Latest / Na Mesa com Well / Custo do Discipulado - Jonas Madureira | Da Minha Estante
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- 0:00Bem-vindo ao na mesa com o el o lugar para quem busca
- 0:03profundidade e historicidade de forma acessível na correria do
- 0:07dia a dia. Existem livros que simplesmente
- 0:09Lemos e existem livros que nos desconstroem por dentro.
- 0:14Na nossa mesa de hoje, mergulhamos de cabeça em uma
- 0:16análise profunda de um dos meus livros favoritos da vida, o
- 0:20custo do discipulado do pastor e filósofo Jonas Madureira.
- 0:23Nossa, e que mergulho, né? Porque, tipo, logo de cara, esse
- 0:27livro parte de uma premissa um tanto indigesta.
- 0:30Indigesta é o apelido. Fiquei chocada quando reli.
- 0:33É aquela ideia de que 90% do que a gente chama de liderança
- 0:38cristã hoje, na real, é só gestão de eventos, sabe?
- 0:41Ou administração de clube? Uhum total.
- 0:44E o Jonas Madureira usa filosofia pura e teologia
- 0:48histórica para provar isso, então?
- 0:50É uma análise que promete redefinir bases muito sólidas e,
- 0:54claro, desafiar bastante o nosso conforto.
- 0:57É um verdadeiro tapa na cara logo no primeiro capítulo, mas
- 1:01assim é exatamente por isso que o objetivo central da nossa
- 1:04análise de hoje é extrair as pepitas de sabedoria dessa obra.
- 1:09Com certeza, porque o livro une teologia, filosofia e uma
- 1:14aplicação pastoral super crua para redefinir o que realmente
- 1:18significa a palavra seguir. E, consequentemente, o que
- 1:21significa liderar? E para começar a entender esse
- 1:23mecanismo do seguir, a gente precisa falar sobre aquela ideia
- 1:27de ser cativado, né? Ah.
- 1:29Sim, tem aquela metáfora linda do Antonio de San exopere, no
- 1:33pequeno príncipe. Aquele diálogo clássico com a
- 1:35raposa? Exato, isso.
- 1:37A raposa ensina que ser cativado é criar laços.
- 1:40E sem criar laços, qualquer pessoa é só mais um rosto na
- 1:44multidão para você. Exatamente.
- 1:46Mas, ao criar laços, passa a existir ali uma necessidade
- 1:50mútua, né? A vida do outro passa a iluminar
- 1:52a nossa. E das amizades que maltam nosso
- 1:55caráter. O discipulado não começa com uma
- 1:58adesão fria a um conjunto de regras Morais.
- 2:01Ou um estatuto de clube, claro. Uhum, ele começa com o fascínio
- 2:06por uma pessoa, é uma força magnética mesmo.
- 2:09E se a gente olha para a história, os primeiros
- 2:11discípulos não seguiram o manual de regras, né?
- 2:14Eles seguiram um mestre que os cativou de uma forma nossa, de
- 2:17uma forma profunda e irrevogável.
- 2:19É muito louco pensar nisso e as Fontes do nosso mergulho mostram
- 2:23como o autor ilustra isso, lembrando da amizade entre o
- 2:26sesi Luis EOJ hartalk. Outra referência incrível?
- 2:30Sim, que pode ser visualizada perfeitamente na lealdade do
- 2:33frodo e do sem de ou O Senhor dos Anéis.
- 2:36É esse fascínio por um modelo de virtude que acaba nos levando a
- 2:40imitação. Um amigo ensinando o outro nos
- 2:43bons e maus momentos. Numa jornada em comum?
- 2:46Exato, mas OK, vamos empacotar isso porque aqui a gente entra
- 2:50num problema fascinante da língua portuguesa, a.
- 2:54Famosa homonímia, né? Isso, a palavra discipulado
- 2:58abriga uma homonímia, ou seja, a mesma palavra é usada para 2
- 3:03coisas distintas. Mas que, segundo o livro,
- 3:06deveriam ser absolutamente inseparáveis.
- 3:09E o que é fascinante aqui? Exatamente como essa homonímia
- 3:12confunde e ao mesmo tempo revela a essência do negócio.
- 3:16Perfeito, porque de um lado, a gente tem o discipulado como o
- 3:20ato de seguir Jesus. Que foi a grande ênfase do
- 3:24juscher's bonffer. Isso na obra clássica dele, bem
- 3:27focada na submissão pessoal ao mestre, mas do outro lado.
- 3:30A gente tem o discipulado como o ato de ajudar os outros a seguir
- 3:34a Jesus. Que já é ênfase de autores
- 3:36contemporâneos, tipo Mark dever, né?
- 3:39Uma pegada muito mais focada na instrução mútua dentro ali da
- 3:42comunidade. Exatamente, mas a grande questão
- 3:45que fica batendo na cabeça de quem tá acompanhando a leitura
- 3:48é, como alguém pode ter a audácia ou até autoridade moral
- 3:53de guiar outra pessoa se não está ativamente pagando o preço
- 3:56de seguir? Pois é, parece uma contradição
- 3:58de termos. E é uma contradição.
- 4:01Porque esses 2 conceitos eles se pressupõem obrigatoriamente,
- 4:05quem não segue O Mestre, tipo, não tem base nenhuma para seguir
- 4:08de ninguém. Seria o equivalente alguém
- 4:10tentando ensinar navegar pelo oceano usando um mapa que achou
- 4:14no lixo? E sem nunca ter entrado num
- 4:17barco. Nossa, sim.
- 4:18O ato de ajudar a seguir exige de forma fundamental que o guia
- 4:22esteja ali imerso no sacrifício de seguir.
- 4:25E seguir de verdade não é um mero passeio no parque, né?
- 4:29Não é botar o nome numa lista de chamada no domingo exige um
- 4:32cálculo muito consciente. A decisão de seguir carrega um
- 4:36custo pesadíssimo, sem dúvida. E pra entender essa mecânica do
- 4:40custo, as Fontes usam a lente da famosa aposta de Pascal.
- 4:44Ah, o Blaze Pascal, filósofo, matemático lá do século 17.
- 4:49Ele mesmo, ele propôs aquele cálculo lógico de perdas e
- 4:53ganhos na decisão espiritual. Sim, ele argumentava que, diante
- 4:57da incerteza. A nossa razão exige uma escolha,
- 5:00se a pessoa aposta que Deus existe, vive por isso e é certa,
- 5:04ela ganha a eternidade. E se erra, não perde
- 5:07essencialmente nada. Exato.
- 5:09Mas, por outro lado, se aposta contra e erra, perde
- 5:13absolutamente tudo. Então esse custo envolve
- 5:16calcular cenários. E tomar uma decisão existencial
- 5:19bem consciente. Sabendo exatamente o que está em
- 5:22jogo não é um entusiasmo de fim de semana, não.
- 5:25Não é uma avaliação muito prudente.
- 5:28Tá, mas espera um pouco. Eu vou precisar bancar Advogado
- 5:30do Diabo aqui rapidinho, manda. Sempre que eu ouço falar dessa
- 5:33aposta de Pascal, me soa algo um pouco, sei lá, utilitário
- 5:36demais. Uhum.
- 5:38Entendo, parece que a gente está reduzindo a fé, um bilhete de
- 5:41loteria cósmico, onde a pessoa só está interessada no prêmio.
- 5:44No final, como é que o autor reconcilia esse cálculo
- 5:47matemático meio frio, com aquela ideia de amor incondicional que
- 5:50a gente acabou de falar? Olha, essa é uma crítica super
- 5:53clássica e muito importante ao Pascal.
- 5:55Mas a forma como Jonas Madureira resgata isso não é pela via
- 5:59utilitária, sabe? Do mercenário, é pela via da
- 6:03impossibilidade da neutralidade. Ah, de não dar para ficar
- 6:06isento. Isso.
- 6:07A matemática do Pascal não serve para gerar um crente
- 6:10interesseiro, serve para destruir a ilusão do espectador
- 6:14isento. O que o Pascal prova é que
- 6:17quando o infinito está na mesa. Decidi não apostar, já é uma
- 6:20aposta contra. Exatamente.
- 6:22O objetivo não é comprar um bilhete de loteria, é reconhecer
- 6:27que a vida exige uma entrega total e que o conforto de ficar
- 6:31em cima do muro é matemática e espiritualmente letal.
- 6:35Nossa, faz muito mais sentido assim.
- 6:37Quebra total a ideia de que dá pra ficar ali só na arquibancada
- 6:40assistindo. Exige abandonar o modo
- 6:42espectador, né? E isso nos leva perfeitamente a
- 6:45olhar pra quem estava fisicamente ali ao redor de
- 6:48Jesus no primeiro século, porque nem todo mundo que estava ali
- 6:51perto tinha feito esse cálculo de entrega.
- 6:53De jeito nenhum, e o autor traz o mapeamento histórico do
- 6:56teólogo John p Mayer. Que divide os seguidores em 3
- 7:00círculos muito claros, certo? Correto, o Mayer identifica 3
- 7:04círculos concêntricos. No mais externo, a gente tem a
- 7:07multidão curiosos, pessoas buscando Milagres, comida ou até
- 7:11um líder político contra Roma. No círculo intermediário temos
- 7:16os discípulos, de fato, os mais comprometidos e lá no círculo
- 7:21interno, os 12, aqueles que viviam.
- 7:24Uma imersão total. Tá, mas o perigo existencial
- 7:27mora justamente no círculo externo, né?
- 7:30Exato. O que o Madureira chama de o
- 7:32anonimato da multidão, a. Famosa zona cinzenta é um lugar
- 7:36super confortável, a pessoa pode acompanhar o movimento, escutar
- 7:39os discursos incríveis. Até se emocionar com eles.
- 7:42Sim, mas evito o compromisso público e a rejeição que
- 7:45inevitavelmente vem junto. Afinal, não precisa dar cara a
- 7:48tapa quando você está escondido no meio de 5000 pessoas, né?
- 7:52Com certeza. E a multidão quer seguir, mas
- 7:55sempre nos próprios termos. A lógica deles é reter o que
- 7:58agrada e descartar o que incomoda.
- 8:00É uma relação de puro consumo, não tem submissão ali.
- 8:04E é exatamente para implodir essa multidão consumista que
- 8:07Jesus apresenta aquelas duras demandas do capítulo 14 de
- 8:10Lucas. Ele basicamente vira para aquela
- 8:13massa de curiosos e diz que para sair da sombra e ser um
- 8:17discípulo genuíno. A pessoa precisa encarar uma
- 8:20perda radical de controle. Que é dividida naqueles 3 custos
- 8:24absolutos que o livro cita. Isso sendo o primeiro deles, o
- 8:28custo do amor. E aí a régua vai lá pro alto.
- 8:32Amar a Jesus acima de tudo, sem rivais, o texto fala, tem
- 8:36aborrecer ou odiar o próprio pai e mãe?
- 8:40Sim. Palavras fortíssimas.
- 8:42Pois é, mas a gente precisa explicar a mecânica disso pra
- 8:45quem tá ouvindo, porque lido de forma fria, isso soa quase como
- 8:49um discurso de uma seita querendo isolar o indivíduo da
- 8:52sociedade, né? Tipo, promover a destruição da
- 8:55família. Ah, não, de forma alguma.
- 8:58A resposta para isso é um Belo não.
- 9:00O uso da palavra odiar na cultura semítica daquela época
- 9:03era super retórico. Usado para estabelecer
- 9:06prioridades, né? Exatamente.
- 9:09Prioridades de lealdade absoluta.
- 9:12O que está em jogo aqui é a mecânica do amor ordenado, um
- 9:16conceito que o Agostinho trabalha muito bem.
- 9:19Amar as coisas na ordem certa. Isso significa amar a família
- 9:23como família e não como Deus. Quando o ser humano ama a
- 9:27família, a pátria ou a si mesmo, mais do que o criador, ele
- 9:30transforma essas coisas em ídolos.
- 9:33E ídolos, minha amiga, exigem sacrifícios terríveis.
- 9:36Nossa, sim. Então, o custo do amor exige que
- 9:40o centro da vida não tenha rivalidades, desbancando até as
- 9:43relações humanas mais sagradas. Pra que elas possam,
- 9:46ironicamente, ser amadas da forma correta, sem o peso de
- 9:50terem que fornecer uma salvação que elas não podem dar.
- 9:54Brilhante. E o que eu acho fascinante
- 9:56narrativa teológica aqui é como essa reordenação dos amores
- 9:59desemboca tipo naturalmente no sofrimento.
- 10:02Sim, é uma consequência lógica. Porque pensa bem.
- 10:05Se a gente abandona nossos ídolos sociais, familiares ou de
- 10:09status, a gente inevitavelmente colide com as expectativas do
- 10:13mundo. A gente perde o controle.
- 10:15E é aí que entra a segunda demanda, o custo do sofrimento.
- 10:19A ordem para carregar a própria Cruz, o custo relacional.
- 10:22Deságua no custo público para a galera do primeiro século que
- 10:25estava escutando isso, a Cruz não era uma metáfora poética.
- 10:29Ou um colarzinho de ouro para usar no pescoço?
- 10:31De jeito nenhum era o símbolo máximo do Império Romano para
- 10:35humilhação, terror e rejeição pública.
- 10:38E aqui as Fontes trazem uma visão formidável do lutero, ele
- 10:41meio que destrói as nossas noções modernas, romantizadas de
- 10:45sofrimento. Totalmente, o lutero alerta que
- 10:48a verdadeira Cruz. Não é aquele sofrimento
- 10:51romântico que a gente escolhe, não é, sei lá, fazer um jejum
- 10:54programado ou pegar um resfriado e aguentar quieto?
- 10:57Então, o que constitui a verdadeira Cruz na visão dele?
- 11:00Para ele, a verdadeira Cruz é o caminho e o sofrimento que são
- 11:07impostos por Deus contra a nossa escolha, contra a nossa vontade
- 11:12e contra a nossa mania de onipotência.
- 11:17É a diversidade que quebra a nossa ilusão de que a gente
- 11:20dirige o roteiro das nossas vidas.
- 11:22A Cruz é a destruição da nossa agenda pessoal.
- 11:25É o sofrimento que nos desarma completamente, né?
- 11:28E isso se conecta direto com a terceira demanda de Lucas 14,
- 11:32que vai na veia dessa mania de controle, que é o custo do
- 11:35desapego. Precisamente, renunciar a tudo
- 11:39que possui. E não é só pobreza material
- 11:42franciscana, não está? Não vai além disso?
- 11:45Vai muito além. Trata se de abandonar o falso
- 11:48eu, narcisista é a morte da ilusão de que temos domínio
- 11:53absoluto sobre a nossa vida, nossos bens, nosso tempo.
- 11:57A nossa identidade, mesmo a mecânica do desapego, é entender
- 12:01que tudo é dádiva, tudo pertence ao rei e que nós somos só
- 12:05administradores e peregrinos. E a consequência de ignorar isso
- 12:09é devastadora. Porque se a gente pegar essas 3
- 12:12demandas, o amor que desbanca ídolos.
- 12:14O sofrimento imposto que quebra a onipotência e o desapego, que
- 12:19destrói o narcisismo e simplesmente remover tudo da
- 12:23equação, o que que sobra? Sobra a famosa metáfora do sal,
- 12:27o discipulado de baixo custo que cria aquele sal sem sabor.
- 12:31Mantém aparência externa, mas perde a essência.
- 12:34Não tempera cultura, não conserva nada e não serve para
- 12:38absolutamente nada além de ser pisado.
- 12:40E o reflexo prático disso, o como isso destrói a cultura de
- 12:44uma comunidade, é que as igrejas viram máquinas obcecadas em
- 12:47recrutar voluntários. Só para manter as estruturas
- 12:51girando? Sim, aí entra aquela famosa
- 12:53distinção pastoral. Né?
- 12:54Entre a treliça e a Videira, a. Treliça é a estrutura, a
- 12:57organização, os prédios, as planilhas.
- 13:00A Videira é a vida orgânica, as pessoas sendo transformadas,
- 13:04dando o fruto. E a mecânica do discipulado de
- 13:07baixo custo transforma discípulos que deveriam estar
- 13:09morrendo para si mesmos em meros voluntários sobrecarregados.
- 13:13Esmagados por essa máquina implacável de eventos, a
- 13:17comunidade fica cultivando uma treliça de ouro maciço linda.
- 13:21Mas a Videira lá no meio morre asfixiada, né?
- 13:23A igreja de baixo custo acaba gerando um falso Cristo
- 13:26institucionalizado. Que, por sua vez, só consegue
- 13:28gerar falsos discípulos. É trágico.
- 13:31É, mas olha aqui onde a coisa fica realmente interessante
- 13:33nesse nosso mergulho. OPA, lá vem.
- 13:35Porque agora a gente precisa virar a chave da conversa.
- 13:38Se a gente já compreendeu a mecânica e o peso absurdo que é
- 13:41o ato de seguir, como é que a gente passa para a segunda fase
- 13:44da homonímia? Como a gente ajuda os outros a
- 13:47seguir? A premissa do Jonas Madureira é
- 13:49direta, o custo de ajudar a seguir é o próprio ato de
- 13:52seguir, não tem atalho. Não tem atalho metodológico.
- 13:56Não tem curso de gestão que substitua a imitação de vida.
- 14:00Exato, e essa constatação destrói por completo aquela
- 14:04ideia meio romântica, altamente especulativa, do evangelho
- 14:08social lá do final do século 19. As Fontes citam um exemplo
- 14:12clássico disso, né? Aquele livro famosíssimo do
- 14:15Charlie Sheldon em seus passos, o que faria Jesus?
- 14:18O clássico que gerou as pulseirinhas WWGD nos anos 90.
- 14:23Nossa, sim. Eu confesso que eu já achei essa
- 14:26ideia super genial. Qual que é o problema teológico
- 14:30de se perguntar o que Jesus faria no meu lugar?
- 14:32Então, parece bom na superfície, mas a crítica do Madureira é que
- 14:37isso reduz o discipulado a uma especulação moral muito
- 14:40abstrata. Viram um exercício imaginativo,
- 14:43subjetivo? Tipo.
- 14:45Como Jesus agiria no trânsito engarrafado hoje em Kim Jesus
- 14:49votaria? Exatamente, e a falha aqui é que
- 14:52discipulado. Não é especulação moral, é
- 14:56imitação, prática do auto sacrifício de Cristo e, de forma
- 15:01ainda mais crucial, é uma imitação que não é inventada
- 15:05pela nossa cabeça no século 21. Ah, entendi.
- 15:09Ela é mediada historicamente pelos apóstolos, certo?
- 15:12Certo, a gente não é chamado a imitar um Jesus hipotético
- 15:16construído pelos nossos ideais, somos chamados a imitar o Cristo
- 15:20crucificado. Que foi pregado concretamente
- 15:23por Paulo, Pedro e João. Olha, eu dou uma travada nessa
- 15:26parte de imitação, viu? Porque as anotações trazem um
- 15:29debate denso sobre a filosofia do desejo, cita a teoria
- 15:33mimética, do antropólogo Renê gerar.
- 15:36Ah, essa parte é sensacional. Você consegue explicar a
- 15:39mecânica disso? Como que antropologia do girard
- 15:42se cruza com essa ideia de discipulado?
- 15:45O que é esse tal de desejo triangular?
- 15:47Olha, se a gente conectar isso à condição humana num contexto
- 15:50mais amplo, a descoberta do girard revoluciona como a gente
- 15:54entende liderança? A teoria mimética prova que a
- 15:57noção de que somos indivíduos 100% autônomos.
- 16:00É uma ficção. Nossos desejos não surgem Do
- 16:03Nada. Tirando as necessidades
- 16:04biológicas, instintivas, tipo fome ou sede, tudo o que a gente
- 16:08deseja no nível metafísico ou social, não brota
- 16:11espontaneamente. Quer dizer, desejar ser um
- 16:14intelectual ou querer um padrão de vida x, ou até uma
- 16:17espiritualidade específica. Tudo isso a gente passa a
- 16:20desejar, porque a gente copiou o desejo de um modelo que a gente
- 16:23admira. Caramba.
- 16:25E aí forma o triângulo. Isso O Mecanismo do desejo é
- 16:29sempre triangular, tem o sujeito que deseja, tem um modelo
- 16:32admirado e tem o objeto que esse modelo aponta como valioso.
- 16:36A gente aprende o que desejar, observando que os nossos mestres
- 16:39desejam. Tá pra ver se eu peguei a
- 16:40aplicação prática disso. Se uma pessoa admira um líder
- 16:44religioso ou até um líder de empresa, ela não passa só a
- 16:49copiar o linguajar, a roupa ou a entonação do líder.
- 16:52Não. O buraco é bem mais embaixo.
- 16:55Ela começa a desejar intimamente as mesmas coisas que movem o
- 16:59coração daquele líder. Então, se o modelo lá no fundo,
- 17:03na poder, aplausos, grana. Adivinhe o que o liderado vai
- 17:06começar a desejar no nível mais profundo da alma, mesmo que o
- 17:10discurso oficial lá na frente seja sobre humildade?
- 17:13Nossa, é muito perigoso isso, o perigo supremo de líderes com
- 17:18desejos distorcidos. É que, mesmo com a teologia mais
- 17:22perfeitinha na ponta da língua, eles replicam a distorção
- 17:26interior deles nos liderados. Porque a natureza do discipulado
- 17:30humano é estruturalmente mimética, nós moldamos o coração
- 17:33de quem nos acompanha não só com palestras, mas transmitindo,
- 17:37meio que por osmose, os nossos desejos mais inconfessáveis.
- 17:41Isso entra num choque frontal com a mentalidade cultural que a
- 17:44gente respira, né? Nas Fontes rola aquele contraste
- 17:47filosófico brilhante entre o Rousseau e o Agostinho.
- 17:51O embate entre o paradigma da autenticidade, encontro da
- 17:54sinceridade por. Que que a visão do Rousseau é
- 17:57considerada tão letal para essa ideia de seguir a Cristo?
- 18:01Porque ela é o combustível supremo para arrogância.
- 18:03O girar chama a visão do Rousseau de a mentira romântica,
- 18:07que essa ilusão Moderna de que o ser humano ideal é 100%
- 18:10original, sabe? O capital da própria alma.
- 18:12É o lema. É tipo, eu sou eu mesmo, sigo
- 18:15meu próprio coração. Mas para sustentar essa ficção,
- 18:18a pessoa precisa esconder desesperadamente todas as
- 18:22influências dela, esconder os modelos que na vida real ela
- 18:25imita o tempo todo. Ela finge que não tem
- 18:27referências para parecer genial. Super independente é a cultura
- 18:31do Self Made Men aplicada na alma.
- 18:33Cria uma casca de invulnerabilidade, mas aí, por
- 18:36outro lado, a gente tem o Agostinho.
- 18:38Que representa o que o gira chama de verdade romanesca.
- 18:42O paradigma da sinceridade. O Agostinho não tem o menor
- 18:46pudor de dizer que precisa de um modelo.
- 18:48Nas confissões dele, ele praticamente roga, para que Deus
- 18:51invada e quebre a alma dele. Ele reconhece, com total
- 18:55vulnerabilidade, que ele só Barro precisando de um oleiro.
- 18:58Então, verdadeiro discípulo não é aquele que gasta energia
- 19:01tentando provar que é diferentão e autêntico.
- 19:04Não é aquele que assume abertamente que a natureza dele
- 19:08imitativa. E por isso mesmo, ele precisa
- 19:10que o Cristo vivo seja o modelo dele.
- 19:12Isso me lembra aquela analogia visual maravilhosa que o
- 19:15Madureira tira da fórmula teológica, o distinto set não
- 19:19separate, distinto, mas inseparável.
- 19:22A imagem da rosa vermelha perfeita.
- 19:24Seguir Jesus é como a cor vermelha.
- 19:26Ajudar os outros a seguir é a própria rosa.
- 19:30Ninguém chega numa euforicultura e diz, moço, eu quero levar essa
- 19:33rosa branca, mas você pode trocar a cor dela.
- 19:37Pela vermelha daquela outra flor ali.
- 19:39Exato, na teoria, o cérebro consegue separar o que é rosa e
- 19:43o que é cor, mas na prática? No mundo real, não tem como
- 19:47arrancar a cor de uma flor e entregar separada.
- 19:50Então o ato de seguir e o ato de liderar são a mesmíssima flor
- 19:54manifestada no espaço no tempo, mas aí entra o grande desafio
- 19:58final do livro. A armadilha do ego, né?
- 20:01Sim, se liderar é ser um modelo a ser imitado.
- 20:04Como a gente evita que essa influência mimética vire um show
- 20:08de vaidade? Como liderar sem criar um fã
- 20:11clube narcisista? A linha entre inspirar para o
- 20:14bem e promover a própria imagem é muito tênue.
- 20:17É muito tênue. E para resolver isso, a igreja
- 20:20resgata o Gregório Magno, lá do século 6.
- 20:24Ele propõe a arte do desaparecimento amoroso.
- 20:27Que conceito lindo. Ele diz que o líder precisa ser
- 20:30amável e cativante, claro. Não tem espaço para líder
- 20:34tirano, mas a amabilidade não serve para inflar o ego dele ou
- 20:39para ele ser bajulado ela. Funciona como uma estrada
- 20:42pavimentada, que aponta os liderados de forma direta para o
- 20:46criador, né? O amor pelo líder é só o
- 20:48trampolim para o amor a Deus. O líder é tipo uma placa de
- 20:52trânsito. A função da placa não é dizer
- 20:54olha o meu design e veja como minhas letras são lindas, ela só
- 20:57diz, o destino que você procura é por ali.
- 21:00Exatamente. E para fechar esse raciocínio, o
- 21:04Madureira traz aquela metáfora de Jesus sobre os lírios do
- 21:07campo. Qual que é O Mecanismo dos
- 21:08lírios? Eles simplesmente crescem.
- 21:10Num silêncio absoluto. Não contratam marqueteiro, não
- 21:14gerenciam crise no Instagram. Não exigem reconhecimento da
- 21:18floresta. Eles não dependem dos aplausos
- 21:20de um jardineiro humano para florescer.
- 21:23O jardineiro deles é Deus e o olhar dele é suficiente.
- 21:27Isso levanta talvez, a questão mais desconfortável da obra para
- 21:30a nossa geração. Que é tão obcecada por
- 21:33visibilidade, né? Onde todo mundo precisa deixar
- 21:36uma marca ser validado pelas métricas humanas o tempo
- 21:40inteiro? O desafio prático é aprender a
- 21:42viver e florescer satisfeito sobre esse olhar invisível de
- 21:46Cristo, abraçar a regra do João Batista.
- 21:49Que O Mestre cresça e eu diminua.
- 21:51Tem uma frase nas Fontes que resume isso de um jeito
- 21:54engraçado, mas muito profundo, o ego do líder precisa passar por
- 21:58um processo de mortificação. Até se tornar algo tão esquecido
- 22:02quanto os dedos dos nossos pés. É genial, ninguém acorda e fica
- 22:07admirando os dedos dos pés no espelho.
- 22:09Ninguém escreve poemas para eles.
- 22:11Eles só fazem o trabalho de sustentar o peso e manter o
- 22:14equilíbrio e pronto. O objetivo final é esse
- 22:17esquecimento de si mesmo. A mecânica da humildade não é
- 22:20ficar se depreciando, mas pensar em si mesmo com menos frequência
- 22:25e abraçar essa irrelevância. Para que a mensagem de Cristo
- 22:29brilhe sem ruído. Então, no fim das contas, todo
- 22:32esse esforço da nossa cultura por ser autêntico, só se resolve
- 22:36quando a gente desiste dessa busca egocêntrica.
- 22:38Como se esse luz bem disse, a nossa verdadeira personalidade
- 22:43só emerge quando a gente joga fora esse egocentrismo e se
- 22:47submete a imitação do mestre. Perdendo a vida para poder
- 22:50encontrá la, né? É o mistério que sustenta a fé,
- 22:53o mundo grita que a salvação está na autonomia.
- 22:56Mas o discipulado diz que você só se encontra quando olha para
- 23:00fora, para o modelo do Cristo crucificado.
- 23:02Nós passamos esse mergulho desconstruindo essas ideias de
- 23:05calcular o custo, de perder o controle e abraçar o sofrimento
- 23:09e sobre a arte de desaparecer. Mas num mundo onde os nossos
- 23:14desejos são sempre mediados por alguém, a pergunta provocativa
- 23:19que fica ecoando para quem está ouvindo é.
- 23:22Quem são os modelos invisíveis, os mestres silenciosos que estão
- 23:27moldando seus desejos hoje? Se nós somos o que desejamos, o
- 23:32que a rotina e os padrões de consumo de quem está nos
- 23:35escutando revelam sobre os verdadeiros líderes que estão
- 23:38sendo imitados na zona de conforto, fica a reflexão.
- 23:42Aprofundar se em um grande livro não é apenas acumular conceitos,
- 23:47é permitir que a verdade molde a nossa prática.
- 23:51Na mesa com o el leituras que transformam a nossa caminhada.
- 23:55Se você curte esse tipo de análise profunda, segue a gente.
- 23:59Deixa a sua avaliação na plataforma e continua com a
- 24:02gente nos próximos episódios. Até a próxima.