas públicas que o movimento negro na Colômbia
- 19:38conquistou foram diferentes das polÃticas públicas do movimento
- 19:41negro aqui no Brasil, graças aos dados censitários.
- 19:45Então o censo leva a conhecimento, um desses saberes
- 19:49que a gente vai ter a partir do censo é exatamente a questão
- 19:53racial e a partir daà as polÃticas públicas surgem, né?
- 19:56Exatamente, professor, porque o movimento polÃtico, ele, a cada
- 20:02pessoa que está dentro de um movimento polÃtico, ela sabe o
- 20:05que a atingiu, o que a faz estar ali, protestando e
- 20:09reivindicando. Mas também é importante que ela
- 20:12possa contar para legitimar A sua posição e a maneira como ela
- 20:18enxerga a realidade é importante que ela conte com a legitimação
- 20:22da ciência. Que ali ela possa contar com os
- 20:25dados sociais, com o empÃrico, o que os dados conseguiram captar
- 20:32das experiências empÃricas, os dados estatÃsticos, os estudos
- 20:38antropológicos, tudo isso... vem como uma base muito forte para
- 20:44os movimentos polÃticos e para a reivindicação desses movimentos.
- 20:49Pedro, eu queria conectar então, conectar é uma palavra boa do
- 20:52momento, conectar então essa nossa conversa agora com os
- 20:56quarenta e três anos da Rádio Universitária, porque nós não
- 21:00chegamos aqui à toa. A Rádio Universitária surgiu
- 21:04inaugurado oficialmente em mil novecentos e oitenta e um, e um
- 21:07dos objetivos centrais é exatamente estabelecer um
- 21:11diálogo, e isso passou a se estabelecer, entre a
- 21:14universidade e a sociedade. Mas não é aquele diálogo, um
- 21:19lado falando para o outro, é uma escuta mútua, a partir do
- 21:24conhecimento. Então, quando você está aqui,
- 21:26como acadêmico, pesquisador, estudioso da temática.
- 21:30Trazendo esse conhecimento num nÃvel que nós pudemos perceber,
- 21:34você, de fato, está executando essa polÃtica que significa a
- 21:41Rádio Universitária. E você é radialista da nossa
- 21:44emissora, companheira de trabalho.
- 21:46Eu queria que você falasse sobre essa dimensão da rádio e o que
- 21:50isso simboliza para você. Olha, a rádio, eu posso dizer
- 21:56que antes de fazer parte da rádio universitária, eu já era
- 21:59ouvinte da rádio universitária. E tendo isso em vista, eu posso
- 22:04dizer que a rádio, diferente de outras rádios muito pautadas
- 22:12pelo mercado e pela lógica de mercado, a rádio universitária,
- 22:16como uma rádio pública voltada para a educação, e para a
- 22:22cidadania, é uma rádio que, antes mesmo do debate das cotas,
- 22:28já dava o espaço para o movimento negro, para o
- 22:30movimento hip-hop se expressar, o clássico programa Se Liga, que
- 22:36ficou tanto tempo no ar aqui na rádio.
- 22:40Inclusive, professor, vou até trazer uma informação aqui.
- 22:44A primeira vez que eu entrei aqui na rádio, foi para ajudar
- 22:49no movimento, foi para ajudar no programa Se Liga.
- 22:53No caso, na época, que era conduzido pelo Preto Zezé, aqui
- 22:57na rádio. Na Central Ãnica das Favelas,
- 22:58né? Exatamente, que hoje está na
- 23:00Cufa, na Central Ãnica das Favelas, para ajudar no
- 23:03atendimento das ligações. Então as pessoas ligavam,
- 23:07elogiavam, pediam músicas e eu anotava e...
- 23:10Então foi a primeira vez que eu entrei aqui na rádio, foi
- 23:12através do programa Se Liga. Porque eu já tinha uma
- 23:15inclinação pra pensar sobre essa questão, sobre a exclusão
- 23:20social. E gostava muito de rap, porque o
- 23:23rap tem letras que falam sobre essa vivência.
- 23:27Então eu gostava muito já de rap.
- 23:30E também foi aqui na rádio onde eu pude...
- 23:33Antes de entrar como locutor, trabalhar com o programa Cantes
- 23:40do Mundo. Em que eu pude trazer músicas
- 23:43internacionais num viés não mercadológico.
- 23:47Porque o que chegava de música internacional nas rádios aqui da
- 23:51nossa cidade era muito músicas em inglês.
- 23:54O pop, as músicas que estavam em voga no mercado dos Estados
- 23:58Unidos. E eu não, peraÃ, não tem só o
- 24:01mercado dos Estados Unidos. Se é música internacional, tem
- 24:04que ser música internacional de verdade.
- 24:06Vamos saber o que está no LÃbano, vamos saber o que está
- 24:10fazendo sucesso na França, na Ãfrica do Sul.
- 24:15E eu acho que a rádio sempre foi esse espaço para se exercer a
- 24:20cidadania e se promover a educação.
- 24:23Então eu acho que questionar o status quo tem tudo a ver com a
- 24:27proposta da rádio universitária. Eu me lembro que a primeira vez
- 24:31que a gente teve contato aqui na rádio, você veio para participar
- 24:34de um evento até hoje inédito na história da rádio.
- 24:37Só aquele, único. Foi um grande debate acadêmico
- 24:41na perspectiva latino-americana, da rede de pesquisadores, da
- 24:45Rupal. E a partir dali nós começamos
- 24:48uma conversa que resultou um ano depois no... no programa Câncer
- 24:51do Mundo, que você passou alguns anos como voluntário, fazendo o
- 24:56programa aqui. E hoje você é concursado da
- 24:59Universidade, trabalha na rádio e continua com o programa Câncer
- 25:02do Mundo e contribui agora com o programa Rádio Livre.
- 25:05Eu espero que essa contribuição só siga, continue sempre
- 25:14prosperando e que a rádio ela complete mais outros quarenta e
- 25:22três anos aà de... De muitos encontros e
- 25:25reencontros. Exatamente.
- 25:27De jornada nessa perspectiva, né?
- 25:29Porque a rádio universitária, ela é necessária acima de tudo.
- 25:33Uma rádio como a rádio universitária, aberta ao novo,
- 25:38aberta às novidades e aberta à cidadania, aberta aos movimentos
- 25:42sociais, aberta à ciência. Que, infelizmente, até a
- 25:46ciência, hoje em dia, você tem rádios que são...
- 25:48São contra, né? São negacionistas.
- 25:54à uma rádio que defende a ciência como valor.
- 25:57Então, eu tenho muito orgulho hoje de fazer parte da rádio, de
- 26:00estar aqui fazendo parte de uma rádio que pauta o antirracismo,
- 26:09que debate o antirracismo, que traz o antirracismo e questiona
- 26:13o racismo. Então...
- 26:16Sociólogo, radialista da Rádio Universitária FM, Pedro Vitor
- 26:19Mendes, muito obrigado. E quarta-feira que vem a gente
- 26:21se encontra aqui novamente. Com certeza, professor.
- 26:24Eu é que agradeço. Obrigado a todos os ouvintes e
- 26:26até nosso próximo encontro. Estamos de volta para a segunda
- 26:42parte do programa Rádio Livre de hoje.
- 26:45Vamos fazer um rápido intervalo e em seguida a gente começa a
- 26:50segunda etapa do programa Rádio Livre.
- 26:57Rádio Livre, apresentação Nonato Lima.
- 27:03Agora sim, Ã s oito horas e quatro minutos, estamos de volta
- 27:06com o programa Rádio Livre. E temos aqui um convidado no
- 27:10estúdio, companheiro Ãtalo Gurgel, jornalista, professor,
- 27:15escritor, membro da Academia Cearense de LÃngua Portuguesa,
- 27:20ex-assessor de comunicação institucional e de comunicação
- 27:23social e marketing da Universidade Federal do Ceará,
- 27:27foi integrante por muito tempo da equipe do jornal O Povo, e
- 27:32colaborou com este programa, com o Rádio Livre, e também com o
- 27:36Rádio Bancários, que a gente apresentou, fazendo análises
- 27:40internacionais, sobretudo as análises internacionais, era o
- 27:42nosso analista internacional por muito tempo.
- 27:46E a gente agradece muito por essa colaboração.
- 27:48E é exatamente por isso aqui que eu falei sobre o Ãtalo que a
- 27:51gente o convidou para essa série de programas especiais que a
- 27:54gente está fazendo durante o aniversário da Rádio
- 27:57Universitária FM. Bom dia, amigo Ãtalo Gugel.
- 28:04Prazer em estar aqui de novo, diante desses microfones que
- 28:10tanto eu frequentei tempos atrás.
- 28:14Prazer tê-lo aqui, Ãtalo. O foco principal da entrevista e
- 28:21o motivo principal do convite é que a Rádio está completando
- 28:24quarenta e três anos E a gente sabe que você foi pioneiro, fez
- 28:31um trabalho fundamental que resultou na configuração de uma
- 28:37programação radiofônica que, de fato, passou a fazer a
- 28:43divulgação da pesquisa, da ciência, o jornalismo
- 28:46cientÃfico, como a gente costuma chamar, costuma chamar, já lá
- 28:49nos primeiros momentos da Rádio Universitária, com um programa
- 28:52chamado Ciência Desafio da Terra, mas não só, outras
- 28:55iniciativas. O primeiro ponto que eu gostaria
- 28:58de trazer aqui é exatamente essa iniciativa.
- 29:02Lá naquele momento, a rádio veio com um perfil educativo, Mas
- 29:07aquele era o momento de definição de caminhos.
- 29:10E me parece que essa iniciativa inaugurou essa perspectiva que
- 29:18ainda hoje permanece. Vamos falar de detalhes futuros
- 29:21dessa iniciativa. Foi, de fato, um trabalho
- 29:28muito... interessante muito, foi um desafio realmente, o programa
- 29:36se chamava Ciência e Desafio da Terra, e foi um desafio muito
- 29:41interessante levá-lo ao ar naquele momento.
- 29:46Não tÃnhamos, de fato, modelos, eu não conhecia matrizes,
- 29:53outras, E tivemos que criar tudo do zero.
- 29:58Imaginar o modelo e colocá-lo para funcionar, colocar o
- 30:02programa no ar, tudo foi desafio.
- 30:07E partindo do princÃpio de que, sendo a rádio o veÃculo de
- 30:14comunicação mais popular, e havendo uma emissora de rádio Ã
- 30:20disposição da universidade, Era imprescindÃvel que a
- 30:25universidade se valesse desse novo espaço de divulgação para
- 30:32falar de sua pesquisa, de seu trabalho cientÃfico, que é muito
- 30:40importante, extremamente importante dentro da
- 30:43universidade. especialmente dentro da universidade pública,
- 30:49uma vez que há muito tempo e até hoje as universidades públicas
- 30:56são o grande espaço em que se faz pesquisa no Brasil.
- 31:04Então havia toda uma vasta e importante produção da qual
- 31:12ninguém falava. por motivos os mais variados que a gente pode
- 31:19até discutir ainda aqui nessa conversa.
- 31:23Agora, como é que foi a relação inicial com os pesquisadores?
- 31:28Porque era uma iniciativa completamente nova.
- 31:34Como é que os pesquisadores que naquele momento você procurou,
- 31:38como é que eles reagiram à ideia?
- 31:40Com desconfiança. Com desconfiança.
- 31:44Ou, melhor dizendo, com um certo zelo, um certo distanciamento,
- 31:55uma certa suspeita. Ele sempre trabalhou
- 32:00silenciosamente entre as quatro paredes do seu laboratório e, de
- 32:05repente, chega o microfone diante dele, né?
- 32:09para falar do seu trabalho para a sociedade.
- 32:12Não era fácil. O cientista é sempre reticente
- 32:23com relação à divulgação, à imprensa. suspeita de alguma
- 32:31coisa, ele não gosta de intromissão, ele não conhece,
- 32:38ele é muito introspectivo em seu trabalho, em seu mundozinho ali,
- 32:43em sua bolha. Muitas vezes ele não conhece o
- 32:47trabalho que está sendo desenvolvido no laboratório ao
- 32:51lado, dentro do próprio departamento.
- 32:57Então, chegou o tempo em que se acreditou que era preciso romper
- 33:04essa bolha e colocar no ar esse trabalho, quer dizer, divulgar
- 33:12esse trabalho que ele desenvolve, que é importante,
- 33:15que tem reflexo para a sociedade, que precisa ser
- 33:18conhecido, até mesmo... para que haja maior interesse no
- 33:26financiamento do trabalho cientÃfico da universidade
- 33:30pública. E, de todo modo, conseguimos
- 33:40inúmeras, incontáveis adesões a esse projeto e os...
- 33:48Pesquisadores vieram para o estúdio da rádio e conversamos
- 33:54demoradamente com cada um deles, procurando traduzir a linguagem
- 34:04cientÃfica, procurando fazer com que eles falassem. uma linguagem
- 34:09popular, acessÃvel, para que todos pudessem compreender a
- 34:14natureza do trabalho que ele desenvolve em seu laboratório.
- 34:18E conseguir, porque uma das dificuldades é de linguagem
- 34:20também. Como é que eu vou traduzir um
- 34:23conhecimento muito especÃfico, de anos de estudo, para uma
- 34:29linguagem que o público em geral compreenda?
- 34:36Eu tinha a felicidade de trabalhar simultaneamente em
- 34:48dois veÃculos diferentes, na rádio, com esse programa, e no
- 34:58jornal. Jornal O Povo, no caso.
- 35:01Jornal O Povo. Isso.
- 35:04Ao tomar conhecimento de um trabalho cientÃfico
- 35:07interessante, importante, que se desenvolvia na universidade, eu
- 35:13procurava sensibilizar a editoria do jornal para que
- 35:19acolhesse uma matéria, uma reportagem sobre aquele.
- 35:24E, invariavelmente, eu tinha o sinal verde.
- 35:29Então, de inÃcio, eu fazia uma longa entrevista sem microfones,
- 35:38com o pesquisador, ia no seu laboratório e no campo, se se
- 35:46tratava de um trabalho desenvolvido no campo, ia na
- 35:48fazenda da universidade, coisa assim.
- 35:52E eu acho que essa etapa, essa fase de coleta de dados para uma
- 35:57reportagem de jornal quebrava o gelo.
- 36:01E... Ao levar esse assunto para o
- 36:08jornal, eu o levava decodificado.
- 36:12Quando o cientista lia a reportagem, ele via que o seu
- 36:22trabalho podia ser... via público, com uma linguagem
- 36:26simples. E, quando ele vinha para a
- 36:31rádio, ele já conhecia essa possibilidade, ele já sabia da
- 36:35possibilidade de falar de ciência com uma linguagem
- 36:39simples. Então, você já tinha um...
- 36:41Eu acompanhei, lendo no próprio jornal, as matérias.
- 36:46Você, de fato, é um pioneiro na divulgação cientÃfica a partir
- 36:50do jornalismo aqui no Ceará, na Rádio Universitária, inaugurando
- 36:55na Rádio Universitária desde o primeiro momento, mas também no
- 36:59jornalismo cearense. Aqui mesmo, na universidade,
- 37:03junto com essa experiência de divulgação cientÃfica na rádio,
- 37:07criação do programa Ciência e Desafio da Terra, promoveu
- 37:11outras iniciativas. Eu estou me lembrando aqui da
- 37:14divisão de divulgação cientÃfica e tecnológica, que foi criada na
- 37:17universidade, você coordenava, inclusive com o órgão de
- 37:20divulgação da ciência. Eu queria que você falasse um
- 37:23pouco dessa experiência adicional em relação Ã
- 37:26universidade. Ã...
- 37:29TÃnhamos, na época, um pró-reitor de extensão
- 37:33extremamente antenado, até, digamos, visionário, que era o
- 37:38professor Marcondes Rosa, de quem eu havia sido aluno e com
- 37:45quem mantinha uma sólida amizade.
- 37:49E o Marcondes, com sua mente aberta, me deu amplo apoio criou
- 37:58essa divisão, me convidou para ocupar essa divisão e me deu
- 38:03amplo apoio nessas iniciativas de abrir, escancarar as portas
- 38:09da universidade nesse setor de pesquisa.
- 38:12Porque sempre se falou muito do tripé universitário famoso,
- 38:19ensino, pesquisa e extensão. Isso.
- 38:22O ensino é talvez o mais conhecido, a imprensa vem Ã
- 38:28universidade, pelo menos na época do vestibular, do antigo
- 38:31vestibular. Esse veio é bem conhecido.
- 38:36A extensão, sim, porque pela sua própria natureza, a extensão
- 38:39está aà fora. Mas a pesquisa não, ela sempre
- 38:45permaneceu entre as cortinas de um certo sigilo desnecessário.
- 38:52E, atento a isso, o professor Marcondes me encarregou de
- 39:00tentar rasgar um pouco essas cortinas.
- 39:03O professor Marcones Rosa foi um dos diretores fundadores da
- 39:07rádio. Os três eram o professor Clóvis,
- 39:08o executivo, o professor Marcones Rosa e o professor
- 39:11Roger Rogério. Esses três estavam também na
- 39:14fundação da Rádio Universitária FM.
- 39:17Agora, esse seu compromisso com a divulgação da ciência é bem
- 39:23mais amplo mesmo, tem uma história e tinha uma... uma,
- 39:28digamos assim, uma consistência muito grande.
- 39:30Estou lembrando aqui agora também do guia de fontes.
- 39:33Uma das coisas que as pessoas sentiam dificuldade, os
- 39:36jornalistas, sobretudo, é de saber com quem eu falo na
- 39:40universidade sobre um determinado tema.
- 39:41E você criou lá, já na assessoria de comunicação da
- 39:46universidade, um guia de fontes, que eu depois, na coordenadoria,
- 39:54montei um projeto para a gente transformar em um guia de fonte,
- 39:57manteve-se o guia de fonte eletrônico.
- 39:59Disseram, olha, vai ser muito difÃcil, porque os pesquisadores
- 40:02não vão querer. E a experiência que eu encontrei
- 40:04foi outra, eu queria que você falasse um pouco do guia de
- 40:06fontes. Olha, na coordenadoria de
- 40:11comunicação, o que a gente mais recebia eram telefonemas... de
- 40:19jornalistas procurando fontes de informação na universidade.
- 40:24Olha, estou fazendo aqui uma informação sobre uma praga de
- 40:27gafanhotos, coisa assim, sobre a seca, sobre isso, aquilo.
- 40:33Com quem eu falo na universidade para trazer subsÃdios?
- 40:37E a gente tinha que buscar na hora, em dois minutos, dar uma
- 40:42resposta, né? Então, eu procurei sistematizar
- 40:48essa informação e conheci um guia de fonte que já existia por
- 40:56aà e criamos o guia de fontes da Universidade Federal do Ceará.
- 41:04uma lista de pesquisadores, cientistas de todas as áreas do
- 41:09conhecimento presentes no campus e que se dispunham a subsidiar a
- 41:17imprensa. Naquela época, a UFC era uma das
- 41:23duas ou três universidades brasileiras que possuÃam um guia
- 41:27de fontes. Tiramos, posteriormente, a
- 41:30segunda edição, a terceira, e foi um grande salto, na sua
- 41:35época, você transformá-lo em um guia eletrônico, acessÃvel em
- 41:41todas as redações ao alcance da mão.
- 41:43E nós estávamos juntos lá nessa iniciativa.
- 41:46Eu me lembro muito bem quando ele anunciou isso. numa reunião,
- 41:50disse o professor Jesualdo, que era o reitor, olha, o Ãtalo
- 41:54Gugel, o professor Ãtalo Gugel está com a gente nesse projeto.
- 41:57Ah, sim, muito bem. Ãtimo, mas claro, é o criador do
- 42:02projeto, a gente tem o dever de reconhecer o que... o que é
- 42:06construÃdo e aperfeiçoar, se puder, se possÃvel, mas não
- 42:11destruir, de preferência. à muito importante, porque,
- 42:15através dele, o jornalista acessa alguém que está
- 42:21disponÃvel, que aceita a ideia de falar para a imprensa, o que
- 42:28não acontecia antes. Porque nós dávamos, digamos, o
- 42:32telefone de um cientista que trabalhava naquela área
- 42:35demandada, mas não tÃnhamos certeza de que ele quisesse
- 42:40falar. Ã um direito.
- 42:44Eu lamentava, mas é um direito. Então, o guia, o pesquisador é
- 42:50previamente contatado, você quer dar informação à imprensa quais
- 42:55são as áreas sobre as quais você quer falar, e daà a
- 43:01disponibilidade facilitou enormemente essa aproximação da
- 43:05universidade com a mÃdia. à interessante, naquela época,
- 43:09disseram, olha, vai ser um pouco difÃcil, talvez os pesquisadores
- 43:12não queiram, o que você falou agora, E o que aconteceu é que,
- 43:15de mais de seiscentos pesquisadores e pesquisadoras
- 43:19consultados pela equipe na época, nós tivemos talvez umas
- 43:24cinco a dez que disseram que preferiam, neste momento, não
- 43:27incluir. Você imagina, em seiscentos,
- 43:29mais de seiscentos, então é um número muito pequeno de pessoas.
- 43:33à um sucesso absoluto. Então é o pesquisador também com
- 43:37vontade de levar a ciência ao conhecimento.
- 43:40Obrigado. Bom, é interessante toda essa
- 43:43discussão que a gente está fazendo aqui, porque a gente não
- 43:46sabia, mas no caminho ia ter uma pandemia.
- 43:49Em dois mil e vinte, nós tivemos a pandemia de Covid-dezenove, e,
- 43:55curiosamente, o que ocorreu no mundo... também no Brasil,
- 43:59fortemente, foi o negacionismo. Como é que você, como um
- 44:05jornalista dedicado, apaixonado, que deu uma contribuição e que
- 44:09dá uma contribuição à divulgação cientÃfica, compreendeu aquele
- 44:13momento? A própria universidade tinha
- 44:16seus canais de divulgação cientÃfica, que também foram
- 44:21afetados um pouco por esse processo, porque o negacionismo
- 44:25tinha um certo vÃnculo com o governo anterior, que também se
- 44:28instalou aqui na universidade. Foi um manto de obscurantismo
- 44:37que se instalou, que cobriu grande parte do paÃs, invadiu
- 44:42todas as áreas. Foi algo extremamente lamentável
- 44:46a gente ver pessoas sérias, pessoas envolvidas profundamente
- 44:54nessa questão da saúde, e negarem o efeito da vacina,
- 45:03negarem a importância da máscara, negarem o perigo do...
- 45:13da aglomeração, e, dessa forma, prestar um enorme desserviço Ã
- 45:21sociedade. Não há dúvida de que isso foi
- 45:26ideologizado, foi politizado, foi uma questão polÃtica que,
- 45:35infelizmente, lamentavelmente, contaminou vários setores da
- 45:41sociedade. Foi muito triste ver o
- 45:47obscurantismo manifestado através do negacionismo se
- 45:53instalar e obter adesão de pessoas que até então eu
- 45:59considerava sérias. Eu estou conversando com o
- 46:04professor, jornalista e escritor Ãtalo Gurgel, nosso colega aqui
- 46:07da universidade, professor de lÃngua francesa por muitos anos,
- 46:11não é? Alvich.
- 46:13Alvich, sim. E mais, autor de trabalhos não
- 46:20só no jornalismo, mas também na literatura, não é?
- 46:22Genética literária está lá na sua pesquisa cientÃfica, não é?
- 46:25Exato. Gostaria de saber, Itlo, lá
- 46:28atrás ainda, quando a gente estava com você liderando aqui,
- 46:34construindo essa linha de jornalismo cientÃfico na Rádio
- 46:37Universitária, que nos legou essa experiência, esse
- 46:41conhecimento, e a gente deu prosseguimento, e a rádio hoje
- 46:44tem uma linha de jornalismo cientÃfico, pode ficar certo que
- 46:47tem a ver com aquilo que você plantou naquele momento.
- 46:51Eu fico feliz, você... Mas você fez também, eu me
- 46:54lembro muito bem, um seminário poderoso aqui de jornalismo
- 46:58cientÃfico, ainda nos anos oitenta, trazendo um dos nomes
- 47:01mais importantes do jornalismo cientÃfico na época, que era o
- 47:04jornalista Etervaldo Siqueira. Nós tivemos visita cientÃfica à s
- 47:11fazendas experimentais da universidade e tal.
- 47:13Ou seja, você tinha, de fato, uma preocupação pedagógica
- 47:16mesmo, de contribuir com a formação dos jornalistas...
- 47:20Tem uma associação que foi criada naquele momento para a
- 47:23gente ter ali um fórum de discussão sobre jornalismo
- 47:26cientÃfico. Eu gostaria de, resumindo, como
- 47:31é que toda essa história, a partir dela você vê perspectiva
- 47:37para a divulgação cientÃfica, para o jornalismo cientÃfico
- 47:39hoje, na Rádio Universitária, mas também na realidade do
- 47:43jornalismo brasileiro. Tudo aquilo... o que aconteceu
- 47:49foi, digamos, uma chacoalhada inicial necessária para
- 47:54despertar os próprios jornalistas, despertar neles o
- 47:58interesse por esse filão fabuloso que é a ciência e que
- 48:05tem seu principal nicho na universidade, principalmente a
- 48:12universidade pública. Eu acho que...
- 48:19A semente germinou, os resultados foram positivos, eu
- 48:25acho que se quebrou o gelo, e houve uma aproximação muito
- 48:31importante entre a mÃdia e o campus.
- 48:43Não vejo, senão, perspectivas positivas para o presente, para
- 48:49o futuro, na medida em que cada vez mais as pessoas vão se
- 48:54conscientizando da importância da ciência, essa ciência que foi
- 49:01abominavelmente negada durante a pandemia, contaminada por uma
- 49:09ideologia obscurantista. Essa ciência triunfou.
- 49:20E no rastro disso, o que há de acontecer é um conhecimento cada
- 49:28vez mais amplo da importância do trabalho desenvolvido na
- 49:32universidade. Professor Ãtalo Gugel,
- 49:36jornalista, companheiro, agradeço muito pela sua
- 49:40participação aqui, mas eu queria ainda deixar uma perguntinha
- 49:42aqui. Informação, você dá para
- 49:45jornalista, é um perigo, não é? Você tem publicações de história
- 49:50da universidade, você tem vários tipos de trabalhos, trabalhos
- 49:55diversos de contribuição para a universidade, mas agora você vai
- 49:58estrear na poesia? Ã isso?
- 50:01Sim. Ã verdade.
- 50:05Meu currÃculo inclui alguns livros de memória.
- 50:15O meu trabalho acadêmico se transformou em livro na área de
- 50:22crÃtica genética, crÃtica literária.
- 50:27Meu livro de maior sucesso até hoje é...
- 50:32Um livrinho sobre cultivo de orquÃdeas.
- 50:36Sim, é o Orquidófilo também, esqueci de dizer.
- 50:38à uma coisa importantÃssima da história desse homem.
- 50:41Eu também sou Orquidófilo. E meu livrinho sobre cultivo de
- 50:45orquÃdeas já está na segunda edição.
- 50:49Já foi vendido para Portugal, Moçambique, Uruguai, Argentina,
- 50:53Peru, Suriname. Bom, e agora...
- 51:01Aos setenta e seis anos, estou estreando precocemente na
- 51:09poesia. Eu reuni, fiz uma pequena
- 51:12coletânea de contos, de poemas, que batizei o livrinho de cantos
- 51:22de bem-querença e de saudade, que será lançado ou não... se
- 51:30for lançado qualquer dia deles e passa a circular para quem
- 51:35gostar de poesia, dos segredos da alma.
- 51:41Pois é, está lançado aqui simbolicamente.
- 51:45Quando você for fazer o lançamento mesmo, valendo,
- 51:48oficial, fala para a gente divulgar aqui para a gente ir lá
- 51:51também. Mas Ondas do Rádio já foi
- 51:55lançado. Eu quebrei aqui o segredo.
- 51:59Então, um prazer muito grande sempre reencontrar você.
- 52:03E para a gente sempre ter essas conversas muito interessantes e
- 52:07ouvir a sua experiência e a sua contribuição como...
- 52:10Companheiro jornalista e como professor.
- 52:13Agora poeta também. Foi muito bom.
- 52:23Foi muito bom participar disso, refrescou até minha memória
- 52:27sobre o meu trabalho de tempos atrás e oxigenou minha vontade
- 52:38de continuar contribuindo na divulgação da universidade.
- 52:43Muito obrigado, um grande abraço.
- 52:46Tudo de bom. Muito obrigado, até mais.
- 52:51AÃ foi o professor, jornalista, escritor, que mais?
- 52:56Não dá para dizer, vai ser uma meia hora.
- 52:59Poeta, integrante da Academia Cearense de LÃngua Portuguesa,
- 53:03Italo Gugel, conversando com a gente aqui no Rádio Livre.
- 53:05Nessa entrevista especial... da semana de comemoração dos
- 53:09quarenta e três anos da Rádio Universitária FM, onde o Ãtalo
- 53:13trabalhou com a gente aqui desde os primeiros momentos.
- 53:15Muito obrigado. Estamos encerrando aqui o
- 53:17programa Rádio Livre. Obrigado, um abraço e até
- 53:20amanhã, sete e meia, com mais um Rádio Livre.
- 53:23A Silima e eu estaremos de volta.
- 53:27A Universitária FM apresentou Rádio Livre.