Latest / Decantando Ideias / Decantando Ideias #26: Planejamento com responsabilidade, o terroir invisível das decisões
Transcript
- Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um encontro aqui no Decantando Ideias. É o nosso convite para aquela pausa, sabe? Um respiro para a gente pensar em negócios, estratégias, gestão, mas com calma. Exatamente. Um momento para desacelenar mesmo, né? E aprofundar o olhar. A gente se inspira muito nas ideias do Alexandre de Sales, que é fundador e CEO da AAS Consultoria. Uma referência, né? Com certeza. Mais de 30 anos aí como estrategista C-Level e ele sempre provoca a gente a conectar planejamento, finanças, governança e, claro, o ESG, né? O Ambiental, Social e de Governança. Tudo de um jeito mais integrado. E hoje a gente parte de um artigo recente dele para mergulhar num tema que é chave. Planejamento. Só que não um planejamento qualquer. Não mesmo. Vamos falar sobre planejamento com responsabilidade, o terroir invisível das decisões. A ideia é fuçar um pouco o que realmente, sabe, o que molda as decisões estratégicas além da frieza dos números. É uma provocação muito boa. O que será esse terroir invisível? Olha, no mundo do vinho, terroir é aquele conjunto, né? Solo, clima, relevo, tudo que dá identidade para a bebida. A proposta aqui é trazer essa lógica para o mundo corporativo. Começa bem interessante, hein? Quer dizer então que essa metáfora do terroir ajuda a gente a entender o planejamento de um jeito diferente. Sair daquela ideia de que, ah, é só ter uma boa planilha e pronto. O ponto central, eu diria, é reconhecer que toda empresa vive num contexto muito particular. Ela tem seu próprio solo, que seria a cultura, a estrutura, né? E seu clima, o mercado, a economia, as pressões sociais. Ignorar isso na hora de planejar. É como, sei lá, esperar que uma uva dê certo num lugar totalmente errado pra ela. O resultado pode até parecer bonito no papel, mas na prática não tem aderência, não tem verdade. Faz muito sentido. É tipo desenvolver um produto incrível, mas que não conversa com a cultura de quem vai comprar ou ignora uma regra importante daquele lugar. Mas assim, como é que a gente evita que essa leitura do terroir vire só uma desculpa para não fazer nada para a falta de ambição? ótima pergunta não é para limitar a ambição de jeito nenhum é para qualificar essa missão sabe analogia da safra do vinho ajuda aqui tem anos ótimos e tem anos bom mas difíceis um bom produtor não joga a toalha no ano ruim ele adapta ele ajusta as técnicas as expectativas da mesma forma um planejamento responsável ele adapta estratégia para o momento Pode ser um ciclo econômico, uma tecnologia nova, uma demanda social diferente. Entendi. Não é culpar o cenário, mas responder a ele com inteligência. É reconhecer as regras do jogo, né? E jogar o melhor possível com as cartas que se tem, em vez de ficar insistindo numa jogada que só daria certo no mundo idealizado. Isso me faz pensar naquele mapa invisível que o Alexandre comenta. O que seria isso exatamente? Então, além dos fatores grandes, macro, tem uma camada mais sutilo de influências. As regras específicas do setor, a cultura local mesmo, o que a comunidade espera, as pressões ambientais, até a fama da empresa ali na vizinhança, sabe? Nossa, sim! Esse é o tal mapa invisível. Ele que define o terreno onde o negócio pisa. Ele mostra o que é possível, o que é bem visto, o que é mais arriscado ali naquele lugar específico. E um planejamento que ignora esse mapa, mesmo que os números estejam perfeitos, corre um risco danado de tropeçar nessas coisas não escritas. Fico imaginando uma expansão que parece ótima no financeiro, mas aí esbarra numa resistência enorme da comunidade por causa de uma questão ambiental que ninguém mapeou. Precisamente. Ignorar esse mapa é como navegar sem carta náutica em mar desconhecido. Pode até parecer que está indo bem no curto prazo, mas lá na frente aparecem custos escondidos, conflitos. Com certeza. O planejamento responsável usa esse mapa para decidir melhor onde investir, como operar, com quem fazer parceria. Ele entende que crescimento sem contexto é frágil. É como Alexandre diz, músculo sem tendão, não sustenta. E isso leva direto para aquela crítica daquela dependência exagerada da planilha, né? Aquela coisa, ah, os números fecharam, então o plano está bom. Como que o conceito de terroir desafia isso? Desafia porque lembra que a planilha é só a ferramenta, é o copo. Mas o conteúdo, o vinho, ele vem do mundo real, do tal terroir. Confundir a precisão do Excel com a validade do plano é um erro muito comum. A planilha pode até mostrar um lucro projetado lindo, mas se essa projeção ignora, por exemplo, o custo de consertar um estrago ambiental ou o impacto de ter uma má reputação na hora de atrair gente boa, Bom, aí ela está, na prática, falsificando o paladar do futuro. O plano fica perfeito no PowerPoint, né? Mas a realidade vem e apresenta a conta depois. Multa, cliente indo embora, dificuldade para contratar, perder a licença social para operar. Mas assim, na prática, como é que a gente traz esses fatores mais... invisíveis que muitas vezes são qualitativos para dentro de um modelo de planejamento que adora o número, o quantitativo, sem parecer subjetivo demais. Olha, não é simples. Não mesmo. Mas é essencial. Eu diria que passa por ampliar as fontes de informação e ir além do financeiro tradicional. Tipo o quê? Incluir análise de risco socioambiental, pesquisa de reputação, monitorar o que os stakeholders estão dizendo, conversar com a comunidade e também ter mecanismos de governança fortes que garantam que essas informações sejam levadas a sério na hora da decisão estratégica, mesmo que não caibam bonitinho numa célula do Excel. É um exercício de sensibilidade e método, juntos. Falamos bastante do contexto externo, do fora da empresa. Mas e o terror interno? A própria organização tem lá sua geografia particular, né? Sem dúvida alguma. O Alexandre chama isso de topografia humana. Toda empresa tem suas áreas que recebem mais luz, mais atenção e outras que ficam meio à sombra, né? Sim. Tem culturas internas que incentivam a pessoa a falar o que pensa, a inovar... E outras que, às vezes sem querer, acabam podando a coragem, o pensamento diferente. Sacar essa dinâmica interna é, assim, fundamental. E como que essa topografia humana impacta o planejamento? Imagino que ignorar onde estão os focos de resistência à mudança, ou onde a confiança está meio abalada, pode detonar a execução de qualquer plano, por melhor que ele pareça, no papel. Exatamente. Onde é que está o atrito que impede a colaboração? Onde a comunicação não está fluindo bem? Quem são as pessoas que são um tipo raízes, que dão estabilidade? E quem são as trepadeiras, que talvez cresçam rápido, mas sem muita base? Que interessante essa distinção. Um planejamento responsável, ele olha para essa dinâmica afetiva cultural. Ele busca proteger esse tecido vivo da organização, não só ficar otimizando o indicador de curto prazo, sabe? Essa diferença entre o clima geral e o microclima também parece bem importante aqui. Pode elaborar um pouquinho mais? Claro. O clima geral, a gente pode pensar nos grandes fatores externos. Inflação, câmbio, tendências de tecnologia. Agora, o microclima são as nuances do ambiente mais próximo da empresa. Hum... É a percepção que o cliente tem do propósito da marca, a qualidade da relação com aquele fornecedor-chave, como a equipe está se sentindo diante de uma mudança, o impacto real de uma política de bônus na colaboração. São detalhes que, olha, como lá na vinicultura, podem definir a qualidade final do produto, do serviço. Ou seja, cuidar desses microclimas, sei lá, investir naquele canal de nicho que está crescendo, melhorar a comunicação interna, ouvir de verdade um grupo específico de clientes pode ser tão ou mais decisivo do que só reagir às grandes ondas macroeconômicas. Muitas vezes, sim. Grandes estratégias podem ir por água abaixo por descuido nesses detalhes do microclima. A responsabilidade no planejamento inclui essa atenção para as camadas mais sutis do contexto. É elas que determinam a textura da experiência e do resultado lá na ponta. E dá pra gente levar a analogia do vinho ainda mais longe, pensar nos componentes dele e como isso se traduz na gestão. Tipo, acidez, corpo... Podemos tentar, sim. A acidez que dá aquela vivacidade pro vinho poderiam ser as métricas, os indicadores que mantêm a empresa alerta, sabe? mostrando sinais vitais. Ok. O corpo, que dá estrutura, seria a capacidade operacional, a robustez dos processos, dos recursos. E o equilíbrio, talvez o mais difícil e importante, seria a governança, as regras, as práticas que harmonizam tudo isso, que dão transparência, direção, mas sem engessar, sem travar. E o desequilíbrio seria péssimo, né? Muita métrica pode gerar uma acidez que paralisa. Recurso demais sem disciplina, um corpo pesado, lento e falta de governança, bom, aí é a falta de equilíbrio que leva para a inconsistência, para a crise. Achar essa medida certa parece ser o grande desafio. É o grande desafio da gestão, sem dúvida. O planejamento responsável busca exatamente esse ajuste fino. Indicadores, capacidade de fazer acontecer e mecanismos de controle. E sempre adaptado ao terroir específico da empresa e do momento que ela vive. E isso conecta direto com sustentabilidade, imagino eu, mas não como algo à parte, um apêndice, e sim como parte central dessa busca por equilíbrio, por durar no tempo. Perfeitamente. Nessa visão, a sustentabilidade, pensando nas dimensões ambiental, social e de governança, o SG, não é um item isolado lá no plano. Ela é a própria adega onde as consequências das decisões de hoje vão ser guardadas e avaliadas lá na frente. Hum... Cada escolha estratégica deixa sedimentos. Podem ser sedimentos nobres, que agregam valor com o tempo, ou podem ser amargos, comprometendo a reputação, a viabilidade futura. E exemplos não faltam, né? Ignorar o impacto social de uma decisão hoje... pode gerar um custo de imagem gigantesco amanhã. Não olhar para o risco climático na cadeia de valor é como guardar um vinho que vai estragar fácil. Ter um conselho pouco diverso com gente pensando tudo igual é como ter uma adega sem variedade que não consegue lidar com mudança no clima do mercado. A pergunta-chave que o planejamento responsável faz é que legado a gente está construindo com as decisões de agora? Que tipo de garrafa a gente quer abrir daqui a 5, 10 anos? Boa pergunta. Queremos algo que só brilhou no rótulo por um tempo ou algo que ao respirar conte uma história de coerência, de respeito ao contexto em que se atua? Qual o papel da governança para garantir que essa visão de longo prazo realmente aconteça? Porque muitos conselhos ainda parecem muito focados no resultado do trimestre, né? Como virá essa chave? A governança responsável tem que atuar como a inologia, sabe? A arte do inólogo. Não é controle por controlar, nem é deixar tudo solto. É a intervenção na medida certa. Habilidosa. Exato. É saber quais são os poucos controles que são realmente essenciais para evitar desvios graves, mas ao mesmo tempo dar espaço para a estratégia respirar, se adaptar, para que a essência do negócio, a tal expressão do terroir, possa aparecer. Isso exige uma postura diferente dos conselhos, dos comitês, então. Menos foco só na planilha e mais compreensão do campo, do dia a dia. Correto. Uma governança que funciona de verdade precisa entender o negócio na sua realidade. Conselheiros que vão lá, visitam as operações, conversam com as equipes, que sentem o clima interno e externo. Comitês de risco que não olham só número, mas o impacto em gente, na comunidade, no ambiente. É desse jeito que as políticas, os controles, eles ganham vida. Viram parte da cultura, da pele da organização. Entendido. Então, tentando amarrar nossa conversa, a grande mensagem é que um planejamento que se diz responsável de verdade, ele vai muito além da análise fria dos números. Ele exige essa leitura atenta, constante, do contexto, desse terroir invisível, tanto dentro quanto fora da empresa. Exato, é a combinação do que o Alexandre chama de geografia e gesto. Primeiro você reconhece. As características, os limites do terreiro onde você atua isso é a geografia. E a partir daí você busca o melhor resultado possível, mas com sensibilidade, com método. Isso é o gesto. Sem tentar forçar a realidade para caber num modelo que você idealizou. E a verdadeira medida de sucesso, talvez, não seja bater meta, que não tem nada a ver com a realidade, mas sim conseguir tirar o máximo potencial da natureza específica daquele negócio, daquele terroir e de um jeito sustentável, cuidando para não acabar com o próprio solo que te alimenta. Acho que essa é a essência da coisa. E essa necessidade de ler, de cuidar do terroir da empresa, das condições internas e externas, isso naturalmente leva a gente a pensar na camada mais funda desse solo, a cultura organizacional. Opa, uma ótima ponte. Então, já fica aqui o convite na nossa próxima conversa. Vamos decantar justamente isso. Como é que a cultura funciona como esse ambiente que pode ser fértil ou pode ser árido, onde as estratégias podem ou não criar raízes e dar frutos. Combinadíssimo! E para quem nos acompanha e quer continuar nessa reflexão, fica sempre o convite para seguir a coluna Decantando Ideias do Alexandre de Sales lá no Substack. O endereço é fácil, alexandredesales.substack.com. Assinar é o melhor jeito de não perder nenhuma dessas análises. E para a gente fechar hoje, ficam duas perguntas para pensar, inspiradas lá no artigo do Alexandre. O planejamento atual da sua organização, ele está tentando corrigir o terroir, forçar ele a ser algo que não é, ou está buscando de verdade revelar no melhor que ele pode oferecer, respeitando as características dele. E olhando para o futuro, que tipo de garrafa você prefere abrir daqui a uns anos? Uma que só tem brilho no rótulo, talvez com números ótimos, mas pouca substância real? Ou uma que, quando você abre e deixa respirar, conta uma história consistente de escolhas responsáveis, bem ancoradas na realidade do seu terroir? Fica aí a reflexão. A gente agradece demais a sua companhia em mais este Decantando Ideias. Esperamos te encontrar no nosso próximo encontro. Assine a newsletter e o podcast para não perder. Até a próxima!